Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

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segunda-feira, 5 de maio de 2014

A sociedade e os grandes criminosos segundo Balzac

Camila Nogueira


Ele


Balzac é Balzac. Sendo assim, é compreensível que tenha sido convocado, mais uma vez, pelo Diário para a série “Conversas com Escritores Mortos”. As frases abaixo foram extraídas do livro “Código dos homens honestos”.

Monsieur Balzac, o senhor é considerado um dos maiores romancistas de todos os tempos – e também é conhecido por ter criado personagens excelentes. Vautrin é, particularmente, meu favorito. O que tem a dizer sobre ele?

Vautrin é um canalha – ou antes, um ladrão.

Isso quer dizer que o senhor o desaprova?

É claro que não. Os ladrões constituem uma classe especial da sociedade: contribuem para o movimento da ordem social; são o lubrificante das engrenagens e, como o ar, penetram em qualquer lugar; os ladrões são uma nação à parte, no interior da nação.

Estou confusa. Então o senhor aprova os ladrões?

Acho que é necessário, antes de tentar desvendar as astúcias dos ladrões, tecer sobre eles algumas considerações imparciais; talvez ninguém mais possa analisá-los sob todos os ângulos e com total sangue-frio. Mas certamente não serei acusado de querer defendê-los, pois isso seria mais que injusto. Afinal, não posso defender aqueles que podem, a qualquer momento, me roubar.

E quais seriam suas considerações imparciais?

O ladrão é um ser raro; a natureza o concebeu como uma criança mimada e despejou sobre ele toda sorte de perfeições: um sangue frio imperturbável, uma audácia a toda prova, a arte de aproveitar o momento exato, tão fugaz e tão lento, a agilidade, a coragem, uma boa constituição física, olhos penetrantes, mãos ágeis, fisionomia aberta e expressiva, todas estas qualidades não são nada para um ladrão e, no entanto, são consideradas como a soma das capacidades de um Aníbal, de uma Catarina, de um Mário, de um César.

Mas nem todos os ladrões são audaciosos, corajosos ou têm esse sangue frio imperturbável. Podemos, então, dizer que não estamos falando de todos os criminosos, e sim dos mais notáveis entre eles?

Há uma grande diferença entre um ladrãozinho qualquer e os grandes criminosos. O pequeno roubo é, mais exatamente, o seminário onde se recruta para o crime, e os ladrões de galinha não passam de maus atiradores do grande exército dos profissionais sem patente.

Há alguma diferença crucial entre eles?

O ladrão banal irá roubar sua carteira e sair correndo; o grande criminoso não se contenta com isso – seus métodos são sofisticados e elegantes, e consequentemente seu lucro é muito maior.

Então basta ao grande criminoso ter uma boa fisionomia, audácia, sedução e sangue frio? Não precisa ter um conhecimento da natureza humana, por exemplo?

Ele deve conhecer os homens, seu temperamento, suas paixões; tem que mentir com habilidade, prever os acontecimentos, avaliar o futuro, ser dono de um espírito ágil e agudo; tem que ter um raciocínio rápido, encontrar boas saídas, ser um bom comediante, bom mímico; tem que saber captar o tom e as maneiras das diversas classes sociais (imitar o funcionário, o banqueiro, o general, conhecer seus hábitos e suas características). E, acima de tudo, tem que ter imaginação, uma brilhante imaginação. Ele não é forçado a estar sempre inventando novos recursos? Para o ladrão, o fracasso equivale a uma condenação.

Mas, monsieur Balzac, levando em conta tudo o que o senhor disse, esse criminoso notável é um ser fora do comum, a quem pouco faltou para ser um grande homem. E o que impediu que isso acontecesse?

O resultado de tantos dons é, em geral, uma extrema propensão à indolência. Entre o objeto cobiçado e a posse, não vêem mais nada, entregam-se felizes ao mal, nele se instalam, a ele se habituam.

E como podemos reconhecer esses grandes criminosos?

Nunca desconfie de seu vizinho da esquerda, que usa uma camisa de tecido grosso, uma gravata branca e uma roupa limpa, mas de tecido barato; ao contrário, acompanhe com muita atenção os movimentos de seu vizinho da direita, de gravata fina e elegante, muitos berloques, suíças, ar de gente honesta e próspera, maneira desenvolta de falar; é este camarada quem vai roubar seu lenço ou seu relógio.

E o que fazer quando somos roubados por eles?

Oh, infelizmente não há nada a fazer. Se o seu brilhante desapareceu, não perca tempo em pedir contas a esse senhor. Inútil revistá-lo, nada vai encontrar; ele irá se fazer de ofendido e você acabará se humilhando à toa.

Mas e aqueles que entram no crime por gosto?

Estes são aqueles que Dr. Gall descreveu como infelizes cujo vício decorre de sua organização mental. Há, naturalmente, grandes criminosos que amam o vício e que o abraçam efusivamente; acho que estes entram na lista daqueles que entram no crime por gosto.

E os que não amam o vvício, e nem se sentem confortáveis com ele? Não sentem remorso?

Em alguns deles há remorsos crescentes antes que a voz da consciência se apague. A multidão, ao ver um homem no banco dos réus, o vê como um criminoso, o abomina; no entanto, esquadrinhando sua alma, um padre pode ver nascer o arrependimento. Que grande tema para a reflexão! A religião católica é sublime quando, em vez de virar o rosto com horror, abre os braços e chora com o pecador.

Seria certo afirmar que os ladrões sempre existiram e sempre existirão?

São o produto necessário de uma sociedade constituída. Na verdade, em todos os tempos, os homens sempre estiveram enamorados da fortuna. Todos dizem: “Hoje em dia, o dinheiro é tudo, quem tem dinheiro tem tudo.” Ah! Evitem repetir essas frases banais, passarão por tolos. Desde que o mundo é mundo, o dinheiro foi adorado e buscado com o mesmo ardor.

Para terminarmos nossa conversa, eu gostaria de perguntar se o único ladrão é aquele que rouba explicitamente.

Ora, todos procuram uma maneira de fazer uma fortuna rápida e sólida, porque todos sabem que, depois de adquirida, ninguém se lamentará; ora, essa maneira é através do roubo, e o roubo é coisa comum.

Como assim?

O comerciante que ganha cem por cento, rouba; também rouba o fornecedor que paga a trinta mil homens dez centavos por dia, anota os ausentes, estraga o trigo misturando farelo para render mais; outro queima um testamento; outro adultera os impostos; outro inventa uma caixa de pensões: há mil maneiras de roubar. O verdadeiro talento consiste em ocultar o roubo sob uma aparência de legalidade: que horror que é apoderar-se do bem alheio, só o que vem de nós nos pertence, eis a grande astúcia. Os ladrões espertos são recebidos pela sociedade, passam por pessoas de bem.

Algo a acrescentar?

Os ladrões são como uma perigosa peste das sociedades: mas não se pode negar sua utilidade para a ordem social. Se compararmos uma sociedade a um quadro, veremos que são necessárias zonas de zombra e zonas de luz, não? Que seria de nós se o mundo fosse povoado exclusivamente de pessoas honradas, ricas, de bons sentimentos, tolas, piedosas, políticas, simples, dissimuladas? Seria um tédio mortal, não haveria mais nada picante. A humanidade entraria em luto no dia em que já não houvesse fechaduras.
Sobre o Autor
Camila Nogueira, nossa correspondente de literatura, tem a impressionante capacidade de ler romances de 600 páginas em dois dias -- e depois citar frases inteiras da obra. Com apenas 16 anos, ela já leu as obras completas dos maiores mestres da literatura - como Balzac, Dumas, Fitzgerald e Dickens.
Nossa fonte: DCM

domingo, 4 de maio de 2014

Trabalho excessivo e precário é herança neoliberal de FHC,


diz estudo da Unicamp


De acordo com economista, a estabilidade econômica do período Lula, que reduziu o desemprego, não foi suficiente para reverter o legado deixado pela gestão tucana aos trabalhadores

por Redação da RBA

REPRODUÇÃO / ARQUIVO RBA



Trabalhadores de todos os setores sofrem as consequências de opções das empresas pelo lucro a qualquer custo

São Paulo – Apesar de a Constituição de 1988 trazer dispositivos para regulação do tempo de trabalho, na prática isso não acontece. Os brasileiros estão cada vez mais atrelados ao trabalho, fazem muitas horas extras e ainda levam tarefas para fazer em casa. Para complicar, a tendência é que essa prática se estenda a um número cada vez maior de profissionais, de diversas categorias, uma vez que o empresariado, em suas relações com os sindicatos, dão sinais claros de se esforçarem para criar mecanismos que transformem em hora de trabalho até mesmo momentos em que o trabalhador está em casa com a família.

De acordo com uma pesquisa do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas divulgada esta semana, as longas jornadas e o trabalho precário têm origem na política neoliberal adotada nos anos 1990, marcados pelo governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). A estabilidade do período de Luis Inácio Lula da Silva, que reduziu o desemprego e permitiu aos sindicatos lutarem pela redução da jornada, porém, foi insuficiente para atenuar as condições de trabalho dos brasileiros.

Para chegar a tais conclusões, o economista Eduardo Martins Ráo, autor da pesquisa, analisou microdados do período entre 1992 e 2009 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Segundo ele, entre 1992 a 1998, houve no Brasil o alongamento da jornada em todos os setores, ramos de atividade e ocupações. Enquanto a Alemanha, Austrália, Bélgica e Canadá tinham jornada abaixo de 1.800 horas por ano – aqui já superava 2.000 horas. Nos anos 1990, além de ampliada, começou a se flexibilizar. Era o surgimento de uma nova jornada.

De 1995 em diante, época de desemprego alto, a jornada continuou ampliada por mecanismos como o just in time, a polivalência, os trabalhos em grupo, as metas de produção atreladas a PLR, o banco de horas, o trabalho a tempo parcial e aos domingos e feriados, a terceirização, a recomposição das escalas e turnos de revezamento, os sistemas de controle de qualidade e outros mecanismos mais sofisticados de controle do ritmo de trabalho.

Frente a altas taxas de desemprego, as centrais sindicais não conseguiam colocar em pauta a questão da redução da jornada na mesa de negociação porque era preciso manter os postos de trabalho.

De 1999 a 2003, quando o desempenho da economia era baixo, 39,6% da população economicamente ativa declarou cumprir horas excepcionais. Com maior ajuste fiscal, o governo passou a fiscalizar mais e com isso houve aumento da formalização. A jornada se mantinha então dentro das normas legais.

A jornada começou a ser reduzida entre 2004 a 2009, com redução das horas extras de 38% para 31,8%, tornando-se mais padronizada, permanecendo assim dentro das normas constitucionais [44 horas semanais]. Para o pesquisador, a retomada do crescimento econômico criou mais empregos formais e aumentou da formalização das relações de trabalho. Ele constatou que alguns setores passaram a trabalhar menos, como os autônomos.

