Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

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terça-feira, 8 de novembro de 2011

"A Filosofia atrás de uma muralha?"


Márcia Junges  entrevista o filósofo  Massimo Canevacci


filosofia
A filosofia, para Massimo Canevacci, precisa sair das muralhas das universidades
Assim como a coruja de minerva, que só levanta voo ao entardecer, “o filosofar contemporâneo, se chega, chega atrasado demais”. A crítica é do filósofo e antropólogo italiano Massimo Canevacci, em entrevista à página eletrônica do Instituto Humanistas Unisinos (IHU On-Line). “A filosofia me parece ausente. A lógica dela é, ainda, só analógica e não consegue aceitar o desafio de penetrar criticamente na cultura digital”, completa. “Não conheço um filósofo que acompanhou (não digo antecipou) os movimentos das redes sociais”.
    Em sua opinião, a filosofia permanece muda frente a cultura digital, que é “mais do que somente técnica, é uma fratura deslocante em relação à modernidade”. Canevacci assevera a necessidade da universidade “sair de si própria, de seus muros”, além de abandonar a separação rígida entre os saberes. E desafia: “Steve Jobs cria dispositivos horizontais e inovadores: Agamben reproduz a verticalidade separada da filosofia/muralha. Filosofia murada”.
Massimo Canevacci é doutor em Letras e Filosofia pela Universidade Degli Studi di Roma La Sapienza – URS, na Itália, onde nasceu. Leciona antropologia cultural, arte e culturas digitais nessa mesma instituição e é professor visitante na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Publicou vários trabalhos sobre a realidade brasileira. É autor de livros como Antropologia da comunicação visual (Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2001), Antropologia do cinema (São Paulo: Editora Brasiliense. 1990), Fake in China (Maceió: Edufal, 2011) e Fetichismos visuais (São Paulo: Atelier Editorial, 2008).
Confira, aqui, a entrevista que o Correio do Brasil reproduziu, na íntegra.
– Com a popularização das redes sociais surgem novas maneiras de manifestação e participação política. Como essas redes impactam a filosofia e o filosofar contemporâneos?
– A filosofia me parece ausente. A lógica dela é, ainda, só analógica e não consegue aceitar o desafio de penetrar criticamente na cultura digital. A política nasceu com a filosofia em relação à cidade-estado. Agora a política vai além da sua filologia clássica: é um cruzamento de comunicação expandida, horizontal, baseada sobre a autorrepresentaçao de cada sujeito, desafia o dualismo filosófico, é transcultural e além do estado-nação. O filosofar contemporâneo precisa se colocar onde os conflitos nascem com práticas diferentes daquelas modernas.
A filosofia atual não só aceitou de novo as “duas culturas”, mas gosta de se separar com um orgulho provinciano/periférico de tudo o que acontece no âmbito das ciências assim ditas exatas. Informática e física vão além da filosofia atual. Não é só a reprodução daquele que se chamava “duas culturas”: é pior. É imaginar que os filósofos defendem o passado moderno, industrialista, classista, em que eles acharam de ter um papel moral. O filosofar contemporâneo é distante, e diria o inimigo de tudo o que está modificando culturas, tecnologia, subjetividades, metrópoles, artes, ubiquidade, identidades, etc.
Trilha originária
O filosofar contemporâneo, se chega, chega atrasado demais. Gregory Bateson e Norbert Wiener trabalharam juntos durante a elaboração da cibernética porque o primeiro descobriu na sua pesquisa etnográfica na cultura Iatmul o conceito de schismogenesi, que se tornou o feedback. Uma dialógica flutuante entre antropologia e matemática/física formou a cibernética, isto é, aquilo que agora é a cultura digital.
E os filósofos? Ainda imaginam o vilarejo puro e o caminho pela trilha originária? Você conhece um filósofo que lembra de McLuhan? Será porque Heidegger é ainda hegemônico em muitas universidades através de discípulos que controlam o poder acadêmico? Se a política está ubiquamente dentro e fora da cidade (da polis), parece que a filosofia não consegue participar. A filosofia parece não ser ubíqua, no sentido do cruzamento espaço/tempo que a experiência digital favorece. Não conheço um filósofo que acompanhou (não digo antecipou) os movimentos das redes sociais.
– Pode-se dizer que a internet é uma nova ágora? Por quê?
– Na ágora, a única subjetividade presente era do homem cidadão: mulheres, escravos, bárbaros eram excluídos. Eu tenho dúvida e resistência sobre a maneira de fixar o pensamento conceitual (também como metáfora) sobre um passado grego eterno como supostamente a filosofia imagina a si mesma.
A internet não é somente um espaço digital material/imaterial (e-space): é também uma maneira de poder enfrentar, interpretar, furar e transformar a monológica do domínio dicotômico que a ágora historicamente presenteava. É uma escritura não somente alfabética, mas uma composição icônica, sônica, visual. A ágora é identitária, é um lugar certo no centro da cidade, onde a arte política é baseada sobre a retórica. A internet é um direito da humanidade, como a saúde, a casa, a cidadania e isso significa que cada pessoa no mundo deveria ter acesso a ela.
A rede é deslocada, flutuante, desenvolve uma multidão de identidades por sujeito, favorece um multivíduo ubíquo, como eu gosto de dizer; talvez incorpora o além da era pós-colonial. Não se fala uma única língua, apesar de o inglês ser fundamental e, ao mesmo tempo, é um webpidgin: a retórica não funciona; a comunicação (mais que o discurso) é um fluxo de expressividades diferentes e coexistentes: multilógicas, transculturas, plurissensoriais.
A internet não está só dentro da tradição eurocêntrica. Ela está, simultaneamente, dentro e fora. Gosto de sublinhar mais as descontinuidades da cultura digital do que uma suposta continuidade. A cultura digital, mais do que somente técnica, é uma fratura deslocante em relação à modernidade: e assim a filosofia fica muda.
– Nesse sentido, como podemos compreender o “saber analógico” que as universidades ainda detêm, e como esse tipo de saber é apropriado e retrabalhado pelo pensamento filosófico?
– A formação das universidades, com suas faculdades, departamentos e curriculum vitae de muitos professores não é adequada ao desafio atual. Um aluno deveria criar um CV específico, participando nas aulas em qualquer universidade-mundo. Também a universidade é ubíqua. A racionalidade não é singular-universal e ainda menos fixa, mas modifica-se quando acontecem eventos históricos determinantes. A revolução digital imprime uma aceleração e diferenciação no saber como foi (mutatis mutandis) na revolução industrial.
Naquela época nasceu uma nova dialética (Hegel, Marx etc.), mas agora a dialética é morta, e a síntese é instrumento arqueológico de um domínio em crise e que ainda tenta, às vezes, utilizá-la. Por isso a universidade precisa de sair de si própria, de seus muros. A universidade é uma muralha que agora tenta se defender de tudo aquilo que avança. A separação rígida do saber e da disciplina precisa de ser colocada em crise.
A divisão comunicacional do trabalho é mais significativa daquela divisão social que Marx acreditava fundamental dissolver: quem comunica e quem é comunicado é um conflito político/comunicacional. A autorrepresentação é vontade política de não delegar a nenhum (em primeiro lugar aos antropólogos) a própria história e as próprias narrações. É o problema de uma inovadora política comunicacional na qual ninguém quer delegar nada a ninguém. Dever-se-iam favorecer alunos e pesquisadores em direção de desenvolver um tipo de pesquisa descentrada, individualizada, transdisciplinar, além do saber por departamentos. Cada departamento está se tornando uma gate community.
Steve Jobs, por exemplo, pode ser considerado um filósofo contemporâneo, como a arquiteta Zaha Hadid, filósofa ainda mais criativa de novas perspectivas pós-euclideanas nas experiências urbanas diagonais. O mesmo se pode dizer de muitos músicos, como Björk, que elaborando os sons por Ipad (Biophilia) – cria uma filosofa da música que horizontaliza o escutar ativo/compositivo de cada um.
– Como se dá o diálogo entre a antropologia e a filosofia? Quais são os principais pontos de contato entre ambas as ciências?
– É um diálogo infeliz. A filosofia entende ainda a antropologia como uma elaboração das invariantes pelo homo sapiens: conceitos fundantes, arquetípicos, imutáveis. Ainda não coloca o adjetivo cultural atrás dela. E ciência do imodificável, do eterno sem retorno. Não conheço um filósofo que entendeu a revolução recente da antropologia cultural, isto é nos últimos 20 ou 30 anos: talvez só Rorthy escreveu que a filosofia deveria aprender pela antropologia cultural, diluir-se nela. Os filósofos atuais não entendem a revolução moderada que aconteceu a partir da Geertz e, depois, mais radical, mas incompleta, pelo grupo de Writing Culture. Antropologia é ainda só Lévi-Strauss, justamente pela fraternidade entre estruturalismo e ciência das invariantes.
