Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade
Clic sobre o livro (download gratuito). LEIA E DÊ SUA OPINIÃO

sexta-feira, 14 de março de 2014

Mulheres com mais de 70 anos têm ‘o melhor sexo de suas vidas’, segundo pesquisa

Uma vida ativa e saudável é importante para o sexo
Por Redação, com BBC - de Londres


Segundo a crença popular, o desejo e a atividade sexual diminuem com a idade, especialmente nas mulheres. Mas uma acadêmica da American University, de Washington, sugere que mulheres com mais de 70, 80 ou até 90 desfrutam a melhor atividade sexual de suas vidas.

Iris Krasnow, professora de Jornalismo e Estudos Femininos, entrevistou 150 mulheres entre 20 e 90 anos sobre os seus segredos mais íntimos e teve conversas surpreendentes e reveladoras – que acabada de publicar no livro Sex After…: Women Share How Intimacy Changes as Life Changes (“Sexo depois dos…: Mulheres compartilham como a intimidade muda com as mudanças da vida”, em tradução livre).

Krasnow abordou o assunto de vários ângulos, indagando sobre a atividade sexual em diferentes fases da vida: depois da faculdade, da maternidade, da menopausa e da viuvez.

Descobriu que as mulheres mais velhas eram mais aventureiras e mais confiantes na sua sexualidade que as jovens que estão em fase de “envolvimento” ou namoro. “A era da senhora”, diz.

‘Frágil, enrugada e seca’
Suas entrevistadas eram de diferentes idades, classes sociais, raças, culturas e religiões. Mas o fator comum é que relatos de sexo bom estavam sempre ligados ao desenvolvimento de intimidade e conexão emocional.

- As pessoas pensam sobre o sexo até o momento em que morrem – disse Iris Krasnow, em entrevista à agência britânica de notícias BBC.

E, de acordo com o que dizem, não estão só pensando, mas também praticando e se divertindo. “A era da mulher de 78 anos, frágil, enrugada e seca é coisa do passado”, disse a autora.

Ela acrescentou que as mulheres entre 80 e 90 anos estão na faixa etária que mais cresce dentro da população idosa, em muitos países ocidentais. O que estamos vendo agora é não só um aumento na longevidade, mas o aumento da atividade sexual neste setor da sociedade.

Este crescimento da expectativa de vida vem com melhores remédios, mais vigor, mais exercício, melhor dieta e saúde o que resulta numa população de terceira idade mais sexual e saudável do que antes.

Igualmente arcaico, indica Krasnow, é o mito de que as mudanças fisiológicas, como a menopausa, cirurgias de câncer ou histerectomia (retirada do útero), não permitem o desenvolvimento da atividade sexual saudável.

- Uma das minhas entrevistadas fez uma histerectomia aos 30 e, depois disso, melhorou sua vida sexual – deu como exemplo. “Também inclui no livro as histórias de mulheres de 90 que estão iniciando relacionamentos”, destacou.

Segundo a especialista em Estudos Femininos, a alegada incapacidade das mulheres permanecerem sexualmente ativas na velhice é um mito perpetuado por homens mais velhos que querem firmar sua juventude e, com a ajuda de Viagra, buscam relacionamentos com mulheres mais novas.

Embora não seja necessariamente defensora do uso de medicamentos, que podem ter efeitos colaterais graves, a acadêmica argumenta que hoje há acesso a uma gama de opções de tratamentos, desde os hormonais e lubrificantes aos antidepressivos, que podem devolver o entusiasmo e a capacidade de desfrutar do sexo.

Saúde e aparência

Iris Krasnow divide as mulheres que se reencontram com sua sexualidade após os 65 anos em duas categorias:

A primeira é a do “ninho vazio” – aquela mulher que terminou de criar os filhos, adolescentes e estudantes universitários, e estes já saíram de casa.

Se antes estavam sobrecarregadas pela agitação doméstica, ocupadas em levar as crianças para lá e para cá ou preocupadas com que alguma delas a surpreendesse fazendo amor com seu parceiro, agora estão comemorando as possibilidades oferecidas por esta última fase da vida.

Essas mulheres e seus parceiros estão geralmente aposentados, mas ativos e conectados com o mundo exterior por meio de dispositivos modernos e redes de comunicação. Mas, principalmente, eles estão relaxados.

- Uma mulher me disse que, pela primeira vez, fez sexo na cozinha e estava experimentando um vibrador – disse Krasnow.

A outra categoria é a viúva. A mulher que foi casada por 55 anos e cuja vida sexual passou de ardente a aborrecida e, finalmente, inexistente. A que cuidou de seu marido doente por dez anos e o viu morrer.

- Agora essa viúva conhece outro viúvo – jogando golfe ou cartas – e os dois começam a praticar carícias de formas que nunca fizeram. Isso torna-se o melhor sexo de suas vidas – disse ela.

Um aspecto importante é a boa saúde, conseguida através de atividade e dieta adequadas.

As pessoas que vivem um estilo de vida sedentário e comendo demais não só se sentem mal, como não gostam como se vêem, afirma Krasnow.

- Alguém com sobrepeso geralmente têm outros problemas, come para preencher um buraco em sua alma – disse ela. “Se você estiver com sobrepeso, certamente não tem boa circulação e não há irrigação para os órgãos genitais. Sexo é a irrigação”, observa.

- 100% das mulheres em seus 70 e 80 anos que disseram que estavam tendo um bom sexo estão em excelente condição física – contou.

Sexo, por sua vez, prolonga a vida, assegura a pesquisadora. “Fisiologicamente, mantém o coração andando, as entranhas andando, o corpo andando, a vida andando”.

Intimidade

Mas o mais importante no desenvolvimento de uma boa prática sexual é a conexão emocional. O sexo é melhor quando há uma emoção igualmente profunda.

Krasnow chegou a essa conclusão depois de entrevistar milhares de casais ao longo de mais de três décadas.

- A pessoa que diz que só quer sexo sem amor mente. Todo mundo quer amar e ser amado. Isso é uma sensação primária que todos buscamos, sentir-se único nos olhos do amante – diz.

- Tudo parte de uma química sexual, explica, e, se essa química converte-se em compromisso e amor, o casal tem uma boa chance de sucesso e uma vida longa juntos. E se os dois estão de acordo com a evolução sexual de ambos, tudo fluirá bem – nota.

- Se você escolhe um parceiro desejado e sua mente pode se adaptar a um corpo envelhecido, sexualmente qualquer coisa é possível – acrescenta.

Nem tudo tem que ser sexo na cozinha ou de alta intensidade, Krasnow explica. Pode ser uma boa sessão de amasso ou uma massagem lenta e concentrada.

- O que pode ser melhor que isso? Sexo é o vínculo que temos com a nossa juventude. Nos mantém feliz, jovens e vivos.


Nossa fonte: Correio do Brasil

segunda-feira, 10 de março de 2014

“Eu não sou nada”: o que se esconde sob a humildade de Pepe Mujica

 Kiko Nogueira



No início da “Divina Comédia”, Dante encontra Virgílio, seu guia no inferno, e lhe diz: “Mestre, para mim, são tão certos e me impõem tanta confiança os teus arrazoados, que os demais me parecem carvões apagados.”

Pepe Mujica, o presidente do Uruguai, erra muito pouco. Em sua última entrevista, ao jornal “O Globo”, explicou como pretende lidar com as visitas de turistas a seu país para fumar maconha (como se sabe, o Uruguai legalizou o comércio da erva). Falou muito mais. E, como costuma acontecer, transcende as questões comezinhas e dá a qualquer conversa um tom filosófico. Nas palavras de Vargas Llosa, é um velhinho estadista que fala com sinceridade insólita para um governante.

“Queremos tirar o mercado do narcotráfico, queremos tirar-lhes o motivo econômico, queremos que o narcotráfico tenha um competidor forte e não seja o monopolista do mercado. Ao mesmo tempo, tentamos incitar as pessoas a atuarem do ponto de vista médico”, disse ele. “Mas temos que ter muito cuidado, porque não é uma legalização como as pessoas supõem no exterior, não vai ter um comércio, os estrangeiros não poderão vir aqui ao Uruguai para comprar maconha. Não vai existir o turismo da maconha. A decisão tomada não tem nada que ver com esse mundo boêmio. É uma ferramenta de combate a um delito grave, o narcotráfico, é para proteger a sociedade. É muito sério”.

Sobre seu exemplo como líder: “Pretende ser um mini-ato de protesto. As repúblicas não vieram ao mundo para estabelecer novas cortes, as repúblicas nasceram para dizer que todos somos iguais. E entre os iguais estão os governantes. Têm uma responsabilidade implícita e penso que devem viver de forma bastante similar à maneira de viver da maioria do seu povo. Ninguém é mais que ninguém, começando pelo governante.”

Sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo: “O casamento homossexual, por favor, é mais velho que o mundo. Tivemos Julio Cesar, Alexandre, O Grande, por favor. Dizer que é moderno, por favor, é mais antigo do que nós todos. É um dado de realidade objetiva, existe. Para nós, não legalizar seria torturar as pessoas inutilmente”.

Sobre trabalho: “Temos que lutar para que todos trabalhem, mas trabalhem menos, todos devemos ter tempo livre. Para quê? Para viver, para fazer o que gostam. Isto é a liberdade. Agora, se temos de consumir tanta coisa, não temos tempo por que precisamos ganhar dinheiro para pagar todas essas coisas. Aí vamos até que pluff, apagamos.”

Sobre manifestações: “Eu simpatizo com os protestos, mas não levam a lugar nenhum. Não construíram nada. Para construir, há de se criar uma mente política, coletiva, de longo prazo, com ideias, disciplina, e com método. E isso é antigo, ou parece antigo. Mas sem interesses coletivos, é difícil mudar. Não são os grandes homens que mudam as sociedades, mudam quando os protestos se organizam, disciplinam, têm métodos de longo prazo. Estes movimentos de protesto têm a vantagem do novo, e tentam alguma coisa nova porque desconfiam de todos os velhos, especialmente os partidos, por que perderam a confiança neles. Mas as primaveras têm se transformado em inverno por que não sabem onde ir.”

Sobre política: “Temos de revalorizar o papel da política. Mas no mundo real, muita gente se mete na política por que gosta de dinheiro, estes devem ser expulsos porque prostituem a política. A política tem de ser feita com carinho, a política tem a ver com a harmonia das contradições que há na sociedade, tem de lutar para harmonizar este mundo frágil e cheio de contradições que estamos vivendo.”

Sobre seu reconhecimento: “Não é que me achem tão excepcional, me usam como uma maneira de criticar os outros. A última vez que estive na ONU escutei discursos de um presidente de um país europeu [Hollande, da França] pelo qual temos um respeito enorme pela cultura, por suas tradições, pelo que significou no mundo. Fiquei assustado, porque parecia um discurso neo-colonialista. Eu não sou nada, sou um camponês com senso comum. Sem dúvida, estou vivendo uma peripécia. Talvez, se não tivesse passado tantos anos presos com tempo para pensar, fosse diferente.”

Sobre o Brasil e a América Latina: “Brasil vai fazer um campeonato do mundo lindo. Brasil deve apreciar o melhor que tem, não é a Amazônia nem o petróleo, é o experimento social de ser o país mais mestiço do mundo. E tem uma grande alegria de viver, mesmo com as dificuldades e isso deve à África. Por isso, a luta é que brasileiros sejam mais latino-americanos.”

A admiração de Llosa é genuína, mas há algo de condescendente em sua consideração. Mujica é também mais que um camponês com senso comum. É alguém em quem sempre vale a pena prestar atenção. Um mestre. Como disse Dante: “Com aquela medida que o homem usa para medir a si mesmo, mede as suas coisas”.

Sobre o AutorDiretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.
Nossa fonte: Diário do Centro do Mundo

sexta-feira, 7 de março de 2014

BARBOSA NÃO HONRA O STF

Uma justiça sem venda, sem balança e só com a espada?
Leonardo Boff

Tradicionalmente a Justiça é representada por uma estátua que tem os olhos vendados para simbolizar a imparcialidade e a objetividade; a balança, a ponderação e a equidade; e a espada, a força e a coerção para impor o veredito.

Ao analisarmos o longo processo da Ação Penal 470 que julgou os envolvidos na dita compra de votos para os projetos do governo do PT, dentro de uma montada espetacularização mediática, notáveis juristas, de várias tendências, criticaram a falta de isenção e o caráter político do julgamento.

Não vamos entrar no mérito da Ação Penal 470 que acusou 40 pessoas. Admitamos que houve crimes, sujeitos às penas da lei.
Mas todo processo judicial deve respeitar as duas regras básicas do direito: a presunção da inocência e, em caso de dúvida, esta deve favorecer o réu.

Em outras palavras, ninguém pode ser condenado senão mediante provas materiais consistentes; não pode ser por indícios e ilações. Se persistir a dúvida, o réu é beneficiado para evitar condenações injustas. A Justiça como instituição, desde tempos imemoriais, foi estatuída exatamente para evitar que o justiciamento fosse feito pelas próprias mãos e inocentes fossem injustamente condenados mas sempre no respeito a estes dois princípios fundantes.

Parece não ter prevalecido, em alguns Ministros de nossa Corte Suprema esta norma básica do Direito Universal. Não sou eu quem o diz mas notáveis juristas de várias procedências. Valho-me de dois de notório saber e pela alta respeitabilidade que granjearam entre seus pares. Deixo de citar as críticas do notável jurista Tarso Genro por ser do PT e Governador do Rio Grande do Sul.

O primeiro é Ives Gandra Martins, 88 anos, jurista, autor de dezenas de livros, Professor da Mackenzie, do Estado Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra. Politicamente se situa no pólo oposto ao PT sem sacrificar em nada seu espírito de isenção. No da 22 de setembro de 2012 na FSP numa entrevista à Mônica Bérgamo disse claramente com referência à condenação de José Dirceu por formação de quadrilha: todo o processo lido por mim não contem nenhuma prova. A condenação se fez por indícios e deduções com a utilização de uma categoria jurídica questionável, utilizada no tempo do nazismo, a “teoria do domínio do fato.” José Dirceu, pela função que exercia “deveria saber”. Dispensando as provas materiais e negando o princípio da presunção de inocência e do “in dubio pro reo”, foi enquadrado na tal teoria. 

Claus Roxin, jurista alemão que se aprofundou nesta teoria, em entrevista à FSP de 11/11/2012 alertou para o erro de o STF te-la aplicado sem amparo em provas. De forma displicente, a Ministra Rosa Weber disse em seu voto:” Não tenho prova cabal contra Dirceu – mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite”. Qual literatura jurídica? A dos nazistas ou do notável jurista do nazismo Carl Schmitt? Pode uma juíza do Supremo Tribunal Federal se permitir tal leviandade ético-jurídica?

Gandra é contundente: “Se eu tiver a prova material do crime, não preciso da teoria do domínio do fato para condenar”. Essa prova foi desprezada. Os juízes ficaram nos indícios e nas deduções. Adverte para a “monumental insegurança jurídica” que pode a partir de agora vigorar. Se algum subalterno de um diretor cometer um crime qualquer e acusar o diretor, a este se aplica a “teoria do domínio do fato” porque “deveria saber”. Basta esta acusação para condená-lo.

