Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade
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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Vamos dançar valsa?


Estava em minha bancada de trabalho e ouvi uma conversa que me fez parar e prestar atenção nas falas alheias. Não era uma conversa ao pé do ouvido, pelo contrário falavam num tom acima do costume.

- As senhoras querem um chá? – Perguntei ao passar por elas no meu caminho para a cozinha.
- Chá só se for gelado. Está um bocado quente. Você poderia colocar sua engenhosa imaginação para funcionar e nos trazer algo mais criativo, como por exemplo, uma cerveja do Alívio Gelado, geladaça! – Respondeu Dona Pandá que, só então, se lembrou de me apresentar à sua amiga.
- Vina, esta é minha assistente, Maria. Maria, esta é minha amiga de centena de anos, a senhora Etelvina Cruz.

Quando a senhora Etelvina falou “muito prazer”, percebi que ela era a responsável pelo tom acima. 
Fui tratar de ver, na geladeira, a cerveja do Alívio Gelado. (Quando Dona Pandá quer alguma bebida muito gelada, ela diz que é do Alívio Gelado, a pequena empresa entregadora de cerveja gelada do seu filho). Mesmo distante, acompanhei o que se passava na sala.

Dona Pandá explicava que sua amiga deveria colocar um aparelho auditivo.
- Mas Pandá, não tenho condições, minha única fonte de renda é a aposentadoria do INSS... preciso lhe dizer qual é minha faixa no Imposto de Renda?
- Não. Conheço bem este pedaço. Vou lhe ensinar o caminho das pedras. Vá a Unidade Básica de Saúde mais próxima de sua casa e agende uma consulta com o clínico para ele encaminhá-la ao otorrino.
- SUS! - Gritou a amiga, com uma expressão indignada.
- Ah! Você está vendo o meu aparelho? Coloquei pelo SUS. Excelente. Tive que esperar um bocado, porém valeu a pena. As fonos são competentes e atenciosas.
- Ih! Vou morrer de esperar.
- Por que você não faz assim: enquanto não morre, começa o processo na sua UBS? Olhe, você corre o risco de ter o aparelho antes.

 – Eu estava entrando com a cerveja e pude ver a expressão de espanto misturado com raiva de Dona Etelvina que, buscando, lá no fundo de sua vivência, a sabedoria da boa amizade, deu uma gostosa risada.

- Poxa! Pandá, não é que você tem razão.
- Sabe, Vina, essa tal velhice é mesmo uma merda! Você sente uma dor aqui, ali e acolá, vai ao médico e ele lhe diz: “Nada grave, não precisa se preocupar” e você, idiotamente, pergunta: “mas o que é? ” Ele, com a cara da indiferença de quem ignora o que é chegar lá, lhe sentencia: “nada, é da idade” E, claro, você sai de lá pensando: “Então, estou na idade das dores”.

- É verdade, já me aconteceu isto mesmo. E dizem que é a melhor idade...
- Acho que envelhecer nada tem de encantador. Por isto temos a obrigação conosco de aproveitar tudo o que podemos, inclusive os resultados da tecnologia para amenizar os desconfortos e mesmo para nos dar um bocado a mais de prazer. Prazer sim é encantador! Também usar a sabedoria de quem já conhece a situação e dar a volta é encantador...

- Uma coisa que tem acontecido comigo e, deve ser a sabedoria de que você está falando, é a seleção de enfrentamentos. Não brigo tanto mais. Não acredito mais que sou capaz de mudar alguém, sobretudo aqueles que não querem mudar, nem ouvir. Não perco meu tempo já que ele é pouco.

- Agora, que esta “Caracu” está deliciosa, está. Está ajudando a mandar a idade das dores pra lá e ficar com a idade dos prazeres. Estou pensando em fazer uma lista. A cada desconforto, dor ou algo ruim trazido pela idade, colocar um prazer. Por exemplo, se tenho dificuldade de pular o carnaval, vou dançar valsa.



quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Que o capital pague por sua crise


EDITORIAL do Brasil de Fato
Edição 653
                                                               31.08.2015                                                             
Que o capital pague por sua crise
                                                      
Depois do grande acordo a portas fechadas entre o grande capital, banqueiros, representantes do Governo, do Instituto Lula, do Partido dos Trabalhadores, etc., um silêncio surdo parece haver coberto o País.
 Negociados os “dossiês” mais urgentes – de modo que figuras de proa não tivessem (pelo menos, de imediato) suas imagens maculadas, nem fossem obrigadas a fazer faxina nos corredores de penitenciárias, casas de detenção ou delegacias, parece-nos viver uma trégua. Doce ilusão daqueles que, reféns dos seus próprios “desvios”, animaram e participaram das negociações imaginando que os nossos adversários e inimigos de classe se satisfarão com o negociado. Eles arrocharão sempre o torniquete, a cada momento que necessitem novas concessões. Se, por enquanto, os inimigos lhes tomaram as calças, noutro momento, vão querer os slips. E assim por diante, até exigirem aquilo que calças e slips não mais cobrem... .
 Doce ilusão, também, imaginarem que os trabalhadores e o povo (povo = explorados e oprimidos) respaldarão sempre seus recuos e rendições; que se deixarão trair passivamente. Isto não existe: ninguém engana todos, durante todo tempo.
 Por isto, a nossa pauta tem de ser outra: a crise econômica está aí e, a depender dos de sempre, seremos nós – a classe trabalhadora e o povo – quem pagará toda a conta. A depender de muitos que pensam e dizem nos representar, também.
 Rejeitaremos toda medida que transfira para nós, o preço da crise: seja em termos de tributos e taxações (tipo o modo como estão sendo conduzidos o ajuste fiscal ou a ressurreição da CPMF); seja no que diz respeito à entrega de nossas riquezas (Pré-Sal e outras); das nossas tecnologias (enriquecimento do urânio, submarino atômico etc.); seja de qualquer das nossas conquistas de 1988. Além – é pressuposto óbvio – da defesa intransigente da integridade do nosso território e da nossa soberania.
 Para garantir nossa pauta, é indispensável que tragamos para as ruas, avenidas, praças – enfim, para os espaços públicos – as nossas disputas, inviabilizando qualquer acordo de cúpula que não atenda aos nossos interesses de classe, e submetendo a luta institucional à pressão dos trabalhadores e do povo, organizados de forma independente e autônoma – como fizemos há duas semanas, no dia 20 de agosto. Ou seja, para garantir nossa pauta é indispensável nos transformarmos de fato em sujeito político – sujeito coletivo.

