Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Uso Seguro de Agrotóxico não Existe


Especialistas reunidos em Recife destacam que o chamado “uso seguro” de agrotóxicos não existe




Sex, 03 de Dezembro de 2010 – CPT

Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, realizado em Pernambuco, derrubou esse mito baseando-se na análise dos critérios técnico-científicos utilizados internacionalmente e no Brasil, para a determinação de indicadores de toxicidade dos agrotóxicos.
Na última semana, nos dias 25 e 26 de novembro, o Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos realizou congresso em Recife intitulado “Agrotóxicos, saúde e meio ambiente: o direito à informação”. O evento marcou o primeiro ano de atuação do Fórum, que surgiu com o objetivo de ser um mecanismo de controle social sobre o tema. Além de Recife, Salvador e Cuiabá foram também sede de eventos semelhantes promovidos pelo Fórum ao longo de 2010.
O Fórum é coordenado pelos Ministérios Públicos do Trabalho e Federal e por organizações da sociedade civil das áreas de meio ambiente, saúde, saúde do trabalhador e por movimentos sociais do campo.
Os debates realizados ao longo do evento recuperaram o histórico das políticas oficiais que a partir da década de 1960 apoiaram a consolidação do modelo agrícola hoje predominante, químico-dependente, lembrando que muitos dos seus impactos sociais permanecem desconhecidos até hoje. Do ponto de vista das intoxicações, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que há cerca de 50 casos não notificados para cada um que chega ao conhecimento das autoridades.
Também destacou-se em um dos painéis o fato de não ser possível o “uso seguro” de agrotóxicos, ao contrário do discurso apregoado pela indústria. A crítica a essa visão foi feita com base na análise dos critérios técnico-científicos utilizados internacionalmente e no Brasil para a determinação de indicadores de toxicidade dos agrotóxicos.
Os estudos que geram esses dados são feitos em sistemas fechados e com produtos isolados, quando na realidade a aplicação dos venenos é feita em sistemas abertos e o produtor está exposto a diversos produtos a um só tempo. Além disso, os dados gerados experimentalmente são extrapolados para a situação humana, quando se sabe que não há linearidade entre exposição a um dado produto e seus efeitos.
Esta reflexão levantou a necessidade de um maior engajamento da ciência em prol do interesse público, de forma que esta posicione-se acima dos interesses do mercado.
Outro painel abordou a questão da importação de agrotóxicos, lembrando que o registro de produtos formulados só é aceito quando há registro dos produtos técnicos que entram em sua composição e, por isso, no Brasil não se aceita a livre importação de agrotóxicos.
O congresso foi seguido pela plenária do Fórum Nacional, onde representantes das organizações presentes relataram problemas enfrentados em suas regiões, que serão encaminhadas pela coordenação do Fórum para conhecimento e providências do Ministério Público nos respectivos estados.


Carta da Saúde Ambiental

I Simpósio Brasileiro de Saúde Ambiental
Belém do Pará, Dezembro de 2010


Aprendendo com a história, setores cada vez mais amplos da sociedade se movem para re-conceber, em bases harmoniosas e igualitárias, a nossa relação com a Natureza e nossos projetos de futuro. Para isto, nos mobilizamos, cerca de 1000 professores, pesquisadores, estudantes e técnicos, aqui presentes, para debater acerca da responsabilidade do campo da Saúde Ambiental brasileira neste especial momento da trajetória humana no Planeta Terra.
Há, entre nós, um sentimento comum de indignação e não passividade para com a apropriação da ciência e da tecnologia pela racionalidade instrumental econômica, que concorre significativamente para a crise civilizatória, nas dimensões ambiental, econômica, sócio-sanitária e política, como também denuncia uma crise ética e paradigmática do conhecimento científico.
Qual o papel da ciência neste contexto? Como articulamos o modo de produção e consumo das sociedades contemporâneas com o ambiente e a saúde? Como isto se expressa no modelo de desenvolvimento delineado pela globalização e pela reestruturação sócio-espacial da produção? Em que medida o Estado Nação tem sido capaz de fazer valer seu papel, se antecipando às ofensivas do grande capital e protegendo a população e os ecossistemas? Qual o papel da sociedade civil organizada no enfrentamento destes problemas?
A questão ambiental, conformada por uma lógica de intervenção da sociedade no sentido da apropriação da natureza, ou mais especificamente, uma lógica capitalista de produção e consumo, nos coloca o desafio de compreender e analisar as conexões entre os processos produtivos, as relações sociais e a saúde, assim como as desigualdades dos riscos à saúde e das vulnerabilidades socio-ambientais.
Na vigência de uma economia cujo mercado está mundializado, nossa biodiversidade, a riqueza do subsolo e fontes de água, a extensão de nossa terra, a capacidade de trabalho do povo, e até mesmo as seqüelas de sua secular exclusão, são elementos que delimitam uma escolha político-econômica que subestima seus próprios efeitos deletérios ao ambiente e à saúde das populações. Ademais, não prevê formas efetivas de recuperação da natureza e de prevenção e cuidado com a saúde humana. Este desenho nos inclui na economia global na condição de país produtor e exportador de commodities agroindustriais, num modelo monocultor químico-dependente de padrão agro-bio-tecnológico, que se expande sobre biomas como a Amazônia e o Cerrado. Somam-se a esta configuração as cadeias de mineração-aço e petroquímica, entre outras, que produzem expressiva contaminação ambiental e danos à saúde humana. Este é o pacto perverso do capitalismo atual, que produz injustiças ambientais e nos coloca importantes desafios para o seu enfrentamento.
Se este modelo nos colocou entre as seis maiores economias do mundo, ainda não se conseguiu superar as distâncias existentes entre esse “progresso” e o grande acúmulo de riquezas que ele possibilitou, com o desenvolvimento humano e seus indicadores no campo do saneamento, da educação, da saúde, e da qualidade ambiental.
O Estado brasileiro tem se colocado, muitas vezes, de forma subordinada aos ditames das grandes corporações internacionais e facilitado sua instalação, no país, disponibilizando vultosos recursos públicos para estes investimentos e as infra-estruturas que demandam. Assim, grande parte das comunidades, que no discurso hegemônico seriam beneficiadas pelo crescimento econômico, passam a ser atingidas por ele, expulsas de suas terras e afastadas de seus ecossistemas, perdendo sua segurança e soberania alimentar, sob o aceno de insuficientes medidas compensatórias focais.
A complexidade e as incertezas do conhecimento científico devem ser consideradas nos processos de tomada de decisão político-técnicos voltados para o estabelecimento da regulação de parâmetros ambientais e do trabalho, que visem à proteção à vida e à saúde. Torna-se imperativo que as políticas públicas se voltem para essas questões e se utilizem de princípios éticos e precaucionários diante dessas incertezas, dialogando respeitosamente com outros saberes e culturas.
No contexto da ordem mundial dos “neo” colonialismo, imperialismo e liberalismo, dialeticamente, povos indígenas, afrodescendentes, comunidades tradicionais, trabalhadores e moradores das periferias urbanas resistem e avançam na construção de alternativas a este modelo, como são a Agroecologia e a Economia Solidária, preservando suas culturas e saberes de cuidado com a Vida.
Colocamos-nos ao lado dos cuidadores da vida e afirmamos a importância da práxis na produção de uma ciência cidadã, com pressupostos éticos, que supere as barreiras disciplinares e os muros da academia, para produzir processos coletivos de produção de conhecimentos emancipatórios e de proteção da saúde e do ambiente.
Nesse sentido é necessário desenvolver e aprofundar teorias e técnicas que auxiliem o entendimento das influências do meio ambiente na saúde e forneçam subsídios para a formulação de respostas apropriadas do ponto de vista da Saúde Pública e, dessa forma, possibilitem intervenções consistentes e efetivas através de abordagens integradoras e globalizantes. A práxis nos compromete a lutar por Políticas Públicas que assegurem o direito à saúde e ao ambiente saudável, para o qual uma nova concepção de Ciência e Tecnologia tem papel fundamental.

Fonte:   
De: Secretaria ANA [mailto:secretaria.ana@agroecologia.org.br]
Enviada em: Monday, December 13, 2010 1:29 PM
Assunto: Carta da Saúde Ambiental Belém dezembro 2010

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A democracia fugiu do controle?