Apesar da redução, as empresas não perderam tempo e logo ampliaram mecanismos de flexibilização para manter seus empregados cada vez mais conectados ao trabalho, como metas a serem cumpridas ou de tarefas a serem feitas em casa. Os empresários trabalham agora para legalizar essas práticas para controlar o tempo do trabalhador.

Mesmo assim, a conjuntura atual levou à retomada da discussão, pelos trabalhadores, da redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, com a consequente manutenção dos salários.

Em 2003, as centrais sindicais fizeram uma campanha nesse sentido, que chegou a ser transformada em projeto de lei, mas que não foi votado pelo Congresso. Ainda segundo o pesquisador, contribuem para uma discussão mais qualificada em torno da redução tanto da jornada quanto do tempo de trabalho.

Além disso, com boa parte da população economicamente ativa está estudando mais, é possível pensar em um mecanismo que estenda o período de formação dos jovens, que passariam a ingressar no mercado de trabalho um pouco mais tarde, entre 25 e 27 anos.

É possível também, conforme o economista, é possível pensar num modelo que retire as pessoas mais cedo do mercado de trabalho, embora essa medida seja um pouco mais complicada, em razão do impacto que causaria na Previdência Social. Entretanto, de acordo com o pesquisador, não se pode deixar de considerar que, em 20 anos, o país terá um número elevado de idosos. A questão é: melhor um grande número de idosos pobres trabalhando ou uma população idosa em uma posição mais confortável em termos de rendimento, que não trabalhe?

O economista reconhece que tal pensamento vai na contramão de um movimento em curso para ampliar o tempo de trabalho com vistas à aposentadoria. Há propostas, inclusive, de igualar o tempo de serviço das mulheres ao dos homens. No Brasil, o indivíduo tem que trabalhar até os 65 anos de idade ou contribuir por 35 anos para poder se aposentar, o que é inviável num mercado de trabalho marcado pela alta rotatividade.

Ele defende que a questão da jornada e do tempo de trabalho seja atrelada à qualidade de vida, já que inúmeras pesquisas vêm demonstrando o crescimento das chamadas doenças ocupacionais. Ou seja, as condições e o ritmo do trabalho têm influenciado cada vez mais na saúde do trabalhador. Tais preocupações, presentes dentro dos sindicatos, devem ser expandidas para o conjunto da sociedade – o que não é fácil.

Com informações do Jornal da Unicamp

Salve Leci Brandão!

No show do 1º de Maio, Leci Brandão chama atenção para 'genocídio da juventude negra'


Deputada e cantora critica exploração comercial do caso de racismo contra o jogador Daniel Alves e cobra mudanças na atuação policial para que cor de pele não seja visto como 'carimbo da bandidagem'
por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 01/05/2014 17:19, última modificação 02/05/2014 16:21Comments

DANILO RAMOS
/ RBA

A cantora e ativista Leci Brandão, no ato da CUT em São Paulo pelo Dia dos Trabalhadores


São Paulo – Durante seu show de 40 minutos no Vale do Anhangabaú, a cantora e deputada estadual Leci Brandão (PCdoB) chamou a atenção para "o genocídio da juventude negra" e pediu mudanças nas políticas de segurança. "A gente quer que as secretarias de segurança pública, especialmente a de São Paulo, entendam que a polícia é para defender cidadão, para nos proteger da insegurança. Não é a cor da pele, a etnia, que dá o carimbo da bandidagem", afirmou, depois da apresentação.

Ela também fez ressalvas ao episódio no último fim de semana envolvendo o jogador Daniel Alves, do Barcelona, que comeu uma banana arremessada por um torcedor durante uma partida, em manifestação racista. "Foi um momento de tensão no campo, correto. Mas outras pessoas se aproveitaram", comentou, referindo-se a uma possível exploração comercial do caso e repudiando o slogan surgido nas redes. "Não somos todos macacos. Somos negros."

Para Leci, o que se seguiu foi uma "onda ruim", em sua definição. "Não vi ninguém com uma camisa dizendo que é contra o genocídio da juventude, que somos todos Cláudia (referência à mulher arrastada em um carro de polícia no Rio de Janeiro), somos todos MC Daleste (cantor e compositor, assassinado em 2013), somos todos Sabotage (cantor também assassinado, em 2003)."

Com 30 anos de participações no 1º de Maio, a artista destacou a relevância da organização dos trabalhadores. "É fundamental incentivar as pessoas a entender a importância das centrais sindicais. As conquistas só acontecem porque existem os sindicatos."

Leci também defendeu a implementação de políticas sociais para a redução da desigualdade. "Foram muitos anos (de exclusão). A gente está conseguindo mudanças significativas. E quero muito que continue. Eles já tiveram todo o tempo. Agora é a nossa vez."

Depois de Leci, o cantor Michel Teló fez provavelmente um dos shows mais rápidos em todos os 1º de Maio. Foram menos de três minutos no palco.

Às 17h, apresentou-se o pianista João Carlos Martins. Em repertório diferente do habitual para atos sindicais, um tenor, Jean William, cantou Ave Maria, de Charles Gonoud. No início do ato no Anhangabaú, um grupo de artistas, incluindo acrobatas, fez encenações com referências ao tema do evento (democratização da comunicação).
Nossa fonte: RBA

Mídia monopolizada afeta a economia


Por Helena Sthephanowitz, na Rede Brasil Atual:

Já há amplos estudos sobre a falta de democratização dos meios de comunicação de massa, sobretudo a televisão, na influência política. A mídia influiu na sustentação da ditadura e nos resultados das eleições após a redemocratização. Mesmo que desde 2002 não consiga decidir quem sai vitorioso nas eleições presidenciais, a mídia conservadora e neoliberal tem sido decisiva para levar as eleições ao segundo turno. Tem sido fundamental também para eleger um parlamento de maioria conservadora, que impede reformas populares e conserva os privilégios de quem detém o poder econômico, incluindo aí os donos da própria mídia.

Influi ainda na formação do espírito antipolítico do cidadão, sempre associando organização partidária e social não a instrumentos de conquistas populares, mas sempre e quase unicamente a escândalos de corrupção. Isso se dá pela predominância de um pensamento único conservador e neoliberal nas linhas editoriais, contrário a qualquer pensamento transformador do sistema econômico vigente, onde demandas populares diferentes desta linha não têm voz.

Com a influência política insuficiente para decidir eleições presidenciais nos três últimos pleitos, passou a haver uma tentativa de influir na própria economia. Sucessos, como o cumprimento de metas de inflação, são noticiados como se fossem fracassos. Aliás, até que ponto o próprio alarmismo do noticiário sobre esse tema, como se a inflação fosse a toda hora sair de controle, não tem afetado a própria realimentação da inflação em algum grau? Até que ponto a “overdose” de sensacionalismo tem influído nos ânimos de comerciantes para aumentar os preços? O pior é que aqueles que caem na tentação de subir preços sem que seus custos tenham aumentado, apenas por influência do noticiário, acabam diminuindo as vendas, ou perdendo mercado para o concorrente que não subiu, desaquecendo seu próprio negócio. Se esse noticiário deixar de contaminar marginalmente e contaminar a maioria, afeta o próprio crescimento do PIB.

E até que ponto o mesmo noticiário tem influído no desânimo do consumidor, artificialmente fabricado, tanto para resistir a aumentos, como para reduzir o consumo?

Note que não se trata de controle dos meios de comunicação e nem de censura. Pelo contrário, democratização significa ampliação de vozes, aumento da concorrência no mercado de informações. Ninguém está querendo calar as atuais TVs conservadoras e neoliberais, mas é preciso que o telespectador tenha também acesso a outras fontes de informações com visões diferentes e que informem dados sonegados pelos atuais donos da mídia.

Recentemente a empresária Luíza Trajano, dona do Magazine Luiza, surpreendeu ao dar uma visão diferente da linha editorial dos noticiários das Organizações Globo. Luíza, em um debate sobre a economia em canal de TV por assinatura, usou uma figura de linguagem bastante popular e disse que os críticos só enxergavam o copo meio vazio, nunca enxergavam a parte meio cheia do copo.

Claro que um noticiário para ser completo deve mostrar tanto a parte meio cheia, como a parte meio vazia do copo. No entanto há um oligopólio na mídia que prega um pensamento único e que só noticia a parte meio vazia. Falta ao cidadão o direito de ser informado em sua plenitude, da parte meio cheia do copo.

Se o tema democratização dos meios de comunicação de massa até hoje despertou paixões políticas, agora já é fator de ordem econômica também. Um noticiário prolongado que falseia sistematicamente as reais expectativas econômicas, pode demover empreendedores de empreender, consumidores de comprar o que precisam, prejudicando a economia como um todo e a prosperidade dos cidadãos e da nação.

Céu lembra Bob Marley em curta temporada ao público paulistano

Por Redação, com RBA - de São Paulo


Ceu e sua bela voz, em curta temporada no Sesc Belenzinho

Em abril de 1973, Bob Marley e a banda The Wailers lançavam seu quinto disco, Catch A Fire. O álbum, considerado até hoje como um dos melhores do gênero, foi o primeiro long play de reggaeque fez sucesso fora da Jamaica. Na semana em que se celebra os 33 anos de morte de Bob Marley (11 de maio de 1981), a cantora Céu faz uma homenagem ao Rei do Reggae na Comedoria do Sesc Belenzinho, em São Paulo, nos dias 8 e 9 de maio, às 21h30. Os ingressos começam a ser vendidos ontem pelo site do Sesc e a partir desta quarta-feira começa a venda nas bilheterias das unidades.

A cantora paulistana é “adepta” do reggae desde seu primeiro álbum, CéU, lançado em 2006, no qual ela interpreta Concrete Jungle, a canção que abre o lendário disco de Marley & The Wailers. Em Vagarosa, de 2009, ela também privilegia o ritmo africano com Cangote, Comadi e Papa. Em seu disco mais recente, Caravana Sereia Bloom, de 2011, Céu também gravou You Won’t Regret It, da dupla Lloyd & Glen, a qual usava para ninar sua filha, Rosa Morena. Foi devido à sua ligação quase “umbilical” com o reggae, que o site Radiola Urbana, em parceria com o Sesc, convidou Céu para participar do projeto 73 Rotações, em que vários artistas brasileiros foram reinterpretam discos memoráveis lançados em 1973.

