Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

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sábado, 10 de outubro de 2015

Estratificação social e base tributária: Quem paga mais imposto?


No Brasil, aqueles que detêm 22,7% de toda a riqueza só pagam 6,51% de imposto de renda, e se aproveitam da ignorância econômica da população.

Fernando Nogueira da Costa - Brasil Debate



Estratificação, em Sociologia, é o processo de diferenciação das diversas camadas sociais que compõem uma sociedade, agrupadas a partir de suas relações e dos valores culturais, o que vem a constituir sua separação em classes, estados ou castas. É também a operação que, em uma sondagem estatística, consiste em distribuir previamente por estratos determinado conjunto que se quer estudar.

Tenho achado o conceito de castas mais útil para entender a estratificação social brasileira. Ele é mais abrangente do que classe, segmentando os vários tipos de grupos funcionais, desde os burocratas e sacerdotes até os capitalistas e trabalhadores. Quem fica de fora? O pária – ele é o indiano não pertencente a qualquer casta, considerado impuro e desprezível pela tradição cultural hinduísta. Casta inclui a perspectiva cultural, além dos interesses econômicos.

As castas constituem-se por membros de diversas redes e instituições de poder, cada uma apresentando sua própria cultura e incentivando determinado estilo de vida. Elas tendem a dar a seus integrantes determinadas atitudes para com a autoridade, a organização e a política. Permitem ilustrar melhor a complexidade social de toda a História da Humanidade do que o simplista modelo dicotômico – tipo “nós” (pobres) contra “eles” (ricos) – do século 19.

Como eu resumo, em números, a estratificação social no Brasil? Em uma população economicamente ativa em torno de 100 milhões de pessoas, 9 milhões aplicam no mercado financeiro e recebem também renda do capital. É o mesmo número de pessoas (8.979.706) que tem formação universitária completa.

Além dessas, 451.209 pessoas têm mestrado e 170.247 têm doutorado. Pelos cálculos da OCDE, um adulto com idade entre 25 e 64 anos que termina o ensino superior, no Brasil, receberá em média 157% mais renda do que quem só terminou o ensino médio. Essa média nos países da OCDE é de 57%.

Nos últimos 13 anos, a taxa de juros média real foi de 6,6% aa, cinco vezes maior do que o aumento anual do salário médio real, isto é, da renda do trabalho (1,3% aa). Reconhecendo esta dependência de trajetória em relação ao juro real médio de 0,5% am, os profissionais com ensino superior estabelecem sua estratégia de complementar a Previdência Social. Com investimento perseverante de 20% de sua renda mensal, em 360 meses (30 anos) eles já obtêm renda do capital equivalente à renda do trabalho.

Se, a cada 10 anos, ele muda de faixa salarial (graduado com R$ 5.000, mestre com R$ 10.000 e doutor com R$ 15.000), devido à titulação (mestrado-doutorado) ou à experiência, fazendo aporte inicial com o acumulado na faixa anterior, com mais 18 anos ele terá acumulado o suficiente para poder se aposentar com renda do capital similar à renda de trabalho dessa última faixa salarial.

Essa classe média se distingue da maioria da população brasileira em investimentos financeiros. Em março de 2015, 8.940.787 pessoas (descontando dupla contagem de CPFs) investiam em fundos e títulos e valores mobiliários (ações, títulos públicos e privados). A média de cada qual era de R$ 79.299,53.

Enquanto isso, eram cerca de 98 milhões de depositantes de poupança com a média individual de R$ 6.690,33. Deles, 87,4% do total de clientes (cerca de 85 milhões) tinham depósitos em média per capita de apenas R$ 481,79, ou seja, a grande maioria das cadernetas de poupança tinha apenas uma espécie de saldo de conta corrente. Era forma de evitar o pagamento de tarifas bancárias.

O top dos investidores pessoas físicas era constituído de 57.919 clientes de Private Banking. A média per capita de investimentos financeiros dessa casta era de – pasmem – R$ 11.507.492,23.

Pelas declarações de Imposto de Renda, os “super-ricos” no Brasil representam só 0,3% do total de contribuintes do IR ou 0,05% da PEA do país. Os 71.440 indivíduos que receberam no mínimo 160 salários mínimos (R$ 126.080,00) ao mês ou R$ 1,5 milhão no ano, obtiveram renda anual média, no ano-base de 2013, de R$ 4,170 milhões.

Sem abater as dívidas, a média per capita de bens e direitos desta faixa mais rica atingiu R$ 17,7 milhões. Este patrimônio líquido (contendo imóveis registrados em valores históricos) desse reduzido grupo equivale a 22,7% de toda a riqueza em bens e direitos no DIRPF 2014/13.

No entanto, o imposto de renda pago por essa faixa de rendimento acima de 160 salários mínimos equivale apenas a 6,51% de sua renda total. A faixa entre 20 e 40 salários mínimos (com renda anual per capita de R$ 226.273,37) é a que paga percentual maior: 11,96%.

Quanto à reforma tributária, imposto sobre herança e/ou doação os demais grandes países emergentes do BRIC não cobram, o que incentivará a fuga de capital caso o Brasil eleve suas alíquotas. Imposto sobre grandes fortunas quase nenhum país adota, devido ao mesmo risco de fuga. Porém, isenção sobre lucros e dividendos pagos por Pessoa Jurídica para Pessoa Física, só a Estônia, além do Brasil, concede! Cerca de 51 mil daqueles 71 mil “super-ricos” recebem essa isenção. Esta casta de comerciantes-financistas deveria dar sua contribuição ao ajuste fiscal.

O fim dessa isenção evitaria a ressurreição da CPMF. Esta, de fato, representa aumento da carga tributária. Mas, devido a seus poucos defeitos – cumulatividade e regressividade – as castas dos sábios e comerciantes-financistas usam a ignorância econômica das outras castas como massa de manobra, escondendo as maiores virtudes desse “imposto do cheque”: fácil arrecadação e difícil sonegação; tributar o setor informal; combater a sonegação de outros impostos pelo cruzamento de dados de movimentações financeiras; permitir a arrecadação independentemente de ciclo econômico.

Com alíquota de 0,38%, as receitas com a CPMF, antes de 2007, eram praticamente constantes, em torno de 1,3% do PIB ao ano. Esse montante arrecadado hoje seria o suficiente para o cobrir o déficit orçamentário.

