Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Ato de Lançamento Nacional da Jornada Continental de Luta Anti-Imperialista


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Em clima de celebração dos dez anos da vitória popular sobre a ALCA e de reflexão sobre os desafios atuais da luta popular em nosso Continente, realizaremos este grande ATO POLÍTICO CULTURAL ANTI-IMPERIALISTA. Contaremos com a presença de representantes das diversas organizações que no início da década de 2000 construíram a “Campanha Continental Contra a ALCA” no Brasil, através da organização do Plebiscito Popular Contra a ALCA, em 2002, que coletou mais de 10 milhões de votos. Esse processo de construção somado às ações realizadas em países de todo continente foram fundamentais para o definitivo “enterro” da ALCA, no dia 05 de Novembro de 2015, na Cúpula da OEA em Mar del Plata, Argentina.
Passados 10 anos, é necessário que unifiquemos as organizações para realizar uma profunda reflexão sobre os atuais desafios da luta anti-imperialista, além de é claro retomar as lutas e campanhas de rua para avançarmos em vitórias concretas frente à atual contraofensiva imperialista que vivem nossos povos, nossos territórios e os governos progressistas eleitos nos últimos períodos.

É nesse espírito que a Articulação Continental dos Movimentos Sociais da ALBA convoca a JORNADA CONTINENTAL DE LUTA ANTI-IMPERIALISTA, comdiversas atividades em mais de 20 países do Continente, de 05 a 22 de Novembro de 2015, sendo que se propõe a realização de mobilizações de rua no dia 5 de novembro. 

PROGRAMAÇÃO DO ATO 07/10

o 19:00 - Abertura do Ato e Conformação de Mesa com a presença das principais organizações nacionais do Plebiscito Contra a ALCA.
o 19:20 – Debate: desafios atuais da Luta Anti-imperialista, com a presença de João Pedro Stédile representando o MST e a Articulação Continental dos Movimentos Sociais da ALBA.
o 19:40 – Saudações das Organizações e inscrições do Plenário
o 21:00 - Confraternização Latino-americana com música ao vivo, comidas e bebidas.

Contamos com a presença de vocês para nesse primeiro ato da Jornada, que promete ser uma noite de muita luta e mística latino-americana!

Convidam:
Secretaria Operativa ALBA Movimientos – Brasil
Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB)
Central Única dos Trabalhadores (CUT)
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)
Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)
União Nacional dos Estudantes (UNE)
Central de Movimentos Populares (CMP)
Consulta Popular
Centro Brasileiro de Solidariedade e Luta pela Paz (CEBRAPAZ)
Juventude do PT (JPT- São Paulo)
Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN)
Marcha Mundial das Mulheres (MMM)
Levante Popular da Juventude

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Haddad: mais uma vítima da "grande" mídia brasileira

Foi preciso que um jornal estrangeiro reconhecesse o que Haddad vem fazendo em São Paulo

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Por Paulo Nogueira Do DCM

O Wall Street Journal – conservador, pertencente a Murdoch – disse que em cidades mais mentalmente arejadas Haddad seria reconhecido como um “visionário urbano”.
Mas São Paulo, minha São Paulo, a cidade onde nasci e onde hei de morrer, bem, a cidade hoje é um monstro.
Era uma cidade popular, corintiana, à frente do resto do país em dinamismo, pujança e capacidade de trabalho.
Virou uma cidade reacionária, raivosa, preconceituosa e, sob muitos aspectos, obtusa.
Haddad inventou a bicicleta em São Paulo, e você pode dizer: demorou.
São Paulo quase não anda por causa de congentionamentos monstruosos, que entre outros efeitos poluem criminosamente a cidade.
Era óbvio que a cultura da bicicleta tinha que surgir como resposta ao pesadelo cotidiano de motores parados e motoristas neurotizados.
Sim, era óbvio. Londres, Paris, Nova York – todas as grandes metrópoles do mundo fizeram isso, no rastro dos exemplos extraordinários de Copenhague e Amsterdã.
Mas o que fizeram os antecessores de Haddad, notadamente Serra e Kassab?
Nada.
Kassab, pelo menos, não se vangloria de ser um cérebro à frente de seu tempo.
Mas Serra sim. E a verdade é que, você vendo sua folha corrida, Serra é exatamente o oposto.
Ele nunca fez nada que prestasse. São Paulo, sob ele, foi a cidade das árvores e faróis destruídos a cada chuva, dos pernilongos em festa – e dos automóveis caoticamente ocupando as ruas. Quando Serra falou emmobilidade urbana quando prefeito?
São Paulo virou a cara de Serra, em suma.
Se Serra teve sempre maciço apoio da imprensa para gerir bisonhamente São Paulo, Hassad enfrentou desde o início um brutal ataque.
Ele teve, de saída, uma iniciativa brilhante para enfrentar um dos dramas paulistanos: a desigualdade.
Montou um plano segundo o qual o IPTU de bairros periféricos seria reduzido em troca da elevação da taxa das zonas mais ricas.
Já aí ele mereceria aplausos.
Mas aconteceu o oposto. A imprensa crucificou Haddad, e os paulistanos mais abastados reagiram de uma forma pateticamente egoísta e míope.
Só que Haddad estava certo.
Assim como está coberto de razão na bicicleta.
Passada esta fase sinistra de São Paulo, superado o ódio dos que batem panelas e vestem roupas da CBF para manifestações pedir a volta dos militares, se verá o quanto Haddad acertou ao criar a cultura da bicicleta entre os paulistanos.
É possível, e até provável, que ele não consiga se reeleger em 2018.
Será uma pena, uma imensa pena para a cidade.
Caso ele não ganhe um segundo mandato, será por causa de suas virtudes – por ser um visionário urbano, como definiu o WSJ, numa terra tão reacionária.
 