Ainda é cedo para maiores projeções nessa ou naquela direção sobre os te-legramas wikis ou sobre o papel repre-sentado por Julian Assange. Uma coi-sa é certa. A pergunta que se configu-ra aos poucos e que o confronto entre a força avassaladora da nova informação eletrônica e a da velha mídia mundial a serviço do poder hegemônico do capitalismo nos coloca é a seguinte: a democracia representativa burguesa está fugindo ao controle de quem a tutela? 
Izaías Almada

Um curioso artigo do jornalista espanhol Pascual Serrano publicado em El Periódico de Catalunya e reproduzido no sítio www.rebelion.org levanta uma questão interessante provocada pelos milhares de telegramas vazados pelo sítio WikiLeaks na internet, mas que ? de algum modo até intrigante ? ultrapassa a polêmica criada na imprensa mundial diante do volume e do conteúdo ali exibidos.
 Diz Serrano na introdução de seu texto que o fenômeno WikiLeaks tem monopolizado numerosas análises e reflexões sobre o futuro da informação, da internet e da própria difusão de notícias. É natural. Como o direito à informação e à liberdade de imprensa se constitui em pilares, dentre outros, da democracia tal qual a conhecemos e é praticada em boa parte do mundo ocidental, chama a atenção o fato de que parece se configurar com maior nitidez uma verdade que a hipocrisia de muitos ?democratas? procura esconder e maquiar há algum tempo: afinal existem informações e... informações. Como também existem concepções diferentes sobre a liberdade de imprensa.
 Quando um país, como os Estados Unidos da América, apoia um golpe de Estado contra um governo democraticamente eleito, o último exemplo é a deposição do presidente Manuel Zelaya em Honduras (mas a lista é imensa só nos últimos 50 anos), é justo encobrir ou negar essa informação? Em nome de que? De quem? E a liberdade de imprensa onde é que fica? Os chamados segredos de estado só pesam em um dos pratos da balança?
 Não é por acaso que o pensador e linguista Noam Chomsky declara, a propósito dos recentes vazamentos no WikiLeaks, que os governantes norte-americanos tem profundo desprezo pela democracia, essa mesma da qual se orgulham e querem impor ao mundo através da força.
 Muito a propósito, vejamos as recentes declarações do atual embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, em artigo escrito para o jornal Folha de S.Paulo no dia 2 de dezembro passado: ?O presidente Obama e a secretária de Estado Hillary Clinton decidiram dar prioridade à revigoração das relações dos EUA no mundo. Ambos têm trabalhado com afinco para fortalecer as parcerias existentes e construir novas parcerias no enfrentamento de desafios comuns, das mudanças climáticas e da eliminação da ameaça das armas nucleares até a luta contra doenças e contra a pobreza.?
 Obedecendo à orientação de Washington para minimizar os telegramas wikis, o blablablá retórico de Thomas Shannon é vazio de significado prático e recheado de conteúdo cínico. No contexto da América Latina, quais seriam esses desafios, senhor embaixador? O combate ao narcotráfico, por exemplo? Mas qual é o maior país consumidor de drogas pesadas no mundo e, portanto, grande sustentáculo do narcotráfico internacional, segundo relatórios da ONU? Os Estados Unidos da América. Qual o volume de dinheiro do narcotráfico branqueado em bancos norte-americanos (e europeus)? Em termos mundiais, já ultrapassa a casa dos US$400 bilhões por ano.
 Quanto às mudanças climáticas, é sabido que até a presente data o país do senhor Shannon ainda não assinou o Protocolo de Kyoto, criado em 1997 com o objetivo de reduzir a produção de gases poluentes, sendo os EUA o país que mais polui o meio ambiente mundial. Dispenso-me de comentar sobre o cinismo da ?eliminação da ameaça de armas nucleares?. Repito aqui apenas a velha e surrada pergunta: por que os EUA não dão o exemplo e começam a destruir seu próprio arsenal nuclear? Sobre a luta contra a doença e a pobreza, o senhor Shannon deveria olhar para dentro de seu próprio país e ver os estragos causados no sistema de saúde privatizado, tão bem avaliado pelo cineasta Michael Moore; ou avaliar o atual nível de desemprego e pensar nos imensos guetos de miséria espalhados pelo país, sobretudo entre afrodescendentes e hispânicos.
 O ainda referido artigo publicado na Folha de S.Paulo é uma catilinária de parvoíces, eivada de frases vazias, mas sempre com aquela pontinha de arrogância com a qual ?nossos irmãos do Norte? se acostumaram a tratar o mundo. Prestem atenção nessa simples e emblemática frase do embaixador norte-americano no Brasil sobre os telegramas do WikiLeaks, eivada de arrogância e ?espírito democrático?: ?Uma ação cuja intenção é provocar os poderosos pode, em vez disso, pôr em risco aqueles que não têm poder.? Ou seja: nós, os poderosos (leia-se EUA), se provocados, podemos pôr em risco os que não tem poder (o resto do mundo).
 Mas é exatamente isso o que seu país já faz, senhor embaixador, com ou sem o WikiLeaks. Como é que ficam os assassinatos de civis no Afeganistão e no Iraque? Quantos idosos, mulheres e crianças já morreram para receber (custa-me mais uma vez engolir o cinismo) a velha e empoeirada democracia de Abraham Lincoln? O que significa enviar 10 mil soldados armados até os dentes para uma ajuda humanitária ao Haiti?
 Volto agora ao jornalista Pascual Serrano. Sobre o debate entre defensores e críticos para saber se o sítio de Julian Assange comete uma irresponsabilidade com a e circulação de informação secreta, o jornalista espanhol considera que há uma simplificação do tema e que o modus operandi do próprio WikiLeaks vem demonstrando que o assunto é mais complexo.
 Serrano, sem mostrar duvidas quanto à veracidade dos tais telegramas, levanta a enigmática hipótese de se saber a razão pela qual, de início, o WikiLeaks ofereceu de forma privilegiada e com exclusividade 250 mil documentos a cinco grandes meios de comunicação mundial: The New York Times, The Guardian, Der Spiegel, Le Monde e El País. Tais órgãos de informação divulgaram em seguida que tinham ?autonomia para decidir sobre a seleção, valoração e publicação das informações que afetassem a seus países [EUA, Grã-Bretanha, Alemanha, França e Espanha]?.
 Portanto, e ainda segundo Serrano, a conivência entre o WikiLeaks e o cartel criado entre esses cinco órgãos de comunicação, é absoluta. E conclui: ?Não sei se a origem do sítio WikiLeaks era limpa e honesta. O que parece claro, contudo, é que está se convertendo num objeto domesticado, a ponto de o primeiro-ministro de Israel Benjamim Netanyahu afirmar que os documentos dão razão a seu governo ao valorizar a ameaça iraniana.?
 Os vazamentos WikiLeaks significariam o simples desnudamento da diplomacia de intimidação e espionagem colocadas em prática por Washington, tornando explícito para o mundo aquilo que muitos já sabiam ou desconfiavam? Criam constrangimentos para o complexo industrial/militar e as grandes corporações capitalistas ou, ao contrário, significam uma nova e sofisticadíssima forma de contra-informação digna de um filme de Hollywood?

O atual líder republicano no senado norte-americano, Mitch McConnell, declarou em entrevista para a rede de televisão NBC que Assange é ?um terrorista de alta tecnologia?. O dano causado aos EUA é enorme e, segundo o senador, Assange deve ser julgado com todo o peso da lei. Se por acaso isso causar problemas legais, ?muda-se a lei?, completou McConnell. Parece que desde a eleição de Bush filho, quando se fraudou a lei no estado da Flórida para sua eleição, ou mesmo bem antes, quando John Kennedy foi assassinado, a democracia norte-americana vem mudando algumas de suas leis a fim de se manter como sendo a democracia exemplar para o resto do mundo. 
Ainda é cedo para maiores projeções nessa ou naquela direção sobre os telegramas wikis ou sobre o papel representado por Julian Assange. Uma coisa é certa. A pergunta que se configura aos poucos e que o confronto entre a força avassaladora da nova informação eletrônica e a da velha mídia mundial a serviço do poder hegemônico do capitalismo nos coloca é a seguinte: a democracia representativa burguesa está fugindo ao controle de quem a tutela?



terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Um pouco de HISTÓRIA

O JUDEU E OS JUDEUS
Raul Longo

(Fonte: O Berro...repassem) 


      Oceanógrafo, socialista e judeu, meu hóspede comenta como foi difícil sua formação ao longo da vida, pelo estigma da religião que confundem com etnia: - Judeu não é etnia. O antissemitismo aplicado aos judeus é uma estupidez enorme. Não existe o judeu-alemão, o judeu-polonês o judeu-russo. O que existe é o alemão de ascendência semita que professa o judaísmo, o italiano de ascendência semita que professa o judaísmo, o brasileiro de ascendência semita que professa o judaísmo. Assim como existem semitas cristãos e semitas mulçumanos.