Outro notável é o jurista Antônio Bandeira de Mello, 77, professor da PUC-SP na mesma FSP do dia 22/11/2013. Assevera:”Esse julgamento foi viciado do começo ao fim. As condenações foram políticas. Foram feitas porque a mídia determinou. Na verdade, o Supremo funcionou como a longa manus da mídia. Foi um ponto fora da curva”.
Escandalosa e autocrática, sem consultar seus pares, foi a determinação do Ministro Joaquim Barbosa. Em princípio, os condenados deveriam cumprir a pena o mais próximo possível das residências deles. “Se eu fosse do PT” – diz Bandeira de Mello – “ou da família pediria que o presidente do Supremo fosse processado. Ele parece mais partidário do que um homem isento”.

Escolheu o dia 15 de novembro, feriado nacional, para transportar para Brasília, de forma aparatosa num avião militar, os presos, acorrentados e proibidos de se comunicar. José Genuino, doente e desaconselhado de voar, podia correr risco de vida.
Colocou a todos em prisão fechada mesmo aqueles que estariam em prisão semi-aberta. Ilegalmente prendeu-os antes de concluir o processo com a análise dos “embargos infringentes”.

O animus condemnandi (a vontade de condenar) e de atingir letalmente o PT é inegável nas atitudes açodadas e irritadiças do Ministro Barbosa. E nós tivemos ainda que defendê-lo contra tantos preconceitos que de muitas partes ouvimos pelo fato de sua ascendência afro-brasileira. Contra isso afirmo sempre: “somos todos africanos” porque foi lá que irrompemos como espécie humana. Mas não endossamos as arbitrariedades deste Ministro culto mas raivoso. Com o Ministro Barbosa a Justiça ficou sem as vendas porque não foi imparcial, aboliu a balança porque ele não foi equilibrado. Só usou a espada para punir mesmo contra os princípios do direito. Não honra seu cargo e apequena a mais alta instância jurídica da Nação.
Ele, como diz São Paulo aos Romanos: “aprisionou a verdade na injustiça”(1,18). A frase completa do Apóstolo, considero-a dura demais para ser aplicada ao Ministro.

Fonte: http://www.brasil247.com/pt/247/brasilia247/122609/Leonardo-Boff-Barbosa-n%C3%A3o-honra-o-STF.htm

terça-feira, 4 de março de 2014

O Brasil, os EUA e o “Hemisfério Ocidental” (2)

 
JOSÉ LUÍS FIORI

Pensamento dominante em Washington enxerga hoje, em quase todos os governos sul-americanos, uma ameaça a ser contida e derrotada

Washington deve sufocar militarmente ações comuns da América do Sul, propôs teórico geopolítico norte-americano mais influente dos no século XX. Em que medida proposição prevalece?
—
Em grandes linhas, foi a visão estratégica de Nicholas Spykman1, formulada na década de 1940, que orientou a política externa dos EUA para a América do Sul — democrata e republicana — durante toda a segunda metade do século XX. Nesse período, só Henry Kissinger teve — dentro dos EUA — uma visão geopolítica do mundo tão ampla e inovadora, mas apesar disso, ele não mudou uma vírgula, com relação à visão hemisférica de Spykman. Com a diferença, que Kissinger foi também um executivo, e ocupou cargos de importância crescente, dentro das administrações republicanas, a partir do primeiro governo de Dwight Eisenhower, em 1953, até o final das administrações de Richard Nixon e Gerald Ford, de quem foi Conselheiro de Segurança, e Secretario de Estado, respectivamente. Nesse tempo, participou de conjunturas e decisões internacionais que o transformaram numa das figuras mais importantes da política externa norte-americana, da segunda metade do século XX. Sobretudo durante as administrações de Nixon e Ford, quando deu uma contribuição decisiva para a formulação da nova estratégia dos EUA, de resposta à crise econômica mundial dos anos 70, e à derrota americana no Vietnã, em 1973.
Ele participou diretamente das negociações de paz no Vietnã, que levaram à assinatura dos Acordos de Paris, em 1973; e das negociações secretas com Chou en Lai e Mão Tse Tung, em 1971 e 1972, que levaram à reaproximação dos Estados Unidos com a China, e a reconfiguração completa da geopolítica mundial, antes e depois do fim da Guerra Fria. Mas ao mesmo tempo, Kissinger tomou várias decisões “sangrentas”, que também foram cruciais, como foi o caso da ordem de bombardeio aéreo do Camboja e do Laos, sem a autorização do Congresso Americano, em 1969; do apoio à guerra do Paquistão com a Índia, no território atual de Bangladesh, em 1971; do apoio e financiamento ilegal da invasão do Chipre, pela Turquia, em 1974; do apoio à invasão sul-africana de Angola, em 1975; e finalmente, também em 1975, do apoio à invasão do Timor Leste, pela Indonésia, que se transformou numa ocupação de 24 anos, e custou 200 mil vidas.
Sobre a América do Sul, entretanto, Henry Kissinger inovou muito pouco, com relação à visão de Spykman, sobre o potencial de ameaça para os EUA, dos países do Cone Sul. Já haviam passado três décadas da publicação da sua obra clássica, “America´s Strategy in World Politics”, em 1942, mas Kissinger seguia considerando inaceitável o surgimento de um poder hemisférico alternativo nessa região, e ainda mais, se fosse da parte de um governo de esquerda, ou comunista. Razão pela qual, apoiou e sustentou os violentos golpes militares2 que derrubaram os governos eleitos da Bolívia, em 1971, do Uruguai e do Chile, em 1973, e da Argentina, em 1976. E existem evidencias inapeláveis de que também teve injunção na Operação Condor3, que integrou os serviços de inteligência das Forças Armadas da Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, para seqüestrar, torturar e assassinar personalidades políticas de oposição, nesses países.
Nas décadas de 80 e 90, Henry Kissinger afastou-se da diplomacia direta, mas manteve uma influencia pessoal e intelectual muito grande dentro do establishmentamericano, e entre as elites conservadoras sul-americanas. Em 2001 — uma década depois do fim da Guerra Fria e da “ameaça comunista” — Kissinger publicou um livro4que marcou época, discutindo o futuro geopolítico do mundo, e sintetizando os novos consensos da politica externa dos EUA, para o século XXI. Chama atenção, de novo, nesse livro, sua posição com relação à América do Sul: para Kissinger, o continente sul-americano segue sendo — no novo século — uma “zona de influencia” onde os EUA não podem admitir nenhum tipo de contestação à sua supremacia estratégica e econômica. Da mesma forma que no século anterior, só que agora, a grande ameaça à supremacia americana já não vem do comunismo, vem do “populismo autoritário”, e do “nacionalismo” dos governos que rejeitam as propostas norte-americanas de integração econômica, do tipo ALCA, na década de 90, e do tipo Aliança do Pacífico, nos anos mais recentes. Ou seja, desse ponto de vista dominante nos EUA, nesse momento, todos os governos da América do Sul representariam uma ameaça aos interesses norte-americanos, que deve ser contida e derrotada, com exceção da Colômbia, do Peru, e do Chile.
–
1 J.L.Fiori, “Brasil, EUA e o Hemisfério Ocidental ” (1), Valor Econômico, 29/01/2014
2Na França, Henry Kissinger foi chamado a depor, pelo juiz Roger Lê Loire, no processo sobre a morte de cidadão franceses na Operação Condor, e sob a ditadura militar chilena. O mesmo ocorrendo na Espanha, com a investigação do juiz Juan Guzman, sobre a morte do jornalista americano Charles Horman, sob a ditadura chilena. E também na Argentina, onde Kissinger foi investigado pelo juiz Rodolfo Canicoba, por envolvimento na Operação Condor, assim como em Washington , onde existe um processo na corte federal com acusação, contra Kissinger, de haver dado a ordem para o assassinato do Gal Schneider, Comandante em Chefa das Forças Armadas Chilenas, em 1970.
3Vide Chistopher Hitchens, The Trial of Henry Kissinger(2003); e também a resenha de Kenneth Maxwelll, do livro de Peter Kornbluh, The Pinochet file: a Desclassified Dossier on Atrocity and Accountability, publicado na Revista Foreign Affairs, de Dezembro de 2003, sobre as relações de Kissinger com o regime de Augusto Pinochet, em particular com o assassinato do diplomata chileno Orlando Letelier, em Washington, 1976.
4H. Kissinger, 2001, Does America Need a Foreign Policy, Simon&Schuster, New York
José Luís Fiori  é professor titular de Economia Política Internacional da UFRJ, é Coordenador do Grupo de Pesquisa do CNPQ/UFRJ, “O poder Global e a Geopolítica do Capitalismo”,www.poderglobal.net. O último livro publicado pelo autor, O Poder Global, editora Boitempo, pode ser encontrado em nossa loja virtual. O acervo de seus textos publicados no Outras Palavras,  podem ser lidos aqui. 
Nossa fonte: Outras Palavras



segunda-feira, 3 de março de 2014

Por que a Rússia é um importante contraponto ao poder unilateral dos Estados Unidos

Paulo Nogueira



Putin quer que a Rússia volte a ser grande

Na época de reunificação da Alemanha, fato contra o qual se bateu, Margaret Thatcher deixou escapar um desabafo numa reunião de líderes mundiais: “Lá vêm os alemães.”
Pois é.
Lá vêm os russos, como o caso da Crimeia mostra claramente.
Uns gostam dos russos, outros detestam, alguns ignoram, mas o que é claro que o mundo precisa de um anteparo ao poder unilateral dos Estados Unidos.
É uma necessidade, um imperativo geopolítico.
O que se viu depois da desintegração da União Soviética foi uma única superpotência abusar da paciência do mundo.
A Guerra do Iraque – feita com premissas mentirosas e não questionadas – é o maior exemplo disso, e está longe de ser o único.
Na Era da Informação, ficou difícil para os americanos sustentar a pose de campeões da liberdade. Não existe um único caso de um país que você possa dizer que melhorou depois de uma intervenção militar americana.
No mundo menos imperfeito, você não precisaria de contraponto aos Estados Unidos, mas este mundo em que vivemos é absurdamente imperfeito.
É admissível que o horror do Iraque não tivesse ocorrido com uma Rússia forte freando a agressividade destruidora dos Estados Unidos.
Putin, aparentemente, entende que a obra de sua vida é devolver grandeza global à Rússia. Haverá nisso mais ganho que perda, embora a Rússia não seja a Madre Teresa de Calcutá.
A Rússia tem a única coisa que os Estados Unidos verdadeiramente respeitam nas relações internacionais: bombas. Muitas bombas. São armas capazes de destruir várias vezes os Estados Unidos.
O outro possível contraponto ao poder americano, a China, tem uma economia fabulosa, mas sem armas acaba tendo escasso poder intimidatório para Washington.
Devemos ler com algum cuidado o noticiário nacional e internacional sobre a Rússia e Putin, pois a tendência é demonizar ambos.
Mas uma coisa é certa: com todos os defeitos da Rússia, é melhor um mundo com ela do que um mundo sem ela – ao menos enquanto os Estados Unidos estiverem tão dispostos a fazer uso de seus armamentos.


O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo (Nossa fonte)


AP 470: A mídia constrangida com o monstro que criou


Após a derrota, em Plenário, para a maioria do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Joaquim Barbosa, relator da Ação Penal (AP) 470 – cujo julgamento ficou conhecido como ‘mensalão’ nos jornais conservadores, e já apelidado de ‘mentirão’ por jornalistas independentes – encontra-se em uma posição de dificuldades junto à mesma mídia que o consagrou. Segundo a Corte, além de não haver quadrilha alguma, a sentença sobre os réus foi majorada para que as penas não fossem prescritas e garantissem o regime fechado.

A mesma mídia que defendeu Barbosa, mais uma vez, partirá para o ataque. “Qualquer sugestão de que haverá revisão criminal será tratada como “pizza” e haverá tentativa de insuflar a sociedade contra o STF. O que foi, aliás, o que fizeram durante todo o julgamento: tentaram emparedar o STF com a ameaça da “opinião pública”. A lógica do “linchamento”, da importância do “símbolo”, foi usada sem nenhum pudor pela mídia para chantagear os ministros do STF. Entretanto, a estratégia vai ficar mais difícil. A catarse inicial foi feita: os condenados foram presos. A grande novidade agora é: e se prenderam inocentes, e se o julgamento foi equivocado?”, questionou o jornalista Miguel do Rosário, em seu blog.

Leia, a seguir, a íntegra do artigo:
A mídia agora está tropeçando no próprio pé, porque o seu interesse exagerado, histérico, na condenação, não deixará de ser associado à vergonhosa truculência de Joaquim Barbosa. E não só truculência: a mídia está associada à decisão arbitrária de Joaquim Barbosa de atropelar a tradição legal e transformar o STF no instrumento de vingança política contra alguns réus.

Ele é a prova de crime contra a Constituição Brasileira, contra o direito moderno, contra o humanismo que marca o direito penal desde o advento de Cesare Beccaria. Joaquim Barbosa confessa, despudoramente, que aumentou a pena do crime de quadrilha para que Dirceu permanecesse em regime fechado, e não semi-aberto. Um juiz não pode aumentar a pena para “compensar” a demora de um tribunal em julgar uma causa. Se eu for preso por assalto, e meu julgamento ocorrer daqui a 10 anos, o tribunal não poderá aumentar minha pena de 10 para 15 anos, apenas para evitar a prescrição. Isso não existe. Até porque o réu também é vítima do atraso no julgamento.

O tempo de espera angustia muito mais o réu do que o juiz. O juiz continua sua vida, comprando apartamentos em Miami e passando férias na Europa, enquanto o réu aguarda, ansioso, pelo julgamento que irá determinar seu destino. Por isso Beccaria, pensador central do direito penal moderno, observa que os julgamentos tem de ser rápidos, eficazes e brandos.

Nossa fonte: Correio do Brasil, onde poderá ver o vídeo

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Venezuela e Ucrânia: em cada ponta da pinça

Por Jeferson Miola - de Porto Alegre



A Venezuela e a Ucrânia são duas dimensões da mesma política externa dos EUA. Cada um ocupa uma das pontas da pinça da política imperial no atual período

Nunca antes foi tão escrachada a simbiose entre os EUA, os monopólios mundiais de comunicação e as potências europeias aliadas dos EUA. Igualmente, desde muito, os EUA não expunham o mundo à possibilidade de conflitos simultaneamente em duas regiões do planeta.

Os acontecimentos na Venezuela e na Ucrânia nos últimos meses confirmam essa perigosa realidade.

Barack Obama conseguiu o que seu antecessor não havia conseguido na farsa no Iraque em 2003 – George Bush, o “senhor das guerras”, sofreu a oposição da França e da Alemanha naquela ocupação criminosa e não autorizada pela ONU. Já o “senhor dos drones”, dessa vez, vem assegurando ampla solidariedade dos seus vassalos europeus – contando, inclusive, com a subserviência canina do “socialista” Hollande.

As capitais Caracas e Kiev estão quase 10 mil quilômetros distantes entre si. Quando, porém, o assunto são os interesses geopolíticos, econômicos e estratégicos dos EUA, a distância geográfica some e a Venezuela e a Ucrânia se parecem como gêmeos siameses – dois alvos grudados um ao outro, padecendo da mesma sorte de intervenções promovidas e/ou apoiadas pelos EUA.

Na Ucrânia, há meses os EUA apoiam, financiam e instrumentalizam muitas faunas de agrupamentos de extrema-direita: neonazistas, fascistas, antissemitas.