Leia a matéria completa em: Foi preciso que um jornal estrangeiro reconhecesse o que Haddad vem fazendo em São Paulo. Por Paulo Nogueira - Geledés http://www.geledes.org.br/foi-preciso-que-um-jornal-estrangeiro-reconhecesse-o-que-haddad-vem-fazendo-em-sao-paulo-por-paulo-nogueira/#ixzz3moAkNtPe

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O FIM DA ISENÇÃO DE IR EM LUCROS E DIVIDENDOS FECHARIA ORÇAMENTO 2016

André Barrocal

Valter Campanato/Agência Brasil

Levy (esq) venceu Barbosa e optou por não transmitir sinal contrário ao “andar de cima”


O governo anunciou na segunda-feira 14 alguns aumentos de impostos para tentar transformar o rombo de 30 bilhões de reais no orçamento de 2016 em uma sobra de 34 bilhões. Embora tivesse à mão um leque de opções capazes de tornar o sistema tributário brasileiro mais justo, o pacote tem propostas progressivas tímidas. O motivo foi o boicote do ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Entre as medidas anunciadas, só duas atacam a injustiça da tributação nacional, concentrada na taxação do consumo, um modelo punitivo dos mais pobres.

Uma cria uma tabela progressiva de imposto de renda (IR) sobre o lucro obtido na venda de imóveis. Hoje, há uma alíquota de 15% de IR no lucro nestas transações. O governo quer cobrar 20%, 25% ou 30% em cima dos ganhos que, durante um ano, superem um milhão de reais.

A outra reduz um pouco as vantagens obtidas pelas empresas no uso de um dispositivo chamado “juros sobre capital próprio”. Este mecanismo, criado por uma lei de 1995 e existente só no Brasil, permite às pessoas jurídicas inventar uma despesa para pagar menos IR.

Juntas, as duas medidas, caso entrem em vigor tal qual propostas pelo governo, vão render 2,9 bilhões de reais anuais, nas contas da equipe de Levy.

A principal aposta tributária do governo para fechar o orçamento de 2016 é recriar a CPMF com uma alíquota de 0,20%. Renderia 32 bilhões de reais por ano.

Além da volta da CPMF, o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, defendia dentro do governo duas medidas tributárias progressivas. Alíquotas maiores para o Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF). E fim da isenção de IRPF na distribuição de lucros e dividendos a donos e sócios de firmas.

Barbosa contava com o apoio de ao menos dois ministros do chamado núcleo duro do governo: Miguel Rossetto (Secretaria Geral) e Ricardo Berzoini (Comunicações). Segundo um ministro deste núcleo duro, Levy resistiu a “enfrentar os tubarões”, tendo optado por propostas que lhe pareciam “neutras”, ou seja, incapazes de transmitir sinal contrário ao “andar de cima”.

“A principal medida de progressividade tributária hoje no Brasil é acabar com a isenção de IR nos lucros e dividendos”, diz Sérgio Gobetti, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e ex-secretário-adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda.
Por coincidência, Gobetti participou logo após o anúncio do governo de um debate na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado sobre a carga tributária nacional. Ele e o também pesquisador do Ipea Rodrigo Orair examinaram dados recém-divulgados pela Receita Federal sobre o IRPF e concluíram que a maior distorção está na blindagem dos lucros e dividendos.

A isenção foi instituída pela mesma lei de 1995 que inventou o “juro sobre capital próprio”. Na declaração de IR entregue pelos brasileiros em 2014, essa isenção protegeu 71 mil contribuintes recebedores de quase 200 bilhões de reais isentos de tributação. “Há uma brutal concentração de renda no Brasil graças a essa isenção”, afirma Orair.

A volta do IR sobre a distribuição de lucros e dividendos poderia resolver quase sozinha os problemas do orçamento de 2016. Com uma alíquota de 15% como era até 1995, dizem os pesquisadores do Ipea, a taxação renderia 53 bilhões de reais por ano. Já com a aplicação da tabela progressiva do IRPF, com um teto de 27,5%, a arrecadação chegaria a 72 bilhões de reais anuais.

“O Brasil já avançou no gasto público para fazer justiça social. Falta arrecadar melhor”, diz o senador Lindberg Farias (PT-RJ), relator da subcomissão da CAE

FONTE: CARTA CAPITAL

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Dilma assume plataforma neoliberal. E agora?

negrobelchior 



Foto CUT

Lideranças da CUT, aliadas históricas dos governos de Lula e Dilma, têm sido enfáticas na crítica às ações econômicas do governo. Muitas afirmações,noticiadas em diversos meios de comunicação, são muito fortes: “A culpa da crise está sendo imputada aos trabalhadores”; “Falta diálogo do Governo junto a sociedade”; “O governo sinaliza para setores que não o apóia”; “Dilma prometeu uma coisa e está implementando outra”; “O governo desvia a política econômica para um rumo neoliberal, de direita, que não se sensibiliza com injustiças sociais”. Ao mesmo tempo em que são incisivas na crítica ao pacote e à política econômica do governo, são duras também da defesa do mandato da presidenta e no enfrentamento às iniciativas pró- impeachment, que chamam de “Golpe”.
Abordagem parecida com a da recém formada Frente Brasil Popular, que para além das críticas, apresentam uma plataforma progressista como alternativa à crise política e econômica que vivemos.
Assim como há tempos bradam as organizações que fazem oposição pela esquerda ao governo, parece que os setores mais alinhados chegaram também a conclusão de que é necessário construir saídas que possam superar a experiência petista no poder, sem no entanto, abrir mão das poucas conquistas sociais.
Mas há, me parece, duas perguntas que precisam ser respondidas: Será possível a construção de alternativas tendo como protagonistas das ações, os mesmos atores que dirigiram o processo político até aqui? Importantes atores políticos e sociais que até aqui apoiaram o governo, hoje tem suas pautas ignoradas e atacadas por ele. Estes terão legitimidade, representatividade, credibilidade moral para propor um novo caminho?

