Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade
Clic sobre o livro (download gratuito). LEIA E DÊ SUA OPINIÃO

sexta-feira, 18 de abril de 2014

García Márquez foi um dos últimos escritores carismáticos


Por: Roberto Amado



Ele talvez tenha sido o último escritor com o carisma dos grandes literatos. Morreu aos 87 anos, vítima de um câncer, depois de escrever mais de 30 livros. Vendeu mais de 40 milhões de exemplares em 30 idiomas.

Gabriel García Márquez viveu plenamente a literatura, dentro e fora dos livros. Quando tinha 17 anos e ainda lutava com as palavras, leu “A Metamorfose”, de Kafka, a história de um homem que um dia acorda transformado em um inseto. “Pode-se escrever desse jeito? Então eu quero ser escritor”.

Mas só muito mais tarde, com 39 anos, é que seguiu a lição de Kafka, a partir de algo que ouviu de seu avôsobre a guerra dos Mil Dias na Colômbia. “Muitos anos depois, em frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendia haveria de se recordar daquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo”.

Essa é a primeira frase do livro “Cem Anos de Solidão”, que leva a Macondo, reprodução literária de Aracataca, uma aldeia perdida no caribe colombiano, onde nasceu e viveu a infância. Representa o auge do realismo fantástico, uma das responsáveis pelo boom internacional da literatura latino-americana.

“A maioria dos críticos não percebe que ‘Cem Anos de Solidão’ é uma espécie de piada, cheia de referências para amigos próximos”, disse ele. Em 1982, premiado com o Nobel, aos 55 anos, era um dos mais jovens escritores a ganhar o prêmio — no qual apareceu vestido com um “liquiliqui”, típica roupa dos homens colombianos, quebrando o protocolo da sisuda academia. Na cerimônia de entrega do prêmio, perguntaram se esse era o dia mais importante da sua vida. “Não”, respondeu ele secamente. “Esse dia foi quando eu nasci”.

Gabo, como foi chamado a vida toda, era um escritor de rituais, capaz de passar 12 horas debruçado sobre uma velha máquina de escrever — desde que tivesse uma rosa amarela sobre a mesa “para espantar os demônios da literatura”. Falava que “a realidade é muito difícil de interpretar e é sempre melhor do que a ficção”, mas qualquer um que conheça sua obra sabe que ele rompeu essa fronteira sem deixar vestígios. Chegava a fumar até seis maços de cigarro por dia enquanto escrevia, tresloucado, suas histórias.

Saiu de Aracataca para estudar direito em Bogotá, mas, durante o curso, começou a praticar jornalismo — profissão que exerceu até o estrondoso sucesso de “Cem Anos de Solidão”. Ao mesmo tempo, iniciou uma das atividades que conduziu por quase toda a vida: a política. Seu ativismo de esquerda e a amizade que tinha com Fidel Castro fizeram com que se exilasse no México e colecionasse inimigos por todas as partes.

Talvez isso explique a célebre briga que teve com o até então dileto amigo e colega de letras Mario Vargas Llosa. Em 1976, diante de um cinema no México, os dois se encontraram e, ao contrário do abraço que García Márquez esperava, recebeu um direto de direita e caiu no chão. Até hoje não há uma versão oficial para a célebre briga — há quem diga que foi por mulher, outros por política.

Em 1999, ele foi diagnostico com um câncer linfático, mas já sofria de demência senil, anunciada pelo seu irmão em 2012. Foram anos de luta. Gabo queria escrever, mas sofria com as palavras e, principalmente, com a falta de memória. Nos últimos anos, não conseguia dar continuidade às suas histórias porque esquecia-se delas.

Passou a última década recolhido em sua casa na Cidade do México, pouco aparecendo para dar entrevistas ou falar de literatura. Estava fraco, seu olhar não tinha a mesma vivacidade. No ano passado, no dia em que completou 86 anos, 6 de março, fez sua última aparição pública, por alguns minutos. Mas não falou nada, a não ser para rechaçar os jornalistas: “vão caçar notícia em outro lugar”, resmungou.

Apesar de tudo, ele não esteve completamente inativo na última década. Seu último livro, “Memórias de minhas Putas Tristes”, fala de um homem que vive uma velhice safada — como a que ele talvez estivesse vivendo. Mas ainda há uma obra a ser publicada, segundo conta seu editor Cristóbal Pera. “Ele ficou corrigindo obsessivamente o livro e escreveu seis finais”, disse. Tudo indica, no entanto, que terminou o livro, chamado “Em agosto Nos Vemos”, mas com a recomendação de que só fosse publicado depois da sua morte.

“A vida não é o que vivemos, mas o que o lembramos e como contamos o que lembramos”, disse ele em uma de suas últimas entrevistas.


Sobre o Autor: Jornalista, escritor, cineasta e advogado
Nossa fonte: Diário do Centro do Mundo

Globo tenta intimidar blogueiros que entrevistaram Lula

Em matéria publicada nesta quinta-feira (17) no jornal impresso “O Globo”, nota-se uma grande manipulação dos fatos para tentar deslegitimar e intimidar os jornalistas e blogueiros que participaram da entrevista com o ex-presidente Lula na semana passada. Rodrigo Vianna, do Blog do Escrevinhador, que estava na coletiva de Lula, concedeu uma entrevista exclusiva ao Portal Vermelho sobre essa repercussão na grande mídia.

Ramon de Castro, para Rádio Vermelho




“O que fica claro é o interesse da Globo em intimidar os blogueiros que apesar desuas limitações oferecem uma narrativa que é uma alternativa ao poder da globo de manipular”, disse Rodrigo. Mas para o blogueiro, como diz o ditado, o feitiço virou contra o feiticeiro. “É uma retaliação clara, uma tentativa de intimidar, mas ao invés disso estão ajudando a tornar os blogs ainda mais conhecidos”, completou.

Vianna foi procurado pelas jornalistas da Globo para dar a entrevista e recusou, pois o único pedido do blogueiro para dar a entrevista foi negado. “Pedi para a jornalista mandar as perguntas por escrito e que só daria a entrevista se a Globo esclarecesse o caso da suposta sonegação fiscal de R$1 bilhão.”, revelou. “Como a jornalista não quis nem ao menos mandar as perguntas, não respondi”, indagou.

Para Rodrigo, nenhum dos participantes da coletiva com Lula deveriam falar com a Globo. “Eles pensam em nos deslegitimar e por que vamos lhes dar legitimidade? A Globo não tem estatura moral para ser fiscal de blogueiro”, falou.

Vianna lembrou que as entrevistas do Lula aos blogueiros sempre foram transmitidas ao vivo e com acesso universal. “As duas entrevistas do ex-presidente foram transmitidas de forma pública, uma no Palácio do Planalto e outra no Instituto Lula”, recordou. “Eu queria saber por que o Merval Pereira, da Globo, se esconde para falar com o cônsul e embaixador dos Estados Unidos, ele é informante do governo dos Estados Unidos e tem vergonha disso?”, questionou.

Especificamente sobre o papel das jornalistas que assinaram a matéria publicada nesta quinta-feira (17) no jornal “O Globo”, Rodrigo acredita que as repórteres fazem esse papel talvez por medo e pensando na ascensão no mercado de trabalho. “Um dia elas vão descobrir que entre elas e a empresa há uma diferença, pois estão achando que são a empresa e vão perceber que há uma grande diferença entre o jornalista e o dono da empresa de jornalismo, e assim vão perceber o papel que estão se prestando”, disse.
Ouça a entrevista completa na Rádio Vermelho:

Ouvir

Download Baixar arquivo de áudio

As invenções de Garcia Marquez como jornalista




Este texto foi publicado na bbc. O autor, Néfer Muñoz, é um jornalista da Costa Rica com doutorado em literatura na Universidade de Harvard. O título de sua tese é “Romanceando o jornal e reportando o romance na América Latina”.

Em 1954, o jornal colombiano El Espectador envia um de seus jovens jornalistas, Gabriel García Márquez, para cobrir um grande protesto contra o governo na remota cidade de Quibdó, no estado de Chocó.

Após dois dias viajando na selva, García Márquez e seu fotógrafo chegam finalmente a seu destino e têm uma surpresa: a cidade de Quibdó está completamente calma. O correspondente local do El Espectador, Primo Guerrero, havia inventado fatos que narrou para a redação em Bogotá.
Ou seja, García Márquez percebeu que os protestos não ocorreram. Diante do panorama, o jovem jornalista diz a Guerrero que não quer voltar para a capital de mãos vazias. Os dois fazem um acordo e, “com tambores e sirenes”, convocam e organizam um protesto para escrever a reportagem e tirar as fotos.

A matéria é publicada no El Espectador com o título História íntima de uma manifestação de 400 horas e, nela, García Marquez afirma que o protesto durou 13 dias, “nove dos quais choveu de forma implacável”.

A reportagem dizia que, sob a chuva, os manifestantes choravam e se lavavam na via pública.
Anos mais tarde, ao se lembrar do episódio, em uma entrevista com o jornalista Daniel Samper, o escritor confessou: “inventávamos cada notícia…”

Uma das características dos romances de García Márquez era sua capacidade de inventar uma “realidade que transborda”, segundo escreveu o crítico Claudio Guillén. E isso está relacionado, em parte, com o uso da hipérbole, o exagero.

“O quanto é comum o exagero no jornalismo de García Márquez?” Para minha tese de doutorado, estudei a promíscua relação entre o jornalismo e a literatura na América Latina.

No caso de García Marquez, é possível detectar exageros e invenções em diferentes etapas de seu jornalismo. Em alguns momentos, esses exageros e invenções estão presentes de uma forma abundante e aberta e, em outras, de forma dosada e velada. Este é um fenômeno que se enquadra no que chamamos de realismo mágico de García Márquez.

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, em seu livro História de um Deicídio, documenta a invenção que García Márquez fez do protesto em Quibdó e disse que era parte de sua personalidade aventureira e sua satisfação pelos feitos e pelos personagens inusitados.

Segundo Vargas Llosa, “o que seduzia” García Márquez no jornalismo não eram as páginas editoriais, mas o trabalho da reportagem “que se mobiliza para encontrar a notícia e, se não a encontra, a inventa”.

O crítico Raymond Williams afirma que muitos dos textos jornalísticos de García Márquez são “anedotas ficcionais”.

Em 1948, o autor colombiano dedicou uma coluna de jornal ao poeta César Guerra Valdés na qual contava sobre quando ele visitou a redação do El Universal, de Cartagena, onde Márquez trabalhava.

Márquez elogiou o poeta e argumentou que ele era “autor de cinco livros fundamentais” e “um dos grandes revolucionários estéticos” da América Latina. A coluna ressaltava o calor das palavras do poeta e dizia que, apesar de passar desapercebido localmente, o escritor estaria provocando uma renovação na literatura latino-americana.
Entretanto, muitos críticos confirmaram que o poeta César Guerra Valdés nunca existiu.