Os filósofos xavantes ou bororo que eu conheço não são percebidos ou ouvidos pelos filósofos brasileiros. Por outro lado, os antropólogos culturais (os etnógrafos) precisam fazer pesquisa empírica elaborando processualmente reflexões filosóficas que transitam, misturam, sincretizam tratos locais com tensões mais complexas. Os antropólogos poderiam elaborar pensamentos criativos, descentrados, horizontais/verticais, material/imateriais pós-dualistas. Os pontos de contatos deveriam abordar as subjetividades que emergem a partir da transformação profunda entre aldeia e metrópole. Esse trânsito complexo/sincrético, além de uma definição disciplinar ou disciplinada, precisa renovar métodos, conceitos, paradigmas, composições.
Na cultura bororo, a cosmogonia sacral ou uma pragmática ritual performática como desafio a uma morte percebida como domínio pelas religiões monoteístas é filosofia num sentido estranho. Um canto/choro bororo na frente de uma caveira que se transforma em antenado sagrado, que chama ao som das maracás e de uma voz rítmica todos os mortos de todos os tempos pra tentar estabelecer uma interconexão profunda entre morte/vida: esse foi o evento da minha vida que tento de contar, descrever, escrever e também fotografar e que deixa os filósofos indiferentes, quase enfastiados por uma relíquia do passado.
O filósofo parece que não gosta mais de perguntar. E o antropólogo parece não ser penetrado pela webcultura.
O ponto é transitivo: a filosofia que aceita se transformar poderia oferecer uma outra maneira para desenvolver critérios metodológicos e narrativos experimentais, conceitos sensoriais e composições multilinguísticas. Os pontos transitivos significam que o antropólogo e filósofo, seja nascido nas metrópoles ou nas aldeias, precisam dialogar para enfrentar o controle ainda colonial dos missionários que, únicos e por uma lei inexistente, podem continuar a morar nas aldeias.
– Qual é a atualidade a filosofia da Escola de Frankfurt e de obras como o Discurso filosófico da modernidade, de Habermas?
– Horkheimer foi professor de filosofia social. Isso é de um tipo de pensamento crítico, teoricamente baseado sobre a grande tradição da filosofia alemã, e que, ao mesmo tempo, deseja fazer pesquisa empírica. O projeto Autorität und Familie foi não somente transdisciplinar e além da assim dita dialética “estrutura/superestrutura: foi baseado sobre uma atenta hipótese teórica e uma profunda análise dos materiais empíricos elaborados com diversas metodologias e diversos pesquisadores numa perspectiva crítica para enfrentar e contrastar a força de uma autoridade autoritária que se expandia na Alemanha e em culturas ocidentais inteiras. Depois, o mesmo Adorno elaborou a escala “F” sobre a “personalidade autoritária” difundida também nos Estados Unidos. A teoria crítica foi um caso único, talvez irrepetível: misturar a máxima abstração teórica e o máximo de detalhes empíricos. Máxima teoria e máxima empiria.
Procura do incompreensível
Habermas não é, nesse sentido, um continuador da Escola. Ele exprime um refluxo no âmbito da filosofia baseada sobre a filosofia, sobre si mesma. Isso quer dizer que filosofia sem pesquisa empírica é regressão contínua. Frankfurt tem alguns limites, claro, sobre a técnica, a música jazz (pena que Adorno nunca ouviu John Coltrane) e um pensamento que colocou em crise a dialética sem conseguir experimentar o além do negativo: mas somente para citar o ultimo livro de Said, Late style, onde a influência de Adorno sobre a música contemporânea e, em geral, o desafio que um artista ou teórico enfrenta nos últimos períodos da vida dele, é não só genial, mas também um verdadeiro assunto que deveria misturar antropólogos e filósofos.
A atualidade da Escola de Frankfurt não fica no pensamento de Habermas; vive como irredutível estilos últimos. Os estilos últimos procuram o incomprensível, que por Adorno não é o desconhecido: é um pensamento que não fica circundado e bloqueado pela lógica da identidade.
– Quais considera os filósofos e obras fundamentais na filosofia?
– Esta é uma pergunta difícil e, ao mesmo tempo, deliciosa. Sabemos que aparentemente a macarronada é uma, mas na verdade são infinitas as maneiras de cozinhar os spaghetti. E os filósofos criam um tipo de “pasta” utilizando elementos conhecidos e inventando sabores inovadores, nunca experimentados antes. A arte de cozinhar, olhar, comer, mastigar, digerir, descansar, defecar e imaginar. Assim apresento fragmentos saborosos de filósofos misturados com a finalidade de um late style antropofágico.
A minha tentativa em minha tese de doutorado sobre a Escola de Frankfurt foi sempre de tentar misturar, através de montagem de fragmentos, as correntes mais humanistas ocidentais e como “filósofos sem filosofia” (no sentido de uma disciplina acadêmica ou institucionalizada) que diferentes culturas elaboraram. Assim, gosto menos do Sócrates platônico e mais da crítica que Nietzsche elaborou contra essa construção.
Adorei os pré-socráticos, Heráclito, depois Demócrito e Zenon, Pitágoras, Eurípedes e Safo… O mesmo Adriano foi um imperador/filósofo excelente junto com Ovídio. A filosofia de Leonardo e do Renascimento, em geral, é ainda parte de mim. Os artífices… Spinoza e os iluministas (Diderot, Rousseau). Hegel da fenomenologia e da estética, claramente Marx, Freud, Rosa de Luxemburgo e Gramsci. Adorno e Benjamin que continuam a dialogar sem parar. Nietzsche de A genealogia da moral.
Tudo isso se mistura seja com as obras de artistas ou poetas (Rilke, Musil, Baudelaire, Leopardi), seja (e mais complicado ainda) com pessoas assim ditas “outras”, nascida em culturas diferentes da ocidental, não só no Oriente, mas na África, como Ogotemeli (em diálogo com Griaule), nos bororo atuais, Kleber Meritororeu, que tenta afirmar sua cosmogonia cultural além da influência salesiana, Divino Tserewahu, cineasta xavante que elabora a sua própria visão do mundo; Daniel Mundurucu, que escreve livros reivindicando a autonomia da aldeia sem missão.
Os assim ditos indígenas frequentemente (e infelizmente) sem nome que influenciaram Bateson, Lévi-Strauss, Malinowski. E queria ainda mais misturar com Armani, filósofo do corpo e da estética, os arquitetos Herzog & De Meuron, Renzo Piano, Niemeyer que modificam o sentido comum e criam metrópoles. Os estilos últimos de Beethoven: a sonata op. 111 é filosofia, como o plano-sequência de Antonioni, doente, que acaricia Mosé di Michelagelo ou o canto/choro de José Carlos Kuguri na aldeia de Garças, na frente do crânio transfigurado em arara sagrada da sua esposa.
– Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?
– Atualmente virou hegemônico o pensamento de Deleuze/Guattari e Foucault/Agamben. Esse último inventa um mito (homo sacer) para explicar o estado de exceção do 11 de setembro de 2001. Tudo isso me parece muito estranho, uma regressão pré-iluminista bem perigosa e obscurantista. Ele favorece uma visão aparentemente crítica, mas na verdade ele é um tipo de pesquisador sobre o direito público que Marx teria já criticado na época dele. Heidegger e o seu irracionalismo racional está presente em Agamben junto com a crítica mais facciosa contra Adorno. Claro, a análise adorniana sobre a relação mito/ratio coloca o homo sacer e seu autor onde merecem.
Agamben continua a afirmar a tradição de uma razão mítica (ou de um mito razoável) que não explica nada do estado atual, justifica ou é indiferente ao terrorismo teológico que quer um estado teocrático, sorri distraído na frente da revolução baseada sobre a comunicação digital, como já falamos. Assim, a microfísica/dispositivo de Foucault é o resultado de uma genealogia (aquela de Nietzsche) que virou historicismo.
Agamben e Foucault representam a transformação da crítica genealógica em mitologias historicistas. Steve Jobs cria dispositivos horizontais e inovadores: Agamben reproduz a verticalidade separada da filosofia/muralha. Filosofia murada. O mesmo sobre algumas teorias de Deleuze/Guattari, especificamente Mil platôs, que eu enfrentei na versão italiana de Sincretismos nunca traduzida no Brasil.
Por isso a filosofia atual está fora da filosofia, assim como muita antropologia. Precisamos modificar o que se entende por filosofia: ela não é a história de uma disciplina, uma história ocidental, uma história historicista. Assim como nos pré-socráticos, no Renascimento, no Iluminismo, a filosofia pensa e modifica o contemporâneo (isto é, não só o que é atual: Michelangelo é contemporâneo para mim como Ovídio).
A filosofia precisa se interrogar novamente sobre o estupor. O estupor é um método filosófico não dos “primitivos”, e por isso “superficial”. É um método para se abrir ao estranho, ao diferente que está para acontecer mas ainda não se apresentou, e por isso o pesquisador deseja o desconhecido. Nell’attimo prima. O estupor é a porosidade do corpo/mente. Conhecer a história da filosofia e ao mesmo tempo os pensamentos de outras culturas (“nativas”) é fundamental para produzir pensamentos hic et nunc. O historicismo dominante na filosofia é a morte da filosofia.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Salve, meu anjo da guarda!