A saída é taxar as grandes fortunas e a especulação

Do Site da Smetal

Em nota à imprensa, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região, Ademilson Terto da Silva, criticou as medidas de ajuste fiscal anunciadas esta semana pelo governo federal. Em nome do SMetal, Terto disse que a instituição jamais concordará com medidas que joguem o peso de qualquer crise econômica nas costas dos trabalhadores.
O SMetal defende a taxação de grandes fortunas e do capital especulativo como forma de equilibrar as contas públicas, sem a necessidade de ressuscitar velhos e injustos tributos, como a CPMF, criada pelo governo neoliberal do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Uma reportagem da Carta Capital publicada dia 15/09 confirma que a tributação do capital não produtivo já bastaria para o governo alcançar o superávit necessário, sem mexer no bolso dos trabalhadores nem reduzir os recursos de programas sociais.
De acordo com a reportagem, um estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) comprova que se o governo cobrasse 15% de imposto de renda sobre os lucros e dividendos recebidos por acionistas de empresas, as contas públicas já fechariam. Com essa taxação de capital especulativo, o governo iria arrecadas R$ 43 bilhões no ano, suficientes para cobrir o rombo orçamentário previsto para 2016.
Atualmente, devido à legislação aprovada em 1995, durante o governo de Fernando Henrique, os acionistas de empresas estão isentos de imposto de renda sobre os lucros e dividendos de suas ações. No mundo, apenas o Brasil e a Estônia são tão generosos com os investidores de bolsa de valores.
Não existe, na fala de Terto, nenhum indício de rompimento com o projeto de governo que começou com Lula e continuou no primeiro mandato de Dilma. Até porque, foi durante esse período que foram gerados mais de 10 milhões de postos de trabalho. A categoria metalúrgica na região de Sorocaba, por exemplo, cresceu de 19 mil trabalhadores em 2002 para 45 mil em 2014. Atualmente, mesmo com as demissões, a categoria é formada por mais de 42 mil metalúrgicos, mais do que o dobro da época de Fernando Henrique.
As críticas do SMetal visam ajudar a corrigir rumos da economia, e não retroceder na área social e na democracia. É necessário preservar programas como o Minha Casa Minha Vida, o Prouni, o Bolsa Família (transferência de renda condicionada à frequencia escolar), os incentivos à agricultura familiar, entre outros.
O problema atual do governo está justamente em se desviar para um rumo neoliberal, de direita, que não se sensibiliza com injustiças sociais.
A CUT e o SMetal pregam o diálogo entre trabalhadores, governo e empresários do setor produtivo para corrigir essa rota. Sempre que alguma medida prejudicar o trabalhador, a CUT será contra e vai lutar para revertê-la. Mas não é por isso que vai compactuar com golpismos e atentados à democracia.

Fonte: Carta Capital

domingo, 6 de setembro de 2015

Os dribles da idade


Não chove. O calor incomoda os cachorros e põe em risco a vida do minhocário. Os olhos das pessoas pedem umidificante. Dona Pandá se lembra da fazendeira Ana. Quer ir vê-la. Como poderia ajudá-la? Percebe que a única coisa que poderia fazer é mostrar sua solidariedade. Para quem está vendo seu gado passar fome e sede, sabendo que se não chover muito e no curtíssimo prazo, vai perder tudo vale alguma coisa esta solidariedade?

Impotência

Ontem, Dona Pandá conversava com sua amiga sobre a velhice e sabiamente falava de dribles à idade da dor, contrabalançando com a busca de prazeres. Vendo a tristeza em sua fisionomia, tentei uma provocação.

- Dona Pandá, a senhora não acha que, na sua idade, a busca de prazeres é muito limitada?

- Veja, existe aquela história de que cada idade tem os seus encantos. Acredito que se nos fiarmos nisto, estamos mal servidas. Precisamos ir atrás dos tais encantos.

- Como?

- Bem, cada pessoa tem os seus próprios limites. A tendência é colocarem os limites nos outros. Não podemos permitir. Ninguém sabe até onde posso e quero ir. Também cada pessoa sabe o que lhe dá dor ou prazer. Como não sou masoquista, separo bem uma do outro. Vamos procurar nossas fontes de prazer.

- A principal para a senhora é a terra.

- Sim, mas a arte é outra poderosa fonte.

- Claro! A literatura.

- Não só. A música, o teatro, a pintura, a dança.  Lembro de uma Bienal de São Paulo, há um bocado de anos, que fiquei emocionada com um bico de pena de Flávio de Carvalho, chamado “Retrato de Mio”. Foi uma emoção tão forte que ainda sinto seus vestígios. O trabalho criativo tem o poder de nos despertar e este despertar nos leva a um prazer, muitas vezes, perturbador.

- Flávio de Carvalho é aquele que saiu às ruas nu, vestindo um barril?

- Ele mesmo, foi há muitos anos. Como você sabe disso, menina? – Perguntou enquanto sorria maliciosamente. Prosseguiu:

- Você ouviu a Vina dizendo que não perde mais tempo com determinadas pessoas.

- Ouvi Dona Etelvina dizer algo parecido.

- Pois é. Na medida em que a gente envelhece, vai percebendo o valor do tempo, do nosso tempo. Então, uma porção de brigas deixa de nos interessar. Brigar somente pelo que de fato vale a pena.

- A senhora fui muito briguenta? – Ousei e já me arrependia. Ela fez uma cara de quem ia se defender com braveza, mas sorriu e disse:

- Olha aí, eu quase entro nessa sua provocação. A segunda. A primeira foi por boa causa, você me tirou a Ana e suas desgraças da cabeça. É outra perda de energia. Nada posso fazer por ela, além de comprar algumas coisas que produz. Espero que chova logo. Pela Ana e por nós.







 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Vamos dançar valsa?


Estava em minha bancada de trabalho e ouvi uma conversa que me fez parar e prestar atenção nas falas alheias. Não era uma conversa ao pé do ouvido, pelo contrário falavam num tom acima do costume.

- As senhoras querem um chá? – Perguntei ao passar por elas no meu caminho para a cozinha.
- Chá só se for gelado. Está um bocado quente. Você poderia colocar sua engenhosa imaginação para funcionar e nos trazer algo mais criativo, como por exemplo, uma cerveja do Alívio Gelado, geladaça! – Respondeu Dona Pandá que, só então, se lembrou de me apresentar à sua amiga.
- Vina, esta é minha assistente, Maria. Maria, esta é minha amiga de centena de anos, a senhora Etelvina Cruz.

Quando a senhora Etelvina falou “muito prazer”, percebi que ela era a responsável pelo tom acima. 
Fui tratar de ver, na geladeira, a cerveja do Alívio Gelado. (Quando Dona Pandá quer alguma bebida muito gelada, ela diz que é do Alívio Gelado, a pequena empresa entregadora de cerveja gelada do seu filho). Mesmo distante, acompanhei o que se passava na sala.