      Pergunto se sofre muita discriminação. Confirma, mas revela: - Muito mais entre os judeus do que entre cristãos. No Brasil, cristãos e não judeus em geral não sabem reconhecer nomes de judeus. Mas judeus sem dúvida, claro que te reconhecem no primeiro declinar do nome de família. E com muito maior acuidade distinguem logo se você é um judeu rico ou pobre. Todo judeu pobre é discriminado.

      Questiono sua situação social: professor universitário não é exatamente um pobre: - A distinção é diferente. Não se julga a condição de vida, mas os meios pelos quais foi alcançada e é mantida. Eu poderia ter uma condição financeira ainda inferior e seria auxiliado se minhas convicções de obtenção de fortuna corresponde-se às dos judeus de famílias que se tornaram ricos ao longo da história. Não foi o caso de meus ancestrais e para que futuramente o nome de minha família venha a ser integrado sem discriminação entre os judeus, seria preciso que me tornasse rico através dos meios que consideram como indicadores de proficiência. Se ganhasse na loteria e por isso me tornasse milionário, talvez deixasse de ser tão discriminado, mas eu e meus filhos sempre seríamos olhados com desconfianças pelos demais judeus.

      Cogito pela possibilidade de se dar por não professar a religião: - Isso pode agravar ainda mais, mas não é o determinante. Rabinos pobres são igualmente discriminados.

      Reporto ao que disse antes e retomo a questão religião x etnia, considerando que, como ateu, deixou de ser judeu: - Não é tão simples. Assim como veladamente se imputa à Marx o ?crime? de ser judeu para justificar a razão de seu ateísmo e estruturação sócio/política do comunismo, os judeus também imputam à Marx o ?crime? de ser pobre para justificar seus ideais. E Marx é tão execrado entre judeus capitalistas quanto entre capitalistas não judeus.

      Menciono que no cristianismo e outras religiões coincidem princípios de igualdade e união entre os humanos, similares aos pretendidos por Karl Marx: - O judaísmo é tão hipócrita quanto qualquer outra religião. Como em todas, também no judaísmo há os que de fato se pautam pelos princípios básicos originais de Buda, Cristo ou Maomé. Mas as elites do sacerdócio os utilizam para conduzir, condicionar e induzir à maioria dos crentes a acreditar no que praticam ao inverso.

      Quero concluir que ao menos não seja tão discriminado entre cristãos: - Não é verdade. Apenas enquanto não distinguem minha ascendência e a confundem com a dos árabes. Somos todos semitas e as semelhanças físicas só se diluem quando os ancestrais de nossas famílias se miscigenaram com etnias dos povos europeus.

      Concluo que afirme maior identificação semita entre os povos árabes e que no Brasil o preconceito contra o islamismo seja menor do que contra o judaísmo: - Evidente. E não apenas no Brasil. Apesar de disseminado pela Igreja Católica a partir da expulsão dos mouros da Península Ibérica, três fatores inviabiliram os mitos criados contra os muçulmanos.

      Primeiro porque poucos árabes se mantiveram na Europa e seus descendentes já eram fruto de 8 séculos de miscigenação, o que não ocorreu entre hebreus por determinações do próprio judaísmo para manutenção de uma identidade que hoje se busca através no sionismo, estreitamente identificado ao nazismo exatamente na concepção da pureza e superioridade racial. Esse fator que contribuiu para a evolução dos tantos mitos criados pela Igreja Católica contra os judeus, hoje é utilizado contra os árabes pela mídia internacional, manipulada pelos judeus. Mas é difícil personificar uma identidade árabe, pois mesmo religiosamente, ainda que todos maometanos, são bem mais diversificados.

      O segundo fato é que por mais que a Igreja tenha insistido no ódio dos mulçumanos aos infiéis, a verdade é que judeus e cristãos nunca foram tão respeitados em suas tradições religiosas como durante os séculos da ocupação moura que protegeram a ambos contra a violência e ganância de nobres e clérigos cristãos, permitindo completa liberdade religiosa.

      Por último, por toda a Península Ibérica ainda sobrevivem documentos arquitetônicos e literários documentando as contribuições cientificas, técnicas, artísticas e culturais numa Europa obscurantista e inculta onde qualquer evolução ou descoberta era compreendida como diabólica e condenada à morte.

      Concordo, lamentando a crença de que procedemos exclusivamente da cultura greco-romana e considerando que a maior parte dos saberes da civilização ocidental provêm da cultura árabe. Aproveito para perguntar sobre a contribuição dos semitas judeus à formação da cultura europeia: - Além das finanças e ciências econômicas, estivemos presente em todas as demais das mais profundas evoluções alcançadas sobretudo nos séculos XIX e XX. Mas essas contribuições já vêm muito antes, viabilizando aos ocidentais conhecimentos desenvolvidos em conjunto, por semitas árabes e judeus.

      As cortes cristãs não tinham pessoal qualificado para isso. E se meses depois da expulsão dos últimos árabes, Colombo pôde chegar à América através da navegação desenvolvida através dos conhecimentos dos beduínos dos desertos e dos fenícios, todos árabes, foi porque os judeus ajudaram a organizar e levar a cabo empreendimento então tão temerário e detalhista quanto, hoje, uma excursão intergaláctica.

      Quero saber se lhe parece impossível derrubar o mito de que árabes e judeus estejam envolvidos numa milenar e eterna guerra fratricida: - Depois do fracasso de Napoleão e da falência do Império Britânico ficou claro que é preciso uma justificativa para os interesses de domínio mundial através do poder das armas. Os nazistas aventaram o mito da superioridade racial exatamente entre um povo de múltiplas origens. Alemães não são apenas germânicos, mas também bávaros, suevos, hunos, etc. Para alimentar esse mito de identidade racial, precisaram criar um contraponto. Não se cria o mito da superioridade masculina, se não houver um contraponto de inferioridade, por mais falso que seja. Todo mito precisa de seu inverso, por mais insólitos. O antagônico é tão essencial à mentira quanto sua repetição por mil vezes.

      Entendo que o antagonismo ao povo palestino trata-se de um planejamento com fins específicos e perdurará até a ocupação total da Palestina, e explica: - Nos anos 50/60 muitos judeus, mesmo antissionistas, se indignaram contra os árabes, pois nos era claro ser plenamente possível convivermos na Palestina sem prejuízo para nenhum dos lados e até com muitas contribuições àquele povo já tão massacrado pelo Império Britânico e também  por alguns dos vizinhos árabes. Além de que, mesmo em maioria islâmicos, há palestinos judeus e muitos são semitas de origem judaica que no decorrer dos séculos assimilaram outras influências religiosas, mas preservaram diversos costumes que nos judeus se diluíram pelas influências adquiridas por onde se dispersaram.

      Hoje, na distância do tempo, podemos perceber as razões da reação árabe contra a criação do Estado de Israel. Não há como mentir que o modelo sionista é o nazismo. Adotou-se o mito de superioridade racial para unificação dos tantos povos que formaram a Alemanha, para dessa vez unificar a dispersão da cultura judaica. E, repetindo-se o método do modelo, o povo palestino tonou-se o mito antagônico.

      É só nos perguntarmos se o objetivo único e final de Hitler era apenas o de que o povo alemão se acreditasse superior a todos os demais? Apenas exterminar os judeus e depois disso não promoveria novos genocídios? Se limitaria às fronteiras da Alemanha, anexando apenas a Eslováquia? Ou apenas a Polônia? Talvez somente a França?