Fonte: Carta Maior
Créditos da foto: Marcos Santos / USP Imagens

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Procuradores preparam-se para entregar a Petrobras aos EUA

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Os processos que a Petrobras pode enfrentar nos EUA – No programa PAINEL de hoje na GLOBONEWS, os debatedores acharam normalíssimo promotores americanos irem a Curitiba colher provas para processar a Petrobras e disseram que a Petrobras deve se preparar para pagar uma multa de US$ 1.6 bilhão para a SEC-Securities and Exchange Commission, a CVM americana, além de mais 16 ações cíveis de acionistas minoratários que querem indenizações da Petrobras e ainda o Departamento de Justiça pode pedir condenações criminais. Todos falaram como se o Brasil fosse a merreca do mundo, galinheiro onde qualquer um põe a mão, faz e acontece.
1.A PETROBRAS é uma empresa estatal, tem controle direto do Governo brasileiro, a corporação tem sede no Brasil, o fato de ter ações listadas em Nova York não estende automaticamente a jurisdição americana sobre o Rio de Janeiro, onde a Petrobras tem sede. Os americanos podem achar que tem jurisdição mundial mas isso é o que eles acham. Uma empresa estatal é uma EXTENSÃO do Governo brasileiro, que pode invocar imunidades para um ente do Governo. Uma multa de US$1,6 bilhões é absurda, os escritórios e outros investimentos da Petrobras nos EUA não valem isso, são esses ativos que podem ser tomados, que tomem, o Brasil tem ferramentas jurídicas e espero que as use para lutar com esse non-sense.
2.OS EUA são um País que NÃO ACEITA JURISDIÇÃO ESTRANGEIRA extra territorial sobre seus cidadãos e empresas, não faz parte de cortes internacionais exatamente para não ter risco de seus nacionais serem julgados por estrangeiros.
Os pilotos do LEGACY foram condenados no Brasil e nem tomaram conhecimento, nem o Departamento de Justiça americano quis cooperar com a Justiça brasileira. A CISCO, gigante americana de informática foi autuada por contrabando no Brasil e o Governo brasileiro não processou por isso a matriz americana da CISCO, a CHEVRON foi processada aqui por danos ambientais e nenhum promotor brasileiro foi aos EUA processá-la na matriz.
3.As ações coletivas civis são golpes de escritórios de advocacia “abutres” especializados em cooptar acionistas para extorquir indenizações, é um setor da advocacia americana de péssima reputação, tipo “advogado de porta de cadeia”!, são meia dúzia de escritórios bem conhecidos, tipo “venha aqui e nós podemos fazer você ficar rico”. Caçam clientes na rua para criar escândalo e cobrar um cala boca da empresa atacada.
Meu receio é que a PETROBRAS não esteja se defendendo com a artilharia de calibre suficiente, a Justiça americana é diferente da brasileira, exige LOBBY junto ao Departamento de Justiça, se deixar os promotores sozinhos vão criar confusão máxima e pelo que sei a PETROBRAS não contratou nenhum lobista para assunto tão sério, lobista em cima da SEC e em cima do DofJ, lá é PERFEITAMENTE LEGAL E ESPERADO. Aqui aparece o tradicional comentário idiota ” Ainda não fomos notificados”, o que não vale nos EUA, lá o acusado tem que agir MUITO ANTES DE SER NOTIFICADO, para não deixar o assunto criar raízes de modo a depois ser impossível, precisa matar no ninho.
Registro meu ESTARRECIMENTO de Procuradores brasileiros, que são pagos pelo Governo do Brasil, ajudarem Procuradores estrangeiros a processar e ao fim cobrar multas bilionárias do MESMO GOVERNO que lhes paga o salário. É como o filho ajudar alguém a processar seu pai para lhe extorquir dinheiro.
Segundo os entrevistados do PAINEL disseram, especialmente o Paulo Sotero, que mora em Washington, terça-feira próxima Promotores americanos estarão em Curitiba para recolher documentação contra a PETROBRAS, obviamente vão ser recebido com tapete vermelho.
Parece que esqueceram completamente a noção de ESTADO NACIONAL, mas os americanos nunca esquecem.

MEDO, O TRIUNFO DA INTOLERÂNCIA

Por Márcia Junges e Ricardo Machado no CONTROVÉRCIA




 – Roberto Romano descreve minuciosamente os processos sociais e políticos que desembocaram nos mais distintos processos de intolerância ao longo da história ocidental

Intolerância e radicalização são uma espécie de sinônimos com etimologias distintas. Isso significa dizer que onde há uma, há outra. Após fazer um recorrido histórico no Ocidente sobre as formas de intolerância que desembocam nas que conhecemos, o professor e pesquisador Roberto Romano chama atenção para a história recente do Brasil. “Ao longo dos tempos em países escravistas como o Brasil, o exercício de cultos com origens africanas foi criminalizado. Ainda no século XX, no Departamento de Ordem Política e Social – DOPS, polícia sanguinária que envergonha todo ser humano, existia uma Delegacia de Cultos para perseguir as ‘religiões primitivas’”, destaca o pensador em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Entretanto, Romano não reduz as experiências de intolerância somente ao viés das religiões. “Com o fim da URSS e o triunfo do neoliberalismo em escala planetária, tivemos no pontificado de João Paulo II a união estratégica do mundo oficial católico com a ideologia do mercado absoluto, assumida por Ronald Reagan, Margaret Thatcher, e outros”, frisa. “A benção do papa a Pinochet foi o ápice de uma pouco santa aliança entre a política Vaticana e o veto das tentativas de manter a democracia, os direitos dos diferentes, a laicidade”, complementa.

O medo, filho dileto da intolerância, há séculos é o expediente que torna possível uma política calcada no terror, ora dos poderes eclesiais e monarcas, ora dos soberanos modernos, ora do sistema financeiro mundial. Disso, decorre o papel da comunicação que transforma os semelhantes em inimigos. “Após duas ditaduras que inocularam o medo na população, os programas televisivos e radiofônicos exercem um mister importante da razão de Estado: apontar o próprio povo como inimigo a ser ferido, distraindo assim a massa dos arcana imperii que se forjam nos palácios”, avalia Romano.