Mais tarde, trabalhando no jornal El Heraldo de Barranquilla, García Márquez começa a publicar reportagens sobre a vida e os milagres de uma extravagante marquesa alemã, cujo marido havia ordenado o assassinato diversas vezes. Em uma de suas colunas, Márquez recria uma conversa fictícia com a alemã e, no diálogo, diz que todos os seus personagens são “imaginários”.

Entrevistei para minha tese Jaime Abello Banfi, diretor geral da Fundação Novo Jornalismo Iberoamericano (FNPI), a escola de jornalismo com sede em Cartagena das Índias fundada por García Márquez, em 1994.

Alberto Banfi afirma que há um discurso dúbio nos círculos jornalísticos e literários, já que, por um lado, a posição oficial dos manuais e convenções jornalísticas proíbe a inclusão de dados falsos nos textos de imprensa.

Entretanto, na prática nota-se como os grandes escritores usam licenças poéticas quando escrevem textos jornalísticos.

Em seu contato com García Márquez e com escritores como Tomás Eloy Matínez e Ryzard Kapuscinski, Alberto Banfi diz que eles admitiram ter inventado ocasionalmente em suas reportagens. Eles o fazem de uma maneira dosada, de uma forma que os leitores “não se dão conta”.

Isso sim é um reconhecimento de que o terreno entre a ficção e a não ficção é um campo movediço, cuja instabilidade aumentou ainda mais com as novas tecnologias, como a internet.

A relação porosa entre a ficção e a não ficção na América Latina não é um fenômeno novo. Márquez é parte de uma tradição latino-americana de escritores que ziguezagueiam entre a produção de notícias e contos, romances e poemas.

As trocas nos dois sentidos são comuns.

O crítico Aníbal González explica como na América Latina, em diferentes épocas, a literatura e o jornalismo têm adotado estratégias de dissimulação e imitação mútuas para evitar a censura perante a vigilância da lei, da religião e do Estado.

Um exemplo de jornalista e escritor, uma figura literária que Roland Barthes chama de ‘escrita-escritor’, é o primeiro romancista latino-americano José Joaquín Fernández de Lizardi.

Ele publicou em 1816, no México, El Periquillo Sarniento, considerado o primeiro romance latino-americano ao mesmo tempo em que editava o jornal O Pensador mexicano.

Desde então a lista de jornalistas escritores tem nomes como José Martí, Rubén Darío, Lima Barreto, José Marín Cañas, Roberto Arlt, Jorge Amado e Tomás Eloy Martínez, apenas para dar uns poucos exemplos.

E aqui me refiro a escritores que trabalharam em tempo integral nas redações.
Porque, se fizer uma lista de escritores latino-americanos que publicaram em jornais, teria que incluir praticamente todos.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Cerveró deu uma aula de Pasadena


Por : Fabiano Amorim



Tirou as dúvidas que Dilma criou

Ontem houve uma sessão da Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara dos Deputados em que o ex-diretor da área internacional da Petrobrás Nestor Cerveró foi prestar esclarecimentos sobre a compra de uma refinaria de petróleo em Pasadena no Texas em 2006.

O caso se tornou um dos principais temas discutidos pela imprensa nos últimos 30 dias, após divulgarem de maneira massiva que a Petrobrás teria gasto mais de U$1 bilhão para comprar uma refinaria que supostamente valeria apenas 42 milhões. Essa mensagem foi repetida à exaustão pela imprensa, por políticos da oposição e por muitos em postagens nas redes sociais.

Os números mencionados nessas matérias da imprensa estão repletos de informações incompletas, pois a intenção da imprensa não é de informar bem aos leitores e sim provocar um escândalo que prejudique a atual presidente e favoreça outro candidato à presidência de sua preferência.

No dia 19 de março, a presidenta Dilma Roussef, que em 2006 comandava o conselho de administração da Petrobrás, emitiu uma declaração dizendo que na época em que o conselho tomou a decisão, não constavam no resumo executivo (que teria embasado a decisão do conselho) informações sobre duas cláusulas, chamadas Marlim e Put Option. De acordo com Dilma seriam informações essenciais sobre o negócio. Ela disse que se tivesse conhecido essas cláusulas na época, não teria votado pela compra da refinaria.

Segundo Dilma, quem deveria ter inserido essas informações no resumo executivo era Nestor Cerveró, o diretor da área internacional da Petrobrás na época.

A partir daí, uma enorme “batata quente” foi jogada nas mãos de Cerveró, pois ficou no ar uma enorme suspeita de fraude ou negligência, em que ele seria o grande responsável.

Essas suspeitas cresceram bastante ao longo das últimas semanas por duas razões: a primeira foi a Petrobras resolver, bem no meio da chuva de denúncias da imprensa, demitir Nestor Cerveró do cargo de diretor financeiro da BR Distribuidora, cargo que ele ocupava até o mês passado. A segunda foi o fato de Cerveró ter ficado quase 30 dias sem dar qualquer declaração sobre o assunto.

O depoimento de Nestor Cerveró na Câmara

No início da reunião ocorrida ontem na Câmara dos Deputados, Nestor Cerveró falou por um longo período. Explicou todos os detalhes do negócio e defendeu a compra da refinaria. Disse que não enganou Dilma, que as cláusulas Marlim e Put Option não eram essenciais para tomar uma decisão sobre o negócio, que a compra teria sido planejada durante um ano e não 20 dias como a imprensa falava e que a refinaria de Pasadena não teria sido comprada pela antiga dona, a Astra, por apenas U$ 42 milhões e sim U$ 360 milhões.

Após as declarações de Cerveró, os deputados se revezaram em fazer declarações e perguntas para que fossem respondidas por ele.

Vários deputados da oposição elogiaram o trabalho dele, disseram que ele parecia ser um ótimo funcionário da Petrobras, que estava sendo acusado injustamente de algo por que ele não seria o responsável e que a cúpula do PT o estaria colocando como “bode expiatório” nessa história. Ele iria ter sua carreira totalmente destruída para salvar o governo do PT, que logo o abandonaria.

O discurso dos deputados tinha claramente a estratégia de fazê-lo dar qualquer declaração que culpasse alguém da cúpula do governo, principalmente Dilma. Qualquer declaração contra o governo seria prontamente usada nos dias seguintes para ataques da imprensa.

A todo momento diziam que as declarações da Dilma e as dele não combinavam (o que é verdade) e faziam perguntas como: “Quem é que está falando a verdade, você ou a Dilma?” “Quem está mentindo?” “Quem cometeu o erro, você ou ela? Você enganou a presidente?” “Você disse aqui que a compra da refinaria foi um bom negócio, mas o governo diz que foi um mau negócio. A Dilma e a Graça Foster estão equivocadas?”

Mas Nestor Cerveró, que estava acompanhado de seu advogado, certamente se preparou bastante antes de se submeter a essa sessão e percebeu claramente essa intenção dos deputados da oposição. Por isso se esquivou de qualquer resposta do tipo “Dilma mentiu”, “Dilma não leu tal documento” ou “Dilma está enganada”.

Sobre as divergências nas declarações


Creio que a raiz de todo esse barulho criado pela imprensa está na declaração de Dilma feita em 19 de março, quando disse que se soubesse das cláusulas Marlim e Put Option não teria comprado a refinaria de Pasadena. Hoje, após tudo que li sobre o caso, vejo que foi uma das maiores loucuras que alguém poderia ter dito.

Primeiramente porque a cláusula Marlim, que garantia que a Astra, a sócia do negócio com a Petrobrás, teria direito a 6,9% de lucros independentemente das condições de mercado, jamais foi aplicada ao negócio, pois não ocorreu o investimento bilionário que a Petrobras faria para fazerva refinaria processar óleo pesado.

Segundo, porque, pelo que já foi informado pelo ex-presidente da Petrobras Sérgio Gabrielli e por Nestor Cerveró, a cláusula Put Option é extremamente comum em quaisquer compras de empresas. É uma cláusula em que os sócios estabelecem em contrato como será feita a saída de algum deles do negócio. Como já foi dito, o mesmo Conselho de Administração da época aprovou a compra de uma refinaria em Okinawa, no Japão, que também continha a cláusula Put Option.

Quando Dilma emitiu uma nota dizendo que não teria comprado a refinaria de modo algum se soubesse dessas duas cláusulas, ela deu um grande tiro no pé. Apenas essas cláusulas não seriam justificativas para deixar de comprar a refinaria. Quando começou a demitir alguns diretores da Petrobras por causa do barulho da imprensa, o governo passou mais declarações de culpa. A oposição vibrou. O governo fez uma besteira atrás da outra.

Dilma deveria ter dito o mesmo que Cerveró e Gabrielli, que me parecem muito mais realistas. Deveria ter dito que a decisão da compra na época em 2006 se justificava, que era um negócio muito lucrativo, que a refinaria estava dentro do preço médio de refinarias daquele porte (algo que já comprovei), que era falsa a informação de que Pasadena tinha sido comprada por apenas U$ 42 milhões.

Deveria ter explicado que o negócio se tornou ruim por causa da mudança nos rumos dos investimentos da Petrobras, que passou a se dedicar ao Pré-sal, deixando de fazer o investimento planejado em Pasadena, e que a crise econômica internacional prejudicou muito o negócio.

Dilma deveria ter assumido desde o início que a refinaria deu prejuízo mesmo, mas que era apenas mais um dentre os centenas de negócios nos quais a Petrobras estava envolvida. Deveria ter dito que os 530 milhões de prejuízo que Pasadena teve não eram nada em comparação com os mais de 200 bilhões de lucro líquido da Petrobras obtidos de 2006 até hoje.

Enfim, a Dilma deveria ter partido para o ataque. Ficou somente na defensiva e foi bombardeada sem dó nem piedade pela imprensa. E acho bem feito, para aprender a ser mais esperta.

Às vezes tenho a impressão de que tem alguém ao lado da Dilma aconselhando-a a tomar as piores decisões possíveis e imagináveis, para prejudicá-la. Isso me lembra alguns episódios do seriado americano House of Cards, em que o vice-presidente americano bajula o presidente com frequência e a todo momento dá maus conselhos, com a intenção de prejudicá-lo, para garantir seus interesses. Parece ficção, mas diante de tantas trapalhadas do governo, faz sentido pensar nessa possibilidade.
Fabiano Amorim
Sobre o Autor
Fabiano Amorim é nascido em Palmeiras dos Índios, e atualmente mora em Maceió, Alagoas. Ele escreve no blog http://fabiano-amorim.blogspot.com.br. É autor do aclamado documentário “Derrubaram o Pinheirinho”, sobre a reintegração de posse do acampamento Pinheirinho em São Jose dos Campos.
Nossa fonte: Diário do Centro do Mundo

Tendler: agroecologia é fundamental na produção econômica e social



O novo filme de Silvio Tendler, "O Veneno Está na Mesa 2", denuncia a barbárie do agronegócio e mostra que há saídas para produção de alimentos saudáveis
Por Renato Cosentino e Alan Tygel (Do Rio de Janeiro)

O veneno está na mesa dos brasileiros, no país que mais consome agrotóxicos no mundo. Mas há alternativas viáveis de produção de alimentos saudáveis que respeitam a natureza, os trabalhadores rurais e os consumidores. É essa mensagem que o novo documentário do diretor Silvio Tendler, O Veneno Está na Mesa 2, quer passar.