      Muitos militares de alta patente do exército de Israel, que naquelas décadas de formação do Estado lutaram contra árabes entendendo-os incapazes de ceder um espaço de que não tiravam proveito, adquirido por um parente escorraçado e profundamente maltratado em outras terras. Hoje, esses mesmos militares compreendem e dão razão aqueles árabes, pois é inegável que os sionistas não pretendem apenas estabelecer europeus que ainda professavam a religião judaica. É muito claro que se tratou de um planejamento geoestratégico de ingleses e norte-americanos, para atender seus interesses na região de maior produção petrolífera do mundo. E para isso reproduziram o modelo nazista no Oriente Médio a troco do financiamento da recuperação da então combalida economia mundial.

       A II Guerra foi provocada exatamente pela fragilidade da economia mundial que ensejou aos nazistas a possibilidade de ressurgirem da derrota na guerra anterior como donos do mundo. Após a quebra financeira que tão profundamente afetou a economia norte-americana na década de 30 e dos enormes gastos com a maior guerra da história, como em tão curto espaço de tempo os Estados Unidos se torna a maior economia do planeta?

      Todos os países envolvidos, dos dois lados, enriqueceram. Com que milagre se deu a espetacular recuperação do devastado Japão e da própria Alemanha? Despojos de guerra não justificariam tão pronto crescimento dessas economias. Uma guerra daquela magnitude dependia de um efetivo financiamento tanto no seu transcorrer quanto após o conflito com o qual alguns grupos arrecadaram enormes quantias. Nenhum integrante desses grupos se transferiram para Israel, mas foram os que negociaram o território.

      Se apenas para alojar os sobreviventes de guerra e seus parentes e quem se interessasse em emigrar da Europa, se gastaria muito menos em ações que conscientizasse o povo palestino das vantagens da nova vizinhança. Assim como hoje a maioria do povo basco se indispõem com os separatistas do ETA, os próprios palestinos poderiam conter seus radicais e fundamentalistas religiosos. Mas o que se fez foi o inverso. O Estado de Israel perseguiu e persegue todo judeu que proponha o convívio pacífico. De ambos os lados  já se matou muitos líderes pacifistas como Rabin.

      O assassinato de Itazak Rabin é a demonstração clara de que a paz é possível, mas a paz jamais seria possível no mundo sem a erradicação do nazismo. A morte de Rabin é a evidência de que quando erradicarem o sionismo, judeus e palestinos poderão conviver pacificamente, pois não haverá o antagônico para justificar fundamentalismos de ambos os lados. No entanto, para isso é preciso eliminar primeiro os mantenedores do sionismo e esses não são judeus ou de religião alguma, não estão preocupados com qualquer povo ou cultura. Como Hitler, esses somente se interessam em ampliar domínios além de quaisquer fronteiras e para isso apenas despendem esforços em criar mitos e antagonismos.

      E o povo de Israel é tão usado quanto o povo palestino, pois o dia em que árabes impedirem que continuem manipulando-os  e se unirem... Ou a Turquia, onde crescem os fundamentalistas islâmicos, pender para o lado contrário ao dos manipuladores da Europa, os judeus sofrerão um segundo holocausto com a diferença de que dessa vez será justificado pelos sionistas. Tampouco os palestinos serão beneficiados por isso, mas aos judeus se lamentará tanto quanto hoje se lamenta os carrascos nazistas.

      Não foram exatamente estas as palavras do hóspede, mas foi tudo o que conclui de nossa conversa momentos antes de receber o link abaixo pelo meu correio eletrônico. Vejam só que coincidência:       
                 
       A notícia que o resto do mundo não viu (?)   

                                               http://www.youtube.com/watch?v=Jv8TW2Pts_w

      

sábado, 11 de dezembro de 2010

33 anos sem Clarice Lispector


Veja entrevista da escritora

No dia nove de dezembro de 1977 morreu, aos 52 anos de idade, Clarice Lispector, uma das maiores cronistas e escritoras da literatura brasileira. Clarice estava hospitalizada por mais de um mês para tratar de um câncer que, no fim da sua vida, atacou vários órgãos de seu corpo.

Ucraniana, Clarice se mudou para o Brasil quando ainda era bebê. Viveu a maior parte da vida no Recife e dominou como poucos a nossa linguagem. Sua última obra, A Hora da Estrela, foi lançada em outubro daquele ano quando já estava enferma. Ela veio de longe para recriar a literatura feminina – embora dificilmente feminista – no país. Outras houve antes, mas nenhuma atingiu em suas obras a dimensão literária e artística de Clarice.

Com seu estilo novo, de evidente deslumbramento pela pura sonoridade das palavras brasileiras, ela influenciou praticamente todas as escritoras que vieram depois. Sua narrativa, na qual entrelaçava harmonicamente conceitos metafísicos, seres e fatos do mais corriqueiro cotidiano, fez escola.

A escritora, no entanto, vivia de uma maneira simples, quase pobre, ocupando-se dos afazeres domésticos e vendo televisão – novelas – como qualquer outra pessoa da época. No ano anterior ao da sua morte, quando conquistou o Prêmio Brasília pelo conjunto de obras publicadas, declarou comovida: “Foi uma dádiva de Deus, através dos seres humanos. Eu bem estava precisando desse dinheiro. Sinto-me um tanto humilde, por não merecer tanto. Disseram-me que quando nos conferem um prêmio é porque nos consideram aposentados. Mas eu não me aposentarei. Espero morrer escrevendo”.

Clarice começou a escrever contos no início da adolescência. Seu primeiro livro Perto do Coração Selvagem foi publicado em 1944, quando tinha apenas 19 anos. Antes de lançá-lo, já escrevia sua segunda obra, O Lustre, que saiu em 1946. Formou-se em direito, mas nunca investiu na carreira de advogada. Dedicou-se mesmo ao jornalismo, tendo trabalhado inclusive no Jornal do Brasil, na década de 1970. Influenciada pela literatura de Herman Hesse, Clarice buscava dar um tom dramático em suas histórias e, muitas vezes, trágico. Era uma eterna solitária, uma eterna insatisfeita, em busca a todo custo da perfeição.

“Eu tentava traduzir uma busca interior, atrás de uma coisa que eu não sabia bem o que era”, disse ela após publicar Cidade Sitiada, em 1949.

Seus livros mais vendidos foram A Maçã no Escuro e Laços de Família. Sobre o primeiro, ela declarou certa vez que a primeira versão tinha dado 500 laudas. Copiou o livro onze vezes e, a cada vez que fazia uma cópia, entendia mais de sua obra, pois geralmente não compreendia muito, a princípio, o que queria dizer.


Veja no link abaixo entrevista que Clarice concedeu no ano de sua morte: 

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=9ad7b6kqyok&gl=BR

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Saramago: tudo é discutível, o que não se discute é a democracia
Os recentes fatos ligados a perseguição do site Wikileaks e do blog brasileiro Falha de S.Paulo fazem pensar na declaração do escritor José Saramago: "Tudo se descute nesse mundo, menos uma única coisa não se discute: é a democracia. A democracia está aí como uma referência. E não se repara que a democracia em que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada e amputada", pois quem tem decidido pelo povo é o sistema financeiro.
Clique aqui para ver o vídeo

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Repassando e-mail em favor da Democracia

Caros amigos,


A campanha de intimidação agressiva de governos e empresas sobre o WikiLeaks (que provavelmente não violou nenhuma lei) é um ataque à liberdade de imprensa e democracia. Nós precisamos de uma manifestação pública massiva para acabar com os ataques -- vamos conseguir 1 milhão de vozes e publicar anúncios de página inteira nos principais jornais dos EUA esta semana!

Sign the petition



A campanha de intimidação massiva contra o WikiLeaks está assustando defensores da mídia livre do mundo todo.

Advogados peritos estão dizendo que o WikiLeaks provavelmente não violou nenhuma lei. Mas mesmo assim políticos dos EUA de alto escalão estão chamando o site de grupo terrorista e comentaristas estão pedindo o assassinato de sua equipe. O site vem sofrendo ataques fortes de países e empresas, porém o WikiLeaks só publica informações passadas por delatores. Eles trabalham com os principais jornais (NY Times, Guardian, Spiegel) para cuidadosamente selecionar as informações que eles publicam.