Sim, só o povo organizado derruba a impostura.
 Com a crise política e institucional (que está longe de chegar a um final – sobretudo a um final que corresponda aos nossos interesses); com a falência de diversos partidos do espectro de esquerda, formaram-se, em todo o País, grupos de militantes de todas as gerações, em busca da construção de instrumentos políticos (organizações frentistas, pautas, programas, etc.) capazes de intervir na conjuntura de modo a defender os interesses dos trabalhadores e do povo. Muitos têm avançado, apesar de enfrentarem problemas de todos os tipos. É fundamental que esses coletivos se fortaleçam, e procurem formas de trabalhar conjuntamente entre si, com os sindicatos e movimentos populares combativos e que agem no mesmo rumo. Alguns partidos têm também desempenhado importantes papéis nesse sentido.
 É fundamental que todos prossigamos.
É indispensável que todos prossigamos.
Não dá para baixar a guarda.
 É igualmente fundamental que deixemos de pensar no Brasil como uma ilha, isolado, portanto, das dinâmicas econômicas e políticas (e também ideológicas) que se desenvolvem mundo afora. Impossível pensar de modo adequado o que fazer (sempre do ponto de vista dos trabalhadores e do povo), sem ter em conta que as crises que se aprofundam nos Estados Unidos e na China, para além da influência que terão em toda a economia internacional, cobrarão um preço especial à nossa economia: Pequim e Washington significam os dois maiores mercados de importação dos nossos produtos.
Vamos todos juntos em torno de um programa que possamos construir coletivamente. Mas, são partes constitutivas de um programa, os métodos a serem utilizados. Métodos e programas são como forma e conteúdo: não podem ser separados. Eles constituem um todo indivisível. E, infelizmente, muitos camaradas ainda não perceberam que a maioria dos problemas que resultam em divisões e rachas na esquerda, tem origem na utilização de métodos que repetem aqueles dos nossos inimigos de classe (oportunismos, passa-moleques, rasteiras, golpinhos, etc.), e não necessariamente de divergências políticas que, mantidos os princípios, podem quase sempre ser negociadas, desde que de forma clara e transparente.
 Assim, se nos comprometermos a repelir os velhos métodos, vamos todos juntos e conquistaremos grandes vitórias.
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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A lida diária da Ana Valente


Dona Pandá procurava a matéria-prima para implantar seu minhocário, com a finalidade de recuperar o pomar e fazer uma pequena horta. Depois de muita procura, encontrou o senhor Margarido – irmão do caseiro de um vizinho – que se dispôs a lhe mostrar o caminho de uma fazenda que vendia esterco.
Quando entraram na estrada de terra, o senhor Margarido, mostrando sua genuína mineirice, falou:
- Vou precisar só de três sacos de esterco. A senhora pode encher sua caminhonete com os 16 sacos, mas eu preciso mesmo é só de três. – Entendendo que era o preço que deveria pagar pelo serviço de guiá-la, Dona Pandá respondeu:
- Está bem. Vamos ver quantos sacos vamos conseguir colocar na carroceria.

Chegando, foram recebidos por Dona Ana, a fazendeira, que, imediatamente, pegou uma pá e se meteu num barracão cheio de esterco já curtido. De lá, gritou:
- Vou ensacar. Quantos a senhora vai levar?
- Quantos couber.
- Cobro R$ 3,00 cada saco.
- Está bem. – Dona Pandá quase falou que estava muito barato, pois havia comprado cinco sacos a R$ 10,00. Ouviu, então, o senhor Margarido dizer que estava indo ajudar Dana Ana. Ela, com a pá ia jogando o esterco no saco que ele abria e segurava. Quando enchia, levava para fora do barracão, próximo da Preta, a caminhonete.

Ana é uma mulher, cuja idade meio indefinida pode ser uns 60 anos, estatura média, magra, mas nem tanto, cabelos castanhos, mal tampados por um lenço. Consegue, num quase milagre, conservar traços que denunciam uma beleza levada pelo trabalho bruto e contínuo. Durante o tempo todo, contou causos e Dona Pandá ficou sabendo que moravam com ela o pai e o irmão.

O pai, completamente corcunda, apareceu e foi logo explicando que suas costas eram o resultado de tanto carregar cana para as vacas. Estas ficam presas no curral, sendo alimentadas por cana triturada com ração que é comprada “quando Ana vai receber minha aposentadoria e já deixa tudo na casa de rações”.  

Antes de terminar o ensacamento, apareceu o irmão e de longe gritou:
- Está na hora. - Ana explicou que precisava ajudar a trazer os bezerros para lhes dar a ração. As vacas ficam presas para não gastarem energia e não emagrecerem mais ainda, enquanto os bezerros só mamam pela manhã, no momento de tirar o leite. Depois são apartados e ficam no pasto que de tão seco já se vê terra nua.

Passados 20 minutos, Ana, de volta e recomeçou o trabalho. O senhor Margarido comprou queijo, linguiça e outros produtos que Ana fez na véspera e estava negociando frango, quando Dona Pandá, enfim percebendo que a ave iria concorrer com os pedais da Preta, avisou que não levaria nenhum animal. Ninguém pediu justificativa porque Dona Pandá usou sua conveniente cara antipática de quem não quer saber de conversa.

Ana pareceu entender que seu cliente havia passado a linha da conveniência e ofereceu o número do seu celular para Dona Pandá lhe avisar quando quisesse mais esterco, “podendo vir sozinha, agora que a senhora já conhece o caminho”.

Na volta, Dona Pandá teve dificuldade de manter a conversa com o companheiro de viagem. Não conseguia tirar da retina a imagem de Ana, o pai corcunda e o irmão com a preguiça da desnutrição, as vacas magras, os bezerros mal chegando às tetas das mães, o pasto inexistente. A pobreza transformou uma fazenda produtiva num lugar seco, onde as perspectivas são cruéis como a vida de quem lá ficou.  



sábado, 29 de agosto de 2015

Cuidado com sandálias no quintal: podem lhe trazer um presente


Durante mais de 15 anos Dona Pandá administrou um minhocário que implantou em sua Chácara Xury,  localizada no Município de Ibiúna (SP), cujo clima é mais para frio e há um regime de chuvas bem generoso. Então, naturalmente, ela achava que minhoca estava dentro do seu saber. Implantar outro minhocário seria tirar de letra, fácil, facílimo.

Ledo engano!

Dona Pandá  pode se considerar sabichona na matéria, mas até agora só conseguiu apanhar. Escolheu um lugar próximo da horta para facilitar o manuseio e transporte do húmus para os canteiros. Para evitar o Sol, uma cobertura de lona e sombrite. Que nada! O calor nas Alterosas ignora o sombrite. Umedeceu o esterco e achou que estava numa temperatura apropriada – minhoca não gosta de calor, nem de claridade -, verificou no meio das manilhas, onde colocou o esterco, a uns 30 cm de profundidade, e quase queimou a mão.

Para não entediar, vocês que já estão sem paciência,  querendo saber logo se, afinal, Dona Pandá conseguiu fazer a transferência da tecnologia ou morreu na praia, no nosso caso, no meio dos estercos, vou contar logo o que ocorre há três dias.

Dona Pandá, com a ajuda do Nego – que trabalha no sítio Catita meio período -  tem dedicado suas manhãs a tentar – porque até o momento ainda não conseguiu – abaixar a temperatura dentro das manilhas. Fizeram uma coberta com lona e colocaram uma faixa de sombrite embaixo da lona e outra sobre as manilhas. Ficou vigiando o Sol durante todo o dia e cobrindo com mais lona e sombrite onde ele aparecia. A temperatura da superfície estava perfeita, mas não no interior da manilha. Passou, então, a resfriar a manilha com o líquido escasso e precioso, a água.  A cada dia, conseguiu abaixar uns grauzinhos, mas ainda está longe daquela tranquilidade conhecida, mas não encontrada aqui. Esta tranquilidade está fugindo com o calor de Dona Pandá que não teve outra saída a não ser, mais uma vez, reconhecer sua ignorância.

