Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade
Clic sobre o livro (download gratuito). LEIA E DÊ SUA OPINIÃO

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Pinheirinho: "Direita oligárquica não descansa", diz Boaventura


Em Canoas para uma oficina da universidade Popular dos Movimentos Sociais, evento pré-Fórum Social Temático, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos condenou duramente a ação de reintegração de posse autorizada pela justiça paulista e executada pelo governo de Geraldo Alckimin (PSDB). "A violência é um recado da direita oligárquica, que não descansa, a todos os movimentos sociais que lutam por seus direitos", disse Boaventura.



Canoas (RS) - O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos comentou neste domingo, a violenta ação da Polícia Militar de São Paulo na desocupação da comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos, São Paulo, na manhã deste domingo. Relatos dos próprios moradores dão conta de pelo menos sete mortes, informação não confirmada pela polícia militar até o final da tarde deste domingo.

Em Canoas para uma oficina da Universidade Popular dos Movimentos Sociais, evento pré-Fórum Social Temático, Boaventura condenou duramente a ação de reintegração de posse autorizada pela justiça paulista e executada pelo governo do estado, comandado pelo governador tucano Geraldo Alckimin (PSDB).

Para o professor, a violência é um recado da direita oligárquica a todos os movimentos sociais que lutam por seus direitos. Uma tentativa de desmoralizá-los. Para ele, a direita é anti-democrática e não hesita em usar de todos os meios para garantir seus interesses, sejam meios legais ou não. 

O sociólogo cobrou uma ação firme do governo federal no caso e considera que mesmo com a violência, os movimentos sociais não se deixarão desmoralizar e seguirão em suas lutas por direitos fundamentais de cada cidadão.

Vídeo: Ivan Trindade
Nossa fonte: Carta Maior

Nunca publicada, 1ª obra de Drummond será lançada em julho


O mês de julho traz grandes novidades para os amantes de Carlos Drummond de Andrade. Junto à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que neste ano homenageia o poeta, será lançado o livro "Os 25 poemas da triste alegria". Ele reúne textos escritos aos 22 anos — seis anos antes do lançamento de seu primeiro livro, "Alguma poesia", em 1930.



Drummond havia encadernado os poemas, mas o original desapareceu, e a obra nunca foi publicada. Até que, há alguns anos, esse exemplar único foi encontrado pelo acadêmico Antonio Carlos Secchin. "Não se sabe como esse livro se perdeu. Comprei-o de um amigo de Drummond", diz ele, que se comprometeu a não revelar o nome do vendedor.

Pouco entusiasmo
Os poemas foram escritos em 1924. Em 1937, Drummond fez anotações sobre eles. "São comentários pouco entusiasmados. Um ou outro ele achava que merecia um pouco de complacência", diz Secchin. 

"Drummond escreve que talvez eles sejam literários demais. Há muito de pose, de artificialismo, de convenção literária a que faltasse uma experiência. Ele descreve uma rua do subúrbio e enche o poema de reticências. Há certos truques poéticos que estavam na moda, uma espécie de cartilha que padronizava as sensações."

Mas, mesmo duro na avaliação, ele não quis destruir o caderno. Tanto que, dos 25 poemas, 13 foram publicados em jornais e revistas da época, permanecendo 12 inéditos. A obra, que será lançada pela Cosac Naify, trará de um lado os poemas datilografados, como foi feito na ocasião, e, de outro, as observações manuscritas, como "Se um inimigo apanhasse esses versos..." e "Eram exercícios à moda do tempo, tímidos e mecânicos. Não deram evasão a nenhuma necessidade íntima, não transpuseram nenhuma aventura ou experiência intelectual ou física".

"São poemas tributários ao modernismo moderado, ainda sem a ousadia dos temas e formas da poesia modernista. É a escola penumbrista, em que há um sentimento difuso de tristeza. É uma coisa sempre no intervalo. Um poema se chama "A sombra de um homem que sorriu"; outro é "Quase noturno, em voz baixa". Aponta para a noite, mas o "quase" já dilui isso", analisa Secchin.

Em "Uma lâmpada brilha", ele escreve: "Ah, o abandono dessa lâmpada! /O abandono desse olho imoto, amarelo,/ brilhando sem desejo,/ sozinho/ no alto do poste fino e lírico!" 

"Os 25 poemas da triste alegria" é a segunda tentativa de livro de Drummond. "Antes ele tinha composto "Teia de aranha". Mas mandou os originais de Minas para uma editora no Rio, que perdeu o material. Drummond brincou: "Deve haver um anjo protetor dos autores estreantes que faz o livro desaparecer." E ele pensou ainda num terceiro livro antes de "Alguma poesia": "Preguiça". Mas acredito que o título o influenciou, porque ficou no projeto", brinca.

Fonte: Diario de Pernambuco
Nossa fonte: Vermelho

Cordisburgo, cidade do coração


No final do ano fui viajar de carro com minha mulher a amigos, e que viagem! Entre meus companheiros de viagem, a “sketcher” Mazé Leite, grande artista e ser humano, valeu, Mazé! 

E o que vimos:

 João Pinheiro





1.Desenho feito durante uma das paradas para almoçar na beira da estrada. 

Chapadões imensos, sem fim, a perder de vista, se estendendo por muitas léguas. Vegetação verde em todos os tons, cobrindo toda terra, até onde os olhos podem alcançar. Nuvens que aparentam cavalos fortes como não há e a dúvida se aquilo tudo era real, de se pegar. Amplidão, nação sem fim, mato, roça, arraial, coqueiros altos, envergados pro lado do vento, bananeiras, mangueiras, pé de café, laranjeiras... plantação de tudo quanto é legume e frutas. E o verde das árvores e plantas verdes de milhões de tons; De vez em quando muda de cor e explode, no meio do verde, um violeta intenso, roxo, laranja e o vermelhão da terra destacado, as rachaduras da terra seca e as rochas redondas. Por cima dos montes e montanhas, as pedras espalhadas numa perfeição assombrosa, como que colocada com as mãos. Igrejas brancas isoladas no alto dos montes embranquecendo. No céu, nuvens felpudas, de estiagem, nuvens de chuva e de vento, lá na frente a chuva e depois o sol e a estrada continuam até o final do mundo. Casinhas de barro, sapé, tijolo à vista, telhadinhos coloridos e fachadas pintadas com nossas cores ancestrais, que sempre povoaram nossos sonhos e imaginação. Casas de duas cores bem postas, de onde vem essa noção, se não da própria natureza? Eia, que o sertão não tem fim mesmo, eu vi. 