 Martinho da Vila 


    No horóscopo chinês, sou do signo de Tigre, e no ocidental, de Aquário. Na religião afro, todos têm um orixá de cabeça, um de costa e um de frente. Para saber qual é o seu santo protetor, caríssimo leitor, terás que submeter-se a um jogo de búzios. Convém consultar três babalorixás ou ialorixás para confirmar. No judaísmo e no catolicismo, todos têm um anjo da guarda e um arcanjo. Fazendo o exercício do livro dos anjos é possível saber qual nos protege.

     Dona Ivone Lara me disse que tenho de me lembrar sempre do meu anjo da guarda para ele não esquecer de mim. Disse também que quem tem um protetor forte sai ileso das situações mais embaraçosas e não entra em fria. Meu santo-forte é poderoso e já me livrou de muitas situações difíceis — como podem observar em três ocasiões que vou citar, que poderiam me deixar mal, mas eu fiquei numa boa.
     Na primeira, quando era sargento do Exército, ia viajar para o Oriente Médio e, na última hora, fui cortado do Batalhão Suez. Fiquei chateado, mas depois feliz porque, com o corte, escapei de sofrer com a Guerra dos Seis Dias. Na segunda, na hora do embarque, fui transferido do voo do avião da Varig que caiu em Orly e todos os passageiros morreram. Na terceira, escapei de ser vítima do humor sarcástico de algum cronista sensacionalista, vejam só: pretendia fazer uma escolinha de futebol lá na terra do Arouca, que joga pelo Santos do Neymar, e ia inscrever o Instituto Cultural Martinho da Vila no programa Segundo Tempo da Secretaria Nacional de Esporte Educacional, com o objetivo de formar outros Aroucas em Duas Barras. Como o ICMV vai passar por uma reforma e está com as atividades suspensas, pensando bem, achei melhor esperar a conclusão das obras da sede e, depois de retomada as atividades, batalhar pela escolinha.
     Creio que foi um anjo que me guiou para tal decisão porque, mesmo se eu tivesse conseguido o patrocínio, o campo não estaria pronto e um comentarista político maldoso poderia soltar o verbo pra cima de mim, possivelmente assim: “Sambista filiado ao PCdoB, amigo do Orlando Silva, que já fez festa de aniversário para o ministro em sua residência na Barra e que já o hospedou em sua fazenda, recebeu dinheiro do Programa Segundo Tempo do Ministério dos Esportes e não fez nada”.
     É… meu santo é mesmo forte. Meu anjo da guarda está sempre de plantão, e meu arcanjo não dorme. O comentário seria uma calúnia, pecado que deveria ser classificado como capital, mas eu nem iria me amofinar e permaneceria com o meu sorriso aberto porque está escrito: “Não dê ouvidos às intrigas e calúnias; só a árvore que produz frutos é que se vê apedrejada, para deixá-los cair. À árvore estéril ninguém dá importância e a calúnia pode ser uma honra para quem a recebe”. Continuo sorrindo porque o correto Aldo Rebelo assumiu a pasta, mas fiquei triste com a queda do ministro Orlando Silva. 

Nossa fonte: Vermelho

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

“Passamos da fase dos slogans simpáticos dos fóruns sociais”

Carta Maior entrevista o filósofo francês Daniel Bensaid


De passagem pelo Brasil, filósofo francês concede entrevista exclusiva à Carta Maior, na qual analisa a crise financeira, comenta as situações dos EUA e da Europa e aponta os desafios para a esquerda construir uma alternativa ao modelo atual.