Não está conseguindo a temperatura que persegue, mas ganhou um presente. Hoje, nossa amiga, sentindo que não conseguia limpar o calcanhar do pé direito que sofreu um corte, foi à podóloga para quem fez suas queixas do incômodo no calcanhar, relatou ainda que tem andado de havaianas devido ao calor. O resultado do exame da podologia foi a retirada de cindo bichos de pé.  

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Uma luz do fim do túnel que se chama Pronara


Leonardo Melgarejo durante palestra



E como fugir dos agrotóxicos? Para o agrônomo Leonardo Melgarejo, integrante da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – Agapan, é preciso romper com a lógica do agronegócio. Produzir mais alinhado com princípios da agroecologia. Mas para isso é preciso consumir mais alimento agroecológico. O estímulo para isso passa por políticas públicas. É esse o objetivo do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica – Planapo. Para fazer este plano funcionar é necessária a implementação de outro, o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos – Pronara. “Diminuindo o uso de agrotóxicos, caminhamos para outros sistemas produtivos como a produção orgânica”, destaca.

O problema é que a pressão do agronegócio pesa sobre o poder público. Assim, os planos acabam patinando. “Mas nós, enquanto sociedade, temos nosso papel. Devemos lutar contra essa maquiagem de informação e não aceitar o retrocesso. A retirada da indicação da presença de alimentos transgênicos no rótulo de alimentos é isso. Sonega uma informação e limita o poder de escolha do consumidor”. O caminho, para Melgarejo, é buscar fóruns em que se possa fazer pressão. Defende que é preciso saber o que está sendo discutido sobre a legislação de agrotóxicos e transgênicos para buscar a implementação dos planos, rompendo a cadeia do agronegócio. “A informação é a chave. Ela nos dá protagonismo. Para isso podemos buscar entidades que nos auxiliam”, provoca, ao estimular a plateia a buscar informação e cobrar ações, por exemplo, de senadores gaúchos a respeito da mudança na legislação sobre rotulagem de alimentos transgênicos. “Informação, participação e controle social. É do que precisamos"

Agrotóxico: o inimigo entre nós

Karen Friederich (Fotos por João Vitor Santos/IHU)

Seminário promovido pelo IHU e PPG em Saúde Coletiva da Unisinos evidenciou o impacto do uso de agrotóxicos no ambiente e toda a lógica que sustenta o sistema apoiado no agronegócio

“Sem agrotóxico se compromete a produção em larga escala de diversas culturas”. “As sementes transgênicas – e o uso de agrotóxicos implicado no seu cultivo – aumentam a produtividade”. Essas duas frases materializam o que pesquisadores chamam de inverdades acerca do assunto agrotóxico. Elas mascaram uma realidade, em detrimento do interesse econômico. É a lógica do capital sendo atualizada no agronegócio, que subverte a lógica natural. Essa foi a perspectiva que permeou o Seminário Agrotóxicos: Impactos na Saúde e no Ambiente, realizado na segunda-feira, 24-08.

O evento, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU e pelo Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva, reuniu pesquisadores, técnicos e profissionais de dentro e fora da universidade para debater os reais impactos do uso desses produtos tóxicos. E, no horizonte, tentar entender por que é tão difícil enfrentar essa lógica que estimula o seu uso. Lógica essa que faz dos agrotóxicos algo impregnado na sociedade, muitas vezes sendo naturalizado pelo ser humano.

Como professora do curso de Nutrição da Unisinos, Regina Alcântara estava atenta ao debate acerca dos efeitos nos alimentos. “Para se pensar em qualidade do alimento é fundamental discutir o uso de agrotóxicos”, disse. Sua colega, a professora Vanessa Backes, destaca que o assunto é estrutural para o conceito de segurança alimentar. “Até bem pouco tempo, segurança alimentar era quantidade de alimento”, destaca, ao perceber que é por aí que entram os argumentos para justificar usos de químicos. “Só que, felizmente, estamos percebendo que discutir a qualidade do alimento é mais importante para a segurança alimentar do que a quantidade. Precisamos de alimentos que realmente nos nutram e promovam nosso desenvolvimento por inteiro”, completa.

Na luta contra o inimigo, barata morta só no chinelo

O agrotóxico faz mal ao ambiente e a nós mesmos. Todos sabem disso, mas poucos conseguem perceber o quanto ele faz parte da vida cotidiana. Não precisa ser produtor rural ou consumidor de hortifrutigranjeiros para se expor aos agrotóxicos. “Eu, por exemplo, tento espantar a barata. Se ela não fugir, mato só no chinelo”, diz a biomédica e professora da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz e da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UniRio Karen Friederich. É uma caricatura que faz, ao destacar que dentro do inseticida doméstico há elementos tóxicos, os chamados agrotóxicos urbanos. É um produto de uso doméstico que nem associamos aos agrotóxicos. Inseticidas usados como bloqueador epidemiológico pelo próprio poder público vão na mesma linha. Por exemplo, os fumacês no caso da Dengue.

E como tais substâncias são liberadas pelas autoridades? Karen destaca que, tanto para usos domésticos como para agricultura, os registros para liberação são baseados em testes que não levam em conta a complexidade das substâncias. “São testes em condições laboratoriais onde cobaias são expostas a um determinado agrotóxico e por uma só via. No ambiente, somos expostos a vários tipos de agrotóxicos. Isso gera efeitos acumulativos e essa combinação pode gerar consequências, como predisposições cancerígenas. Além do mais, também podemos absorver agrotóxicos por mais de uma via. Os efeitos podem surgir a muito longo prazo”, explica.

É por isso que órgãos como Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa têm a missão de regulamentar, analisar, controlar e fiscalizar agrotóxicos. Mesmo os que já têm seu registro homologado. “Essa revisão é importante, pois surgem novas pesquisas que aprofundam o conhecimento sobre as substâncias. Além disso, há de se avaliar tanto efeitos agudos da exposição – quando se percebe um efeito de imediato, pouco tempo depois do contato – quanto crônicos – aqueles que podem se manifestar muito depois”, completa.

2,4-D
Atualmente, a grande preocupação dos pesquisadores é com relação à liberação da nova geração de transgênicos, resistentes ao agrotóxico 2,4-D. “Esse agrotóxico tem em sua composição substâncias que faziam parte do Agente Laranja, usado na Guerra do Vietnã”, explica. Por isso, o produto está na lista da Anvisa para reavaliação, assim como o Glifosato. “A liberação de sementes resistentes ao Glifosato aumentou em muito seu consumo. Tememos que isso ocorra com o 2,4-D, que tem um impacto ainda maior”, alerta Karen.