A intimidação extra judicial é um ataque à democracia. Nós precisamos de uma manifestação publica pela liberdade de expressão e de imprensa. Assine a petição pelo fim dos ataques e depois encaminhe este email para todo mundo – vamos conseguir 1 milhão de vozes e publicar anúncios de página inteira em jornais dos EUA esta semana!

http://www.avaaz.org/po/wikileaks_petition/?vl

O WikiLeaks não age sozinho – eles trabalham em parceria com os principais jornais do mundo (NY Times, Guardian, Der Spiegel, etc) para cuidadosamente revisar 250.000 telegramas (cabos) diplomáticos dos EUA, removendo qualquer informação que seja irresponsável publicar. Somente 800 cabos foram publicados até agora. No passado, a WikiLeaks expôs tortura, assassinato de civis inocentes no Iraque e Afeganistão pelo governo, e corrupção corporativa.

O governo dos EUA está usando todas as vias legais para impedir novas publicações de documentos, porém leis democráticas protegem a liberdade de imprensa. Os EUA e outros governos podem não gostar das leis que protegem a nossa liberdade de expressão, mas é justamente por isso que elas são importantes e porque somente um processo democrático pode alterá-las.

Algumas pessoas podem discordar se o WikiLeaks e seus grandes jornais parceiros estão publicando mais informações que o público deveria ver, se ele compromete a confidencialidade diplomática, ou se o seu fundador Julian Assange é um herói ou vilão. Porém nada disso justifica uma campanha agressiva de governos e empresas para silenciar um canal midiático legal. Clique abaixo para se juntar ao chamado contra a perseguição:

http://www.avaaz.org/po/wikileaks_petition/?vl

Você já se perguntou porque a mídia raramente publica as histórias completas do que acontece nos bastidores? Por que quando o fazem, governos reagem de forma agressiva, Nestas horas, depende do público defender os direitos democráticos de liberdade de imprensa e de expressão. Nunca houve um momento tão necessário de agirmos como agora.

Com esperança,

Ricken, Emma, Alex, Alice, Maria Paz e toda a equipe da Avaaz

Fontes:

Fundador do site WikiLeaks é preso em Londres:
http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/fundador+do+site+wikileaks+e+preso+em+londres/n1237852973735.html

Visa e MasterCard se unem ao boicote contra WikiLeaks:
http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/visa-e-mastercard-se-unem-ao-boicote-contra-wikileaks

Hackers lançam ataques em resposta a bloqueio de dinheiro do Wikileaks:
http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5g5_1RyqwzqqSdcdkuXSkRwc3OCbA?docId=CNG.3ee5f70f5e1bc38f749f897810be5a31.6a1

Conheça o homem por trás do site que revelou documentos secretos americanos:
http://www.correio24horas.com.br/noticias/detalhes/detalhes-1/artigo/conheca-a-historia-do-site-que-revelou-documentos-secretos-americanos/

O criador do WikiLeaks, entre a sombra e a busca pela verdade:
http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5hRW1-BWMeIXP6Spyr_UdQJbqu5_g?docId=CNG.24a480c86aa11494311806f554755ceb.701

Saiba mais sobre os telegramas diplomáticos:
http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/saiba+mais+sobre+os+telegramas+diplomaticos/n1237852399276.html

Apoie a comunidade da Avaaz! Nós somos totalmente sustentados por doações de indivíduos, não aceitamos financiamento de governos ou empresas. Nossa equipe dedicada garante que até as menores doações sejam bem aproveitadas -- clique para doar.


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que se mobiliza para garantir que os valores e visões da sociedade civil global influenciem questões políticas internacionais. ("Avaaz" significa "voz" e "canção" em várias línguas). Membros da Avaaz vivem em todos os países do planeta e a nossa equipe está espalhada em 13 países de 4 continentes, operando em 14 línguas. Saiba mais sobre as nossas campanhas aqui, nos siga no Facebook ou Twitter.

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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Nunca mais comerás carne de porquinho

Dona Pandá Cumpre a Palavra

A Chacareira de Guaré continua seus alertas ...

Resmungando muito ao ser lembrada de sua promessa de abordar todos os itens de sua lista, Dona Pandá explicou se tratar de assuntos demasiadamente pessoais. Minha insistência com a doce velhinha é devido à sua queda por se deparar com  alguns problemas inusitados. Isto acaba lhe dando certa experiência que pode servir de alerta a quem quer adquirir um imóvel rural.   Cumprindo, assim, sua palavra Dona Pandá volta a falar da compra de uma chácara. Dos 12 itens, ela já abordou quatro: 1.água tratada, 2.energia elétrica,3. telefone e 4.internet banda larga. Para nos lembrarmos vamos repetir os itens restantes:  5. casa padrão médio; 6. terreno com metragem mínima de 5 000m²; 7. água no terreno (nascente, córrego, lago); 8. casa para caseiro; 9.outras edificações(cocheiras; casa de hóspede, depósito); 10.garagem; 11.piscina; 12.outros equipamentos de lazer.
5. Casa padrão médio
Dona Pandá faz algumas recomendações, lembrando sobretudo de que numa casa de campo o padrão de limpeza é outro e também são outros os ingredientes da sujeira. Aquela poeira preta da poluição é substituída pela terra que vira barro na época da chuva, os insetos e as folhas das plantas podem visitar você e sua família um pouco mais que o desejado. Os urbanos, às vezes, se perturbam com aqueles mosquitinhos tão pequenininhos e eficientes em suas picadas.  Nesse caso, as telas nas janelas fazem a diferença. Assim,  o tamanho da casa precisa ser analisado com bastante cautela e objetividade. Exigir um quarto confortável com banheiro privativo para aquela filha que irá ocupá-lo uma vez por ano, enquanto você terá que manter a limpeza semanal, pode não ser uma boa opção. Também os materiais usados nas paredes e pisos devem ser escolhidos com um olhar voltado à praticidade, à facilidade de limpeza e manutenção. Deve-se ter sempre em mente que as dificuldades são diferentes daquelas enfrentadas num ambiente urbano, onde a mão-de-obra especializada e os materiais estão sempre disponíveis.
Por outro lado, a vistoria da casa não pode deixar de lado o seu conforto, exigido num bom acordo entre seu bolso e sua tolerância.
6. Terreno com metragem mínima de 5 000m²
Nossa objetiva consultora nos convida a voltar ao início da conversa onde ela faz a pergunta “para que você quer uma chácara?” É evidente que não se fala de chácara produtiva comercialmente, pois para isso precisaria de, no mínimo, um grande sítio, com boa terra ou um capital disponível para equipamentos do tipo plasticultura, além dos itens relativos à comercialização. Então, dependendo do seu objetivo, uma chácara de 3 000m² pode satisfazer. Se tiver intenção de uma horta e um pomar para curtir apanhar seu almoço e chupar uma jabuticaba ou uma laranja na própria árvore, a recomendação é mesmo os 5 000m².
7. ´Água no terreno
Uma nascente, um lago ou um córrego no terreno, segundo Dona Panda, só pode ser  bom demais! Existe o trabalho da manutenção, por exemplo, o desassoreamento de um lago é um trabalho para especialista e extremamente dispendioso, dependendo do seu tamanho. Além de proporcionar muitas alegrias a água limpa traz alternativas de melhorias, como a irrigação e ainda valoriza o terreno. As possibilidades de lazer e produção são ampliadas. Dona Pandá não se esquece de que os cachorros adoram nadar.
8. Casa de caseiro
Neste ponto, Dona Pandá dá o seu grito de alerta: “Senhor (a) urbana(a), não se engane, você não dará conta sozinho!” A casa de caseiro é uma necessidade. Quer você viva no campo, no seu dia a dia ou apenas aos finais de semana, a chácara demanda trabalhos diários, sobretudo para acompanhar e impedir os incômodos crescimentos dos matos, das ervas daninhas,das pragas, de alguns bichos não tão amigos (cobras procuram ratos que gostam de matos e outras sujeiras, como murundu de paus e outros materiais). Há ainda muitas outras tarefas que os urbanos não têm muita prática. E ainda, se houver algum animal, além da comida, água é absolutamente necessária a vigilância permanente para evitar acidente.
9.Outras edificações; 10.Garagem; 11.Piscina;12. Outros equipamentos de lazer
Estes itens são de fato de ordem personalíssima. Entretanto, Dona Pandá, que tem a maior dificuldade de se calar quando já abriu a boquinha, alerta para o fato de uma chácara precisar de muitas ferramentas e equipamentos, além de outros materiais. Assim, um barracão para guardar esses utensílios. 

sábado, 4 de dezembro de 2010

Quero me Aposentar - o Caminho Certo para sua Aposentadoria


O Livro que se Atualiza

A Editora Coruja acaba de lançar o livro Quero me aposentar – O caminho certo para sua aposentadoria de autoria de Hilário Bocchi Junior.
Veja, a seguir, a apresentação que o próprio autor faz de sua obra.