É esta a turnê que a paulistana tem feito pelo Brasil e que traz agora ao Sesc Belenzinho. Ela interpreta, além de Concrete Jungle, Stir It Up, Stop That Train, No More Trouble, All Day All Night e I’m Still Waiting, cujas letras são marcadas por protestos contra injustiças sociais e racismo. A voz doce e malemolente de Céu se encaixa como luva na interpretação do álbum Catch a Fire, mas a cantora já adiantou que provavelmente não vá registrar a homenagem ao Rei do Reggae. Ou seja: só quem for aos shows verá o tributo ou, no máximo, poderá assitir, pela internet, aos vídeos gravados por fãs.
Nossa fonte: CdB

sábado, 3 de maio de 2014

A produção capitalista do espaço



de David Harvey, em Outros Livros
por Marília Arantes




Destaque na parceria com Editora Annablume, obra será oferecida, em maio, com até 60% de desconto. Mesmas condições valerão para outros 23 livros

Vinte e quatro títulos editados pela Editora Annablume – e voltados ao exame de temas que Outras Palavras aborda com frequência – estarão à venda em condições especiais, em nossa loja virtual, em maio. Todos os leitores do site terão desconto de 30%. Para os participantes de Outros Quinhentos, nosso programa de sustentação autônoma, a redução será ainda maior: entre 40% a 60%.1

Um dos destaques da parceria é A produção capitalista do espaço (2001), do geógrafo Britânico David Harvey. Nele, o autor propõe uma avaliação crítica do conceito pós-modernismo, proposto pelo seu polêmico livro Condição pós-moderna, referencial aos anos 90. Ele ultrapassa os limites da geografia, transitando pela interdisciplinaridade em questões da economia, antropologia e política, principalmente.

O livro traz uma entrevista com Harvey, publicada na revista New Left Review, em 2000, além de sete capítulos nos quais ele propõe uma possível reinvenção da Geografia a partir da reconstrução de preceitos da teoria social de Marx. Ao capítulo final, inclui-se conhecida análise do autor sobre o mercado artístico, na qual Harvey aponta o mecanismo de supervalorizações enquanto claro sintoma do consumo e acumulação de capital na globalização. Nas livrarias, a obra Harvey é vendida por R$ 47. Leitores do site poderão comprá-lo por R$ 32,90 e participantes de Outros Quinhentos, por R$ 28,20 (desconto de 40%), R$ 23,50 (50%) ou apenas R$ 18,80 (60%). Nos próximos dias, haverá informações detalhadas sobre como obter os descontos para esta e as demais 23 obras.

A parceria com a Annablume oferece um benefício adicional. Os cem primeiros participantes de Outros Quinhentos que comprarem livros da editora em nossa loja receberão, grátis, um exemplar do livro Ecológica, de André Gorz.

1 Doadores de R$ 12 /mês ou R$ 120 /ano, recebem 40% de desconto; de R$ 25 reais /mês ou R$ 250 /ano, 50%; e de R$ 60 reais /mês R$ 600 /ano, 60%.
Nossa fonte: Outras Palavras

“O Capital” de Thomas Piketty: tudo o que você precisa saber sobre o surpreendente best-seller

por : Diario do Centro do Mundo



O artigo abaixo foi publicado no site unisinos. O autor é Paul Mason, editor cultural e digital do Channel 4 News, do Reino Unido.

Que o capitalismo é injusto já foi dito antes. Mas é a forma como Thomas Piketty o diz – sutilmente mas com uma lógica implacável – o que levou os economistas da direita a um frenezi, tanto aqui [na Inglaterra] quanto nos Estados Unidos.

O seu livro – intitulado “Capital in the Twenty-First Century” [O capital no século XXI] – disparou na lista entre os mais vendidos no site Amazon. Tê-lo consigo, em alguns ambientes de Manhattan, se tornou a mais nova ferramenta para se conectar socialmente com jovens progressistas. Ao mesmo tempo, seu autor vem sendo condenado como neomarxista por comentaristas de direita. Afinal, qual a causa de tudo isso?

O argumento de Piketty é que, numa economia onde a taxa de rendimento sobre o capital supera a taxa de crescimento, a riqueza herdada sempre crescerá mais rapidamente do que a riqueza conquistada. Assim, o fato de que filhos ricos podem passar de um ano sabático sem rumo a um emprego no banco, na rede de televisão, etc., do pai – enquanto os filhos pobres continuam transpirando dentro de seus uniformes – não é acidental: é o sistema funcionando normalmente.

Se se tem um crescimento lento junto de rendimentos financeiros melhores, então a riqueza herdada irá, na média, “superar a riqueza acumulada de uma vida toda de trabalho por uma ampla margem”, diz Piketty. A riqueza irá se concentrar em níveis incompatíveis com a democracia, irá abandonar a justiça social. Em suma, o capitalismo cria automaticamente níveis de desigualdade que são insustentáveis. A crescente riqueza daquele 1% não é um episódio isolado nem mera retórica.

Para entender por que o sistema dominante acha esta proposição um tanto desagradável, é preciso compreender que se pensava ser o assunto “distribuição” – termo bonito para se referir à desigualdade – um tema acabado. Simon Kuznets, o bielorrusso emigrado que se tornou uma figura importante da economia americana, fez uso das informações disponíveis à época para mostrar que, embora as sociedades se tornassem mais desiguais nos primeiros estágios da industrialização, esta desigualdade diminuiria na medida em que elas alcançassem a maturidade. Tal “curva de Kuznets” fora aceita pela maioria dos profissionais de economia até Piketty e seus colaboradores produzirem as provas para mostrar que isso era falso.

Na verdade, a curva vai exatamente na direção oposta: o capitalismo começou desigual, achatou a desigualdade durante grande parte do século XX, mas atualmente está voltando em direção aos níveis dickensianos de desigualdade no mundo.

Piketty aceita a ideia de que os frutos da maturidade econômica – aptidões, formação e educação da força de trabalho – promovem, de fato, uma maior igualdade. Mas eles podem ser neutralizados por uma tendência mais fundamental no sentido da desigualdade, que é desencadeada onde quer que a demografia, a baixa taxação ou a fraca organização trabalhista permita. Grande parte das 700 páginas do livro são gastas mobilizando as provas de que o capitalismo do século XXI percorre um trajeto só de ida em direção à desigualdade – a menos que façamos alguma coisa.

Se Piketty estiver certo, haverá enormes implicações políticas, e a beleza do livro é que ele nunca se abstém de apontá-las. O pedido feito por Piketty de um imposto global “confiscatório” sobre a riqueza herdada faz outros economistas, em princípio radicais, parecerem familiares. Ele propõe um imposto de 80% sobre os rendimentos acima de 500 mil dólares ao ano nos EUA, assegurando a seus leitores que não haveria nem uma fuga de grandes executivos para o Canadá tampouco uma desaceleração do crescimento, uma vez que o resultado seria simplesmente suprimir tais rendimentos.

Embora supere a agenda macroeconômica, os golpes colaterais do livro contra a moda microeconômica, muitas vezes trazidas em notas de rodapé, parecem uma piada interna contra a geração para a qual todos os problemas pareciam resolvidos, com exceção dos preços da cocaína vendida nas ruas de Georgetown.

Além disso, o livro hipnotizou os profissionais da economia por causa da forma como Piketty cria teoricamente o seu próprio mundo. Ele define as duas categorias básicas, riqueza e renda, de forma ampla e assertiva como ninguém antes tinha se preocupado em fazer. Os termos e as explicações da obra são extremamente simples; com uma infinidade de dados históricos, Piketty reduz a história do capitalismo a um claro arco narrativo. Para se desafiar a sua argumentação, é preciso rejeitar suas premissas e não sua elaboração.

Desde a primeira página ele, ilustra com observações viscerais, o mundo injusto no qual vivemos: começa com o massacre de Marikana e não esmorece. Ele apresenta não só os índices de juros do século XVIII como provas, mas também as obras de Jane Austen e Honoré de Balzac. Usa estes dois escritores para ilustrar como, no início do século XIX, era lógico desdenhar o trabalho a favor do casamento pela riqueza. Isso se tornou tão presente que fortaleceu o mito central do capitalismo e sua justificativa moral: aquela de que a riqueza é gerada pelo esforço, pela criatividade, pelo trabalho, pelo investimento correto, pelo risco assumido, etc.

Para Piketty, o período de meados do século XX marcado pelo aumento da igualdade foi um pontinho produzido pelas exigências da guerra, do poder do trabalho organizado, da necessidade de uma tributação alta, por fatores demográficos e pela inovação técnica.

Dito de forma direta, se o crescimento for alto e o rendimento do capital for suprimido, poder-se-á ter um capitalismo mais igualitário. Mas, diz Piketty, uma repetição da era keynesiana é improvável: o trabalho está enfraquecido, a inovação tecnológica está demasiado lenta, o poder global do capital está demasiado forte. Além disso, a legitimidade deste sistema desigual é alta, isso porque ele encontrou formas de estender a riqueza à classe empresarial de uma forma que não se conseguiu fazer no século XIX.

Se o autor estiver certo, as implicações para o capitalismo são bastante negativas: estamos diante de um capitalismo com baixo crescimento, combinado com altos níveis de desigualdade e baixos níveis de mobilidade social. Se o sujeito não nascer na riqueza, será bastante difícil enriquecer.

Seria Piketty o novo Karl Marx? Qualquer um que tenha lido este último saberá que ele não o é. A crítica de Marx ao capitalismo não era sobre a distribuição, mas sobre a produção: para Marx não seria o aumento da desigualdade, mas sim uma ruptura no mecanismo de lucro o que levaria o sistema a seu fim.

Onde Marx via relações sociais – entre trabalhadores e gerentes, proprietários de fábricas e a aristocracia rural –, Piketty vê apenas categorias sociais: riqueza e renda. A economia marxista vive num mundo onde as tendências interiores do capitalismo são contrariadas por sua experiência de superfície. O mundo de Piketty é feito somente de dados históricos concretos. Então, as acusações de um marxismo suave estão completamente equivocadas.

Mais precisamente, Piketty colocou uma bomba não detonada dentro da economia clássica, dominante. Se a causa subjacente da catástrofe bancária de 2008 foi a queda na renda ao lado de uma crescente riqueza financeira, então – diz Piketty – estas coisas não foram por acaso: não foram produtos de uma regulação frouxa ou de uma ganância simples. A crise é o produto do sistema funcionando normalmente, e devemos esperar mais.

Um dos capítulos mais interessantes é o debate proposto por Piketty do aumento quase universal daquilo que ele chama de “Estado social”. O crescimento contínuo na proporção da renda nacional consumida pelo Estado, gasto nos serviços universais, em pensões e benefícios, sustenta o autor, é uma característica irreversível do capitalismo moderno. Ele observa que tal distribuição se tornou uma questão de “direito” às coisas – de saúde e pensões – em lugar de simplesmente ser um problema dos índices de tributação. A sua solução é uma taxa específica, progressiva, sobre a riqueza privada: um imposto excepcional sobre o capital, possivelmente combinado com o utilização ostensiva da inflação.

A lógica política para a esquerda está clara. Durante grande parte do século XX a redistribuição fora feita através de imposto sobre os rendimentos. No século XXI, qualquer partido que queira redistribuir precisará confiscar a riqueza, e não somente a renda.

O poder da obra de Piketty é que ela também desafia a narrativa de centro-esquerda da globalização, que acreditava que a requalificação da força de trabalho, combinada com uma redistribuição amena, iria promover a justiça social. Isso, demonstra Piketty, é um engano. Tudo o que a social-democracia e o liberalismo podem produzir, com suas atuais políticas, é o iate do oligarca coexistindo com o banco de alimentos para todo o sempre.