Derrubam o governo, afastam a Ucrânia da Rússia para aproximá-la da União Europeia e operam os interesses estratégicos e econômicos do capital norte-americano em sintonia com oligarcas locais.

Por mais crítica que seja a opinião a respeito da complexa realidade da Ucrânia, é impossível não caracterizar o ocorrido como golpe promovido pelos EUA e União Europeia em território estrangeiro.

O mundo pode estar, assim, diante de graves tensões: depois do revés imposto pela Rússia à pretensão dos EUA de guerra na Síria, a resposta estadunidense na fronteira russa é uma afronta que poderá desencadear dinâmicas preocupantes.

Na Venezuela bolivariana, a presença conspirativa dos EUA tem antecedentes históricos. É uma questão de Estado e prioridade destacada do Departamento de Estado e do Pentágono. Desde a primeira eleição de Hugo Chávez, em 1998, os EUA buscam desestabilizar o país promovendo golpes de Estado, conspirações, traições, infiltrações, sabotagem, atentados, assassinatos de civis, etc.

Com a morte de Chávez, em março de 2013, a direita venezuelana partiu para o tudo ou nada na eleição presidencial, mas foi derrotada por Nicolás Maduro.

Seguindo a estratégia de desestabilização permanente do governo, Henrique Capriles não aceitou o resultado; a despeito do testemunho de centenas de personalidades e instituições observadoras internacionais – dentre as quais o Centro Jimmy Carter – que comprovaram a lisura e a vitalidade do processo eleitoral e da democracia venezuelana.

Aproveitando as fragilidades da economia, oligopólios passaram a promover a guerra econômica e o desabastecimento de produtos de primeira necessidade. Apostaram no caos social, no desgaste do governo, na divisão do chavismo e das Forças Armadas e na vitória nas eleições municipais de dezembro passado.

Novamente fracassaram. Então, se alçaram como kamikases à atual vaga conspirativa. Dessa vez, sob a liderança ultradireitista de Leopoldo López, um golpista conhecido pelo protagonismo no fracassado golpe de abril de 2002. As técnicas terroristas empregadas são por demais conhecidas: de assassinatos à quebradeira.

É incrível como a mídia monopólica, controlada desde Washington, falsifica os fatos e produz uma narrativa esquizofrênica da realidade. Os meios de comunicação de cada país, por sua vez, replicam teologicamente as mesmas falácias e mantras, como se fossem verdades inquestionáveis e definitivas.

A Venezuela e a Ucrânia são duas dimensões da mesma política externa dos EUA. Cada um ocupa uma das pontas da “pinça” da política imperial no atual período. Essa interconexão pode mudar a qualidade da política intervencionista dos EUA na Venezuela e no conjunto do hemisfério americano.

Essa conjuntura não permite ingenuidade. O mundo não tem garantias contra as loucuras que o “senhor dos drones” poderá promover contra a Venezuela, agora encorajado pela retribuição de solidariedade dos seus vassalos europeus, agradecidos pela “ajuda” na Ucrânia.

Nunca antes nesse século as expressões imperialismo, totalitarismo midiático, autoritarismo político e fascismo estiveram ameaçadoramente presentes no nosso vocabulário como hoje.

Jeferson Miola é integrante do Instituto de Debates, Estudos e Alternativas de Porto Alegre (Idea), foi coordenador-executivo do 5º Fórum Social Mundial.

Nossa fonte: Correio do Brasil

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A discreta subversão da Literatura Periférica







Menos conhecidos que “saraus”, encontros de escritores como Ferréz com jovens são frequentes. Por meio da leitura, revelam: outras realidades são possíveis

Por Julio Souto Salom*, no Sul21 | Imagem: João Pinheiro

Quando, faz uma década, um novo movimento literário começou a se articular nas periferias do país, muitas reações foram de suspicácia. A grande circulação destes autores e obras, passando de pequenas editoras e revistas, a frequentar prêmios e eventos literários, boa parte da crítica não deu muita relevância ao movimento, acreditando que se trataria de uma moda passageira. Se argumentou que o seu sucesso se devia a uma estratégia do mercado editorial, que ante o interesse “voyeurístico” do leitor de classe média pela violência nas periferias, propunha o artifício da “autenticidade”: quem “vive” no tema tem o conhecimento direto, pelo que nada melhor que o “olhar interno” do “autor nativo”, a favela narrada “desde dentro”. Se só se reconhece o valor desta literatura pela sua pretensa “autenticidade”, se corre o risco de ignorar a grande qualidade literária de muitas destas obras, ademais de outros efeitos socioculturais paralelos que não são nada irrelevantes. Um deles, talvez dos mais interessantes, é a capacidade destes autores para conectar com crianças e adolescentes da periferia, despertando curiosidade e interesse pela literatura, gerando hábitos de leitura em ambientes nos que esta normalmente estava ausente.

A antropóloga Érica Peçanha do Nascimento, referência no estudo da Literatura Marginal Periférica, comenta a capacidade destes escritores auto-definidos “marginais” para a conexão com um público específico: “Pra um menino que ta lá na periferia e que tem um igual que também escreve, que virou notícia na televisão porque escreve, é extremamente significativo. Eu participei de pouco mais de 200 atividades nesses oito anos que fiquei pesquisando, e tive a oportunidade de acompanhar também esses escritores em escolas, também em ONGs; é impressionante o efeito pedagógico junto aos meninos de favela e periferias”. Ainda que sejam incipientes os estudos específicos sobre o potencial pedagógico desta corrente literária, a sua efetividade pode ser conferida observando essas atividades, como tivemos a oportunidade de ver na recente participação do escritor Ferréz na Feira do Livro de Porto Alegre (14/11/2013).

Dentre os muitos nomes e títulos que circulam por livros, antologias e saraus, Ferréz pode ser considerado um dos principais articuladores da Literatura Marginal Periférica. Convidado para participar no tradicional evento editorial de Porto Alegre, Ferréz não se limitou a cobrar o cachê e dar a palestra combinada. O escritor chegou um dia antes à cidade para visitar a escola “Nossa Senhora de Fátima”, no bairro do Bom Jesus. Estas palestras em escolas das periferias fazem parte da rotina de Ferréz faz alguns anos, como ele explica: “Tento mostrar que a literatura não tem por quê ser uma coisa chata, que a literatura pode fazer rir, pode dar tesão, pode gerar um sentimento de revolta… Meu objetivo é criar milhões de leitores, ganhar os moleques para a literatura”. Mas há também um esforço de provocar uma consciência crítica e indignação política que reforce a auto-estima das crianças: “Eu tento fazer eles observar e compreender. Quando estou nas vilas, mando eles olhar pelas janelas, e pergunto: por quê temos que morar entre o lixo, no córrego? Aí pensamos juntos: a gente mora no córrego, mas não é o córrego”. Consciente da eficácia deste trabalho de educação emocional e literária, o escritor não duvida em continuar com ele, ainda sem o apoio de nenhuma instituição: “Não tem edital para isso, não tem verba pública, não tem fundação. Eu faço isso porque eu amo isso”.

Os professores e professoras que já trabalharam estes autores na sala de aula sabem da empatia que gera nos seus alunos. Exemplo disso é o presente que Ferréz ganhou nesse dia, que nos mostrou orgulhoso e emocionado: um caderno artesanal que os alunos da escola do Bom Jesus tinham elaborado, com fragmentos do texto e desenhos das ilustrações dos contos infanto-juvenis de Ferréz, como Amanhecer Esmeralda (Planeta, 2005). Esse belo livro traz uma história de esperança e otimismo para uma menina que vive na periferia de uma grande cidade, que a partir de um pequeno presente do professor, e uma importante conversa com a merendeira da escola, vive uma experiência de afirmação e elevação da autoestima. Com sua pequena mudança na forma de ver as coisas, a menina vai criando no seu bairro “um efeito dominó, só que ao contrário – uma peça levanta outra, que levanta outra…”.

Este tipo de atividades e obras que levam histórias de superação e vitória ao público infantil, não são uma exclusiva de Ferréz, senão que estão cada vez mais presentes na produção dos autores periféricos. Por exemplo: a infinidade de visitas a escolas do poeta Sérgio Vaz (organizador do sarau da Cooperifa), com um roteiro semelhante ao descrito; o livro Zagaia, de Allan da Rosa (DCL, 2007), que traz fantásticas imagens com o esquema poético da literatura de cordel; Os Zumbis da Pedra, do repórter Manoel Soares (Besouro Box, 2009), que alerta as crianças sobre os riscos da droga; Dia das Crianças na Periferia, de Alessandro Buzo (Suburbano, 2011), onde a mensagem se reforça com as ilustrações de Alexandre de Maio. Através destas “portas de entrada”, os jovens leitores podem seguir aos autores em outras obras deles, e mais além, acompanhá-los para descobrir o imenso mundo da literatura.

O leitor de Amanhecer Esmeralda, procurando mais obras do autor, poderia descobrir Capão Pecado, um romance situado no bairro de Capão Redondo, extremo sul de São Paulo, onde o escritor mora até hoje. Nesse cenário periférico se desenvolvem também outros trabalhos do autor, como o romance Manual Prático do Ódioou o volume de contos e crônicas Ningúem é inocente em São Paulo. Em todas essas obras a violência urbana é enfocada da ótica do oprimido, tentando contestar a truculência da narrativa oficial. É possível que seja a ênfase nessa perspectiva, que se faz extensiva ao tratamento do texto (com abundância de gírias, ou usos anômalos de regência e concordância), pelo que as obras de Ferréz foram objeto de fortes polêmicas sobre sua utilização na escola. Mal compreendidos, estes textos provocam reações defensivas. Foi o caso da Federação de Pais de Minas Gerais, que pediu a proibição de Capão Pecado nas escolas pela presença de “palavrões” no texto. O presidente da Fapaemg, entendeu que esse livro sugere às crianças “que podem xingar o professor, porque os palavrões estão no livro que a escola dá”. A hipocrisia da polêmica irritou a Ferréz, que na época reclamava no seu blog: “O debate devia girar em torno da desigualdade social que o livro aborda, mas em vez disso se discute a linguagem.”

Mas além dos seus romances, o trabalho de Ferréz levaria ao leitor a conhecer outros autores, como os elencados nas coletâneas Literatura Marginal, números especiais da revista Caros Amigos (posteriormente publicados em livro, pela editorial Agir, 2006). Nesses três especiais apareceram escritores periféricos de todo o país, sendo essa a primeira publicação de tiragem nacional para muitos deles. Ferréz fala com verdadeira admiração de autores estreantes que foram publicados nessas coletâneas: Rodrigo Ciríaco, Cidinha da Silva, Allan da Rosa, Marcos Teles… Esta vontade de articular um movimento literário coletivo, com identidade própria, é uma das principais motivações do escritor, que para isso fundou a sua própria editora (Selo Povo – LiteraturaMarginal) publicando autores periféricos em livrinhos de bolso, ao módico preço de 7 reais. Na conversa, nos revelou que a editora de Capão Redondo está preparando uma mudança de imagem e novos lançamentos, dentre os que nos antecipa a publicação de um volume de crônicas do clássico Lima Barreto, além de novas apostas em jovens periféricos ainda inéditos, já que, como ele diz: “Se eu não aposto neles, quem o vai fazer?”.

Tudo isto faz que Ferréz tenha um caráter diferenciado no circuito literário convencional. “Me dou bem com alguns escritores, como Lourenço Muttarelli, que vai ilustrar meu próximo livro, Marcelino Freire, ou Marçal Aquino. Mas não tenho muitos amigos entre os escritores mais conhecidos. Normalmente não nos vemos, porque eu moro na favela e eles não vem muito por ai. Mas coincidimos nas viagens, como agora em [a Feira do Livro de] Frankfurt”. Ainda assim, a capacidade narrativa de Ferréz vem ganhando reconhecimento nos últimos anos. Seu último romance, Deus Foi Almoçar (Planeta, 2013), semi-finalista do prêmio Protugal Telecom, evita a localização específica num cenário periférico para armar uma profunda trama metafísica. Talvez seja o romance onde fique mais patente a influência do escritor alemão Herman Hesse, uma importante referência para Ferréz.

Com a desconstrução dos desejos e frustrações do indivíduo contemporâneo, o autor tenta relacionar as problemáticas que experienciou como cidadão (e se aproximam ao retratado em seus anteriores romances) com questões filosóficas mais amplas, da ordem da civilização e a modernidade, questionando nossa forma de “ser no mundo”. O autor se mostra satisfeito com o trabalho: “É o livro que sempre quis fazer, mas só agora me senti maturo e livre o suficiente para realizá-lo. Demorei oito anos para escrever esse livro, e não mudaria nem uma vírgula”. Sobre a mudança de ambientação do livro, reclama que esse aspecto tenha focado quase toda a atenção mediática: “Me perguntam muito sobre isto, por que parei de escrever da periferia? É claro, é um tema que domino, porque eu moro no tema, eu sou o tema. Mas eu não me limito a um tema só, à minha experiência. Afinal escrever literatura também é isso, né?”.

Nessa linha argumentativa corre a sua palestra na Feira do Livro de Porto Alegre, onde Ferréz relata sua trajetória biográfica e literária como uma história de esforço e superação, sempre baseada na confiança no seu próprio potencial, apesar das múltiplas vozes que tentaram desanimá-lo. Assim, ele reafirma a importância da imaginação e do sonho na vida das pessoas: “Quantos meninos aqui pretendem fazer Faculdade? Ih! só isso? Vamos sonhar! A gente tem que sonhar o nosso melhor, porque tem muita gente apostando no nosso pior, também. Porque é muito bom estar aqui participando neste evento, mas se não sonhamos, vamos a estar toda a vida montando o stand, e não falando nele”.

A grande capacidade de empatia do escritor com as crianças, jovens e adolescentes das periferias, acontece de maneira natural, pela forma dinâmica e descontraída de conversar. Ante uma platéia de crianças e adolescentes, Ferréz não duvida em parodiar o estereótipo do “escritor chato”. Em tom bem-humorado, ele critica: “Sabem porque vocês acham que a literatura é chata? Por que os escritores não falam com vocês! Eles não entendem vocês! É sério, eles preferem quatro velhos a todos vocês. Mas literatura não é isso, literatura é muito mais”. A admiração do auditório cresce quando Ferréz comenta as colaborações que, como escritor, realizou em outros formatos, seja escrevendo letras de rap (para grupos como Racionais, Facção Central,Outraversão…), roteiro de histórias em quadrinhos (Desterro, prémio HQMix ao melhor rotéiro original), ou roteiros de cinema ou tevê (episódios de séries como Cidade dos Homens ou 9mm).

Ao falar de rap, os jovens se animam a dirigir-se ao escritor, e o desafiam: “Tio, canta um rap!”. E assim, a palestra termina com um free-style sobre base coletiva, feita entre todos com palmas e chutes no chão. O jovem que lançou o desafio e rimou com o palestrante, ganhou dois prêmios: um vídeo gravado em celular, que já deve estar rolando pelo Facebook gerando a inveja e admiração de seus colegas, e um exemplar de Cronista deum tempo ruim, o livro de crônicas de Ferréz lançado pela editora Selo Povo. É assim, entre rimas versadas e páginas encadernadas, escritores como Ferréz vão criando leitores pelas periferias do Brasil.