O primeiro filme, que não foi lançado nos cinemas e seguiu um caminho alternativo de exibição através da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, teve uma recepção surpreendente e foi visto por mais de um milhão de pessoas.

Nesta entrevista, Tendler fala do novo filme, da sua relação com os movimentos sociais e da importância da alternativa agroecológica para a sociedade brasileira.

O filme será lançado nesta quarta­-feira (16), às 20h, no Teatro Casa Grande, no Leblon. A entrada é gratuita.


Porque lançar a continuação de "O Veneno Está na Mesa", o que ele traz de novo?
'O Veneno Está na Mesa' surgiu quando estive no Uruguai e o Galeno me disse que o Brasil era o principal consumidor de agrotóxico do mundo.

Voltei ao país com a missão de fazer um filme sobre isso, mas nunca imaginei que seria dessa envergadura. Conversei com o (João Pedro) Stédile (dirigente nacional do MST), e ele gostou da ideia, e nesse momento já estava sendo pensada a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Conseguimos com R$ 50 mil reais fazer o Veneno 1.

A campanha foi muito bem sucedida, e o lançamento superou as expectativas de muito filme dito de mercado. É incalculável o número de pessoas que assistiram esse filme, só no Youtube foram mais de 300 mil, fora as cópias que foram doadas, vendidas, emprestadas, copiadas, pirateadas; ele teve muito público.

Isso gerou uma discussão de que o filme deveria ser aprofundado, e de que deveríamos sobretudo buscar soluções, mostrar que existe alternativas ao veneno, que nós não somos um bando de irresponsáveis que queremos matar a humanidade de fome em nome de uma causa.

Na verdade, nós somos pessoas com sensibilidade, com uma visão de futuro. Pensamos no Veneno 2 em duas partes. Um terço do filme, que mostra os problemas, que só se agudizaram do primeiro Veneno para cá. Hoje você tem entidades científicas da maior responsabilidade que não hesitam em afirmar que existem elementos cancerígenos fortes nos agrotóxicos.

Antes nós tivemos essa dificuldade, poucas pessoas tiveram a coragem de dizer. Ao mesmo tempo dois terços do filme mostra pessoas, comunidades, sob as mais diversas formas, que lutam para preservar a natureza, garantir o alimento, o sustento de todo mundo, com qualidade de vida.

A distribuição alternativa do filme foi então um dos fatores desse alcance surpreendente?
O cinema de shopping está em absoluta crise. O cinema nacional hoje, pelas estatísticas oficiais, atinge 15 milhões de espectadores. Nós já tivemos 5 mil e tantas salas de cinema, hoje temos duas mil e novecentas, 90% delas ficam em shopping, em 9% do território nacional.

O número de espectadores que a Ancine se gaba são 15 milhões de espectadores ao ano. Se você considerar que quem vai ao cinema vai duas vezes ao ano, na verdade você reduz a metade, são 7,5 milhõs de espectadores. Num universo de 200 milhões de cidadãos, esses números não representam nada.

Ou seja, eles desconsideram o povo brasileiro como espectador, eles não contabilizam escolas, universidades, lages, comunidades, centros comunitários, assentamentos, não consideram nada disso. Eu considero espectador até mesmo aquele que assiste numa cópia pirateada.

Quem assiste o filme é espectador, não me interessa como ele assistiu, interessa que ele assistiu. E essa grande massa assiste, ela compra na Rua Uruguaiana a cinco reais, ela se vira e assiste.

Então, o Brasil tem muito mais que 15 milhões de espectadores, mas pra Ancine só conta código de barras. Eles não contabilizam cinema, espectador, contabilizam ingresso vendido, que é outra coisa. E nós partimos da premissa que nós não vendemos ingresso, a gente faz filme pra ser visto.

Vocês viajaram bastante pelo Brasil para fazer esse filme, o que você poderia destacar de aprendizado dessas viagens?

Fomos ao Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Rio Grande do Norte, Brasília, viajamos bastante. A ideia de ambos "Os Venenos" é não localizar numa região, mas mostrar que o problema da agricultura brasileira é nacional. A abertura do filme é propositadamente com o Boaventura de Sousa Santos, que é um dos maiores intelectuais do mundo, muito respeitado na comunidade acadêmica e na militância social. Ele defende algo que vem se tornando uma evidência: o respeito aos saberes ancestrais.

A gente durante muito tempo viveu emparedado pelo cientificismo, que só as ciências poderiam trazer mudanças. E ai vem intelectuais, não só ele, mas da gama dele, e dizem que não.

Você tem gente, tem culturas milenares, que praticam uma agricultura sábia, ecológica, com equilíbrio, com defesa do ambiente e do homem, e que é capaz de nutrir a humanidade. Eu acho que essa é a grande lição de moral. Se o filme tem uma alguma moral, é essa.

O filme foi feito em parceria com o movimento social. Como se deu essa colaboração?
Eu sou um parceiro dos movimentos dispostos a mudar a vida. O meu cinema é um cinema político. Eu fui acusado disso durante muito tempo, até passar essa onda das pessoas gritando que o cinema não podia ser político, que cinema político não atingia ninguém, que ninguém via, ninguém gostava.

Então essa parceria minha com o movimento social ela antecede os próprios "Venenos". Eu já fiz filme de propaganda para partido político de graça. Porque eu não tava vendendo sabonete, eu tava fazendo política, eu tava apoiando as mudanças que o Brasil pedia. Eu já fiz filmes que sei que circulam no movimento social de forma pirata, mas eu prefiro que seja pirateado do que não ser visto, do que ficar na gaveta.

Meu filme sobre o Milton Santos é um ícone, Utopia e Barbárie, Marighella, ou seja, meu cinema é ligado aos movimentos sociais. Com trabalho conjunto com o movimento social oficialmente eu tenho o Veneno Está na Mesa 1 e agora o Veneno 2. Mas já fiz muitas coisas pro MST, e tenho muito orgulho.

Eu acho que se tem um movimento importante no Brasil é o movimento pela reforma agrária, é o movimento pela reforma urbana. As coisas mais bonitas que já aconteceram na minha vida, eu já tive alguns momentos de muita emoção. Um quando eu apresentei o Milton Santos na Escola Florestan Fernandes do MST e a outra foi no Rio de Janeiro.

Tinha um cinema na Cinelândia, que era um clássico do Rio de Janeiro dos anos 50, todo de mármore, bonito, que estava abandonado. Naquela semana as pessoas tomaram aquele prédio, os sem ­teto tomaram o prédio.

Na noite, acho que era véspera de 7 de setembro, algo assim, eles ocuparam o cinema, um sem­ teto se paramentou de lanterninha, puseram uma carrocinha de pipoca dentro do cinema, e as pessoas assistiram sentadas no chão de mármore durante quase duas horas o Milton Santos.

Foi uma das coisas mais lindas que aconteceu na minha vida. Ai eu falei: esse cinema que eu faço tem sentido, é junto com o movimento social, e é isso que me interessa na vida.

Estamos descomemorando os 50 anos do golpe, e temos falado muito da história da reforma agrária, o discurso do Jango.

Agora lancei duas séries, "Os advogados contra a ditadura", e "os militares que disseram não". Falei daqueles que se opuseram ao golpe, que são setores fundamentais mas não muito conhecidos.

Você conhece o nome dos generais golpistas, dos torturadores, mas você não conhece numa escala popular, não tem o reconhecimento, os militares que foram legalistas, foram constitucionalistas, que ficaram até o final ao lado do Jango, que mesmo depois do golfe ficaram militando e resistindo.

Você não conhece os advogados que eram advogados de perseguidos políticos, num país que não tinha nem habeas corpus. E eu fiz 5 programas de tv de 50 min cada um, cada série, e dois longas metragens. Tenho muito orgulho das coisas que faço, posso falar de peito erguido das coisas que faço.

Tem algum outro filme que você está fazendo agora?
Tem, eu não paro. Se você parar vocẽ morre, atrofia. Vai ficando velho vai enferrujando. Terminei junto esses três filmes. E agora to fazendo A Alma Imoral, do Nilton Bonder, e o assunto é sobre o exílio do poeta. Você não houve falar sobre o exílio de um poeta, e eu quero falar sobre isso.

Estamos lançando o filme num momento que a bancada ruralista tem feito ataques mais fortes a legislação dos agrotóxicos e ao mesmo tempo vivendo um clima pré­-eleitoral.

Esse filme consegue ter um impacto da opinião pública e trabalhar num sentido mais amplo da luta contra os agrotóxicos?
Eu acho que sim. A política não se faz a luz do dia, a política é uma coisa que você negocia, não é muito clara. Você tem hoje vertentes da sociedade que estão negociando para que se monte uma grande frente popular que faça frente a esse grupo do agronegócio.

Hoje você tem uma bancada ligada as negociatas, a esse Brasil feio, de mais de duzentos parlamentares. A gente tem que construir os outros duzentos. A gente tem que ter um preparo pro enfrentamento político também.

É onde eu tenho divergência com alguns companheiros militantes que eles querem abandonar as frentes de ação política. Eu acho que a frente de ação política é tão importante quanto a gente na rua, fazendo filme, debatendo.

Mas eu acho que a gente tem que construir, aumentar muito a bancada das pessoas que antagonizam com a bancada ruralista. A gente tem que quebrar esse monólito. A gente tem que fazer alianças, porque política é isso.

Se a gente conseguir roubar 12 deputados... não significa com isso que você vai abandonar as outras lutas, você vai continuar na rua lutando, falando o que você pensa, o que você quer.

Mas é preferível ter parlamentares que não são puro sangue mas estão aliados a gente, do que buscar a perfeição e não ter nada. É uma maneira reformista de pensar, mas que eu acho que tem sua razão de ser


Por que você acha que existe este desânimo com a política institucional?
Eu acho que as pessoas que estão desanimadas tem sua razão de ser. A gente engoliu muito sapo estes tempos. A gente vem engolindo muitos sapos, e vai cansando. Se a gente tem que dar nome aos bois, as últimas coisas que vem acontecendo há um tempo já com o PT, elas provocam um certo desencantamento.

Eu que nunca fui petista estou desencantado, eu não era petista mas eles tinham um discurso da pureza, e eles também sujaram as mãos. Se bem que o Sartre sempre disse que em algum momento é importante sujar as mãos. Mas eles eram puristas, eles não votaram no Tancredo Neves, não assinaram a Constituição.