A obra de Piketty, “Capital in the Twenty-First Century” (diferentemente de “O Capital”, de Marx) contém soluções no próprio terreno do capitalismo: os 15% de impostos sobre o capital, os 80% de impostos sobre os altos rendimentos, uma transparência obrigatória em todas as transações bancárias, uma utilização ostensiva da inflação para a redistribuição da riqueza. Ele considera algumas destas soluções “utópicas”, e está certo nisso. É mais fácil imaginar um colapso do capitalismo do que uma elite consentir com estas ideias.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

As duas realidades... opostas


Como os médicos agiram com JB nas dores nas costas e como agem com Genoino no coração danificado


por : Paulo Nogueira (DCM)



O rei das licenças


Deu no Estadão em agosto de 2010, antes que Joaquim Barbosa se tornasse herói do jornal por conta de sua conduta no Mensalão.

Aspas e dois pontos.

“O ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, que está de licença por recomendação médica, alegando que tem um “problema crônico na coluna” e, por isso, enfrenta dificuldade para despachar e estar presente aos julgamentos no plenário do STF, não tem problemas para marcar presença em festas de amigos ou se encontrar com eles em um conhecido restaurante-bar de Brasília.”

“Na tarde de sábado (ontem), a reportagem do Estado encontrou o ministro e uns amigos no bar do Mercado Municipal, um point da Asa Sul. Na noite de sexta-feira, ele esteve numa festa de aniversário, no Lago Sul, na presença de advogados e magistrados que vivem em Brasília.”

“Joaquim Barbosa está em licença médica desde 26 abril. Se cumprir todos os dias da mais nova licença, ele vai ficar 127 dias fora do STF, só neste ano. Em 2008, ficou outros 66 dias licenciado. Ano passado pegou mais um mês de licença. Advogados e colegas de tribunal reclamam que os processos estão parados no gabinete do ministro.”

Na mesma ocasião, Reinaldo Azevedo, na Veja, publicou o seguinte.

“Seria o mínimo de consideração com a sociedade, com o erário, com os seus pares, com o Supremo, que o ministro Barbosa viesse a público dar uma explicação”, disse o presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante Júnior. “Não há coerência entre a postura de não trabalhar por um problema de saúde, que é natural, qualquer pessoa pode ter, e de ter uma vida social onde isso não é demonstrado.”

Tudo isso para mostrar o seguinte: a extraordinária liberalidade que Joaquim Barbosa sempre demonstrou em relação a si mesmo nas questões médicas se tornou o oposto quando em questão está a saúde de Genoino.

E convenhamos: dores crônicas nas costas – devidas a excesso de peso e falta de alongamento, em geral — são infinitamente menos graves que cardiopatias.

Quais foram os médicos que foram tão generosos com Barbosa? Algum deles foi incumbido de avaliar Genoino?

Se eu fosse advogado de Genoino, averiguaria isso.

Seja como for, existem duas realidades para JB. Uma, a dele próprio, plena de regalias, e não só médicas, aliás.

JB não hesitou, por exemplo, em apanhar um avião da FAB e enchê-lo de jornalistas que iriam aplaudir uma palestra insignificante que ele daria na Costa Rica. (O Globo estava presente, naturalmente. As Organizações Globo não tinham dinheiro para pagar a viagem de sua jornalista. Pausa para rir, ou chorar.)

Ninguém se indignou com o voo de Joaquim Barbosa, embora o de Renan tenha despertado centenas de artigos moralistas sobre o emprego do dinheiro público.

A segunda realidade, para JB, é a dos outros. Imagine se a cardiopatia fosse dele, e não de Genoino.

Se dores nas costas o levaram a faltar meses e meses, o que ele faria se seu coração estivesse danificado seriamente como o de Genoino?

Este é o presidente da corte surprema. Esta é justiça segundo Joaquim Barbosa.

Sobre o Autor:  O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Os três candidatos

A mudança de estilo de Dilma e Eduardo Campos

Luis Nassif

Novos lances radicais alteram o jogo eleitoral.

Os candidatos disputam dois universos: o popular e o empresarial (e, por tabela, o da classe média midiática).

Vamos a situação atual.

Dilma Roussef

Em nenhum momento, o governo Dilma Rousseff abandonou as políticas sociais. Pelo contrário, aprofundou-as com o Brasil Sorridente, a manutenção da política de reajustes do salário mínimo e isenções da folha que permitiram a ampliação do mercado de trabalho formal.

Seu problema é a postura política em relação aos movimentos sociais (e não só em relação a eles) e aos sindicatos. Sempre os viu de cima para baixo, ela como um poder concedente, não como uma igual, lembrando muito mais a postura de um Getúlio Vargas do que de um Lula.

Dilma sempre se viu como a defensora dos excluídos, dos setores não organizados – o que é uma característica positiva extraordinária.

Os desassistidos não têm quem os defenda, por vulneráveis são pouco exigentes e, também, extremamente reconhecidos a quem os ajuda.

Já os movimentos organizados são petulantes.

Experimente quebrar lanças em favor de determinado movimento social – ou sindical. Ao final do processo, as lideranças dirão que tudo foi possível devido à sua própria pressão política. Políticos sensíveis à causa jamais concedem; são “obrigados a ceder” graças ao espírito de luta das lideranças do movimento.

É irritante, sim, mas essa petulância é um importante sinal de autoafirmação, daqueles recém chegados ao jogo político. É necessário paciência e maturidade para tratar com eles e acompanha-los em seu processo de amadurecimento, entender e aceitar o jogo político das lideranças.

Dilma não parece ter paciência para esse jogo.

Esse é o busílis da questão, o ponto central de desgaste do estilo Dilma em relação a quase todos os setores organizados da sociedade, de movimentos sociais a empresariais.

No atual estágio de desenvolvimento social brasileiro, há pouco espaço para o estilo concedente de Getúlio. O governante tem que se comportar como o líder articulando forças, tratando as lideranças da sociedade como iguais, sem impor soluções.

Em seu período de governo, Dilma procurou a aliança com os chamados setores produtivos da economia, geradores de emprego e desenvolvimento. Mesmo com todas as políticas em relação ao setor, com a ampliação do crédito público, das compras governamentais, das isenções tributárias, Dilma perdeu a batalha tanto junto ao mercado financeiro como ao empresarial em geral– devido ao seu estilo centralizador.

Com seu discurso de ontem, jogou a toalha em relação à conquista do público empresarial e passou a apostar as fichas nos segmentos populares.

Mas atuou com o mesmo estilo com que contemplou setores industriais: do alto do seu poder de presidente, concedeu aos trabalhadores e miseráveis a correção da tabela do Imposto de Renda, o reajuste do Bolsa Família e a manutenção da política de reajustes do salario mínimo. E tudo isso acompanhado de mudanças radicais na retórica.

Essas mudanças de retórica exigem uma estratégia cautelosa de transição que não foi seguida, para não passar a ideia de oportunismo em um momento crítico da sua candidatura

O discurso tem a vantagem de mostrar que Dilma não está inerte. Rompido o imobilismo, é possível que corrija as vulnerabilidades centrais, a teimosia encruada. Mas, para isso, terá que avançar muito além da retórica e cortar na própria carne –na parte central de seu temperamento e estilo de governar.

A reconstrução da credibilidade passa por mudanças ministeriais, para um Ministério de primeira grandeza, por mudanças no estilo autocrático de gestão, pela criação de instâncias de participação da sociedade dotadas de capacidade efetiva de influir em políticas públicas. E pela capacidade de tratar a chamada sociedade civil organizada – de movimentos sociais a empresariais – como um igual.

Eduardo Campos

Já Eduardo Campos está preso a dilemas complexos.

Sua estratégia inicial era se apresentar como um continuador melhorado do governo Lula. Para ganhar massa eleitoral, no entanto, teve que juntar seus ideólogos nacionalistas aos formuladores mercadistas e antidesenvolvimentistas de Marina Silva.

O discurso popular ficou comprometido e ele passou a dedicar todos os esforços para conquistar o público empresarial.

Não avançou muito. A esta altura, parece claro que os grupos de mídia e os maiores grupos empresariais paulistas fecharam com Aécio Neves.

Campos tem o apoio da ala influente, mas restrita, ligada ao Banco Itaú, e dos apreciadores de seu estilo de gestão, nada muito além disso. Sua última cartada será a mudança física para São Paulo, para um corpo a corpo com o mundo empresarial.

Para conquistar espaço junto a esse público, cometeu a impropriedade, ontem, de prometer uma meta de inflação de 3%, que, se fosse viabilizada, jogaria o país em uma recessão considerável e acabaria com a conquista do pleno emprego.

Foi uma mudança de retórica tão radical quanto a de Dilma. E, por radical, deverá provocar mais desconfianças do que adesões.

Aécio Neves

Conseguiu fechar acordo com a mídia. Tem apoio do mercado financeiro, dos grupos empresariais paulistas e conseguiu a adesão do ainda influente grupo de financistas de Fernando Henrique Cardoso.

Isolou José Serra trazendo para sua campanha alguns dos principais serristas, como Aloysio Nunes, Alberto Goldmann e o inacreditável Andréa Matarazzo – para cuidar das finanças (!).

Serra tentou uma rabeira no bonde através de balão de ensaio empinado pela colunista Sonia Racy – de que FHC estaria bancando sua candidatura para vice de Aécio. É mais fácil a torcida do Atlético torcer para o Cruzeiro do que consumar-se essa dobradinha.

Nos próximos meses, os grupos de mídia concederão a Aécio algo que sempre foi sonegado quando era adversário de Serra: visibilidade para o modelo mineiro de gestão.

Em 2010, os jornais preferiam falar dos problemas de contabilização de gastos de saúde do que nos avanços ocorridos em alguns setores. Hoje em dia, tecem loas aos avanços na educação.

Aécio terá que enfrentar desafios muito maiores.

Não dispõe de nenhuma proposta efetivamente popular e de nenhum plano para o futuro. Mostra o futuro acenando com o passado do governo Fernando Henrique Cardoso.

No plano econômico, limita-se ao financismo estéril da política monetária – que, em qualquer plano de governo, deveria ser apenas um apêndice, não o ponto central.

Na sua luta com Campos – para passar para o segundo turno – irá aprofundar os ataques a Dilma e a levantar a bandeira do moralismo, auxiliado pela onda denuncista dos grupos de mídia.

Serão as eleições mais vazias de ideias das últimas décadas.

Não haverá nem o tempero de José Serra. Com Serra na parada, pelo menos havia uma bandeira civilizatória em jogo: a soma das mentes democráticas contra aquele que passou a simbolizar as forças mais obscurantistas, totalitárias e inescrupulosas do país.

O nebuloso 2015


Os próximos anos não serão de bonança. Não há mais espaço fiscal para benesses, há o aprofundamento dos déficits externos e a necessidade de corrigir preços represados.