APRESENTAÇÃO

O livro "QUERO ME APOSENTAR - O caminho certo para sua aposentadoria" desvenda todos seus direitos sociais. Trata com linguagem simples, objetiva e sem termos técnicos problemas recorrentes do dia a dia.

O leitor saberá quanto, quando e como deve contribuir para o INSS. Isso evita que jogue dinheiro no lixo ao contribuir com valores altos e obter benefícios baixos.  

A leitura permitirá ao leitor conhecer os caminhos para obter as mais variadas espécies de aposentadorias e pensões; como calcular o tempo de serviço e o valor destas aposentadorias.

Para quem já é aposentado ou pensionista o livro QUERO ME APOSENTAR explica como recuperar as perdas que defasaram o valor do benefício ao longo do tempo.  

O QUERO ME APOSENTAR é o primeiro livro previdenciário brasileiro que se atualiza automaticamente. Durante sua leitura, quando se tratar de conteúdo mutável, o leitor será conduzido a um arquivo virtual no site www.queromeaposentar.com.br para saber, por exemplo, o reajuste anual da aposentadoria; se o valor que o segurado recebe está correto; qual o valor máximo e mínimo da contribuição, dentre outras situações que sistematicamente são alteradas.

O objetivo desta obra é ajudar o trabalhador, os aposentados e os pensionistas a resolver pessoalmente, sem a necessidade de con­tratação de serviços profissionais e de forma totalmente gratuita, os problemas mais comuns rumo à obtenção dos benefícios do INSS.



Autor: Hilário Bocchi Junior
Ano: 2010
Editora: Coruja
Páginas: 116
Onde comprar: pelo site www.queromeaposentar.com.br, telefone (16) 36325222 ou Livrarias Paraler

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Por dentro do Wikileaks

Artigo de Natália Viana



"A democracia passa pela transparência radical": Natália Viana, jornalista brasileira convidada para trabalhar com os comunicados secretos entre embaixadas americanas, escreve sobre a experiência; site foi derrubado do ar após vários ataques

Por Natália Viana*

Fui convidada por Julian Assange e sua equipe para trazer ao público brasileiro os documentos que interessam ao nosso país. Para esse fim, o Wikileaks decidiu elaborar conteúdo próprio também em português, com matérias fresquinhas sobre os documentos da embaixada e consulados norte-americanos no Brasil.

Por trás dessa nova experiência está a vontade de democratizar ainda mais o acesso à informação. O Wikileaks quer ter um canal direto de comunicação com os internautas brasileiros, um dos maiores grupos do mundo, e com os ativistas no Brasil que lutam pela liberdade de imprensa e de informação. Nada mais apropriado para um ano em que a liberdade de informação dominou boa parte da pauta da campanha eleitoral.

Buscando jornalistas independentes, Assange busca furar o cerco de imprensa internacional e da maneira como ela acabada dominando a interpretação que o público vai dar aos documentos. Por isso, além dos cinco grandes jornais estrangeiros, somou-se ao projeto um grupo de jornalistas independentes. Numa próxima etapa, o Wikileaks vai começar a distribuir os documentos para veículos de imprensa e mídia nas mais diversas partes do mundo.

Assange e seu grupo perceberam que a maneira concentrada como as notícias são geradas ? no nosso caso, a maior parte das vezes, apenas traduzindo o que as grandes agências escrevem ? leva um determinado ângulo a ser reproduzido ao infinito. Não é assim que esses documentos merecem ser tratados: ?São a coisa mais importante que eu já vi?, disse ele.

Não foi fácil. O Wikileaks já é conhecido por misturar técnicas de hackers para manter o anonimato das fontes, preservar a segurança das informações e se defender dos inevitáveis ataques virtuais de agências de segurança do mundo todo.

Assange e sua equipe precisam usar mensagens criptografadas e fazer ligações redirecionados para diferentes países que evitam o rastreamento. Os documentos são tão preciosos que qualquer um que tem acesso a eles tem de passar por um rígido controle de segurança. Além disso, Assange está sendo investigado por dois governos e tem um mandado de segurança internacional contra si por crimes sexuais na Suécia. Isso significou que Assange e sua equipe precisam ficar isolados enquanto lidam com o material. Uma verdadeira operação secreta.

Documentos sobre Brasil
No caso brasileiro, os documentos são riquíssimos. São 2.855 no total, sendo 1.947 da embaixada em Brasília, 12 do Consulado em Recife, 119 no Rio de Janeiro e 777 em São Paulo.

Nas próximas semanas, eles vão mostrar ao público brasileiro histórias pouco conhecidas de negociações do governo por debaixo do pano, informantes que costumam visitar a embaixada norte-americana, propostas de acordo contra vizinhos, o trabalho de lobby na venda dos caças para a Força Aérea Brasileira e de empresas de segurança e petróleo.

O Wikileaks vai publicar muitas dessas histórias a partir do seu próprio julgamento editorial. Também vai se aliar a veículos nacionais para conseguir seu objetivo ? espalhar ao máximo essa informação. Assim, o público brasileiro vai ter uma oportunidade única: vai poder ver ao mesmo tempo como a mesma história exclusiva é relatada por um grande jornal e pelo Wikileaks. Além disso, todos os dias os documentos serão liberados no site do Wikileaks. Isso significa que todos os outros veículos e os próprios internautas, bloggers, jornalistas independentes vão poder fazer suas próprias reportagens. Democracia radical ? também no jornalismo.

Impressões
A reação desesperada da Casa Branca ao vazamento mostra que os Estados Unidos erraram na sua política mundial ? e sabem disso. Hillary Clinton ligou pessoalmente para diversos governos, inclusive o chinês, para pedir desculpas antecipadamente pelo que viria. Para muitos, não explicou direto do que se tratava, para outros narrou as histórias mais cabeludas que podiam constar nos 251 mil telegramas de embaixadas.

Ainda assim, não conseguiu frear o impacto do vazamento. O conteúdo dos telegramas é tão importante que nem o gerenciamento de crise de Washington nem a condenação do lançamento por regimes em todo o mundo ? da Austrália ao Irã ? vai conseguir reduzir o choque.

Como disse um internauta, Wikileaks é o que acontece quando a superpotência mundial é obrigada a passar por uma revista completa dessas de aeroporto. O que mais surpreende é que se trata de material de rotina, corriqueiro, do leva-e-traz da diplomacia dos EUA. Como diz Assange, eles mostram ?como o mundo funciona?.

O Wikileaks tem causado tanto furor porque defende uma ideia simples: toda informação relevante deve ser distribuída. Talvez por isso os governos e poderes atuais não saibam direito como lidar com ele. Assange já foi taxado de espião, terrorista, criminoso. Outro dia, foi chamado até de pedófilo.
Wikileaks e o grupo e colaboradores que se reuniu para essa empreitada acreditam que injustiça em qualquer lugar é injustiça em todo lugar. E que, com a ajuda da internet, é possível levar a democracia a um patamar nunca imaginado, em que todo e qualquer poder tem de estar preparado para prestar contas sobre seus atos.