     RIO DE JANEIRO - No Brasil para uma série de palestras que acompanham o lançamento de um de seus livros - Os Irredutíveis, teoremas de resistência para o tempo presente (Ed. Boitempo) - o cientista político e filósofo francês Daniel Bensaïd, em entrevista exclusiva à Carta Maior, analisa a crise financeira global e seus possíveis desdobramentos. Durante a conversa, que aconteceu antes da palestra realizada segunda-feira (3) na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Bensaïd apontou as contradições dos líderes europeus de direita que falam em um “novo acordo de Bretton Woods” e afirmou - ainda sem saber o resultado das eleições - que a liderança dos Estados Unidos sofre um declínio irreversível e que a hegemonia norte-americana só se sustenta atualmente graças ao poderio militar e político do país.
     Renomado teórico trotskista, Bensaïd fez também duras críticas à social-democracia européia e apontou a falta de um projeto de esquerda na Europa. O francês afirma não conhecer muito bem a situação da América Latina, mas acredita que os governos de esquerda da região podem constituir uma alternativa local à crise. Ele afirma também que chegou a hora de dizer qual “outro mundo possível” realmente queremos. Leia abaixo a entrevista de Daniel Bensaïd, que dará palestras hoje (5) em Porto Alegre (Memorial Rio Grande do Sul, 19h), amanhã (6) em São Paulo (PUC, 19h) e no sábado (8) em Ouro Preto (Casa da Ópera, 9h30):
     Carta Maior – Quais são suas impressões, em linhas gerais, sobre a atual crise financeira mundial? Estamos diante de uma crise terminal do sistema capitalista?
     Daniel Bensaïd – O capitalismo não vai acabar sozinho. Esta é uma crise histórica, e não somente uma crise ordinária, como o capitalismo conheceu a cada dez ou quinze anos. Essa crise era também previsível, porque é impossível exigir_ como fazem os acionistas _ um retorno sobre seus investimentos da ordem de quinze por cento ao ano frente a um crescimento que em média, no caso dos países desenvolvidos, é de dois ou três por cento ao ano. Alguns dizem que a crise financeira pode chegar à economia real, o que é uma fórmula um pouco absurda porque as finanças fazem parte da economia, elas não são irreais, efetivamente. Por trás dessa crise financeira já havia uma crise de produção. Ao menos para os países europeus - eu não conheço as estatísticas sobre o Brasil - a divisão do valor agregado entre salário e trabalho se deslocou dez por cento em favor do capital, ou seja, do ganho do capital em detrimento do trabalho, o que provoca uma crise incontrolável. Para continuar a vender - porque se existe o produto é preciso vendê-lo - houve um aumento totalmente louco do crédito, e não somente do crédito hipotecário imobiliário nos Estados Unidos. Também aumentou o crédito ao consumo, o crédito às empresas, etc. A crise, desse ponto de vista, era previsível. 
     Por outro lado, ela não é simplesmente uma fatalidade, é o resultado de decisões políticas que se acumularam por vinte anos, porque a desregulamentação das bolsas, a livre circulação de capitais, o desenvolvimento dos ganhos do capital não fiscalizados, tudo isso foi precedido por uma série de medidas legislativas tomadas pelos diferentes parlamentos na Inglaterra, na França, na Alemanha, etc. No que concerne à Europa, isso foi sistematizado pelos diferentes tratados da União Européia, de Maastrich em 1992 até o Tratado de Lisboa no ano passado, que codificaram o livre mercado europeu. Portanto, essa era uma crise previsível e ela é muito grave porque é globalizada, esse é seu caráter inédito. Mas, por trás de tudo isso, eu creio que o capitalismo poderá se restabelecer, ele já resistiu a outras crises. O problema é saber a qual preço e quem vai pagar o preço, pois essa é, afinal de contas, uma crise mais profunda. No jargão marxista, podemos dizer que a lei do valor atualmente funciona muito mal. Hoje, não podemos medir pelo tempo do relógio um trabalho social muito complexo, que cada vez mais mobiliza conhecimento acumulado, como não podemos tampouco medir a crise ecológica pela flutuação das bolsas de valores.
     CM – A crise ambiental, com o problema do aquecimento global, torna a crise financeira ainda mais grave. Estamos vivendo uma crise da humanidade?
     DB – Sim, e a crise ambiental não é um problema qualquer. Quando pensamos nas conseqüências, que virão durante séculos ou talvez milhares de anos, da estocagem de lixo nuclear, da destruição das florestas, da poluição dos oceanos e, agora, das mudanças climáticas, vemos que todos esses problemas não poderão ser controlados simplesmente pelos mecanismos do mercado que, por definição, são mecanismos que arbitram no curto prazo ou de maneira instantânea. Está no centro do que chamamos de organização social a prática de medir toda riqueza, toda relação social, e mesmo a relação da sociedade humana com a natureza, pelo único critério do tempo de trabalho abstrato.
     CM – Os países da Europa tomaram a dianteira contra a crise com medidas protecionistas e forte presença do Estado. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, afirmou que os países devem caminhar para um novo Bretton Woods. Como o senhor analisa a posição européia?
     DB – Existe uma contradição em uma crise como esta. Como a globalização esta aí e é, em parte, irreversível, todo mundo hoje, e mesmo os antigos liberais fanáticos de outrora, pensa que é preciso estabelecer uma regulação e novas regras do jogo. Todo mundo fala de uma regulação em escala mundial, um novo Bretton Woods, ou ao menos em escala continental como, se pegarmos o exemplo da Europa, a criação do Fundo Soberano Europeu. Estas são as intenções. Ao mesmo tempo, dentro de uma crise grave como esta, cada um tenta jogar de forma solitária, e nós observamos desde o início da crise interesses diferentes como, por exemplo, na Alemanha e na Irlanda, que quiseram proteger seus próprios capitais e seus próprios bancos. 