Mais que isso. Por obra dos grupos de mídia, mas muito como consequência dos tempos atuais, se aprofundará o descrédito nas instituições e a sensação de que tudo é corrupção.

Os três candidatos inspiram muito mais desconfianças do que certezas na maneira de administrar esse novo cenário.

No caso de Dilma, há o desafio de recuperação da credibilidade perdida junto aos agentes econômicos, que certamente piorou com o discurso de ontem. Ganham-se eleições sem seu apoio; mas dificilmente se governa com a credibilidade baixa junto a eles.

Os desafios de Aécio e Campos são maiores.

Ambos conseguiram montar alianças políticas e impor-se em seus respectivos estados em cima de acordos de cúpula. Praticamente liquidaram com a oposição, enquadraram as respectivas Assembleias Legislativas e a mídia estadual.

Governar um estado – mesmo um estado complexo como São Paulo – é tarefa facílima para um governador. Até Geraldo Alckmin consegue.

Já o jogo político nacional é muitíssimo mais complexo.

A eleição de qualquer um deles significaria um pesado desafio de montagem das novas alianças, de preenchimento dos cargos na máquina pública e, principalmente, de administração política dos conflitos sociais. E, qualquer um que seja eleito, terá de carregar o pesadíssimo fardo da subordinação ao poder reconstituído dos grupos de mídia em um momento em que as redes sociais atrapalharão o atendimento das demandas midiáticas e de aliados.

Aécio acumulou mais experiência nacional com a presidência da Câmara e do PSDB, mas restrita aos acordos de cúpula. Campos restringiu-se ao nordeste.

Lula, com mais facilidade, Dilma com menos, conseguiram estabelecer diálogos com movimentos sociais e permitiram avanços em várias áreas ligadas à inclusão. A panela de pressão não explodiu – inclusive porque as condições da economia facilitaram.

Seja qual for o resultado das eleições, 2015 será ano de muitas emoções.

Até agora, nenhum dos três candidatos conseguiu construir sua utopia para apresentar em forma de plano de governo.
http://jornalggn.com.br/noticia/a-mudanca-de-estilo-de-dilma-e-eduardo-campos









Outras Palavras promove feira de livros com Editora Annablume



Em maio, apoiadores do site terão descontos de até 60% e ganharão livro de André Gorz. Para todos os leitores, haverá redução de 30% no preço de vinte obras

Por Marília Arantes

Uma parceria entre Outras Palavras e a Editora Annablume voltará a sondar, a partir de maio, as possibilidades de sustentar o jornalismo não-mercantil de profundidade por meio da contribuição voluntária dos leitores. A iniciativa é parte do projeto Outros Quinhentos, por meio do qual o site busca sustentação autônoma. Durante dois meses, Outras Palavras oferecerá vinte livros da Annablume – selecionados por sua identidade com os temas abordados no site – com descontos de 30%. A editora nada pagará pela publicidade. Mas, além da redução geral de preços, oferecerá, a quem contribui com Outros Quinhentos, abatimentos que só são possíveis feiras sazonais.

Quem contribui com ao menos R$ 12 ao mês (ou R$ 120 ao ano) terá desconto de 40% nos livros. A redução subirá para 50% e 60%, para quem apoia Outras Palavras com R$ 25 ou R$ 60. Todos os membros de Outros Quinhentos poderão receber, gratuitamente, Ecológica, de André Gorz. A obra será remetida aos primeiros 100 participantes do programa que fizerem compras, valendo para quem se associar ao longo da promoção e realizar sua primeira compra.

Filósofo e jornalista, Gorz esteve à frente da formação da Nova Esquerda, (New Left), nos anos setenta. Pioneiro, em Ecologia e Política, de 1975, ele uniu na filosofia o marxismo à questão ambiental, colocando o valor como noção chave, para além do universo economicista fragmentário. Em Ecológica, último livro escrito pelo autor, falecido em 2008, ele critica sobretudo o opulento modelo de consumo das sociedades contemporâneas.

Entre os títulos disponíveis, na parceria, estão:

> A Produção Capitalista do Espaço, do singular geógrafo David Harvey,
> Marx Selvagem, de Jean Tible;
> Sociologia do Esporte e o Processo Civilizatório, de Eric Dunning e Norbert Elias,
> Conflitos e Cooperação pela Água na América Latina, organizado por Wagner Costa Ribeiro, da Universidade de São Paulo;
>O Desejo da Nação, de Richard Miskolci;
> Lampião, o homem que amava as mulheres, de Daniel Lins, e muitos outros [Confira aqui a lista].

Ainda no mês Annablume, o Outras Palavras participará do lançamento do livro Por que Renda Básica?, de Josué Pereira da Silva, professor de Sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP. Para o autor de Três discursos, uma sentença: tempo e trabalho em São Paulo (1906 – 1932) e André Gorz: trabalho e política, a renda básica é uma das poucas, se não a única, bandeira de luta que pode ser adotada por todos os movimentos sociais sem os dividir. Portanto, pode ser uma demanda, bandeira comum, ao projeto democrático e ecologicamente defensável, de transformação social. No lançamento, Josué Pereira dialogará com economistas e cientistas sociais. Em breve, mais informações a respeito.

A feira de livros Annablume começa na primeira semana de maio. Outras Palavras pretende multiplicar, por meio do projeto Outros Quinhentos, parcerias com produtores culturais e da Economia Solidária. O site oferece espaço publicitário qualificado: são cerca de 10 mil leitores por dia, muito interessados em Cultura, Política, Comportamento, Globalização, Alternativas e Pós-capitalismo.

Os anunciantes selecionados por Outros Quinhentos para parcerias não precisam pagar monetariamente pelo espaço publicitário. Podem optar por pagamento em produtos e serviços, que são compartilhados com quem contribui para sustentar o site. Para conhecer melhor o programa, basta escrever para marilia@outraspalavras.net, ou telefonar para (11) 3449.3747

quarta-feira, 30 de abril de 2014

“Como eu esqueci as editoras e me tornei um best seller na internet”

Ano passado, lancei meu primeiro livro, “Chéri à Paris”, com algumas das crônicas que escrevi semanalmente durante os cinco anos que vivi na capital francesa. A obra não saiu por nenhuma editora, não está à venda em nenhuma grande rede de livrarias e não foi apadrinhada por nenhum crítico famoso. No entanto, tornou-se um relativo sucesso de vendas, com quase 2 mil cópias vendidas desde seu lançamento, em dezembro.

Digo relativo porque perto do Paulo Coelho isso não é nada. Mas trata-se de um feito considerável para um autor independente e nem um pouco desprezível mesmo para o mercado editorial tradicional, com sua grande rede de distribuição, seus espaços pagos em gôndolas de livrarias e suas campanhas publicitárias.

E é muito mais do que eu sonhava quando resolvi me autopublicar, quando minhas intenções mais ousadas eram apenas pagar os custos que tive com revisão, diagramação, ilustração e impressão do livro.

É verdade que a autopublicação não era minha primeira escolha, mas tenho certeza de que foi a melhor. Durante alguns anos, bati em portas de editoras, enviei originais, fiz ligações internacionais e cheguei até a negociar detalhes de contratos, mas, a coisa sempre dava pra trás em um momento ou outro.

Cansado dessa via crucis, aposentei o projeto do livro, até que fui atiçado pelo amigo e escritor Yury Hermuche, que me incentivou a retomá-lo e lançá-lo, mesmo sem estrutura alguma apoiando. Devolvi o desafio e o convidei a fazermos um lançamento juntos. Em seguida, chamei as escritoras Carolina Nogueira e Gabriela Goulart Mora a participarem da empreitada com a gente. Em comum, além da amizade, a temática das publicações: distâncias, estranhamentos e o sentimento de não pertencer a lugar algum. Dessa reunião de autores em torno de um mesmo conceito nasceu o selo Longe, que lançou as 4 obras em uma noite inesquecível, no Cine Brasília, com mil pessoas presentes e 700 livros vendidos. Setecentos livros! Só aí, as tiragens já foram pagas.

O passo seguinte

Depois do lançamento, estruturamos melhor o trabalho do selo. Fizemos um site conjunto e outros individuais e começamos a divulgação dos nossos escritos e ideias, enviando-os a revistas, jornais, sites, TVs, rádios e a todo mundo que queríamos atingir. A resposta veio rápida: inúmeros veículos deram espaço e destaque à iniciativa.

Menos de um mês mais tarde, o e-book de “Chéri à Paris”, que eu mesmo preparei e publiquei, atingia pela primeira vez o primeiro lugar em vendas na loja Amazon. Um autor que ninguém conhecia lança um livro do qual poucos ouviram falar e ele torna-se o e-book mais vendido de todo o país. Surpreso, imaginei tratar-se de um golpe de sorte, mas o livro voltou a ser o número um algumas semanas mais tarde. Acho que só então entendi se tratar de um feito importante. E que podia indicar um caminho a ser melhor observado pelo selo e por outros escritores independentes.

Outros feitos do Longe incluem o fato de o livro “A Rua de Todo Mundo” ter sido selecionado para ser lançado na II Bienal do Livro e da Leitura de Brasília. De “Anti-heróis e Aspirinas” ter tido mais de 110 mil downloads do e-book em inglês e da trilha sonora composta para a obra. De “Depois das Monções” também ter figurado entre os mais vendidos da Amazon. E de o “Chéri à Paris” estar sendo adotado como material didático em diversas escolas públicas e de línguas de Brasília.

“Chéri à Paris” e o selo Longe não são os primeiros a apostarem na autopublicação. Só pra ilustrar (e sem nenhuma ambição de comparação), vale dizer que Edgar Allan Poe, James Joyce e Charles Dickens também trilharam essa rota em algum momento de suas carreiras. O que talvez possamos mostrar é que vale a pena soprar a poeira dos seus originais – ou do HD onde eles estão guardados – e publicá-los sem medo. Se não for impresso, que seja em e-book. Se não for pago, que seja gratuito.

Trabalho em dobro. Recompensa em triplo

É claro que se autopublicar dá muito mais trabalho do que o caminho tradicional, via editora. Eu mesmo cuido de todas as etapas do processo de divulgação e vendas da minha obra. Faço assessoria de imprensa, publico no site, divulgo em redes sociais, recebo pagamentos e envio os exemplares pelo correio. Mas, como dizemos no manifesto disponível no nosso site, “acreditamos nas nossas ideias o suficiente para corrermos o risco de conviver por um tempo com caixas e mais caixas de papelão espalhadas pelo corredor de casa”.

Todo esse esforço pode ser grande, mas não é nada perto da realização de ter em mãos uma obra que é exatamente a que eu sempre quis lançar, com todos os defeitos e qualidades que possa ter. Da seleção de textos à capa, tudo foi decidido por mim mesmo, em um processo que seria impossível se eu fizesse parte de uma editora.