Dona Pandá explicava que sua amiga deveria colocar um aparelho auditivo.
- Mas Pandá, não tenho condições, minha única fonte de renda é a aposentadoria do INSS... preciso lhe dizer qual é minha faixa no Imposto de Renda?
- Não. Conheço bem este pedaço. Vou lhe ensinar o caminho das pedras. Vá a Unidade Básica de Saúde mais próxima de sua casa e agende uma consulta com o clínico para ele encaminhá-la ao otorrino.
- SUS! - Gritou a amiga, com uma expressão indignada.
- Ah! Você está vendo o meu aparelho? Coloquei pelo SUS. Excelente. Tive que esperar um bocado, porém valeu a pena. As fonos são competentes e atenciosas.
- Ih! Vou morrer de esperar.
- Por que você não faz assim: enquanto não morre, começa o processo na sua UBS? Olhe, você corre o risco de ter o aparelho antes.

 – Eu estava entrando com a cerveja e pude ver a expressão de espanto misturado com raiva de Dona Etelvina que, buscando, lá no fundo de sua vivência, a sabedoria da boa amizade, deu uma gostosa risada.

- Poxa! Pandá, não é que você tem razão.
- Sabe, Vina, essa tal velhice é mesmo uma merda! Você sente uma dor aqui, ali e acolá, vai ao médico e ele lhe diz: “Nada grave, não precisa se preocupar” e você, idiotamente, pergunta: “mas o que é? ” Ele, com a cara da indiferença de quem ignora o que é chegar lá, lhe sentencia: “nada, é da idade” E, claro, você sai de lá pensando: “Então, estou na idade das dores”.

- É verdade, já me aconteceu isto mesmo. E dizem que é a melhor idade...
- Acho que envelhecer nada tem de encantador. Por isto temos a obrigação conosco de aproveitar tudo o que podemos, inclusive os resultados da tecnologia para amenizar os desconfortos e mesmo para nos dar um bocado a mais de prazer. Prazer sim é encantador! Também usar a sabedoria de quem já conhece a situação e dar a volta é encantador...

- Uma coisa que tem acontecido comigo e, deve ser a sabedoria de que você está falando, é a seleção de enfrentamentos. Não brigo tanto mais. Não acredito mais que sou capaz de mudar alguém, sobretudo aqueles que não querem mudar, nem ouvir. Não perco meu tempo já que ele é pouco.

- Agora, que esta “Caracu” está deliciosa, está. Está ajudando a mandar a idade das dores pra lá e ficar com a idade dos prazeres. Estou pensando em fazer uma lista. A cada desconforto, dor ou algo ruim trazido pela idade, colocar um prazer. Por exemplo, se tenho dificuldade de pular o carnaval, vou dançar valsa.



quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Que o capital pague por sua crise


EDITORIAL do Brasil de Fato
Edição 653
                                                               31.08.2015                                                             
Que o capital pague por sua crise
                                                      
Depois do grande acordo a portas fechadas entre o grande capital, banqueiros, representantes do Governo, do Instituto Lula, do Partido dos Trabalhadores, etc., um silêncio surdo parece haver coberto o País.
 Negociados os “dossiês” mais urgentes – de modo que figuras de proa não tivessem (pelo menos, de imediato) suas imagens maculadas, nem fossem obrigadas a fazer faxina nos corredores de penitenciárias, casas de detenção ou delegacias, parece-nos viver uma trégua. Doce ilusão daqueles que, reféns dos seus próprios “desvios”, animaram e participaram das negociações imaginando que os nossos adversários e inimigos de classe se satisfarão com o negociado. Eles arrocharão sempre o torniquete, a cada momento que necessitem novas concessões. Se, por enquanto, os inimigos lhes tomaram as calças, noutro momento, vão querer os slips. E assim por diante, até exigirem aquilo que calças e slips não mais cobrem... .
 Doce ilusão, também, imaginarem que os trabalhadores e o povo (povo = explorados e oprimidos) respaldarão sempre seus recuos e rendições; que se deixarão trair passivamente. Isto não existe: ninguém engana todos, durante todo tempo.
 Por isto, a nossa pauta tem de ser outra: a crise econômica está aí e, a depender dos de sempre, seremos nós – a classe trabalhadora e o povo – quem pagará toda a conta. A depender de muitos que pensam e dizem nos representar, também.
 Rejeitaremos toda medida que transfira para nós, o preço da crise: seja em termos de tributos e taxações (tipo o modo como estão sendo conduzidos o ajuste fiscal ou a ressurreição da CPMF); seja no que diz respeito à entrega de nossas riquezas (Pré-Sal e outras); das nossas tecnologias (enriquecimento do urânio, submarino atômico etc.); seja de qualquer das nossas conquistas de 1988. Além – é pressuposto óbvio – da defesa intransigente da integridade do nosso território e da nossa soberania.
 Para garantir nossa pauta, é indispensável que tragamos para as ruas, avenidas, praças – enfim, para os espaços públicos – as nossas disputas, inviabilizando qualquer acordo de cúpula que não atenda aos nossos interesses de classe, e submetendo a luta institucional à pressão dos trabalhadores e do povo, organizados de forma independente e autônoma – como fizemos há duas semanas, no dia 20 de agosto. Ou seja, para garantir nossa pauta é indispensável nos transformarmos de fato em sujeito político – sujeito coletivo.

