Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

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quinta-feira, 27 de março de 2014

FUP: Não deixaremos sangrar a Petrobrás no ringue das disputas eleitorais



Federação Única dos Petroleiros acusa PSDB, DEM e grandes empresas de comunicação de retomar tática eleitoral que visa privatização da Petrobras.



Mais uma vez, a Petrobrás volta a ser palanque de disputas políticas em ano eleitoral. Foi assim no governo Lula, foi assim em 2010 e não seria diferente esse ano, quando as pesquisas eleitorais refletem o apoio popular ao governo Dilma. Tensionada, a oposição, em conluio com a velha mídia, mira na Petrobrás para tentar desmoralizar a gestão pública da maior empresa brasileira.

Os mesmos PSDB e DEM, que quando governaram o país fizeram de tudo para privatizar a Petrobrás, trazem de volta à cena política antigas denúncias sobre refinarias adquiridas pela empresa no exterior e tornam a atacar as que estão em fase final de construção no Brasil. Quem acompanha a nossa indústria de petróleo sabe da urgência de reestruturação do parque de refino da Petrobrás, que, durante o governo do PSDB/DEM, foi sucateado e estagnado, assim como os demais setores da empresa.

Quando exercia o papel de governista (dos anos 90 até 2002), a oposição demo-tucana quebrou o monopólio estatal da Petrobrás, escancarou a terceirização, privatizou alguns setores e unidades da empresa, reduziu drasticamente os efetivos próprios, estagnou investimentos em exploração, produção e refino e ainda tentou mudar o nome da Petrobrás para Petrobrax. Foi nessa época que a empresa protagonizou alguns dos maiores acidentes ambientais do país e o afundamento da P-36.

São os mesmos neoliberais que insistem em atacar a gestão estatal que desde 2003 iniciou o processo que fará da Petrobrás uma empresa verdadeiramente pública e voltada para os interesses nacionais.

Vamos aos fatos: em 2002, a Petrobrás valia R$ 30 bilhões, sua receita era de R$ 69,2 bilhões, o lucro líquido de R$ 8,1 bilhões e os investimentos não passavam de R$ 18,9 bilhões. Uma década depois, em 2012, o valor de mercado da Petrobrás passou a ser de R$ 260 bilhões, a receita subiu para R$ 281,3 bilhões, o lucro líquido para R$ 21,1 bilhão e os investimentos foram multiplicados para R$ 84,1 bilhão.

Antes do governo Lula, a Petrobrás contava em 2002 com um efetivo de 46 mil trabalhadores próprios, produzia 1 bilhão e 500 mil barris de petróleo por dia e tinha uma reserva provada de 11 bilhões de barris de óleo. Após o governo Lula, em 2012, a Petrobrás quase que dobrou o seu efetivo para 85 mil trabalhadores, passou a produzir 2 bilhões de barris de óleo por dia e aumentou a reserva provada para 15,7 bilhões de barris de petróleo.

Apesar da crise econômica internacional e da metralhadora giratória da mídia partidária da oposição, a Petrobrás descobriu uma nova fronteira petrolífera, passou a produzir no pré-sal e caminha a passos largos para se tornar uma das maiores gigantes de energia do planeta. Não aceitamos, portanto, que esse processo seja estancado por grupos políticos que no passado tentaram privatizar a empresa e hoje, fortalecidos por novos aliados, continuam com o mesmo propósito.

Se confirmados erros e irregularidades na gestão da Petrobrás, exigiremos que sejam devidamente apurados pelos órgãos de controle do Estado e pela Justiça. A FUP e seus sindicatos acompanharão de perto esse processo, cobrando transparência na investigação e responsabilização de qualquer desvio que possa ter ocorrido. No entanto, não permitiremos que sangrem a Petrobrás em um ringue de disputas políticas partidárias eleitorais, como querem os defensores da CPI. Reagiremos à altura contra qualquer retrocesso que possa ser imposto à maior empresa brasileira, alavanca do desenvolvimento do país.


Direção Colegiada da Federação Única dos Petroleiros
Rio de Janeiro, 25 de março de 2014

terça-feira, 18 de março de 2014

Dirceu e o ódio da Veja

Renato Rovai (1)

A capa de Veja desta semana repete a fórmula que a levou a ser processada por Luis Gushiken e cujo resultado foi proferido na última semana, uma condenação de R$ 100 mil à família do ex-deputado, que não poderá tirar proveito da vitória por ter falecido em setembro do ano passado.

Por Renato Rovai*, em seu blog
Repete a fórmula que levou o desembargador Antonio Vilenilson, em voto seguido pelos demais desembargadores da Nona Câmara de Direito Privado do TJ-SP, a afirmar:

“A Veja dá a entender que não eram fantasiosas as contas no exterior. E não oferece um único indício digno de confiança. Infere, da identidade dos acusadores e dos interesses em jogo, a verdade do conteúdo do documento. A falácia é de doer na retina.”

Veja repete a fórmula de assassinato de reputações e procede da mesma forma que quadrilheiros ao esquartejarem e queimarem vivos aqueles que estão do outro lado dos seus interesses.

Não importa o quanto aquilo possa afetar a família do alvo. Não importa o quanto de sofrimento aquilo cause ao atingido pela crueldade. Não importa nada.

Gushiken foi condenado por Veja e seus parceiros da mídia tradicional num processo onde foi absolvido pelo “magnânimo” relator Joaquim Barbosa por falta de provas. Mas os algozes não lhe reservaram nenhuma retratação.

Nesta semana Veja utiliza a mesma técnica do “numa conversa entreouvida” para acusar Genoíno de não se medicar com o objetivo de ter crises e se livrar do semi-aberto. E Zé Dirceu, pasmem, de comer peixadas e lanches do Mc Donalds.

Nenhuma prova, apenas conversas entreouvidas e supostos depoimentos de supostas fontes que não se identificam e não oferecem nada que possa comprovar o que dizem.

A revista acha que mata aos poucos seus alvos com este tipo de reportagem. E talvez tenha razão. Mas neste caso tem um objetivo bem claro, fazer com que Genoíno e Zé Dirceu fiquem mais tempo na cadeia, se possível numa de segurança máxima, e que ao saírem estejam totalmente derrotados tanto do ponto de vista físico quanto moral.

Veja deixou a muito tempo o jornalismo de lado. Mas a cada capa como a desta semana, não coloca em risco apenas a sua reputação. Ela incentiva uma geração de novos profissionais a se comportarem como bandidos midiáticos. Incentiva a acusação sem provas e autoriza o vale tudo em nome de objetivos empresariais ou pessoais.

Hoje, o tipo de jornalismo de Veja é uma das maiores ameaças ao jornalismo. É tão danoso quanto a censura. Porque ele traz no seu cerne a marca do ódio, da mentira e da crueldade. Quando o jornalismo que se preza deveria ao menos tentar respeitar a verdade factual e ser minimamente sério.

(1) É jornalista.
 Leia também no Vermelho:
Paulo Moreira Leite: A fábrica de “supostas” regalias
Mauricio Dias: O ovo da serpente 

Nossa fonte: Vermelho 

O que está em disputa

EDITORIAL do Le Monde Diplomatique Brasil
Claudius
por Silvio Caccia Bava
Já estamos em plena campanha eleitoral, com praticamente toda a mídia batendo forte no governo Dilma. Os focos são dois: uma economia que “vai mal” e a “incapacidade do governo” de enfrentar as crises de governabilidade geradas pelas mobilizações e protestos sociais, e pela violência que penetra o cotidiano e desborda o controle do Estado.
A economia “vai mal” depois que o governo Dilma tomou iniciativas como reduzir a taxa Selic, enfrentar a usura dos bancos privados reduzindo as taxas de juros dos bancos públicos e ser contra o aumento real de tarifas de serviços públicos privatizados. Mesmo com uma ampla política de isenções tributárias para a defesa da indústria, o risco de o governo não cumprir a meta do “superávit primário”, isto é, a parte de arrecadação dos impostos que é destinada ao pagamento dos juros da dívida interna, o grande nó que impede o crescimento, deixou a direita em pé de guerra. Indicadores positivos como os menores índices de desemprego da história recente e o aumento do consumo não entram em consideração.
A internacionalização de nossa economia nos últimos anos trouxe para a cena política nacional a atuação de grandes lobbies empresariais internacionais, que têm todo interesse em manter o câmbio com o real apreciado, favorecendo seus produtos importados e combatendo assim a concorrência nacional. A ameaça da inflação é o espectro que ronda esses argumentos, mesmo que não exista evidência de que um ajuste na política cambial provoque a inflação, como aponta Amir Khair.
A desindustrialização do país é consequência disso. As remessas de lucros das empresas internacionais para suas matrizes colaboram para que a taxa de investimento produtivo no país se reduza e o crescimento desacelere. Na verdade, essa corrente de pensamento que anuncia que a economia vai mal não pensa no país e no bem-estar dos brasileiros.
Antes, no governo Lula, o cenário da economia internacional era favorável a uma política que tanto contemplava as exigências do capital quanto permitia o aumento do emprego, o crescimento real do salário mínimo, o aumento do consumo, o incremento das políticas sociais e as transferências de renda para os mais pobres, mas essa realidade mudou. A crise internacional teve seu impacto na economia brasileira, e a balança comercial mostra isso, mas a oposição não trata do assunto. Age como se o Brasil flutuasse no nada e toda a responsabilidade sobre o desempenho da economia dependesse do governo federal.
A exigência apresentada pelas manifestações de escolas “padrão Fifa” expressa a contradição do momento. Se há dinheiro para a Copa, para obras faraônicas, por que não se tem para a educação? Mas esse clamor que veio das ruas, que sensibilizou num primeiro momento o governo, agora não encontra eco entre as autoridades. As pressões empresariais são enormes e o governo vem recuando em todas as frentes: aumenta a Selic, desacelera a atuação dos bancos públicos na redução das taxas de juros e no preço dos serviços, oferece novas áreas de exploração de serviços públicos para as empresas privadas na forma de novas concessões, vai a Davos assegurar que vai priorizar os interesses do mercado. Nem mesmo o recente contingenciamento do gasto público − esse corte da ordem de R$ 44 bilhões nas despesas previstas no orçamento da União para assegurar o superávit primário − acalma os ânimos. Nada disso agora tranquiliza “o mercado”.
Mesmo com essas concessões e garantias, a direita vê neste momento a oportunidade de desestabilizar o governo Dilma e fragilizá-la para as próximas eleições; quer lutar para terminar com o longo período em que se viu privada do controle da máquina pública federal. Daí toda a ofensiva que se vê nas maiores revistas semanais, nos grandes jornais e na TV, apontando a existência de uma violência social descontrolada, a ameaça de uma sociedade a caminho da barbárie e do caos, como se essas questões não estivessem ligadas à desigualdade social e à precariedade dos serviços públicos. A receita da direita para enfrentar essa situação seria, portanto, endurecer o controle social e a repressão, criminalizar os movimentos sociais, ter um governo que imponha a lei e a ordem a qualquer custo, em suma, militarizar a gestão pública.
As discussões, hoje, são muito diferentes das que se esboçaram depois das manifestações de junho, quando Dilma propôs, para atender às demandas expressas nas ruas, uma reforma política, investimentos maciços em mobilidade nas cidades e mais recursos para educação e saúde. Muita coisa parou no Congresso. Só o que teve impacto imediato foi o Programa Mais Médicos, apesar da virulenta resistência da categoria profissional.
As bandeiras da oposição, até o momento, falam em garantir a independência e autonomia do Banco Central em relação ao governo, abrir mais a economia para as corporações transnacionais, privatizar mais, exportar commodities cada vez mais.
Está na hora de essa campanha eleitoral olhar para as demandas dos cidadãos brasileiros e superar o autismo com que o Congresso trata as manifestações de junho. Afinal, quais são os planos de governo que estão em disputa?
É alentador ver que no Rio de Janeiro o candidato a governador pelo PT, o senador Lindbergh Farias, já no ato de lançamento de sua candidatura, defendeu a educação em tempo integral para toda a rede pública, recuperando a proposta de Darcy Ribeiro materializada nos Cieps; a erradicação do analfabetismo em quatro anos no estado; a volta dos pontos de cultura; a participação cidadã na formulação das políticas e no controle da gestão pública, entre outras propostas.
Esperamos pelos planos de governo dos candidatos.