Sobre o Autor: Escritor, jornalista e publicitário. Em Paris, foi editor-chefe da revista bilíngue Brazuca e cronista no site Chéri à Paris. Diversos textos desse período foram publicados por veículos como Le Monde Diplomatique Online, Outras Palavras e UOL, entre outros.
Nossa fonte:Diário do Centro do Mundo

O poeta dos 99%: a obra engajada de Shelley


por : Paulo Nogueira no Diário do Centro do Mundo

Shelley se eternizou como o campeão dos 99%.


O Massacre de Peterloo

E lá vou eu para mais um trabalho tosco de tradução poética.
Não resisti.
Li versos de Percy Shelley, o grande poeta inglês da era da Revolução Industrial, e tive o impulso irresistível de vir para cá. Para o Diário.
Shelley não era apenas um mestre na arte de juntar palavras. Era um ativista, um homem inconformado com a desigualdade social de seu tempo.

Hoje, ele estaria alinhado com os “99%”, para usar a expressão consagrada pelo movimento Ocupe Wall Street e derivados mundo afora.

Shelley ficou tocado, em 1819, com o que passou para a história como o “Massacre de Peterloo”, em Manchester. Manifestantes – alguns falam em 50 000, outros em 150 000 — se juntaram no centro da cidade para pedir coisas como o sufrágio universal. Naqueles dias, apenas 3% dos ingleses podiam votar – os ricos, naturalmente.

Shelley

A polícia dissolveu o encontro brutalmente. Montados em cavalos, espadas nas mãos, policiais investiram contra as pessoas. Foram dez minutos de derramamento de sangue, ao fim dos quais 500 manifestantes estavam feridos. Houve pelo menos quinze mortes.

Inspirado pelo massacre, Shelley escreveu:

Rise like lions after slumber
In unvanquishable number
Ye are many – they are few.

Coloquemos assim:

Levantem-se como leões depois de dormir
Num número que ninguém haverá de destruir
Vocês são muitos – eles são poucos.

Grande Shelley, o poeta dos humilhados e ofendidos, a voz lírica dos desfavorecidos.

Clap, clap, clap.

Sobre o Autor: O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Assim o Ocidente ressuscita a Guerra Fria




Paraquedistas norte-americanos chegam à Polônia em 23/4, para participar de exercícios militares conjuntos. Desde 1990, EUA desrespeitam compromisso de não ampliar OTAN e instalam bases militares em torno da Rússia
Além de não representar ameaça militar ou econômica, Rússia suportou provocações em série. Mas militares, petroleiras e mídia querem fabricar um demônio
Por Roberto Sávio | Tradução: Antonio Martins

Faz várias semanas, agora, que toda a mídia mainstream está engajada em denunciar primeiro a suposta ação de Putin na Crimeia – e em seguida, na Ucrânia. A última capa de The Economist mosta um urso engolindo a Ucrânia, sob o título “Insaciável”. A unanimidade na mídia é sempre constrangedora, porque significa algum ato de dobrar joelhos. Será possível que os quarenta anos de Guerra Fria estejam sendo ressuscitados?

A inércia desta guerra, na verdade, nunca foi rompida. Diga “o presidente comunista de Cuba, Raúl Castro”, e ninguém ficará chocado. Use a mesma lógica, e chame o presidente Obama de “capitalista” e repare nas reações. Na Itália, Sílvio Berlusconi foi capaz, durante vinte anos, de ganhar as eleições contra a “ameaça” do comunismo – representada, segundo ele, pelo partido à esquerda, agora no poder, sob Matteo Renzi, um católico devoto.

No caso da Ucrânia, há pelo menos quatro pontos fulcrais de análise que estão sendo ocultados pelo coro de mídia. O primeiro é que nunca se mencionam as responsabilidades do Ocidente no caso. Deveríamos lembrar que Mikhail Gorbachev, presidente russo ao final dos anos 1990, negociou com os chefes de Estado dos EUA (Ronald Reagan), Grã-Bretanha (Margareth Thatcher), Alemanha (Helmut Kohl) e França (François Mitterrand) que aceitaria a reunificação da Alemanha; mas que que o Ocidente, em contrapartida, não deveria tentar invadir a área de influência da Rússia. Sobre isso, há grande quantidade de documentos.

Mas assim que Gorbachev foi eliminado, o jogo foi reaberto. A total docilidade de Boris Yeltsin, seu sucessor, diante dos Estados Unidos, é bastante conhecida. Muito menos debatido é o fato de o Fundo Monetário Internacional ter oferecido um empréstimo de 3,5 bilhões de dólares, para sustantar o rublo. O empréstimo, porém, foi dirigido aoBank of America, que o distribuiu entre várias contas russas. Nenhum centavo chegou ao Banco Central russo. O dinheiro desembarcou nas contas de oligarcas, que puderam comprar praticamente todas as empresas públicas russas. Em seu livroFarewell Russia, Gioulietto Chiesa explica o processo em detalhes. E o FMI jamais sequer balbuciou um protesto. Quando um desconhecido Vladimir Putin foi levado ao poder por Yeltsin, ele foi obrigado a aceitar um acordo de proteção aos oligarcas.

Depois de Yeltsin, Putin apoiou a invasão iminente do Afeganistão por Washington, de uma forma que teria sido inimaginável durante a Guerra Fria. Aceitou que aviões norte-americanos sobrevoassem o espaço aéreo da Rússia, que os EUA usassem as bases militares nas repúblicas da ex-União Soviética na Ásia Central, e ordenou aos militares que compatilhassem sua experiênia no Afeganistão. Então, em novembro de 2001, Putin visitou George Bush em seu rancho no Texas, em meio a declarações amistosas (“Putin é um novo líder que ajuda a paz mundial… trabalhando em proximidade com os Estados Unidos”). Poucas semanas depois, Bush anunciou que os EUA estavam abandonando o Tratado de Mísseis Anti-balísticos, para poder construir um sistema de guerra no espaço destinado, em palavras a proteger a OTAN do… Irã. Era uma ação claramente voltada, na prática, contra a Rússia, para espanto de Putin.

Na sequência, em 2002, Bush convidou sete nações da ex-União Soviética – entre elas, Estônia, Lituânia e Letônia – a somar-se à OTAN, o que se concretizou em 2004. Em 2003, a invasão do Iraque, sem consentimento da França, Alemanha e Rússia, transformou Putin num cítico aberto dos Estados Unidos e de sua proposta de promover a democracia passando por cima do direito internacional. No mesmo ano, na Geórgia, a Revolução Rosa levou Saakashvili, um pró-ocidental, ao poder. Quatro meses depois, na Ucrânia, a Revolução Laranja empoderou outro presidente pró-ocidental, Yushcenko. Em 2006, a Casa Banca pediu permissão para reabastecer o avião de Bush em Moscou, mas deixou claro que Bush não teria tempo para saudar Putin. E em 2008, houve a declaração unilateral de independência de Kososo da Sérvia, com o apoio dos Estados Unidos e contra as posições da Rússia. Então, Bush pediu à OTAN para incorporar a Ucrânia e a Geórgia – um tapa na cara de Moscou. Em face disso, não deveria ter causado surpresa o gesto de Putin, que interveio militarmente na Geórgia em 2008, quando este país tentou incorporar as regiões da Ossétia do sul e Abkhazia, de maioria russa. Ainda assim, é fácil lembrar que a mídia tratou o movimento como ação sem motivos.

Obama tentou reparar os danos provocados por Bush nas relações internacionais dos EUA. Ele propôs uma retomada (“reset”) nas relações com a Rússia, que foi, de início, bem sucedida. Moscou aceitou oferecer seu espaço aéreo para transporte de suprimentos militares norte-americanos destinados ao Afeganistão. Em 2010, a Rússia e os Estados Unidos assinaram um novo tratado Start, reduzindo seu arsenal nuclear. E a Rússia apoiou as sanções aprovadas pela ONU contra o Irã, desistindo de vender seis mísseis terra-ar S/300 ao Teerã.

Mas logo a seguir, em 2011, tornou-se claro que os Estados Unidos tentaram intervir nas eleições parlamentares russas. Toda a mídia ocidental colocou-se contra Putin, que acusou os EUA de financiarem, com centenas de milhões de dólares, grupos oposicionistas. O embaixador norte-americano, McFaul, afirmou tratar-se de um grande exagero, e acrescentou que apenas algumas dezenas de milhões de dólares haviam sido doados a grupos da sociedade civil. Putin foi eleito novamente para a presidência em 2012 [após quatro anos como primeiro-ministro], já então obcecado com as ameaças ocidentais a seu poder. Em 2013, ele deu asilo ao ex-agente norte-americano Edward Snowden. Em represália, Obama cancelou um encontro bilateral – a primeira vez em que uma reunião de cúpula entre Washington e Moscou foi desmarcada, em cinquanta anos.

Em meio a tudo isso, houve a Primavera Árabe. A Rússia autorizou ação militar na Líbia, mas apenas para garantir ajuda humanitária. Ela foi utilizada para provocar mudança de regime, e Moscou sentiu-se enganada. Protestou, inutilmente. Então, surgiu a crise na Síria e o Ocidente tentou obter novamente o apoio da Rússia para uma mudança de regime – irritando-se com a recusa de Putin. Finalmente, agora, houve a bem conhecida intervenção na Ucrânia, para colocar o país na União Europeia e distante do bloco econômico eurasiano que a Rússia tenta criar.

O segundo ponto é que nenhuma ação política, exceto uma guerra, pode reduzir a Rússia à condição de um poder apenas local. É o maior país do mundo, em território. Estende-se das fronteiras da União Europeia até o Extremo Oriente. É, ao mesmo tempo, Europa e Ásia. Mantém rivalidade com a China na Ásia, tem conflitos territoriais com o Japão e está diante dos EUA no Estreito de Behring. É um produtor destacado de petróleo, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e tem um arsenal nuclear. Qualquer esforço para cercá-la ou enfraquecê-la, agora que o confronto ideológico ficou para trás, só pode ser visto como parte da velha política imperial.

A Rússia não é uma ameça, ao contrário da União Soviética. Seu PIB é 15% da Europa – que tem 500 milhões de habitantes e 16% das exportações mundiais. A China tem 1,3 bilhão de habitantes, e 9% do comércio mundial. A Rússia, apenas 145 milhões e 2,5% das exportações mundiais. Tem poucas indústrias, também porque Putin não está interessado na modernização do país, que inevitávelmente produziria um crescimento da classe de profissionais instruídos, que já se opõe a ele.

O terceiro ponto é que, portanto, a crise ucraniana deveria ser examinada melhor. É um Estado muito frágil, em que a corrupção controla a política e que vive problemas econômicos estruturais. Seu Oeste é mais rural; o Leste, mais industrializado. Os trabalhadores desta região sabem que um ingresso na Europa representaria o fim de muitas fábricas. No Oeste, muitos colocaram-se ao lado dos nazistas na II Guerra Mundial e há um movimento nacionalista forte, próximo ao fascismo. A Ucrânia é um problema muito caro e complicado.

