Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

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sábado, 17 de setembro de 2016

Terra, Inimiga da Saúde?



Por Daphne Miller | Tradução: Gabriela Leite

Nos últimos tempos, gosto de pensamentos sujos. Passo meus dias em numa sala esterilizada praticando medicina familiar, mas ainda assim minha mente está na terra. Isso porque estou descobrindo o quanto este meio rico e obscuro influencia na saúde de meus pacientes. Estou até começando a me perguntar sobre o quanto Hipócrates estava errado, ou pelo menos equivocado, quando proclamou: “Deixe o alimento ser tua medicina.” Não me entenda mal – a comida é muito importante para nossa saúde. Mas talvez seja o solo em que os alimentos crescem, ao invés deles próprios, o que nos oferece os verdadeiros remédios.

Há pouco, na literatura médica convencional, para apoiar estas afirmações. Procure os termos “solo” e “saúde” no banco de dados da PubMed e os resultados principais apresentarão o solo como uma substância de risco, cheia de leveduras patogênicas, bactérias resistentes a antibióticos, radônio, metais pesados e pesticidas. Mas passe reto por estes relatórios cruéis e irá descobrir uma pequena, mas crescente, coleção de pesquisas que pintam o solo com uma cor muito diferente. Estes estudos sugerem que a terra, ou pelo menos alguns tipos dela, pode ser benéfica à nossa saúde.

Os cientistas que estão investigando essa relação entre a saúde e a terra pertencem a um grupo muito variado — botânicos, agrônomos, ecologistas, geneticistas, imunologistas, microbiologistas – e coletivamente estão oferecendo razões para dar atenção aos lugares onde nossa comida é plantada.

Solo vívido, comida boa

Por exemplo, utilizando a tecnologia do sequenciamento do DNA, agrônomos da Universidade do Estado de Washington descobriram recentemente que um solo com ampla abundância de diversidade de seres (especialmente bactérias, fungos e nematóides) tem probabilidades maiores de produzir alimentos densos de nutrientes. É claro que isso faz sentido quando se compreende que a cooperação entre bactérias, fungos e as raízes das plantas (coletivamente referidas como a rizosfera) é responsável por transferir carbono e nutrientes do solo para a planta — e, ao final, para nossos pratos.
Dado este fluxo de nutrientes dos micróbios do solo para nós, como podemos impulsionar e diversificar a vida no solo? Uma série de estudos mostra consistentemente que a agricultura ecológica produz biomassa microbial e diversidade muito maiores que os cultivos convencionais. A agroecologia compreende muitos sistemas (biodinâmica, regenerativa, permacultura, ciclo completo etc) que compartilham princípios fundamentais holísticos: proteger o solo superficial com coberturas e aração mínima, rotação de culturas, conservação da água, limitação do uso de químicos (sintéticos ou naturais), e reciclagem de todo o lixo orgânico e animal de volta para a terra. Muito desta pesquisa apoia o que os agricultores tradicionais pelo mundo sabem há muito tempo ser verdade: quanto mais ecologicamente plantamos, mais nutrientes colhemos.

Micróbios de combate à alergia

Enquanto os cientistas da terra ocupam-se documentando estas ligações entre o solo e a comida, imunologistas e alergistas na Europa estão trabalhando para descobrir outra conexão intrigante entre a terra e a saúde: o chamado “efeito fazenda”. Por que as crianças que crescem em propriedades que adotam a agroecologia, na Europa Central, têm muito menos incidência de alergia e asma que as que crescem em fazendas industrializadas? Novamente, quase tudo aponta para os micróbios — no estrume, no leite não pasteurizado, na poeira do estábulo, na comida que não é lavada e, sim, no solo. No estudo, pesquisadores estudaram colchões de crianças de fazenda e encontraram uma grande variedade de bactérias – a maioria das quais é tipicamente encontrada no solo.

Como os micróbios do solo e de fazendas protegem contra doenças alérgicas é ainda questão em debate, mas as pesquisas estão apontando cada vez mais para a nova ideia que, por falta de um termo melhor, vou chamar de “hipótese da mudança do microbioma”.

A explicação padrão para o “efeito fazenda” é a hipótese da higiene, que afirma que a exposição a uma variedade de micróbios no começo da vida (incluindo no útero) amortece a resposta alérgica de nosso sistema imunológico adaptativo.

O problema com esta teoria é que nosso sistema imunológico é surpreendentemente simplista e parece reagir similarmente tanto ao se encontrar com um conjunto diverso de micróbios em uma fazenda ecológica quanto com com uma porção relativamente homogênea de micróbios tipicamente encontrada em um apartamento ou numa fazenda convencional. Mas, e se nossas células imunológicas forem simplesmente uma proteção de retaguarda, para uma primeira linha de defesa mais sofisticada — nossos micróbios residentes?

E se um microbioma de solo saudável e diverso puder nutrir um bioma humano mais diverso e protetor? De fato, novas pesquisas sugerem que é o caso, e que uma troca microbial solo-intestino pode oferecer o real “efeito fazenda”.

Troca de genes no nível do intestino

É claro que isso é tudo muito novo — e para mim, como médica, um pouco desorientador. Na escola de medicina, aprendi que nossas bactérias internas pertencem a um clube restrito e que elas não têm nada a ver com micróbios em nosso ambiente externo. Patógenos como a salmonela e a e.coli devem ultrapassar esta barreira, como acontece quando sofremos intoxicação alimentar ou outras infecções, mas sua influência foi considerada transitória – embora ocasionalmente devastadora. Mas agora que podemos sequenciar o DNA de um microbioma inteiro, usando uma técnica chamada metagenômica, estamos começando a conectar os pontos e descobrindo que podem ocorrer trocas genéticas entre nosso microbioma e o mundo exterior – particularmente em lugares onde cresce nossa comida.