     É cedo demais para dizer quem vai levar a melhor ou se haverá uma espécie de solidariedade entre capitalistas suficientemente forte para criar mecanismos de controle da crise e de solução para os nossos problemas. Ou ainda, ao contrário, se vamos assistir a um agravamento muito forte da concorrência intercapitalista, interimperialista ou entre os grandes blocos. Uma crise como a atual cria também tendências centrífugas muito fortes.
     CM – O senhor acredita que esta crise consolida o declínio dos Estados Unidos como potência hegemônica mundial?
     DB – Do ponto de vista econômico, o declínio do império americano começou há muito tempo. Os EUA é o país mais endividado do mundo, que continua a desempenhar um papel hegemônico, em grande parte, por causa do seu poderio militar, que representa 60% dos armamentos e das despesas com armamentos em todo o mundo. E, atualmente, existe um efeito perverso, pois a dívida americana havia sido neutralizada pelo deslocamento de capitais dos países produtores de petróleo e da China aos EUA sob forma de Obrigações do Tesouro, ou seja, em dólares. Se esse capitais se retiram, eles fazem o dólar cair e os EUA perdem de todo jeito. Portanto, do ponto de vista econômico, existe uma espécie de mecanismo que deixa os EUA na condição de refém. Enquanto os EUA mantiver a hegemonia militar, o cenário atual poderá durar, mas a gente vê muito bem hoje, e via mesmo antes da crise, que o euro - ou mesmo o yen, mas, sobretudo o euro - pode se tornar a moeda de reserva no lugar do dólar, que ainda guarda seu papel de moeda de troca internacional muito mais por causa da potência política e militar estadunidense do que por causa da solidez da economia dos Estados Unidos. Por isso, eu creio que hoje o declínio dos EUA é irreversível.
      CM – Qual sua avaliação sobre o posicionamento da esquerda frente à crise financeira? O senhor acredita que os governos de esquerda da América Latina podem ter papel importante na busca de soluções para a crise?
     DB – Eu não conheço muito bem o contexto da América Latina. Eu não sei qual vai ser, por exemplo, a capacidade da Venezuela se o preço do petróleo continuar a cair, portanto é mesmo possível que os efeitos da crise sejam mais duros para paises como a Bolívia ou a Venezuela do que para o Brasil, que tem uma exportação mais diversificada. Eu penso que a crise se fará sentir também no Brasil, mas talvez menos forte. Agora, se a reação à crise vai começar a partir de um pólo bolivariano ou a partir da tentativa do Banco do Sul para se tornar autônomo em relação ao dólar, se vai ser criada uma solidariedade energética e alimentar entre os países da América Latina, se isso tudo vai avançar ou não, a questão está aqui e a resposta está aqui. Eu não tenho resposta.
     CM – E na Europa, existe um projeto da esquerda?
     DB – A social-democracia, que é a maior força de esquerda na Europa, vem destruindo metodicamente nos últimos vinte anos os mecanismos do Estado-providência e do Estado de Bem Estar Social.Atualmente, diante da brutalidade da crise, vemos dirigentes do Partido Socialista na França falarem novamente de nacionalização. O que fez Sarkozy não foi em hipótese alguma a nacionalização dos bancos. O que ele fez foi dar aos bancos a segurança do Estado sem nem mesmo solicitar o direito a voto nos conselhos de administração, foi meramente um socorro aos bancos. 
     Certas vozes de esquerda pedem o relançamento de uma política de aumento dos salários, mas isso exigiria uma política séria em escala européia, porque existe o desafio de fazer em nível europeu o contrário do que fizeram os partidos socialistas nos governos nacionais nos últimos vinte anos, ou seja, reconstruir os serviços públicos europeus, harmonizar a fiscalização européia, desenvolver uma fiscalização fortemente progressiva e retomar o poder de compra. Isso significa destruir todos os tratados sobre os quais foi construída a União Européia desde 1992. Eu não acredito que exista nem a vontade política de fazer isso nem a força social para fazer. Por uma razão, pois, através do processo que atravessou, a social-democracia européia perdeu muito do seu apoio popular. Por outro lado, ela se integrou muito fortemente ao topo, às empresas privadas e às finanças globalizadas. O símbolo disso é a presença de dois social-democratas franceses como homens de confiança do capital à frente da OMC (Dominique Strauss-Khan) e do FMI (Pascal Lamy). Isso resume um pouco a situação.
     CM – O economista François Chesnais afirma que esta crise é a primeira etapa de um processo muito longo e que não sabemos como ele vai acabar. O senhor sempre foi um crítico contumaz tanto do capitalismo e da globalização financeira quanto dos regimes socialistas constituídos sob a ótica stalinista. O senhor acredita que a humanidade está preparada para construir uma terceira via?
      DB – A terceira via não passa nem pela gestão estatal e burocrática que faliu nos países do Leste da Europa, notadamente na União Soviética, nem pelo liberalismo. Muita gente diz hoje em dia que a crise não foi causada pelo capitalismo em si, mas pelos excessos e abusos cometidos. Não, a crise foi causada fundamentalmente pela própria lógica do capitalismo. Eu acredito que passamos da fase dos slogans simpáticos dos fóruns sociais. Se um outro mundo é possível, chegou a hora de dizer qual. Nós saímos de um século que terminou, sob o meu ponto de vista, com uma derrota histórica das esperanças de emancipação. Nós entramos no século XXI com muito menos ilusão do que nossos ancestrais entraram no século XX, sobretudo os socialistas, que acreditavam no fim das guerras e da exploração.
     O problema atual é que estamos no início de uma longa reconstrução, mas, ao mesmo tempo, numa corrida contra o relógio, mais do que nunca, pois vivemos uma crise de destruição não somente social, mas também ecológica. Para mim, há somente uma alternativa: opor à concorrência e à lógica do todos contra todos uma lógica do bem comum, dos serviços públicos e da solidariedade. Podemos chamar isso de socialismo, comunismo ou democracia autogestionária. É preciso tentar. Se nós não tentarmos mudar o mundo, ele vai nos esmagar.
   