Roberto Romano cursou doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales – EHESS, França, e é professor de Filosofia na Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Escreveu, entre outros, os livros Igreja contra Estado. Crítica ao populismo católico (São Paulo: Kairós, 1979), Conservadorismo romântico (São Paulo: Ed. UNESP, 1997), Moral e Ciência. A monstruosidade no século XVIII (São Paulo: SENAC, 2002), O desafio do Islã e outros desafios (São Paulo: Perspectiva, 2004) e Os nomes do ódio (São Paulo: Perspectiva, 2009).

Fonte: CONTROVÉRSIA onde está a íntegra da entrevista com Roberto Romano

sábado, 3 de outubro de 2015

Entenda por que nem as contas na Suíça devem derrubar Cunha

Em Carta Capital

O presidente da Câmara não deve ser alvo de processo. Além de ser figura central para um impeachment, ele protege outros investigados na Lava Jato
Gilmar Felix/Câmara dos Deputados
Eduardo-Cunha
Investigações contra Cunha ganham força, mas serão suficientes para detê-lo?
Seis meses depois de classificar inquéritos daOperação Lava Jato contra políticos como "piada", o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), vê as investigações contra ele ganharem força.
Em comunicado divulgado nesta quinta-feira 1º/10, o Ministério Público da Suíça afirmou que congelou ativos de Cunha e de seus familiares em várias contas no país, depois de um banco levantar suspeitas sobre lavagem de dinheiro, em abril. Com a impossibilidade de extradição, as autoridades suíças transferiram as investigações à Procuradoria Geral da República (PGR).
Cunha já é alvo de denúncia na Lava Jato por corrupção e lavagem de dinheiro. Segundo o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, Cunha teria recebido ao menos 5 milhões de dólares em propina para viabilizar a contratação do estaleiro Samsung, responsável pela construção de dois navios-sonda da Petrobras, entre 2006 e 2012.
"Até então, parecia que havia apenas indícios. Pelo que se divulgou sobre as investigações na Suíça, as provas são agora muito consistentes, inclusive com extratos. As consequências podem, portanto, ser muito sérias", avalia Maria Tereza Sadek, professora do Departamento de Ciência Política da USP.
Apesar de as investigações contra Cunha tomarem corpo, o presidente da Câmara ainda tem um longo período de sobrevida no jogo político, avaliam especialistas ouvidos pela DW Brasil.
"Em circunstâncias normais, metade disso já teria servido para forçar uma saída de Cunha da presidência da Câmara, mas ele estende a proteção institucional da casa a outros envolvidos na Operação Lava Jato", observa Leonardo Barreto, cientista político da UnB. "Caímos numa circunstância de anormalidade que permite que Cunha tenha um nível de sobrevivência político dentro do Congresso", analisa.
Segundo Barreto, Cunha usa a máquina da Câmara dos Deputados para atacar o governo e estruturar a própria defesa. Se ele for cassado, o processo de tentativa de impeachment da presidente Dilma Rousseff perde força. Por isso, a oposição não tem interesse em que ele deixe o cargo.
"Ele continuará tendo fôlego enquanto continuar entregando a outros atores políticos uma crise que é mais importante do que a dele próprio: a crise do governo. Além disso, ele tem a capacidade de tocar um processo político contra a presidente", diz.
Para Fernando Filgueiras, cientista político da UFMG, o escândalo de corrupção, que afeta 47 deputados, alterou a dinâmica da representação política e da coalizão de governo. "Esta coalizão se desmanchou, e agora está valendo um jogo baixo de chantagem entre partidos e governo e entre partidos para que se possa de alguma forma conter o processo investigativo", explica.
"Não creio que o PMDB, partido de Cunha, tomará alguma providência para que ele saia da presidência da Câmara. Nem a oposição, que é muito desarticulada, espera sua saída, visto que ele tem atacado muito o governo e, pessoalmente, é a grande oposição ao governo Dilma."
Saída do cargo
Em agosto, um grupo de 35 deputados assinou um manifesto que pede a saída de Cunha da presidência da Câmara dos Deputados. Para Barreto, além do PSol e uma parte do PT, seria decisiva a entrada do PSDB, PSB, PPS e DEM. "Se esses partidos se posicionassem contra Cunha, ficaria muito difícil ele permanecer no cargo", diz Barreto.
Para o advogado criminalista João Ibaixe Jr., presidente do Centro de Estudos Avançados em Direito e Justiça, como ainda não foi oferecida uma denúncia sobre as contas na Suíça, ainda é prematuro falar num afastamento de Cunha da presidência da Câmara dos Deputados. "Não existe fundamento numa investigação criminal, em termos jurídicos, para se pedir o afastamento político de um congressista. O controle ético é feito, no caso, pela Câmara", explica.
Para que um processo de cassação seja iniciado, é necessário que um deputado ou um grupo de parlamentares apresente uma representação ao Conselho de Ética da Câmara, que faz um parecer e leva o tema a votação no plenário. Já o afastamento das funções é normalmente efeito de uma condenação.
O órgão ainda não recebeu nenhuma representação contra Cunha. "Até agora, nada. Os partidos estão calados e vendo isso passar sem tomar nenhuma providência", afirmou à DW Brasil o presidente do Conselho de Ética da Câmara, José Carlos Leão de Araújo (PSD-BA). "Mas alguns dizem que vão fazer isso assim que o Supremo se pronunciar."
Para o deputado, a divulgação sobre as supostas contas de Cunha na Suíça deve levar os partidos a tomar uma posição. "Com essas novas denúncias graves, a expectativa se tornou maior", afirma.
Se Cunha for cassado, a possibilidade de impeachment da presidente não se anula, mas fica mais afastada, diz Barreto. "A Câmara vai ter que parar para se resolver. Já há pretendentes [à sucessão de Cunha] no PMDB. E, assim, o PT pode negociar apoio a um ou outro em troca do relaxamento do julgamento político da presidente."
Por Karina Gomes

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Ato de Lançamento Nacional da Jornada Continental de Luta Anti-Imperialista


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Em clima de celebração dos dez anos da vitória popular sobre a ALCA e de reflexão sobre os desafios atuais da luta popular em nosso Continente, realizaremos este grande ATO POLÍTICO CULTURAL ANTI-IMPERIALISTA. Contaremos com a presença de representantes das diversas organizações que no início da década de 2000 construíram a “Campanha Continental Contra a ALCA” no Brasil, através da organização do Plebiscito Popular Contra a ALCA, em 2002, que coletou mais de 10 milhões de votos. Esse processo de construção somado às ações realizadas em países de todo continente foram fundamentais para o definitivo “enterro” da ALCA, no dia 05 de Novembro de 2015, na Cúpula da OEA em Mar del Plata, Argentina.
Passados 10 anos, é necessário que unifiquemos as organizações para realizar uma profunda reflexão sobre os atuais desafios da luta anti-imperialista, além de é claro retomar as lutas e campanhas de rua para avançarmos em vitórias concretas frente à atual contraofensiva imperialista que vivem nossos povos, nossos territórios e os governos progressistas eleitos nos últimos períodos.