Silvio Caccia Bava  é Diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil

domingo, 16 de março de 2014

Unasul critica ação imperialista dos EUA na Venezuela


A Unasul representa os esforços dos países latino-americanos por uma unidade regional

Secretário-geral da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), Ali Rodriguez Araque afirmou, durante coletiva em Buenos Aires, que EUA empreende uma política imperialista que busca desestabilizar a Venezuela. Rodriguez reafirmou, neste sábado, a “defesa incondicional da soberania da Venezuela. Sem soberania não há democracia “. Ele denunciou que uma das estratégias aplicadas pelo país do Norte é o isolamento internacional da Venezuela.

– Observamos a execução de uma campanha de propaganda negativa raramente vista no mundo, exceto as duas guerras mundiais. Você coloca qualquer canal de qualquer país fora da Venezuela , ou ler qualquer jornal e unanimidade surpreendente com que refletem e distorcem a situação – alertou.

Ele ainda destacou que que qualquer um que vê a informação refletida dessa forma “acha que realmente o país está em chamas e há uma guerra , por causa do que é acompanhar esta política de privacidade com uma política de desestabilização”.

Neste sábado, o povo venezuelano ocupa as ruas de Caracas, capital do país, em apoio à Força Nacional e para protestar contra as ações violentas perpetradas pela direita golpista. De acordo com informações da TeleSur, as investidas dos golpistas resultaram na morte de três soldados militares.

Até agora, a violência já causou a morte de 28 pessoas e feriu outras 365 em diferentes partes do país , segundo o último relatório do Ministério do Interior, Justiça e Paz.

A ministra das Comunicações, Delcy Rodriguez , postou em sua conta no Twitter que a concentração para a mobilização ocorreria na Plaza e se encaminharia para o Pátio Símbolos Academia Militar. Desde fevereiro de 12, as ações violentas da direita venezuelana foram mortos três soldados militares. Além de 109 policiais e militares foram feridos , 21 deles por tiros .

Nas redes sociais os usuários também mostraram seu apoio para as Forças Armadas com as tags #VenezuelaPuebloDePaz SomosFANB??. Nesta sexta-feira, em coletiva à imprensa nacional e internacional, no Palácio de Miraflores, o presidente Nicolas Maduro declarou há uma campanha de desinformação e mentiras sobre Venezuela no mundo.

Nossa fonte: CdB

sexta-feira, 14 de março de 2014

Mulheres com mais de 70 anos têm ‘o melhor sexo de suas vidas’, segundo pesquisa

Uma vida ativa e saudável é importante para o sexo
Por Redação, com BBC - de Londres


Segundo a crença popular, o desejo e a atividade sexual diminuem com a idade, especialmente nas mulheres. Mas uma acadêmica da American University, de Washington, sugere que mulheres com mais de 70, 80 ou até 90 desfrutam a melhor atividade sexual de suas vidas.

Iris Krasnow, professora de Jornalismo e Estudos Femininos, entrevistou 150 mulheres entre 20 e 90 anos sobre os seus segredos mais íntimos e teve conversas surpreendentes e reveladoras – que acabada de publicar no livro Sex After…: Women Share How Intimacy Changes as Life Changes (“Sexo depois dos…: Mulheres compartilham como a intimidade muda com as mudanças da vida”, em tradução livre).

Krasnow abordou o assunto de vários ângulos, indagando sobre a atividade sexual em diferentes fases da vida: depois da faculdade, da maternidade, da menopausa e da viuvez.

Descobriu que as mulheres mais velhas eram mais aventureiras e mais confiantes na sua sexualidade que as jovens que estão em fase de “envolvimento” ou namoro. “A era da senhora”, diz.

‘Frágil, enrugada e seca’
Suas entrevistadas eram de diferentes idades, classes sociais, raças, culturas e religiões. Mas o fator comum é que relatos de sexo bom estavam sempre ligados ao desenvolvimento de intimidade e conexão emocional.

- As pessoas pensam sobre o sexo até o momento em que morrem – disse Iris Krasnow, em entrevista à agência britânica de notícias BBC.

E, de acordo com o que dizem, não estão só pensando, mas também praticando e se divertindo. “A era da mulher de 78 anos, frágil, enrugada e seca é coisa do passado”, disse a autora.

Ela acrescentou que as mulheres entre 80 e 90 anos estão na faixa etária que mais cresce dentro da população idosa, em muitos países ocidentais. O que estamos vendo agora é não só um aumento na longevidade, mas o aumento da atividade sexual neste setor da sociedade.

Este crescimento da expectativa de vida vem com melhores remédios, mais vigor, mais exercício, melhor dieta e saúde o que resulta numa população de terceira idade mais sexual e saudável do que antes.

Igualmente arcaico, indica Krasnow, é o mito de que as mudanças fisiológicas, como a menopausa, cirurgias de câncer ou histerectomia (retirada do útero), não permitem o desenvolvimento da atividade sexual saudável.

- Uma das minhas entrevistadas fez uma histerectomia aos 30 e, depois disso, melhorou sua vida sexual – deu como exemplo. “Também inclui no livro as histórias de mulheres de 90 que estão iniciando relacionamentos”, destacou.

Segundo a especialista em Estudos Femininos, a alegada incapacidade das mulheres permanecerem sexualmente ativas na velhice é um mito perpetuado por homens mais velhos que querem firmar sua juventude e, com a ajuda de Viagra, buscam relacionamentos com mulheres mais novas.

Embora não seja necessariamente defensora do uso de medicamentos, que podem ter efeitos colaterais graves, a acadêmica argumenta que hoje há acesso a uma gama de opções de tratamentos, desde os hormonais e lubrificantes aos antidepressivos, que podem devolver o entusiasmo e a capacidade de desfrutar do sexo.

Saúde e aparência

Iris Krasnow divide as mulheres que se reencontram com sua sexualidade após os 65 anos em duas categorias:

A primeira é a do “ninho vazio” – aquela mulher que terminou de criar os filhos, adolescentes e estudantes universitários, e estes já saíram de casa.

Se antes estavam sobrecarregadas pela agitação doméstica, ocupadas em levar as crianças para lá e para cá ou preocupadas com que alguma delas a surpreendesse fazendo amor com seu parceiro, agora estão comemorando as possibilidades oferecidas por esta última fase da vida.

Essas mulheres e seus parceiros estão geralmente aposentados, mas ativos e conectados com o mundo exterior por meio de dispositivos modernos e redes de comunicação. Mas, principalmente, eles estão relaxados.

- Uma mulher me disse que, pela primeira vez, fez sexo na cozinha e estava experimentando um vibrador – disse Krasnow.

A outra categoria é a viúva. A mulher que foi casada por 55 anos e cuja vida sexual passou de ardente a aborrecida e, finalmente, inexistente. A que cuidou de seu marido doente por dez anos e o viu morrer.

- Agora essa viúva conhece outro viúvo – jogando golfe ou cartas – e os dois começam a praticar carícias de formas que nunca fizeram. Isso torna-se o melhor sexo de suas vidas – disse ela.

Um aspecto importante é a boa saúde, conseguida através de atividade e dieta adequadas.

As pessoas que vivem um estilo de vida sedentário e comendo demais não só se sentem mal, como não gostam como se vêem, afirma Krasnow.

- Alguém com sobrepeso geralmente têm outros problemas, come para preencher um buraco em sua alma – disse ela. “Se você estiver com sobrepeso, certamente não tem boa circulação e não há irrigação para os órgãos genitais. Sexo é a irrigação”, observa.

- 100% das mulheres em seus 70 e 80 anos que disseram que estavam tendo um bom sexo estão em excelente condição física – contou.

Sexo, por sua vez, prolonga a vida, assegura a pesquisadora. “Fisiologicamente, mantém o coração andando, as entranhas andando, o corpo andando, a vida andando”.

Intimidade

Mas o mais importante no desenvolvimento de uma boa prática sexual é a conexão emocional. O sexo é melhor quando há uma emoção igualmente profunda.

Krasnow chegou a essa conclusão depois de entrevistar milhares de casais ao longo de mais de três décadas.

- A pessoa que diz que só quer sexo sem amor mente. Todo mundo quer amar e ser amado. Isso é uma sensação primária que todos buscamos, sentir-se único nos olhos do amante – diz.