A ofensiva conservadora e as crises

A sociedade brasileira está diante de uma ofensiva conservadora que se aproveita de entrelaçadas crises na economia, na política, nas instituições do Estado, na imprensa e nos meios sociais para fazer avançar seus objetivos.
A suposta crise econômica ofereceu pretexto para implantar um programa neoliberal de acordo com o Consenso de Washington: privatização, abertura comercial e financeira, ajuste orçamentário, flexibilização do mercado de trabalho, redução do Estado, tudo com a aprovação do sistema financeiro internacional, por um Governo eleito pela esquerda.
A crise da corrupção, cujo maior evento é a Operação Lava Jato, mas também a Operação Zelotes, esta inclusive de maior dimensão, está servindo para destruir a engenharia de construção, onde se encontra o capital nacional de forma importante, com atuação internacional, e para preparar a destruição de organismos do Estado tais como a Petrobras, o BNDES, a Caixa Econômica, a Eletrobrás etc. a pretexto de que os eventos, denunciados,  de corrupção seriam apenas o resultado de serem estas entidades estatais.
Sua privatização, que corresponderia a sua desestatização/desnacionalização, eliminaria, segundo eles, a possibilidade de corrupção.
A crise do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal se desenvolve em várias esferas.
 O Supremo Tribunal Federal tolera que um de seus membros interrompa, há mais de um ano, sob o pretexto de vista, uma ação, cujo resultado já está definido por 6 votos a 1, sobre a ilegalidade do financiamento privado de campanhas, fenômeno que está na origem da corrupção do sistema eleitoral em todos os Partidos e veículo para o exercício da influência corruptora do poder econômico na política e na Administração.
O objetivo deste Juiz é aguardar até que o Congresso aprove emenda constitucional, já em tramitação por obra do Presidente da Câmara, que torna legal o financiamento privado de campanhas.  
A teoria do domínio do fato, uma aberração jurídica, acolhida pelo STF, reverte o ônus da prova e, mais, torna qualquer indivíduo responsável pelos atos de outrem sob suas ordens sem que o acusador ou o juiz tenha necessidade de provar que o acusado conhecia tais fatos.
O sistema do Ministério Público permite a qualquer Procurador individual desencadear processos com base até em notícias de jornal contra qualquer indivíduo, vazar de forma seletiva estas acusações para a imprensa, que as reproduz, sem nenhum respeito pelos direitos dos supostos culpados e sem nenhuma perspectiva razoável de reparação do dano causado pelas denúncias do Procurador nem pela imprensa que as divulgou, caso se verifique a improcedência das acusações.
A Polícia Federal exerce suas funções com extrema parcialidade, de forma midiática, criando, na sociedade a presunção de alta periculosidade de indivíduos que prende para investigação e se arvorando em poder independente do Estado.
Segundo depoimento do Presidente das entidades da Polícia Federal na Câmara dos Deputados, a Polícia Federal recebe regularmente recursos da CIA, do FBI e da Drug Enforcement Administration - DEA, no montante de USD 10 milhões anuais, depositados diretamente em contas individuais de policiais federais.
A crise política decorre da decepção e do inconformismo do PSDB e de seus aliados com a derrota nas urnas em 2014 o que os leva a procurar, por todos os meios, erodir a credibilidade e a legitimidade do Governo Dilma Rousseff e, por via transversa, do Governo Lula e assim minar as possibilidades de vitória de uma eventual candidatura de Lula em 2018.
Contam os partidos e políticos conservadores com a campanha sistemática da televisão, jornais e revistas, com base em denúncias vazadas, com a campanha de intimidação na Internet, com as manifestações populares, com o desemprego crescente causado pela política de corte de investimentos e de elevação estratosférica de juros, os maiores do mundo, para fazer baixar os índices de aprovação do Governo e da Presidenta e poder argumentar com a legitimidade e a necessidade de depô-la pelo impeachment.
A crise na imprensa e nos meios de comunicação se desenvolve em um ambiente em que as televisões, rádios, jornais e revistas recebem paradoxalmente enormes recursos do Governo para a ele fazer oposição sistemática, erodir a confiança da população no sistema político e nos partidos, em especial nos partidos progressistas, de esquerda, poupando os partidos conservadores tais como o PSDB, que recebeu tantas doações para sua campanha de 2014 quanto o PT e das mesmas empresas ora acusadas pelo juiz Moro.
A crise social se desenvolve na Internet, onde circula todo tipo de ofensa racista, homofóbica, antifeminina, antiprogressista e fascista, contra os políticos e partidos de esquerda, gerando um clima de hostilidade e ódio e estimulando a agressão física.
No Congresso, os setores mais conservadores elegeram grande número de deputados e, tendo conquistado a Presidência da Câmara dos Deputados, fazem avançar, a toque de caixa, sem nenhuma atenção à necessidade de debate pelos parlamentares e pela sociedade, uma ampla pauta de projetos conservadores que inclui a redução da maioridade penal, a ampliação do uso de armas, o financiamento privado das campanhas, a terceirização do trabalho.
O objetivo máximo desta grande ofensiva política e econômica  conservadora é a tomada do poder através do impeachment da Presidenta Dilma e/ou a desmoralização do PT que leve a sua derrota fragorosa nas eleições de 2016, a qual preparará sua derrota final e “desaparecimento”  nas eleições de 2018. 
O processo político de impeachment da Presidenta Dilma não avança por estarem o PSDB e PMDB divididos quanto a sua conveniência no atual momento do calendário político e econômico.
Os três possíveis candidatos do PSDB à Presidência da República, quais sejam, Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra tem opiniões diferentes sobre sua conveniência.
A Aécio Neves interessa o impeachment de Dilma Rousseff e de Michel Temer por crime eleitoral, declarado pelo TSE, logo que possível pois isto levaria a uma eleição em 90 dias onde espera que, como presidente nacional do PSDB e candidato que teria  perdido a eleição devido a “fraude”, agora se beneficiaria devido a sua campanha persistente pela ilegitimidade dos resultados eleitorais de 2014, o que o faria o candidato do PSDB com melhor perspectiva de vitória.
A Geraldo Alckmim interessa que o processo político, econômico e social desgaste longa e duradouramente o Governo Dilma e o PT até que as eleições municipais se realizem  em 2016, com fragorosa derrota do PT e do PMDB e que tenha tempo de construir sua candidatura, com base no Governo de São Paulo, enquanto a candidatura de  Aécio se enfraqueceria com o tempo como   resultado de eventuais denúncias.
A José Serra interessa também que o impeachment não ocorra,  que o Governo se desgaste para que tenha tempo de reconstruir  sua imagem e eventualmente possa se  candidatar pelo PSDB em 2018 ou até mesmo pelo PMDB, que insiste em ter candidato próprio mas sem nome hoje viável. Afinal, Serra foi fundador do PMDB e voltaria a sua casa, construindo sua candidatura junto à classe média nacional, através de sua atuação no Senado, com toda cobertura favorável da imprensa.
Para o PMDB, o impeachment da Presidenta representa o fim de um Governo onde ocupa a Vice-Presidência e ao qual dá apoio enquanto que um longo processo de desgaste da Presidenta, do Governo e do PT também o atingiria como partido aliado, enquanto a imprensa desgasta sua imagem na opinião pública como partido oportunista e corrupto.
Os interesses de Michel Temer, de Renan Calheiros e de Eduardo Cunha são divergentes. Cunha acredita poder ser o candidato do PMDB à Presidência, assumindo a liderança da ofensiva conservadora e o papel de defensor da Câmara, dos representantes do Povo, mas enfrenta o desgaste das denúncias de corrupção. Michel Temer sabe que a condenação por crime eleitoral de Dilma Rousseff pelo TSE também o arrastaria enquanto que a condenação de Dilma pela rejeição das contas de 2014 pelo TCU e pelo Congresso o levariam à Presidência. Renan disputa com Temer influência no PMDB e imagina poder ser candidato em 2018 com o enfraquecimento dos demais. 
No PT, a situação é talvez ainda mais grave.
O programa econômico conservador, ao cortar investimentos públicos e as despesas de custeio do Governo, aumenta o desemprego e afeta a demanda o que reduz as perspectivas de lucro, contrai os investimentos privados, estabelece a desconfiança nos “mercados” e reduz as receitas normais tributárias, aumentando o déficit público.
Ao aumentar a taxa de juros, o Governo (Banco Central) aumenta as despesas do Governo e a relação dívida/PIB, reduz a atividade econômica e as perspectivas de lucro e provoca a queda da arrecadação. Ao não conseguir o aumento de receitas normais pela dificuldade em elevar tributos, passa a apelar para a venda de ativos o que é uma forma disfarçada de privatização, com resultados apenas temporários.
Ao provocar o desemprego, ao apoiar medidas desfavoráveis aos trabalhadores como alterações no seguro desemprego, no abono salarial e outras, e ao provocar a redução do crescimento o Governo mina a sua base de apoio social e político e as bases sociais e políticas do PT.
A retração da demanda, o aumento das taxas de juros, a contração das atividades do BNDES, a redução das oportunidades de investimento, a perspectiva de aumento de tributos afetam os interesses dos empresários e aumenta o seu descontentamento com o Governo e sua política.
Não há liderança no PT além de Lula que, por seu lado, não vê como abandonar o programa econômico do Governo Dilma sem acelerar sua queda, mas reclama da incapacidade da Presidenta para o exercício da política.
As pesquisas de opinião podem vir a revelar níveis de rejeição muito superiores aos que ocorreram na véspera do impeachment de Collor. Caso os níveis de aprovação caiam abaixo de 5%, o desânimo e a desmobilização dos movimentos sociais e dos sindicatos, a perplexidade dos congressistas, a posição dos candidatos a prefeito em 2016, as contínuas denúncias do Ministério Público (na realidade de procuradores individuais) contra políticos vinculados ao PT e contra o próprio Lula, a agressividade social e intimidatória conservadora podem gerar situação de gravíssimo perigo político para sobrevivência da democracia.
O Governo, apático, atordoado e intimidado, parece acreditar em sua pureza que fará que, ao final, sobreviva, único puro, à tempestade de denúncias que atingem políticos e partidos sem compreender que o objetivo da ofensiva conservadora não é lutar contra a corrupção e moralizar o país mas sim derrubá-lo e recuperar a hegemonia completa na sociedade e no Estado.
O Governo se retrai, não age politicamente nem mobiliza intensamente os movimentos sociais e os setores que poderiam apoiá-lo no enfrentamento a esta ofensiva conservadora que fará o Brasil recuar anos em sua trajetória de luta contra as desigualdades e suas vulnerabilidades, e de construção de um país mais justo, menos desigual, mais democrático, mais próspero e mais soberano.
É urgente a mobilização de todas as forças sociais progressistas para combater o desemprego causado pelo programa de ajuste, que está, isto sim, gerando imensa crise econômica e social, para defender a democracia e seus representantes legítimos, para defender as conquistas dos trabalhadores, para defender a empresa nacional, para defender o desenvolvimento do país, para defender a soberania nacional e a capacidade de autodeterminação da sociedade brasileira.
Para defender o Brasil. 
Samuel Pinheiro Guimarães é embaixador
Fonte: jornalggn.com.br