2.Dona Alzira, primeira moradora do vilarejo Naque. 


A gente foi adiante, rasgando e vimos mais, conversamos com toda a gente boa que pintava. Vimos também banquinhos de madeira na frente da casa onde, debaixo da copa da árvore, serve pra se sentar na sombra depois de mais um dia de trabalho. Beirada pra tomar café e cachaça e prosear sem contar tempo. As vacas comendo e recomendo, galinhas pescando com o bico aqui e ali, cavalos quietos pastando e balançando o rabo como um pêndulo. O tempo corre e as casas e pessoas e galinhas e vacas e bananeiras e verdes e roxos vão ficando pra trás, novas paisagens vão aparecendo com uma constituição toda nova, mais seca e arenosa, o verde fica mais fosco e estamos indo mais pra longe, vendo rios largos e lagos espalhados pelo campo. Chapadão imenso. Estamos de bem com a terra, eita, Brasil grande, oh povo bom de sentar na soleira da porta e conversar.

Paramos em um povoado feito de uma só rua. Conversamos com os moradores e tomamos café. Treze dias de viagem de São Paulo para Bahia, parando em João Molevade e Vitória da Conquista antes de dar as caras a Salvador. 


3.Pelourinho, queria desenhar tudo lá.


4.Sirlene posando no bairro do Vermelho.

Na Bahia foi incrível andar pelo pelourinho, ver a casa natal do Gregório de Matos e imaginá-lo cantando seus versos cáusticos pelas tabernas, acompanhando pelas cinco cordas duplas da sua viola, abrindo sua boca do inferno para atacar padres, Deus e o Diabo e os poderosos daquela época. Ele embriagado indo embora, cambaleante, se apoiando nas portas de madeira noite adentro, todo esfarrapado. Vimos também a igreja onde foi rodado o filme brasileiro, premiado em Cannes, O pagador de promessas, perdi a conta de quantas vezes vi esse filme... que bom ver onde foi filmado. Vamos seguindo, conversando com meu amigo, escritor baiano, Gustavo Rios – Gente finíssima!. Visitamos praias e comemos acarajé no Vermelho.


5.Praia de Itapuã.



6.Lagoa do Abaeté com a Mazé desenhando.

De lá partimos para Rio de Contas, lugar mágico! A estrada é verde e a vista se dilata para ver aquelas montanhas de sonho. Uma viagem no tempo onde Walter Salles esteve anos atrás, filmando “Abril despedaçado”, este que ficou encantado com o trabalho do artista Zofir.
A névoa da cidade, somada à arquitetura colonial, cria um ar de mistério. Encontramos personagens saídos diretos dos romances de João Guimarães Rosa. As pessoas são como poemas vivos, andando debaixo da chuva.



7.Ana Rita Sérgia Ribeira, benzedeira do vermelhão - Rio de Contas.



8.Bom Jesus da Lapa

Treze dias de viagem: São Paulo, Salvador, Chapada Diamantina, Bom Jesus da Lapa (onde vimos o Velho Chico), e finalmente Cordisburgo, a cidade do coração, onde nasceu Guimarães Rosa, onde conhecemos o Brasinha e a Dôra Guimarães, prima do Rosa e coordenadora do Projeto Miguilim, onde vimos a casa dele e a venda do pai em frente à estaçãozinha de trem. De lá voltamos com o coração repleto de paisagens bonitas e gente mais bela ainda, que nos enriqueceram com seus sorrisos abertos e olhares profundos. 


9.Dôra Guimarães e Michele no Projeto Miguilim.



10.Mackswell lendo trecho do Grande Sertão no Projeto Miguilim.


11. Igreja de São José

É isso, vamos aprender a sermos brasileiros e enxergar o que é esse País. Pra terminar, cito um trecho do “Grande Sertão: Veredas”:“Aprender a viver é o que é viver mesmo.” (João Guimarães Rosa).

(*) João Pinheiro é desenhista, autor do livro “Kerouac”, uma biografia quadrinizada do líder beatnik



Nota do blog: Estou reproduzindo porque afinal sou mineira, uai. Obrigada João Pinheiro.
Nossa fonte: Vermelho

Os benefícios dos agrotóxicos no "Mundo de Veja"

Flavia Londres


 A revista Veja publicou uma matéria buscando "esclarecer" os brasileiros sobre os alegados "mitos" que vêm sendo difundidos sobre os agrotóxicos desde a divulgação pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), dos dados Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos referentes ao ano 2010. A revista se propõe a tranquilizar a população, certamente alarmada pelo conhecimento dos níveis de contaminação da comida que põe à mesa.
Os entrevistados na matéria são conhecidos defensores dos venenos agrícolas, alguns dos quais com atuação direta junto a indústrias do ramo – como é o caso do Prof. José Otávio Menten, que já foi diretor executivo da ANDEF (Associação Nacional de Defesa Vegetal), que reúne as empresas fabricantes de veneno.
A revista afirma que chamar os venenos da agricultura de "agrotóxicos" seria uma imprecisão ultrapassada e injustamente pejorativa, alertando os leitores que “o certo” seria adotar o termo "defensivos agrícolas". Não menciona que a própria legislação sobre a matéria refere-se aos produtos como agrotóxicos mesmo.
A Veja passa então para a relativização dos resultados apresentados pelo relatório do Programa de Análise, elaborado pela Anvisa, fundamentalmente minimizando a gravidade da presença de resíduos de agrotóxicos acima dos limites permitidos. Para isso, cita especialistas alegando que os limites seriam "altíssimos", e que, portanto, quando "um pouco ultrapassados", não representariam qualquer risco para a saúde dos consumidores.
A verdade é que a ciência que embasa a determinação desses limites é imprecisa e fortemente criticada. Evidência disso é o fato de os limites comumente variarem ao longo do tempo – à medida que novas descobertas sobre riscos relacionados aos produtos são divulgadas, os limites tendem a ser diminuídos. Os limites "aceitáveis" no Brasil são em geral superiores àqueles permitidos na Europa – isso pra não dizer que aqui ainda se usa produtos já proibidos em quase todo o mundo.