- Tudo parte de uma química sexual, explica, e, se essa química converte-se em compromisso e amor, o casal tem uma boa chance de sucesso e uma vida longa juntos. E se os dois estão de acordo com a evolução sexual de ambos, tudo fluirá bem – nota.

- Se você escolhe um parceiro desejado e sua mente pode se adaptar a um corpo envelhecido, sexualmente qualquer coisa é possível – acrescenta.

Nem tudo tem que ser sexo na cozinha ou de alta intensidade, Krasnow explica. Pode ser uma boa sessão de amasso ou uma massagem lenta e concentrada.

- O que pode ser melhor que isso? Sexo é o vínculo que temos com a nossa juventude. Nos mantém feliz, jovens e vivos.


Nossa fonte: Correio do Brasil

segunda-feira, 10 de março de 2014

“Eu não sou nada”: o que se esconde sob a humildade de Pepe Mujica

 Kiko Nogueira



No início da “Divina Comédia”, Dante encontra Virgílio, seu guia no inferno, e lhe diz: “Mestre, para mim, são tão certos e me impõem tanta confiança os teus arrazoados, que os demais me parecem carvões apagados.”

Pepe Mujica, o presidente do Uruguai, erra muito pouco. Em sua última entrevista, ao jornal “O Globo”, explicou como pretende lidar com as visitas de turistas a seu país para fumar maconha (como se sabe, o Uruguai legalizou o comércio da erva). Falou muito mais. E, como costuma acontecer, transcende as questões comezinhas e dá a qualquer conversa um tom filosófico. Nas palavras de Vargas Llosa, é um velhinho estadista que fala com sinceridade insólita para um governante.

“Queremos tirar o mercado do narcotráfico, queremos tirar-lhes o motivo econômico, queremos que o narcotráfico tenha um competidor forte e não seja o monopolista do mercado. Ao mesmo tempo, tentamos incitar as pessoas a atuarem do ponto de vista médico”, disse ele. “Mas temos que ter muito cuidado, porque não é uma legalização como as pessoas supõem no exterior, não vai ter um comércio, os estrangeiros não poderão vir aqui ao Uruguai para comprar maconha. Não vai existir o turismo da maconha. A decisão tomada não tem nada que ver com esse mundo boêmio. É uma ferramenta de combate a um delito grave, o narcotráfico, é para proteger a sociedade. É muito sério”.

Sobre seu exemplo como líder: “Pretende ser um mini-ato de protesto. As repúblicas não vieram ao mundo para estabelecer novas cortes, as repúblicas nasceram para dizer que todos somos iguais. E entre os iguais estão os governantes. Têm uma responsabilidade implícita e penso que devem viver de forma bastante similar à maneira de viver da maioria do seu povo. Ninguém é mais que ninguém, começando pelo governante.”

Sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo: “O casamento homossexual, por favor, é mais velho que o mundo. Tivemos Julio Cesar, Alexandre, O Grande, por favor. Dizer que é moderno, por favor, é mais antigo do que nós todos. É um dado de realidade objetiva, existe. Para nós, não legalizar seria torturar as pessoas inutilmente”.

Sobre trabalho: “Temos que lutar para que todos trabalhem, mas trabalhem menos, todos devemos ter tempo livre. Para quê? Para viver, para fazer o que gostam. Isto é a liberdade. Agora, se temos de consumir tanta coisa, não temos tempo por que precisamos ganhar dinheiro para pagar todas essas coisas. Aí vamos até que pluff, apagamos.”

Sobre manifestações: “Eu simpatizo com os protestos, mas não levam a lugar nenhum. Não construíram nada. Para construir, há de se criar uma mente política, coletiva, de longo prazo, com ideias, disciplina, e com método. E isso é antigo, ou parece antigo. Mas sem interesses coletivos, é difícil mudar. Não são os grandes homens que mudam as sociedades, mudam quando os protestos se organizam, disciplinam, têm métodos de longo prazo. Estes movimentos de protesto têm a vantagem do novo, e tentam alguma coisa nova porque desconfiam de todos os velhos, especialmente os partidos, por que perderam a confiança neles. Mas as primaveras têm se transformado em inverno por que não sabem onde ir.”

Sobre política: “Temos de revalorizar o papel da política. Mas no mundo real, muita gente se mete na política por que gosta de dinheiro, estes devem ser expulsos porque prostituem a política. A política tem de ser feita com carinho, a política tem a ver com a harmonia das contradições que há na sociedade, tem de lutar para harmonizar este mundo frágil e cheio de contradições que estamos vivendo.”

Sobre seu reconhecimento: “Não é que me achem tão excepcional, me usam como uma maneira de criticar os outros. A última vez que estive na ONU escutei discursos de um presidente de um país europeu [Hollande, da França] pelo qual temos um respeito enorme pela cultura, por suas tradições, pelo que significou no mundo. Fiquei assustado, porque parecia um discurso neo-colonialista. Eu não sou nada, sou um camponês com senso comum. Sem dúvida, estou vivendo uma peripécia. Talvez, se não tivesse passado tantos anos presos com tempo para pensar, fosse diferente.”

Sobre o Brasil e a América Latina: “Brasil vai fazer um campeonato do mundo lindo. Brasil deve apreciar o melhor que tem, não é a Amazônia nem o petróleo, é o experimento social de ser o país mais mestiço do mundo. E tem uma grande alegria de viver, mesmo com as dificuldades e isso deve à África. Por isso, a luta é que brasileiros sejam mais latino-americanos.”

A admiração de Llosa é genuína, mas há algo de condescendente em sua consideração. Mujica é também mais que um camponês com senso comum. É alguém em quem sempre vale a pena prestar atenção. Um mestre. Como disse Dante: “Com aquela medida que o homem usa para medir a si mesmo, mede as suas coisas”.

Sobre o AutorDiretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.
Nossa fonte: Diário do Centro do Mundo

sexta-feira, 7 de março de 2014

BARBOSA NÃO HONRA O STF

Uma justiça sem venda, sem balança e só com a espada?
Leonardo Boff

Tradicionalmente a Justiça é representada por uma estátua que tem os olhos vendados para simbolizar a imparcialidade e a objetividade; a balança, a ponderação e a equidade; e a espada, a força e a coerção para impor o veredito.

Ao analisarmos o longo processo da Ação Penal 470 que julgou os envolvidos na dita compra de votos para os projetos do governo do PT, dentro de uma montada espetacularização mediática, notáveis juristas, de várias tendências, criticaram a falta de isenção e o caráter político do julgamento.

Não vamos entrar no mérito da Ação Penal 470 que acusou 40 pessoas. Admitamos que houve crimes, sujeitos às penas da lei.
Mas todo processo judicial deve respeitar as duas regras básicas do direito: a presunção da inocência e, em caso de dúvida, esta deve favorecer o réu.

Em outras palavras, ninguém pode ser condenado senão mediante provas materiais consistentes; não pode ser por indícios e ilações. Se persistir a dúvida, o réu é beneficiado para evitar condenações injustas. A Justiça como instituição, desde tempos imemoriais, foi estatuída exatamente para evitar que o justiciamento fosse feito pelas próprias mãos e inocentes fossem injustamente condenados mas sempre no respeito a estes dois princípios fundantes.

Parece não ter prevalecido, em alguns Ministros de nossa Corte Suprema esta norma básica do Direito Universal. Não sou eu quem o diz mas notáveis juristas de várias procedências. Valho-me de dois de notório saber e pela alta respeitabilidade que granjearam entre seus pares. Deixo de citar as críticas do notável jurista Tarso Genro por ser do PT e Governador do Rio Grande do Sul.

O primeiro é Ives Gandra Martins, 88 anos, jurista, autor de dezenas de livros, Professor da Mackenzie, do Estado Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra. Politicamente se situa no pólo oposto ao PT sem sacrificar em nada seu espírito de isenção. No da 22 de setembro de 2012 na FSP numa entrevista à Mônica Bérgamo disse claramente com referência à condenação de José Dirceu por formação de quadrilha: todo o processo lido por mim não contem nenhuma prova. A condenação se fez por indícios e deduções com a utilização de uma categoria jurídica questionável, utilizada no tempo do nazismo, a “teoria do domínio do fato.” José Dirceu, pela função que exercia “deveria saber”. Dispensando as provas materiais e negando o princípio da presunção de inocência e do “in dubio pro reo”, foi enquadrado na tal teoria. 

Claus Roxin, jurista alemão que se aprofundou nesta teoria, em entrevista à FSP de 11/11/2012 alertou para o erro de o STF te-la aplicado sem amparo em provas. De forma displicente, a Ministra Rosa Weber disse em seu voto:” Não tenho prova cabal contra Dirceu – mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite”. Qual literatura jurídica? A dos nazistas ou do notável jurista do nazismo Carl Schmitt? Pode uma juíza do Supremo Tribunal Federal se permitir tal leviandade ético-jurídica?

Gandra é contundente: “Se eu tiver a prova material do crime, não preciso da teoria do domínio do fato para condenar”. Essa prova foi desprezada. Os juízes ficaram nos indícios e nas deduções. Adverte para a “monumental insegurança jurídica” que pode a partir de agora vigorar. Se algum subalterno de um diretor cometer um crime qualquer e acusar o diretor, a este se aplica a “teoria do domínio do fato” porque “deveria saber”. Basta esta acusação para condená-lo.

Outro notável é o jurista Antônio Bandeira de Mello, 77, professor da PUC-SP na mesma FSP do dia 22/11/2013. Assevera:”Esse julgamento foi viciado do começo ao fim. As condenações foram políticas. Foram feitas porque a mídia determinou. Na verdade, o Supremo funcionou como a longa manus da mídia. Foi um ponto fora da curva”.
Escandalosa e autocrática, sem consultar seus pares, foi a determinação do Ministro Joaquim Barbosa. Em princípio, os condenados deveriam cumprir a pena o mais próximo possível das residências deles. “Se eu fosse do PT” – diz Bandeira de Mello – “ou da família pediria que o presidente do Supremo fosse processado. Ele parece mais partidário do que um homem isento”.