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Dona Pandá e as minhocas a peso de ouro


Dona Pandá acredita que a terra tem predileção pelo húmus de minhoca. Em Ibiúna, com muita água – rios, riachos, lagoas – os pesque pague fazem presença por todo o município e, consequentemente, as minhocas lá estão para ajudar os pacientes pescadores. O minhocário da Chácara Xury foi implantado com o fornecimento dos pesqueiros.
Dona Pandá, depois de muita batalha, conseguiu encher as manilhas de esterco bovino e, hoje, pela manhã, pegou a Preta e pé na estrada em direção a Sete Lagoas. Estava de posse de informações de que a época é de pescaria, portanto, as minhocas deveriam estar a postos. Após 30 e alguma coisa de quilômetros rodados, sem nada que anunciasse um pesque pague, lá estava, à beira da estrada, uma casinha com um letreiro, concorrendo em tamanho com ela, anunciava minhocuçu e outras variedades. Dona Pandá parou e correu para lá.
- O senhor tem minhoca comum?
- Sim. A senhora quer a minhoquinha?
- Posso ver?
- Aqui, nesta caixa. – O rapaz enviou a mão numa caixa cheia de esterco e saiu carregando um bom volume do que Dona Pandá buscava. Indignada com o desprezo dado a suas colaboradoras, ela questionou o tratamento:
- Por que o senhor falou minhoquinha? Elas são minhocas que produzem húmus que alimenta a Terra que lhe dá as belas alfaces que, com certeza, o senhor muito aprecia. Ou o senhor não come alface? Não come repolho, tomate, brócolis e as frutas do pomar? Como é que o senhor quer matar sua fome sem as minhocas? Heim?! Me diga aí.
- Dona, eu só estou quebrando o galho para o dono que teve de sair para uma consulta no médico.
- No médico? Deve ser porque ele não come verdura. Aliás, quero saber quem o senhor chama de minhoca? – O pobre rapaz, absolutamente apavorado com o discurso de Dona Pandá que continuava defendendo as minhocas com sua ênfase peculiar quando o assunto lhe é querido, respirou fundo e ousou balbuciar;
- A senhora vai levar?
- Se o senhor tiver MI NHO CA... Quanto é?
- R$ 25,00 o litro.
- O que?!!! É muito caro!
- A senhora está dizendo que as MI NHO CAS não valem nada? – Dona Pandá, olhou pro sujeito e viu o brilho malicioso nos seus olhos acompanhado de um tímido sorriso. Ela reconheceu imediatamente que perdera a negociação, devolveu-lhe o sorriso amarelo e falou:
- Quanto o senhor tem neste caixote?
- Sete litros.
- Caraca!
- São R$ 175,00. Confere aí no seu telefone: 25 x 5= 125 +50=175
- É isto aí. Madre mia! Vou levar!







segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Dona Pandá se foi...para as Alterosas, de novo


Desta vez, sem retorno. Foi o que ela disse naquela madrugada quando entrou na Preta ao lado do filho que estava no lugar do motorista. Atrás, na carroceria, com a capota fechada, seus fidelíssimos Bia e Bei.

O sem retorno foi dito na despedida de suas amigas Dai e Bel. A madrugada deve ter sido escolhida para o escuro da ainda noite esconder a fuga, as lágrimas contidas que iam e as amigas árvores que ficavam guardando o lugar que foi a sua Chácara Xury, o seu lugar.

Isto aconteceu há 10 meses, o tempo que Dona Pandá precisou para falar sobre sua mudança. Diz que “a razão tem razões que o coração desconhece” e este desconhecimento o deixa apalermado, preguiçoso.

Bia acompanhando o coração da dona, olhava sem ver, não queria entrar na caminhonete. Bei entrou e rosnou até com o amigo, exigindo um tempo. Nas horas dos 600 quilômetros, a presença forte e cuidadosa do filhão e a atenção exigida pelos cachorros amenizaram a viagem dolorosa.