A revista também relativiza os riscos de longo prazo para a saúde dos consumidores, bem como os riscos para os trabalhadores expostos aos agrotóxicos nas lavouras. Mesmo diante de tantas provas, a Veja alega que, não haveria comprovações científicas nesse sentido.
A reportagem termina tentando colocar em cheque as reais vantagens do consumo de alimentos orgânicos, a eficácia dos sistemas de certificação e mencionando supostos "riscos" do consumo de orgânicos. A revista alega que esses alimentos "podem ser contaminadas por fungos ou por bactérias como a salmonela e a Escherichia coli." Só não esclarece que, ao contrário dos resíduos de agrotóxicos, esses patógenos – que também ocorrem nos alimentos produzidos com agrotóxicos – podem ser eliminados com a velha e boa lavagem ou com o simples cozimento.
Da revista Veja, sabemos, não se poderia esperar nada diferente. Trata-se do principal veículo de comunicação da direita conservadora e dos grandes conglomerados multinacionais no País. Mas podemos destacar que a publicação desse suposto "guia de esclarecimento" revela que o alerta sobre os impactos do modelo da agricultura industrial está se alastrando e informações mais independentes estão alcançando mais setores da população – ao ponto de merecerem tentativa de desmentido pela Veja e pela indústria.
 
Flavia Londres é engenheira agrônoma e consultora da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia.
 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Os amores e sua dor


 Deixei você com sua dor, mas ela me acompanhou, forte, lancinante me inundou e, na minha cara,  mostrou minha impotência. Você ficou com sua dor, mascarada em impaciência, beirando a raiva, desejando a solidão Os incômodos dos galhos secos, malformados.

Alguns poucos dias separavam você da grande perda da despedida final, inesperada naquele momento. As descobertas e os tormentos das medidas necessárias ao enceramento de uma vida só maltratam, não basta a dor da perda. Uma sociedade organizada, como a nossa, cobra providências imediatas. Documentos que antecedem documentos. Providências a priori que só conseguem vir depois. Contradições inexplicáveis, porém exigentes. E a dor firme, acompanhando, grudada na  mão que assina sem vontade, nas pernas que caminham com passos firmes, balançando a alma, na cabeça que é demandada a pensar, resolver, tomar decisões. A exaustão abate e vem a vontade de dormir, apenas o querer apagar, se não a situação, o sofrer, então, a si mesma, numa fuga anestesiante de um sono que não vem.

Antes de pegar o avião, ainda fiquei uma noite  nas Alterosas, mas longe – e tão junto – de você, minha querida. Quando cheguei de volta ao meu ponto, tive momentos de grande alívio na recepção de meus bichos, das minhas árvores. Um vaso de belas e coloridas flores me esperava e, grata, respirei.  Na segunda noite, a dor foi sufocante, assustaram-me sua intensidade e indefinição até perceber que era a sua dor que eu sentia. A compreensão de sua necessidade de eu não estar perto me impedia de tentar a desejada comunicação. Comecei a fazer o que sempre faço em momentos doídos, procurar a companhia de minhas árvores e com elas me acalmar para enviar a você o que podia de paz e, sobretudo,  todo o meu amor. Saber você forte não ameniza a dor compartilhada e não dividida. Impotência.

Agora, você me telefona preocupada com minhas condições materiais! Ah! Minha tão querida, quanto caminho ainda terá que percorrer para se livrar dessa tristeza potencializada nas burocracias burras, exigentes e incompetentes e nas pessoas, amigas, e eu com elas, que querem ajudar e só fazem trazer mais uma vez as lembranças tétricas. Você, na sua generosidade, vai percorrer todos os caminhos duros e acabará chegando a um lugar seu. Lá, estará você, inteira, íntegra, maior, bela, dona de si e das flores. 