Escolheu o dia 15 de novembro, feriado nacional, para transportar para Brasília, de forma aparatosa num avião militar, os presos, acorrentados e proibidos de se comunicar. José Genuino, doente e desaconselhado de voar, podia correr risco de vida.
Colocou a todos em prisão fechada mesmo aqueles que estariam em prisão semi-aberta. Ilegalmente prendeu-os antes de concluir o processo com a análise dos “embargos infringentes”.

O animus condemnandi (a vontade de condenar) e de atingir letalmente o PT é inegável nas atitudes açodadas e irritadiças do Ministro Barbosa. E nós tivemos ainda que defendê-lo contra tantos preconceitos que de muitas partes ouvimos pelo fato de sua ascendência afro-brasileira. Contra isso afirmo sempre: “somos todos africanos” porque foi lá que irrompemos como espécie humana. Mas não endossamos as arbitrariedades deste Ministro culto mas raivoso. Com o Ministro Barbosa a Justiça ficou sem as vendas porque não foi imparcial, aboliu a balança porque ele não foi equilibrado. Só usou a espada para punir mesmo contra os princípios do direito. Não honra seu cargo e apequena a mais alta instância jurídica da Nação.
Ele, como diz São Paulo aos Romanos: “aprisionou a verdade na injustiça”(1,18). A frase completa do Apóstolo, considero-a dura demais para ser aplicada ao Ministro.

Fonte: http://www.brasil247.com/pt/247/brasilia247/122609/Leonardo-Boff-Barbosa-n%C3%A3o-honra-o-STF.htm

terça-feira, 4 de março de 2014

O Brasil, os EUA e o “Hemisfério Ocidental” (2)

 
JOSÉ LUÍS FIORI

Pensamento dominante em Washington enxerga hoje, em quase todos os governos sul-americanos, uma ameaça a ser contida e derrotada

Washington deve sufocar militarmente ações comuns da América do Sul, propôs teórico geopolítico norte-americano mais influente dos no século XX. Em que medida proposição prevalece?
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Em grandes linhas, foi a visão estratégica de Nicholas Spykman1, formulada na década de 1940, que orientou a política externa dos EUA para a América do Sul — democrata e republicana — durante toda a segunda metade do século XX. Nesse período, só Henry Kissinger teve — dentro dos EUA — uma visão geopolítica do mundo tão ampla e inovadora, mas apesar disso, ele não mudou uma vírgula, com relação à visão hemisférica de Spykman. Com a diferença, que Kissinger foi também um executivo, e ocupou cargos de importância crescente, dentro das administrações republicanas, a partir do primeiro governo de Dwight Eisenhower, em 1953, até o final das administrações de Richard Nixon e Gerald Ford, de quem foi Conselheiro de Segurança, e Secretario de Estado, respectivamente. Nesse tempo, participou de conjunturas e decisões internacionais que o transformaram numa das figuras mais importantes da política externa norte-americana, da segunda metade do século XX. Sobretudo durante as administrações de Nixon e Ford, quando deu uma contribuição decisiva para a formulação da nova estratégia dos EUA, de resposta à crise econômica mundial dos anos 70, e à derrota americana no Vietnã, em 1973.
Ele participou diretamente das negociações de paz no Vietnã, que levaram à assinatura dos Acordos de Paris, em 1973; e das negociações secretas com Chou en Lai e Mão Tse Tung, em 1971 e 1972, que levaram à reaproximação dos Estados Unidos com a China, e a reconfiguração completa da geopolítica mundial, antes e depois do fim da Guerra Fria. Mas ao mesmo tempo, Kissinger tomou várias decisões “sangrentas”, que também foram cruciais, como foi o caso da ordem de bombardeio aéreo do Camboja e do Laos, sem a autorização do Congresso Americano, em 1969; do apoio à guerra do Paquistão com a Índia, no território atual de Bangladesh, em 1971; do apoio e financiamento ilegal da invasão do Chipre, pela Turquia, em 1974; do apoio à invasão sul-africana de Angola, em 1975; e finalmente, também em 1975, do apoio à invasão do Timor Leste, pela Indonésia, que se transformou numa ocupação de 24 anos, e custou 200 mil vidas.
Sobre a América do Sul, entretanto, Henry Kissinger inovou muito pouco, com relação à visão de Spykman, sobre o potencial de ameaça para os EUA, dos países do Cone Sul. Já haviam passado três décadas da publicação da sua obra clássica, “America´s Strategy in World Politics”, em 1942, mas Kissinger seguia considerando inaceitável o surgimento de um poder hemisférico alternativo nessa região, e ainda mais, se fosse da parte de um governo de esquerda, ou comunista. Razão pela qual, apoiou e sustentou os violentos golpes militares2 que derrubaram os governos eleitos da Bolívia, em 1971, do Uruguai e do Chile, em 1973, e da Argentina, em 1976. E existem evidencias inapeláveis de que também teve injunção na Operação Condor3, que integrou os serviços de inteligência das Forças Armadas da Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, para seqüestrar, torturar e assassinar personalidades políticas de oposição, nesses países.
Nas décadas de 80 e 90, Henry Kissinger afastou-se da diplomacia direta, mas manteve uma influencia pessoal e intelectual muito grande dentro do establishmentamericano, e entre as elites conservadoras sul-americanas. Em 2001 — uma década depois do fim da Guerra Fria e da “ameaça comunista” — Kissinger publicou um livro4que marcou época, discutindo o futuro geopolítico do mundo, e sintetizando os novos consensos da politica externa dos EUA, para o século XXI. Chama atenção, de novo, nesse livro, sua posição com relação à América do Sul: para Kissinger, o continente sul-americano segue sendo — no novo século — uma “zona de influencia” onde os EUA não podem admitir nenhum tipo de contestação à sua supremacia estratégica e econômica. Da mesma forma que no século anterior, só que agora, a grande ameaça à supremacia americana já não vem do comunismo, vem do “populismo autoritário”, e do “nacionalismo” dos governos que rejeitam as propostas norte-americanas de integração econômica, do tipo ALCA, na década de 90, e do tipo Aliança do Pacífico, nos anos mais recentes. Ou seja, desse ponto de vista dominante nos EUA, nesse momento, todos os governos da América do Sul representariam uma ameaça aos interesses norte-americanos, que deve ser contida e derrotada, com exceção da Colômbia, do Peru, e do Chile.
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1 J.L.Fiori, “Brasil, EUA e o Hemisfério Ocidental ” (1), Valor Econômico, 29/01/2014
2Na França, Henry Kissinger foi chamado a depor, pelo juiz Roger Lê Loire, no processo sobre a morte de cidadão franceses na Operação Condor, e sob a ditadura militar chilena. O mesmo ocorrendo na Espanha, com a investigação do juiz Juan Guzman, sobre a morte do jornalista americano Charles Horman, sob a ditadura chilena. E também na Argentina, onde Kissinger foi investigado pelo juiz Rodolfo Canicoba, por envolvimento na Operação Condor, assim como em Washington , onde existe um processo na corte federal com acusação, contra Kissinger, de haver dado a ordem para o assassinato do Gal Schneider, Comandante em Chefa das Forças Armadas Chilenas, em 1970.
3Vide Chistopher Hitchens, The Trial of Henry Kissinger(2003); e também a resenha de Kenneth Maxwelll, do livro de Peter Kornbluh, The Pinochet file: a Desclassified Dossier on Atrocity and Accountability, publicado na Revista Foreign Affairs, de Dezembro de 2003, sobre as relações de Kissinger com o regime de Augusto Pinochet, em particular com o assassinato do diplomata chileno Orlando Letelier, em Washington, 1976.
4H. Kissinger, 2001, Does America Need a Foreign Policy, Simon&Schuster, New York
José Luís Fiori  é professor titular de Economia Política Internacional da UFRJ, é Coordenador do Grupo de Pesquisa do CNPQ/UFRJ, “O poder Global e a Geopolítica do Capitalismo”,www.poderglobal.net. O último livro publicado pelo autor, O Poder Global, editora Boitempo, pode ser encontrado em nossa loja virtual. O acervo de seus textos publicados no Outras Palavras,  podem ser lidos aqui. 
Nossa fonte: Outras Palavras



segunda-feira, 3 de março de 2014

Por que a Rússia é um importante contraponto ao poder unilateral dos Estados Unidos

Paulo Nogueira



Putin quer que a Rússia volte a ser grande

Na época de reunificação da Alemanha, fato contra o qual se bateu, Margaret Thatcher deixou escapar um desabafo numa reunião de líderes mundiais: “Lá vêm os alemães.”
Pois é.
Lá vêm os russos, como o caso da Crimeia mostra claramente.
Uns gostam dos russos, outros detestam, alguns ignoram, mas o que é claro que o mundo precisa de um anteparo ao poder unilateral dos Estados Unidos.
É uma necessidade, um imperativo geopolítico.
O que se viu depois da desintegração da União Soviética foi uma única superpotência abusar da paciência do mundo.
A Guerra do Iraque – feita com premissas mentirosas e não questionadas – é o maior exemplo disso, e está longe de ser o único.
Na Era da Informação, ficou difícil para os americanos sustentar a pose de campeões da liberdade. Não existe um único caso de um país que você possa dizer que melhorou depois de uma intervenção militar americana.
No mundo menos imperfeito, você não precisaria de contraponto aos Estados Unidos, mas este mundo em que vivemos é absurdamente imperfeito.
É admissível que o horror do Iraque não tivesse ocorrido com uma Rússia forte freando a agressividade destruidora dos Estados Unidos.
Putin, aparentemente, entende que a obra de sua vida é devolver grandeza global à Rússia. Haverá nisso mais ganho que perda, embora a Rússia não seja a Madre Teresa de Calcutá.
A Rússia tem a única coisa que os Estados Unidos verdadeiramente respeitam nas relações internacionais: bombas. Muitas bombas. São armas capazes de destruir várias vezes os Estados Unidos.
O outro possível contraponto ao poder americano, a China, tem uma economia fabulosa, mas sem armas acaba tendo escasso poder intimidatório para Washington.
Devemos ler com algum cuidado o noticiário nacional e internacional sobre a Rússia e Putin, pois a tendência é demonizar ambos.
Mas uma coisa é certa: com todos os defeitos da Rússia, é melhor um mundo com ela do que um mundo sem ela – ao menos enquanto os Estados Unidos estiverem tão dispostos a fazer uso de seus armamentos.