*Julio Souto Salom é mestrando em Sociologia (UFRGS) e membro da equipe editorial da “Maria Papelão Editora”.
Nossa fonte: Outras Palavras

domingo, 19 de janeiro de 2014

Alimentos geneticamente modificados: atendem as necessidades humanas ou a ganância das corporações?

Ghiselle Karim



Pela primeira vez, os seres humanos podem tecnicamente criar espécies ou organismos através da transferência de DNA entre organismos totalmente distintos, potencialmente adaptando-os a climas mais agrestes, por exemplo, ou por meio de culturas já existentes com o propósito de obter maiores volumes de produtos. No entanto, os GMOs são abusivamente produzidos em larga escala pelas grandes corporações, tais como a Monsanto, a fim de maximizarem os lucros de seus acionistas em prejuizo das pessoas comuns de todo o mundo, e têm reduzido a segurança e a provisão de alimentos para bilhões de seres humanos. Qual é a perspectiva de classe em face dos problemas gerados pelos GMOs relacionados com a segurança alimentar?

Consoante a gigantesca Monsanto, muntinacional ligada à agricultura, os alimentos geneticamente criados destinam-se a solucionar problemas relacionados coim a insegurança alimentar, matando a fome da crescente população mundial. Mas, se examinarmos os produtos gerados por empresas como a Monsanto, verificaremos que esta alegação é evidentemente falsa. Companhias semelhantes à Monsanto, não chegaram, nem mesmo perto de resolver a questão da fome e da falta de alimentos. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) calcula que 870 milhões de pessoas em todo mundo (ou, noutras palavras, uma pessoa entre cada oito) sofria de desnutrição crônica entre 2010 e 2012. De fato, a fome mata mais indivíduos todos anos do que a AIDS, a malária e a tuberculose em conjunto.

A despeito das afirmações dos indústriais ligadas à biotecnologia, nenhuma de suas características evidenciadas até o momento proporciona maiores colheitas, tolerância a secas ou outro qualquer benefício. Além disso, a tecnologia dos GMOs não busca solucionar as maiores causas da fome das populações, todas elas consequência do sistema capitalista: pobreza, falta de acesso aos alimentos e a terras cultiváveis onde os lavradores moram.

É uma triste ironia que a tecnologia das GMOs esteja efetivamente aumentando a insegurança alimentar. Esta afirmação fundamenta-se no fato de que, sob o capitalismo, as agrocorporações têm margens de lucro como prioridade número um. Exemplos disto é que mais de 80% dos GMOs em todo o mundo são criadas para tolerância a herbicidas, daí resultando o emprego de herbicidas tóxicos tais como o Roundup da Monsanto que aumentou 15 vezes. As sementes GMOs são também responsáveis pelo surgimento das “superervas daninhas” e as “superpragas” que serão destruídas apenas através de veneno ainda mais tóxico, a exemplo do 2,4-D. Não surpreende que as corporações incentivadoras do emprego dos GMOs sejam as mesmas que fabricam produtos químicos indispensáveis às lavouras oriundas dos GMOs. A Monsanto também inseriu genes em suas sementes que resistem aos seus próprios e apregoados herbicidas, encorajando os lavradores a comprarem produtos químicos de sua fabricação para borrifar as plantações, sabendo que permanecerão ativos enquanto outros organismos competem pela eliminação dos minerais do solo. Safras geneticamente criadas também geram super-pragas, pois estes organismos podem adaptar-se a genes estranhos e, eventualmente, adquirir resistência a estes.

A fim de aumentar ainda mais seus lucros em detrimento da gente comum, a Monsanto cria sementes por meio da tecnologia esterilizante “terminator” ou sementes suicidas. São plantas geneticamente modificadas para matar suas próprias sementes. Isto significa que as sementes colhidas de cultivos das “terminator” não germinarão se plantadas na estação seguinte, prática agrícola básica desde seus primórdios. A finalidade desta tecnologia é claramente explorar a indústria de sementes, evitando que os agricultores recusem as provenientes de sua própria produção, assim forçando-os a comprarem sementes geneticamente modificadas Monsanto disponíveis no mercado. Recentemente, na Colômbia, lavradores viram-se forçados a usar sementes geneticamente modificadas, do contrário seriam presos. Noutras palavras, pelos métodos da engenharia genética tipo terminator, ou seja, se os agricultores guardassem suas próprias sementes esterilizadas teriam forçosamente de retornar ao mercado de sementes todos os anos, o que lhes criaria propositadamente um ciclo de dependência.

Porque os GMOs são uma inovação recente, as corporações ligadas à biotecnologia têm obtido patentes restritivas ao uso por outras empresas ou as proíbem de efetuar pesquisas paralelas até mesmo relacionadas a seus efeitos secundários. Daí, os criadores das GMOs disporem agora de autoridade para processar judicialmente agricultores cujas lavouras não sejam fundadas por meio de GMOs ou foram contaminadas por cruzamento, mesmo que tal coisa ocorra casualmente. As GMOs por este motivo criam séria ameaça para a soberania dos agricultores e também para a segurança alimentar dos países onde elas se disseminam. O monopólio tem ameaçado afetar a soberania de agricultores, especialmente nos países em desenvolvimento, e a segurança alimentar onde elas proliferam. Conforme a ativista ambiental Vandana Shiva (*), a cruel realidade imposta pela inovação procedente das GMOs conduz à fome global e à miséria, pois as sementes são controladas e patenteadas pela Monsanto.

Com efeito, nenhuma destas sementes e nenhum destes produtos químicos chegam de graça para os lavradores. As ações das corporações, a exemplo da Monsanto, empurram cada vez mais os agricultores para a miséria e alguns são até mesmo forçados a abandonar suas atividades agrícolas.

Talvez ainda pior seja o fato de a maior parte dos agricultores sentir-se obrigada a adotar essa tecnologia, por testes mantidos sigilosamente pela Monsanto, onde algodão proveniente de sementes geneticamente criadas foi cultivado sem conhecimento dos agricultores e nenhuma medida de biosegurança fosse tomada durante os experimentos. A Monsanto escolheu especificamente a Índia para realização de seus testes, pois não haveria necessidade de subornar autoridades governamentais nem também de manipular pequenos lavradores de subsistência necessitados de sementes baratas.

Mas essas práticas não se limitam exclusivamente ao antigo mundo colonial. Até mesmo no Canadá os agricultores têm de enfrentar pressões injustas e táticas mercantis de companhias assemelhadas à Monsanto, à Dow, à AgroEvo e à Zeneca. Por exemplo, a fim de promoverem o emprego do hormônio de crescimento bovino (rBGH), essas empresas mantém sigilo sobre resultados negativos dos experimentos com o hormônio, recusando-se a revelar suas concessões e doações a clínicas universitárias dos Estados Unidos, e chegaram a ameaçar cientistas canadenses que, por iniciativa própria, têm evitado a aprovação do rBGH naquele país.

Paralelamente à segurança alimentar, também comprovaram-se riscos reais para a saúde associados à indústria das GMOs, principalmente relacionados ao intenso apoio em químicos de que dependem as culturas modificadas, mais uma vez recorrendo-se ao uso de produtos da Monsanto. Como exemplo, o Roundup tem-se relacionado a altos índices de hormônio em seres humanos. Posto que alguns riscos para a saúde possam ser exagerados por causa do uso das GMOs, é igualmente difícil confiar nas afirmações das próprias agro-firmas, levando-se em consideração o incentivo que elas adotam na promoção da tecnologia das GMOs junto a desinformados agricultores e consumidores.

Multinacionais como a Monsanto recorrem a sua influência e poder para conseguir que governantes as acompanhem em sua busca de lucros. Nos Estados Unidos, o presidente Obama logo no início do ano ratificou um projeto de lei que essencialmente autoriza as agro-corporações a persistirem na comercialização das GMOs mesmo que sua segurança mais tarde seja questionada pela US Food Administration (USFDA). Isto demonstra que sob o capitalismo, suas pretensões não encontram obstáculos, mesmo que nossa saúde e nossa segurança estejam em risco.

Não surpreende que tenha surgido uma onda de protestos contra as GMOs mundo afora, na medida em que as pessoas tentam proteger a saúde e sua fonte de subsistência. Na Índia, algodoais provenientes do plantio de sementes geneticamente modificadas foram queimados; em Liverpool, impediu-se o descarregamento de soja transgênica; e em várias partes do mundo, muita gente tem pisoteado plantações formadas para testes de GMOs. Trata-se, portanto, de um movimento radical e firme contra tentativas de manipulação do mercado global de alimentos.

Na qualidade de socialistas, não nos opomos à inovação das GMOs pois essa tecnologia tem incrível potencial para beneficiar a humanidade de muitas formas, se empregadas corretamente. A insulina humana, por exemplo, foi criada por meio de culturas durante décadas, melhorando e até salvando a vida de muita gente que padece do diabetes. No entanto, hoje é evidente que sob o capitalismo, o povo trabalhador em geral não pode controlar o emprego desta tecnologia. Por exemplo, um sistema socialista não ignoraria os efeitos secundários e evidentes de herbicidas tais como o Roundup para a saúde humana. A dúvida que muitas pessoas alimentam quanto à tecnologia das GMOs é natural em face do extremo sigilo adotado pelas agro-corporações; numa sociedade socialista, todas as informações resultantes de testes com as GMOs seriam levados ao amplo conhecimento público. Com todas as informações disponíveis, seriamos capazes de avaliar as vantagens e as desvantagens dos alimentos provenientes das GMOs tomando-se, então, fundamentada decisão sobre o prosseguimento ou não desses processos tecnológicos.

Desta forma, nossa exigência é que se estabeleça um controle público rigoroso e adote-se a nacionalização das grandes agro-corporações, pondo-se toda produção e toda pesquisa relacionadas com as GMOs nas mãos da classe trabalhadora. Exigimos, também, que se suspenda o patenteamento de sementes, pois isto é prejudicial aos agricultores. Impõe-se, ademais, a comprovação científica de que as GMOs não geram efeitos secundários para a saúde humana, conforme proclama a gigantesca Monsanto. Deve tornar-se obrigatória a rotulagem clara de todos os produtos que contenham organismos geneticamente modificados, de maneira que as pessoas saibam o que estão ingerindo. Importa, ademais, que se proclame o direito humano básico de preservar os suprimentos alimentares humanos.

Sob o socialismo, todas as grandes empresas ligadas à produção de alimentos devem estar nas mãos da classe trabalhadora e toda ela será obrigatoriamente planificada para atender as necessidades humanas e não a ganância das corporações. Não há fome devido à escassez de alimentos, mas porque a distribuição destes não é equitativa. O âmago do problema não reside na falta de alimentos, mas no capitalismo.

Trad. Odon Porto de Almeida.

N. do tradutor - Vandana Shiva é física, ecofeminista e ambientalista hindu, 61 anos. Autora de livros relacionados com o ambientalismo, alguns deles publicados no Brasil.

Tradução do artigo Genetically-modified food: For human need or corporate greed, de Ghiselle Karim, divulgado pela website In Defence of Marxism www.marxist.com, em 01/11/2013..
Nossa fonte: Controvérsia

sábado, 18 de janeiro de 2014

A velha imprensa e seus complexos, velhos e novos

A grande mídia brasileira entende que o país não deve ter projetos geopolíticos nem estratégia de projeção.

Por Roberto Amaral*, na Carta Capital

"Esse é o Brasil fazendo um jogo estratégico de longo prazo no Caribe” – Julia E. Sweig, diretora de estudos latino-americanos do Conselho de Relações Exteriores. The New York Times International Weekly.

“O Brasil não pode querer ser maior do que é” – Luiz Felipe Lampreia, ex-ministro das Relações Exteriores, governo FHC.

A liberdade de imprensa – ampla, geral e irrestrita – é um valor da democracia brasileira; conquistada pela dor dos que lutaram contra a ditadura, enquanto empresários do ramo colaboravam com a repressão, publicando textos laudatórios da ditadura, maquiando o noticiário televisivo, denegrindo a resistência, fornecendo viaturas e abrindo seus arquivos fotográficos aos esbirros. Faz parte, hoje, a ampla liberdade de imprensa, do patrimônio moral de nosso povo.

Dito isso, permito-me algumas observações sobre a imprensa brasileira. Brasileira? Aí surge o primeiro problema, de método e de fundo. O que é uma empresa jornalística brasileira? Tentemos decifrar a esfinge deitando o olhar, como convém, para os EUA. Podemos afirmar que o The New York Times é um típico jornalão norte-americano, pois está a serviço dos interesses tanto do capitalismo internacional, o grande norte, quanto dos interesses geopolíticos dos EUA. A divergência, quando se dá, é restrita ao pontual, e não é maior do que a distância entre democratas e republicanos.

Relativamente às políticas do Pentágono ou da CIA, por exemplo, a discrepância estanca na forma ou na avaliação dos métodos, jamais na condenação dos objetivos. Pode haver, e há, conflitos diante da política deste e daquele governo, preservada a defesa dos interesses estratégicos (militares acima de tudo, econômicos e políticos) dos EUA no mundo. Em outras palavras, as políticas de Estado são respeitadas, sem quebra de independência, pois a dependência essencial diz respeito aos interesses do capitalismo, nos EUA e no mundo, no mundo liderado pelos EUA. Mesmo os jornalistas liberais partem do princípio de que aquele pais é singular e deve exercer sua liderança no mundo que ele mesmo moldou a partir da 2ª Guerra.

Se essas premissas forem aceitas, podemos afirmar que a imprensa dos EUA é aquela que, mesmo em conflito com a política deste ou daquele governo, está comprometida com os interesses supremos do país, e entre eles sobrelevam os interesses estratégicos e geopolíticos.

Aí começa o imbróglio, pois a grande imprensa brasileira, liderada ideologicamente pela revistona paulista, entende que o Brasil não deve ter projetos geopolíticos nem estratégia de projeção de longo prazo de nossos interesses para além de nós mesmos. Nisso, lamentavelmente, ela não está só. Ao contrário, pode ostentar a companhia ilustre de um ex-presidente da República (e ex-ministro das Relações Exteriores), para quem o grande erro de nossa política externa é exatamente a busca de independência, formulação e pleito que vem de Hélio Jaguaribe, Afonso Arinos e San Thiago Dantas, para ficarmos adstritos aos pensadores mais destacados da segunda metade do século passado. A questão crucial não é a independência em si, mas, exatamente, uma independência em face dos EUA. Eis o que incomoda. Assim, a República repete o Império, quando essa questão se colocava diante da potência inglesa. A independência possível, mínima, não se podia colocar contra os interesses de Sua Majestade britânica. O colonizado permanece colonizado, indiferente às alterações do processo histórico. Trocam-se os senhores, mas a dependência ideológica da classe dominante é irremovível. Subdesenvolvimento não se improvisa.

Essa visão dependentista vai para além do ‘complexo de vira-lata’, firmada e cevada que é sobre interesses objetivos, materiais, concretos, redutíveis monetariamente.