Sim, só o povo organizado derruba a impostura.
 Com a crise política e institucional (que está longe de chegar a um final – sobretudo a um final que corresponda aos nossos interesses); com a falência de diversos partidos do espectro de esquerda, formaram-se, em todo o País, grupos de militantes de todas as gerações, em busca da construção de instrumentos políticos (organizações frentistas, pautas, programas, etc.) capazes de intervir na conjuntura de modo a defender os interesses dos trabalhadores e do povo. Muitos têm avançado, apesar de enfrentarem problemas de todos os tipos. É fundamental que esses coletivos se fortaleçam, e procurem formas de trabalhar conjuntamente entre si, com os sindicatos e movimentos populares combativos e que agem no mesmo rumo. Alguns partidos têm também desempenhado importantes papéis nesse sentido.
 É fundamental que todos prossigamos.
É indispensável que todos prossigamos.
Não dá para baixar a guarda.
 É igualmente fundamental que deixemos de pensar no Brasil como uma ilha, isolado, portanto, das dinâmicas econômicas e políticas (e também ideológicas) que se desenvolvem mundo afora. Impossível pensar de modo adequado o que fazer (sempre do ponto de vista dos trabalhadores e do povo), sem ter em conta que as crises que se aprofundam nos Estados Unidos e na China, para além da influência que terão em toda a economia internacional, cobrarão um preço especial à nossa economia: Pequim e Washington significam os dois maiores mercados de importação dos nossos produtos.
Vamos todos juntos em torno de um programa que possamos construir coletivamente. Mas, são partes constitutivas de um programa, os métodos a serem utilizados. Métodos e programas são como forma e conteúdo: não podem ser separados. Eles constituem um todo indivisível. E, infelizmente, muitos camaradas ainda não perceberam que a maioria dos problemas que resultam em divisões e rachas na esquerda, tem origem na utilização de métodos que repetem aqueles dos nossos inimigos de classe (oportunismos, passa-moleques, rasteiras, golpinhos, etc.), e não necessariamente de divergências políticas que, mantidos os princípios, podem quase sempre ser negociadas, desde que de forma clara e transparente.
 Assim, se nos comprometermos a repelir os velhos métodos, vamos todos juntos e conquistaremos grandes vitórias.
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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A lida diária da Ana Valente


Dona Pandá procurava a matéria-prima para implantar seu minhocário, com a finalidade de recuperar o pomar e fazer uma pequena horta. Depois de muita procura, encontrou o senhor Margarido – irmão do caseiro de um vizinho – que se dispôs a lhe mostrar o caminho de uma fazenda que vendia esterco.
Quando entraram na estrada de terra, o senhor Margarido, mostrando sua genuína mineirice, falou:
- Vou precisar só de três sacos de esterco. A senhora pode encher sua caminhonete com os 16 sacos, mas eu preciso mesmo é só de três. – Entendendo que era o preço que deveria pagar pelo serviço de guiá-la, Dona Pandá respondeu:
- Está bem. Vamos ver quantos sacos vamos conseguir colocar na carroceria.

Chegando, foram recebidos por Dona Ana, a fazendeira, que, imediatamente, pegou uma pá e se meteu num barracão cheio de esterco já curtido. De lá, gritou:
- Vou ensacar. Quantos a senhora vai levar?
- Quantos couber.
- Cobro R$ 3,00 cada saco.
- Está bem. – Dona Pandá quase falou que estava muito barato, pois havia comprado cinco sacos a R$ 10,00. Ouviu, então, o senhor Margarido dizer que estava indo ajudar Dana Ana. Ela, com a pá ia jogando o esterco no saco que ele abria e segurava. Quando enchia, levava para fora do barracão, próximo da Preta, a caminhonete.

Ana é uma mulher, cuja idade meio indefinida pode ser uns 60 anos, estatura média, magra, mas nem tanto, cabelos castanhos, mal tampados por um lenço. Consegue, num quase milagre, conservar traços que denunciam uma beleza levada pelo trabalho bruto e contínuo. Durante o tempo todo, contou causos e Dona Pandá ficou sabendo que moravam com ela o pai e o irmão.

O pai, completamente corcunda, apareceu e foi logo explicando que suas costas eram o resultado de tanto carregar cana para as vacas. Estas ficam presas no curral, sendo alimentadas por cana triturada com ração que é comprada “quando Ana vai receber minha aposentadoria e já deixa tudo na casa de rações”.  

Antes de terminar o ensacamento, apareceu o irmão e de longe gritou:
- Está na hora. - Ana explicou que precisava ajudar a trazer os bezerros para lhes dar a ração. As vacas ficam presas para não gastarem energia e não emagrecerem mais ainda, enquanto os bezerros só mamam pela manhã, no momento de tirar o leite. Depois são apartados e ficam no pasto que de tão seco já se vê terra nua.

Passados 20 minutos, Ana, de volta e recomeçou o trabalho. O senhor Margarido comprou queijo, linguiça e outros produtos que Ana fez na véspera e estava negociando frango, quando Dona Pandá, enfim percebendo que a ave iria concorrer com os pedais da Preta, avisou que não levaria nenhum animal. Ninguém pediu justificativa porque Dona Pandá usou sua conveniente cara antipática de quem não quer saber de conversa.

Ana pareceu entender que seu cliente havia passado a linha da conveniência e ofereceu o número do seu celular para Dona Pandá lhe avisar quando quisesse mais esterco, “podendo vir sozinha, agora que a senhora já conhece o caminho”.

Na volta, Dona Pandá teve dificuldade de manter a conversa com o companheiro de viagem. Não conseguia tirar da retina a imagem de Ana, o pai corcunda e o irmão com a preguiça da desnutrição, as vacas magras, os bezerros mal chegando às tetas das mães, o pasto inexistente. A pobreza transformou uma fazenda produtiva num lugar seco, onde as perspectivas são cruéis como a vida de quem lá ficou.  



sábado, 29 de agosto de 2015

Cuidado com sandálias no quintal: podem lhe trazer um presente


Durante mais de 15 anos Dona Pandá administrou um minhocário que implantou em sua Chácara Xury,  localizada no Município de Ibiúna (SP), cujo clima é mais para frio e há um regime de chuvas bem generoso. Então, naturalmente, ela achava que minhoca estava dentro do seu saber. Implantar outro minhocário seria tirar de letra, fácil, facílimo.

Ledo engano!

Dona Pandá  pode se considerar sabichona na matéria, mas até agora só conseguiu apanhar. Escolheu um lugar próximo da horta para facilitar o manuseio e transporte do húmus para os canteiros. Para evitar o Sol, uma cobertura de lona e sombrite. Que nada! O calor nas Alterosas ignora o sombrite. Umedeceu o esterco e achou que estava numa temperatura apropriada – minhoca não gosta de calor, nem de claridade -, verificou no meio das manilhas, onde colocou o esterco, a uns 30 cm de profundidade, e quase queimou a mão.

Para não entediar, vocês que já estão sem paciência,  querendo saber logo se, afinal, Dona Pandá conseguiu fazer a transferência da tecnologia ou morreu na praia, no nosso caso, no meio dos estercos, vou contar logo o que ocorre há três dias.