É nesse espírito que a Articulação Continental dos Movimentos Sociais da ALBA convoca a JORNADA CONTINENTAL DE LUTA ANTI-IMPERIALISTA, comdiversas atividades em mais de 20 países do Continente, de 05 a 22 de Novembro de 2015, sendo que se propõe a realização de mobilizações de rua no dia 5 de novembro. 

PROGRAMAÇÃO DO ATO 07/10

o 19:00 - Abertura do Ato e Conformação de Mesa com a presença das principais organizações nacionais do Plebiscito Contra a ALCA.
o 19:20 – Debate: desafios atuais da Luta Anti-imperialista, com a presença de João Pedro Stédile representando o MST e a Articulação Continental dos Movimentos Sociais da ALBA.
o 19:40 – Saudações das Organizações e inscrições do Plenário
o 21:00 - Confraternização Latino-americana com música ao vivo, comidas e bebidas.

Contamos com a presença de vocês para nesse primeiro ato da Jornada, que promete ser uma noite de muita luta e mística latino-americana!

Convidam:
Secretaria Operativa ALBA Movimientos – Brasil
Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB)
Central Única dos Trabalhadores (CUT)
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)
Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)
União Nacional dos Estudantes (UNE)
Central de Movimentos Populares (CMP)
Consulta Popular
Centro Brasileiro de Solidariedade e Luta pela Paz (CEBRAPAZ)
Juventude do PT (JPT- São Paulo)
Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN)
Marcha Mundial das Mulheres (MMM)
Levante Popular da Juventude

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Haddad: mais uma vítima da "grande" mídia brasileira

Foi preciso que um jornal estrangeiro reconhecesse o que Haddad vem fazendo em São Paulo

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Por Paulo Nogueira Do DCM

O Wall Street Journal – conservador, pertencente a Murdoch – disse que em cidades mais mentalmente arejadas Haddad seria reconhecido como um “visionário urbano”.
Mas São Paulo, minha São Paulo, a cidade onde nasci e onde hei de morrer, bem, a cidade hoje é um monstro.
Era uma cidade popular, corintiana, à frente do resto do país em dinamismo, pujança e capacidade de trabalho.
Virou uma cidade reacionária, raivosa, preconceituosa e, sob muitos aspectos, obtusa.
Haddad inventou a bicicleta em São Paulo, e você pode dizer: demorou.
São Paulo quase não anda por causa de congentionamentos monstruosos, que entre outros efeitos poluem criminosamente a cidade.
Era óbvio que a cultura da bicicleta tinha que surgir como resposta ao pesadelo cotidiano de motores parados e motoristas neurotizados.
Sim, era óbvio. Londres, Paris, Nova York – todas as grandes metrópoles do mundo fizeram isso, no rastro dos exemplos extraordinários de Copenhague e Amsterdã.
Mas o que fizeram os antecessores de Haddad, notadamente Serra e Kassab?
Nada.
Kassab, pelo menos, não se vangloria de ser um cérebro à frente de seu tempo.
Mas Serra sim. E a verdade é que, você vendo sua folha corrida, Serra é exatamente o oposto.
Ele nunca fez nada que prestasse. São Paulo, sob ele, foi a cidade das árvores e faróis destruídos a cada chuva, dos pernilongos em festa – e dos automóveis caoticamente ocupando as ruas. Quando Serra falou emmobilidade urbana quando prefeito?
São Paulo virou a cara de Serra, em suma.
Se Serra teve sempre maciço apoio da imprensa para gerir bisonhamente São Paulo, Hassad enfrentou desde o início um brutal ataque.
Ele teve, de saída, uma iniciativa brilhante para enfrentar um dos dramas paulistanos: a desigualdade.
Montou um plano segundo o qual o IPTU de bairros periféricos seria reduzido em troca da elevação da taxa das zonas mais ricas.
Já aí ele mereceria aplausos.
Mas aconteceu o oposto. A imprensa crucificou Haddad, e os paulistanos mais abastados reagiram de uma forma pateticamente egoísta e míope.
Só que Haddad estava certo.
Assim como está coberto de razão na bicicleta.
Passada esta fase sinistra de São Paulo, superado o ódio dos que batem panelas e vestem roupas da CBF para manifestações pedir a volta dos militares, se verá o quanto Haddad acertou ao criar a cultura da bicicleta entre os paulistanos.
É possível, e até provável, que ele não consiga se reeleger em 2018.
Será uma pena, uma imensa pena para a cidade.
Caso ele não ganhe um segundo mandato, será por causa de suas virtudes – por ser um visionário urbano, como definiu o WSJ, numa terra tão reacionária.
 

Leia a matéria completa em: Foi preciso que um jornal estrangeiro reconhecesse o que Haddad vem fazendo em São Paulo. Por Paulo Nogueira - Geledés http://www.geledes.org.br/foi-preciso-que-um-jornal-estrangeiro-reconhecesse-o-que-haddad-vem-fazendo-em-sao-paulo-por-paulo-nogueira/#ixzz3moAkNtPe

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O FIM DA ISENÇÃO DE IR EM LUCROS E DIVIDENDOS FECHARIA ORÇAMENTO 2016

André Barrocal

Valter Campanato/Agência Brasil

Levy (esq) venceu Barbosa e optou por não transmitir sinal contrário ao “andar de cima”


O governo anunciou na segunda-feira 14 alguns aumentos de impostos para tentar transformar o rombo de 30 bilhões de reais no orçamento de 2016 em uma sobra de 34 bilhões. Embora tivesse à mão um leque de opções capazes de tornar o sistema tributário brasileiro mais justo, o pacote tem propostas progressivas tímidas. O motivo foi o boicote do ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Entre as medidas anunciadas, só duas atacam a injustiça da tributação nacional, concentrada na taxação do consumo, um modelo punitivo dos mais pobres.