É evidente que intervir apenas para desafiar Putin, e oferecer dinheiro (basicamente, o que fez a União Europeia) parece um pensamento muito tacanho. Estaria a UE preparada para mudar os critérios de pertencimento ao bloco, para aceitar um país que claramente não se adequa a eles; e a assumir um enorme peso, para aparecer como vencedora, na disputa contra um “homem forte”?

Isso finalmente nos leva ao quarto ponto. Putin é um ex dirigente da KGB, para quem a Rússia foi tratada injustamente, na dissolução da União Soviética. Todos os esforços para chegar a um entendimento com o Ocidente foram traídos, com sucessivas ampliações da OTAN, uma rede de bases militares cercando o país, um claro apoio do Ocidente a todas as oposições, um tratamento comercial medíocre. Ele sabe que estas opiniões sobre o declínio russo são compartilhadas por uma ampla maioria de cidadãos. Mas ele também é um autocrata arrogante, para dizer o menos, que nada tem feito para promover modernização econômica – porque, ao manter a produção e o comércio em suas mãos, conserva seu controle.

Para ele, a Ucrânia foi politicamente inaceitável. Ele está apresentando-se como defensor dos cidadãos russos, algo que lhe permite atuar em todos os lugares onde há minorias russas. A questão é: se Putin se for, haverá uma Rússia democrática, participatória, limpa, incorrompida? Aqueles que conhecem bem o país não acreditam nesta hipótese. Há inúmeros exemplos de que a remoção de autocratas não conduz à democracia por si mesma.

Portanto, haveria lógica em continua a cercar Putin, em nome da democracia? Isso não fortaleceria o próprio jogo do presidente, que associa sua imagem à de defensor dos russos? Eles também sofrem com a inércia da Guerra Fria e não veem o Ocidente exatamente como um aliado. Putin é hoje a única força de coesão na Rússia. Se ele se fosse, haveria, muito provavelmente, um longo período de caos. Isso certamente não interessa aos cidadãos russos… e é sempre perigoso praticar jogos de poder sem levar em conta a estabilidade da Europa… Claro, este não é o cálculo dos estrategistas ocidentais, que adorariam eliminar qualquer outro poder…

Como escreve Naomi Klein, o único vencedor, nesta disputa, são as empresas de energia. Elas estão fazendo campanha para que o mundo torne-se independente do petróleo russo. Portanto, vamos acelerar a produção petroleira nos EUA, a despeito dos notórios prejuízos ao ambiente. E vamos torcer para que a Europa deixe de usar gás russo – “nós exportaremos para eles”. Na verdade, não há estruturas para fazê-lo e seriam necessários muitos anos para criá-las… Mas exatamente no momento em que o mundo debate como controlar a mudança climática, e reduzir o uso de combustíveis fósseis, uma contra-estratégia importante é colocar o tema em segundo plano… Tarzi Vittach, um autor do Sri Lanka, disse, certa vez: “no fundo de tudo, há outra coisa”. Não há muitos exemplos de petróleo e democracia caminhando lado a lado…
Nossa fonte: Outras Palavras

Na Itália, uma decisão história: a proibição do cultivo de milho transgênico

O Tribunal Administrativo Regional de Lazio (TAR) rechaçou a recusa apresentada por um agricultor de Friuli, região do extremo nordeste da Itália, que desafiou o decreto pelo qual o governo havia bloqueado durante 18 meses, em julho do ano passado, qualquer tipo de cultivo transgênico no país: de fato, o milho MON810 é o único autorizado na Europa. Portanto, a proibição segue em vigor, como informou o jornal La República, no dia 24 de abril.

A reportagem é de Graciela Vizcay Gomez, publicado por Rebelión, 25-04-2014. A tradução é do Cepat.
Desde a Associação Argentina de Jornalistas Ambientais- Medii&médio, mediante a nota “Começou a contagem regressiva dos OGM na Itália”, os adiantei os sucessos que estavam ocorrendo na região de Friuli, com o desafio deste agricultor para a proibição do cultivo de transgênico nesse país. Giorgio Fidenato, agrônomo, e o agricultorSilvano Dalla Libera haviam apresentado um recurso para impugnar o Decreto pelo qual o governo havia bloqueado, em julho no ano passado, durante 18 meses, qualquer tipo de cultivo transgênico na Itália. O milho MON810 é o único autorizado na Europa, na Itália foi possível notar a rejeição.

Um fato histórico


Com esta decisão reiterou-se a proibição do cultivo de Organismos Geneticamente Modificados (OGM) e também serviu como um alerta para o risco da contaminação.

Visto o compromisso final que está surgindo na Europa, contra os que defendem as empresas de engenharia genética e que querem proteger os produtos tradicionais, orgânicos e biodinâmicos e, de acordo com o anunciado pelos ministros italianos do Meio Ambiente, Gian Luca Galletti, e das Políticas Agrícolas, Maurizio Martina, a União Europeia se prepara para adotar a cláusula de salvaguarda para bloquear o cultivo de transgênicos nos casos em que, devido a especial formação do território, o risco de contaminação seja particularmente alto.

Como destaca o “Grupo de Trabalho para uma Itália livre de transgênicos”: “A Itália é o país mais exposto por este ponto de vista: o tamanho médio dos campos é de aproximadamente oito hectares, de modo que faz com que ele esteja em uma situação essencialmente impossível de sair das zonas tampão necessárias para evitar o risco de contaminação”.

De fato, o risco já se tornou real, ainda que muito limitado, quando um pequeno grupo de agricultores em Friuli cultivou sementes de milho OGM e o Serviço Florestal descobriu a contaminação de 10% nas áreas vizinhas cultivadas. De todo modo, no momento a opção pró OGM na Europa é muito limitada: em 2013, apenas a Espanha, Portugal, República Checa, Eslováquia e Romênia (5 países de um total de 28) cultivaram MON810 (cerca de 148 mil hectares de milho transgênico, quase todos na Espanha).

A decisão do TAR é uma “boa notícia”, segundo o ministro da Agricultura, Maurizio Martina. Para a ONG Legambiente, é uma “decisão histórica, uma grande vitória para a agricultura italiana de qualidade”. Para a Associação Italiana de Agricultura Biológica (AIAB), “A única maneira de salvar uma indústria é com a pena biológica de 3 bilhões de euros”. Também expressaram satisfação a Coldiretti (Confederação Nacional dos Agricultores Diretos) e a Confederação de Agricultores Italianos (CIA).

Há um ano para a realização do evento “Expo Milão 2015”, a Exposição Universal que reunirá mais de 140 países e ocorrerá entre 1º de maio e 31 de outubro de 2015 na Itália, serão tratados os temas “Alimentar o planeta. Energia para a Vida” – “ que transformará nosso país no centro de gravidade da economia da agricultura, a alimentação, a nutrição, o início de uma fase de incerteza sobre a decisão do TAR do Lazio, proibindo o cultivo de organismos geneticamente modificados (que aguardam a Iniciativa Europeia), seria um sinal com devastadoras repercussões”, disseram os promotores da conferência frente a notícia.

Em reposta grupos de ecologistas realizaram a alguns dias uma Contra Expo, a qual chamaram: “Para a Expo 2015: Alimentar o planeta sem transgênicos”. Como isto fosse pouco, a Santa Sé, também terá seu stand e o tema que inspirará seu Pavilhão será: “Não só de pão”.

Giuseppe Sala, comissionado do Governo italiano para a Expo Milano 2015, comentou que a “Expo Milano 2015 tinha posto o desafio de ser uma exposição colaborativa desde o início, para a discussão global dos principais desafios que a humanidade enfrenta. Isto ocorre por estarmos convencidos de que este é o papel que as Exposições Universais do século XXI devem ter. Em um mundo no qual muitas pessoas sofrem de fome e não têm acesso a água limpa, já não podemos ignorar a necessidade urgente de encontrar uma solução global que assegura há todo o mundo o direito a alimentos suficientes, saudáveis e seguros, garantindo um futuro sustentável”.

Uma notável diferença com a Expoagro, a exposição, cujos acionistas são os jornais Clarín e a La Nación, que há pouco fazia a promoção de alimentos saudáveis e seguros, mas cujo objetivo não é outro além de vender maquinarias e venenos para, ao final, brindar pela ganância com champanhe Dom Perignon, com glifosato!
Nossa fonte: página do MST

Os transgênicos e a fome: a revolução fracassada

Parecem ter sido dissipadas as dúvidas sobre a sua periculosidade para a saúde e para o ambiente (sob condições específicas), enquanto – ao contrário das promessas – eles não resolveram a chaga da desnutrição. A única certeza é que as plantas geneticamente modificadas são fonte de enormes negócios para poucas multinacionais e de grandes problemas para os pequenos agricultores.

O padre Paolo Fontana, professor de bioética do Seminário Teológico do Pontifício Instituto das Missões Exteriores (Pime) de Monza, na Itália, analisa a questão a 40 anos da criação em laboratório do primeiro transgênico "moderno".

O artigo foi publicado na revista Popoli
, de fevereiro de 2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O homem sempre selecionou plantas e animais, favorecendo, através de uma paciente obra de cruzamentos, variedades vegetais e raças animais com características que resultassem convenientes. Esse processo de "domesticação", que consiste em reproduzir aqueles indivíduos que, de modo já marcado, apresentam as qualidades buscadas, requer tempos longos, ditados pelo ritmo natural das gerações.

A longa história da agricultura e da pecuária registrou, especialmente no século passado, uma forte aceleração, graças à utilização de novas técnicas agrícolas. Mas a reviravolta clara nesse modo de proceder ocorreu com a aplicação aos vegetais (e aos animais) dos conhecimentos biotecnológicos.

Um organismo geneticamente modificado (OGM) é um organismo vivo que possui uma combinação de material genético inédito, obtida com a utilização das biotecnologias. A manipulação genética modifica a estrutura e as funções do organismo vivo e o induz a produzir materiais biológicos ad hoc. As aplicações possíveis abrangem vários campos: da medicina aos cuidados da saúde, do setor alimentar ao químico, da zootecnia à agricultura. O nosso interesse é pelos vegetais transgênicos: portanto, aprofundaremos a sua difusão, as suas características, as suas questões críticas.

Saúde e ambiente

Enquanto a "criação" em laboratório do primeiro transgênico (não vegetal) é datada de 1973, os primeiros vegetais transgênicos cultivados no campo remontam a 1996 e se estendiam por 1,7 Mha (milhões de hectares). Em 2011 foram semeados 160 Mha com transgênicos, o que equivale a um incremento de 94 vezes em 15 anos. Os países mais envolvidos são 29, dos quais 19 estão em desenvolvimento e 10 são industrializados. A taxa de crescimento para as culturas biotecnológicas nos países em desenvolvimento foi de 11% em 2011 em comparação com o ano anterior, quase o dobro em comparação com os países industrializados (+5%).

O líder da produção mundial de culturas biotecnológicas continua sendo os EUA, com 69 Mha cultivados; seguem oBrasil (30,3 Mha, +20% em relação ao ano anterior), a Argentina (23,7) e a Índia (10,6). Nesse ranking, a China está em sexto, com 3,9 Mha, e a África do Sul, em nono (2,3) (ver tabela abaixo).