Dona Pandá, com a ajuda do Nego – que trabalha no sítio Catita meio período -  tem dedicado suas manhãs a tentar – porque até o momento ainda não conseguiu – abaixar a temperatura dentro das manilhas. Fizeram uma coberta com lona e colocaram uma faixa de sombrite embaixo da lona e outra sobre as manilhas. Ficou vigiando o Sol durante todo o dia e cobrindo com mais lona e sombrite onde ele aparecia. A temperatura da superfície estava perfeita, mas não no interior da manilha. Passou, então, a resfriar a manilha com o líquido escasso e precioso, a água.  A cada dia, conseguiu abaixar uns grauzinhos, mas ainda está longe daquela tranquilidade conhecida, mas não encontrada aqui. Esta tranquilidade está fugindo com o calor de Dona Pandá que não teve outra saída a não ser, mais uma vez, reconhecer sua ignorância.

Não está conseguindo a temperatura que persegue, mas ganhou um presente. Hoje, nossa amiga, sentindo que não conseguia limpar o calcanhar do pé direito que sofreu um corte, foi à podóloga para quem fez suas queixas do incômodo no calcanhar, relatou ainda que tem andado de havaianas devido ao calor. O resultado do exame da podologia foi a retirada de cindo bichos de pé.  

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Uma luz do fim do túnel que se chama Pronara


Leonardo Melgarejo durante palestra



E como fugir dos agrotóxicos? Para o agrônomo Leonardo Melgarejo, integrante da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – Agapan, é preciso romper com a lógica do agronegócio. Produzir mais alinhado com princípios da agroecologia. Mas para isso é preciso consumir mais alimento agroecológico. O estímulo para isso passa por políticas públicas. É esse o objetivo do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica – Planapo. Para fazer este plano funcionar é necessária a implementação de outro, o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos – Pronara. “Diminuindo o uso de agrotóxicos, caminhamos para outros sistemas produtivos como a produção orgânica”, destaca.

O problema é que a pressão do agronegócio pesa sobre o poder público. Assim, os planos acabam patinando. “Mas nós, enquanto sociedade, temos nosso papel. Devemos lutar contra essa maquiagem de informação e não aceitar o retrocesso. A retirada da indicação da presença de alimentos transgênicos no rótulo de alimentos é isso. Sonega uma informação e limita o poder de escolha do consumidor”. O caminho, para Melgarejo, é buscar fóruns em que se possa fazer pressão. Defende que é preciso saber o que está sendo discutido sobre a legislação de agrotóxicos e transgênicos para buscar a implementação dos planos, rompendo a cadeia do agronegócio. “A informação é a chave. Ela nos dá protagonismo. Para isso podemos buscar entidades que nos auxiliam”, provoca, ao estimular a plateia a buscar informação e cobrar ações, por exemplo, de senadores gaúchos a respeito da mudança na legislação sobre rotulagem de alimentos transgênicos. “Informação, participação e controle social. É do que precisamos"

Agrotóxico: o inimigo entre nós

Karen Friederich (Fotos por João Vitor Santos/IHU)

Seminário promovido pelo IHU e PPG em Saúde Coletiva da Unisinos evidenciou o impacto do uso de agrotóxicos no ambiente e toda a lógica que sustenta o sistema apoiado no agronegócio

“Sem agrotóxico se compromete a produção em larga escala de diversas culturas”. “As sementes transgênicas – e o uso de agrotóxicos implicado no seu cultivo – aumentam a produtividade”. Essas duas frases materializam o que pesquisadores chamam de inverdades acerca do assunto agrotóxico. Elas mascaram uma realidade, em detrimento do interesse econômico. É a lógica do capital sendo atualizada no agronegócio, que subverte a lógica natural. Essa foi a perspectiva que permeou o Seminário Agrotóxicos: Impactos na Saúde e no Ambiente, realizado na segunda-feira, 24-08.

O evento, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU e pelo Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva, reuniu pesquisadores, técnicos e profissionais de dentro e fora da universidade para debater os reais impactos do uso desses produtos tóxicos. E, no horizonte, tentar entender por que é tão difícil enfrentar essa lógica que estimula o seu uso. Lógica essa que faz dos agrotóxicos algo impregnado na sociedade, muitas vezes sendo naturalizado pelo ser humano.

Como professora do curso de Nutrição da Unisinos, Regina Alcântara estava atenta ao debate acerca dos efeitos nos alimentos. “Para se pensar em qualidade do alimento é fundamental discutir o uso de agrotóxicos”, disse. Sua colega, a professora Vanessa Backes, destaca que o assunto é estrutural para o conceito de segurança alimentar. “Até bem pouco tempo, segurança alimentar era quantidade de alimento”, destaca, ao perceber que é por aí que entram os argumentos para justificar usos de químicos. “Só que, felizmente, estamos percebendo que discutir a qualidade do alimento é mais importante para a segurança alimentar do que a quantidade. Precisamos de alimentos que realmente nos nutram e promovam nosso desenvolvimento por inteiro”, completa.

Na luta contra o inimigo, barata morta só no chinelo

O agrotóxico faz mal ao ambiente e a nós mesmos. Todos sabem disso, mas poucos conseguem perceber o quanto ele faz parte da vida cotidiana. Não precisa ser produtor rural ou consumidor de hortifrutigranjeiros para se expor aos agrotóxicos. “Eu, por exemplo, tento espantar a barata. Se ela não fugir, mato só no chinelo”, diz a biomédica e professora da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz e da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UniRio Karen Friederich. É uma caricatura que faz, ao destacar que dentro do inseticida doméstico há elementos tóxicos, os chamados agrotóxicos urbanos. É um produto de uso doméstico que nem associamos aos agrotóxicos. Inseticidas usados como bloqueador epidemiológico pelo próprio poder público vão na mesma linha. Por exemplo, os fumacês no caso da Dengue.

E como tais substâncias são liberadas pelas autoridades? Karen destaca que, tanto para usos domésticos como para agricultura, os registros para liberação são baseados em testes que não levam em conta a complexidade das substâncias. “São testes em condições laboratoriais onde cobaias são expostas a um determinado agrotóxico e por uma só via. No ambiente, somos expostos a vários tipos de agrotóxicos. Isso gera efeitos acumulativos e essa combinação pode gerar consequências, como predisposições cancerígenas. Além do mais, também podemos absorver agrotóxicos por mais de uma via. Os efeitos podem surgir a muito longo prazo”, explica.