O que Assange traz de novo é a defesa radical da transparência. O raciocínio do grupo de jornalistas investigativos que se reúne em torno do projeto é que, se algum governo ou poder fez algo de que deveria se envergonhar, então o público deve saber. Não cabe aos governos, às assessorias de imprensa ou aos jornalistas esconder essa ou aquela informação por considerar que ela ?pode gerar insegurança? ou ?atrapalhar o andamento das coisas?. A imprensa simplesmente não tem esse direito.
É por isso que, enquanto o Wikileaks é chamado de ?irresponsável?, ?ativista?, ?antiamericano? e Assange é perseguido, os cinco principais jornais do mundo que se associaram ao lançamento do Cablegate continuam sendo vistos como exemplos de bom jornalismo ? objetivo, equilibrado, responsável e imparcial. Uma ironia e tanto.

*Natália Viana é jornalista e colaboradora do Opera Mundi




quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Terra Manchada de Sangue por Artur Zimerman(1)




Livro: TERRA MANCHADA DE SANGUE: Conflitos e mortes no campo no Brasil democrático.
Editora: Humanitas (FFLCH/USP).
Sábado, 11/12/10, 15h - 18h, piso superior da Livraria da Vila - Rua Fradique Coutinho, 915 - Vila Madalena - São Paulo/SP. 
(Repassando o convite)


O livro busca explicar, de maneira sistemática, a violência agrária no país, no período democrático, com dados sobre as mortes de camponeses em disputas de terra. Tenta-se comprovar o que muitas vezes é dito sobre a reforma agrária e a agricultura familiar só que, baseado em dados empíricos de quase todos os municípios brasileiros. O intuito seria testar a hipótese de que maior concentração da terra eleva o risco de mais violência e mortes agrárias.
Igualmente, são trazidos os dados sobre a pobreza e a desigualdade no Brasil como parte dos determinantes que podem levar à morte de pessoas, resultante de disputas por terra.
Para completar o livro, e diversificar metodologias, realizamos entrevistas com lideranças na região mais perigosa do país, campeã em mortes agrárias. Tanto pessoas ligadas aos camponeses como aos grandes fazendeiros dão seus depoimentos e mostram sua visão de mundo sobre tal conflito.



(1)Universidade Federal do ABC (UFABC)

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Artigo de Paulo Kliass

DEBATE ABERTO   (Fonte: Carta Maior)
Maria da Conceição: o retorno da mestra

O diagnóstico da professora é agudo e preciso. A continuidade desse modelo é arriscado e potencialmente explosivo. A política monetária em que o Banco Central oferece a maior taxa de juros do planeta é um suicídio em termos econômicos, além de promover uma grande injustiça social.
Paulo Kliass

Por ter completado 80 anos no mês de abril passado, o ano de 2010 foi recheado de homenagens à economista Maria da Conceição Tavares. Palestras, debates, publicação de livros e textos da professora, enfim, um conjunto de eventos para celebrar uma data especial, para uma pessoa ainda mais especial. Economista com uma visão crítica do pensamento conservador e militante política comprometida com a causa democrática e a defesa dos interesses da maioria do povo, Conceição sempre proporcionou o Brasil com suas análises e propostas perturbadoras e radicais do fenômeno econômico e social, pois vai justamente em busca das raízes daquilo que pretende estudar.

A mais recente cerimônia para festejar tal fato ocorreu em mesa realizada durante a 1ª Conferência sobre o Desenvolvimento, patrocinada pelo IPEA, em Brasília, no dia 26 de novembro. Solicitada a falar sobre o tema “Macroeconomia e desenvolvimento”,a mestra aproveitou o momento para abordar também o tema da conjuntura atual e as opções de política econômica para o Brasil enfrentar a crise. A exposição da professora veio se somar às declarações e depoimentos que ela tem dado ao longo dos últimos meses.

O retorno da mestra ao centro do debate tem sido essencial para aqueles que procuram saídas alternativas ao receituário econômico ortodoxo. Isso porque ao longo dos últimos anos, Conceição acabou optando por uma espécie de “silêncio forçado”. Apesar de muitos não concordar com tal opção política, não é muito difícil compreender a escolha da professora. Considerada como uma das principais formuladoras de temas econômicos no interior do PT, Conceição era vista por parte dos analistas como uma das pessoas que jogariam um papel estratégico no governo, quando Lula ganhou as eleições ainda lá em 2002.

No entanto, a roda da história tomou outros rumos e o presidente eleito optou por Palocci, Meirelles, a “tchurma” do setor financeiro e toda a ortodoxia que marcou a política econômica na maior parte de seus 8 anos de governo. No início, Conceição ainda buscou uma reflexão crítica, apontando alternativas ao que considerava uma opção equivocada da equipe de Lula. Porém, à medida que sentia se consolidar a opção conservadora no interior do governo, ela optou por um “voto de silêncio” e não mais criticava publicamente a condução da economia sob as regras do modelito neoliberal.

Porém, como que por uma triste e trágica ironia, foi necessário o surgimento de uma crise internacional mais profunda, com as proporções que vimos a partir de 2008, para que as visões alternativas de natureza estruturalista e heterodoxa se impusessem no debate das opções de política econômica. Seja no interior dos países mais ricos, seja no plano das relações econômicas internacionais, seja até mesmo no debate a respeito de alternativas para o Brasil. À falência do receituário neoliberal, foram sendo trazidos para os próprios meios de comunicação assuntos até então considerados como pecaminosos e proibitivos: “desenvolvimento econômico”, “política industrial”, “necessidade da presença do Estado na economia”, “necessidade de regulação da atividade econômica”, “incapacidade do mercado em encontrar sempre as soluções mais eficientes”, entre tantos outros temas até então relegados às profundezas de um “index prohibitorum”.

E Conceição, para além de discorrer sobre sua vinda de Portugal para o Brasil, sobre sua participação nos governos progressistas anteriores ao golpe de 64, sobre suas experiências com a CEPAL de Raul Prebisch e Celso Furtado, sobre sua intimidade com o tema do desenvolvimento, também tratou do momento atual. E ofereceu a todos os presentes na mesa da Conferência suas propostas para que o Brasil consiga atravessar o momento da crise externa, com o menor risco de sofrer conseqüências negativas. E aí, o menu dos pontos a serem tratados não apresenta muita novidade: risco do setor externo deficitário, perigo da continuidade da atual política cambial da nossa moeda valorizada, prejuízos da política monetária de juros elevadíssimos, necessidade de estabelecer maior controle sobre os movimentos do capital especulativo.

O diagnóstico da professora é agudo e preciso. A continuidade desse modelo é arriscado e potencialmente explosivo. A política monetária em que o Banco Central oferece a maior taxa de juros do planeta é um suicídio em termos econômicos, além de promover uma grande injustiça social. Transfere renda orçamentária para os setores mais privilegiados do País, ao tempo em que limita recursos para as despesas essenciais na área social. Além desse caráter perverso da política de juros elevados, ela assegura alta rentabilidade ao capital especulativo do resto do mundo, que para cá se dirige em grande quantidade. O ingresso desse tipo de recursos em moeda estrangeira, por sua vez, pressiona o mercado dito “livre” do câmbio. Uma elevada oferta de dólares em nosso mercado interno promove uma valorização artificial do nosso real frente à moeda norte-americana e demais moedas estrangeiras.

Com isso nossas exportações ficam prejudicadas e as importações de bens estrangeiros ficam estimuladas. O resultado é a redução do superávit na Balança Comercial. E uma preocupação crescente no Balanço de Pagamentos, que começa a ficar perigosamente deficitário. A previsão do próprio BC é de um rombo de US 50 bilhões para esse ano que se encerra. Para tanto contribui, entre outros fatores, a redução dos valores dos investimentos diretos estrangeiros e o aumento das remessas para o exterior na forma de juros e lucros.

Enquanto a maior parte dos chamados “especialistas do mercado” retomam a cantilena da “necessidade imperiosa” de redução dos gastos públicos e da necessidade de elevar ainda mais (!!!) a taxa de juros na próxima reunião do COPOM, a professora confirma as alternativas há muito tempo apresentadas pelos economistas que procuramos fugir da lógica dos interesses puramente financistas. Tanto mais que nas últimas semanas tem-se aprofundado um sentimento e um conjunto de medidas que estão sendo corretamente resumidos na classificação de uma “guerra cambial” em escala planetária.