Eles sempre fizeram uma política purista e hoje você tá vendo o que tá virando essa pureza toda. Pureza virou pó. Isso provoca um desencantamento mesmo naqueles não tendo sido do PT, petistas, eles acreditavam que o PT apresentava um projeto diferente, e que se desse certo poderia ser um projeto de futuro pro país.

Agora o PT negocia também, é mais um partido a negociar, uma bancada infindável de partidos.

Mas eu acho que não é porque o PT virou isso que a gente vai abandonar a política. Vamos buscar outros vieses, outras alternativas, vamos buscar outras formas de fazer política e outras formas de agir dentro da política.

Você acha que podemos nos espelhar nos exemplos latino­americanos?
Ninguém tem respostas. Hoje ninguém tem respostas. A gente não deve se espelhar em modelo nenhum, acho que devemos construir o próprio modelo. Você hoje não tem mais modelo, tem ações. Não dá pra dizer que o Maduro é igual ao Chavéz. O Raul não é igual ao Fidel, o país hoje é outro.

O carisma de um e o de outro não é o mesmo. O Evo Morales não é igual a eles. O mais interessante deles todos é o Pepe Mujica. Agora também não é o modelo, Uruguai é um país pequenininho, é um país onde você resolve os problemas de outra forma.

A maior massa da população uruguaia sempre foi urbana, o campo sempre foi vazio. Quando se chegou lá nos anos 60 querendo fazer um foco guerrilheiro, perguntaram: com bois e vacas? Você não tem camponeses na quantidade que tinha em Cuba.

Você não imita o modelo, acho que a gente tem que procurar construir o nosso próprio modelo. Um modelo que tem que ser não só avançado como original. Você volta no velho Jango e vai ver que propõe reforma agrária, reforma urbana, controle da remessa de lucros. Foi um governo nacionalista. A reforma agrária do Jango não era estatizante, ela criava o pequeno proprietário rural, e é um bom modelo a seguir. É só o país retomar a rota.

Esse novo modelo necessariamente passa pela agroecologia?
Não tem sentido você construir uma economia baseada na destruição da natureza. Isso não é economia, isso é catástrofe. Você criar um modelo econômico perverso, isso não é o país que a gente está construindo, isso é a barbárie.

Então eu acho que a agroecologia é fundamental como forma de produção econômica, social e de desenvolvimento. Eu tenho plena convicção que estamos fazendo o filme certo no caminho certo. Estamos no momento que a gente vai de alguma maneira poder colaborar com este debate, e estou muito feliz por isso.

Na abertura que no filme passado eram 20 entidades que assinavam e hoje você tem 80, é mostrar que há gente no Brasil preocupada com esse projeto, que nós não estamos sós, e um filme como esse é um filme agregador.

Nós estamos em um momento de descomemoração dos 50 anos do golpe, mas também estamos num momento de projeção dos próximos 50, 100 anos. E é isso que motiva esse movimento. O que nos interessa é discutir o passado pra não repeti­-lo. A gente fala do passado, mas está ancorado no futuro.

Nossa fonte: Página do MST

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Melgarejo: CTNBio ignora impactos da aprovação de transgênicos


Por José Coutinho Júnior (Da Página do MST)

Desde 26 de março, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) tem um novo presidente. O professor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) Edivaldo Domingues Velini, que entrou na comissão em outubro de 2013, foi indicado pelos outros membros para assumir a direção do órgão.

A escolha gerou preocupação para organizações e movimentos sociais do campo, pois o presidente declarou em 2011, em entrevista no site da Monsanto, que “ainda não há um herbicida que possa ser comparado ao glifosato em termos de segurança de uso e benefícios para o agricultor”.

E acrescentou que “não há o que contestar sobre uma tecnologia que alcança este nível de aceitação em escala mundial [que é produzido em] quantidade é suficiente para tratar 1 bilhão de hectares de lavouras”.

Para Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo que participou por seis anos da CTNBio, a escolha do novo presidente não levou em conta a dinâmica da comissão. “É surpreendente que o atual presidente tenha entrado na CTNBio e já assumido a presidência. É como se ele tivesse entrado para ser presidente, como se deixasse de ser relevante para a CTNBio o presidente ter vivência dentro da comissão para mediar as relações que lá ocorrem”.

Em entrevista à Página do MST, Melgarejo discute o impacto que as decisões tomadas pela CTNBio tem na sociedade, analisa como a proximidade de muitos de seus membros com setores do agronegócio é perigosa para a soberania do país e critica a forma com que a comissão libera transgênicos.

“Os membros da CTNBio estão tomando decisões que tem consequências políticas, sociais e ambientais brutais, mas se comportam como se fossem produtos neutros, que pudessem ser analisados olhando exclusivamente a composição genética, uma parte da planta que é jogada no mercado”.

Confira a entrevista:

Quais as funções do presidente da CTNBio?


O presidente coordena as relações lá dentro, media as discussões e representa o conjunto para a sociedade. Ele também é o responsável por consultar o grupo sobre temas importantes, colocar em plenária as discussões, o que nem sempre é feito em tempo.

Por ser uma balança entre as posições do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Saúde, Meio Ambiente e do outro lado o Ministério da Agricultura, o presidente deve ser isento. Portanto o presidente da CTNbio deve ser alguém com vivência lá.

É surpreendente que o atual presidente tenha entrado na CTNBio e já assumido a presidência. É como se ele tivesse entrado na CTNBio para ser presidente.

Nos poucos momentos em que esteve lá, ele talvez tenha tido alguma dificuldade de interpretar as várias correntes de pensamento que circulam lá dentro e o acúmulo de acordos estabelecidos ao longo dos anos de como interpretar as normas da CTNBio. Tem várias nuances que exigem vivência, que é mais importante para o presidente do que para os membros comuns.

É como se deixasse de ser relevante para a CTNBio o presidente ter vivência para mediar as relações que lá ocorrem. Não é que ele não tenha competência para isso, talvez até tenha, mas é importante conhecer o que ocorre dentro da CTNBio para presidir a comissão.

Como a proximidade de muitos membros da comissão com as empresas do agronegócio afeta as decisões tomadas na CTNBio?

Dentro da CTNBio, tem pessoas radicalmente confiantes nos transgênicos, tem pessoas radicalmente refratárias a essa tecnologia, e um grupo de pessoas com dúvidas em relação a esta tecnologia e seus impactos.

Em tese, a CTNBio deveria ser composta em sua maioria dessas pessoas que querem entender melhor, e tendo dúvidas, examinam com cautela todos os processos, levando a segurança em conta. Mas não é isso que acontece.

Mas o grupo majoritário na CTNBio acredita que os estudos feitos pelas próprias empresas defendendo os transgênicos são suficientes. O que não é verdade: os membros da comissão estão tomando decisões que tem consequências políticas, sociais e ambientais brutais, mas se comportam como se fossem produtos neutros, que pudessem ser analisados olhando exclusivamente a composição genética, uma parte da planta que é jogada no mercado.

É um reducionismo absurdo, pois despreza todas as relações que esse produto tem com outros organismos. A comissão centra sua análise na genética e diz que “este gene gera esta proteína, e olhando essa proteína não causa problemas”.

Essa análise não leva em conta que essa proteína permite que a planta tome um banho de veneno, que ela não tomaria caso a proteína não estivesse lá. E nos testes não se aplica o veneno; o transgênico é consumido de uma forma não produzida no mundo real.

Além disso, os testes são de curto prazo, não levam em conta as transformações realizadas ao longo da vida do animal.

São falhas grandes no processo de análise: as plantas são testadas em condições ótimas nos laboratórios, e nenhum ambiente real é ótimo. Vão existir condições de estresse nesses ambientes, e os membros da CTNBio deveriam exigir testes em todos os biomas, nas condições reais.

Os membros da CTNBio também desconsideram alertas de pesquisas que surgem em outros países, mostrando que podem haver problemas novos. Afirmava-se quando entrei na comissão que as proteínas BT, que matam lagartas, seriam destruídas no intestino, não sobrevivendo à digestão.

Mas a proteína foi encontrada no sangue de bebês, passando pelo fio da placenta. Que problema isso pode causar no bebê? Nós não sabemos, pois não temos estudos com animais prenhos comendo milho transgênico.

Então quando se faz um estudo daqueles no qual os ratos, alimentados com milho transgênico, apresentam câncer depois de 90 dias, nós percebemos que damos alimentos com esse milho na papinha das crianças, que isso entra no organismo pelas placentas, isso nos preocupa e constrange por perceber que dentro da CTNBio, onde boa parte dos membros deveria se pautar pela dúvida, o grupo majoritário se pauta pela confiança, e a confiança não ajuda no progresso da ciência, o que ajuda é a dúvida.

O governo brasileiro favorece o modelo do agronegócio. As posições da CTNBio não estão de acordo com essa visão do governo?

A influência do agronegócio resulta numa posição mais imediatista em relação a estes temas. Passa a ser mais importante uma safra do que as decisões que afetam o longo prazo.

Um exemplo bom é o da lagarta Helicoverpa Armigera, que apareceu no Brasil quando o milho BT ocupou a maior parte das lavouras e fez desaparecer outras espécies de lagartas. O sumiço destas fez desaparecer seus predadores, a Helicoverpa surgiu e ficou fora de controle.

Para controlar a nova praga, o governo autorizou importar um veneno que é comprovadamente danoso para o sistema nervoso dos humanos. Foi tomada uma decisão no interesse de salvar uma safra comprometida, usando um veneno danoso, contrariando recomendações da Anvisa.
O que não quer dizer que não existam questionamentos ou posições contrárias por parte do governo. Os Ministérios da Saúde, Meio Ambiente, o Conselho Estadual de Segurança Alimentar (Consea) tem posições contrárias, e as representantes do Ministério da Agricultura na CTNBio, apesar de votarem a favor da liberação de transgênicos, fazem pareceres coerentes e apresentam questionamentos e argumentos para serem debatidos.

Há um bloco alinhado pedindo estudos quando estes são insuficientes, e pelo que vi até hoje, os estudos sempre são insuficientes. Parece até uma atitude de birra pedir mais estudos, mas de fato são necessários mais estudos em todos os casos. Eu não acredito que, se reavaliássemos qualquer transgênico liberado no Brasil de forma independente, a avaliação com base nos dados que temos permitiria aprovação.

E tomara que eles estejam certos e nós errados, que a nossa preocupação seja ingênua e boba. Infelizmente o acúmulo de informações vem demonstrando cada vez de maneira mais consistente que eles estão errados, e não sei porque não admitem o erro.