É por isso que órgãos como Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa têm a missão de regulamentar, analisar, controlar e fiscalizar agrotóxicos. Mesmo os que já têm seu registro homologado. “Essa revisão é importante, pois surgem novas pesquisas que aprofundam o conhecimento sobre as substâncias. Além disso, há de se avaliar tanto efeitos agudos da exposição – quando se percebe um efeito de imediato, pouco tempo depois do contato – quanto crônicos – aqueles que podem se manifestar muito depois”, completa.

2,4-D
Atualmente, a grande preocupação dos pesquisadores é com relação à liberação da nova geração de transgênicos, resistentes ao agrotóxico 2,4-D. “Esse agrotóxico tem em sua composição substâncias que faziam parte do Agente Laranja, usado na Guerra do Vietnã”, explica. Por isso, o produto está na lista da Anvisa para reavaliação, assim como o Glifosato. “A liberação de sementes resistentes ao Glifosato aumentou em muito seu consumo. Tememos que isso ocorra com o 2,4-D, que tem um impacto ainda maior”, alerta Karen.

A ofensiva conservadora e as crises

A sociedade brasileira está diante de uma ofensiva conservadora que se aproveita de entrelaçadas crises na economia, na política, nas instituições do Estado, na imprensa e nos meios sociais para fazer avançar seus objetivos.
A suposta crise econômica ofereceu pretexto para implantar um programa neoliberal de acordo com o Consenso de Washington: privatização, abertura comercial e financeira, ajuste orçamentário, flexibilização do mercado de trabalho, redução do Estado, tudo com a aprovação do sistema financeiro internacional, por um Governo eleito pela esquerda.
A crise da corrupção, cujo maior evento é a Operação Lava Jato, mas também a Operação Zelotes, esta inclusive de maior dimensão, está servindo para destruir a engenharia de construção, onde se encontra o capital nacional de forma importante, com atuação internacional, e para preparar a destruição de organismos do Estado tais como a Petrobras, o BNDES, a Caixa Econômica, a Eletrobrás etc. a pretexto de que os eventos, denunciados,  de corrupção seriam apenas o resultado de serem estas entidades estatais.
Sua privatização, que corresponderia a sua desestatização/desnacionalização, eliminaria, segundo eles, a possibilidade de corrupção.
A crise do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal se desenvolve em várias esferas.
 O Supremo Tribunal Federal tolera que um de seus membros interrompa, há mais de um ano, sob o pretexto de vista, uma ação, cujo resultado já está definido por 6 votos a 1, sobre a ilegalidade do financiamento privado de campanhas, fenômeno que está na origem da corrupção do sistema eleitoral em todos os Partidos e veículo para o exercício da influência corruptora do poder econômico na política e na Administração.
O objetivo deste Juiz é aguardar até que o Congresso aprove emenda constitucional, já em tramitação por obra do Presidente da Câmara, que torna legal o financiamento privado de campanhas.  
A teoria do domínio do fato, uma aberração jurídica, acolhida pelo STF, reverte o ônus da prova e, mais, torna qualquer indivíduo responsável pelos atos de outrem sob suas ordens sem que o acusador ou o juiz tenha necessidade de provar que o acusado conhecia tais fatos.
O sistema do Ministério Público permite a qualquer Procurador individual desencadear processos com base até em notícias de jornal contra qualquer indivíduo, vazar de forma seletiva estas acusações para a imprensa, que as reproduz, sem nenhum respeito pelos direitos dos supostos culpados e sem nenhuma perspectiva razoável de reparação do dano causado pelas denúncias do Procurador nem pela imprensa que as divulgou, caso se verifique a improcedência das acusações.
A Polícia Federal exerce suas funções com extrema parcialidade, de forma midiática, criando, na sociedade a presunção de alta periculosidade de indivíduos que prende para investigação e se arvorando em poder independente do Estado.
Segundo depoimento do Presidente das entidades da Polícia Federal na Câmara dos Deputados, a Polícia Federal recebe regularmente recursos da CIA, do FBI e da Drug Enforcement Administration - DEA, no montante de USD 10 milhões anuais, depositados diretamente em contas individuais de policiais federais.
A crise política decorre da decepção e do inconformismo do PSDB e de seus aliados com a derrota nas urnas em 2014 o que os leva a procurar, por todos os meios, erodir a credibilidade e a legitimidade do Governo Dilma Rousseff e, por via transversa, do Governo Lula e assim minar as possibilidades de vitória de uma eventual candidatura de Lula em 2018.
Contam os partidos e políticos conservadores com a campanha sistemática da televisão, jornais e revistas, com base em denúncias vazadas, com a campanha de intimidação na Internet, com as manifestações populares, com o desemprego crescente causado pela política de corte de investimentos e de elevação estratosférica de juros, os maiores do mundo, para fazer baixar os índices de aprovação do Governo e da Presidenta e poder argumentar com a legitimidade e a necessidade de depô-la pelo impeachment.
A crise na imprensa e nos meios de comunicação se desenvolve em um ambiente em que as televisões, rádios, jornais e revistas recebem paradoxalmente enormes recursos do Governo para a ele fazer oposição sistemática, erodir a confiança da população no sistema político e nos partidos, em especial nos partidos progressistas, de esquerda, poupando os partidos conservadores tais como o PSDB, que recebeu tantas doações para sua campanha de 2014 quanto o PT e das mesmas empresas ora acusadas pelo juiz Moro.
A crise social se desenvolve na Internet, onde circula todo tipo de ofensa racista, homofóbica, antifeminina, antiprogressista e fascista, contra os políticos e partidos de esquerda, gerando um clima de hostilidade e ódio e estimulando a agressão física.
No Congresso, os setores mais conservadores elegeram grande número de deputados e, tendo conquistado a Presidência da Câmara dos Deputados, fazem avançar, a toque de caixa, sem nenhuma atenção à necessidade de debate pelos parlamentares e pela sociedade, uma ampla pauta de projetos conservadores que inclui a redução da maioridade penal, a ampliação do uso de armas, o financiamento privado das campanhas, a terceirização do trabalho.