A chegada na nova casa, a Morada 21 de maio, foi para Dona Pandá um turbilhão de emoções contraditórias. De um lado, a dor de um estado de sofrimento por uma perda do tamanho do seu mundo, de outro, o acolhimento carinhoso, cuidadoso de Iriem, a irmã sábia.  Ainda bem que Bia e Bei demandaram atenção especial para a entrada em seu novo lar. Como sempre, eles conseguiram mudar o assunto da perda para as novidades do desconhecido.

A Morada 21 de maio foi construída no fundo do sítio Catita, de propriedade da mana sábia.  Os detalhes da casa e do canil foram cuidadosamente planejados para que o acolhimento fosse perfeito.

Tudo foi muito bem preparado. Iriem só não conseguiu dar à casa e sua área de influência o jeito de Dona Pandá que é rústica, uma gambiagem, enquanto a mana é sofisticada, de fino acabamento. Durante um bocado de tempo, ao planejar o mobiliário, Dona Pandá procurava fazer com que o que fosse colocado dentro combinasse com a construção. Foi um fracasso total. Quem, hoje, entra na Morada 21, pode até perceber o esforço do desengonçado querer colocar uma gravata de seda e, no entanto, no lugar aparece um pano xadrez desfiado.

Um vírus invadiu Dona Pandá e fez um baita estrago. Foi no dia seguinte à visita do filho. Sem entender, não conseguiu se levantar e durante 20 dias a cama foi seu lugar. Quando conseguiu, foi colocar as mãos na terra, onde pegou sua boa energia e, com os cuidados da mana sábia, começou a recuperação, bem mais lenta que esperada. A prescrição da sua Bruxa  - a médica homeopática Regina – completou o processo. Dona Pandá se voltou, então, às suas atividades curativas da alma. 

Tratou de fazer uma horta e recuperar o pomar.
Agora, as dificuldades estão no seu campo de conhecimento. Delimitar o pedaço para cercar a horta, preparar a terra. Ai, ai, ai, que solo pobre! Precisamos de húmus, muito húmus! Onde encontrar esterco e minhocas?! Enquanto não acha o fornecedor, o jeito é comprar o húmus que parece feito de ouro! Caríssimo! Passa por muitos numa cadeia infinita para chegar ao Catita. Mais uma vez, a estória se repete: o produtor mal consegue pagar seus custos e o consumidor se dependa!
Dona Pandá inicia nova fase. Ela prometa contar todo o caminho da alface que chega à mesa do Catita. Este foi o capítulo da chegada às Alterosas. O próximo será o início da transa com a terra, o grande desafio!





segunda-feira, 21 de julho de 2014

O banco dos Brics colocou o Nordeste na geopolítica mundial, mas ninguém notou

por : Jura Passos



Emergentes em ação
Num primeiro momento, os jornais brasileiros tentaram ignorar a criação do Banco dos Brics.

Depois tentaram transformá-lo num bric-a-brac – um brechó. Reduziram a quinquilharias o acordo multilateral reunindo o Brasil, a Russia, a China, a Índia e a África do Sul – que sozinhos poderão abrigar, nos próximos dez anos, segundo dados da revista Exame, 1,8 bilhão de consumidores com renda superior a três mil dólares anuais, entre os quais 200 milhões com ganhos acima de 15 mil dólares.

Perderam uma excelente chance de falar mal da presidente Dilma com argumentos mais qualificados. Poderiam dizer, por exemplo, que esse dinheiro seria melhor empregado reduzindo a dívida pública e, portanto, a taxa de juros. Que ele poderia financiar projetos de infraestrutura de que o país tanto necessita. Que poderia pagar salários capazes de fazer os doutores dos Jardins de São Paulo e da Zona Sul carioca trocarem seus consultórios milionários por postos de saúde no Capão Redondo e na Baixada Fluminense.

Mas não, preferiram insinuar que o banco, com capital inicial de 100 bilhões de dólares divididos em partes iguais entre os cinco sócios, será dirigido pela Índia, a sede será na China e o Brasil só ficou com a presidência do conselho de administração.

Os cargos são rotativos…

Todo esse desdém acabou omitindo a cidade que sediou a fundação do banco, poucos dias após sediar alguns dos melhores momentos da Copa e a melhor exibição da seleção brasileira, contra a Colômbia.

Fortaleza!

A Declaração de Fortaleza, da VI Reunião de Cúpula dos Brics, começa assim:

“Nós, os líderes da República Federativa do Brasil, da Federação Russa, da República da Índia, da República Popular da China e da República da África do Sul, reunimo-nos em Fortaleza, Brasil, em 15 de julho de 2014 na VI Cúpula do BRICS.”

A notícia mais surpreendente que a nossa imprensa não deu não foi a fundação, a conveniência, a necessidade ou a importância do banco, uma espécie de BNDES+FMI intercontinental dos emergentes.

Tudo isso eles viram, mas calaram.

O que ninguém quis ver é que a criação do Novo Banco de Desenvolvimento colocou o nordeste brasileiro na geopolítica mundial, enquanto São Paulo seca.

A declaração de Fortaleza faz críticas às promessas não cumpridas de mudanças no FMI, do qual os Brics também são sócios. A presidente do FMI Christiane Lagarde, no entanto, saudou a criação do Novo Banco.

Depois de assistir a final da Copa entre Alemanha e Argentina no Maracanã, o presidente russo Vladimir Putin seguiu para a Cúpula de Fortaleza. De lá, voou de volta para Moscou.

No caminho o avião de Putin cruzou, perto de Varsóvia, com um atraso de 37 minutos, a rota do Boeing da Malaysian Airlines que pode ter sido abatido por um míssil sobre a Ucrânia.

De acordo com o Guardian, assim que desembarcou em Moscou, proveniente da reunião dos brics no Brasil, Putin ligou imediatamente para informar Obama sobre o incidente.

Como na criação do banco dos Brics, não faltaram especulações: o avião visado no atentado seria o de Putin, não o malaio. Ainda que Varsóvia seja a capital da Polônia e esteja muito longe do leste da Ucrânia, onde o Boeing da Malaysian caiu.


Se quisermos continuar especulando, Fortaleza poderia entrar para a geopolítica mundial não como Sarajevo – onde o assassinato do príncipe Ferdinando teria provocado a primeira guerra mundial – mas como ponto de partida da terceira.

Como nada disso aconteceu, o Ceará estreou muito bem na geopolítica mundial. E chega de especulações.

Sobre o Autor: Jura Passos é jornalista especializado em comunicação do setor público, por enquanto. Foi corretor de imóveis, professor de matemática, fotógrafo, cozinheiro e físico, tendo fracassado em tudo isso. É um eterno aprendiz de capoeira e maracatu e adora viajar de bicicleta por ai, menos em São Paulo

Para a Vivo funcionar só na Justiça!