O complexo do beija-mão



     O colunista da Folha Sergio Malbergier sugeriu que a presidenta Dilma estaria substituindo o “complexo de vira-lata” pelo de “poodle”, ao fazer exigências à União Européia na cúpula do G-20. Na verdade, a crítica do jornalista é um perfeito exemplar de outro complexo tipicamente brasileiro, o "do beija-mão", ideologicamente de direita e que assola a vida nacional desde os tempos coloniais.

     Berlim - Muito se tem falado recentemente sobre o “complexo de vira-lata”, metáfora do sentimento brasileiro criada por Nelson Rodrigues, para se referir à política externa brasileira. Hoje, de maneira deselegante, o colunista da Folha Sergio Malbergier sugeriu que a presidenta Dilma Rousseff poderia estar substituindo este complexo pelo de “poodle”, ao fazer exigências à União Européia perante a cúpula do G-20.
     A esquerda acusa a direita de “complexo de vira-lata” por esta querer que o Brasil se diminua perante as potências ocidentais. A direita acusa a esquerda do mesmo, e o governo brasileiro, por achar que ambos defendem um “terceiro-mundismo mofado”. Para mim, a razão nestas acusações fica com a esquerda, não com a direita, pelo fato de que, entre ambos os argumentos, coloca-se um outro complexo, que assola a direita em matéria de política externa, que é o "complexo do beija-mão".
     O complexo do beija-mão é algo que assola a vida brasileira desde os tempos coloniais, e que consiste em pensar que o que se consegue na vida não se deve aos próprios méritos, mas sim ao favor dos poderosos. É um capítulo interessante da ideologia do favor, que tanto governou e nos governa ainda.
     Para esse complexo, é um absurdo o Brasil se mostrar ostensivamente independente das potências ocidentais, a ponto de criticar algumas delas em público, como no caso do G-20, em que a presidenta Dilma vai cobrar medidas mais duradouras e anti-recessivas da bancada européia. É também absurdo o Brasil não se alinhar costumeiramente aos Estados Unidos. Por quê? Porque assim perderemos o beneplácito dos poderosos, e não teremos as vantagens comerciais que poderíamos ter. Como se o mundo comercial de hoje fosse regido por esses favores do beija cá dá lá.
     Mas não só isso. Devemos adular também os pequenos emergentes. Para esse complexo, o Brasil errou redondamente ao não se alinhar ao neogoverno da Líbia, porque agora, nas prebendas que serão distribuídas como botim depois do bárbaro linchamento de Gadafi (que deveria ter sido julgado em Haia), não teremos parte alguma. Como se as potências bombardeiras deixassem algum espaço espontâneo para quem beijasse as mãos suas ou de seus apaniguados. A diplomacia brasileira – e nisso acerta – aposta em outra coisa, na multilateralidade de sua abordagem da cena internacional, tanto do ponto de vista comercial como do político. 
     Porque assim é o mundo contemporâneo: multilateral, não mais bi nem unipolar. É claro que existem considerações de natureza ética na política internacional. Apoiar uma resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre uma “no-fly zone” na Líbia que vai servir na verdade para bombardear um dos lados da questão em detrimento de outro, inclusive para matar o líder desse lado em questão, não é ético. Além disso, não é pragmático: o Brasil perderia o perfil que vem laboriosamente construindo num mundo multi-lateral que inclui, além do Ocidente em crise monetária, fiscal, econômica e política, os BRICS, o G-20, a América Latina, a África subsaariana, o Oriente Médio, para dizer o mínimo e o máximo.
     Tudo isso remonta a dizer que o mundo íntimo da nossa direita é completamente anacrônico. Ele não consegue visualizar a estatura que o Brasil atingiu na cena internacional. Também não consegue visualizar a própria cena internacional, que é bem mais complexa do que um jogo de mocinho e bandido ou de gato e rato.
      Uma última observação. Toda a ironia tem dois gumes, a gente sabe. É bom lembrar que na época em que Nelson Rodrigues criou a metáfora do “complexo de vira-lata” o modelo ideal de cachorro era o pastor alemão, de triste memória (o modelo ideal, não o cachorro que, deixado a seu instinto, é de índole boa e pacífica). 
Fotos: Roberto Stuckert Filho/Presidência da República 
Nossa Fonte: Carta Maior

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Para nossa reflexão

Fidel Castro: A Reunião do G20


Nesta quinta-feira (3) começa a reunião do G20, quer dizer, a dos países mais desenvolvidos e ricos do planeta: Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Grã Bretanha, França, Itália, e a União Europeia como entidade a parte com direito a participar.

Fidel Castro Ruz, (Cuba Debate)