Entre os primeiros a documentar esta transferência de genes está um grupo de microbiologistas franceses. Eles identificaram a mesma sequência exata de DNA em duas espécies de bactérias Bacteroidete diferentes – uma vivendo em uma alga marinha e outra, nos intestinos de japoneses. Concluíram que a bactéria marinha pegou carona até o intestino humano via sushi e outros pratos com algas nori e passou seu DNA para os micróbios residentes do humano hospedeiro. O resultado final desta troca é que muitos japoneses – e possivelmente pessoas de outras culturas comedoras de algas – adquiriram maior habilidade que para extrair nutrientes valiosos de suas nori.

Justin Sonnenburg, um microbiólogo em Standford que estuda como o ambiente influencia em nosso microbioma, contou-me que as descobertas deste estudo de algas nori são, provavelmente, apenas a ponta do iceberg. Ele acredita que vamos continuar a descobrir novas formas de interação entre o solo, os oceanos e nosso microbioma – e seu enorme papel em nossa saúde.

Impressionado pela crescente evidência de que nossa saúde depende de nosso solo saudável, converti meus “pensamentos sujos” em ação. Agora, digo a meus pacientes que a comida que cresce em um solo bem tratado deve oferecer distintas vantagens, relacionadas a obter melhores nutrientes e construir um sistema imunológico saudável.

É claro que identificar essa comida pode ser complicado, já que a certificação de produtos orgânicos, apesar de ser certamente útil, nem sempre nos leva aos produtores mais saudáveis. Muitas propriedades certificadas como orgânicas são realmente ecológicas, mas algumas propriedades que produzem em larga escala, com este certificado, ainda aram profundamente e usam agrotóxicos aprovados – duas práticas que danificam o solo e seus micróbios. Ao mesmo tempo, há agricultores que não podem pagar por um certificado orgânico, embora estejam implementando as práticas da agroecologia, que produzem comprovadamente um solo rico e uma população microbial próspera. Como não existe nenhum selo de “solo saudável” ou “micróbios saudáveis” que possam nos levar a estas fazendas minha sugestão é perguntar uma questão simples:

“O agricultor vive em sua fazenda?”

Agricultores que vivem em sua terra e alimentam sua família com ela tendem a se importar com seu solo como se fosse mais um membro da família. Ir a feiras de produtores é um meio confiável de obter este tipo de produção, e alguns supermercados [nos EUA] também estão começando a apoiar os agricultores locais. Lembre-se: quando mais procurarmos estes produtos, mais eles irão fazê-lo.

Claro: outra opção é plantarmos nossa própria comida. Comer alimentos frescos de um solo saudável não é uma opção “tudo ou nada”. Usar todos os dias um punhado de ervas, de um canteiro de apartamento, pode ter um impacto positivo em nossa saúde. Sobre a comida plantada em casa, ou produzida localmente, sempre proponho a meus pacientes pensar duas vezes, antes de descascar. Afinal de contas, quem sabe que bactérias benéficas podem ser eliminadas? Por sinal, comer vegetais frescos fermentados é uma ótima maneira de adquirir uma mega-dose de bactérias do solo.

Eu também falo aos pacientes sobre algumas outras vantagens (não comestíveis) de se conectarem com agriculturas saudáveis. Por exemplo, apesar de os dados não serem conclusivos, é provável que passar um tempo em uma plantação local possa oferecer uma prevenção relativamente segura e de baixa tecnologia para as famílias com predisposição à alergia. “Tempo na terra” parece especialmente atrativo por prevenir a necessidade de antialérgicos ou doses de antiistaminicos. Pesquisas recentes dizem que o tempo que uma pessoa passa trabalhando na terra é um meio de construir relações de comunidade, melhorar a força e a condição física, diminuir a probabilidade de demência em idosos e melhorar o desempenho escolar dos adolescentes. Seria simplista enxergar a presença em fazendas saudáveis como panaceia para tudo que nos aflige, mas é uma parte importante de minha caixa de ferramentas médica.

Cuidando de nossa sujeira

Passei a ver meus pacientes como uma parte integrante de um ciclo de agroecologia, onde o fluxo de saúde é bidirecional. Nossas escolhas influenciam diretamente na saúde da agricultura – que, em retorno, produz impactos em nossa saúde. A compostagem é uma maneira de alimentar a agricultura local e, em consequência, nos fortificar. Encorajo os pacientes a proteger seu solo como protegem seus corpos. Embora muitos de nós estejamos cientes de que as químicas usadas no solo podem ser danosas para nossa saúde, raramente percebemos que produtos que usamos em nós mesmos e em nossas casas – como triclosanos, compostos orgânicos voláteis, parabenos, PBAs, PVCs e lixívia – podem afetar a saúde do solo e seus micróbios. (Por sinal, extratos de alecrim ou manjericão produzem excelentes antissépticos, vinagre é o melhor produto de limpeza, karité e manteiga de cacau são hidratantes perfeitos, e bicarbonato de sódio diluído é um shampoo excelente.

Sei há muito que antibióticos, esteroides e outras drogas bactericidas podem causar efeitos colaterais não intencionais em meus pacientes. Agora, entendo como estas drogas podem causar impacto na vida microbial sob nossos pés e, em última instância, em nossas próprias células.