Enquanto os EUA reativam sua 4ª Frota, com a óbvia missão de policiar o Atlântico Sul, onde estamos, dada sua importância econômica e geopolítica, e militar, o ex-primeiro mandatário diz que o Brasil deve ‘abrir-se ao Pacífico’, onde não temos interesses nem geopolíticos, nem estratégicos. Interesses esses, porém, que estão no Atlântico Sul, que nos põe face a face com 23 países da África ocidental. Nesse continente são notórias nossas condições privilegiadas de atuação política e a relevância de nossos interesses econômicos, pois para seus países temos o que exportar, para além de suco de laranja e soja. Um só dado para as considerações do ex-presidente: o potencial energético (petróleo) do Golfo da Guiné (100 bilhões de barris), da Nigéria, de Angola, do Congo, do Gabão, de São Tomé e Príncipe, além das grandes reservas de gás da Namíbia e de carvão na África do Sul. E esse espaço não ficará eternamente aberto. A China, menos hesitante, já está deslocando interesses brasileiros na África, inundando-a de capital (sem exigências de contrapartidas relativas à política interna dos países) e exportando seus serviços.

Recomenda o ex-presidente que estreitemos relações com os EUA. Certamente em retribuição ao fato de nos espionarem, sobretaxarem nossos produtos agrícolas, nos fazerem restrições na OMC, nos negarem assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, serem contra nossos programas espacial e nuclear, negarem acesso a tecnologias de ponta, serem contra o Mercosul e tentarem impor-nos a Alca, a colonização econômica final... Para os EUA (esteja um democrata ou um republicano sentado no trono da White House) deveremos ser a grande reserva alimentar do mundo, eternos fornecedores de commodities (alimentos e minérios não processados) e importadores de produtos manufaturados. Além, claro, de ideologia. Evidentemente é judicioso manter boas relações diplomáticas com os EUA, mas em rigoroso nível de reciprocidade, e disputar o mercado internacional, sem prioridades ou ‘relações carnais’ como pedia um ex-colega de FHC, o grotesco Ménem, ou seja, nossa política deve ser vender e comprar segundo nossas necessidades e a quem oferecer as melhores condições. A propósito, o governo Dilma acaba de dar-nos um bom exemplo, ao optar, na compra dos caças da FAB, pela proposta sueca, a que oferecia menor preço e a única a garantir transferência de tecnologia. Como eles agem, aliás...

Para setores majoritários da grande imprensa brasileira, volto a tratar da influente revistona paulista, essa história de ter projeto geopolítico, estratégia de conquista de espaços e mercados, inserção internacional, estender seus interesses para além de suas fronteiras, é política reservada às grandes potências, aos EUA e quejandos. Intentada pelo Brasil, soa como cretinice aos ouvidos deles.

Assim, dando a entender ao leitor que está descobrindo a pólvora, ou, no jargão jornalístico, dando um ‘furo’, a revistona ‘descobre’ que o Brasil (leia-se BNDES) está financiando, em Cuba, as obras de remodelação do ponto de Mariel, tocadas por uma empreiteira brasileira.

Misturemos, agora, os argumentos do ex-presidente e do pasquim, pois ambos convergem em vários pontos, mas principalmente na negação do dever (mais que um direito) que tem um país como o Brasil – sexta economia do mundo, quarto território do planeta (lembremos, 8.500 mil km2), 200 milhões de habitantes, um litoral de quase 8 mil km de extensão, uma fronteira terrestre com cerca de 17 mil km, limítrofe com dez países, 50% do território e da produção da América do Sul – de procurar ter política externa independente, consciência de seu papel de líder continental e preocupações com sua segurança, e, como consequência de tudo isso, projetar-se no mundo.

Que significa nossa presença em Cuba, de quem já somos o terceiro parceiro comercial, logo após Venezuela e China, senão uma ponte para o Caribe? Ou isso também nos é vedado? Ou não atende aos interesses brasileiros a abertura de mercados? A revistona percebeu o alcance político da ‘operação Cuba’, chamemo-la assim, e só por isso a combate, pois estamos ocupando espaços deixados pela estreiteza da política dos EUA com vistas à ilha, mesquinha política dirigida pelos ‘refugiados’ de Miami. Eis a questão, estamos nos aproveitando do isolamento imposto a Cuba, estamos nos aproveitando de sua política – irreversível— de abertura ao mercado, estamos nos instalando no Caribe, e ainda estamos ajudando um povo pobre a superar o subdesenvolvimento.

O The New Yok Times, porém, entendeu o que pretende o Brasil com essa política de longo prazo.

Sobre o mesmo porto Mariel e sobre a colaboração Brasil-Cuba (que inclui a ‘importação’ de médicos), e na mesma semana do artigo do ex-presidente e da ‘reportagem’ da revistona, o The New Yok Times, edição internacional circulando com a FSP (datada de 6 de janeiro), logo após registrar que o Brasil “contrata médicos cubanos para suprir as necessidades do SUS” (e não para mandar dinheiro para “a ditadura dos irmãos Castro” como diz a revistona), observa o que a miopia nacional não pode enxergar: “(...) o projeto sinaliza uma ambição maior do governo brasileiro que, na verdade, pretende exercer influência em Cuba – onde, lentamente, a abertura do governo vai expondo o país às forças do mercado”.

E vai mais longe: “Baseados nos programas assistenciais para aumentar as safras cubanas, os produtores brasileiros de soja e arroz também já se destacam como principais fornecedores de alimento da ilha – mas o grande projeto do Brasil é a modernização do Porto de Mariel, no valor de US$ 900 milhões, fechado pela construtora Odebrecht”.

Eis a questão: estamos nos preparando para um futuro que não podemos prever. Se o atual regime cubano fortalecer-se mediante o aprofundamento de sua atual política de ‘abertura’, estaremos, amanhã, também fortalecidos, teremos fortalecidos nossas relações e nossos interesses. Se o atual regime estiver em sua fase ‘terminal’, como afirma a revistona, afirmação que apenas revela desejo, lá estaremos quando chegarem os novos tempos. Mas ocorre que nossa presença, atendendo em qualquer hipótese aos nossos interesses, certamente dificultará a presença de quem sempre lutou contra os interesses do povo cubano. Eis a questão.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A fala de Haddad e o silêncio de Dilma

Por Antonio Martins

Desta vez o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad foi preciso e veloz. Diante da atitude da PM paulista, que reprimiu com truculência um rolezinho de jovens periféricos num shopping da cidade, ele relacionou o movimento à segregação social brasileira. Lembrou que faltam, à maior parte da juventude, até mesmo “espaços para usufruir a cidade”. E, ao invés de mobilizar a Guarda Civil Metropolitana contra os que buscam tais espaços, preferiu orientar as secretarias de Cultura e Igualdade Racial a dialogar com eles.

Além de não tratar a questão social como caso de polícia, o gesto de Haddad tem uma segunda vantagem. Ele contrasta com o silêncio do governo federal – em especial do ministério da Justiça – diante de ilegalidades e atos de selvageria e provocação praticados em série pelas polícias estaduais. Como também a omissão federal arrasta-se há meses, tudo indica que é consciente.

Uma retrospectiva permite rastrear sua origem. A partir de outubro do ano passado, o Palácio do Planalto adotou uma sequência de decisões que revela tendência a usar a repressão policial contra mobilizações e protestos – especialmente relacionados à Copa do Mundo. Esta postura é ainda mais chocante porque cessaram os diálogos abertos com movimentos sociais, após as manifestações de junho. E além de antidemocrática, do ponto de vista político, é extremamente temerária no que diz respeito à popularidade da presidente, a suas perspectivas eleitorais e à própria segurança pública. Porque torna o governo Dilma refém de polícias estaduais que já demonstraram, além de desrespeito aos direitos humanos, partidarismo e despreparo, capacidade de converter movimentos pacíficos em atos explosivos.

O primeiro marco visível da ênfase preferencial por reprimir é a reunião que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo realizou em Brasília, em 31 de outubro, com os secretários de Segurança de São Paulo e Rio de Janeiro. Os dois estados estavam sob impacto das manifestações black-blocs, uma das quais resultou na agressão (nunca suficientemente esclarecida) a um coronel da PM paulista. A mídia pressionava por uma resposta dura. Mas ao se reunir com os secretários, e ao definir com eles um conjunto de ações comuns, Cardozo passou por cima de um fato óbvio, já então. Nos dois Estados, a polícia era parte do problema, não da solução. Primeiro, por sua brutalidade, registrada, por exemplo, na repressão à manifestação de 13 de junho contra o aumento das passagens do transporte, em São Paulo. Segundo porque, em diversos episódios, a ação policial havia revelado não apenas despreparo, mas intenção de provocar; de levar os manifestantes a agir violentamente.

Ao ignorar este aspecto, o ministro transmitia, aos manifestantes, uma clara atitude de cumplicidade do governo federal. Algumas das medidas anunciadas sugeriam repressão mais aguda (a criação de um banco de dados sobre manifestantes, compartilhado entre os governos). Outras, positivas, jamais foram efetivadas (a criação de fóruns de diálogo entre manifestantes e autoridades, para relato de abusos). Falou-se na adoção de um “protocolo comum” para orientar a ação policial perante as manifestações, mas nada se informou, desde então, que tipo de comportamentos ele estimulará ou proibirá. A julgar pelo comportamento da PM paulista diante do “rolezinho” de sábado, ou o protocolo não existe, ou é indesejável.

No início do ano, o governo voltou à carga. Em entrevista a O Globo, o secretário nacional de segurança para grandes eventos, delegado (PF) Andrei Augusto Passos Rodrigues, anunciou que a Força Nacional de Segurança criaria uma tropa de choque de dez mil homens, para intervir durante a Copa do Mundo. Mais uma vez,falou-se na definição de protocolos de ação – e de novo eles não foram revelados. A notícia, aliás, foi redigida de forma imprecisa. Na verdade a Força Nacional não tem, nem terá, efetivos próprios: ela convoca e comanda, em ocasiões especiais, os soldados das próprias PMs. Mas nas redes sociais, a mensagem foi, evidentemente, interpretada como uma preparação do governo federal para o confronto com os manifestantes.

Por fim, o Portal Brasil divulgou, há uma semana, um documento ainda mais amedrontador: um manual produzido pelo Estado Maior das Forças Armadas para orientar a atuação de militares em operações de “garantia da lei e da ordem”. Aprovado no final do ano passado, e só agora revelado, o documento é redigido em linguagem que lembra a antiga Doutrina de Segurança Nacional. Fala em “forças oponentes” e “ameaças” (pág. 15), “emprego de inteligência e contra-inteligência” (p.26), “uso progressivo de força” (p.26). Inclui, entre as “principais ameaças” (p.29), itens como “bloqueio de vias públicas”, “distúrbios urbanos”, “invasão de propriedades e instalações rurais e urbanas” e até mesmo “paralisação das atividades produtivas”. Merece análise detalhada, em outro texto.

Esta escalada, que teve início em outubro, está em clara oposição com as primeiras atitudes da presidente da República diante dos protestos, em junho. À época, elasaudou a “mensagem direta das ruas é por mais cidadania, por melhores escolas, melhores hospitais, postos de saúde, pelo direito à participação”. Iniciou série de reuniões com movimentos sociais novos e históricos. Acenou com reforma política e plebiscito.

Estas duas propostas, que seriam um enorme passo adiante, foram enterradas, em poucos dias, pelo Congresso Nacional. Mas ao invés de ter persistido numa postura de diálogos com os portadores da “mensagem direta das ruas”, o Palácio do Planalto parece ter se acomodado. A presidente confiante em suas chances vastas de vitória eleitoral, evita qualquer atitude de ousadia, rejeita qualquer atrito com um sistema político cada vez mais retrógrado.

A possibilidade real de manifestações ao longo do ano parece levá-la, desta vez, a buscar coesão com este sistema. Mas esta atitude modorrenta talvez implique risco maior. Tanto em São Paulo quanto no Rio – os estados onde as manifestações podem repercutir mais – há uma combinação explosiva. Por um lado, PMs repressoras e despreparadas. Por outro, governadores que terão (certamente em SP, provavelmente no Rio) interesses eleitorais contrários aos de Dilma e que são suficientemente irresponsáveis para colocar tais ambições acima dos direitos democráticos da sociedade.

Três episódios recentes permitem enxergar a armadilha: no Rio, o desalojamento de moradores do morro da Mangueira, com selvageria policial; em São Paulo, a repressão bruta e discriminatória da PM ao rolezinho da periferia. Em Campinas-SP, o assassinato de doze pessoas, em circunstâncias que sugerem claramente autoria da polícia (seguido do incêndio de ônibus pela população revoltada). Todos ampliam o ódio de parcelas da população à violência estatal. Mas quem será o alvo principal deste ódio? Os dois governadores, sistematicamente blindados pela mídia? Ou o governo federal, que além de ser o símbolo maior do poder do Estado parece esmerar-se em adotar atitudes que o fazem vestir a carapuça de repressor? E que ocorrerá se o mesmo padrão se repetir diante das manifestações que podem ser muito mais numerosas e capazes de repercutir que um rolezinho?

Diante de tantos sinais negativos, a fala de Haddad, mesmo que discreta, merece ser saudada. Ela sugere que ainda há governantes capazes de destoar da mesmice conservadora a que a política institucional brasileira vai se reduzindo rapidamente. Ela abre alguma esperança de que a “voz das ruas” volte a encontrar, no Estado, interlocução real.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Rolezinhos: O que estes jovens estão "roubando" da classe média brasileira