Peço aos queridos leitores que desculpem a ausência de novas postagens. a culpa total é da incompetência, desleixo, falta de respeito pelos usuários da concessionário de serviços públicos, Vivo. Não tenho alternativa, pois é a única prestadora de telefonia e internet na minha área. Embora eu já tenha feito tudo que está ao alcance dos usuários - reclamações ao PROCON,à ANATEL,e à Ouvidoria da concessionária - nenhum desses órgãos foi capaz de fazer a concessionária de serviços públicos fornecer os serviços para os quais o Estado Brasileiro lhe concedeu o direito. A tal concessionária só é capaz de cobrar pelos serviços, mas não de fornecê-los com o mínimo de qualidade.

No momento, para eu poder publicar esta explicação, estou numa lan house. Entrei na Justiça pedindo uma liminar. A audiência foi marcada para setembro. Assim, tenho a esperança de voltar a publicar normalmente as postagens neste Libertas QUANDO SETEMBRO CHEGAR.
Agradeço a compreensão e até sembro ou a qualquer tempo sendo possível em uma lan house. Obrigada.

Manipulação da informação nacional e internacional

Colunista chama a atenção para a manipulação dos noticiários pela grande imprensa

Por Mário Augusto Jakobskind, do Rio de Janeiro





Curiosamente, menos de 24 horas depois da derrota acachapante do Brasil de 7 a 1 contra a Alemanha, o jornal O Globo dava o ar de sua graça de manipulação da informação nas páginas de economia. E por incrível que pareça, o mais vendido jornal do Rio de Janeiro editava a seguinte matéria com título revelador: “Derrota do Brasil faz Bolsa de SP ter alta de 1,79%%”. Em seguida o complemento “para investidores estrangeiros, resultado vai dificultar reeleição de Dilma”. A Copa do Mundo chegou ao fim, mas as discussões futebolísticas continuam. Como estamos entrando agora na etapa da campanha eleitoral, não custa nada lembrar um fato jornalístico que dá bem a ideia de como serão as próximas semanas e meses até 5 de outubro próximo.

E a manipulação veio ainda acrescida da “informação” sobre aumento de ações da Petrobras e que “a continuidade dessa elevação vai depender dos efeitos nas ruas, em protestos, por exemplo, segundo opinião de uma analista do grupo mexicano GBM”.

Realmente, é o tipo da informação (melhor seria mesmo entre aspas) com o visível intuito de investir contra uma das candidaturas, A elevação da cotação das ações na Bolsa de SP geralmente acontece quando sobe a Bolsa de Nova York. Quando baixa ocorre o mesmo por estas bandas. Mas para as Organizações Globo, a cotação para mais ou para menos depende agora de outros fatores, inclusive eventuais manifestações de rua, que em algum momento a mídia conservadora tentou pautar.

Como O Globo e demais veículos das Organizações com o mesmo nome distorce a informação porque, mesmo sem colocar em seus editoriais, apoia visivelmente uma das candidaturas, exatamente a que mais promessas faz de agrado ao mercado. Não é difícil saber de quem se trata.

Por estas e muitas outras, jornais, rádios e telejornais, na medida em que se aproxima a eleição, o Brasil vem sendo apresentado com um país à beira de uma crise sem precedentes. É óbvio que a mídia conservadora cria um clima nesta antevéspera de eleição para levar o eleitor a se posicionar de acordo com os interesses do mercado.

Como se não bastasse essa investida na área econômica do jornal, a Rede Globo tem noticiado o agravamento da situação no Oriente Médio, visivelmente a partir e a favor de um dos lados, no caso de Israel. Diretamente de uma cidade israelense, a TV Globo mostrava o aparecimento de alguns foguetes lançados sobre território israelense e junto a isso apresentava a movimentação de gente se dirigindo para os abrigos antiaéreos. Flagrantemente dava entender que a agressão partia do Hamas e minimizava os bombardeios que atingiam a população civil com a morte de mais de 200 palestinos, nele incluídos mulheres e crianças.

Um conflito desproporcional, bastando para tanto contabilizar o número de vítimas dos dois lados. Em poucos dias, mais de 200 palestinos morreram e 500 deles ficaram feridos. Já do lado de Israel morreram até agora duas pessoas e uns 15 ficaram feridos. É o resultado concreto de armamentos de última geração por parte de Israel com foguetes quase artesanais do Hamas.

O governo de Israel simplesmente repete o que já tinha feito em outras ocasiões na mesma Faixa de Gaza. Chefiado pelo troglodita político, o Primeiro-Ministro Benyamin Netanyahu, tendo como integrante do governo o não menos troglodita Ministro do Exterior, Avigdor Lieberman, o mesmo que há tempos fez pronunciamentos racistas contra os árabes, a situação na área se agrava e na última quinta-feira se anunciava o início de uma operação terrestre.

Mas a Rede Globo acionou seu correspondente em Israel para colher a versão dos militares do país que ocupa territórios palestinos. Um visível esquema para culpar apenas um dos lados, no caso o Hamas.

No mais, a mesma direita que receia as transformações que acontecem na América Latina, não se conforma com o fortalecimento da unidade dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) com o Banco de Desenvolvimento.

A raiva aumenta quando os Brics se reúnem no Brasil com os países integrantes da Unasul (União das Nações Sul Americanas) e a Celac (Comunidade dos Estados Latino-americanos e do Caribe_) se faz presente em Brasília.

Não é à toa que, sem bandeiras, parlamentares do PSDB e Dem investem contra o governo brasileiro por hospedar o Presidente cubano Raul Castro na Granja do Torto.

Mário Augusto Jakobskind, jornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil); preside a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI – seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla (no prelo).

Direto da Redação é editado pelo jornalista Rui Martins com o apoio do Correio do Brasil.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Conversas com Escritores Mortos: Dickens ‘fala’ sobre reis ingleses


Camila Nogueira

A colunista Camila Nogueira de vez em quando nos surpreende com conversas extraordinárias. De um lado, ela mesma. De outro, algum grande escritor — morto. Os diálogos de Camila se valem em parte dela mesma, com suas perguntas agudas, e em parte dos “entrevistados” — de cujas obras ela extrai as respostas.
No presente caso, Camila conversa com Charles Dickens sobre dois reis ingleses que ele perfilou em sua História da Inglaterra para Crianças.
Katharine Hepburn e Peter O'Toole nos papeis de Eleanor da Aquitânia e Henrique II no filme "O Leão no Inverno"
Katharine Hepburn e Peter O’Toole nos papeis de Eleanor da Aquitânia e Henrique II no filme “O Leão no Inverno”

A história de Henrique II e de sua amizade/ inimizade com Thomas Becket é interessantíssima, mas considero que a narrativa mais interessante de seu reinado seja a do relacionamento do rei com os filhos, suas “pequenas águias”. Charlie, você a contaria para nós?

Pretendo resumi-la em umas poucas palavras, para depois explicá-la mais profundamente. Havia um belo aposento no castelo de Winchester, adornado com cenas alegóricas e coloridas que representavam a vida do rei. Algum tempo depois, ele ordenou que fosse retratada uma grande águia, no centro, rodeada por quatro pequenas águias. Enquanto três delas atacavam a maior, a quarta águia a fitava atentamente. Consta que o rei comentou: “As quatro pequenas águias são os meus quatro filhos, que irão perseguir-me até eu morrer. A menor delas, que eu amo ternamente, é quem irá me ferir, e mais gravemente. Está esperando pelo momento de arrancar-me os olhos com o bico”.

Belo começo. E então?