O objetivo máximo desta grande ofensiva política e econômica  conservadora é a tomada do poder através do impeachment da Presidenta Dilma e/ou a desmoralização do PT que leve a sua derrota fragorosa nas eleições de 2016, a qual preparará sua derrota final e “desaparecimento”  nas eleições de 2018. 
O processo político de impeachment da Presidenta Dilma não avança por estarem o PSDB e PMDB divididos quanto a sua conveniência no atual momento do calendário político e econômico.
Os três possíveis candidatos do PSDB à Presidência da República, quais sejam, Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra tem opiniões diferentes sobre sua conveniência.
A Aécio Neves interessa o impeachment de Dilma Rousseff e de Michel Temer por crime eleitoral, declarado pelo TSE, logo que possível pois isto levaria a uma eleição em 90 dias onde espera que, como presidente nacional do PSDB e candidato que teria  perdido a eleição devido a “fraude”, agora se beneficiaria devido a sua campanha persistente pela ilegitimidade dos resultados eleitorais de 2014, o que o faria o candidato do PSDB com melhor perspectiva de vitória.
A Geraldo Alckmim interessa que o processo político, econômico e social desgaste longa e duradouramente o Governo Dilma e o PT até que as eleições municipais se realizem  em 2016, com fragorosa derrota do PT e do PMDB e que tenha tempo de construir sua candidatura, com base no Governo de São Paulo, enquanto a candidatura de  Aécio se enfraqueceria com o tempo como   resultado de eventuais denúncias.
A José Serra interessa também que o impeachment não ocorra,  que o Governo se desgaste para que tenha tempo de reconstruir  sua imagem e eventualmente possa se  candidatar pelo PSDB em 2018 ou até mesmo pelo PMDB, que insiste em ter candidato próprio mas sem nome hoje viável. Afinal, Serra foi fundador do PMDB e voltaria a sua casa, construindo sua candidatura junto à classe média nacional, através de sua atuação no Senado, com toda cobertura favorável da imprensa.
Para o PMDB, o impeachment da Presidenta representa o fim de um Governo onde ocupa a Vice-Presidência e ao qual dá apoio enquanto que um longo processo de desgaste da Presidenta, do Governo e do PT também o atingiria como partido aliado, enquanto a imprensa desgasta sua imagem na opinião pública como partido oportunista e corrupto.
Os interesses de Michel Temer, de Renan Calheiros e de Eduardo Cunha são divergentes. Cunha acredita poder ser o candidato do PMDB à Presidência, assumindo a liderança da ofensiva conservadora e o papel de defensor da Câmara, dos representantes do Povo, mas enfrenta o desgaste das denúncias de corrupção. Michel Temer sabe que a condenação por crime eleitoral de Dilma Rousseff pelo TSE também o arrastaria enquanto que a condenação de Dilma pela rejeição das contas de 2014 pelo TCU e pelo Congresso o levariam à Presidência. Renan disputa com Temer influência no PMDB e imagina poder ser candidato em 2018 com o enfraquecimento dos demais. 
No PT, a situação é talvez ainda mais grave.
O programa econômico conservador, ao cortar investimentos públicos e as despesas de custeio do Governo, aumenta o desemprego e afeta a demanda o que reduz as perspectivas de lucro, contrai os investimentos privados, estabelece a desconfiança nos “mercados” e reduz as receitas normais tributárias, aumentando o déficit público.
Ao aumentar a taxa de juros, o Governo (Banco Central) aumenta as despesas do Governo e a relação dívida/PIB, reduz a atividade econômica e as perspectivas de lucro e provoca a queda da arrecadação. Ao não conseguir o aumento de receitas normais pela dificuldade em elevar tributos, passa a apelar para a venda de ativos o que é uma forma disfarçada de privatização, com resultados apenas temporários.
Ao provocar o desemprego, ao apoiar medidas desfavoráveis aos trabalhadores como alterações no seguro desemprego, no abono salarial e outras, e ao provocar a redução do crescimento o Governo mina a sua base de apoio social e político e as bases sociais e políticas do PT.
A retração da demanda, o aumento das taxas de juros, a contração das atividades do BNDES, a redução das oportunidades de investimento, a perspectiva de aumento de tributos afetam os interesses dos empresários e aumenta o seu descontentamento com o Governo e sua política.
Não há liderança no PT além de Lula que, por seu lado, não vê como abandonar o programa econômico do Governo Dilma sem acelerar sua queda, mas reclama da incapacidade da Presidenta para o exercício da política.
As pesquisas de opinião podem vir a revelar níveis de rejeição muito superiores aos que ocorreram na véspera do impeachment de Collor. Caso os níveis de aprovação caiam abaixo de 5%, o desânimo e a desmobilização dos movimentos sociais e dos sindicatos, a perplexidade dos congressistas, a posição dos candidatos a prefeito em 2016, as contínuas denúncias do Ministério Público (na realidade de procuradores individuais) contra políticos vinculados ao PT e contra o próprio Lula, a agressividade social e intimidatória conservadora podem gerar situação de gravíssimo perigo político para sobrevivência da democracia.
O Governo, apático, atordoado e intimidado, parece acreditar em sua pureza que fará que, ao final, sobreviva, único puro, à tempestade de denúncias que atingem políticos e partidos sem compreender que o objetivo da ofensiva conservadora não é lutar contra a corrupção e moralizar o país mas sim derrubá-lo e recuperar a hegemonia completa na sociedade e no Estado.
O Governo se retrai, não age politicamente nem mobiliza intensamente os movimentos sociais e os setores que poderiam apoiá-lo no enfrentamento a esta ofensiva conservadora que fará o Brasil recuar anos em sua trajetória de luta contra as desigualdades e suas vulnerabilidades, e de construção de um país mais justo, menos desigual, mais democrático, mais próspero e mais soberano.
É urgente a mobilização de todas as forças sociais progressistas para combater o desemprego causado pelo programa de ajuste, que está, isto sim, gerando imensa crise econômica e social, para defender a democracia e seus representantes legítimos, para defender as conquistas dos trabalhadores, para defender a empresa nacional, para defender o desenvolvimento do país, para defender a soberania nacional e a capacidade de autodeterminação da sociedade brasileira.
Para defender o Brasil. 
Samuel Pinheiro Guimarães é embaixador
Fonte: jornalggn.com.br