BARTÔ, O MAGO DA PALAVRA

   
Frei Betto  

     O coração de Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012),  pleno de amor e arte, parou na madrugada de 16 de janeiro. Meu querido amigo  Bartô transvivenciou. Entrou em “encantamento”, diria Guimarães  Rosa.
      Bartô tinha 67 anos e mais de 70 livros  publicados. A ele dediquei meu mais recente romance, Minas do ouro:  “Para Bartolomeu Campos de Queirós nascido, como eu, na mesma terra mineira,  no mesmo ano, no mesmo mês, no mesmo dia, e condenado, como eu, à mesma sina:  escrever.”
      Em 2003, mereci dele a dedicatória do  livro Menino de Belém. Era um mago da palavra. Não fazia poesia, não  escrevia prosa – criava proesia. Sua prosa é arrebatadoramente poética,  como o comprova seu último romance Vermelho amargo, de forte conotação  autobiográfica.
      Sua mãe morreu aos 33 anos, de câncer, quando ele  tinha 6. Lembrava-se que ela sofria dores atrozes, a ponto de o bispo  autorizar que se apressasse a morte dela com uma injeção. Às vezes a dor era  tanta que ela se punha a entoar canto lírico. Bartô, por vezes, ligava para  sua amiga Maria Lúcia Godoy, cantora lírica, para que ela cantasse para ele ao  telefone.
      Equivocam-se os que classificam sua obra  de literatura infantil, embora tenha angariado os mais importantes prêmios  nacionais e internacionais neste gênero. Sua escrita é universal, encanta  crianças e adultos. Como artesão da palavra, trabalhava cuidadosamente cada  vocábulo, cada frase, até extrair toda a polissemia possível, assim como a  abelha suga o néctar de uma flor.
      Bartô morava em Belo Horizonte, no apartamento que  pertenceu à poeta Henriqueta Lisboa – cuja estátua se ergue à porta do prédio,  na Savassi. Gostava da solidão. Precisava dela para escrever. Chegava a pedir  à cozinheira que saísse mais cedo. E só admitia que o silêncio fosse quebrado  pela música, que ele escutava deitado no chão.
      Nos últimos anos, mais lia do que escrevia. E o fazia  com um prazer quase luxurioso. Narrou-me como se deleitava em abrir um novo  livro, reformular suas ideias e conceitos, adquirir novos conhecimentos...
      Tornou-se escritor por acaso. Estudava comunicação e  expressão em Paris, quando lhe pediram enviar um texto a um concurso, que o  premiou. Mas custou a se assumir como autor. Para ele, isso era secundário. A  prioridade era o emprego no MEC, num departamento de investigação de qualidade  de ensino, que o obrigava a viajar Amazônia afora. Seu chefe, Abgar Renault,  lhe dava toda liberdade.
     Nos últimos anos, pouco saía de casa. Desde que se viu  obrigado a fazer hemodiálise três vezes por semana, caminhava a passos miúdos,  os ombros curvados e, no rosto, a perplexidade diante dos mistérios da vida. A  fala era contida, proverbial, mesmo quando fazia palestras. Seus silêncios  ecoavam.
     Fazia questão de não abandonar o cigarro  e tomar um chope antes de submeter-se à hemodiálise. Dizia que, assim, o  tratamento seria compensado...
      Seu ponto de encontro era a Livraria Quixote, na rua  Fernandes Tourinho, onde há um espaço em homenagem a ele. Ali revia amigos,  lançava livros, tomava café da manhã. Foi ali que nos vimos pela última vez,  na véspera do Ano-Novo, quando me deu de presente o romance epistolar A  sociedade literária e a torta de casca de batata, de Ann Shaffer e Annie  Barrows.
      Há três anos ele me propusera um projeto  literário a quatro mãos: uma troca de correspondência sobre literatura,  conjuntura política, vivências. Nunca o efetivamos. Em nosso encontro de fim  de ano respondeu-me quando indaguei o que andava escrevendo: “Cartas para mim  mesmo.”
      Bartô contava que, quando criança, ficava  intrigado com o mistério de como pouco mais de vinte letras podem registrar na  escrita tudo que a cabeça pensa... Orgulhoso, disse que aprendera a escrever  com o avô, marceneiro, que morava em Pitangui (MG). Tirara a sorte grande na  loteria e, assim, trocou a madeira pela literatura. Ao se sentir inspirado,  tomava em mãos o lápis próprio para marcar medidas na madeira e redigia suas  histórias nas paredes da casa. Quando o avô morreu, tiraram da parede da sala  o relógio em forma de oito. Era o único espaço vazio de  textos...
      Bartô era um artista profundamente  espiritualizado. Desde que morou em Paris tornou-se devoto de São Charbel  (1828-1898), libanês, canonizado em 1997. Disse que o escolhera porque é um  santo de poucos devotos e, portanto, mais disponível para atender às suas  preces...  E mostrou-me a estampa do monge de longas barbas  brancas.
     Meu único consolo é a certeza de que  Bartolomeu Campos de Queirós vive, agora, imortalizado em suas obras  literárias. Reproduzo aqui o que escrevi a ele, em maio de 1998, após ler  Escritura: “Sua escrita é canto, luz, vereda e afago. Cada frase  lindamente esculpida! Proíba-se de tudo o mais para só escrever, porque é a  sua única e irrecorrível sentença de vida.”
 Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear  estrelas” (Rocco), entre outros livros. http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.


 Copyright 2012 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Se desejar, faça uma assinatura de todos os artigos do escritor. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Diretora geral da UNESCO diz que Rio+20 será marco na história



A diretora-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Irina Bokova, disse nesta  que a Conferência Rio+20, programada para ocorrer entre 13 e 22 de junho, no Rio de Janeiro, será um marco histórico mundial. A diretora-geral acrescentou ainda que o resultado da Rio+20 será de grande “importância” para o meio ambiente global nos próximos dez anos. As informações são da Unesco.

Rio+20
A A diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, disse que a falta de diálogo entre políticos é responsável pelo degradamento ambiental
–Rio+20 deve ser lembrada como um marco histórico. É o início de uma transição global verde. Essa é a visão da Unesco que orienta nosso trabalho no desenvolvimento de ações nas áreas de educação, ciências, cultura, informação e comunicação para um futuro mais sustentável–, disse Bokova.
Segundo a diretora-geral, a conferência oferecerá ao mundo a “oportunidade única” de avançar na construção de uma agenda global para o desenvolvimento sustentável. De acordo com Irina Bokova, todos devem se esforçar na elaboração das propostas e na execução das ações – países desenvolvidos e em desenvolvimento.
Bokova disse ainda que a falta de diálogo entre os líderes políticos e gestores contribui para acentuar a “grave degradação dos recursos naturais do mundo”.
Pelo menos cem presidentes da República e primeiros-ministros são esperados na Rio+20, além de 50 mil credenciados. Os demais números referentes às pessoas que trabalharão no evento – direta e indiretamente – e visitantes ainda estão sendo calculados.
A Rio+20 ocorre duas décadas depois de outra conferência que marcou época, a Rio 92. O objetivo agora é definir um modelo internacional para os próximos 20 anos com base na preservação do meio ambiente, mas com o foco na melhoria da condição de vida a partir da erradicação da pobreza, por meio de programas sociais, da economia verde e do desenvolvimento sustentável para uma governança mundial.
A conferência conta com o apoio e o comando da Organização das Nações Unidas (ONU). O secretário-geral do encontro é o diplomata chinês Sha Zukang. Porém, a presidenta da conferência é Dilma Rousseff.
Nossa font:CdB

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

STF que soltou Daniel Dantas nega Habeas Corpus para José Rainha

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Cezar Peluso, indeferiu nesta segunda-feira (16) pedido de liminar para Habeas Corpus em favor de José Rainha e de dois outros militantes da reforma agrária que atuam no estado de São Paulo.