Os novos "vândalos" do Brasil
Eliane Brum
eliane brum
O rolezinho, a novidade deste Natal, mostra que, quando a juventude pobre e negra das periferias de São Paulo ocupa os shoppings anunciando que quer fazer parte da festa do consumo, a resposta é a de sempre: criminalização. Mas o que estes jovens estão, de fato, "roubando" da classe média brasileira?
O Natal de 2013 ficará marcado como aquele em que o Brasil tratou garotos pobres, a maioria deles negros, como bandidos, por terem ousado se divertir nos shoppings onde a classe média faz as compras de fim de ano. Pelas redes sociais, centenas, às vezes milhares de jovens, combinavam o que chamam de "rolezinho", em shopping próximos de suas comunidades, para "zoar, dar uns beijos, rolar umas paqueras" ou "tumultuar, pegar geral, se divertir, sem roubos". No sábado, 14, dezenas entraram no Shopping Internacional de Guarulhos, cantando refrões de funk da ostentação. Não roubaram, não destruíram, não portavam drogas, mas, mesmo assim, 23 deles foram levados até a delegacia, sem que nada justificasse a detenção. Neste domingo, 22, no Shopping Interlagos, garotos foram revistados na chegada por um forte esquema policial: segundo a imprensa, uma base móvel e quatro camburões para a revista, outras quatro unidades da Polícia Militar, uma do GOE (Grupo de Operações Especiais) e cinco carros de segurança particular para montar guarda. Vários jovens foram "convidados" a se retirar do prédio, por exibirem uma aparência de funkeiros, como dois irmãos que empurravam o pai, amputado, numa cadeira de rodas. De novo, nenhum furto foi registrado. No sábado, 21, a polícia, chamada pela administração do Shopping Campo Limpo, não constatou nenhum "tumulto", mas viaturas da Força Tática e motos da Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas) permaneceram no estacionamento para inibir o rolezinho e policiais entraram no shopping com armas de balas de borracha e bombas de gás.
Se não há crime, por que a juventude pobre e negra das periferias da Grande São Paulo está sendo criminalizada?
Primeiro, por causa do passo para dentro. Os shoppings foram construídos para mantê-los do lado de fora e, de repente, eles ousaram superar a margem e entrar. E reivindicando algo transgressor para jovens negros e pobres, no imaginário nacional: divertir-se fora dos limites do gueto. E desejar objetos de consumo. Não geladeiras e TVs de tela plana, símbolos da chamada classe C ou "nova classe média", parcela da população que ascendeu com a ampliação de renda no governo Lula, mas marcas de luxo, as grandes grifes internacionais, aqueles que se pretendem exclusivas para uma elite, em geral branca.
Antes, em 7 de dezembro, cerca de 6 mil jovens haviam ocupado o estacionamento do Shopping Metrô Itaquera, e também foram reprimidos. Vários rolezinhos foram marcados pelas redes sociais em diferentes shoppings da região metropolitana de São Paulo até o final de janeiro, mas, com medo da repressão, muitos têm sido cancelados. Seus organizadores, jovens que trabalham em serviços como o de office-boy e ajudante geral, temem perder o emprego ao serem detidos pela polícia por estarem onde supostamente não deveriam estar - numa lei não escrita, mas sempre cumprida no Brasil. Seguranças dos shoppings foram orientados a monitorar qualquer jovem "suspeito" que esteja diante de uma vitrine, mesmo que sozinho, desejando óculos da Oakley ou tênis Mizuno, dois dos ícones dos funkeiros da ostentação. Às vésperas do Natal, o Brasil mostra a face deformada do seu racismo. E precisa encará-la, porque racismo, sim, é crime.
"Eita porra, que cheiro de maconha" foi o refrão cantado pelos jovens ao entrarem no Shopping Internacional de Guarulhos. O funk é de MC Daleste, que afirma no nome artístico a região onde nasceu e se criou, a zona leste, a mais pobre de São Paulo, aquela que todo o verão naufraga com as chuvas, por obras que os sucessivos governos sempre adiam, esmagando sonhos, soterrando casas, matando adultos e crianças. Daleste morreu assassinado em julho com um tiro no peito durante um show em Campinas - e assassinato é a primeira causa de morte dos jovens negros e pobres no Brasil, como os que ocuparam o Shopping Internacional de Guarulhos.
A polícia reprimiu, os lojistas fecharam as lojas, a clientela correu. Uma das frequentadores do shopping disse a frase-símbolo à repórter Laura Capriglione, na Folha de S. Paulo: "Tem de proibir este tipo de maloqueiro de entrar num lugar como este". Nos dias que se seguiram, em diferentes sites de imprensa, leitores assim definiram os "rolezeiros" (veja entrevista abaixo): "maloqueiros", "bandidos", "prostitutas" e "negros". Negros emerge aqui como palavra de ofensa.
As novelas já vendiam uma vida de luxo há muito tempo, só que nelas os ricos eram os que pertenciam ao mundo de riqueza. Nos videoclipes de funk ostentação, são os pobres que aparecem neste mundo."
O funk da ostentação, surgido na Baixada Santista e Região Metropolitana de São Paulo nos últimos anos, evoca o consumo, o luxo, o dinheiro e o prazer que tudo isso dá. Em seus clipes, os MCs aparecem com correntes e anéis de ouro, vestidos com roupas de grife, em carros caros, cercado por mulheres com muita bunda e pouca roupa. (Para conhecer o funk da ostentação, assista ao documentárioaqui). Diferentemente do núcleo duro do hip hop paulista dos ano 80 e 90, que negava o sistema, e também do movimento de literatura periférica e marginal que, no início dos anos 2000, defendia que, se é para consumir, que se compre as marcas produzidas pela periferia, para a periferia, o funk da ostentação coloca os jovens, ainda que para a maioria só pelo imaginário, em cenários até então reservados para a juventude branca das classes média e alta. Esta, talvez, seja a sua transgressão. Em seus clipes, os MCs têm vida de rico, com todos os signos dos ricos. Graças ao sucesso de seu funk nas comunidades, muitos MCs enriqueceram de fato e tiveram acesso ao mundo que celebravam.
Esta exaltação do luxo e do consumo, interpretada como adesão ao sistema, tornou o funk da ostentação desconfortável para uma parcela dos intelectuais brasileiros e mesmo para parte das lideranças culturais das periferias de São Paulo. Agora, os rolezinhos - e a repressão que se seguiu a eles - deram a esta vertente do funk uma marca de insurgência, celebrada nos últimos dias por vozes da esquerda. Ao ocupar os shoppings, a juventude pobre e negra das periferias não estava apenas se apropriando dos valores simbólicos, como já fazia pelas letras do funk da ostentação, mas também dos espaços físicos, o que marca uma diferença. E, para alguns setores da sociedade, adiciona um conteúdo perigoso àquele que já foi chamado de "funk do bem".
A resposta violenta da administração dos shoppings, das autoridades públicas, da clientela e de parte da mídia demonstra que esses atores decodificaram a entrada da juventude das periferias nos shoppings como uma violência. Mas a violência era justamente o fato de não estarem lá para roubar, o único lugar em que se acostumaram a enxergar jovens negros e pobres. Então, como encaixá-los, em que lugar colocá-los? Preferiram concluir que havia a intenção de furtar e destruir, o que era mais fácil de aceitar do que admitir que apenas queriam se divertir nos mesmos lugares da classe média, desejando os mesmo objetos de consumo que ela. Levaram uma parte dos rolezeiros para a delegacia. Ainda que tivessem de soltá-los logo depois, porque nada de fato havia para mantê-los ali, o ato já estigmatizou-os e assinalará suas vidas, como historicamente se fez com os negros e pobres no Brasil.
Jefferson Luís, 20 anos, organizador do rolezinho do Shopping Internacional de Guarulhos, foi detido, é alvo de inquérito policial, sua mãe chorou e ele acabou cancelando outro rolezinho já marcado por medo de ser ainda mais massacrado. Ajudante geral de uma empresa, economizou um mês de salário para comprar a corrente dourada que ostenta no pescoço. Jefferson disse ao jornal O Globo: "Não seria um protesto, seria uma resposta à opressão. Não dá para ficar em casa trancado".
Por esta subversão, ele não será perdoado. Os jovens negros e pobres das periferias de São Paulo, em vez de se contentarem em trabalhar na construção civil e em serviços subalternos das empresas de segunda a sexta, e ficar trancados em casas sem saneamento no fim de semana, querem também se divertir. Zoar, como dizem. A classe média até aceita que queiram pão, que queiram geladeira, sente-se mais incomodada quando lotam os aeroportos, mas se divertir - e nos shoppings? Mais uma frase de Jefferson Luiz: "Se eu tivesse um quarto só pra mim hoje já seria uma ostentação". Ele divide um cômodo na periferia de Guarulhos com oito pessoas.
Neste Natal, os funkeiros da ostentação parecem ter virado os novos "vândalos", como são chamados todos os manifestantes que, nos protestos, não se comportam dentro da etiqueta estabelecida pelas autoridades instituídas e por parte da mídia. Nas primeiras notícias da imprensa, o rolezinho do Shopping Internacional de Guarulhos foi tachado de "arrastão". Mas não havia arrastão nenhum. O antropólogo Alexandre Barbosa Pereira faz uma provocação precisa: "Se fosse um grupo numeroso de jovens brancos de classe média, como aconteceu várias vezes, seria interpretado como um flash mob?".
A ideia da imaginação como uma força criativa apresenta-se fortemente no funk ostentação."
Por que os administradores dos shoppings, polícia, parte da mídia e clientela só conseguem enquadrar um grupo de jovens negros e pobres dentro de um shopping como "arrastão"? Há várias respostas possíveis. Pereira propõe uma bastante aguda: "Será que a classe média entende que os jovens estão ‘roubando' o direito exclusivo de eles consumirem?". Seria este o "roubo" imperdoável, que colocou as forças de repressão na porta dos shoppings, para impedir a entrada de garotos desarmados que queriam zoar, dar uns beijos e cobiçar seus objetos de desejo nas vitrines?
Para nos ajudar a pensar sobre os significados do rolezinho e do funk da ostentação, entrevisto Alexandre Barbosa Pereira nesta coluna. Professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ele dedica-se a pesquisar as manifestações culturais das periferias paulistas. Em seu mestrado, percorreu o mundo da pichação. No doutorado, mergulhou nas escolas públicas para compreender o que é "zoar". Desde 2012, pesquisa o funk da ostentação. Mesmo que os rolezinhos, pela força da repressão, se encerrem neste Natal, há muito que precisamos compreender sobre o que dizem seus protagonistas - e sobre o que a reação violenta contra eles diz da sociedade brasileira
O rolezinho aparece ligado ao funk da ostentação. Em que medida há, de fato, essa ligação?
Alexandre Barbosa Pereira - O funk ostentação é uma releitura paulista do funk carioca, feita a partir da Baixada Santista e da Região Metropolitana de São Paulo, na qual as letras passam a ter a seguinte temática: dinheiro, grifes, carros, bebidas e mulheres. Não se fala mais diretamente de crime, drogas ou sexo. Os funkeiros dessa vertente começaram a produzir videoclipes inspirados na estética dos videocliples do gangsta rap estadunidense. Mas o mais curioso desse movimento é a virada que os jovens fazem ao mudar a pauta que, até então, era principalmente a criminalidade para o consumo. As músicas deixam de falar de crime para falar de produtos que eles querem consumir. Assim, ao invés de cantarem: "Rouba moto, rouba carro, bandido não anda à pé" (Bonde Sinistro), os funkeiros da vertente ostentação cantam: "Vida é ter um Hyundai e um hornet, dez mil para gastar, rolex, juliet. Melhores kits, vários investimentos. Ah como é bom ser o top do momento" (MC Danado). Deste modo, os MCs começaram a ter mais espaços para cantar em casas noturnas e passaram a produzir videoclipes cada vez mais elaborados, com mais de 20 milhões de acessos no YouTube, o que levou a um sucesso às margens da mídia tradicional. Alguns MCs chegaram a alcançar grande repercussão entre um segmento do público jovem, sem nunca ter aparecido na televisão. Vi meninas chorando por MCs em bailes, mesmo antes de o funk ostentação alcançar o destaque que conseguiu na grande mídia. Surgiram empresas especializadas na produção de clipes no estilo ostentação, como a Kondzilla e a Funk TV, claramente inspirados no gangsta rap, em que os jovens aparecem em carrões e motos, exibindo-se com roupas, dinheiro e mulheres. Uma reflexão interessante a se fazer é como a mídia tradicional, que antes execrava o chamado funk proibidão, que falava de crime, drogas e sexo abertamente, agora começa a elogiar o funk ostentação, denominando-o até como "funk do bem" e ressaltando a trajetória econômica e social ascendente dos MCs.
Pergunta. Fazendo um parêntese aqui, antes de chegar ao rolezinho, qual é o caminho para um jovem pobre ter acesso ao consumo de luxo, segundo o olhar do funk da ostentação? Esta virada que você mencionou...
Resposta. Primeiro que esse bem de luxo não é tão de luxo assim, afinal uma garrafa de uísque a 60 ou 80 Reais não é nenhum absurdo. É sempre possível comprar uma réplica daqueles óculos escuros que custam mais de mil reais. Nas casas noturnas de funk que observei, este era o preço. Pensemos num grupo de pelo menos quatro amigos dividindo o valor da compra. Não sai tão caro brincar de ostentar. Agora, tem os carros. Estes sim estão fora do alcance da maioria desses jovens. Mas aí há uma explicação interessante, que Montanha, um produtor e diretor de videoclipes da Funk TV, em Cidade Tiradentes, sabiamente me deu. Ele me disse que as novelas já vendiam uma vida de luxo há muito tempo, só que nelas os ricos eram os que pertenciam ao mundo de luxo. Nos videoclipes de funk ostentação, são os pobres que aparecem como um mundo de "riqueza" ou de "luxo", com carros, mansões, roupas de marcas mais caras. Os jovens agora poderiam, segundo afirmou Montanha, ver-se como parte de um mundo de prestígio, daí a grande identificação. O crime pode ser um caminho para acessar esse mundo de luxo ou o que esses jovens entendem por um mundo de luxo, mas não é único. Esta é a lição que muitos MCs de funk têm tentando passar em suas falas na grande mídia. Eles de certa forma mostram um outro caminho, que, aliás, sempre esteve presente para esses jovens da periferia: tornar-se famoso pela música ou pelo futebol. Aliás, esses são caminhos que aparecem como os mais possíveis para os jovens negros e pobres das periferias do país imaginarem um futuro de sucesso. Num mundo em que há uma forte divisão entre trabalho intelectual e manual, com a extrema valorização do primeiro, o uso do corpo em formas lúdicas como meio de ganhar dinheiro mostra-se como opção para uma transformação da vida. "Crime, futebol, música, caralho, eu também não consegui fugir disso aí", esse é o Negro Drama cantado pelos Racionais MC's. Os MCs de funk ostentação estão tentando dizer que é possível construir uma vida de sucesso pela música. E o que era ficção, os videoclipes com carros importados emprestados ou alugados, com dinheiro cenográfico jogado para o ar, começa a tornar-se realidade. Muitos deles começam a ganhar uma quantidade razoável de dinheiro com os shows. Acho que a ideia da imaginação como uma força criativa apresenta-se fortemente no funk ostentação.
Será que a classe média entende que os jovens estão ‘roubando' o direito exclusivo de eles consumirem? Direito que, por sua vez, vinha sendo roubado desses jovens pobres há muito tempo."
Por outro lado, é preciso destacar que masculinidades pautadas pelo desejo de possuir um automóvel ou uma motocicleta não foram construídas pelo funk ostentação. Já existia há um tempo. Para os meninos da periferia, possuir um bom carro, bonito e potente, é uma das metas principais de vida. A posse do carro é, no imaginário desses jovens, mas também da população em geral, um indicativo de sucesso econômico e social, garantindo, consequentemente, sucesso com as mulheres.