Por que não há maior participação da sociedade nas reuniões da comissão?
As sessões da CTNBio são em tese abertas para a sociedade. Mas como os agricultores e organizações não tem o patrocínio que as empresas tem, apenas os representantes das empresas acompanham presencialmente as decisões, movimentações e discussões que ocorrem lá dentro e exercem uma pressão nas pessoas que votam.

Mesmo que essa pressão não consiga ser medida, é claro que há interesses em jogo e os ficais destes interesses estão lá olhando como votam as pessoas que decidem seus interesses.

Uma maneira de resolver isso é se a sociedade pudesse acompanhar as plenárias da CTNBio, onde são tomadas as decisões. As reuniões abertas deveriam ser transmitidas pela internet, porque aí uma liderança de movimento social poderia acompanhar de qualquer lugar do país.

Essa transparência é necessária. Se o que é discutido lá é para a segurança da sociedade, por que não mostrar? Por que discutir com portas fechadas e apenas com o agronegócio assistindo?
Existem divergências entre os interesses das empresas?
Sim. Quando eu me posiciono contra o 2,4D, que é um veneno mais perigoso para a sociedade do que o glifosato, a Monsanto gosta, porque o milho e soja tolerantes ao 2,4 D vão substituir os tolerantes ao glifosato. Então na defesa da sociedade, de se protejer do veneno, o que acontece na prática é que apoiamos outro veneno que já foi aprovado e não vai ser reavaliado.

Sempre que surge um veneno novo, mesmo a CTNBio preocupada com a defesa da sociedade termina atuando como elemento de proteção das empresas que já aprovaram seus produtos. Isso deveria ser rediscutido.

A bancada ruralista apresentou uma proposta para criar uma comissão similar a CTNBio para a aprovação de agrotóxicos. Como você vê essa proposta?
Seria um desserviço muito grande à segurança alimentar e ambiental. Comprometeríamos ainda mais os acordos que o Brasil faz. Recentemente a China devolveu grãos com resíduos de agrotóxicos; a Rússia não quer mais importar transgênicos. Se abrirmos esse espaço para que as empresas tenham uma incidência maior do que é produzido, aumenta nossa vulnerabilidade e diminui nossa capacidade de competição autônoma no mercado internacional. Vejo isso como uma ameaça a ser evitada.

A CTNBio não é um exemplo a ser seguido para se criar uma comissão que tome decisões a respeito de segurança. Essa comissão pretende apenas viabilizar uma aprovação mais rápida de produtos que deveriam ser analisados de forma mais lenta e cuidadosa. A agilidade serve aos interesses do negócio, não da segurança do país.

Como a CTNBio deveria ser para atender aos interesses da sociedade?
Ela deveria ser apoiada por um órgão público que financiasse estudos independentes e checasse os estudos feitos pelas empresas. Deveria obrigar as empresas a não apresentar somente os dados médios da produtividade de um produto novo, e sim mostrar os dados brutos e como se chegou a este número.

Deveria possibilitar reavaliações periódicas quando novos estudos surgissem. Ter uma composição mais equilibrada, preocupada com o ambiente, com a saúde e não só com a tecnologia em si. A sociedade precisa ter uma participação maior, com reuniões abertas, transmitidas, e deveria haver audiências públicas para todos os casos polêmicos.

A comunidade acadêmica, as organizações ambientais, de defesa do consumidor, deveriam ter representação, e a CTNBio deveria funcionar como uma instância consultiva. Que o consenso de todas as participações gerasse uma recomendação que fosse avaliada por uma instância superior que decidisse e levasse em conta todos os aspectos políticos envolvidos.

Na lei de biosegurança está previsto essa instância superior, que é o Conselho Nacional de Biosegurança (CNBS), que deveria avaliar a importância e a recomendação de liberar ou não da CTNBio.

Esse conselho não se reuniu uma só vez durante o tempo que estive na CTNBio. Se reuniu ao longo da história três ou quatro vezes, e simplesmente referendou as decisões da CTNBio, que como é hoje, atua como uma instância deliberativa, e a decisão tomada lá não é contestada.

A alimentação como um direito

O diretor do Ibase Cândido Grzybowski defende que a democracia deve ter um olhar cuidadoso e porque não radical para a questão da segurança alimentar
Publicado no Ibase http://www.ibase.br/ em 15/04/14

Por Cândido Grzybowski, Sociólogo, diretor do Ibase

O anúncio sobre a alta da inflação em março veio com a informação de que os preços dos alimentos novamente pesaram mais. Quem vai ao mercado atrás de alimentos sabe disto muito bem. Na verdade, se a gente considerasse a inflação específica dos preços dos alimentos ela seria muito maior que o tal índice médio. Sem dúvida a inflação de alimentos é um pesadelo muito grande para todo mundo, mas especialmente para quem tem o salário mínimo como referência de sua renda doméstica. Um real a mais aqui, um e setenta centavos acolá, dois e trinta ali, e assim vai. Tudo isto vira uma conta que dá como resultado real a redução da quantidade e da qualidade de alimentos na sacola de compras.

Mas a fome em casa não é gerida pelo tal mercado. As necessidades e desejos de comer se inscrevem na própria qualidade de vida que a gente leva. O alimento é central, pois sem ele nem há vida. Mas não é só isto. Alimentar-se tem tanto uma incontornável determinação fisiológica natural – a necessidade de consumo diário de calorias, proteínas e tudo mais – como uma profunda dimensão cultural e civilizatória. Alimento é convivência em família, é celebração e festa, é identidade cultural. Pensemos na feijoada aqui no Rio, no vatapá na Bahia, no pato ao tucupi no Pará, na polenta com frango dos italianos no Sul, no churrasco gaúcho – meio hegemônico na questão de carnes entre nós. São alguns dos exemplos mais claros de comidas associadas a verdadeiras culturas e identidades que resultam na vibrante diversidade de nosso povo. O direito ao alimento envolve tudo isto e é parte dos direitos fundamentais de nossa Constituição Cidadã. Soberania e Segurança Alimentar são bandeiras cidadãs no Brasil e mundo afora que clamam por políticas públicas para assegurar o direito de todas e todos ao alimento adequado à vida e à própria cultura.

Só que o mercado não se organiza em torno dos direitos e nem se limita pelos direitos. O mercado e os preços são uma grande invenção humana para realizar as trocas de produtos e serviços. Afinal, na medida em que as sociedades se complexificam e aumenta-se a divisão do trabalho, não há como funcionar sem troca. A moeda, como expressão e medida do valor, e as trocas são indispensáveis. Nunca é demais lembrar que foi nas praças públicas que surgiram os mercados, e ali também surgiu a própria democracia. O problema é que os mercados se autonomizaram da democracia, se tornaram livres e… escravizaram as pessoas e a própria democracia. Até a fome está subjugada pelo mercado. Isso é aceitável?

Pelos preceitos dos oráculos da economia, para enfrentar a alta de preços de alimentos o jeito é ajustar a fome aos preços e ao mercado. Buscar alimentos mais baratos, substituir alimentos, se necessário for, reduzir o consumo. Enfim, segundo a economia, não dá para controlar o mercado. É mesmo? E como ficam os direitos fundamentais de cidadania? Eles também dependem do mercado? Não é mercado demais e democracia de menos?

O problema é que o direito cidadão à Soberania e à Segurança Alimentar não se limita aos preços. Os preços no mercado não mostram as outras qualidades fundamentais que o produto (o alimento, no caso) carrega e não são evidentes. Alguém sabe que quantidade de agrotóxico – veneno que pode fazer mal e matar – está num simples pé de alface? No feijão? No tomate e no pimentão? No arroz de cada dia? Naquele franguinho gostoso? Na margarina e no óleo de soja? O agronegócio, o modelo empresarial de produção de nossos alimentos, de quase todos eles, tem o uso intensivo de agrotóxicos com uma condição. Somos o país de maior consumo de agrotóxicos por hectare do mundo. Sem falar que alguns agrotóxicos usados aqui já são proibidos há muito tempo em lugares onde se leva a sério a questão de saúde associada ao alimento. Não procure nos rótulos das embalagens algum indício do veneno usado, pois não existe!
Além dos venenos, escondidos naquela beleza de folhas, grãos e carnes, temos ainda a questão dos alimentos transgênicos. Hoje os transgênicos já ocupam um lugar de destaque na composição de nosso prato, em casa e no restaurante. Você sabia? Comecemos por reconhecer que, no mínimo, existem controvérsias científicas já provadas de que os transgênicos não são um alimento seguro. Um cientista francês, contestado pelas grandes multinacionais dos grãos, provou por “A mais B” que ratos comendo milho transgênico durante mais tempo do que os tais quatro meses de teste estipulados por órgãos reguladores, morrem de câncer simplesmente todos, enquanto os alimentados de outra forma continuam vivos. E aí? Não somos ratos, evidentemente! Vamos ter que testar em humanos o risco e só então exigir mais precaução na liberação de produtos transgênicos? O princípio da precaução faz partes dos acordos da Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU de 1992, realizada no Rio, a Eco-92. Bem, acordos sim, mas negócios e livre mercado à parte.

No Brasil adotamos quase por completo a liberação dos transgênicos. O caso mais complicado é de milho e soja, de que somos grandes produtores e exportadores, e que são essenciais na teia alimentar de hoje em dia, no nosso prato. No Brasil se adota parcialmente o T, de transgênico, em alguns produtos. Escrito em letra bem pequenina no rótulo, mas está lá. Quem vê? Bem, está na maior parte das embalagens de óleo de soja e de milho. Os que tem T são mais baratos – olha aí o tal mercado. Mas margarina é feita de soja, exatamente pelas mesmas grandes corporações de agronegócio do óleo de soja. Alguém viu o T no rótulo das margarinas? Mas o problema não acaba aí. Frango come ração com soja e milho, muito provavelmente transgênicos. A vaca, do leite, manteiga e queijo, também come ração. O porco, hoje tão baratinho, é um transgênico completo pelo que come. Seus derivados deliciosos como a linguiça, o bacon, o salame e aqueles maravilhosos complementos da feijoada, todos têm alta dose de transgênicos. Onde está o tal T pequeninoo, difícil de ver? Pela via do mercado, não temos escolha: comemos transgênicos! Será que segurança alimentar é comer uma bomba assim?

Tem outro problema ligado a esse mercado de alimentos: a procedência. Pode ser, e muitas vezes é, que o preço de certas frutas importadas da Argentina ou do Chile sejam mais baratas que as nossas. Falo de uvas e maçãs, por exemplo. O Brasil é talvez o maior pomar do mundo, pela quantidade e pela diversidade tanto de frutas nativas como das chamadas exóticas. Pois bem, o Brasil é o maior produtor e exportador de laranja e cítricos em geral. Precisa importar laranja e tangerina do exterior? Tornamo-nos um dos grandes produtores de maçã – um fruta essencial, segundo médicos e nutricionistas. Por que importar maçãs da Argentina? Somos um dos maiores produtores de uva de mesa, infelizmente não adequada para vinhos. Será que precisamos de uvas de mesa do Chile?