Certamente, qualquer produto químico que diminua a diversidade microbial irá, em consequência, diminuir o valor nutricional de nossa comida. Mas existe outra preocupação: microbiologistas da Universidade de Washington em Saint Louis perceberam recentemente que as bactérias do solo, quando expostas a antibióticos e outros químicos, podem desenvolver genes resistentes a antibióticos que, assim como as enzimas digeridoras de algas nori, podem ser transferidas para nosso microbioma, converterndo bactérias a princípio benignas em “superbugs” nocivos e resistentes a medicamentos.

Pensar em um corpo saudável como extensão de uma agricultura saudável, e vice versa, é uma mudança de paradigma para muitos de nós. Mas quando consideramos que todas as nossas células crescem obtendo do solo e das plantas seus nutrientes, tudo faz sentido. Na verdade, não é tanto exagero dizer: nós somos terra.


Fonte: Outras Palavras



terça-feira, 13 de setembro de 2016

Como surgiu a " mulher freudiana?"

Confira o texto que a filósofa Marilena Chaui escreveu para a nova edição, revista e ampliada, do clássico "Deslocamentos do feminino", de Maria Rita Kehl


marilena-chaui-maria-rita-kehl Marilena Chaui

Como surgiu a “mulher freudiana”? Em Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade, com essa indagação, Maria Rita Khel, partindo da declaração de Freud de que não se nasce mulher nem homem, mas nos tornamos um ou outro, propõe desconstruir a figura universal e abstrata de A Mulher, isto é, um conjunto de imagens e representações que tentam produzir uma identidade para todas as mulheres sem alcançar nenhuma delas em sua singularidade. Para responder a essa indagação, Maria Rita propõe o conceito de deslocamento, que permite acompanhar as mudanças nos conceitos de feminino e feminilidade (bem como de masculino e masculinidade) conforme se desloca a posição das mulheres com a formação da sociedade burguesa, na passagem da Revolução Francesa para a sociedade urbana industrial do século XIX, quando nasce a psicanálise.

Deslocamento possui dupla significação: é objetivo, isto é, determinado pelas condições históricas da modernidade, e subjetivo, isto é, forma o conjunto de representações singulares que as mulheres passam a ter si mesmas. O núcleo deste livro se encontra nas análises que levam ao surgimento da figura das mulheres como histéricas. Por isso, deslocamento possui um terceiro sentido, apresentado de maneira direta e singela pela autora: as mulheres comofundadoras da psicanálise juntamente com Freud. Sentido gigantesco, como logo se vê, pois as mulheres não foram passivas e sim o que tornou a psicanálise possível.

Quatro questões principais formam a teia cerrada da interrogação de Maria Rita, que as enfrenta percorrendo com erudição, argúcia, elegância e firmeza a história social, a lingüística, a literatura, a teoria literária, a psicanálise freudiana e lacaniana, e a filosofia.

Primeira questão: como e porque se dá o deslocamento da posição feminina na modernidade? Para responde-la, Maria Rita examina a presença das mulheres durante a Revolução Francesa, isto é, sua presença colocaram no espaço público, graças à declaração dos direitos à igualdade e à liberdade, e o temor burguês diante dessa aparição. Ocorrerá com as mulheres o mesmo que com as massas trabalhadoras: o grito igualitário e libertário de 1789 produzirá pavor na burguesia e será substituído pela repressão de 1848. No caso das mulheres, a negação da igualdade e da liberdade se efetua com a construção de uma “natureza feminina”, imagem tensa da mulher como naturalmente sensual e desmedida, e, ao mesmo tempo, naturalmente sensível e amorosa, destinada ao casamento (por amor, é claro) e à maternidade, funções que só realizará se for domesticada (no duplo sentido da palavra), isto é, se for obrigada a passar daquilo que ela é àquilo que eladeve ser. Instinto desgovernado nas mocinhas e frigidez nas mulheres casadas: eis o imaginário burguês. E o contraponto das vozes femininas singulares que, na literatura e nos “escritos sobre si”, se ergueram contra isso.

A segunda questão, como conseqüência, indaga: porque Emma Bovary é uma das expressões mais fortes e terríveis dessa mulher (freudiana)? Atacando com ironia impiedosa a mediocridade, estupidez e ignorância do senso-comum burguês, Flaubert constrói Emma Bovary como a menina provinciana educada num convento e alimentada (como as jovens da época) pelos romances “para moças”, que incendeiam sua imaginação na busca do amor e da aventura e que viverá entre homens medíocres, pomposos e inescrupulosos. A narrativa acompanha os deslocamentos sucessivos da personagem, que, sem cessar, só pode inventar personagens para si mesma: adolescente mística, esposa virtuosa, adúltera, primeiro como amante seduzida e, depois, como amante sedutora e experiente, insatisfeita e vazia, se torna consumista voraz (impedida de ser, acredita realizar-se pelo ter) e, finalmente, suicida. Madame Bovary se desloca de uma posição passiva a uma ativa, porém, sempre na posição histérica, isto é, “sua completa dependência em relação ao outro – no caso, um homem; mais ainda, o homem da relação amorosa”, marido, amantes e Jesus. Mesmo quando passa da posição passiva à ativa, “é capaz de manejar o falo, não é capaz de reconhecer que o faz”. É falada pelo discurso do Outro ou objeto do discurso do Outro, sem alçar-se à posição de sujeito. Fracassa sempre.

Donde a terceira questão: qual a relação entre a cura analítica e a ética? Se Lacan tem razão ao afirmar “eu sou onde não penso/ eu penso onde não sou”, indaga Maria Rita: como “furar o discurso do Outro”? Como tornar-se sujeito? Seja sujeito falante, sujeito do desejo? Como tomar o próprio destino em nossas mãos? A distinção lacaniana entre o real, o imaginário e o simbólico abre caminho para a criação de respostas, juntamente com a desmontagem do imaginário burguês com sua glorificação abstrata do livre-arbítrio e do dever, gênese da culpa, da neurose e da impossibilidade da vida ética.