Uma cria uma tabela progressiva de imposto de renda (IR) sobre o lucro obtido na venda de imóveis. Hoje, há uma alíquota de 15% de IR no lucro nestas transações. O governo quer cobrar 20%, 25% ou 30% em cima dos ganhos que, durante um ano, superem um milhão de reais.

A outra reduz um pouco as vantagens obtidas pelas empresas no uso de um dispositivo chamado “juros sobre capital próprio”. Este mecanismo, criado por uma lei de 1995 e existente só no Brasil, permite às pessoas jurídicas inventar uma despesa para pagar menos IR.

Juntas, as duas medidas, caso entrem em vigor tal qual propostas pelo governo, vão render 2,9 bilhões de reais anuais, nas contas da equipe de Levy.

A principal aposta tributária do governo para fechar o orçamento de 2016 é recriar a CPMF com uma alíquota de 0,20%. Renderia 32 bilhões de reais por ano.

Além da volta da CPMF, o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, defendia dentro do governo duas medidas tributárias progressivas. Alíquotas maiores para o Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF). E fim da isenção de IRPF na distribuição de lucros e dividendos a donos e sócios de firmas.

Barbosa contava com o apoio de ao menos dois ministros do chamado núcleo duro do governo: Miguel Rossetto (Secretaria Geral) e Ricardo Berzoini (Comunicações). Segundo um ministro deste núcleo duro, Levy resistiu a “enfrentar os tubarões”, tendo optado por propostas que lhe pareciam “neutras”, ou seja, incapazes de transmitir sinal contrário ao “andar de cima”.

“A principal medida de progressividade tributária hoje no Brasil é acabar com a isenção de IR nos lucros e dividendos”, diz Sérgio Gobetti, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e ex-secretário-adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda.
Por coincidência, Gobetti participou logo após o anúncio do governo de um debate na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado sobre a carga tributária nacional. Ele e o também pesquisador do Ipea Rodrigo Orair examinaram dados recém-divulgados pela Receita Federal sobre o IRPF e concluíram que a maior distorção está na blindagem dos lucros e dividendos.

A isenção foi instituída pela mesma lei de 1995 que inventou o “juro sobre capital próprio”. Na declaração de IR entregue pelos brasileiros em 2014, essa isenção protegeu 71 mil contribuintes recebedores de quase 200 bilhões de reais isentos de tributação. “Há uma brutal concentração de renda no Brasil graças a essa isenção”, afirma Orair.

A volta do IR sobre a distribuição de lucros e dividendos poderia resolver quase sozinha os problemas do orçamento de 2016. Com uma alíquota de 15% como era até 1995, dizem os pesquisadores do Ipea, a taxação renderia 53 bilhões de reais por ano. Já com a aplicação da tabela progressiva do IRPF, com um teto de 27,5%, a arrecadação chegaria a 72 bilhões de reais anuais.

“O Brasil já avançou no gasto público para fazer justiça social. Falta arrecadar melhor”, diz o senador Lindberg Farias (PT-RJ), relator da subcomissão da CAE

FONTE: CARTA CAPITAL

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Dilma assume plataforma neoliberal. E agora?

negrobelchior 



Foto CUT

Lideranças da CUT, aliadas históricas dos governos de Lula e Dilma, têm sido enfáticas na crítica às ações econômicas do governo. Muitas afirmações,noticiadas em diversos meios de comunicação, são muito fortes: “A culpa da crise está sendo imputada aos trabalhadores”; “Falta diálogo do Governo junto a sociedade”; “O governo sinaliza para setores que não o apóia”; “Dilma prometeu uma coisa e está implementando outra”; “O governo desvia a política econômica para um rumo neoliberal, de direita, que não se sensibiliza com injustiças sociais”. Ao mesmo tempo em que são incisivas na crítica ao pacote e à política econômica do governo, são duras também da defesa do mandato da presidenta e no enfrentamento às iniciativas pró- impeachment, que chamam de “Golpe”.
Abordagem parecida com a da recém formada Frente Brasil Popular, que para além das críticas, apresentam uma plataforma progressista como alternativa à crise política e econômica que vivemos.
Assim como há tempos bradam as organizações que fazem oposição pela esquerda ao governo, parece que os setores mais alinhados chegaram também a conclusão de que é necessário construir saídas que possam superar a experiência petista no poder, sem no entanto, abrir mão das poucas conquistas sociais.
Mas há, me parece, duas perguntas que precisam ser respondidas: Será possível a construção de alternativas tendo como protagonistas das ações, os mesmos atores que dirigiram o processo político até aqui? Importantes atores políticos e sociais que até aqui apoiaram o governo, hoje tem suas pautas ignoradas e atacadas por ele. Estes terão legitimidade, representatividade, credibilidade moral para propor um novo caminho?

A saída é taxar as grandes fortunas e a especulação

Do Site da Smetal

Em nota à imprensa, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região, Ademilson Terto da Silva, criticou as medidas de ajuste fiscal anunciadas esta semana pelo governo federal. Em nome do SMetal, Terto disse que a instituição jamais concordará com medidas que joguem o peso de qualquer crise econômica nas costas dos trabalhadores.
O SMetal defende a taxação de grandes fortunas e do capital especulativo como forma de equilibrar as contas públicas, sem a necessidade de ressuscitar velhos e injustos tributos, como a CPMF, criada pelo governo neoliberal do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Uma reportagem da Carta Capital publicada dia 15/09 confirma que a tributação do capital não produtivo já bastaria para o governo alcançar o superávit necessário, sem mexer no bolso dos trabalhadores nem reduzir os recursos de programas sociais.
De acordo com a reportagem, um estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) comprova que se o governo cobrasse 15% de imposto de renda sobre os lucros e dividendos recebidos por acionistas de empresas, as contas públicas já fechariam. Com essa taxação de capital especulativo, o governo iria arrecadas R$ 43 bilhões no ano, suficientes para cobrir o rombo orçamentário previsto para 2016.
Atualmente, devido à legislação aprovada em 1995, durante o governo de Fernando Henrique, os acionistas de empresas estão isentos de imposto de renda sobre os lucros e dividendos de suas ações. No mundo, apenas o Brasil e a Estônia são tão generosos com os investidores de bolsa de valores.
Não existe, na fala de Terto, nenhum indício de rompimento com o projeto de governo que começou com Lula e continuou no primeiro mandato de Dilma. Até porque, foi durante esse período que foram gerados mais de 10 milhões de postos de trabalho. A categoria metalúrgica na região de Sorocaba, por exemplo, cresceu de 19 mil trabalhadores em 2002 para 45 mil em 2014. Atualmente, mesmo com as demissões, a categoria é formada por mais de 42 mil metalúrgicos, mais do que o dobro da época de Fernando Henrique.
As críticas do SMetal visam ajudar a corrigir rumos da economia, e não retroceder na área social e na democracia. É necessário preservar programas como o Minha Casa Minha Vida, o Prouni, o Bolsa Família (transferência de renda condicionada à frequencia escolar), os incentivos à agricultura familiar, entre outros.
O problema atual do governo está justamente em se desviar para um rumo neoliberal, de direita, que não se sensibiliza com injustiças sociais.
A CUT e o SMetal pregam o diálogo entre trabalhadores, governo e empresários do setor produtivo para corrigir essa rota. Sempre que alguma medida prejudicar o trabalhador, a CUT será contra e vai lutar para revertê-la. Mas não é por isso que vai compactuar com golpismos e atentados à democracia.