Os três estão presos numa decisão política e em favor do latifúndio, tomada por um juiz federal de Presidente Prudente. Pelos “crimes” apontados, percebesse bem qual o entendimento do magistrado sobre a luta pela reforma agrária.

O mais impressionante na decisão expedida pelo presidente do STF é que ele se fundamenta, para impedir a soltura dos militantes, em um precedente de negação de Habeas Corpus relatado pelo ministro Gilmar Mendes. Sim, ele mesmo, o Gilmar Dantas que mandou soltar Daniel Dantas duas vezes e o médico estuprador Roger Abdelmassih, que imediatamente fugiu do Brasil.

Peluso se reportou à decisão do juiz de Presidente Prudente, segundo o qual, mesmo após sua prisão, José Rainha e Antonio Carlos teriam ameaçado uma testemunha. Não levou em conta o argumento da defesa de que a suposta ameaça foi sustentada por uma denúncia anônima.

Dois pesos...
Ou seja, para manter José Rainha preso, vale uma denúncia anônima de ameaça à testemunha. Mas para soltar Daniel Dantas, não vale uma mala com dois milhões de reais, entregue numa tentativa de suborno, filmada e exibida para milhões de pessoas no Jornal Nacional. 

A cada decisão do Supremo, comprovasse que aquele Tribunal é o retrato mais fiel de como ainda é injusto o Brasil. E cada vez mais descobrimos como são sábias as palavras da ministra Eliana Calmon, corregedora nacional da Justiça, que afirmou que existem “muitos bandidos de toga”. 

De Brasília, Kerison Lopes

Nossa fonte:Vermelho

"A vida quer é coragem - A trajetória de Dilma Rousseff, a primeira presidenta do Brasil"


"A vida quer é coragem - A trajetória de Dilma Rousseff, a primeira presidenta do Brasil", escrito pelo jornalista Ricardo Batista Amaral e publicado pela Editora Sextante.

De estupros e outros crimes faz-se a Rede Globo


Por André Cintra

     Aos 31 anos, o modelo Daniel Echaniz alcançou a fama. Para chegar lá, não precisou de 15 minutos. Bastaram-lhe sete. Poderia ter brilhado em tradicionais passarelas da moda ou em milionários anúncios publicitários. Foi virar celebridade num dos programas televisivos de maior audiência no Brasil – o “Big Brother Brasil 12”.


     O porém é que, para Daniel, a fama veio pelo avesso. Pesa contra o modelo a acusação de ter estuprado a estudante Monique Amin, de 23 anos, em meio a uma madrugada de bebedeiras, de sábado para domingo passado, num dos ambientes do reality-show da TV Globo. Daniel teria molestado uma desacordada Monique por 25 minutos, dos quais apenas sete foram transmitidos ao vivo para assinantes do pay-per-view do “BBB”. Uma gravação em vídeo já está em poder da Polícia Civil do Rio de Janeiro.
     A cena do suposto estupro foi vista por centenas de milhares de pessoas em sites de compartilhamento de vídeos e repercutiu até na imprensa internacional. Alvo de crescente execração pública nas redes sociais, Daniel foi eliminado do reality- show nesta segunda-feira (17), “devido a um grave comportamento inadequado”, conforme a nota oficial da Globo.
     A situação de Daniel Echaniz é complicada, para dizer o mínimo. Seu destino está nas mãos de Monique — que, ao sair do “BBB”, poderá se submeter a exame de corpo de delito e formalizar uma denúncia contra o modelo. Aberto o inquérito, Daniel correrá o risco de ser preso, com reclusão de oito a 15 anos. É uma reviravolta impensável para um sujeito que, duas semanas atrás, mal desconfiava que seria um dos escolhidos para disputar o prêmio de R$ 1,5 milhão do programa.
    Recorrentes baixarias
    Difícil é prever se a Globo sairá incólume do caso. Não que, nos quase 47 anos de história da emissora carioca, esse novo episódio pareça raio em céu azul. Criada à margem da lei em 1965 — e consolidada à base de inúmeros escândalos, alguns conhecidos, outros acobertados —, a Globo nunca considerou a ética uma moeda de livre circulação em seu território. Muito pelo contrário.
     Historicamente, o dia a dia na emissora sempre foi povoado, como diria o filósofo, por artimanhas tais quais “o engano, o lisonjear, mentir e ludibriar, o falar-por-trás-das-costas, o representar, o viver em glória do empréstimo, o mascarar-se, a convenção dissimulante, o jogo teatral diante de outros e diante de si mesmo”. Com o “BBB”, ano após ano, “essa arte do disfarce chega a seu ápice”.
     Que o diga a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal. Uma única edição do Big Brother — a décima, exibida de agosto de 2009 a abril de 2010 — fez chegar à comissão nada menos que 227 denúncias de “desrespeito à dignidade humana, apelo sexual, exposição de pessoas ao ridículo e nudez”. Na visão da Globo, a perda de audiência e de credibilidade era compensada com faturamentos recordes.
     A carta branca para a baixaria se incrementou na 11ª edição, no primeiro trimestre de 2011. Antes mesmo de o programa começar, o diretor-geral do reality show, J.B. Oliveira, o Boninho, já anunciava uma série de mudanças para “esquentar” a atração. “Nada é proibido no BBB, pode fazer o que quiser. Esse ano... liberado! vai valer tudo, até porrada”, escreveu ele no “Twitter”, prometendo ainda álcool à vontade: “Vai ser power... chega de bebida de criança. Acabou o ICE no BBB, esse ano TUDO vai ser diferente”.
    “Circo de débeis mentais”
     Não é nenhum exagero apontar que o episódio do estupro decorre dessa inacreditável escalada de permissividade. “Para ser bem franco, eu achava que iria haver um assassinato no ‘BBB’, antes de acontecer um estupro. Desde muito tempo que o critério de seleção para o programa tem sido a demência intelectual, o comportamento antissocial, o perfil violento e a falta de caráter, tudo isso potencializado em festas regadas a enormes quantidades de álcool”, sintetizou o jornalista-blogueiro Leandro Fortes.
     “Que tenha aparecido um idiota para estuprar uma mulher quase em coma alcoólico não chega a ser exatamente uma surpresa, portanto”, emenda. Suas críticas se dirigem especialmente ao jornalista Pedro Bial, chamado por Leandro de “mestre-de-cerimônias desse circo de débeis mentais montado pela TV Globo”.
     Qualquer mestre-de-cerimônias, como se sabe, tem limitada autonomia para fugir do script. Pode-se topar o (digamos assim) “desafio profissional” por inúmeras razões — mas não consta que Pedro Bial demonstre algum tipo de repúdio às aberrações do “BBB”. No caso do suposto “estupro”, o comportamento de Bial seguiu à risca a máxima da americana Janet Malcolm: “Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”.
      Na noite de domingo, em sua primeira aparição depois da polêmica — e da repercussão do caso nas redes sociais —, o apresentador do BBB se limitou a reduzir tudo a um chavão: “O amor é lindo”. Horas antes, a pedido do departamento jurídico da Globo, o vídeo do suposto estupro foi apagado na página do “BBB” na internet e em sites como o “YouTube”. Boninho chegou a dizer que “não rolou” crime e que “eles (Daniel e Monique) supostamente transaram”. Artistas globais que criticaram Daniel ou o programa foram igualmente censurados.
     Os "limites"     Já se sabe, a esta hora, que a “operação abafa” da Globo fracassou rotundamente. Graças ao corajoso delegado Antonio Ricardo, uma diligência policial foi ao estúdio do Projac, no Rio, para ouvir Daniel e Monique, por “suspeita de abuso sexual”. A Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República, pediu que o Ministério Público do Rio de Janeiro tomasse “providências cabíveis” na apuração do caso, em consideração às “demandas encaminhadas por cidadãs de várias cidades brasileiras”.
      O fato é que a expulsão de Daniel do “BBB” ocorreu apenas quando a Globo se viu prestes a ser indiciada por “crime de omissão” — o que poderia tirar o programa do ar. Depois de abrir as portas do Projac para a polícia e cortar até o áudio do reality-show, a emissora se deu conta de que uma crise de credibilidade também estava em curso.
      Só então Bial esqueceu que “o amor é lindo” e falou em “violação do regulamento”, enquanto Boninho finalmente admitiu que Daniel “passou dos limites do relacionamento com as pessoas” e que “o comportamento dele foi excessivo”. Para todos os efeitos, o crime e a e Globo estão, mais uma vez, de mãos dadas.
     Na zona das sombras, a emissora da família Marinho prometeu colaborar “ao máximo” com a investigação e arcar com os custos judiciais do agora ex-BBB Daniel. Falta combinar quem prestará assistência à suposta vítima, Monique Amin, a quem a Globo não teve nem sequer a dignidade de mostrar a íntegra das polêmicas imagens. E falta, sobretudo, reconhecer que violar regras, ultrapassar limites e cometer excessos são práticas consagradas, há pelo menos 47 anos, pela própria Globo.