O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo (Nossa fonte)


AP 470: A mídia constrangida com o monstro que criou


Após a derrota, em Plenário, para a maioria do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Joaquim Barbosa, relator da Ação Penal (AP) 470 – cujo julgamento ficou conhecido como ‘mensalão’ nos jornais conservadores, e já apelidado de ‘mentirão’ por jornalistas independentes – encontra-se em uma posição de dificuldades junto à mesma mídia que o consagrou. Segundo a Corte, além de não haver quadrilha alguma, a sentença sobre os réus foi majorada para que as penas não fossem prescritas e garantissem o regime fechado.

A mesma mídia que defendeu Barbosa, mais uma vez, partirá para o ataque. “Qualquer sugestão de que haverá revisão criminal será tratada como “pizza” e haverá tentativa de insuflar a sociedade contra o STF. O que foi, aliás, o que fizeram durante todo o julgamento: tentaram emparedar o STF com a ameaça da “opinião pública”. A lógica do “linchamento”, da importância do “símbolo”, foi usada sem nenhum pudor pela mídia para chantagear os ministros do STF. Entretanto, a estratégia vai ficar mais difícil. A catarse inicial foi feita: os condenados foram presos. A grande novidade agora é: e se prenderam inocentes, e se o julgamento foi equivocado?”, questionou o jornalista Miguel do Rosário, em seu blog.

Leia, a seguir, a íntegra do artigo:
A mídia agora está tropeçando no próprio pé, porque o seu interesse exagerado, histérico, na condenação, não deixará de ser associado à vergonhosa truculência de Joaquim Barbosa. E não só truculência: a mídia está associada à decisão arbitrária de Joaquim Barbosa de atropelar a tradição legal e transformar o STF no instrumento de vingança política contra alguns réus.

Ele é a prova de crime contra a Constituição Brasileira, contra o direito moderno, contra o humanismo que marca o direito penal desde o advento de Cesare Beccaria. Joaquim Barbosa confessa, despudoramente, que aumentou a pena do crime de quadrilha para que Dirceu permanecesse em regime fechado, e não semi-aberto. Um juiz não pode aumentar a pena para “compensar” a demora de um tribunal em julgar uma causa. Se eu for preso por assalto, e meu julgamento ocorrer daqui a 10 anos, o tribunal não poderá aumentar minha pena de 10 para 15 anos, apenas para evitar a prescrição. Isso não existe. Até porque o réu também é vítima do atraso no julgamento.

O tempo de espera angustia muito mais o réu do que o juiz. O juiz continua sua vida, comprando apartamentos em Miami e passando férias na Europa, enquanto o réu aguarda, ansioso, pelo julgamento que irá determinar seu destino. Por isso Beccaria, pensador central do direito penal moderno, observa que os julgamentos tem de ser rápidos, eficazes e brandos.

Nossa fonte: Correio do Brasil, onde poderá ver o vídeo

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Venezuela e Ucrânia: em cada ponta da pinça

Por Jeferson Miola - de Porto Alegre



A Venezuela e a Ucrânia são duas dimensões da mesma política externa dos EUA. Cada um ocupa uma das pontas da pinça da política imperial no atual período

Nunca antes foi tão escrachada a simbiose entre os EUA, os monopólios mundiais de comunicação e as potências europeias aliadas dos EUA. Igualmente, desde muito, os EUA não expunham o mundo à possibilidade de conflitos simultaneamente em duas regiões do planeta.

Os acontecimentos na Venezuela e na Ucrânia nos últimos meses confirmam essa perigosa realidade.

Barack Obama conseguiu o que seu antecessor não havia conseguido na farsa no Iraque em 2003 – George Bush, o “senhor das guerras”, sofreu a oposição da França e da Alemanha naquela ocupação criminosa e não autorizada pela ONU. Já o “senhor dos drones”, dessa vez, vem assegurando ampla solidariedade dos seus vassalos europeus – contando, inclusive, com a subserviência canina do “socialista” Hollande.

As capitais Caracas e Kiev estão quase 10 mil quilômetros distantes entre si. Quando, porém, o assunto são os interesses geopolíticos, econômicos e estratégicos dos EUA, a distância geográfica some e a Venezuela e a Ucrânia se parecem como gêmeos siameses – dois alvos grudados um ao outro, padecendo da mesma sorte de intervenções promovidas e/ou apoiadas pelos EUA.

Na Ucrânia, há meses os EUA apoiam, financiam e instrumentalizam muitas faunas de agrupamentos de extrema-direita: neonazistas, fascistas, antissemitas.

Derrubam o governo, afastam a Ucrânia da Rússia para aproximá-la da União Europeia e operam os interesses estratégicos e econômicos do capital norte-americano em sintonia com oligarcas locais.

Por mais crítica que seja a opinião a respeito da complexa realidade da Ucrânia, é impossível não caracterizar o ocorrido como golpe promovido pelos EUA e União Europeia em território estrangeiro.

O mundo pode estar, assim, diante de graves tensões: depois do revés imposto pela Rússia à pretensão dos EUA de guerra na Síria, a resposta estadunidense na fronteira russa é uma afronta que poderá desencadear dinâmicas preocupantes.

Na Venezuela bolivariana, a presença conspirativa dos EUA tem antecedentes históricos. É uma questão de Estado e prioridade destacada do Departamento de Estado e do Pentágono. Desde a primeira eleição de Hugo Chávez, em 1998, os EUA buscam desestabilizar o país promovendo golpes de Estado, conspirações, traições, infiltrações, sabotagem, atentados, assassinatos de civis, etc.

Com a morte de Chávez, em março de 2013, a direita venezuelana partiu para o tudo ou nada na eleição presidencial, mas foi derrotada por Nicolás Maduro.

Seguindo a estratégia de desestabilização permanente do governo, Henrique Capriles não aceitou o resultado; a despeito do testemunho de centenas de personalidades e instituições observadoras internacionais – dentre as quais o Centro Jimmy Carter – que comprovaram a lisura e a vitalidade do processo eleitoral e da democracia venezuelana.

Aproveitando as fragilidades da economia, oligopólios passaram a promover a guerra econômica e o desabastecimento de produtos de primeira necessidade. Apostaram no caos social, no desgaste do governo, na divisão do chavismo e das Forças Armadas e na vitória nas eleições municipais de dezembro passado.

Novamente fracassaram. Então, se alçaram como kamikases à atual vaga conspirativa. Dessa vez, sob a liderança ultradireitista de Leopoldo López, um golpista conhecido pelo protagonismo no fracassado golpe de abril de 2002. As técnicas terroristas empregadas são por demais conhecidas: de assassinatos à quebradeira.

É incrível como a mídia monopólica, controlada desde Washington, falsifica os fatos e produz uma narrativa esquizofrênica da realidade. Os meios de comunicação de cada país, por sua vez, replicam teologicamente as mesmas falácias e mantras, como se fossem verdades inquestionáveis e definitivas.

A Venezuela e a Ucrânia são duas dimensões da mesma política externa dos EUA. Cada um ocupa uma das pontas da “pinça” da política imperial no atual período. Essa interconexão pode mudar a qualidade da política intervencionista dos EUA na Venezuela e no conjunto do hemisfério americano.

Essa conjuntura não permite ingenuidade. O mundo não tem garantias contra as loucuras que o “senhor dos drones” poderá promover contra a Venezuela, agora encorajado pela retribuição de solidariedade dos seus vassalos europeus, agradecidos pela “ajuda” na Ucrânia.

Nunca antes nesse século as expressões imperialismo, totalitarismo midiático, autoritarismo político e fascismo estiveram ameaçadoramente presentes no nosso vocabulário como hoje.

Jeferson Miola é integrante do Instituto de Debates, Estudos e Alternativas de Porto Alegre (Idea), foi coordenador-executivo do 5º Fórum Social Mundial.

Nossa fonte: Correio do Brasil

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A discreta subversão da Literatura Periférica







Menos conhecidos que “saraus”, encontros de escritores como Ferréz com jovens são frequentes. Por meio da leitura, revelam: outras realidades são possíveis

Por Julio Souto Salom*, no Sul21 | Imagem: João Pinheiro

Quando, faz uma década, um novo movimento literário começou a se articular nas periferias do país, muitas reações foram de suspicácia. A grande circulação destes autores e obras, passando de pequenas editoras e revistas, a frequentar prêmios e eventos literários, boa parte da crítica não deu muita relevância ao movimento, acreditando que se trataria de uma moda passageira. Se argumentou que o seu sucesso se devia a uma estratégia do mercado editorial, que ante o interesse “voyeurístico” do leitor de classe média pela violência nas periferias, propunha o artifício da “autenticidade”: quem “vive” no tema tem o conhecimento direto, pelo que nada melhor que o “olhar interno” do “autor nativo”, a favela narrada “desde dentro”. Se só se reconhece o valor desta literatura pela sua pretensa “autenticidade”, se corre o risco de ignorar a grande qualidade literária de muitas destas obras, ademais de outros efeitos socioculturais paralelos que não são nada irrelevantes. Um deles, talvez dos mais interessantes, é a capacidade destes autores para conectar com crianças e adolescentes da periferia, despertando curiosidade e interesse pela literatura, gerando hábitos de leitura em ambientes nos que esta normalmente estava ausente.

A antropóloga Érica Peçanha do Nascimento, referência no estudo da Literatura Marginal Periférica, comenta a capacidade destes escritores auto-definidos “marginais” para a conexão com um público específico: “Pra um menino que ta lá na periferia e que tem um igual que também escreve, que virou notícia na televisão porque escreve, é extremamente significativo. Eu participei de pouco mais de 200 atividades nesses oito anos que fiquei pesquisando, e tive a oportunidade de acompanhar também esses escritores em escolas, também em ONGs; é impressionante o efeito pedagógico junto aos meninos de favela e periferias”. Ainda que sejam incipientes os estudos específicos sobre o potencial pedagógico desta corrente literária, a sua efetividade pode ser conferida observando essas atividades, como tivemos a oportunidade de ver na recente participação do escritor Ferréz na Feira do Livro de Porto Alegre (14/11/2013).