Essa distinção lacaniana é uma das chaves para a quarta questão: por que Freud permaneceu cego para suas descobertas sobre o feminino, ele que foi capaz de escutar as falas e narrativas de mulheres que jamais haviam sido ouvidas e que, com ele, fundaram a psicanálise? Resposta: porque se deteve no real (biológico) e no imaginário (as representações), sem passar ao simbólico, mesmo em suas obras de metapsicologia e sobre a cultura. Freud se refere ao feminino como mistério e enigma, conserva a imagem vitoriana da mulher dependente e doméstica quando tinha tudo para supera-la. Escreve Maria Rita: “A manutenção de um ponto enigmático sobre o querer feminino, a representação da mulher como continente negro da psicanálise seriam, a meu ver, recursos a que Freud recorreu para manter-se ignorante a respeito do queele mesmo não queria saber, embora já tivesse revelado ao resto do mundo: a diferença fundamental entre homens e mulheres é tão mínima que não há mistério sobre o “outro” sexo a que um cavalheiro não pudesse responder indagando a si próprio. O que fez Freud, aliás, mas, como bom neurótico, não podia saber o que estava fazendo”. Sou onde não penso, penso onde não sou…

Marilena Chaui é professora de Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) e autora, entre outros livros, de A nervura do real, Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária e Introdução à história da filosofia. Recentemente colaborou com os livros Por que gritamos golpe? Para entender o impeachment e a crise política no Brasil (Boitempo, 2016) 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma (Boitempo, 2013), organizada por Emir Sader.



sábado, 10 de setembro de 2016

Dona Pandá e o café mineiro


Ontem, à noite, como acontece às sextas-feiras, Dona Pandá e sua mana foram buscar, na boulangerie do Condomínio, os maravilhosos pães que a boulangère Sandra nos oferece semanalmente. Ganhou de uma das garotas um pacote de café especial, produzido aqui nas Gerais. Como a mana já chegou avisando que abriria um vinho, ela nem tentou resistir.

Hoje, ao se levantar, foi direto para a maquininha fazer um expresso. Depois de ter saboreado a bebida, que, de fato, é especial, sabor e aroma pra nenhum cafezista botar defeito, Dona Pandá se lembrou de que a maquininha não fora usada há algum tempo. Apesar de já ter feito seu café, resolveu que precisava limpar a máquina.

- Antes tarde… resmungou e abriu a tampa hermética - logo percebeu que o nunca teria sido melhor – e … pan! Com um belo estrondo, a água que ficara na máquina e estava represada com o calor da fervura foi, sem qualquer aviso ou cerimônia, em direção ao rosto da pobre Dona Pandá.

Ah! Não é que ela conserva seus reflexos de chacareira! Com um pulo para trás e um grito pouco discreto, conseguiu se safar da queimadura.

Bei – o cachorro – e eu assustados corremos para saber o que provocara aquele escândalo. Encontramos Dona Pandá sentada rindo às gargalhadas. Bei olhou para sua dona e deve ter pensado algo como “normal, não vou dar bola”, deu meia volta e foi novamente para sua cama já que ainda não era hora de se levantar.

Não entendendo nada e sendo menos cautelosa que o cão, quis saber o motivo que me fizera sair da cama tão cedo e tão estabanadamente. Dona Pandá, teve certa dificuldade de parar de rir para me contar. Estava enebriada por ter se safado com tamanha agilidade. Ficava repetindo seu pulo pra lá e pra cá enquanto ria. Acabou me contagiando e me vi rindo sem ter ouvido a piada. Até que me lembrei da reação do Bei, virei as costas e fui andando em direção ao meu quarto: - Espere, menina. - Com grande esforço, parou de rir e me contou sua proeza de não se deixar alcançar pela água quente.
Acabei ganhando um café expresso delicioso.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

O dia da Pátria Amada

Hoje é dia da Pátria Amada. “Ouviram do Ipiranga às margens plácidas”...  O hino que comemora a independência do nosso Brasil é um dos mais bonitos do mundo. Foi composto com inspiração privilegiada e segue inspirando poetas e o povo brasileiro
Dona Pandá disse não saber se a Pátria Amada merece os parabéns!  Passados alguns segundos de sua interrogação, corrigiu-se dizendo que a Pátria Amada merece tudo, seus filhos – aqueles que fogem à luta – é que a estão machucando. Querem entregá-la, tirar sua altivez e soberania.

- Veja só, menina. Uma grande construtora está para ser vendida aos chineses. A tal Lava Jato, que deveria dar um basta à corrupção, foi parar na mão do moço de Curitiba e cada vez mais coloca em prática o que aprendeu nos “esteites’, cujo interesse continua sendo dominar o mundo. No caso do Brasil, o pré- sal é o maior alvo.

As construtoras nacionais são grandes empresas com tecnologia e capacidade para atuação em vários países, trazendo divisas e empregos para cá. Estão sendo destruídas. Também elas não são as vilãs. As empresas são dirigidas por homens, alguns honestos e outros corruptos.  Elas são detentoras do know how  que foi construído ao longo de sua vida. A Petrobras desenvolveu, com altíssimos investimentos humanos e técnicos tecnologia única. Ao invés de punir os homens corruptos, a Lava Jato auxiliada pela grande mídia, tem agido como se a empresa toda estivesse corrompendo o mundo. As consequências  para nossa economia são as mais desastrosas.