Fonte: Carta Capital

domingo, 6 de setembro de 2015

Os dribles da idade


Não chove. O calor incomoda os cachorros e põe em risco a vida do minhocário. Os olhos das pessoas pedem umidificante. Dona Pandá se lembra da fazendeira Ana. Quer ir vê-la. Como poderia ajudá-la? Percebe que a única coisa que poderia fazer é mostrar sua solidariedade. Para quem está vendo seu gado passar fome e sede, sabendo que se não chover muito e no curtíssimo prazo, vai perder tudo vale alguma coisa esta solidariedade?

Impotência

Ontem, Dona Pandá conversava com sua amiga sobre a velhice e sabiamente falava de dribles à idade da dor, contrabalançando com a busca de prazeres. Vendo a tristeza em sua fisionomia, tentei uma provocação.

- Dona Pandá, a senhora não acha que, na sua idade, a busca de prazeres é muito limitada?

- Veja, existe aquela história de que cada idade tem os seus encantos. Acredito que se nos fiarmos nisto, estamos mal servidas. Precisamos ir atrás dos tais encantos.

- Como?

- Bem, cada pessoa tem os seus próprios limites. A tendência é colocarem os limites nos outros. Não podemos permitir. Ninguém sabe até onde posso e quero ir. Também cada pessoa sabe o que lhe dá dor ou prazer. Como não sou masoquista, separo bem uma do outro. Vamos procurar nossas fontes de prazer.

- A principal para a senhora é a terra.

- Sim, mas a arte é outra poderosa fonte.

- Claro! A literatura.

- Não só. A música, o teatro, a pintura, a dança.  Lembro de uma Bienal de São Paulo, há um bocado de anos, que fiquei emocionada com um bico de pena de Flávio de Carvalho, chamado “Retrato de Mio”. Foi uma emoção tão forte que ainda sinto seus vestígios. O trabalho criativo tem o poder de nos despertar e este despertar nos leva a um prazer, muitas vezes, perturbador.

- Flávio de Carvalho é aquele que saiu às ruas nu, vestindo um barril?

- Ele mesmo, foi há muitos anos. Como você sabe disso, menina? – Perguntou enquanto sorria maliciosamente. Prosseguiu:

- Você ouviu a Vina dizendo que não perde mais tempo com determinadas pessoas.

- Ouvi Dona Etelvina dizer algo parecido.

- Pois é. Na medida em que a gente envelhece, vai percebendo o valor do tempo, do nosso tempo. Então, uma porção de brigas deixa de nos interessar. Brigar somente pelo que de fato vale a pena.

- A senhora fui muito briguenta? – Ousei e já me arrependia. Ela fez uma cara de quem ia se defender com braveza, mas sorriu e disse:

- Olha aí, eu quase entro nessa sua provocação. A segunda. A primeira foi por boa causa, você me tirou a Ana e suas desgraças da cabeça. É outra perda de energia. Nada posso fazer por ela, além de comprar algumas coisas que produz. Espero que chova logo. Pela Ana e por nós.







 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Vamos dançar valsa?


Estava em minha bancada de trabalho e ouvi uma conversa que me fez parar e prestar atenção nas falas alheias. Não era uma conversa ao pé do ouvido, pelo contrário falavam num tom acima do costume.

- As senhoras querem um chá? – Perguntei ao passar por elas no meu caminho para a cozinha.
- Chá só se for gelado. Está um bocado quente. Você poderia colocar sua engenhosa imaginação para funcionar e nos trazer algo mais criativo, como por exemplo, uma cerveja do Alívio Gelado, geladaça! – Respondeu Dona Pandá que, só então, se lembrou de me apresentar à sua amiga.
- Vina, esta é minha assistente, Maria. Maria, esta é minha amiga de centena de anos, a senhora Etelvina Cruz.

Quando a senhora Etelvina falou “muito prazer”, percebi que ela era a responsável pelo tom acima. 
Fui tratar de ver, na geladeira, a cerveja do Alívio Gelado. (Quando Dona Pandá quer alguma bebida muito gelada, ela diz que é do Alívio Gelado, a pequena empresa entregadora de cerveja gelada do seu filho). Mesmo distante, acompanhei o que se passava na sala.

Dona Pandá explicava que sua amiga deveria colocar um aparelho auditivo.
- Mas Pandá, não tenho condições, minha única fonte de renda é a aposentadoria do INSS... preciso lhe dizer qual é minha faixa no Imposto de Renda?
- Não. Conheço bem este pedaço. Vou lhe ensinar o caminho das pedras. Vá a Unidade Básica de Saúde mais próxima de sua casa e agende uma consulta com o clínico para ele encaminhá-la ao otorrino.
- SUS! - Gritou a amiga, com uma expressão indignada.
- Ah! Você está vendo o meu aparelho? Coloquei pelo SUS. Excelente. Tive que esperar um bocado, porém valeu a pena. As fonos são competentes e atenciosas.
- Ih! Vou morrer de esperar.
- Por que você não faz assim: enquanto não morre, começa o processo na sua UBS? Olhe, você corre o risco de ter o aparelho antes.

 – Eu estava entrando com a cerveja e pude ver a expressão de espanto misturado com raiva de Dona Etelvina que, buscando, lá no fundo de sua vivência, a sabedoria da boa amizade, deu uma gostosa risada.