Dentre os muitos nomes e títulos que circulam por livros, antologias e saraus, Ferréz pode ser considerado um dos principais articuladores da Literatura Marginal Periférica. Convidado para participar no tradicional evento editorial de Porto Alegre, Ferréz não se limitou a cobrar o cachê e dar a palestra combinada. O escritor chegou um dia antes à cidade para visitar a escola “Nossa Senhora de Fátima”, no bairro do Bom Jesus. Estas palestras em escolas das periferias fazem parte da rotina de Ferréz faz alguns anos, como ele explica: “Tento mostrar que a literatura não tem por quê ser uma coisa chata, que a literatura pode fazer rir, pode dar tesão, pode gerar um sentimento de revolta… Meu objetivo é criar milhões de leitores, ganhar os moleques para a literatura”. Mas há também um esforço de provocar uma consciência crítica e indignação política que reforce a auto-estima das crianças: “Eu tento fazer eles observar e compreender. Quando estou nas vilas, mando eles olhar pelas janelas, e pergunto: por quê temos que morar entre o lixo, no córrego? Aí pensamos juntos: a gente mora no córrego, mas não é o córrego”. Consciente da eficácia deste trabalho de educação emocional e literária, o escritor não duvida em continuar com ele, ainda sem o apoio de nenhuma instituição: “Não tem edital para isso, não tem verba pública, não tem fundação. Eu faço isso porque eu amo isso”.

Os professores e professoras que já trabalharam estes autores na sala de aula sabem da empatia que gera nos seus alunos. Exemplo disso é o presente que Ferréz ganhou nesse dia, que nos mostrou orgulhoso e emocionado: um caderno artesanal que os alunos da escola do Bom Jesus tinham elaborado, com fragmentos do texto e desenhos das ilustrações dos contos infanto-juvenis de Ferréz, como Amanhecer Esmeralda (Planeta, 2005). Esse belo livro traz uma história de esperança e otimismo para uma menina que vive na periferia de uma grande cidade, que a partir de um pequeno presente do professor, e uma importante conversa com a merendeira da escola, vive uma experiência de afirmação e elevação da autoestima. Com sua pequena mudança na forma de ver as coisas, a menina vai criando no seu bairro “um efeito dominó, só que ao contrário – uma peça levanta outra, que levanta outra…”.

Este tipo de atividades e obras que levam histórias de superação e vitória ao público infantil, não são uma exclusiva de Ferréz, senão que estão cada vez mais presentes na produção dos autores periféricos. Por exemplo: a infinidade de visitas a escolas do poeta Sérgio Vaz (organizador do sarau da Cooperifa), com um roteiro semelhante ao descrito; o livro Zagaia, de Allan da Rosa (DCL, 2007), que traz fantásticas imagens com o esquema poético da literatura de cordel; Os Zumbis da Pedra, do repórter Manoel Soares (Besouro Box, 2009), que alerta as crianças sobre os riscos da droga; Dia das Crianças na Periferia, de Alessandro Buzo (Suburbano, 2011), onde a mensagem se reforça com as ilustrações de Alexandre de Maio. Através destas “portas de entrada”, os jovens leitores podem seguir aos autores em outras obras deles, e mais além, acompanhá-los para descobrir o imenso mundo da literatura.

O leitor de Amanhecer Esmeralda, procurando mais obras do autor, poderia descobrir Capão Pecado, um romance situado no bairro de Capão Redondo, extremo sul de São Paulo, onde o escritor mora até hoje. Nesse cenário periférico se desenvolvem também outros trabalhos do autor, como o romance Manual Prático do Ódioou o volume de contos e crônicas Ningúem é inocente em São Paulo. Em todas essas obras a violência urbana é enfocada da ótica do oprimido, tentando contestar a truculência da narrativa oficial. É possível que seja a ênfase nessa perspectiva, que se faz extensiva ao tratamento do texto (com abundância de gírias, ou usos anômalos de regência e concordância), pelo que as obras de Ferréz foram objeto de fortes polêmicas sobre sua utilização na escola. Mal compreendidos, estes textos provocam reações defensivas. Foi o caso da Federação de Pais de Minas Gerais, que pediu a proibição de Capão Pecado nas escolas pela presença de “palavrões” no texto. O presidente da Fapaemg, entendeu que esse livro sugere às crianças “que podem xingar o professor, porque os palavrões estão no livro que a escola dá”. A hipocrisia da polêmica irritou a Ferréz, que na época reclamava no seu blog: “O debate devia girar em torno da desigualdade social que o livro aborda, mas em vez disso se discute a linguagem.”

Mas além dos seus romances, o trabalho de Ferréz levaria ao leitor a conhecer outros autores, como os elencados nas coletâneas Literatura Marginal, números especiais da revista Caros Amigos (posteriormente publicados em livro, pela editorial Agir, 2006). Nesses três especiais apareceram escritores periféricos de todo o país, sendo essa a primeira publicação de tiragem nacional para muitos deles. Ferréz fala com verdadeira admiração de autores estreantes que foram publicados nessas coletâneas: Rodrigo Ciríaco, Cidinha da Silva, Allan da Rosa, Marcos Teles… Esta vontade de articular um movimento literário coletivo, com identidade própria, é uma das principais motivações do escritor, que para isso fundou a sua própria editora (Selo Povo – LiteraturaMarginal) publicando autores periféricos em livrinhos de bolso, ao módico preço de 7 reais. Na conversa, nos revelou que a editora de Capão Redondo está preparando uma mudança de imagem e novos lançamentos, dentre os que nos antecipa a publicação de um volume de crônicas do clássico Lima Barreto, além de novas apostas em jovens periféricos ainda inéditos, já que, como ele diz: “Se eu não aposto neles, quem o vai fazer?”.

Tudo isto faz que Ferréz tenha um caráter diferenciado no circuito literário convencional. “Me dou bem com alguns escritores, como Lourenço Muttarelli, que vai ilustrar meu próximo livro, Marcelino Freire, ou Marçal Aquino. Mas não tenho muitos amigos entre os escritores mais conhecidos. Normalmente não nos vemos, porque eu moro na favela e eles não vem muito por ai. Mas coincidimos nas viagens, como agora em [a Feira do Livro de] Frankfurt”. Ainda assim, a capacidade narrativa de Ferréz vem ganhando reconhecimento nos últimos anos. Seu último romance, Deus Foi Almoçar (Planeta, 2013), semi-finalista do prêmio Protugal Telecom, evita a localização específica num cenário periférico para armar uma profunda trama metafísica. Talvez seja o romance onde fique mais patente a influência do escritor alemão Herman Hesse, uma importante referência para Ferréz.

Com a desconstrução dos desejos e frustrações do indivíduo contemporâneo, o autor tenta relacionar as problemáticas que experienciou como cidadão (e se aproximam ao retratado em seus anteriores romances) com questões filosóficas mais amplas, da ordem da civilização e a modernidade, questionando nossa forma de “ser no mundo”. O autor se mostra satisfeito com o trabalho: “É o livro que sempre quis fazer, mas só agora me senti maturo e livre o suficiente para realizá-lo. Demorei oito anos para escrever esse livro, e não mudaria nem uma vírgula”. Sobre a mudança de ambientação do livro, reclama que esse aspecto tenha focado quase toda a atenção mediática: “Me perguntam muito sobre isto, por que parei de escrever da periferia? É claro, é um tema que domino, porque eu moro no tema, eu sou o tema. Mas eu não me limito a um tema só, à minha experiência. Afinal escrever literatura também é isso, né?”.

Nessa linha argumentativa corre a sua palestra na Feira do Livro de Porto Alegre, onde Ferréz relata sua trajetória biográfica e literária como uma história de esforço e superação, sempre baseada na confiança no seu próprio potencial, apesar das múltiplas vozes que tentaram desanimá-lo. Assim, ele reafirma a importância da imaginação e do sonho na vida das pessoas: “Quantos meninos aqui pretendem fazer Faculdade? Ih! só isso? Vamos sonhar! A gente tem que sonhar o nosso melhor, porque tem muita gente apostando no nosso pior, também. Porque é muito bom estar aqui participando neste evento, mas se não sonhamos, vamos a estar toda a vida montando o stand, e não falando nele”.

A grande capacidade de empatia do escritor com as crianças, jovens e adolescentes das periferias, acontece de maneira natural, pela forma dinâmica e descontraída de conversar. Ante uma platéia de crianças e adolescentes, Ferréz não duvida em parodiar o estereótipo do “escritor chato”. Em tom bem-humorado, ele critica: “Sabem porque vocês acham que a literatura é chata? Por que os escritores não falam com vocês! Eles não entendem vocês! É sério, eles preferem quatro velhos a todos vocês. Mas literatura não é isso, literatura é muito mais”. A admiração do auditório cresce quando Ferréz comenta as colaborações que, como escritor, realizou em outros formatos, seja escrevendo letras de rap (para grupos como Racionais, Facção Central,Outraversão…), roteiro de histórias em quadrinhos (Desterro, prémio HQMix ao melhor rotéiro original), ou roteiros de cinema ou tevê (episódios de séries como Cidade dos Homens ou 9mm).

Ao falar de rap, os jovens se animam a dirigir-se ao escritor, e o desafiam: “Tio, canta um rap!”. E assim, a palestra termina com um free-style sobre base coletiva, feita entre todos com palmas e chutes no chão. O jovem que lançou o desafio e rimou com o palestrante, ganhou dois prêmios: um vídeo gravado em celular, que já deve estar rolando pelo Facebook gerando a inveja e admiração de seus colegas, e um exemplar de Cronista deum tempo ruim, o livro de crônicas de Ferréz lançado pela editora Selo Povo. É assim, entre rimas versadas e páginas encadernadas, escritores como Ferréz vão criando leitores pelas periferias do Brasil.

*Julio Souto Salom é mestrando em Sociologia (UFRGS) e membro da equipe editorial da “Maria Papelão Editora”.
Nossa fonte: Outras Palavras

domingo, 19 de janeiro de 2014

Alimentos geneticamente modificados: atendem as necessidades humanas ou a ganância das corporações?

Ghiselle Karim



Pela primeira vez, os seres humanos podem tecnicamente criar espécies ou organismos através da transferência de DNA entre organismos totalmente distintos, potencialmente adaptando-os a climas mais agrestes, por exemplo, ou por meio de culturas já existentes com o propósito de obter maiores volumes de produtos. No entanto, os GMOs são abusivamente produzidos em larga escala pelas grandes corporações, tais como a Monsanto, a fim de maximizarem os lucros de seus acionistas em prejuizo das pessoas comuns de todo o mundo, e têm reduzido a segurança e a provisão de alimentos para bilhões de seres humanos. Qual é a perspectiva de classe em face dos problemas gerados pelos GMOs relacionados com a segurança alimentar?