- Dona Pandá, a senhora não pode mudar de assunto?  - Quando percebi o que eu havia falado, já Inês estava mortinha. - Acho que o sino do portão tocou. Vou ver quem é.

- Vai nada. Você se esqueceu de que depois que pus o aparelho auditivo escuto tudo e o sino não tocou porque não ouvi. Não precisa ficar com medo de eu me zangar. Afinal, dou meu braço a torcer.  Está muito difícil aceitar o que estamos vivendo. A BBC Brasil publicou uma espécie de retrato do Senado. Deixa claro que se não houver eleições já para renovar aquilo lá, vamos para a cucuia.  Do que você está rindo, menina?

- A senhora não percebeu que continuou falando sem mudar de assunto!

Dona Pandá se levantou e fez um gesto com a mão que traduzi como deixa pra. Deixei. Ela foi andar no pomar e voltou com as mãos em concha cheias de tamarindos. O humor mudado.

- Venha comer uns tamarindos e vou lhe contar algo para você rir mais um pouco de mim. Ah! Para com isto. Você ri muito de mim, mas não faz mal. Eu também, às vezes, acho que sou inspiradora de risos. Veja só o que me aconteceu. Estava andando por aí, pensando que você tem razão, ando muito chata.

- Não falei isto, mas a senhora não está sentido um cheiro esquisito?!

- Ah! Como eu estava tentando falar e a maritaca me interrompeu! Você está rindo antes da piada.  Andava olhando as árvores para ver se havia alguma erva de passarinho não detectada, uma raiz que, ontem, lá não estava  surgiu na frente de meus pobres pés. Estes coitados, sem a proteção dos olhos, fizeram uma acrobacia não ensaiada. O esquerdo chutou o grande obstáculo, contando que seu aliado, o direito, daria conta deste corpinho que afinal não é lá tão pesado. Isto não aconteceu e o desequilíbrio me mandou para cima da moita da babosa. Olhei bem – nesta hora já os olhos perceberam seu desvio e correram a procura de uma muleta - lá estava ela, uma pilha de sacos cheios da comida preferida das minhocas,  onde cai sentadinha. Pronto pode rir. Vou tomar banho para tirar o cheiro de esterco.


‘Aquarius’ está muito além de seu peso político.

Nathali Macedo

Eis uma coincidência providencial: o aclamado ‘Aquarius’ estreou no Brasil justamente nesta incendiária semana em que o golpe se concretiza.
Embora seja louvável que tenhamos no Brasil uma equipe que vê na resistência criativa uma boa alterntiva diante do golpe corajosamente denunciado em Cannes, reconhecer o longa apenas pelas polêmicas que passaram a permeá-lo e pelo seu peso político seria injusto e desonesto: Aquarius vai muito além disso.
A história da escritora Clara, que resiste em desocupar o edifício em que mora, em Boa Viagem (Recife), mesmo diante de todas as investidas de uma grande construtora representada por Diego (Humberto Carrão), que pretende substituí-lo por um luxuoso empreendimento, nos conduz a um inevitável e necessário choque geracional entre a preservação da memória e a promessa de modernização e higienização que transforma as cidades – e as pessoas – em fantasmas frios e sem vida.
Essa dualidade – em torno da qual se alicerça toda a história – é expressa da maneira mais tocante e sensível possível, com uma força que se mostra justamente na beleza das sutilezas.
A sutileza pungente é, aliás, o que mais claramente caracteriza Aquarius, que toca com naturalidade em pontos no mínimo delicados para a sociedade brasileira ainda tão conservadora: Revolução sexual feminina, câncer de mama, questões raciais e de gênero, a arrogância da jovem burguesia brasileira, a tendência moderna a esvaziar de sentido e de memórias todos os espaços… Está tudo posto, com uma sutileza grandiosa que contrasta com os ânimos tão exaltados de uma atmosfera política adstringente.
O humor também sutil contido no longa faz jus a um parágrafo inteiro: A comicidade comedida ora suaviza, ora amplifica as tensões naturais de uma história tão densa. O humor pontual – que, de tão sutil, pode, mas não deve passar despercebido – está carregado de significado, exatamente como pede esta geração.
A atuação plena de Sônia Braga, por outro lado, dispensa comentários. Não é injusto dizer que ninguém jamais incorporou com tanta maestria a beleza da maturidade.
Clara é uma representação justa e honesta da mulher dos novos tempos: lúcida, autêntica e bem-resolvida, uma personagem que sai do lugar comum, que saúda a beleza das memórias e as marcas do tempo e personifica a resistência que estes tempos sombrios nos têm exigido.
Não por acaso, o diretor Kleber Mendonça Filho jamais concebeu um protagonista homem para o longa. “Aquarius não seria tão forte se não fosse uma personagem mulher.”
A sensualidade presente na personagem não remonta, sequer minimamente, a sexualização fetichista que o cinema comumente atribui à mulher. É, antes disto, a inevitável sensualidade da própria Sônia, incorporada com naturalidade a uma personagem completa.
Talvez seja esta a grande questão – fico tentada a pensar – em torno do boicote do Ministério da Justiça ao estabelecer uma classificação indicativa de 18 anos para o filme, justificada em uma “situação sexual complexa”: a sexualidade feminina não é fetiche. Trata-se, antes disso, de uma libertadora e sutil constatação, apenas posta diante de nossos olhos, sem nenhum pretensiosismo, para que lembremos que mulheres não estão adstritas à sexualidade, tampouco dela estão isentas, o que certamente incomoda aos setores conservadores para os quais a sexualidade feminina não pode ser expressa se não estiver a serviço do deleite masculino.
A classificação foi, inclusive, reduzida para 16 anos, e não poderia ser diferente. O que pode ser lido em Aquarius como sexo explícito é, sob um olhar mais atento, um simbolismo – que obedece a medida do necessário – acerca da revolução sexual feminina.
Se os personagens são um presente e a história simplesmente nos desnuda enquanto povo brasileiro, a trilha sonora é um espetáculo à parte. Nenhum filme jamais honrou tanto a música brasileira: Gil, Bethânia, Taiguara e Ave Sangria simplesmente conversam com a história.
Talvez o peso político de Aquarius tenha uma explicação simples, embora jamais reducionista: falar de política significa falar de nós mesmos. E não há melhor maneira de fazê-lo – neste momento em que uma mulher é injustamente destituída da presidência – do que através de uma personagem como Clara: uma mulher de 65 anos disposta a lutar pela preservação de seu direito de ser quem é, de permanecer onde sempre esteve, de preservar o que lhe é importante, de resistir a uma cruel e higienizadora verticalização.
O Brasil ganha de presente um filme capaz de dissecá-lo e traduzi-lo com toda a elegância de uma protagonista que contempla irretocavelmente o sentimento de uma geração que, a duras penas, se redescobre.
Fonte: DCM (Diário do Centro do Mundo)
Nathali Macedo
Sobre o Autor
Colunista, autora do livro "As Mulheres que Possuo", feminista, poetisa, aspirante a advogada e editora do portal Ingênua. Canta blues nas horas vagas.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Vamos fazer o que sabemos, de novo