     Esses são os baluartes fundamentais da Otan, mais seus aliados Japão, Coreia do Sul, Austrália e Turquia em seu duplo aspecto de país em desenvolvimento e membro da Otan, assim como Arábia Saudita – um gigantesco depósito de petróleo nas mãos das transnacionais do Ocidente, que extraem dali 9,4 milhões de barris diários, cujo valor ao preço atual chega a US$ 1 bilhão por dia – em um lado da mesa, e, no outro, um grupo de países com crescente peso econômico e político, que de fato se convertem, pelo número de seus habitantes e seus recursos naturais, em uma expressão dos interesses da maioria de nosso sofrido e saqueado mundo: a República Popular da China, a Federação Russa, Índia, Indonésia, África do Sul, Brasil, Argentina e México.
    Espanha, também aliada da Otan, é apenas “país convidado”.
     Trata-se de uma reunião entre os grandes produtores de maquinários e artigos industriais e os grandes administradores de matérias-primas, que ao longo de meio milênio depois da conquista, foram colônias europeias e no último século os abasteceram de produtos agrícolas, minerais e recursos energéticos, vítimas de um desumano intercâmbio desigual.
     Colonização e barbárie      Este obscuro período da história vem ocorrendo desde que os descendentes das tribos bárbaras que povoaram a Europa, “descobriram” e conquistaram este hemisfério armados com espadas, catapultas e arcabuzes.
     “Os descobridores”, que foram objeto de apologia pelo chamado mundo ocidental – como se no continente não vivesse uma parte da humanidade há 40 mil anos –, alimentavam o propósito de buscar uma rota mais curta para o comércio com a China.
     Na China, que possuía antecedentes por meio dos comerciantes de seda e outros valiosos produtos desejados pela aristocracia e a nascente burguesia europeia, encontraram uma fabulosa civilização detentora de uma linguagem escrita, arte refinada, agricultura, metais, pólvora e avançados princípios de organização política e militar, incluídos exércitos com dezenas ou talvez centenas de milhares de soldados de cavalaria.
      Eles estavam a ponto de naufragar quando, nas proximidades de Cuba, encontraram terra. Pouco depois [Cristóvão] Colombo tomou posse de nossa ilha em nome do rei da Espanha. Poderia ter feito isso se realmente chegasse à China, como era seu propósito? Seu erro custou a este hemisfério dezenas de milhares de vidas, que se perderam como consequência da repartição da América, em virtude de uma bula papal entre dois reinos da península Ibérica, nos constantes conflitos de sua nobreza medieval.
      A conquista e a busca de ouro e prata custaram, como afirmava o genial pintor indígena Oswaldo Guayasamín, 70 milhões de vidas aos que habitavam o hemisfério, berço de importantes civilizações.
     A África negra também pode falar do que significou aquela conquista para milhões de seus filhos, arrancados e vendidos como escravos neste hemisfério.
     Uma minoria no controle     A oligarquia multimilionária, cujos chefes de Estado ou governo se reunirão em Cannes com os representantes de quase 6 bilhões de habitantes, que aspiram a uma existência digna para seus povos, deveria meditar sobre estas realidades.
     Aqueles países pretendem monopolizar as tecnologias e os mercados por meio das patentes, dos bancos, dos meios mais modernos e caros de transporte, o domínio cibernético dos processos produtivos complexos, o controle das comunicações e dos meios massivos de informação para enganar o mundo.
     Agora que os habitantes do planeta somam 7 bilhões, os Estados que representam apenas uma de cada sete pessoas, as quais, a julgar pelos protestos massivos na Europa e nos Estados Unidos, não estão muito felizes, colocam em risco a sobrevivência de nossa espécie.
     Poderia alguém esquecer que os Estados Unidos foram o país que impediu o Acordo de Kyoto quando se dispunha de um pouco mais de tempo para impedir uma catástrofe com a mudança climática que está sendo produzida a olhos vistos?
    Cúpula Ibero-americana    Nos dias 28 e 29 do mês de outubro último, ocorreu outra reunião de chefes de Estado e governo que integram a Comunidade de Países Ibero-americanos. Entre as calamidades que tiveram que suportar os povos de fala espanhola e portuguesa, está o fato de ser a região do mundo com mais desigualdade na distribuição das riquezas.
     O chanceler de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla, viajou da reunião da ONU em Nova York onde falou sobre o bloqueio imposto a Cuba pelos EUA, para a capital do Paraguai, onde a reunião Ibero-americana ocorreu. Ali foram ditas coisas de grande interesse com relação à crise que sacode a Comunidade Europeia.
     O novo primeiro-ministro de Portugal externou sua amargura com a União Europeia, quando afirmou que esta ficou exaurida e sem fundos com o resgate de magnitude recorde destinado à Grécia. Poderia enfrentar uma crise em Portugal, mas cairia em bancarrota, impossibilitada de socorrer a Itália, a sétima economia mundial, o que arrastaria a França, em cujos bancos se acumula a maior parte da dívida italiana.
     Os líderes ibéricos duvidam que o compromisso assumido com a Grécia seja cumprido e do não cumprimento, preveem uma crise mais prolongada que a de 1929.
     Governança mundial     Na manhã da quarta-feira (2) os veículos informavam as duras consequências das chuvas nunca vistas na Tailândia, o maior exportador de arroz, cujas vendas se reduziram de 25 milhões de toneladas a 19.
     No entanto, notícias de que a China aumentou para quase 5 milhões de toneladas a produção de cobre metálico, surtiu efeitos consideráveis.
     Por outro lado, enquanto os Estados Unidos conservam intacto o poder de veto no Fundo Monetário Internacional, à China é negado nesse organismo o simples direito de aprovar o yuan como moeda conversível. Quanto tempo durará essa tirania?
      É através desse cristal que devemos analisar cada palavra que se pronuncie na cúpula do G-20.

Tradução: da Redação do Vermelho, Vanessa Silva


Artesanato do Brasil e do mundo encanta brasilienses


Os brasilienses aproveitaram a folga do feriado de Finados para visitar o 4º Salão Internacional do Artesanato, que começou nesta quarta (2) e vai até o próximo domingo (6). Em 80 estandes, o público encontra peças de artesãos de 20 estados e do Distrito Federal e de 17 países.



Nas primeiras três horas de início da feira, havia pouco movimento e as barracas mais procuradas eram a da Índia, com vários tapetes típicos, e a da Rússia, com lenços e inúmeros exemplares de Matrioshka, a tradicional boneca russa. Há estandes também com produtos da Turquia, Indonésia e do Senegal.

Nos cinco dias, os organizadores esperam faturamento de R$ 10 milhões em vendas tanto para pessoas físicas como para grandes lojas de decoração do país. São esperados 100 mil visitantes ao salão. A programação do evento inclui apresentações de grupos musicais e realização de oficinas, como gastronomia.

A feira está montada no Pavilhão de Exposições do Parque da Cidade, no centro de Brasília. Das 11 horas às 16 horas, a entrada é de graça. Depois desse horário, será cobrada entrada de R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia-entrada).

Fonte: Agência Brasil

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Defesa de inclusão e de combate à pobreza marca Brasil na Rio+20


      No último dia do prazo, governo envia à ONU propostas para a Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável que sediará em junho de 2012. Posições de todos os países serão negociadas a partir de janeiro, para elaboração de proposta de declaração política final da Rio+20. Conferência tentará influenciar futuro, mas sem obrigar signatários a seguir orientações.


André Barrocal
 BRASÍLIA – A comunidade internacional deu o primeiro passo para fechar a declaração política que sairá daqui a sete meses da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontece em junho de 2012, no Rio de Janeiro. Nesta terça feira (01), vence o prazo para que os países mandem suas propostas iniciais à Organização das Nações Unidas (ONU). 
As posições domésticas serão diluídas ao longo de quatro reuniões da ONU preparatórias da Rio+20, programadas para janeiro, fevereiro, março e maio. Nelas, os negociadores vão perseguir o máximo de consenso possível para incluir na proposta de declaração que os líderes mundiais vão discutir, modificar, chancelar – ou, possibilidade improvável, rejeitar.