Cada país ou região tenta resolver a crise sob seu ponto de vista e não há solução negociada. E o fracasso da recente reunião do G-20 na Coréia demonstrou que não há alternativa a ser acordada entre os países mais ricos no curto prazo. A China mantém sua moeda indexada ao dólar norte-americano. Os Estados Unidos promoveram uma emissão de sua moeda no valor de US$ 600 bi, que será absorvida pelos agentes econômicos e logo em seguida direcionada aos países em desenvolvimento. A taxa de juros SELIC continua a fazer do Brasil um dos locais de maior rentabilidade no mundo. Mais dólares para cá, maior valorização cambial. Assim, o mecanismo da chamada “liberdade cambial” fica ainda mais perverso para nossa economia, em termos de emprego e crescimento da indústria nacional. Com a enxurrada das importações, reforça-se o movimento da desindustrialização.

O caminho passa, nos ensina Conceição, pelo estabelecimento de regras de controle na conta de capitais. O Brasil não pode aceitar passivamente pagar a conta pelas medidas protecionistas adotadas pelos países mais ricos. Ou seja, devemos adotar medidas de auto proteção, sim! A primeira delas seria a exigência de um período mínimo de permanência do capital estrangeiro que para cá deseja se dirigir, bem como a elevação dos impostos sobre os mesmos, para reduzir a atratividade das aplicações de caráter puramente especulativo. A diminuição desse volume de recursos externos deve reduzir a tendência à valorização do real frente ao dólar. Caso contrário, o governo deve adotar outras medidas com tal objetivo.

Além disso, ao contrário de cortar despesas de custeio, as reduções no orçamento do governo federal devem ser nos gastos financeiros. Para tanto, a medida deve vir no sentido da redução da taxa de juros SELIC e na ação sobre as instituições financeiras para reduzir seu “spread” e oferecer juros mais baixos para o tomador final. Com isso, haverá redução no volume de despesas de natureza financeira, aliviando o conjunto das contas fiscais.

Finalmente, a mestra lembra aos analistas que os próprios manuais de economia e as experiências de política monetária em outros países oferecem o mecanismo do depósito compulsório para se conter um eventual excesso de demanda e evitar a retomada do processo inflacionário. Ou seja, se houver algum risco de que tais medidas estimulem demasiadamente o nível de consumo, o governo pode obrigar os bancos a elevarem ainda mais seus níveis de depósito obrigatório junto ao Banco Central, o que gera menos recursos monetários na sociedade. Com isso, mantém-se algum grau de equilíbrio no setor real, sem que a sociedade no seu conjunto seja obrigada a pagar a conta por meio de aumento nas despesas públicas, que ocorreria caso houvesse um aumento ainda maior da já elevada taxa de juros SELIC.

Para finalizar, cabe agradecer à professora por seu retorno ao debate e por suas análises e sugestões sempre tão preciosas para os que não se deixam enganar pela retórica dos defensores dos interesses da banca e do sistema financeiro. Com isso,podemos dizer que existem sim alternativas a serem implementadas em termos de política econômica. Basta haver vontade política.

Obrigado, Conceição!

Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A Verdade da Irmã África

    O tempo da África é agora
   
        Por Sanhay Suri, da IPS
    


Madri, Espanha, 26/11/2010 - É inquestionável que a África está cheia de pobreza e doenças, mas esta imagem esconde outra realidade: o continente cresce mais de 5% ao ano, em média, afirmaram ativistas africanos na capital espanhola. Este segundo rosto é pouco conhecido e menos admitido, enfatizaram em um seminário organizado pela Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID) e a agência de notícias Inter Press Service (IPS).

Malaui doa atualmente milho aos países mais pobres, e vende seu excedente nos mercados mundiais, disse em um discurso o arcebispo Njongonkulu Ndungane, presidente da African Monitor, uma organização não governamental com sede na Cidade do Cabo, durante o encontro. "Este êxito ocorre depois que o governo de Malaui ignorou as recomendações de algumas agências de financiamento quanto a não subsidiar os fertilizantes e outros insumos agrícolas", acrescentou. Trata-se de um êxito entre muitos.

As próprias histórias de fracasso estão se convertendo em histórias de sucesso, disse Njongonkulu. A África ainda tem a menor expectativa de vida e a maior pobreza estendida, mas "a boa notícia é que estamos revertendo muitas destas tendências, e é por isto que nos atrevemos a afirmar que o tempo da África chegou", prosseguiu. Njongonkulu destacou vários fatos positivos. A pobreza extrema chegou ao seu ponto máximo no final dos anos 1990, com mais de 58%, mas em 2005 havia caído para menos de 50%.

O Banco Africano de Desenvolvimento colocará no próximo ano US$ 10 bilhões em projetos de infraestrutura, apesar de o Banco Mundial dizer que a África precisa de US$ 93 bilhões anuais em estradas, água e eletricidade. Onde recebe US$ 40 bilhões anuais a título de assistência, arrecada US$ 400 bilhões mediante bônus, remessas e outros mecanismos financeiros.

Isto é o melhor, mas não é tudo. Njongonkulu admite aquela imagem dominante da África e os fatos que a sustentam. A corrupção poderia ser a maior. "Em 2008, a fuga de capitais ilícitos da África subsaariana foi de US$ 96 bilhões. É escandaloso", afirmou. Por um lado, as nações africanas se comprometeram a gastar 20% de seu orçamento em agricultura, mas apenas 10% está sendo aplicado. Não ajuda o fato de os doadores terem entregue menos de 60% do prometido.

"É necessária uma mudança de modelo nos meios de comunicação, porque o progresso da África não está sendo informado", disse na reunião Themba James Maseko, presidente do Sistema Governamental de Comunicação e Informação da África do Sul. Muitos países europeus têm poucos imigrantes procedentes da África, e a única imagem que têm as crianças que crescem nesses países é a de um continente afetado pela pobreza e pelo conflito, acrescentou.

Por outro lado, a África tem de fazer a sua parte, e criar liderança e indústrias, em lugar de exportar matéria-prima, avaliar a fuga de cérebros, garantir a sustentabilidade ambiental e combater a corrupção.

Inevitavelmente, em uma reunião sobre a África realizada na Espanha surge a questão dos imigrantes africanos na Europa. "Ao longo da história sempre houve imigração ilegal. As pessoas sempre emigraram em busca de uma vida mais feliz. E também há migrações dentro da África", disse Cherif Sy, presidente do Africa Editors Forum. "Não falemos destas pessoas como se fossem gado", acrescentou.

Em lugar de depender da mídia, evitá-los pode ajudar, sugeriu Javier Bauluz, repórter fotográfico ganhador do Prêmio Pulitzer. Os povos não se conhecem entre si e, em lugar de dependerem dos meios de comunicação, deveriam participar de programas de intercâmbio entre África e Europa, afirmou. Medidas deste tipo em nível escolar podem levar a um melhor entendimento ressaltou.

Transmitir essas ideias foi o objetivo da reunião, destacou o diretor-geral da IPS, Mario Lubetkin, em seu discurso de encerramento. Tratou-se "de ouvir a nova realidade africana, que pode ser ouvida de um modo novo, com dignidade, sem medo, inclusive sem temor de estar equivocado ou de cometer erros", acrescentou. Agora há "uma África emergente em um Sul emergente, que não está somente no futuro, mas também no presente", disse. O continente africano "está se unindo ao dinamismo de Brasil, China e Índia", ressaltou.

A capacidade da África, e particularmente da África do Sul, ficou clara na Copa do Mundo da Fifa deste ano. "Muitos disseram que seria um fracasso, mas os fatos demonstraram o contrário. Os meios de comunicação, centrados no futebol, não conseguiram transmitir as dimensões do que a África do Sul e a África conseguiram ao organizar o campeonato. Foi um marco", disse Mario Lubetkin.

O diretor-geral da IPS afirmou que às vezes os meios de comunicação ajudam a aprofundar o "afropessimismo". A reunião abriu as mentes para um novo "afro-otimismo", não como um exercício de relações públicas, mas como uma perspectiva para compreender a África, acrescentou. Na reunião de Madri também foi apresentado o novo site africano da IPS. Envolverde/IPS
(Fonte: Carta O Berro..........................................................repassem)