Ainda não é uma prática recorrente a indicação de procedência dos alimentos oferecidos nos mercados. Aliás, é coisa rara. Aqui estamos diante de uma grande questão de sustentabilidade associada ao alimento. As culturas alimentares se desenvolveram graças à biodiversidade e aos próprios sistemas ecológicos do Planeta Terra. Como humanos, soubemos tirar partido do que a natureza nos propiciava. A migração de plantas, como dos próprios seres humanos, é um direito. Ao menos eu reconheço e pratico na minha pequena chácara, dada a minha origem e tradição de camponês. Hoje temos uma riqueza de plantas e animais, base de alimentos, muito diversificada e espalhada pelo mundo, graças inclusive ao próprio engenho humano, que ajudou a descobrir ambientes e adaptar vidas de plantas e animais a eles. Mas uma coisa é produzir no Brasil o abacate, originário do México, que se dá muito bem aqui, e outra é importar. Isto vale para muitos alimentos. Um princípio básico da sustentabilidade hoje são os circuitos curtos: produzir aqui para consumir aqui. Claro que isto não resolve todas as necessidades e desejos alimentares. Mas o essencial pode e deve ser resolvido por nós aqui, sim! Que sentido tem exportar maçãs e importar maçãs? Onde está a lógica de exportar uvas do vale do São Francisco e importar uvas do Chile? Por que importar alhos e cebolas se podemos produzir tais hortaliças por aqui, até melhores? Como cidadão consumidor e preocupado com a sustentabilidade da vida – que nada tem a ver com negócios “sustentáveis” que alimentam as trocas internacionais – reivindico o direito de ser informado sobre a origem do alimento que estou comprando.

Enfim, como dá para ver, tratar de alimento é lidar com algo que condensa contradições de um direito humano básico. As questões são muitas. O preço dos alimentos é, na verdade, muito mais do que preço. Nele está encoberta toda uma história de soberania e segurança alimentar, essencial para pensarmos a sustentabilidade da vida e do planeta. Democracia para valer deve tratar disto com o cuidado e a radicalidade que merece.

Movimento de agricultura urbana lança site com guia de orgânicos para facilitar a vida dos paulistanos

 
mudaSP curvas.JPG
símbolo campanha_agrotox.jpg        banner-728-90.jpg

  
Ficou mais fácil localizar restaurantes, feiras e hortifrutis que comercializam produtos orgânicos e agroecológicos em São Paulo: o Movimento Urbano de Agroecologia (MUDA) acaba de lançar um site com um amplo mapeamento das opções na capital paulista.

O  www.muda.org.br foi criado com o objetivo de se tornar uma referência em agricultura urbana, gastronomia saudável e sustentável, produção local e consumo de orgânicos, para todos os paulistanos utilizarem no seu dia-a-dia. Para isso, oferece uma ferramenta de geolocalização, com identificação fácil e clara dos restaurantes que trabalham com alimentos orgânicos, das feiras e locais que comercializam orgânicos e das instituições que trabalham com o tema. 

Para quem quer se envolver mais e se engajar há também indicações de como participar. São orientações desde como participar dos plantio coletivo nas hortas da cidade até lista de filmes para organizar cineclubes com amigos, família, comunidade para sabermos mais.  Na seção “Faça Você Mesmo”, o internauta encontra todo tipo de dica sobre como iniciar um horta,  plantar em seu quintal ou como fazer uma horta vertical em espaços menores.

Para manter o mapa constantemente atualizado, o site conta com uma ferramenta de cadastramento, para que mais estabelecimentos e produtores possam se inserir no guia.  O site oferece ainda um extenso conteúdo com notícias, vídeos, manuais e publicações, bem como uma agenda compilando todas ações e eventos da área.

SOBRE O MUDA: O Movimento Urbano De Agroecologia – MUDA é fruto da união de indivíduos que buscam uma nova maneira de viver a cidade e se relacionar com o campo. Na criação de uma cidade mais verde, e buscando a reconexão e respeito com a natureza e a valorização do agricultor familiar, o MUDA quer integrar todos que compartilham esse desejo a se juntar para promover intervenções e ações de uma maneira divertida e criativa para realizar nosso sonho.

Para mais informações:
Susana Prizendt – contraosagrotoxicossp@uol.com.br
Telefone: (11) 3685-3958

terça-feira, 15 de abril de 2014

Mafalda, à beira dos 50140415-Mafalda3

Nasceu para que seu criador, de olhar estrábico e delicado, suportasse aridez e banalidade da vida. Não se adapta. Meio século depois, tornou-se mais inspiradora que nunca
Por Cibelih Hespanhol
O mundo, como se apresentava para as retinas de Joaquín Salvador Tejón, sempre esteve um pouco desfocado. Algo não estava certo naquelas aparências e formas – naquela maneira de se ajeitar do mundo – que espiava em seu olhar estrábico o argentino de Mendonza; a ponto de parecer inevitável àquele homem, de palavras secas e pensamento ateu, que com o passar do tempo e a permanência das coisas sua visão se tornasse, afinal, delicada demais para esta vida estranha.
Esta visão delicada, problema que não se resolvia, só teve uma cura, por fim: foi para o papel. Nos anos 60, Joaquín, o Quino, via nascer de seu ofício de desenhista uma filha que nunca planejara ter – Mafalda, a menina de fita vermelha, língua afiada e ideias anticonformistas, que neste ano de 2014 torna-se una niña de cinquenta anos.
140415-Mafalda6
Nunca censurada, Mafalda passou ilesa pelo golpe militar que não podia imaginar “conteúdo subversivo” em uma HQ de personagens infantis. Mas de dentro de sua inocência, com seu vestidinho rodado, na companhia de Felipe ou de Liberdade, ela é a própria enfant terrible – capaz de soltar, sem pudor algum, as piores verdades, e as melhores perguntas, tão embaraçosas para o mundo dos adultos.
Em 1963, Mafalda nasceu pela primeira vez em um anúncio publicitário que, para o posterior deleite de muitos, nunca deu certo. Um ano depois, em 29/9/64, nasceria de novo, e dessa vez pra valer: “Como não tinha que elogiar as virtudes de nenhum aspirador, a fiz reclamar, carrancuda. Foi uma revanche imediata”. A pequena saiu das mãos de um argentino para conquistar todo o mundo. Para o pai, a explicação é fácil. “A temática é comum tanto na China, Finlândia ou América Latina”. Para todos nós, a leitura é deliciosa.
140415-Mafalda4
“Mafalda pertence a um país denso, de contrastes sociais, que apesar de tudo queria integrá-la e fazê-la feliz, mas ela se nega e rejeita todas as ofertas”. Herdeira do problema de visão do pai (que é altamente transmissível, e contamina-se pela leitura!), Mafalda estaria, neste mundo de cinquenta anos depois, tão aturdida quanto ácida. Quino se diz surpreso ao ver que suas tiras desenhadas há tanto tempo estão vivas até hoje. Se abrirmos um livro de Mafalda, também podemos nos surpreender com a incômoda constatação de que, se mudam os tempos, as “mesmas” lutas continuam…
Nossa fonte: Outras Palavras

Lamentável: mais transgênico a vista

Laranja transgênica já está em fase de testes no Brasil

Avaliações para comercialização do cítrico podem começar após sete anos e meio; a Embrapa, por sua vez, iniciará o cultivo de soja geneticamente modificada ainda em 2014.

Os cães ladram, a caravana transgênica passa. Enquanto diversas organizações representativas da sociedade civil brasileira tentam impedir, através de ações e projetos junto aos poderes Legislativo e Judiciário, a expansão descontrolada de alimentos e outros organismos geneticamente modificados no Brasil, o país segue, ao fim do primeiro trimestre de 2014, na mesma toada expansionista que lhe garante um lugar no pódio dos maiores produtores e consumidores mundiais de transgênicos.

A reportagem é de Maurício Thuswohl e publicada pela agência Repórter Brasil, 09-04-2014


Segundo dados do “Relatório 2013″ do Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações Biotecnológicas(ISAAA), o Brasil já tem 40,3 milhões de hectares de transgênicos cultivados, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. E poderá nos próximos meses dar um salto qualitativo em sua posição, com o início da produção da primeira variedade de soja transgênica inteiramente desenvolvida no país – parceria entre a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a transnacional Basf – e a conclusão dos primeiros testes de campo realizados com frutas cítricas geneticamente modificadas.

O Brasil é o maior produtor mundial de laranjas in natura e também de suco de laranja. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra 2013/2014 no estado de São Paulo e no Triângulo Mineiro rendeu 13,8 milhões de toneladas do cítrico. Em 2013, segundo a Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos(CitrusBR), o volume de negócios atingiu 6,5 bilhões de dólares, sendo que 85% da safra nacional é transformada em suco. Desde fevereiro, o país já tem sua primeira plantação de laranjeiras transgênicas ao ar livre, devidamente autorizada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), órgão responsável por aprovar todos os pedidos de pesquisa, produção e comercialização de qualquer tipo de organismo geneticamente modificado no país.

No município paulista de Ibaté foram plantadas 650 mudas de laranjeira doce transgênica, trazidas da Espanha peloFundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), entidade ligada aos grandes produtores. O projeto, coordenado pelo espanhol Leandro Peña, um dos maiores especialistas mundiais em biotecnologia de cítricos, e integrado por um grupo de pesquisadores brasileiros, é pioneiro, uma vez que, até maio do ano passado, a CTNBio proibia os experimentos com cítricos transgênicos que incluíssem floração e frutificação da planta.

Impacto na produção


Segundo o Fundecitrus, as laranjas transgênicas testadas em São Paulo poderão ser resistentes ao cancro cítrico e à pinta preta, duas das principais pragas que assolam os laranjais no Brasil. O eventual sucesso dos testes de campo poderá causar em alguns anos um impacto significativo na produção de cítricos brasileira e, conseqüentemente, no mercado global do setor. Até o fim do semestre, informa a entidade, duas outras plantações experimentais com laranjas transgênicas serão iniciadas, uma no sul de São Paulo e outra no norte do Paraná.

A expectativa dos pesquisadores é que as laranjeiras comecem a produzir em até dois anos e meio, mas serão necessários sete anos e meio para que a produtividade das plantas modificadas possa ser observada em todo o seu ciclo, que dura cerca de cinco safras: “A avaliação sobre a resistência das frutas às doenças estudadas estará concluída ao fim deste período. Mas, após essa pesquisa, muitas outras deverão ser feitas até que a laranja transgênica seja viável comercialmente, bem como muitas autorizações deverão ser encaminhadas à CTNBio”, diz aFundecitrus, por intermédio de sua assessoria de imprensa.