Dona Pandá anda preguiçosa. Diz que não está mais em seu lugar. Diz que seu País virou de cabeça pra baixo. Diz que não quer viver o que já viveu. Logo esclarece: aquilo de que não quer se lembrar. Aposto um bombom que há muitas coisas que gostaria de viver uma, duas e mais vezes. Quando lhe disse isto, não é que levei uma bordoada de palavras e resmungos! Depois ficou séria, sorriu pra ela mesma e explicou.

O Riobaldo Tatarana disse que “viver é muito perigoso”.  Sabia das coisas esse cara e mesmo assim não conseguiu a vida desejada com sua Diadorim.

- Dona Pandá, o que o pobre Riobaldo tem a ver com a senhora querer viver o que já viveu?

- Primeiro “Fora Temer”. Segundo, a vida é muito curta para reprises.  Releia o Grande Sertão e vai ver a sabedoria do cara. Às vezes, os momentos muito bons os perdemos ao buscar a segunda vez. Precisamos respeitar o tempo, sobretudo quando é de felicidade. Bem vivido ele permanece num plano aceitável de chamamento e fiel. Você o chama, ele vem. Se se obstinar em reproduzir, a fidelidade se apaga e o risco passa a ser de sua inteira responsabilidade. O sábio é construir o novo. Assim, você tem os dois e o risco maior é o da superação.

- Dona Pandá, está construindo um novo?

- Tenho tentado. Confesso que o macro – no sentido que meu amigo Joca dá, o entorno próximo e aquele em que apesar de nele estarmos inseridos, nada temos do seu controle – não tem ajudado em nada.  Ainda estava semeando quando um bando de abutres, sem perceber que não era  carniça e sim boas sementes, invadiu meu pomar e me deixou de embornal vazio. Novas sementes foram plantadas e estavam despertando verdinhas. Eis que os gafanhotos fizeram a festa.

- Dona Pandá, está falando do pomar ou do Brasil?

-Ora, menina, até plantamos feijão guandu para melhorar essa terra seca, mas o Brasil está com bandos soltos de quem o moço de Curitiba não encontra os endereços.  Você se lembra daquela noite tenebrosa quando o mundo viu a exposição de motivo dos fulanos que dedicavam seu voto a deus, jesus, pai, filho (será que o papagaio foi chamado?), ao marido, exemplo de honestidade (preso quase em seguida por corrupção) e sei lá mais que barbaridades? Naquele momento, nosso Brasil começou seu calvário. Chamaram tanto Jesus que ele resolveu emprestar a nosso País. O fulano que abriu os absurdos estava lá curtindo seu gesto de vingança sem se incomodar com o preço porque a conta não iria pra ele. 

Numa outra hora a gente continua essa tétrica história. Agora, o medo e a revolta – plantados pelo ódio, a covardia direcionados e garantidos  pelo capital – falam mais alto. Minha geração já viveu isto e, apesar de não se tratar de tempos felizes, bem ao contrário, foram cruéis, sabe que o perigo chegou. Vamos precisar de muita luta. Como disse um grande homem: sabemos fazer isso. Então, vamos fazer, sem repetir os erros, vamos fazer a luta boa, a luta do trabalhador brasileiro pelos direitos conquistados, pela Democracia.





terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Francisco: um passo a mais — em silêncio

160220-Francisco
Em sua viagem de maior carga emocional, Papa homenageia humilhados pelo capital e fustiga os que se aproveitam da desigualdade crescente. Como era de esperar, jornais calaram-se…
Por Mauro Lopes

Foi a visita com maior carga afetiva-emocional e aquela na qual ele mais explicitou, com palavras e gestos, o desejo de retorno da Igreja à originalidade dos primeiros tempos — uma Igreja pobre com os pobres.

O ato final da visita talvez não tenha sido compreendido em sua verdadeira dimensão: o Papa escolheu Ciudad Juarez, na fronteira entre o México e o Império e, num gesto profético de denúncia e desafio, abençoou as cruzes que simbolizam os milhares de mexicanos e mexicanas mortos durante o que parecia ser uma travessia para uma vida melhor.