Henrique II tinha quatro filhos. Henrique, o mais velho, tinha agora dezoito anos. Sua coroação, enquanto o pai ainda vivia, havia sido contestada por Thomas Becket, que provou-se correto em suas suposições. Ricardo tinha dezesseis anos, Geofredo quinze e João, seu favorito, era um garotinho apelidado pela corte de “João sem Terra”, porque não teria qualquer herança, mas a quem o rei pretendia ceder o domínio da Irlanda.

Como assim, “Thomas Becket provou-se correto em suas suposições”?

Becket havia sido contra a coroação do jovem Henrique, afirmando categoricamente que era imprudente anunciar um novo rei durante o reinado do antigo. E ele, infelizmente, estava certo, pois foi o jovem príncipe Henrique, estimulado pelo rei da França e por sua mãe, Eleanor da Aquitânia, quem iniciou a história desonrada que irei contar.

Hmmm…

Primeiro, Henrique demandou que sua jovem esposa, Marguerite, filha do rei da França, fosse coroada com ele. Seu pai consentiu, e isso foi feito. Pouco depois, exigiu tomar posse de uma parte dos domínios do pai, durante a vida do mesmo. Quando isso lhe foi recusado, Henrique deixou a propriedade paterna, com o coração repleto de amargura e ressentimento, e refugiou-se na coerte francesa. Um ou dois dias depois, seus irmãos Ricardo e Geofredo também partiram. Eleanor tentou fazer o mesmo, mas foi descoberta pelos homens de Henrique II e aprisionada, merecidamente, por dezesseis anos.

Hmmm…

Esse foi o início de uma guerra entre o pai e os filhos. O rei Henrique II defendeu seus domínios com unhas e dentes e seus exércitos derrotaram os de seus filhos. Os conspiradores, então, propuseram a paz, e Henrique e Geofredo apresentaram seus pedidos de desculpas. O rei os perdoou prontamente.

E Ricardo?

Ricardo resistiu por seis semanas; mas, derrotado, também se entregou, e também foi perdoado pelo pai.

As guerras cessaram?

De modo algum. Perdoar esses príncipes indignos era sinônimo de dar-lhes mais tempo para organizar uma nova conspiração. É com pesar que declaro que os príncipes ingleses eram tão dissimulados, desleais e desonrados que o rei não deveria ter confiado neles mais do que confiaria em qualquer criminoso preso nas galés.

Então, imagino que o rei tenha sido atacado novamente por suas pequenas águias.

No ano seguinte, o príncipe Henrique se rebelou novamente, e seu pai o perdoou mais uma vez. Oito anos mais tarde, o príncipe Ricardo rebelou-se contra o irmão mais velho, e foi então que o príncipe Geofredo declarou, de modo infame, que os irmãos jamais concordariam em qualquer coisa, a não ser quando se uniam contra o pai. Um ano se passou desde o perdão mais recente e o príncipe Henrique se rebelou mais uma vez – e foi perdoado mais uma vez, como de costume, após jurar que estava sinceramente arrependido. Não o suficiente, receio, para deixar de se rebelar uma outra vez, ao lado de Geofredo.

O príncipe Henrique nunca chegou a reinar na Inglaterra, não é mesmo?

Não, porque o fim desse príncipe pérfido estava chegando. Ele adoeceu em uma cidade francesa; sua consciência o reprovava terrivelmente, então pediu que mensageiros chamassem seu pai, implorando que este fosse encontrá-lo e que o perdoasse uma última vez em seu leito de morte. O generoso rei, que sempre foi extremamente nobre e clemente em relação aos filhos amados, teria partido para vê-lo; mas levando em consideração que já havia sido enganado pelos filhos outras vezes, e que esse pedido era anormal à sua natureza perversa, os conselheiros reais suspeitaram de traição e afirmaram que o rei não poderia arriscar sua vida para satisfazer o último desejo de um traidor, ainda que o traidor em questão fosse seu filho mais velho.

Acho que ninguém teria ido.

O rei não foi ao encontro do primogênito, mas mandou um anel que sempre mantinha consigo como símbolo de perdão. E então, o príncipe Henrique, jovem de beleza lendária, charme juvenil, olhos azuis brilhantes e cabelos meio dourados meio ruivos que marcaram a famosa dinastia Plantageneta, morreu miseravelmente. Ao receber o anel, o príncipe rompeu em lágrimas, confessando àqueles que rodeavam sua cama de como havia sido um filho cruel e desleal. Disse aos padres: “Tirem-me dessa cama e deitem-me nas cinzas, para que eu possa morrer em suplício, rezando para que Deus me perdoe”. Assim morreu o príncipe Henrique, aos vinte e sete anos.

E seus irmãos?

Três anos mais tarde, o príncipe Geofredo morreu em um torneio, esmagado por um cavalo. Sobraram os príncipes Ricardo e João. O último já era um jovenzinho, e havia jurado solenemente manter-se fiel ao pai.

Ricardo rebelou-se novamente, como já era de se imaginar?

Sim, encorajado por seu amigo e rei francês, Filipe II. Foi rendido, e o pai o perdoou mais uma vez, após Ricardo jurar sobre o Novo Testamento que jamais se rebelaria novamente; passado um ano, voltou-se contra Henrique II; e, na presença deste, ajoelhou-se perante o rei da França e declarou que, com sua ajuda, ele tomaria todos os bens franceses do rei da Inglaterra.

Qual foi a reação do rei diante de tal infidelidade?

Henrique II estava adoentado, fatigado pela falsidade de seus filhos e pela humilhação atroz a qual Ricardo o expôs. O rei infeliz, que até então se manteve firme, deu início ao seu declínio. Quando seus nobres o desertaram, um por um, o angustiado rei, com o coração partido, consentiu em estabelecer a paz, mas um sofrimento final estava reservado para ele. Levaram-lhe a proposta do tratado de paz, e também lhe passaram a lista deles que o desertaram – que, de acordo com o tratado, deveriam ser perdoados. O primeiro nome na lista era o príncipe João, seu filho favorito. “Meu amado filho”, exclamou o rei, agonizando, “João, aquele que mais amei! João, por quem suportei todas essas desgraças! Ele também me traiu”. Infeliz e desesperado, disse: “Agora, seja o que Deus quiser. Nada mais me interessa!” Pouco depois, expirou.

E foi este o início do reinado de Ricardo Coração de Leão. Não foi um ato muito honrado, para um rei que afirmava defender a vontade de Cristo partindo para as Cruzadas, trair o pai após jurar fidelidade diante do Novo Testamento.

Anos depois, lisonjeando-se, o então rei Ricardo I afirmou ter o coração de um leão. No entanto, penso eu, seria melhor que tivesse um coração humano. O seu coração, do que quer que tenha sido feito, foi sombrio, gelado e desleal, o levou a ferir um pai que o amava e carecia, mais do que o coração de qualquer fera do bosque, de um único toque de ternura e humanidade.


Sobre a Autora: Camila Nogueira, nossa correspondente de literatura, tem a impressionante capacidade de ler romances de 600 páginas em dois dias -- e depois citar frases inteiras da obra. Com apenas 16 anos, ela já leu as obras completas dos maiores mestres da literatura - como Balzac, Dumas, Fitzgerald e Dickens.
Nossa fonte: DCM