Já a primeira soja transgênica desenvolvida pela Embrapa, aprovada para comercialização pela CTNBio desde dezembro de 2009, deve começar a ser produzida em larga escala ainda este ano. Batizada como Cultivance e geneticamente modificada para resistir a agrotóxicos (herbicidas da família dos imidazolinonas) produzidos pelaBasf, a nova soja transgênica demorou a chegar ao mercado porque os produtores brasileiros esperavam a aprovação de sua comercialização pelo governo da China, o que só aconteceu no fim do ano passado. Com a chegada do novo produto e a garantia de um comprador de peso, é possível que a área plantada com soja transgênica no Brasil – atualmente estimada em 92% da área total dos cultivos de soja, segundo o relatório do ISAAA– se aproxime dos 100%, colocando em risco as plantações de soja convencional e a já combalida biodiversidade do grão no país.

Reações

Nada parece conter a expansão dos transgênicos no Brasil, mas parte da sociedade civil brasileira permanece empenhada em evitar abusos.
Como último desdobramento da ação civil pública ajuizada em junho de 2007 pelas organizações Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA), Terra de Direitos e Associação Nacional de Pequenos Agricultores, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) decidiu por unanimidade, em 13 de março, proibir nas regiões Norte e Nordeste do país a comercialização do milho transgênico Liberty Link, produzido pela transnacional Bayer. A decisão determina que a comercialização do milho transgênico somente poderá ser retomada após a CTNBio garantir a realização de estudos sobre os riscos trazidos por esse produto à saúde humana e animal e ao meio ambiente. O TRF-4 também determinou que a CTNBio “dê ampla publicidade” a todos os documentos relativos à liberação do milho transgênico.
Para o desembargador federal Cândido Leal Júnior, que relatou o caso analisado na 2ª Seção do TRF-4, a CTNBio simplesmente ignorou as diferenças entre os diversos biomas existentes no Brasil: “Os estudos não foram realizados em todos os biomas brasileiros nem tiveram abrangência geográfica capaz de dar conta dos aspectos relacionados à saúde humana, à saúde dos animais e aos aspectos ambientais em todas as regiões brasileiras. Não é possível escolher apenas alguns pedaços do território nacional, segundo a conveniência comercial ou o interesse econômico do interessado, para as pesquisas sobre a biossegurança do milho transgênico”, disse o relator ao site da Justiça Federal.
Agora, a expectativa das organizações que integram o movimento Por um Brasil Livre de Transgênicos é que a decisão do TRF-4 crie uma jurisprudência que permita o questionamento de outras culturas geneticamente modificadas no país, já que praticamente nenhum dos estudos aceitos pela CTNBio nos últimos anos trata das especificidades dos biomas brasileiros: “Essa decisão do TRF-4 se somará à luta popular por um modelo de agricultura baseado na agroecologia, que garanta direitos aos agricultores e alimentos saudáveis e sem agrotóxicos para a população”, diz Fernando Prioste, advogado da Terra de Direitos. A batalha foi vencida, mas a guerra em torno do tema está longe de ter um fim, já que diversas empresas que trabalham com transgenia anunciaram que apresentarão recursos ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e até mesmo ao Supremo Tribunal federal (STF) para derrubar a decisão tomada pela Justiça Federal na 4ª Região.

Ações contra os transgênicos


Outras duas ações impetradas no Judiciário em março podem ter impacto direto sobre a produção de transgênicos no Brasil. Em uma delas, o Ministério Público Federal pede ao Ministério da Agricultura a suspensão dos registros e a consequente proibição da comercialização dos herbicidas glifosato, campeão de vendas no Brasil, e do recém-lançado 2,4D, além de outros sete agrotóxicos utilizados no país (abamectina, carbofurano, forato, lactofem, paraquate, parationa metílica e tiram). Todos esses produtos, segundo o MPF, são apontados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como potencialmente danosos ao meio ambiente e à saúde humana e animal, fato que justifica a ação.

A segunda ação pede especificamente a proibição do 2,4D, componente tradicionalmente utilizado na fabricação de armas químicas como o agente laranja, usado como arma química pelos durante a Guerra do Vietnã para destruir florestas e cultivos e que culminou na morte e adoecimento de milhares de pessoas. A ação, segundo o MPF, tem o objetivo de tentar evitar que as vendas do 2,4D deem um salto este ano, já que um novo tipo de soja modificada para ser resistente a esse herbicida começou a ser plantada no Brasil na atual safra. O MPF pede também que a CTNBioseja proibida de fazer qualquer liberação comercial relativa ao 2,4D até que a Anvisa apresente uma posição oficial pública sobre os riscos trazidos pela utilização do produto.

No entanto, em decisão divulgada no dia 7 de abril, a Justiça Federal negou o pedido do MPF. Para o juiz Jamil Rosa, da 14ª Vara Federal, não há consenso técnico sobre efeitos negativos da substância que justifiquem o cancelamento imediato dos registros. Ainda cabe recurso.

Projetos

Já no Legislativo, projetos antagônicos prometem canalizar as ações de adversários e apoiadores dos transgênicos nos próximos meses. Tramitando atualmente na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 6.432/2013, de autoria do deputado Ivan Valente (Psol-SP), proíbe o cultivo, a venda e a importação de sementes de plantas alimentícias transgênicas em todo o território nacional. Em carta aberta enviada aos deputados da comissão, o Idec pede que o projeto seja aprovado e ressalta que a expansão dos transgênicos “é uma atividade combinada com o uso intensivo de agrotóxicos” e que o Brasil “é um dos maiores consumidores de transgênicos e agrotóxicos do mundo”.

No Senado, o Projeto de Decreto Legislativo 90/2007, de autoria da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO), tem o objetivo de acabar com a rotulagem obrigatória para os produtos alimentícios, tanto para seres humanos quanto para animais, que contenham em sua composição transgênicos em quantidade superior a 1% de seu volume total. Já rejeitado pelas comissões de Agricultura e Reforma Agrária e de Meio Ambiente do Senado, o projeto segue vivo por pressão da bancada ruralista na casa. Com teor semelhante, o PL 4.148/2008, de autoria do deputado Luís Carlos Heinze (PP-RS), e o PL 5.575/2009, de autoria de Cândido Vaccarezza (PT-SP) também tramitam na Câmara dos Deputados: “Se aprovados, esses projetos acabarão com o direito do consumidor à informação sobre aquilo que está consumindo”, diz o Idec.

Boa hora para o Brasil rever sua postura diante dos transgênicos

Proibição da China a milho dos EUA esquenta debate sobre transgênicos

Por Jacob Bunge | The Wall Street Journal

A rigidez da China em relação a importações de milho geneticamente modificado está golpeando a indústria de agronegócios dos Estados Unidos, que se vê impedida de vender grande parte do principal produto agrícola americano no seu mercado de mais rápido crescimento.

Desde meados de novembro, a China vem recusando repetidamente os carregamentos de milho dos EUA, afirmando que detectou a presença, em alguns deles, de transgênicos desenvolvidos pela Syngenta AG que não foram aprovados pelo governo chinês.

A devolução dos carregamentos vem prejudicando as grandes negociadoras de grãos, como a Cargill Inc., e gerando frustrações entre executivos americanos com o que chamam de regulamentos obscuros da China, num momento em que aumenta o poder do país asiático como importador. A China é o mercado de milho de mais rápido crescimento do mundo.

Alguns analistas do setor nos EUA suspeitam que a China está usando as preocupações com o produto da Syngenta para ocultar motivações comerciais.

Na primeira avaliação completa do impacto da política chinesa nos EUA, a Associação Nacional de Grãos e Rações afirma que os carregamentos recusados somam cerca de 1,45 milhão de toneladas. O volume é muito maior que as 545.000 toneladas que o governo chinês divulgou e as cerca de 900.000 toneladas mencionadas na mídia.

A proibição das entregas já custou US$ 427 milhões às empresas de grãos, na forma de perda de vendas ou redução de preços na revenda para outros países do produto destinado à China, segundo um relatório da associação, que se baseou em dados das empresas exportadoras.

A entidade afirma ainda que as exportações de milho americano para a China desde janeiro caíram 85% em relação ao mesmo período de 2013, para apenas 171.000 toneladas.

Executivos do setor dizem que o problema vem prejudicando os exportadores americanos numa hora em que enfrentam a concorrência crescente de outros países, como Brasil e Ucrânia.

"É um momento divisor de águas", diz Gary Martin, presidente da Associação Norte-Americana de Exportação de Grãos, que também representa os negociadores de commodities dos EUA e cujos membros contribuíram com dados para o estudo. "É realmente dramático que os EUA não possam fornecer para o mercado chinês."

A Cargill, um das maiores companhias de agronegócios do mundo, afirmou esta semana que as devoluções na China tiveram um peso determinante no declínio de 28% no seu lucro do trimestre mais recente em relação a um ano atrás.

As grandes fornecedoras de sementes, incluindo Syngenta, Monsanto e DuPont Co, geralmente compartilham com empresas de comércio internacional, como Cargill e Archer Daniels Midland Co., o desejo de cultivar e vender o maior número possível de sementes. As negociadoras abraçaram o uso pelos agricultores de sementes geneticamente modificadas, que foram lançadas nos EUA em 1996 e que, segundo seus defensores, ajudam a aumentar a colheita.

Mas as produtoras de sementes e as empresas comerciais estão agora discutindo quem deve arcar com os custos dos carregamentos recusados.

A Associação Norte-Americana de Exportação de Grãos, que inclui a ADM e a Cargill, vem exigindo que as empresas de sementes arquem totalmente com os riscos e responsabilidades de vender seus produtos. Ela também se opõe ao lançamento de novas sementes transgênicas que não tenham aprovação nos principais mercados. Grupos de produtores de grãos pediram que a Syngenta parasse de vender estas sementes até que a China aprove o produto.

A Syngenta não atendeu a esses pedidos e introduziu, neste ano, uma nova semente de milho que a China não aprovou. A empresa não quis comentar sobre quem deve arcar com a responsabilidade financeira pelos carregamentos devolvidos.

O caso ilustra as grandes divergências internacionais sobre sementes geneticamente modificadas, concebidas para torná-las mais resistentes a pragas e certos herbicidas.

Os críticos dizem que o cultivo de plantas geneticamente modificadas causam um aumento no uso de alguns químicos potencialmente prejudiciais à saúde. Alguns países, particularmente na Europa, impõem mais restrições a sementes transgênicas do que os EUA, onde essas sementes são usadas em 90% das culturas de milho.

A China já aprovou alguns tipos de transgênicos, mas seu processo de aprovação leva mais tempo que o de outros países, dizem executivos americanos. A China também permite que as autoridades portuárias recusem um carregamento inteiro de milho caso um único grão tenha um gene não aprovado, dizem exportadores americanos.

A China, há muito um importador considerável de soja, de repente se tornou, também, um grande comprador de milho. O país importou um total estimado de 5 milhões de toneladas de milho estrangeiro no ano passado, comparado com 47.000 toneladas em 2008, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA.