O Papa, como o Cordeiro do livro do Apocalipse, o último da Bíblia, confronta-se com a Babilônia, a Roma dos tempos que escorrem. Não é à toa que fez, no México, a mais dura condenação aos ricos em seu tempo como Papa, ao dizer que eles prestarão contas sobre as fortunas construídas sobre o sangue e o suor e as lágrimas das pessoas; e, no avião de volta ao Vaticano, deixou claro que, para ele, Donald Trump não pode ser qualificado de cristão, por ser alguém que só tem projetos para construir muros a separar (como o muro entre os EUA e o México en Ciudad Juarez), muros de concreto e de ódio.

Fonte: Outras Palavras (Publicado por Antônio Martins)

sábado, 16 de janeiro de 2016

O poder da palavra




Paulo Nogueira(1)

(Publicado no Diário do Centro do Mundo)

Houve dois grandes oradores na Antiguidade: Cícero, romano, e Demóstenes, grego. Cícero nasceu com o dom. Demóstenes (384-322 a.C.) é uma prova do extraordinário poder do esforço. Foi graças ao treinamento meticuloso, rígido, persistente que Demóstenes se elevou à imortalidade como um símbolo da força avassaladora das palavras.

Demóstenes, natural de Atenas, era de uma família rica. Seu pai morreu quando ele tinha 8 anos. A herança opulenta foi dilapidada por seus tutores, parte por má fé, parte por inépcia. Garoto ainda, Demóstenes assistiu a um julgamento no qual um orador chamado Calístrato teve um desempenho brilhante e, com sua verve, mudou um veredicto que parecia selado. (Orador, lá para trás, era uma espécie de advogado de hoje.)

Pronto. Demóstenes acabara de saber o que queria ser quando crescesse. Esse episódio foi assim narrado pelo historiador e filósofo grego Plutarco: “Demóstenes invejou a glória de Calístrato ao ver a multidão escoltá-lo e felicitá-lo, mas ficou ainda mais impressionado com o poder da palavra, que parecia capaz de levar tudo de vencida”.

Ele entrou numa escola de oratória.Assim que pôde, processou seus tutores. Ganhou a causa. Mas estava ainda longe de ser notável. Um dia, desanimado, desabafou com um amigo ator. Gente bem menos preparada que ele provocava melhor impressão nas pessoas. O amigo pediu-lhe que recitasse um trecho de Eurípides ou de Sófocles, dois gigantes do teatro grego. Demóstenes recitou. Em seguida, o amigou leu o mesmo trecho, com o tom dramático de um ator. Era a mesma coisa, e ao mesmo tempo era tudo inteiramente diferente.

Demóstenes montou então uma sala subterrânea na qual se enfiava todo dia por demoradas horas para treinar, treinar e ainda treinar. Chegava a raspar um dos lados da cabeça para não poder sair de casa e assim praticar sem parar. Para aperfeiçoar a dicção, Demóstenes punha pequenas pedras na boca enquanto falava. Fazia também parte de seu treinamento declamar em plena corrida. Olhava-se demoradamente num grande espelho para ver se sua expressão causava impacto.

“Vem daí a reputação de não ter sido bem dotado pela natureza e só haver adquirido habilidade e força oratória pelo trabalho incansável”, escreveu Plutarco. Ao contrário de outros grandes oradores atenienses, Demóstenes não gostava de improvisar. Por isso os inimigos o chamavam de embusteiro.

Quando a Grécia foi ameaçada por Felipe, rei da Macedônia, a voz de Demóstenes ergueu-se tonitruante em defesa de seu país. Mais que o exército grego, Felipe, pai de Alexandre, o Grande, temeu e reverenciou a voz de Demóstenes.

Demóstenes retardou, mas não impediu a queda dos gregos. Fugiu de Atenas para não ser morto, mas estava perdido. Para não ser capturado pelos inimigos que o caçavam, matou-se com veneno. Mais tarde, os atenienses construíram uma estátua para ele na qual gravaram uma sentença célebre: ‘Se tivesses tido força igual à tua vontade, Demóstenes, o guerreiro macedônico jamais dominaria a Grécia".

(1)O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

As lições de Juscelino Kubitschek em 1964

"A História não perdoa"



JK e seu vice João Goulart

(Publicado no Unisinos).


No dia 1o de abril de 1964, Lincoln Gordon relatava ao Departamento de Estado: “Encontrei Kubitschek às 21:15 e mandei uma mensagem que aparentemente não foi enviada no meio da confusão de ontem à noite. (…) Kubitschek disse que a movimentação de São Paulo seria crítica para o sucesso, e se a rebelião fosse branda, Goulart abriria seu caminho para a ditadura. (…) Nós conversamos sobre o problema da legitimidade, que ele pensou que seria facilmente cuidado pelo Congresso, se o aspecto militar fosse resolvido. Ele tinha visto Goulart no meio da tarde e suplicou que salvasse seu mandato fazendo uma ruptura clara com a CGT e os comunistas, mas Goulart disse que isso seria sinal de uma fraqueza que ele não poderia mostrar. (…) A hora teria claramente chegado e nessas horas não seria necessário nenhum apoio especial dos EUA.”

O informe do embaixador dos EUA no Brasil deixava claro o rompimento do ex-presidente, e então senador Juscelino Kubitschek, com o presidente João Goulart (seu ex-vice), e expunha a sua aberta colaboração com o Departamento de Estado norte-americano, monitorado naqueles dias diretamente pelo presidente Lyndon Johnson, por telefone, de seu rancho no Texas.