Neste caldo cultural, o consumo é cada vez mais exaltado como espaço de afirmação e de reconhecimento para os jovens. É, inclusive, bastante complexa a forma como se dá a relação entre criminalidade e consumo no funk. Na virada que produziram, parece que há o recado de que essas duas ações sociais podem constituir dois lados de uma mesma moeda. Eles não deixam de falar do crime. Acabam citando-o indiretamente, como nas músicas do MC Rodofilho, nas quais ele celebra: "Ai meu deus, como é bom ser vida loka!". O importante é entender como o crime e o consumo são pautas constantes nas relações de sociabilidade dos jovens da periferia. Os mais pobres também querem que ipads, iphones e automóveis potentes façam parte de seu mundo social. Ainda preciso observar e refletir mais sobre isso, mas acho que tanto no caso do crime, como no do consumo temos que atentar mais para o modo como se dão as relações entre pessoas e coisas. Fico pensando que a busca de realização apenas pelo consumo envolve sentimentos e posturas extremas de um egoísmo hedonista e de um profundo desprezo pelos outros humanos. As mercadorias, ou as coisas almejadas, de certa forma têm conformado as subjetividades contemporâneas. E nessas novas subjetividades, pautadas pelo instantâneo e o instável, parece não haver muito espaço para a solidariedade. Há uma nova tendência na discussão antropológica afirmando que não podemos entender as coisas apenas como representação ou resultado do social. Precisamos pensar também em como as coisas fazem as pessoas e mesmo o social, como as coisas, ou as mercadorias mais desejadas hoje, motivam tanto um consumismo desenfreado, irracional e egoísta, quanto o ingresso de jovens na criminalidade. Sempre fico espantado quando vejo as imagens, em outros países, das pessoas correndo desesperadas para comprar um novo lançamento de smartphone, videogame ou tablet... Mas não só isso, tais coisas também motivam e determinam formas de estar, pensar, relacionar-se e sentir no mundo contemporâneo.
Penso muito nisso quando parte da classe média critica o consumo desses jovens, dizendo que apenas eles - da classe média que, supostamente, pagaria os impostos - têm direito a consumir, ou se relacionar com certos produtos. Será que, desse modo, a classe média entende que os jovens estão roubando o direito exclusivo de eles consumirem ou de se relacionarem com esses objetos de prestígio? Direito que, por sua vez, vinha sendo roubado desses jovens pobres há muito tempo?
Essa crítica pode vir inclusive de certa classe média mais intelectualizada e mesmo com ideias políticas progressistas, mas que acha que sabe o que é melhor para os pobres. Aí fazem a crítica, a partir dos seus ipads e iphones, ao que entendem como um consumo irracional dos mais pobres, que deveriam poupar ao invés de gastar com produtos que não seriam para o nível econômico deles. Enfim, tem aí um jogo de perde e ganha e também de busca de satisfações individuais que envolve o roubo do direito de alguns ao consumo, que é preciso aprofundar para entendermos melhor essas dinâmicas contemporâneas. Todos têm o direito a consumir o que quiserem hoje? E seria viável, hoje, todos consumirem em um alto padrão? Que implicações ambientais teríamos? E se não é sustentável ou viável que todos consumam em tamanha intensidade, por que incentivamos tal consumismo? Com isso, o que quero dizer é que não se pode pensar a relação entre crime e consumo apenas entre os pobres, mas creio que precisamos também olhar para as classes médias e altas e para os crimes que, historicamente, têm sido cometidos contra os mais pobres e o meio ambiente para proteger o consumo dos ricos.
P. É neste ponto que os rolezinhos aparecem e criam uma tensão das mais reveladoras neste Natal?
R. Os rolezinhos nos shoppings estão ligados diretamente a esse contexto. Não sei dizer como surgiram efetivamente, mas me parece que despontaram por essas novas associações que as redes sociais permitem fazer, de forma que uma brincadeira possa virar algo sério. De repente, uma convocatória feita na internet pode levar centenas de jovens a se encontrarem num shopping, local onde podem ter acesso a esses bens cantados nas músicas, ainda que apenas por acesso visual. Agora, o que é importante ressaltar é que não foram os rolezinhos nem o funk ostentação que criaram essa relação de fascinação com consumo. Esta já existia há muito tempo. Os Racionais, há mais de dez anos, já cantavam sobre isso, com afirmações como: "Você disse que era bom e a favela ouviu, lá também tem uísque, red bull, tênis nike e fuzil" ou "Fartura alegra o sofredor"
É importante perceber que os shoppings onde os rolezinhos ocorreram estão em regiões mais periféricas. Eles não têm ido aos templos maiores do consumo de luxo na cidade."
P. Algumas análises relacionam os rolezinhos a uma ação afirmativa da juventude negra e pobre, a uma denúncia da opressão e a uma reivindicação de participação, neste caso no mundo do consumo. Como você analisaria este fenômeno tão novo?
R. Não me arriscaria a dizer que há um movimento político muito claro. Pode indiretamente constituir-se como uma ação afirmativa da juventude negra e pobre. Talvez a tensão que se criou com a criminalização desses jovens, durante os rolezinhos, possa levar a algum tipo de reflexão e ação política maior, mas é difícil prever. Em um livro intitulado Cidadania Insurgente, (o antropólogo americano) James Holston analisa o surgimento das periferias urbanas no Brasil, particularmente em São Paulo, apontando a discriminação contra certas espécies de cidadãos no Brasil. Esse autor mostra como, historicamente, as formulações de cidadania elaboradas pelos mais pobres se deram a partir de sua ocupação dos bairros nas periferias das grandes cidades. Noções e práticas próprias de cidadania que se produziram, ao mesmo tempo, por meio das experiências de tornar-se proprietário, de participar de movimentos sociais por melhorias dos bairros e de ingressar no mercado consumidor. Primeiro se ocupou os bairros, mesmo sem estrutura mínima. Depois, ocorreram as reivindicações pela legalização dos terrenos ocupados. E, enfim, vieram as lutas pela chegada da energia elétrica, saneamento básico e asfalto. Acho sempre muito interessante, em conversas com lideranças antigas dos bairros periféricos de São Paulo, observar que elas indicam a chegada do asfalto como o grande marco de transformação do bairro e a integração deste ao espaço urbano.
Encaro, portanto, ações como estas, dos rolezinhos, do ponto de vista dessa "cidadania insurgente", referindo-se a associações de cidadãos que reivindicam um espaço para si e, assim, se contrapõem ao grande discurso hegemônico ou, se não se dissociam do discurso hegemônico, ao menos provocam ruídos nele. Trata-se de uma reivindicação por cidadania, participação política e direitos que, historicamente, foi feita na marra, pelos mais pobres, muitas vezes nas costuras entre o legal e o ilegal, e que começou com a própria ocupação dos bairros na periferia da cidade de São Paulo, como forma de habitar e sobreviver no mundo urbano. Essa cidadania não necessariamente se apresenta como resistência, mas pode também querer, em muitos casos, associar-se ao hegemônico, produzindo dissonâncias.
O que são o funk ostentação e os rolezinhos se não essa reivindicação dos jovens mais pobres por maior participação na vida social mais ampla pelo consumo? Estas ações culturais parecem situar-se nessa lógica, que não necessariamente se contrapõe ao hegemônico, na medida em que tenta se afirmar pelo consumo, mas provoca um desconforto, um ruído extremamente irritante para aqueles que se pautam por um discurso e uma prática de segregação dos que consideram como seus "outros".
P. Como definir este desconforto? O que são os "outros" neste contexto? E que papel estes "outros" desempenham?
R. O desconforto em ver pobres ocupando um lugar em que não deveriam estar, como o de consumidores de certos produtos que deveriam ser mais exclusivos. É um tipo de espanto, que indaga: "Como eles, que não têm dinheiro, querem consumir produtos que não são para a posição social e econômica deles?". Estes "outros" são os considerados "subalternos". Podem ser funkeiros, pobres e pardos da periferia, mas podem ser também as empregadas domésticas, os motoboys, os pichadores, entre outros "outros", que muitas vezes são utilizados como bode expiatório das frustrações de uma parcela considerável da classe média.
Há uma tendência de perceber os jovens pobres a partir de três perspectivas: a do bandido, a da vítima e a do herói."
Os rolezinhos não são protestos contra o shopping ou o consumo, mas afirmações de: "Queremos estar no mundo do consumo, nos templos do consumo". Entretanto, por serem jovens pobres de bairros periféricos, negros e pardos em sua maioria, e que ouvem um gênero musical considerado marginal, eles passam a ser vistos e classificados pela maioria dos segmentos da sociedade como bandidos ou marginais. Vamos pensar que, na própria concepção do shopping, não está prevista a presença desse público, ainda mais em grupo e fazendo barulho. Pergunto-me se fosse em um shopping mais nobre, com jovens brancos de classe média alta, vestidos como se espera que um jovem deste estrato social se vista, se a repercussão seria a mesma, se a criminalização seria a mesma. Talvez fosse considerado apenas um flash mob. Há uma tendência, por parcela considerável da classe média, da mídia e do poder público de perceber os jovens pobres a partir de três perspectivas, quase sempre exclusivistas: a do bandido, a da vítima e a do herói.
P. Como funcionam estas três perspectivas - bandido, vítima e herói?
R.  São muito mais formas de enquadrar esses jovens por aqueles que querem tutelá-los do que categorias assumidas pelos próprios jovens. Por isso, são contextuais. Dependendo da situação e dos atores sociais com quem dialogam, o jovem pode ser entendido a partir de uma dessas categorias. O pichador, por exemplo, é um agente que pode mobilizar todas essas classificações, dependendo do contexto e dos interlocutores: a polícia, a secretaria de cultura, os pesquisadores acadêmicos ou a ONG que quer salvar os jovens da periferia da violência. No caso do funk, por exemplo, já há comentários e mesmo textos de pessoas mais politizadas vendo os rolezinhos como uma ação afirmativa ou extremamente contestatória. Para estes, os protagonistas dos rolezinhos são vítimas que se tornaram heróis. Outros, como a polícia, a administração dos shoppings e a clientela, mas também seus vizinhos, que moram lá nos bairros pobres da periferia, enxergam neles principalmente vilões e mesmo bandidos.
Jovens como estes que estão nos rolezinhos não necessariamente aceitam se encaixar nesses rótulos, mas, em alguns casos, podem também se encaixar em todos eles ao mesmo tempo. Não se pode simplificar um fenômeno como este. Porém, se pensarmos esse movimento que surge principalmente com o hip hop, de valorizar a periferia como espaço político e de afirmação positiva, é possível ver, sim, ainda que em menor intensidade, uma certa ação política. De dizer: "Somos da quebrada e temos orgulho disso". Um movimento de reversão do estigma em marca positiva.
P. Mas há, de fato, uma ação consciente, organizada, com um sentido político prévio? Ou o sentido está sendo construído a partir dos acontecimentos, o que é igualmente legítimo?
R. Olha, sinceramente, é difícil dizer se há um sentido político, direto, consciente e/ou explícito. Talvez por parte de alguns, mas pelo que vi nas redes sociais, não da maioria. Se o movimento persistir ou tomar outras formas, pode ser que tal sentido político fique mais forte. Por enquanto é difícil analisar esse ponto. O antropólogo (indiano) Arjun Appadurai analisa há algum tempo as mudanças que se processam no mundo por causa do avanço das tecnologias de comunicação e de transporte. Segundo este autor, as pessoas cada vez mais se deslocam no mundo atual, e não apenas fisicamente, mas também e talvez principalmente pela imaginação, por causa de meios de comunicação como a televisão e, mais recentemente, pela internet. Hoje é possível imaginar-se nos mais diferentes lugares do mundo, mas também em diferentes classes sociais. O que são os videoclipes de funk da ostentação que não imagens/imaginações que os jovens produzem sobre o que seria pertencer a outra classe social ou possuir melhores condições econômicas para o consumo?
O que são os videoclipes de funk ostentação que não imagens que os jovens produzem sobre o que seria pertencer a outra classe social?"
Essa imaginação, segundo esse autor, pode constituir-se como um projeto político compartilhado, mas pode também ser apenas uma fantasia, como algo individualista e egoísta, sem grandes potenciais políticos. Parece-me que o funk da ostentação em São Paulo e movimentos como o dos rolezinhos nos shoppings têm intensamente essas duas potências. Difícil saber se alguma delas irá prevalecer ou tornar-se hegemônica.
P. A escolha da música do MC Daleste, assassinado num show em Campinas, para o rolezinho promovido no Shopping Internacional de Guarulhos, pode ter um significado a mais?
R. A escolha da música do MC Daleste na entrada dos jovens no shopping de Guarulhos me pareceu bastante significativa, por vários motivos. Principalmente, porque a morte dele no palco, cantando funk, de certa forma construiu um marco para esse funk da ostentação. O seu assassinato acabou por dar ainda mais visibilidade a esta vertente do funk paulista. MC Daleste cantava proibidão antes e, assim, essa relação confusa entre crime e consumo manifesta-se de modo bastante forte no que o MC Daleste representa. Há no seu próprio nome artístico essa afirmação de um certo orgulho do lugar de onde vem e de ser da periferia, que tanto o funk quanto o hip hop expressam. Não é por acaso que ele é "Da Leste". Lembremos que Guarulhos também está à leste da Região Metropolitana de São Paulo.
P. Hoje, uma parte significativa da geração que se criou nas periferias com movimentos contestatórios como o hip hop e a literatura periférica ou marginal tem, pelo funk da ostentação, assumido os valores de consumo das classes médias e alta. Como você analisa este fenômeno e o insere no contexto histórico atual do Brasil?
R. O que um evento como esse parece evidenciar é, por um lado, esse anseio por consumir e por afirmar-se pelo consumo que esses jovens vêm demonstrando já há algum tempo, pelas letras dos funks, mas que também já é visto no hip hop. Apesar das críticas de certos segmentos do hip hop, não sei se o funk ostentação rompe com o hip hop mais politizado dos anos 1980 e 1990 ou se oferece uma das muitas possíveis continuidades a esse movimento cultural. Parece-me que o funk ostentação é uma releitura paulista, muito influenciada pelo hip hop, do funk carioca. Muitos MCs de funk eram MCs de hip hop, muitos deles, além dos funks, cantam também raps, e músicas dos Racionais são ouvidas nos shows. Trechos de letras de músicas dos Racionais podem ser encontrados facilmente nas letras do funk. Agora, o fato é que o funk não é tão marcado pela questão política como o hip hop. O Montanha, de Cidade Tiradentes, disse-me algo interessante, certa vez, de que, na verdade, o hip hop ofereceria um espaço de expressão política que faltava aos jovens, já o funk é um espaço de lazer e de sociabilidade. Parece-me uma reflexão interessante. Não que o hip hop não possa conter lazer e sociabilidade também, nem o funk, protesto político, mas que as duas vertentes tendem para um dos polos. O funk, aliás, ganhou esse grande espaço junto aos jovens das periferias de São Paulo porque, nessa articulação de um espaço de lazer, configurou-se um espaço para as mulheres que, no hip hop, era mais difícil. As mulheres são presença fundamental nos bailes funks. O protagonismo da dança sempre foi delas. Ainda que os meninos também dancem e as meninas participem cada vez mais como MCs. O hip hop sempre foi muito mais masculino, da dança ao estilo de se vestir.
P. Mas qual é a diferença, na sua opinião, entre a forma como, por exemplo, os Racionais falam em consumo e os MCs da ostentação falam de consumo?
Devemos questionar não a ação dos meninos, mas as relações sociais fomentadas na contemporaneidade que se pautam cada vez mais pela busca do reconhecimento pelo consumo, pela posse de bens."
R. Há aí duas perspectivas. Quando digo que os Racionais já cantavam isso, quero dizer que eles já identificavam essa necessidade de consumir da juventude. E de consumir o que eles achavam que era bom, nada de consumo consciente. Por isso digo que os Racionais já faziam, há mais de dez anos, uma leitura desse anseio por consumir dos jovens pobres. Por outro lado, há essa dimensão de movimentos como o dos escritores da periferia, promovendo produtos da periferia, pela periferia. O funk ostentação começa sem se preocupar com essa questão diretamente. Ele não tem dor na consciência por cantar o consumo em suas músicas e aderir ao sistema, por exemplo. Porém, indiretamente, se acaba chegando a um outro ponto, na medida em que uma parcela considerável de jovens da periferia passa a possuir algum tipo de renda com a produção do funk. Sejam os meninos que gravam os videoclipes, os próprios MCs, mas também empresários, produtores, técnicos e mesmo alguns MCs tornando-se empreendedores e criando seus próprios negócios. Como o MC Nego Blue, que observando de perto o sucesso das roupas de grife entre os jovens, criou a Black Blue, uma loja de roupas cujo símbolo é uma carpa colorida. Hoje, além de possuir lojas próprias, já vende suas roupas em lojas multimarcas, ao lado de camisas da Lacoste ou de outras marcas famosas que os meninos procuram, e por um preço muito parecido. Uma das empresas que agencia shows de funk em Cidade Tiradentes chama-se justamente "Nóis por nóis".