Consoante a gigantesca Monsanto, muntinacional ligada à agricultura, os alimentos geneticamente criados destinam-se a solucionar problemas relacionados coim a insegurança alimentar, matando a fome da crescente população mundial. Mas, se examinarmos os produtos gerados por empresas como a Monsanto, verificaremos que esta alegação é evidentemente falsa. Companhias semelhantes à Monsanto, não chegaram, nem mesmo perto de resolver a questão da fome e da falta de alimentos. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) calcula que 870 milhões de pessoas em todo mundo (ou, noutras palavras, uma pessoa entre cada oito) sofria de desnutrição crônica entre 2010 e 2012. De fato, a fome mata mais indivíduos todos anos do que a AIDS, a malária e a tuberculose em conjunto.

A despeito das afirmações dos indústriais ligadas à biotecnologia, nenhuma de suas características evidenciadas até o momento proporciona maiores colheitas, tolerância a secas ou outro qualquer benefício. Além disso, a tecnologia dos GMOs não busca solucionar as maiores causas da fome das populações, todas elas consequência do sistema capitalista: pobreza, falta de acesso aos alimentos e a terras cultiváveis onde os lavradores moram.

É uma triste ironia que a tecnologia das GMOs esteja efetivamente aumentando a insegurança alimentar. Esta afirmação fundamenta-se no fato de que, sob o capitalismo, as agrocorporações têm margens de lucro como prioridade número um. Exemplos disto é que mais de 80% dos GMOs em todo o mundo são criadas para tolerância a herbicidas, daí resultando o emprego de herbicidas tóxicos tais como o Roundup da Monsanto que aumentou 15 vezes. As sementes GMOs são também responsáveis pelo surgimento das “superervas daninhas” e as “superpragas” que serão destruídas apenas através de veneno ainda mais tóxico, a exemplo do 2,4-D. Não surpreende que as corporações incentivadoras do emprego dos GMOs sejam as mesmas que fabricam produtos químicos indispensáveis às lavouras oriundas dos GMOs. A Monsanto também inseriu genes em suas sementes que resistem aos seus próprios e apregoados herbicidas, encorajando os lavradores a comprarem produtos químicos de sua fabricação para borrifar as plantações, sabendo que permanecerão ativos enquanto outros organismos competem pela eliminação dos minerais do solo. Safras geneticamente criadas também geram super-pragas, pois estes organismos podem adaptar-se a genes estranhos e, eventualmente, adquirir resistência a estes.

A fim de aumentar ainda mais seus lucros em detrimento da gente comum, a Monsanto cria sementes por meio da tecnologia esterilizante “terminator” ou sementes suicidas. São plantas geneticamente modificadas para matar suas próprias sementes. Isto significa que as sementes colhidas de cultivos das “terminator” não germinarão se plantadas na estação seguinte, prática agrícola básica desde seus primórdios. A finalidade desta tecnologia é claramente explorar a indústria de sementes, evitando que os agricultores recusem as provenientes de sua própria produção, assim forçando-os a comprarem sementes geneticamente modificadas Monsanto disponíveis no mercado. Recentemente, na Colômbia, lavradores viram-se forçados a usar sementes geneticamente modificadas, do contrário seriam presos. Noutras palavras, pelos métodos da engenharia genética tipo terminator, ou seja, se os agricultores guardassem suas próprias sementes esterilizadas teriam forçosamente de retornar ao mercado de sementes todos os anos, o que lhes criaria propositadamente um ciclo de dependência.

Porque os GMOs são uma inovação recente, as corporações ligadas à biotecnologia têm obtido patentes restritivas ao uso por outras empresas ou as proíbem de efetuar pesquisas paralelas até mesmo relacionadas a seus efeitos secundários. Daí, os criadores das GMOs disporem agora de autoridade para processar judicialmente agricultores cujas lavouras não sejam fundadas por meio de GMOs ou foram contaminadas por cruzamento, mesmo que tal coisa ocorra casualmente. As GMOs por este motivo criam séria ameaça para a soberania dos agricultores e também para a segurança alimentar dos países onde elas se disseminam. O monopólio tem ameaçado afetar a soberania de agricultores, especialmente nos países em desenvolvimento, e a segurança alimentar onde elas proliferam. Conforme a ativista ambiental Vandana Shiva (*), a cruel realidade imposta pela inovação procedente das GMOs conduz à fome global e à miséria, pois as sementes são controladas e patenteadas pela Monsanto.

Com efeito, nenhuma destas sementes e nenhum destes produtos químicos chegam de graça para os lavradores. As ações das corporações, a exemplo da Monsanto, empurram cada vez mais os agricultores para a miséria e alguns são até mesmo forçados a abandonar suas atividades agrícolas.

Talvez ainda pior seja o fato de a maior parte dos agricultores sentir-se obrigada a adotar essa tecnologia, por testes mantidos sigilosamente pela Monsanto, onde algodão proveniente de sementes geneticamente criadas foi cultivado sem conhecimento dos agricultores e nenhuma medida de biosegurança fosse tomada durante os experimentos. A Monsanto escolheu especificamente a Índia para realização de seus testes, pois não haveria necessidade de subornar autoridades governamentais nem também de manipular pequenos lavradores de subsistência necessitados de sementes baratas.

Mas essas práticas não se limitam exclusivamente ao antigo mundo colonial. Até mesmo no Canadá os agricultores têm de enfrentar pressões injustas e táticas mercantis de companhias assemelhadas à Monsanto, à Dow, à AgroEvo e à Zeneca. Por exemplo, a fim de promoverem o emprego do hormônio de crescimento bovino (rBGH), essas empresas mantém sigilo sobre resultados negativos dos experimentos com o hormônio, recusando-se a revelar suas concessões e doações a clínicas universitárias dos Estados Unidos, e chegaram a ameaçar cientistas canadenses que, por iniciativa própria, têm evitado a aprovação do rBGH naquele país.

Paralelamente à segurança alimentar, também comprovaram-se riscos reais para a saúde associados à indústria das GMOs, principalmente relacionados ao intenso apoio em químicos de que dependem as culturas modificadas, mais uma vez recorrendo-se ao uso de produtos da Monsanto. Como exemplo, o Roundup tem-se relacionado a altos índices de hormônio em seres humanos. Posto que alguns riscos para a saúde possam ser exagerados por causa do uso das GMOs, é igualmente difícil confiar nas afirmações das próprias agro-firmas, levando-se em consideração o incentivo que elas adotam na promoção da tecnologia das GMOs junto a desinformados agricultores e consumidores.

Multinacionais como a Monsanto recorrem a sua influência e poder para conseguir que governantes as acompanhem em sua busca de lucros. Nos Estados Unidos, o presidente Obama logo no início do ano ratificou um projeto de lei que essencialmente autoriza as agro-corporações a persistirem na comercialização das GMOs mesmo que sua segurança mais tarde seja questionada pela US Food Administration (USFDA). Isto demonstra que sob o capitalismo, suas pretensões não encontram obstáculos, mesmo que nossa saúde e nossa segurança estejam em risco.

Não surpreende que tenha surgido uma onda de protestos contra as GMOs mundo afora, na medida em que as pessoas tentam proteger a saúde e sua fonte de subsistência. Na Índia, algodoais provenientes do plantio de sementes geneticamente modificadas foram queimados; em Liverpool, impediu-se o descarregamento de soja transgênica; e em várias partes do mundo, muita gente tem pisoteado plantações formadas para testes de GMOs. Trata-se, portanto, de um movimento radical e firme contra tentativas de manipulação do mercado global de alimentos.

Na qualidade de socialistas, não nos opomos à inovação das GMOs pois essa tecnologia tem incrível potencial para beneficiar a humanidade de muitas formas, se empregadas corretamente. A insulina humana, por exemplo, foi criada por meio de culturas durante décadas, melhorando e até salvando a vida de muita gente que padece do diabetes. No entanto, hoje é evidente que sob o capitalismo, o povo trabalhador em geral não pode controlar o emprego desta tecnologia. Por exemplo, um sistema socialista não ignoraria os efeitos secundários e evidentes de herbicidas tais como o Roundup para a saúde humana. A dúvida que muitas pessoas alimentam quanto à tecnologia das GMOs é natural em face do extremo sigilo adotado pelas agro-corporações; numa sociedade socialista, todas as informações resultantes de testes com as GMOs seriam levados ao amplo conhecimento público. Com todas as informações disponíveis, seriamos capazes de avaliar as vantagens e as desvantagens dos alimentos provenientes das GMOs tomando-se, então, fundamentada decisão sobre o prosseguimento ou não desses processos tecnológicos.

Desta forma, nossa exigência é que se estabeleça um controle público rigoroso e adote-se a nacionalização das grandes agro-corporações, pondo-se toda produção e toda pesquisa relacionadas com as GMOs nas mãos da classe trabalhadora. Exigimos, também, que se suspenda o patenteamento de sementes, pois isto é prejudicial aos agricultores. Impõe-se, ademais, a comprovação científica de que as GMOs não geram efeitos secundários para a saúde humana, conforme proclama a gigantesca Monsanto. Deve tornar-se obrigatória a rotulagem clara de todos os produtos que contenham organismos geneticamente modificados, de maneira que as pessoas saibam o que estão ingerindo. Importa, ademais, que se proclame o direito humano básico de preservar os suprimentos alimentares humanos.

Sob o socialismo, todas as grandes empresas ligadas à produção de alimentos devem estar nas mãos da classe trabalhadora e toda ela será obrigatoriamente planificada para atender as necessidades humanas e não a ganância das corporações. Não há fome devido à escassez de alimentos, mas porque a distribuição destes não é equitativa. O âmago do problema não reside na falta de alimentos, mas no capitalismo.

Trad. Odon Porto de Almeida.

N. do tradutor - Vandana Shiva é física, ecofeminista e ambientalista hindu, 61 anos. Autora de livros relacionados com o ambientalismo, alguns deles publicados no Brasil.