- Poxa! Pandá, não é que você tem razão.
- Sabe, Vina, essa tal velhice é mesmo uma merda! Você sente uma dor aqui, ali e acolá, vai ao médico e ele lhe diz: “Nada grave, não precisa se preocupar” e você, idiotamente, pergunta: “mas o que é? ” Ele, com a cara da indiferença de quem ignora o que é chegar lá, lhe sentencia: “nada, é da idade” E, claro, você sai de lá pensando: “Então, estou na idade das dores”.

- É verdade, já me aconteceu isto mesmo. E dizem que é a melhor idade...
- Acho que envelhecer nada tem de encantador. Por isto temos a obrigação conosco de aproveitar tudo o que podemos, inclusive os resultados da tecnologia para amenizar os desconfortos e mesmo para nos dar um bocado a mais de prazer. Prazer sim é encantador! Também usar a sabedoria de quem já conhece a situação e dar a volta é encantador...

- Uma coisa que tem acontecido comigo e, deve ser a sabedoria de que você está falando, é a seleção de enfrentamentos. Não brigo tanto mais. Não acredito mais que sou capaz de mudar alguém, sobretudo aqueles que não querem mudar, nem ouvir. Não perco meu tempo já que ele é pouco.

- Agora, que esta “Caracu” está deliciosa, está. Está ajudando a mandar a idade das dores pra lá e ficar com a idade dos prazeres. Estou pensando em fazer uma lista. A cada desconforto, dor ou algo ruim trazido pela idade, colocar um prazer. Por exemplo, se tenho dificuldade de pular o carnaval, vou dançar valsa.



quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Que o capital pague por sua crise


EDITORIAL do Brasil de Fato
Edição 653
                                                               31.08.2015                                                             
Que o capital pague por sua crise
                                                      
Depois do grande acordo a portas fechadas entre o grande capital, banqueiros, representantes do Governo, do Instituto Lula, do Partido dos Trabalhadores, etc., um silêncio surdo parece haver coberto o País.
 Negociados os “dossiês” mais urgentes – de modo que figuras de proa não tivessem (pelo menos, de imediato) suas imagens maculadas, nem fossem obrigadas a fazer faxina nos corredores de penitenciárias, casas de detenção ou delegacias, parece-nos viver uma trégua. Doce ilusão daqueles que, reféns dos seus próprios “desvios”, animaram e participaram das negociações imaginando que os nossos adversários e inimigos de classe se satisfarão com o negociado. Eles arrocharão sempre o torniquete, a cada momento que necessitem novas concessões. Se, por enquanto, os inimigos lhes tomaram as calças, noutro momento, vão querer os slips. E assim por diante, até exigirem aquilo que calças e slips não mais cobrem... .
 Doce ilusão, também, imaginarem que os trabalhadores e o povo (povo = explorados e oprimidos) respaldarão sempre seus recuos e rendições; que se deixarão trair passivamente. Isto não existe: ninguém engana todos, durante todo tempo.
 Por isto, a nossa pauta tem de ser outra: a crise econômica está aí e, a depender dos de sempre, seremos nós – a classe trabalhadora e o povo – quem pagará toda a conta. A depender de muitos que pensam e dizem nos representar, também.
 Rejeitaremos toda medida que transfira para nós, o preço da crise: seja em termos de tributos e taxações (tipo o modo como estão sendo conduzidos o ajuste fiscal ou a ressurreição da CPMF); seja no que diz respeito à entrega de nossas riquezas (Pré-Sal e outras); das nossas tecnologias (enriquecimento do urânio, submarino atômico etc.); seja de qualquer das nossas conquistas de 1988. Além – é pressuposto óbvio – da defesa intransigente da integridade do nosso território e da nossa soberania.
 Para garantir nossa pauta, é indispensável que tragamos para as ruas, avenidas, praças – enfim, para os espaços públicos – as nossas disputas, inviabilizando qualquer acordo de cúpula que não atenda aos nossos interesses de classe, e submetendo a luta institucional à pressão dos trabalhadores e do povo, organizados de forma independente e autônoma – como fizemos há duas semanas, no dia 20 de agosto. Ou seja, para garantir nossa pauta é indispensável nos transformarmos de fato em sujeito político – sujeito coletivo.

Sim, só o povo organizado derruba a impostura.
 Com a crise política e institucional (que está longe de chegar a um final – sobretudo a um final que corresponda aos nossos interesses); com a falência de diversos partidos do espectro de esquerda, formaram-se, em todo o País, grupos de militantes de todas as gerações, em busca da construção de instrumentos políticos (organizações frentistas, pautas, programas, etc.) capazes de intervir na conjuntura de modo a defender os interesses dos trabalhadores e do povo. Muitos têm avançado, apesar de enfrentarem problemas de todos os tipos. É fundamental que esses coletivos se fortaleçam, e procurem formas de trabalhar conjuntamente entre si, com os sindicatos e movimentos populares combativos e que agem no mesmo rumo. Alguns partidos têm também desempenhado importantes papéis nesse sentido.
 É fundamental que todos prossigamos.
É indispensável que todos prossigamos.
Não dá para baixar a guarda.
 É igualmente fundamental que deixemos de pensar no Brasil como uma ilha, isolado, portanto, das dinâmicas econômicas e políticas (e também ideológicas) que se desenvolvem mundo afora. Impossível pensar de modo adequado o que fazer (sempre do ponto de vista dos trabalhadores e do povo), sem ter em conta que as crises que se aprofundam nos Estados Unidos e na China, para além da influência que terão em toda a economia internacional, cobrarão um preço especial à nossa economia: Pequim e Washington significam os dois maiores mercados de importação dos nossos produtos.
Vamos todos juntos em torno de um programa que possamos construir coletivamente. Mas, são partes constitutivas de um programa, os métodos a serem utilizados. Métodos e programas são como forma e conteúdo: não podem ser separados. Eles constituem um todo indivisível. E, infelizmente, muitos camaradas ainda não perceberam que a maioria dos problemas que resultam em divisões e rachas na esquerda, tem origem na utilização de métodos que repetem aqueles dos nossos inimigos de classe (oportunismos, passa-moleques, rasteiras, golpinhos, etc.), e não necessariamente de divergências políticas que, mantidos os princípios, podem quase sempre ser negociadas, desde que de forma clara e transparente.
 Assim, se nos comprometermos a repelir os velhos métodos, vamos todos juntos e conquistaremos grandes vitórias.
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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A lida diária da Ana Valente


Dona Pandá procurava a matéria-prima para implantar seu minhocário, com a finalidade de recuperar o pomar e fazer uma pequena horta. Depois de muita procura, encontrou o senhor Margarido – irmão do caseiro de um vizinho – que se dispôs a lhe mostrar o caminho de uma fazenda que vendia esterco.
Quando entraram na estrada de terra, o senhor Margarido, mostrando sua genuína mineirice, falou:
- Vou precisar só de três sacos de esterco. A senhora pode encher sua caminhonete com os 16 sacos, mas eu preciso mesmo é só de três. – Entendendo que era o preço que deveria pagar pelo serviço de guiá-la, Dona Pandá respondeu:
- Está bem. Vamos ver quantos sacos vamos conseguir colocar na carroceria.