As plantas geneticamente modificadas mais semeadas são quatro: a soja, com 80 Mha cultivados no mundo em 2011; o milho, com 50 Mha; o algodão e a canola, respectivamente com 22 Mha e 10 Mha. Outros transgênicos cultivados, mas em lotes significativamente inferiores (algumas centenas de milhares de hectares), são: beterraba, alfafa, mamão e abóbora nos EUA; mamão, álamo, tomate e pimentão na China; batata na Alemanha e na Suécia.

As modificações genéticas introduzidas nas quatro espécies mais cultivadas são fundamentalmente de três tipos: a tolerância aos herbicidas, a resistência aos insetos infestantes ou, ao mesmo tempo, as duas modificações anteriores. Se, em um campo, o cultivo é tolerante a um herbicida, será mais fácil limpar o terreno de ervas daninhas sem causar danos à planta; o mesmo vale para a resistência às pragas: o cultivo estarão a salvo dos ataques devastadores mesmo sem a utilização preventiva de inseticidas.

Como se obtêm esses resultados? Com a tecnologia do DNA recombinante, introduzem-se nas células vegetais genes estranhos que dão à planta as características desejadas. Desse modo, cada transgênico é "único" e deve ser examinado individualmente para determinar a sua inocuidade para a saúde humana e para o ambiente. Hoje, estão disponíveis no comércio 121 variedades de transgênicos de milho, 48 de algodão, 30 de canola e 22 de soja, cada uma com sua avaliação de impacto por parte do produtor.

Tal avaliação destina-se a ser repetida por órgãos públicos antes da venda definitiva no país interessado. No que diz respeito à União Europeia, o órgão encarregado de atuar para a comercialização dos transgênicos é a EFSA(Autoridade Europeia de Segurança Alimentar): ela estima o risco e expressa um parecer, mas cabe aos Estados-membros e à Comissão Europeia a decisão final para a comercialização. Os transgênicos no mercado hoje superaram ambos os exames e, portanto, no estado atual do conhecimento, podem ser considerados seguros para a saúde pública e para a alimentação.

Em relação ao ambiente, são dois os pontos críticos a serem superados para evitar a disseminação no território de plantas geneticamente modificadas: a polinização com plantas equivalentes não transgênicas e a dispersão da semente. Para evitar ambas, poderiam ser suficientes precauções agrícolas adequadas, por exemplo as dimensões reduzidas dos lotes, a diferenciação das culturas vizinhas e o afastamento dos lugares onde a flora cresce espontaneamente (por exemplo, nas florestas).

Em todo caso, para evitar a polinização cruzada, as plantas geneticamente modificadas são normalmente modificadas com a característica adicional da "esterilidade masculina": o pólen "fugido" do campo é estéril, isto é, não é capaz de fertilizar nenhuma outra planta.

Em última análise, com as devidas precauções, as contaminações ambientais involuntárias não deveriam alterar o ecossistema mais do que a agricultura tradicional, com as suas sementes selecionadas e os seus híbridos.

Uma resposta para a fome?


A avaliação de impacto dos transgênicos na saúde humana e no ambiente, geralmente, é bastante aprofundada, por ser objeto de um amplo debate. Ao contrário, muitas vezes é omitido o aspecto econômico e social relacionado com a produção das plantas transgênicas. O mercado mundial globalizado, de fato, tende a enfatizá-las e a promovê-las, seja junto aos produtores, seja junto aos consumidores.

As sementes transgênicas são patenteadas, e a sua utilização traz rendas consideráveis para as 18 multinacionais (gráfico abaixo) que as desenvolvem. Além disso, a característica de serem "estéreis masculinas" favorece ainda mais as fáceis tentações de monopólio, uma vez que impõe, a cada ano, a compra de novas sementes.



As implicações econômicas e sociais merecem outras duas exemplificações. Muitas vezes se fala de vegetais geneticamente modificados capazes de aliviar a fome no mundo. Até mesmo a FAO se sentiu no dever de abordar a questão e, há alguns anos, publicou um relatório intitulado: "Biotecnologias agrícolas: uma resposta para as necessidades dos pobres?".

Atualmente, a solução para essa desafiadora questão permanece negativa. Ao contrário, poderia ter uma resposta concreta se as verdadeiras necessidades alimentares dos países pobres fossem levadas em consideração. Por exemplo, se poderia modificar geneticamente plantas como o sorgo, o milhete (milho-miúdo ou painço), a cevada, o arroz, enriquecidas de nutrientes ou capazes de crescer em condições climáticas e de terreno adversas. Se isso não acontece é porque as plantas transgênicas são principalmente estudadas segundo a lógica do lucro econômico dos países desenvolvidos.

A mesma motivação vale para um segundo exemplo. Uma das fronteiras mais promissoras e menos investigadas dos transgênicos é a possibilidade de produzir para as plantas vários tipos de vacinas. O eventual progresso nesse campo científico, com a concomitante renúncia da patente, poderia abrir cenários inesperados para os países pobres: milhões de pessoas poderiam ter fácil acesso às melhores condições sanitárias.

Para orientar o uso das plantas geneticamente modificadas a um bem comum real, parece indispensável que elas sejam integradas em um programa completo de pesquisa e de desenvolvimento agrícola mundial, e que este obtenha a devida atenção, inclusive financeira.

A saúde e o ambiente poderão receber mais cuidado quanto mais as entidades públicas se consorciarem entre si, com a capacidade propositiva da pesquisa orientada e finalizada. A própria sociedade deverá assumir a responsabilidade de participar na definição dos objetivos da pesquisa, das prioridades, das aplicações e da repartição das vantagens daí derivados.

Para que tudo isso possa acontecer, é indispensável uma reflexão pacata, mas distante de qualquer abordagem venal.
Nossa fonte: página do MST

SALVE DANIEL ALVES!


A Fifa pode fazer pouco contra o racismo no futebol — mas gente como Daniel Alves pode muito
Kiko Nogueira
Um amigo me conta que, no começo dos anos 60, Pelé esteve na cidade de sua mãe, no interior do estado de São Paulo. Ele já tinha ganhado a primeira Copa do Mundo e era saudado como um herói nacional.

Pelé estava visitando um amigo. Foi recebido como campeão. E então o levaram à piscina pública, que era uma das grandes atrações locais. Pelé entrou na água. Imediatamente, o salva-vidas mandou que ele se retirasse.

O Crioulo podia passear, conversar com as pessoas, tirar foto e dar autógrafo. Nadar na mesma piscina era demais. Pelé saiu sem falar nada.

Cinquenta anos depois, Pelé continua passando em branco sobre o racismo. Não reclama, muda de assunto, sempre dá um jeito de minimizar o problema.

Não é só ele que é assim, claro. Ele é apenas um símbolo de um jeito de pensar. Por muito tempo se acreditou no mito da democracia racial no Brasil. Hoje vai ficando cada vez mais evidente que somos apenas mais acomodados. Ou éramos.

Daniel Alves dá esperança de novidade, de menos hipocrisia e servilismo. O lateral do Barcelona estava para bater um escanteio quando um canalha na torcida do Villareal atirou-lhe uma banana no gramado.

Não é a primeira vez que isso acontece. Geralmente os torcedores costumam imitar sons de macaco, também. Mas Daniel brilhou: ao invés de fingir que não viu nada, pegou a banana, descascou-a, engoliu-a e cruzou (na seqüência da jogada, no segundo cruzamento seguido, saiu um gol).

“Estou na Espanha há 11 anos e há 11 anos é dessa maneira. Temos de rir dessa gente atrasada”, disse. Na Copa, a Fifa obrigará os capitães dos times da quartas de final a ler uma declaração de repúdio à discriminação. Não dará em nada.

O que vai mudar alguma coisa, mesmo, serão gestos como o de Dani Alves. De não deixar barato. De quem, ao invés de encarar esse tipo de ofensa como um acontecimento corriqueiro como a chuva — afinal, o que é mais uma banana atirada por um animal? –, tem atitude e presença de espírito. Daniel Alves mitou. E foi mais eficaz do que será qualquer discurso ensaiado por uma entidade corrupta e desacreditada como a Fifa.
Sobre o Autor: Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas
Nossa fonte: Diário do Centro do Mundo

Padilha e o assassinato de reputações

Por Renato Rovai -CdB de São Paulo

Alexandre Padilha tem sido alvo de ataques coordenados pela direita



Alexandre Padilha e sua candidatura estão sofrendo um bombardeio midiático por conta de seu nome ter sido citado na investigação da PF no caso da investigação do doleiro Alberto Youssef. A citação por enquanto se apresenta como algo solto, sem nenhum indício concreto que tenha resultado em vantagem a partir do ministério da Saúde para os indiciados. Muito diferente do que se tem no caso Alstom-Siemens, onde há confissão de culpa de empresas e personagens centrais do esquema, que citam um cartel operando a partir de interesses de grãos-tucanos do Estado.

A desproporção no tratamento desses episódios é mais uma demonstração de como a mídia tradicional perdeu completamente a vergonha de atuar como um partido político. E como o faz em bloco e em uníssono para ajudar aqueles que considera seus aliados e para atacar os que enxerga como adversários.

Padilha que se prepare, ele é o alvo da vez. Uma avalanche de histórias vão ser costuradas para desconstruí-lo numa narrativa típica das novelas policiais. Uma citação aqui, um assessor que foi parar ali, um torpedo encaminhado por acolá. E de repente um deputado pede uma CPI e a sempre combativa PF vaza mais um relatório de alguém que está buscando uma delação premiada. E o monstro esta posto a mesa.

A reputação muitas vezes construída por um longo período de atividade pública é demolida sem que se tente verificar até onde está se fazendo justiça com o acusado. O que se pesa é o que está em jogo. E no caso de Padilha, por mais que ele tenha distribuído sorrisos aos donos da mídia paulista, trata-se de um inimigo.

É esse o espaço que lhe reservam no álbum de figurinhas públicas.

Os donos da tradicional mídia paulista não aceitam cogitar que no Palácio dos Bandeirantes haja um petista no comando. E vão abater quem estiver no caminho para que isso não ocorra.

A candidatura de Alckmin está muito fragilizada. E contas feitas, já se percebeu que num segundo turno quem vier a disputar com ele pode levar. Até porque das torneiras paulistas vai estar saindo ar para tomar banho e escovar os dentes.

Ou seja, o PT não pode ir ao segundo turno. Cabe um Skaf, mas não um petista.

E sendo assim, Padilha não vai ter descanso.

Se quiser ser um candidato vivo e não um espectro de candidato, Padilha terá que mostrar que não tem receio de enfrentar o dragão. No caso, o esquema midiático do Estado. É com essa mídia que transforma uma citação num crime e um cartel numa bolinha de papel que se dará a disputa. Ela é a verdadeira adversária.

Renato Rovái é jornalista, editor de seu blog e da Revista Fórum