Tradução do artigo Genetically-modified food: For human need or corporate greed, de Ghiselle Karim, divulgado pela website In Defence of Marxism www.marxist.com, em 01/11/2013..
Nossa fonte: Controvérsia

sábado, 18 de janeiro de 2014

A velha imprensa e seus complexos, velhos e novos

A grande mídia brasileira entende que o país não deve ter projetos geopolíticos nem estratégia de projeção.

Por Roberto Amaral*, na Carta Capital

"Esse é o Brasil fazendo um jogo estratégico de longo prazo no Caribe” – Julia E. Sweig, diretora de estudos latino-americanos do Conselho de Relações Exteriores. The New York Times International Weekly.

“O Brasil não pode querer ser maior do que é” – Luiz Felipe Lampreia, ex-ministro das Relações Exteriores, governo FHC.

A liberdade de imprensa – ampla, geral e irrestrita – é um valor da democracia brasileira; conquistada pela dor dos que lutaram contra a ditadura, enquanto empresários do ramo colaboravam com a repressão, publicando textos laudatórios da ditadura, maquiando o noticiário televisivo, denegrindo a resistência, fornecendo viaturas e abrindo seus arquivos fotográficos aos esbirros. Faz parte, hoje, a ampla liberdade de imprensa, do patrimônio moral de nosso povo.

Dito isso, permito-me algumas observações sobre a imprensa brasileira. Brasileira? Aí surge o primeiro problema, de método e de fundo. O que é uma empresa jornalística brasileira? Tentemos decifrar a esfinge deitando o olhar, como convém, para os EUA. Podemos afirmar que o The New York Times é um típico jornalão norte-americano, pois está a serviço dos interesses tanto do capitalismo internacional, o grande norte, quanto dos interesses geopolíticos dos EUA. A divergência, quando se dá, é restrita ao pontual, e não é maior do que a distância entre democratas e republicanos.

Relativamente às políticas do Pentágono ou da CIA, por exemplo, a discrepância estanca na forma ou na avaliação dos métodos, jamais na condenação dos objetivos. Pode haver, e há, conflitos diante da política deste e daquele governo, preservada a defesa dos interesses estratégicos (militares acima de tudo, econômicos e políticos) dos EUA no mundo. Em outras palavras, as políticas de Estado são respeitadas, sem quebra de independência, pois a dependência essencial diz respeito aos interesses do capitalismo, nos EUA e no mundo, no mundo liderado pelos EUA. Mesmo os jornalistas liberais partem do princípio de que aquele pais é singular e deve exercer sua liderança no mundo que ele mesmo moldou a partir da 2ª Guerra.

Se essas premissas forem aceitas, podemos afirmar que a imprensa dos EUA é aquela que, mesmo em conflito com a política deste ou daquele governo, está comprometida com os interesses supremos do país, e entre eles sobrelevam os interesses estratégicos e geopolíticos.

Aí começa o imbróglio, pois a grande imprensa brasileira, liderada ideologicamente pela revistona paulista, entende que o Brasil não deve ter projetos geopolíticos nem estratégia de projeção de longo prazo de nossos interesses para além de nós mesmos. Nisso, lamentavelmente, ela não está só. Ao contrário, pode ostentar a companhia ilustre de um ex-presidente da República (e ex-ministro das Relações Exteriores), para quem o grande erro de nossa política externa é exatamente a busca de independência, formulação e pleito que vem de Hélio Jaguaribe, Afonso Arinos e San Thiago Dantas, para ficarmos adstritos aos pensadores mais destacados da segunda metade do século passado. A questão crucial não é a independência em si, mas, exatamente, uma independência em face dos EUA. Eis o que incomoda. Assim, a República repete o Império, quando essa questão se colocava diante da potência inglesa. A independência possível, mínima, não se podia colocar contra os interesses de Sua Majestade britânica. O colonizado permanece colonizado, indiferente às alterações do processo histórico. Trocam-se os senhores, mas a dependência ideológica da classe dominante é irremovível. Subdesenvolvimento não se improvisa.

Essa visão dependentista vai para além do ‘complexo de vira-lata’, firmada e cevada que é sobre interesses objetivos, materiais, concretos, redutíveis monetariamente.

Enquanto os EUA reativam sua 4ª Frota, com a óbvia missão de policiar o Atlântico Sul, onde estamos, dada sua importância econômica e geopolítica, e militar, o ex-primeiro mandatário diz que o Brasil deve ‘abrir-se ao Pacífico’, onde não temos interesses nem geopolíticos, nem estratégicos. Interesses esses, porém, que estão no Atlântico Sul, que nos põe face a face com 23 países da África ocidental. Nesse continente são notórias nossas condições privilegiadas de atuação política e a relevância de nossos interesses econômicos, pois para seus países temos o que exportar, para além de suco de laranja e soja. Um só dado para as considerações do ex-presidente: o potencial energético (petróleo) do Golfo da Guiné (100 bilhões de barris), da Nigéria, de Angola, do Congo, do Gabão, de São Tomé e Príncipe, além das grandes reservas de gás da Namíbia e de carvão na África do Sul. E esse espaço não ficará eternamente aberto. A China, menos hesitante, já está deslocando interesses brasileiros na África, inundando-a de capital (sem exigências de contrapartidas relativas à política interna dos países) e exportando seus serviços.

Recomenda o ex-presidente que estreitemos relações com os EUA. Certamente em retribuição ao fato de nos espionarem, sobretaxarem nossos produtos agrícolas, nos fazerem restrições na OMC, nos negarem assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, serem contra nossos programas espacial e nuclear, negarem acesso a tecnologias de ponta, serem contra o Mercosul e tentarem impor-nos a Alca, a colonização econômica final... Para os EUA (esteja um democrata ou um republicano sentado no trono da White House) deveremos ser a grande reserva alimentar do mundo, eternos fornecedores de commodities (alimentos e minérios não processados) e importadores de produtos manufaturados. Além, claro, de ideologia. Evidentemente é judicioso manter boas relações diplomáticas com os EUA, mas em rigoroso nível de reciprocidade, e disputar o mercado internacional, sem prioridades ou ‘relações carnais’ como pedia um ex-colega de FHC, o grotesco Ménem, ou seja, nossa política deve ser vender e comprar segundo nossas necessidades e a quem oferecer as melhores condições. A propósito, o governo Dilma acaba de dar-nos um bom exemplo, ao optar, na compra dos caças da FAB, pela proposta sueca, a que oferecia menor preço e a única a garantir transferência de tecnologia. Como eles agem, aliás...

Para setores majoritários da grande imprensa brasileira, volto a tratar da influente revistona paulista, essa história de ter projeto geopolítico, estratégia de conquista de espaços e mercados, inserção internacional, estender seus interesses para além de suas fronteiras, é política reservada às grandes potências, aos EUA e quejandos. Intentada pelo Brasil, soa como cretinice aos ouvidos deles.

Assim, dando a entender ao leitor que está descobrindo a pólvora, ou, no jargão jornalístico, dando um ‘furo’, a revistona ‘descobre’ que o Brasil (leia-se BNDES) está financiando, em Cuba, as obras de remodelação do ponto de Mariel, tocadas por uma empreiteira brasileira.

Misturemos, agora, os argumentos do ex-presidente e do pasquim, pois ambos convergem em vários pontos, mas principalmente na negação do dever (mais que um direito) que tem um país como o Brasil – sexta economia do mundo, quarto território do planeta (lembremos, 8.500 mil km2), 200 milhões de habitantes, um litoral de quase 8 mil km de extensão, uma fronteira terrestre com cerca de 17 mil km, limítrofe com dez países, 50% do território e da produção da América do Sul – de procurar ter política externa independente, consciência de seu papel de líder continental e preocupações com sua segurança, e, como consequência de tudo isso, projetar-se no mundo.

Que significa nossa presença em Cuba, de quem já somos o terceiro parceiro comercial, logo após Venezuela e China, senão uma ponte para o Caribe? Ou isso também nos é vedado? Ou não atende aos interesses brasileiros a abertura de mercados? A revistona percebeu o alcance político da ‘operação Cuba’, chamemo-la assim, e só por isso a combate, pois estamos ocupando espaços deixados pela estreiteza da política dos EUA com vistas à ilha, mesquinha política dirigida pelos ‘refugiados’ de Miami. Eis a questão, estamos nos aproveitando do isolamento imposto a Cuba, estamos nos aproveitando de sua política – irreversível— de abertura ao mercado, estamos nos instalando no Caribe, e ainda estamos ajudando um povo pobre a superar o subdesenvolvimento.

O The New Yok Times, porém, entendeu o que pretende o Brasil com essa política de longo prazo.

Sobre o mesmo porto Mariel e sobre a colaboração Brasil-Cuba (que inclui a ‘importação’ de médicos), e na mesma semana do artigo do ex-presidente e da ‘reportagem’ da revistona, o The New Yok Times, edição internacional circulando com a FSP (datada de 6 de janeiro), logo após registrar que o Brasil “contrata médicos cubanos para suprir as necessidades do SUS” (e não para mandar dinheiro para “a ditadura dos irmãos Castro” como diz a revistona), observa o que a miopia nacional não pode enxergar: “(...) o projeto sinaliza uma ambição maior do governo brasileiro que, na verdade, pretende exercer influência em Cuba – onde, lentamente, a abertura do governo vai expondo o país às forças do mercado”.

E vai mais longe: “Baseados nos programas assistenciais para aumentar as safras cubanas, os produtores brasileiros de soja e arroz também já se destacam como principais fornecedores de alimento da ilha – mas o grande projeto do Brasil é a modernização do Porto de Mariel, no valor de US$ 900 milhões, fechado pela construtora Odebrecht”.

Eis a questão: estamos nos preparando para um futuro que não podemos prever. Se o atual regime cubano fortalecer-se mediante o aprofundamento de sua atual política de ‘abertura’, estaremos, amanhã, também fortalecidos, teremos fortalecidos nossas relações e nossos interesses. Se o atual regime estiver em sua fase ‘terminal’, como afirma a revistona, afirmação que apenas revela desejo, lá estaremos quando chegarem os novos tempos. Mas ocorre que nossa presença, atendendo em qualquer hipótese aos nossos interesses, certamente dificultará a presença de quem sempre lutou contra os interesses do povo cubano. Eis a questão.