Fonte: Fundação Maurício Grabois

PAUTA 2012


Frei Betto


     Tudo indica que não teremos pela frente um ano fácil. A crise do capitalismo, que não é apenas financeira, mas estrutural, começa a afetar as economias emergentes, inclusive a do Brasil. Nada indica que os países da zona do euro vão deter a corrosão de suas economias e manter a mesma moeda.     

    Se a China, os EUA e a União Europeia reduzirem suas importações, o PIB brasileiro, que já chega ao patamar de R$ 4 trilhões (= US$ 2,5 trilhões) cairá junto com o crescimento do país. O governo Dilma dará tratos à bola para aquecer o mercado interno, segurar a inflação e favorecer o crédito. Tomara que consiga. Mas tudo indica que nessa viagem rumo ao desenvolvimento o Brasil enfrentará sérias turbulências.      
     Os próximos meses terão, como pauta prioritária, as eleições municipais de outubro. De novo, muita baixaria vai rolar... O importante é o eleitor não torcer o nariz para o processo eleitoral. Lembre-se: quem tem nojo de política é governado por quem não tem.      
      Deixo uma sugestão: faça uma lista de 10 prioridades que você e sua comunidade (associação, sindicato, ONG etc) consideram urgentes ao seu município. Tire cópias. Toda vez que um candidato a prefeito ou vereador vier pedir voto, pergunte, sem mostrar a lista, se concorda com os 10 pontos. Se disser que sim, apresente a lista e exija que ele assine. Se não assinar, alerte os eleitores.      
     Para que os candidatos se comprometam com metas e prazos, consulte as propostas da Rede Nossa São Paulo:www.nossasaopaulo.org.br     
     Outro assunto que dominará o ano são as obras da COPA. Haja esforço para que terminem antes de a bola rolar e haja fiscalização para evitar (ou ao menos reduzir) a corrupção via superfaturamento!      
    Entre 4 e 6 de junho, o Brasil sediará o megaevento ambiental conhecido como Rio+20 (Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável) – vinte anos após a Eco 92, que reuniu líderes mundiais, inclusive Fidel Castro. A proposta de realização deste evento foi de Lula, em 2007.      A Eco 92 rendeu frutos importantes, como a Agenda 21, a Carta da Terra, e as convenções do Clima e da Biodiversidade.      
     A diplomacia brasileira terá de fazer muito esforço para trazer à Cidade Maravilhosa ao menos meia dúzia de chefes de Estado do G8, os países que governam o planeta. Isso porque o G8 está cada vez menos interessado em preservação ambiental, e mais em tirar suas nações da recessão.    
      Paralela à Rio+20 haverá a Cúpula dos Povos, que reunirá ONGs e empresas, universidades e associações, enfim, segmentos da sociedade civil interessados na questão ambiental.     
      E atenção: o Calendário Maia termina em 2012. Há quem encare isso como anúncio do fim do mundo! Há quem afirme ser o início de novo ciclo cósmico! Não se afobe. Faça de 2012 o fim de tudo isso que reduz sua qualidade de vida e o início do que pode melhorá-la. Garanto que você terá um feliz ano novo!


Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do Ouro” (Rocco), entre outros livros. http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto. 
Copyright 2012 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Se desejar, faça uma assinatura de todos os artigos do escritor. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br) 


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Chile: os 55 anos de morte de Gabriela Mistral


A escritora chilena concebeu sua obra em íntima relação com a luta pela popularização do ensino e contra a burguesia conservadora de seu país. Ao mesmo tempo esse sistema de ensino é ainda hoje atacado pela mesma burguesia chilena que hipocritamente ergue monumentos, museus e honrarias vazias a Gabriela Mistral 


Por Antonio Ateu


     Gabriela Mistral foi a maior poetisa do Chile e uma das mais importantes da América Latina. Ela militou ao longo de toda a vida nos movimentos de democratização do ensino, dentro e fora de seu país e lutou pelo acesso à cultura para a população pobre. Ela tornou-se desse modo, uma das mais destacadas intelectuais ligadas a esse movimento democrático. Como defensora dos direitos das mulheres, Mistral tornou-se também uma importante precursora do moderno movimento feminista e ocupou também destacados cargos administrativos no governo chileno.
     A escritora nasceu 1889, em Vicuña, e seu nome de nascimento é Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga. Foi apenas quando começou a se tornar conhecida entre os meios literários chilenos que, após usar diversos pseudônimos, ela adotou o pseudônimo Gabriela Mistral, nome criado da combinação dos nomes de dois grandes poetas, os favoritos da escritora; o italiano Gabriele D'Annunzio e o francês Frédéric Mistral, ambos ligados a movimentos nacionalistas em seus países.
     Ela foi criada desde a infância na região dos Andes, na pequena vila de Montegrande. Sua mãe, Petronila Alcayaga, era costureira, e tanto seu pai, Juan Gerónimo, quanto sua irmã mais velha, Emelina Molina, eram professores locais. Juan Gerónimo abandonou a família e a cidade quando Gabriela tinha ainda três anos, de modo que, mais tarde, foi Emelina quem lhe alfabetizou. Seu pai era poeta amador, e, anos mais tarde, Mistral contaria que as poesias dele foram as primeiras que leu na vida e logo despertaram nela sua paixão pela poesia.
     Aos 15 anos, Gabriela já trabalhava para complementar a renda familiar. Ela havia se mudado para o litoral, trabalhando como professora auxiliar em Compañia Baja.
     É nessa idade que ela publica seus primeiros poemas em jornais da região como El Coquimbo: Diario Radical eLa Voz de Elqui. Eram os poemas Ensoñaciones, Carta Íntima e Al Junto Mar.
     Em 1906 se envolveu com Romelio Ureta, um operário ferroviário. A relação entre os dois teria uma importância substancial na vida da poetisa, e foi um grande choque para ela o suicídio de Ureta em 1909.
      Até então o tema da morte já estava presente em sua obra, mas a partir de 1909, Gabriela Mistral passaria encarar de uma forma mais ampla e profunda esse problema, vindo a escrever alguns dos melhores poemas sobre a morte na tradição das letras modernas na América Latina.
     Seu nome tornou-se conhecido nos meios literários chilenos a partir de 1914, quando ela ganhou um prêmio pela obra Sonetos de la Muerte, poema inspirado no suicídio de Ureta. Foi também nessa ocasião que ela começou a publicar assinando com seu pseudônimo, Gabriela Mistral.
     Ela trabalhou como professora ao longo de toda a década de 1910. Após destacar-se como educadora em quatro diferentes instituições, em 1918 Gabriela foi indicada pelo então ministro da Educação, Pedro Aguirre Cerda, para coordenar um Liceu em Punta Arenas. Em 1921 ela venceu uma nova disputa, agora para coordenar o Liceu de Santiago, a mais importante escola para garotas do Chile.
     Ela permaneceu no cargo, porém, apenas um ano, e em 1922 abandou seu país para se estabelecer no México. Ela trabalhou ali próxima do governo, junto ao ministro da Educação mexicano, José Vasconcelos. Com ele Mistral tomou parte em seu grande projeto de reforma educacional que criava o primeiro sistema nacional de ensino do México.
     Ela escrevia ativamente nesses anos, publicando em 1922, o livro de poemas Desolación, e pouco mais tardeLecturas para Mujeres, uma obra de grande importância influenciada pela Revolução Mexicana, onde ela desenvolvia em prosa e verso uma visão do futuro do continente latino-americano.
     Ela permanece dois anos no México e depois parte para uma série de viagens pelos Estados Unidos e Europa. Na Espanha publica o livro Ternura, formado principalmente por versos que tinham como tema os sofrimentos das crianças espanholas.
     Gabriela Mistral encerraria sua atividade como professora em 1925, momento em que passa a dedicar-se exclusivamente à política, dando palestras e conferências sobre os problemas do sistema de ensino latino-americano e apresentando propostas para solucioná-lo.
     O processo de cooptação da escritora pelo imperialismo vê-se no convite que ela recebe em finais de 1925 para ingressar na Cooperação Intelectual da Liga das Nações representando a América Latina. Ela parte aí para a França e nunca mais volta a morar no Chile. Em 1932 ela é nomeada cônsul, e atua ao longos anos em Nápoles, Lisboa, Madri, Nice, Los Angeles, Nova Iorque, Petrópolis, Santa Barbara, Veracruz e Rapallo.
     Além de suas palestras e conferências, nesses anos Mistral publicou também dezenas de artigos em diferentes periódicos internacionais falando sobre problemas relacionados à educação, mas também sobre literatura.
     Em 1938 Gabriela Mistral publicou em Buenos Aires a coletânea poética Tala, e o dinheiro das vendas do livro foi destinado a um fundo às vítimas da Guerra Civil Espanhola.
     Sua primeira antologia poética viria em 1941, e pouco mais tarde, em 1945, ela é indicada ao Prêmio Nobel de Literatura, e torna-se a primeira escritora latino-americana a receber a nomeação.
     O período mais produtivo da atividade da poetisa, porém, já havia passado. Mistral publicaria seu livro seguinte apenas em 1954, Lagar, cujos poemas voltavam-se novamente para o tema da perda e da morte, motivados pelo suicídio de um sobrinho de Mistral, em 1943, com apenas 17 anos.
     Desde a década de 1940 a escritora descobrira sofrer de um câncer no pâncreas. Ela passou o resto da vida tratando-se do câncer em uma época em que ainda não existia um tratamento confiável para doença. Mistral viria a morrer desse câncer em janeiro de 1957.
      Em seu testamento, Mistral destinou tudo o que possuía às crianças pobres de Montegrande, o povoado onde passara boa parte de sua infância.
      Atualmente Mistral é reconhecida no Chile como a maior poetisa nacional, onde existem monumentos em sua homenagem, ruas e museus que levam seu nome. Um trem de metrô procura manter sua memória, com fotos dentro do vagão, e sua imagem foi impressa na nota de cinco mil pesos. Apesar de todas as honrarias, essa é obviamente uma atitude demagógica da burguesia chilena, já que a poesia da grande escritora foi formada a partir da luta pela democratização – a qual o governo é ainda hoje totalmente contra. Se estivesse viva, Mistral certamente estaria do outro lado das barricadas, lutando ao lado dos estudantes em defesa do ensino público de qualidade contra a política de destruição das universidades que é a atual política da burguesia chilena.