A China começou a recusar o milho americano em novembro, depois que testes detectaram que alguns carregamentos continham o Agrisure Viptera, uma cepa da Syngenta concebida para produzir proteínas resistentes a pragas como a lagarta do milho.

A Syngenta vem vendendo o Viptera desde 2011 para agricultores nos EUA, Brasil e Argentina, com a aprovação dos governos desses países. A empresa sueca afirmou que solicitou a aprovação do produto à China em 2010.

O Ministério da Agricultura da China informou que está avaliando a solicitação, que estava incompleta. A Syngenta afirmou que enviou informações adicionais em março.

Alguns membros da indústria agrícola dos EUA suspeitam que o governo chinês tem razões comerciais. Autoridades chinesas manifestaram preocupação com a dependência excessiva que o país teria do milho americano, que responde por mais de 90% das importações chinesas do produto. Quase todo o milho consumido na China, porém, é produzido no próprio país, que também registrou uma safra volumosa no ano passado.

"É 100% [raciocínio] econômico", diz Karl Setzer, analista de mercado da cooperativa MaxYield, do Estado de Iowa. "Se a China estivesse sofrendo uma escassez de milho ou realmente precisasse de milho, isso não seria um problema, porque eles provavelmente teriam importado [a variedade da Syngenta] nos últimos três anos."

Um porta-voz da embaixada chinesa nos EUA diz que o país examina suas importações de acordo com leis e regulamentos pertinentes e que o processo de avaliação de sementes geneticamente modificadas "é aberto e transparente".

Cerca de 12% da produção de milho dos EUA é destinada à importação, mas o rápido crescimento da China dá ao país uma influência desproporcional sobre os preços.

(Colaboraram Chuin-Wei Yap e Tony Dreibus.)
Nossa fonte: CdB

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Fragmentos de discursos: Oswald visto por A.Candido




Antônio Cândido

Antropofagia era “estratégia para construir não apenas a sua visão, mas um outro mundo, o das utopias que sonhou com base no matriarcado”

Por Antonio Candido

Os trechos a seguir foram extraídos de um longo ensaio, “Digressão sentimental sobre Oswald de Andrade”, escrito em 1970, pelo crítico Antonio Candido, e publicado originalmente no livro “Vários Escritos”.

Na época, o estudo foi saudado por Rudá Andrade, em carta ao ensaísta, pelo fato de “esclarecer certos pontos-chaves da obra-vida do escritor”. Segundo o filho de Oswald, o trabalho constituía-se numa “bela abertura para novos estudos”, assim como revelava o “carinho pelo homem e a objetividade intelectual”.

Por razões diversas, as nossas escolhas recaíram, modestamente, em compor uma espécie de fragmento, no qual fosse possível, ao leitor, obter um retrato próximo da belíssima prosa do ensaísta, ao mesmo tempo em que mantivesse alguns dos elementos mais instigantes do seu significado.

Este foi um dos aspectos pretendidos. No entanto, existe um outro, mais ambicioso. Diz respeito ao fato de imaginar os primeiros contatos de alguém com as digressões do nosso crítico maior. E nesse exato momento, esse leitor anônimo ser estimulado a procurar saber mais ainda sobre o escritor modernista, a sua obra e o seu tempo.(Theotonio de Paiva, editor da seção especial “Oswald 60”)

Digressão sentimental sobre Oswald de Andrade


Por Antonio Candido

Hoje, sou um pouco mais velho do que ele era quando o conheci, e já me acostumei a ouvir dos moços as mesmas perguntas que eu fazia aos mais velhos. As mesmas não. Os de agora perguntam coisas mais objetivas e mais ligadas ao interesse pela obra, porque hoje é que florescem os verdadeiros chato-boys1. Nós ainda não queríamos deslindar o anedotário que o cercava como garoa singular.

“É verdade que é irmão de Mario de Andrade e brigou com ele?” “É verdade que casou dez vezes em várias religiões?” “É verdade que roubou uma moça na Escola Normal da Praça?” “É verdade que prega o amor livre?” “É verdade que baleou os estudantes de Direito, num tiroteio, do alto de uma escada?” “É verdade que andou com a quadrilha do Pulo dos Nove?”

Nada era verdade, embora nalguns casos houvesse uma semente real do boato inchado em volta. Mas esse Oswald lendário e anedótico tem razão de ser: a sua elaboração pelo público manifesta o que o mundo burguês de uma cidade provinciana enxergava de perigoso e negativo para os seus valores artísticos e sociais. Ele escandalizava pelo fato de existir, porque a sua personalidade excepcionalmente poderosa atulhava o meio com a simples presença.
[...]
De um homem assim, pode-se dizer que a existência é tão importante quanto a obra. Pelo menos a nós isto parecia evidente, porque o víamos intervir, vituperar, louvar até as nuvens, xingar até o inferno, aclamar e depois destruir, remexendo sempre com uma paixão em brasa pela literatura. “Admito ofensa pessoal”, dizia, “mas não admito burrice em relação à minha obra”. De fato, só o vi brigar por divergências literárias e, nalguns casos, políticas. É nesta chave que a sua integridade deve ser definida. Quanto ao resto, mandava as normas e os princípios para o devido lugar.

Ele era tão complexo quanto contraditório, que a única maneira de traçar o seu contorno é tentar simplificações mais ou menos arbitrárias. Como explicar, de fato, a coexistência permanente, dentro dele, de um bom e mau escritor? De um passadista e um anunciador do futuro? De um discernimento infalível e áreas da mais completa opacidade? Mas destes choques e outros muitos é que se formava o homem singular, às vezes quase ilhado no seu tempo.

Tomemos, como tentativa, apenas dois traços com generalidade bastante para definir aspectos comuns à sua personalidade humana e literária: devoração e mobilidade.

Devoração é não apenas um pressuposto simbólico da Antropofagia, mas o seu modo pessoal de ser, a sua capacidade surpreendente de absorver o mundo, triturá-lo para recompô-lo. Frequentemente a inteireza da sua visão precisa ser elaborada pela percepção do leitor, pois no seu discurso o que ressalta são os fragmentos da moagem de pessoas, fatos e valores. Daí a sua atitude constante de preensão, traduzida na curiosidade, na insistência em manter contato com os outros, usá-los de todas as maneiras para os transformar em substância de enriquecimento pessoal. A este propósito, lembro um traço característico da sua fisionomia: os olhos arregalados e fixos, a boca aberta, um fácies imobilizado na absorção, que de repente se desfazia na fuzilada de risos, trocadilhos e conceitos. Imaginemos que esta aparência simbolize a abertura sôfrega em relação ao mundo.
[...]
Nisto tudo vejo a confirmação do traço que estou sugerindo: fome de mundo e de gente, de ideias e acontecimentos. Daí a sua devoração não ser destruidora, em sentido definitivo, pois talvez fosse antes uma estratégia para construir, não apenas a sua visão, mas um outro mundo, o das utopias que sonhou com base no matriarcado.

Apesar de muito patriarcal nos gostos e na conduta, o que havia de ruim no mundo lhe parecia vir do patriarcalismo, causador da propriedade, da sociedade de classes, da exploração do homem, da mutilação dos impulsos. A sua atividade política se entroncava neste pressuposto e era uma espécie de técnica devoradora (aí sim, em sentido arrasador) do mundo burguês oriundo da supremacia imemorial do pai. O seu comunismo foi profundamente vivido – comunismo do decênio de 1930, romântico e libérrimo, significando não apenas anticapitalismo e anti-imperialismo, mas aceitação da arte moderna, ataque desabrido às coisas estabelecidas, desafogo dos costumes. Foi o tempo do jornal O Homem do Povo (1931) e da militância intensa com a admirável Patrícia Galvão (Pagu)2.
[...]
No fundo, o seu timbre era um certo era um certo anarquismo, que permite vislumbrar a liberdade total pela dissolução das amarras. No prefácio de Serafim Ponte Grandeafirmou que o seu modo de ser inicial, católico e burguês, fora compensado por este anarquismo espontâneo de boêmio, que depois teria superado pela adesão ao marxismo. Engano. Felizmente nunca o superou, porque ele foi o segredo da sua elasticidade e um dos fatores da sua mobilidade sem fim.

E aqui chegamos a este grande princípio da sua personalidade, vida e obra. Quando é boa, a sua composição é muitas vezes uma busca de estruturas móveis, pela desarticulação rápida e inesperada dos segmentos, apoiados numa mobilização extraordinária do estilo. É o que explica a sua escrita fragmentária, tendendo a certas formas de obra aberta, na medida em que usa a elipse, a alusão, o corte, o espaço branco, o choque do absurdo, pressupondo tanto o elemento ausente quanto o presente, tanto o implícito quanto o explícito, obrigando a nossa leitura a uma espécie de cinematismo descontínuo, que se opõe ao fluxo da composição tradicional. Frequentemente a sua escrita é feita de frases que se projetam como antenas móveis, envolvendo, decompondo o objeto até pulverizá-lo e recompor numa visão diferente.

Também na sua visão da sociedade avulta o senso do que é móvel, a miragem de uma transição necessária ao matriarcado redentor, sob a percussão dos movimentos ideológicos que dissolvem as estruturas. E em sua vida procurou sem cessar a renovação em todos os campos, para evitar o pecado maior da esclerose, da parada que lhe parecia negar a própria essência da liberdade e portanto do seu ser. Até o gosto pela viagem, a variação dos lugares, a mudança de casas e alianças, a sucessão dos contactos humanos e de uma certa volubilidade manifestavam esta lei da sucessão vertiginosa e reconstituinte.

(Extraído de Vá)rios Ensaios)

1Manuel Bandeira, em nota explicativa, no livro de correspondências entre ele e Mário de Andrade, escreve o que essa expressão significou. Ela aparece em momento próximo à inauguração da revista Clima, para onde convergiram “universitários na faixa dos 20 anos, ligados à USP, entre os quais despontavam Antonio Candido de Mello e Sousa, Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado, Rui Coelho e Gilda Rocha”. E detalha: “Eclética, ideologicamente heterogênea, mas consistente em seus fundamentos intelectuais, a revista, iniciada em maio de 1941, parecia personificar o ideal de introspecção e convivência desejados por MA. Oswald de Andrade mimou essa sisudez, apelidando esses jovens de ‘chato-boys’”.Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. São Paulo: Edusp: IEB, USP, 2ª. ed., 2001, p. 657. (Nota do Outras Palavras)

2Neste ano, Oswald encontra-se com o líder comunista Luís Carlos Prestes e funda o jornal, de divulgação da causa operária. É dessa época a sua filiação ao PCB. Em 1945, abandona o partido, segundo Candido, “decepcionado por se sentir posto de lado, e querer ser mais do que um instrumento no campo intelectual”. (Nota do Outras Palavras).

Nossa fonte: Outras Palavras