Os rolezinhos parecem dizer: não apenas queremos consumir, mas queremos ocupar em massa e se divertir aí nos seus shoppings, nos seus ou nos nossos. É importante perceber também que os shoppings onde os eventos ocorreram estão em regiões mais periféricas, provavelmente próximos ao próprio bairro de moradia dos jovens. Por enquanto, eles não têm ido aos templos maiores do consumo de luxo na cidade, na região dos Jardins, Faria Lima, Marginal Pinheiros etc. Pode haver aí também um componente de um termo que surgiu muito forte para mim na pesquisa que fiz em escolas de ensino médio, no meu doutorado, que é a ideia do "zoar". Eles querem zoar, que é chamar a atenção para si e se divertir, namorar, brincar e, se for preciso, brigar.
P. Por que, neste momento, o lazer se impõe como uma reivindicação desta geração, acima de questões como saúde, educação e transporte de qualidade?
R. Acho que não há uma reivindicação política bem formuladinha como acontecia com o hip hop: queremos mais saúde, educação e lazer. Eles simplesmente querem estar nos shoppings para zoar e vão. Não há essa reflexão mais elaborada que o hip hop produz, é mais espontâneo. Esse talvez possa ser um ponto de distinção. E o próprio funk é, por si só, lazer e diversão, um dispositivo poderosíssimo para dançar e motivar paqueras. O zoar pode ser lido como um ato político, mas não me parece intencional. Acho que cria uma tensão que é política, que é de disputa de poder pelos espaços da cidade, mas não há um manifesto pela zoeira ou pelos rolezinhos, como houve, por exemplo, no caso do manifesto da arte periférica dos escritores.
P. Há também um movimento maior para sair dos guetos e ocupar os guetos da classe média? Em massa e não mais individualmente, como quando um grupo de rap aparecia numa TV, mesmo sendo a MTV, ou um escritor do movimento literário marginal ou periférico publicava numa grande editora? Esta é uma novidade importante?
R. Acho que abre, sim, para fora do gueto, do bairro onde se vive, mas não para muito longe, pois, afinal, os shoppings para os quais eles vão estão do lado de suas casas. Neste sentido, acho que o hip hop, apesar de falar mais do gueto, abre-se muito mais para fora do gueto, na medida em que conquista um espaço importante nas políticas públicas de cultura, por exemplo.
É como se a sociedade dissesse: ‘Vocês, pobres, podem consumir, mas ir ao shopping em grandes grupos, só para zoar e cantar funk, aí já é vandalismo'."
Claro que esse espaço de lazer é problemático e conflitivo mesmo dentro dos bairros das periferias onde moram esses jovens. Se entrevistarmos os seus vizinhos, certamente a maioria vai se posicionar totalmente favorável à proibição das festas de rua que eles organizam, com som alto que muitas vezes toma a madrugada toda. Por isso, acho importante não tomar o funk nem como um movimento libertador, nem como o grande vilão ou o grande movimento de corrupção da juventude contemporânea, como setores mais moralistas, à esquerda e à direita, tendem a fazer.
A questão do consumo também me parece problemática. O desejo pelo consumo sempre existiu. Bem antes do governo Lula, o processo de urbanização induz a esse apego maior ao consumo. Porém, não dá para se negar que houve, nos últimos anos, também uma melhora econômica para segmentos que antes estavam bastante afastados do mercado. Porém, acho que reduzir o sucesso do funk da ostentação a isso é simplificar demais o movimento e esquecer que ocorreram e ocorrem movimentos juvenis parecidos em outras partes do mundo, como o próprio gangsta rap, nos Estados Unidos, no qual os videoclipes se inspiram.
Devemos questionar não a ação dos meninos, mas as relações sociais fomentadas na contemporaneidade. É preciso conceder aos jovens, e não apenas aos pobres, mas aos de classe média e alta também, outros espaços de reconhecimento e de estabelecimento de relações sociais que não sejam pautados pela afirmação por meio da posse e do consumo de bens.
Porque, afinal, como dizem os Racionais, mais uma vez: "Quem não quer brilhar, quem não? Mostra quem. Ninguém quer ser coadjuvante de ninguém". De repente, para alguns, ter um tênis caro, um smartphone de última geração ou ir ao shopping para zoar, pode ser uma forma encontrada para tentar brilhar.
P. Ao ocupar os shoppings, os adeptos do funk da ostentação estariam promovendo sua primeira atitude de insurgência contra o sistema, no sentido de: "Vou ocupar o espaço que me é negado ou onde não me querem". É isso? Ou as próprias letras das músicas, interpretadas, em geral, como adesão ao sistema, já seriam, de fato, uma insurgência, na medida que se apropriam, simbolicamente, dos valores da elite e da classe média e, agora, com os rolezinhos, também de seus espaços físicos?
R. Sim, acho que essa é a maior irritação da classe média com esses movimentos. Basta ver os comentários aos videoclipes no YouTube, irritados com os meninos ostentando e exibindo-se com produtos mais caros, que não deveriam estar com aqueles meninos, pobre e negros, em sua maioria. Esta é a principal insurgência que eles provocam. A classe média, de uma maneira geral, a mais pobre ou a mais rica, a mais ou menos intelectualizada, irrita-se bastante quando os subalternos compram bens caros, mesmo antes deles. Já ouvi comentários indignados, do tipo: "Minha empregada comprou uma televisão de última geração, melhor do que a minha". Isso tem antecedentes históricos que parecem refletir até hoje. James Holston, ainda no livro sobre cidadania insurgente, que citei anteriormente, traz como exemplo a legislação colonial portuguesa, que proibia aos negros o uso de joias e artigos considerados finos...
P. Parece que os "rolezeiros" dos shoppings estão ocupando o mesmo lugar simbólico dos "vândalos" nas manifestações, na narrativa feita por parte da grande mídia e pelas autoridades instituídas. Como você interpreta essa reação?
Os comentários em sites e redes sociais revelam esse profundo racismo entranhado em parcela considerável da população brasileira."
R. O que me assustou de verdade nessa história toda foram as reações, de mídia e de polícia, condenando e mandando prender, mesmo em casos em que disseram que não houve arrastões, mas correrias. Fico questionando quem provocou a correria: os jovens ou a ação dos seguranças e da polícia? Eventos como estes revelam também uma faceta complicada e extremamente preconceituosa da classe média brasileira. Dei uma entrevista curta para o site de um grande grupo de comunicação e fiquei assustado ao ler os comentários dos leitores, de um ódio terrível contras os meninos e meninas que foram aos shoppings, contra os pobres, contra mim, que tive uma fala dissonante na entrevista, ressaltando a forma preconceituosa com que tal tema vinha sendo tratado. Ao falarem do evento, algumas palavras utilizadas como categorias de acusação contra os jovens e as jovens foram bastante reveladoras do preconceito, e mesmo do racismo, deste segmento social: "favelados", "maloqueiros", "bandidos", "prostitutas" e "negros". Nesse último caso, inclusive, fica evidente o racismo que aparece em muitos comentários dessa notícia, mas também nas comunidades dos rolezinhos que os jovens criaram nas redes sociais. Um dos comentários pede para que os jovens voltem para a África. Isso é muito grave. Revela esse profundo racismo entranhado em parcela considerável da população. Como se tal sociedade dissesse, por meio dos representantes dos shoppings, da mídia e da polícia, brincando um pouco com a questão das manifestações de junho: "Vocês, pobres, podem consumir, mas ir ao shopping em grandes grupos, só para zoar e cantar funk, aí já é vandalismo".
P. A classe média é racista?
R. O que chamamos de classe média não é um todo homogêneo. É possível segmentá-la em diferentes níveis e a partir de diferentes contextos, é possível pensar em uma classe média intelectualizada ou não intelectualizada. Contudo, parece-me que a divisão mais importante para se pensar a classe média em São Paulo é a que se dá por critérios socioeconômicos e espaciais. Há a classe média que está concentrada principalmente no entorno do eixo central, que vai do Centro a Pinheiros, passando pela Avenida Paulista e bairros próximos. Esta, em sua maioria, vive numa bolha e tem poucos contatos com outras classes sociais, com exceção dos trabalhadores subalternos: porteiros, empregadas domésticas etc. Para esta, em grande medida, o Shopping Itaquera pode estar mais distante do que Paris ou Londres.
Porém, há também certa classe média baixa que vive na periferia. Citando novamente o Holston, ele fala de uma diferenciação que se produziu nas periferias de São Paulo entre aqueles que compraram seus terrenos, ainda que por meio de contratos obscuros, e aqueles que ocuparam os espaços da cidade, formando as favelas. Essa pequena diferença não cria um grande abismo econômico, mas produz uma profunda diferenciação, por meio do qual um grupo estigmatiza o outro. Já vi um indivíduo desta classe média da periferia questionando programas como o bolsa família, porque tinha visto potes vazios de iogurte no lixo da favela. Este indivíduo afirmava que nem ele consumia iogurte com tanta frequência, como eles se davam ao direito de consumir tal produto, que era um luxo, raro, mas sobre o qual ele detinha certa exclusividade?
A questão do auxílio aos mais pobres, principalmente o bolsa família, é um forte fator de estigmatização por parte desses diferentes segmentos da classe média, mas principalmente por parte dessa classe média da periferia. Estive, recentemente, em uma escola pública próxima a uma grande favela de São Paulo. Segundo os professores, um dos problemas daquela escola era o fato de que 90% dos alunos vinham da favela vizinha. E que, hoje, esses alunos estavam muito acomodados, pois viviam de bolsas e na favela tinham tudo muito fácil, com a grande quantidade de projetos presentes por lá. Inclusive, projetos de música, ressaltou um professor. É muito importante refletir sobre isso, porque esses professores, se não moram na favela, são vizinhos dela. Mas, ainda assim, permitem-se diferenciar-se dos jovens por questões muito pequenas. E são estes professores os responsáveis por formar esses jovens. Será que, com este olhar, são capazes de lutar para que a escola se torne um espaço de convivência, afirmação e reconhecimento para os jovens?
P. Como você, que tem acompanhado o cotidiano de escolas públicas, em São Paulo, percebe a educação?
Para uma parcela da classe média de São Paulo, o Shopping Itaquera pode estar mais distante do que Paris ou Londres."
R. É necessário pensarmos em uma educação para as diferenças, para que não caiamos mais na armadilha da intolerância e das análises apressadas e preconceituosas de setores das elites e das camadas médias, ao se referirem aos "subalternos". Lembro-me de um documentário português, que vale a pena ser assistido, sobre a história de um arrastão que não existiu. Chama-se: "Era uma vez um arrastão" (assista aqui). Nele, conta-se do dia em que jovens caboverdianos ou descendentes de caboverdianos resolveram frequentar a nobre praia de Carcavelos, em Portugal. A polícia, ao ver a concentração de jovens de origem africana, assustou-se e resolveu intervir, provocando uma grande correria, que foi noticiada como arrastão. Mas, de fato, os jovens fugiam da repressão policial gratuita. Isso talvez nos ensine algo sobre os arrastões que estamos a criar todo dia, criminalizando jovens pobres cotidianamente.
Quando estive pesquisando em escolas públicas da periferia de São Paulo, era comum ouvir dos professores que, naquela escola, os alunos eram todos bandidos ou marginais. O discurso da criminalização é efetivo e poderoso e condena muita gente ao fracasso escolar e mesmo ao crime. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, num livro sobre educação e juventude, ressalta a necessidade cada vez mais premente, na contemporaneidade, de desenvolvermos a arte de conviver com os estranhos e a diferença. Em especial num mundo no qual as migrações tendem a aumentar cada vez mais. No nosso caso, não foi preciso a chegada de estrangeiros para a expressão das mais brutais formas de preconceito, pois os estrangeiros éramos nós, os brasileiros. Mas brasileiros que moram muito, muito distante, ainda que vizinhos. Moram em Guaianazes, Capão Redondo, Grajaú, Cidade Ademar, Cidade Tiradentes, Vila Brasilândia...
P. Em que medida, na sua opinião, os rolezinhos se ligam às manifestações de junho?
R. Acho que não há uma ligação direta. Mas, indiretamente, é possível perceber a reivindicação comum do uso do espaço público e de quebra das marcas da segregação. Lembro-me que, antes das manifestações de junho, para a imprensa conservadora era um tabu ocupar a Avenida Paulista. Os movimentos sociais mostraram que não apenas não era um tabu, como era um direito, o direito de ir às ruas e ocupá-las para protestar. Os rolezinhos não parecem ter uma pauta tão clara, mas também estão, ainda que indiretamente, dizendo: "Vocês não disseram que era bom consumir? Pois bem, nós também queremos!"
P. Essa ocupação de espaços que supostamente pertenceriam a "outros", tanto no caso das manifestações como no caso dos rolezinhos, parece marcar uma novidade importante. O que está acontecendo?
R.  Acho que a novidade está aí, mas é difícil dizer o que está acontecendo ou o que acontecerá. Pode ser apenas um surto - algo parecido com o que foi a revolta da vacina como reação às propostas políticas opressoras de reforma sanitária do Rio de Janeiro, por exemplo - ou pode ser uma nova forma de pensar os espaços públicos e privados nas cidades brasileiras. Porém, é difícil prever. Os rolezinhos podem ter acabado nesta semana, por exemplo. E movimentos como os de junho não se repetiram com tanta intensidade e repercussão. Contudo, o que movimentos como estes garantem é a possibilidade de se tensionar essa ocupação dos espaços urbanos, amplamente negada até então.
Aqui não foi preciso a chegada de estrangeiros para a expressão das mais brutais formas de preconceito, pois os estrangeiros éramos nós, os brasileiros que moram em Guaianazes, Capão Redondo, Grajaú, Cidade Ademar, Cidade Tiradentes, Vila Brasilândia..."
P. Por que este nome, rolezinho? E que significados ele contém?
R. Rolezinho é um termo que está diretamente ligado à ideia de lazer. De sair para se divertir e usufruir da cidade. Os pichadores, com os quais realizei pesquisa no mestrado, também usam a ideia de rolê, para se referirem às suas pichações. Com isso estão dizendo que pichar é dar voltas para conhecer e se apropriar da cidade. Parece que, por este termo, indiretamente, podemos entender uma reivindicação pelo direito de se divertir na cidade.
P. Divertir-se na cidade não seria um ato de insubordinação para jovens pobres e negros? Talvez até o maior ato de insubordinação?
R. Sim, principalmente numa sociedade em que pobres e negros têm que trabalhar - e apenas trabalhar - sem reclamar. Lembremos de que a ROTA, no final do regime militar, atuava nas periferias abordando os moradores e cobrando-lhes a carteira profissional como prova de que eram trabalhadores e não vagabundos. Devotados, portanto, ao trabalho e não à diversão. Agora, claro que esses jovens não estão pensando exatamente nisso. Querem muito mais é se divertir.
P. Como entender este fenômeno, que é, ao mesmo tempo, uma insubordinação e uma adesão ao sistema?
R.  Acho que a melhor palavra é paradoxo. O funk da ostentação em São Paulo é paradoxal: não dá para situá-lo num polo ou noutro, dentro do modo tradicional de pensar a política. Conservador ou revolucionário? Nenhum dos dois, mas com possibilidade para os dois ao mesmo tempo.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua e A Menina Quebrada e do romance Uma Duas.
Nossa fonte: Controvérsia