Fonte: Blog do Nassif

sábado, 14 de janeiro de 2012

FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 2012


Frei Betto

Porto Alegre abrigará, de 24 a 29 deste mês de  janeiro, o FSM (Fórum Social Mundial) centrado no tema “Crise capitalista –  justiça social e ambiental”. O evento é uma das atividades preparatórias da  Cúpula dos Povos da Rio+20, que se reunirá na Cidade Maravilhosa entre 20 e 21  de junho de 2012.
O FSM se realiza no momento em que vários povos se  movimentam por liberdade e democracia, como ocorre no mundo árabe. No  Ocidente, a crise do capitalismo suscita o movimento Ocupem Wall Street. As  duas manifestações têm em comum clareza quanto ao que não se quer, sem,  no entanto, apresentar propostas alternativas viáveis. 
No último 15 de outubro, houve mobilizações em quase 1  mil cidades de 82 países! No mundo andino, povos indígenas questionam o modelo  capitalista de desenvolvimento e resgatam os valores do bem viver - sumak  kawsay. 
Como resultado da incompetência de um  sistema que prioriza a acumulação privada da riqueza em detrimento dos  direitos humanos, sociais e ambientais, o capitalismo conhece, agora, nova  crise. Diante dela, a reação dos donos do poder é o samba de uma nota só:  austeridade, cortes, aumento de impostos e desemprego, flexibilização das leis  trabalhistas, congelamento de salários. 
Salvam-se os bancos e dane-se a população. Mais  miséria à vista; jovens sem perspectiva de futuro, condenados à droga e ao  crime; fluxos migratórios desordenados.
Do lado da esperança, e após três décadas de  globocolonização neoliberal, as manifestações sinalizam valores positivos como  a empatia pelo sofrimento alheio, a solidariedade, a defesa da igualdade, a  busca de justiça, o reconhecimento da diversidade e a preservação ambiental.  Sem esse universo ético não há esperança de se construir um outro mundo  possível.
É preciso reinventar a convivência  humana. E, da parte dos donos do poder, não há nenhuma proposta fora da  preocupação de não refrear a roleta do cassino global. A crise ambiental é  ignorada pela ONU, pelos governos dos EUA e da União Europeia, e nada garante  que a Rio+20 conseguirá reunir, como na Eco-92, chefes de Estado dos países do  G8.
Mercantiliza-se a vida, destroem-se os  ecossistemas, reduz-se rapidamente a biodiversidade. Em todo o planeta,  acentuam-se os empreendimentos extrativistas, sem nenhuma preocupação com seus  impactos sociais e ambientais. Áreas fundiárias são descaradamente  transnacionalizadas em países do Terceiro Mundo. 
Em Belém 2009 e Dakar 2011, o FSM deu passos  significativos na busca de alternativas ao desenvolvimentismo e ao consumismo,  tendo em vista a preservação ambiental. Agora, a luta social é oxigenada pela  busca de democracia e soberania nos países árabes, e as amplas manifestações,  na Europa e nos EUA, contra a lógica necrófila do neoliberalismo.  
Se outro mundo é possível, isso se dará a  partir da convergência de todas essas mobilizações, da sincronia entre todos  que lutam pela preservação ambiental, do diálogo entre as forças sociais e  políticas convencidas de que dentro do capitalismo não há salvação para o  futuro da humanidade.
O FSM de Porto Alegre 2012 deverá ser o ponto de  encontro de sujeitos políticos capazes de apontar uma saída para a crise e as  bases de construção de um novo modelo civilizatório, no qual predomine a  globalização da solidariedade. E dele poderão brotar propostas temáticas para  abastecer aqueles que, em junho, se encontrarão na Cúpula dos Povos  (Rio+20).
A dinâmica do FSM 2012 será à base de  grupos temáticos, de modo a acolher experiências e contribuições dos  participantes em torno de quatro eixos transversais: 1. Fundamentos éticos e  filosóficos: subjetividade, dominação e emancipação; 2. Direitos humanos,  povos, territórios e defesa da Mãe-Terra; 3. Produção, distribuição e consumo:  acesso à riqueza, bens comuns e economia de transição; 4. Sujeitos políticos,  arquitetura de poder e democracia.
Mais informações: http://www.fstematico2012.org.br/index.php?link=48; www.dialogos2012.org  ;  grupostematicosfst@gmail.com;  fstematico2012@gmail.com

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com  Marcelo Barros, de “O amor fecunda o Universo – ecologia e espiritualidade”  (Agir), entre outros livros.http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.
Copyright 2012 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Se desejar, faça uma assinatura de todos os artigos do escritor. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)