O documento brasileiro, já enviado à ONU, está marcado por duas certezas do governo. Primeira: desenvolvimento sustentável exige erradicação da pobreza e inclusão social - ou seja, melhorar as condições de vida das pessoas ajuda a preservar o planeta. Segunda: o debate energético é estratégico – desenvolvimento requer energia, e como gerá-la precisar ser uma preocupação central.

“Vamos discutir modelo de desenvolvimento, não é uma conferência sobre meio ambiente ou crise econômica”, disse a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira.

Entre as propostas brasileiras, está a criação de uma espécie de 'bolsa verde global', pela qual os países garantiriam, aos miseráveis, renda mínima, segurança alimentar, moradia digna e acesso à água. Também defende-se usar compras públicas e crédito bancário para induzir práticas mais amigáveis ao meio ambiente por parte das empresas.
 

O Brasil propõe ainda uma abertura maior, dos órgãos mundiais multilaterais, ao setor privado, como movimentos sociais, entidades sem fins lucrativos e empresários. Limitar as discussões ao mundo oficial deixaria de lado agentes que muitas vezes são responsáveis por implementar certas decisões políticas.
 

O governo está pleiteando, junto à ONU, que, entre a última reunião preparatória da Rio+20 (30 de maio) e o primeiro dia da Conferência (4 de junho), haja uma mesa redonda com o setor privado, para que a proposta de declaração passe por eles, antes de chegar aos líderes. “Essa é uma proposta inovadora que dá uma nova dinâmica ao multilateralismo”, afirmou Izabella Teixeira.

Qualquer que seja o resultado final da Rio+20, nenhum país estará obrigado a segui-lo. A conferência terá caratér político, de definir objetivos e diretrizes. “O que não quer dizer que não haverá consequências práticas. Ao contrário. Ao focar na ação, e não na legislação, há oportunidade de êxitos maiores”, disse o subsecretário geral de Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo Machado, principal diplomata brasileiro a negociar a Rio+20.

As posições políticas definidas na Conferência poderão ser usadas, por exemplo, para pressionar fóruns internacionais formais a adotar medidas naquela direção. Ou para influenciar decisões de instituições como o Banco Mundial. Ou, mesmo, para que os governos tenham um instrumento para respaldar decisões internas.

Apesar de ter intersecção com questões ambientais, o governo diz que é bom lembrar que a Rio+20 não deve ser encarada como tábua de salvação para problemas discutidos há muito tempo em outros fóruns, como a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP), cuja edição 17 será realizada entre o fim de novembro e o início de dezembro, na cidade de Durban, na África do Sul.
 

“[Mas]
 A Rio+20 pode gerar entendimentos políticos que levem a passos importantes para resolver o problema do clima”, afirmou Figueiredo.

O ministério das Relações Exteriores já expediu os convites a todos os chefes de Estado ou governo do mundo para que venham participar da Rio+20. As confirmações têm sido feitas de forma reservada e ainda não podem ser reveladas, segundo o embaixador. Dilma Rousseff também tem aproveitado encontros internacionais para, de viva voz, chamar o interlocutor.

Segundo a ministra do Meio Ambiente, seus congêneres estão fazendo um "grande esforço" para convencer os chefes a vir. Em janeiro, ela irá aos Estados Unidos, reunir-se com a ministra de lá e reforçar o lobby pela presença do presidente Barack Obama, cujo país, pelo peso, sempre tem destaque em conferências globais.


Fonte: Carta Maior

O unilateralismo dos EUA afronta o mundo e ameaça a ONU


   Os palestinos conquistaram uma grande vitória diplomática com o reconhecimento da Palestina como membro pleno da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Mas o fato não agradou os EUA, que reagiram com irritação anunciando a suspensão do repasse de US$ 60 milhões à organização que seria realizado em novembro.

     A conduta arrogante do império, temperada por boa dose de cinismo, revela a forma enviesada e egoísta com que Washington avalia as Organizações das Nações Unidas (ONU) e o conceito muito singular que cultiva acerca do multilateralismo. 

    Crescente isolamento     A admissão da Palestina foi aprovada na segunda (31) pela Conferência Geral da Unesco por 107 votos a favor, 52 abstenções e apenas 14 votos contra. Brasil, China, Índia, França, Espanha, Rússia, Venezuela e África do Sul, entre outros, apoiaram a justa demanda palestina. 
     O resultado, um forte pronunciamento das nações contra a opressão imposta aos palestinos pelos sionistas, é mais um sinal do crescente isolamento dos Estados Unidos e de Israel na comunidade das nações. Em resposta, a maior potência imperialista do mundo afronta abertamente a autoridade da ONU e recorre ao boicote financeiro com o declarado objetivo de sabotar a Unesco.

     Aversão ao multilateralismo

     Tudo isto mostra a aversão do império ao autêntico multilateralismo, que em Washington só é concebido, retoricamente, como um acessório da política estadunidense, ou seja, só vale quando serve aos objetivos obscuros da Casa Branca, como ocorreu recentemente com a resolução do Conselho de Segurança da ONU que abriu caminho à intervenção da Otan na Líbia. Nessas ocasiões, os EUA se servem cinicamente do manto da ONU para encobrir seus crimes e falam de cara limpa em nome da “comunidade das nações”.
     Quando a ONU se opõe aos planos do império, como ocorreu em relação à guerra contra o Iraque em 2003 (justificada por falsos objetivos, como também ocorreu no caso líbio) é declarada “irrelevante” e desprezada. O gesto que se repete agora tem o mesmo caráter imperialista avesso ao autêntico multilateralismo ansiado e reclamado pela maioria das nações.

     Ofensiva sionista
     Estimulado pela arrogância estadunidense, Israel anunciou a intensificação da ocupação de território palestino, com a construção de 2.000 residências em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia, além de suspender a transferência de recursos à Autoridade Palestina. Resoluções da ONU não valem para Israel ao menos enquanto o Estado racista continuar sob a proteção do guarda-chuva norte-americano para praticar impunemente atrocidades e oprimindo a nação palestina. 
     O império, por sua vez, não abriu mão do projeto de um “novo Oriente Médio” esboçado por Bush e segue com provocações baratas contra o Irã e a Síria preparando o caminho para novas guerras. A paz no Oriente Médio, ansiada pelos povos da região e de todo o mundo, não parece possível antes da derrota do imperialismo e o estabelecimento de uma nova ordem internacional. 
    Fonte: Vermelho