Chegando, foram recebidos por Dona Ana, a fazendeira, que, imediatamente, pegou uma pá e se meteu num barracão cheio de esterco já curtido. De lá, gritou:
- Vou ensacar. Quantos a senhora vai levar?
- Quantos couber.
- Cobro R$ 3,00 cada saco.
- Está bem. – Dona Pandá quase falou que estava muito barato, pois havia comprado cinco sacos a R$ 10,00. Ouviu, então, o senhor Margarido dizer que estava indo ajudar Dana Ana. Ela, com a pá ia jogando o esterco no saco que ele abria e segurava. Quando enchia, levava para fora do barracão, próximo da Preta, a caminhonete.

Ana é uma mulher, cuja idade meio indefinida pode ser uns 60 anos, estatura média, magra, mas nem tanto, cabelos castanhos, mal tampados por um lenço. Consegue, num quase milagre, conservar traços que denunciam uma beleza levada pelo trabalho bruto e contínuo. Durante o tempo todo, contou causos e Dona Pandá ficou sabendo que moravam com ela o pai e o irmão.

O pai, completamente corcunda, apareceu e foi logo explicando que suas costas eram o resultado de tanto carregar cana para as vacas. Estas ficam presas no curral, sendo alimentadas por cana triturada com ração que é comprada “quando Ana vai receber minha aposentadoria e já deixa tudo na casa de rações”.  

Antes de terminar o ensacamento, apareceu o irmão e de longe gritou:
- Está na hora. - Ana explicou que precisava ajudar a trazer os bezerros para lhes dar a ração. As vacas ficam presas para não gastarem energia e não emagrecerem mais ainda, enquanto os bezerros só mamam pela manhã, no momento de tirar o leite. Depois são apartados e ficam no pasto que de tão seco já se vê terra nua.

Passados 20 minutos, Ana, de volta e recomeçou o trabalho. O senhor Margarido comprou queijo, linguiça e outros produtos que Ana fez na véspera e estava negociando frango, quando Dona Pandá, enfim percebendo que a ave iria concorrer com os pedais da Preta, avisou que não levaria nenhum animal. Ninguém pediu justificativa porque Dona Pandá usou sua conveniente cara antipática de quem não quer saber de conversa.

Ana pareceu entender que seu cliente havia passado a linha da conveniência e ofereceu o número do seu celular para Dona Pandá lhe avisar quando quisesse mais esterco, “podendo vir sozinha, agora que a senhora já conhece o caminho”.

Na volta, Dona Pandá teve dificuldade de manter a conversa com o companheiro de viagem. Não conseguia tirar da retina a imagem de Ana, o pai corcunda e o irmão com a preguiça da desnutrição, as vacas magras, os bezerros mal chegando às tetas das mães, o pasto inexistente. A pobreza transformou uma fazenda produtiva num lugar seco, onde as perspectivas são cruéis como a vida de quem lá ficou.  



sábado, 29 de agosto de 2015

Cuidado com sandálias no quintal: podem lhe trazer um presente


Durante mais de 15 anos Dona Pandá administrou um minhocário que implantou em sua Chácara Xury,  localizada no Município de Ibiúna (SP), cujo clima é mais para frio e há um regime de chuvas bem generoso. Então, naturalmente, ela achava que minhoca estava dentro do seu saber. Implantar outro minhocário seria tirar de letra, fácil, facílimo.

Ledo engano!

Dona Pandá  pode se considerar sabichona na matéria, mas até agora só conseguiu apanhar. Escolheu um lugar próximo da horta para facilitar o manuseio e transporte do húmus para os canteiros. Para evitar o Sol, uma cobertura de lona e sombrite. Que nada! O calor nas Alterosas ignora o sombrite. Umedeceu o esterco e achou que estava numa temperatura apropriada – minhoca não gosta de calor, nem de claridade -, verificou no meio das manilhas, onde colocou o esterco, a uns 30 cm de profundidade, e quase queimou a mão.

Para não entediar, vocês que já estão sem paciência,  querendo saber logo se, afinal, Dona Pandá conseguiu fazer a transferência da tecnologia ou morreu na praia, no nosso caso, no meio dos estercos, vou contar logo o que ocorre há três dias.

Dona Pandá, com a ajuda do Nego – que trabalha no sítio Catita meio período -  tem dedicado suas manhãs a tentar – porque até o momento ainda não conseguiu – abaixar a temperatura dentro das manilhas. Fizeram uma coberta com lona e colocaram uma faixa de sombrite embaixo da lona e outra sobre as manilhas. Ficou vigiando o Sol durante todo o dia e cobrindo com mais lona e sombrite onde ele aparecia. A temperatura da superfície estava perfeita, mas não no interior da manilha. Passou, então, a resfriar a manilha com o líquido escasso e precioso, a água.  A cada dia, conseguiu abaixar uns grauzinhos, mas ainda está longe daquela tranquilidade conhecida, mas não encontrada aqui. Esta tranquilidade está fugindo com o calor de Dona Pandá que não teve outra saída a não ser, mais uma vez, reconhecer sua ignorância.

Não está conseguindo a temperatura que persegue, mas ganhou um presente. Hoje, nossa amiga, sentindo que não conseguia limpar o calcanhar do pé direito que sofreu um corte, foi à podóloga para quem fez suas queixas do incômodo no calcanhar, relatou ainda que tem andado de havaianas devido ao calor. O resultado do exame da podologia foi a retirada de cindo bichos de pé.