Na tarde do dia 1o de abril de 1964, o subsecretário de Estado norte-americano, George Ball, atualizava-se com Gordon sobre a situação no Brasil e traçava as variáveis para o sucesso dos “revoltosos / golpistas”. Segundo essas conversas, um apoio declarado dos EUA fortaleceria o movimento pró-Goulart.

Entre as possibilidades aventadas para retaguarda militar estadunidense estavam acionar porta-aviões, navios e se preciso, aviões, cheios de armamentos (com registro raspado), além de deslocar três destroieres e um submarino para a Baía de Guanabara.

A participação de JK nas movimentações norte-americanas do dia 31 de março não se limitou à conversa com Gordon. Ele também reafirmou a James Minotto, assessor americano para as relações com o Senado, suas posições: “Em uma conversa com James Minotto…, Kubitschek disse que, para razões práticas, a situação já estava definida. Aconteceria um golpe bem-sucedido contra Goulart, e que a resistência a isso se resumiria a uma greve geral de dois ou três dias. [Segundo ele] os trabalhadores … iriam voltar ao trabalho assim que começassem a ficar com fome”. Nessa conversa, JK reconfirmava que “estava rompendo com ele [Goulart] já que o presidente estava seguindo um caminho que acabaria por entregar o país aos comunistas”.

As próximas relações de Kubitschek com os governantes estadunidenses, de ambos partidos, vinham desde antes de seu mandato como presidente. Um relatório “pessoal e confidencial” do então assessor especial da Casa Branca, o magnata do petróleo Nelson A. Rockefeller, ao presidente Eisenhower, após a eleição de JKem dezembro de 1955, mostrava isso.

Para Rockefeller, JK era visto como um aliado importante: “O presidente eleito do Brasil, Juscelino Kubitschek, passou a ser o meu amigo. … Sob sua liderança, parece-me que há uma grande oportunidade para que as relações entre Brasil e EUA sejam muito mais próximas como há muito tempo não são”.

No mesmo relato, Rockefeller indicava que o contato pessoal seria fundamental, para que se desenvolvesse uma boa relação entre os países: “(…) Como muito brasileiros, ele é altamente personalista em seus sentimentos e por causa disso, estou tomando a liberdade de escrever esta nota para fazer uma sugestão relacionada à sua posse, que está próxima…. Eu tenho a sensação que, com base no grande sucesso de suas turnês de boa ‘vizinhança’ anteriores, seria possível que o vice-Presidente Nixon chefiasse a delegação da posse de Kubitschek no próximo mês, onde ele seria muito bem recebido no Brasil e ajudaria enormemente a começar de maneira forte o seu mandato”.

Desde sua campanha, JK era visto pela Casa Branca como garantia de bons negócios e de luta contra o comunismo no País. No mesmo relatório, ainda em 1955, Rockefeller descrevia com bons olhos o Plano de Metas, a aproximação com os EUA e o seu anticomunismo: “Kubitschek mencionou seus planos de promover um grande desenvolvimento da economia brasileira… ele disse que os EUA eram o único país que poderia auxiliá-lo a aprofundar seus planos econômicos… Kubitschek relatou que ele não era comunista e que não permitiria que comunistas fossem ativos no seu governo”.

As escolhas de JK ao longo de sua carreira política, por um desenvolvimento econômico associado (fortemente financiado por bancos internacionais e impulsionado por empresas estrangeiras), pela infraestrutura com base no transporte rodoviário e no petróleo, pelo incentivo às grandes indústrias automobilísticas, e o seu anticomunismo, aproximavam ainda mais Juscelino, eventual candidato à presidência em 1965 (possivelmente contra João Goulart) e os Estados Unidos.

As revelações dos documentos norte-americanos explicitando a colaboração de JK com o embaixador Gordon na véspera do golpe também trazem elementos e lições aos políticos brasileiros de hoje. Muitas vezes o rompimento com a normalidade democrática, motivado por vantagens pessoais imediatas, pode desencadear, a médio e longo prazo, prejuízos incalculáveis ao país e, muitas vezes, a esses próprios políticos. A conjuntura de momento pode ser favorável, mas a História não perdoa.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Em cena, a covardia


Editorial de Carta Capital (Publicada em 27/11/2015)

Os poderes da República assistem impávidos à demolição progressiva do Estado de Direito

Por Mino Carta

Faz duas semanas, em carta publicada na seção competente, um leitor elogiou Carta Capital ao defini-la como revista de esquerda. Que significa ser de esquerda? Bom ou mau? As opiniões, como se sabe, divergem, e em um país maniqueísta como o Brasil divergem absolutamente, embora o significado exato da palavra tenha perdido a clareza de antanho.

Há mesmo quem diga que o tempo das ideologias acabou de vez como se fosse possível admitir a inexistência de ideias capazes de mover as ações humanas. De todo modo, em terra nativa, basta pouco para ser classificado de esquerda, ou mesmo comunista. Vários requisitos exigem-se para chegar a tanto, mas dois são determinantes.

Primeiro, denunciar com todas as letras a insuportável desigualdade reinante no País, recordista em má distribuição de renda. Segundo requisito. Não se acovardar diante da prepotência oligárquica, tão desbragadamente exercida por meio da mídia nativa, paladina de uma liberdade de imprensa que não passa de liberdade de propalar impunemente o que interessa aos patrões, moradores cativos da casa-grande e, portanto, de inventar, omitir e mentir. Esta é também uma forma de corrupção.

No enredo político em pleno desenvolvimento no cenário nacional, o papel da covardia é capital, é a partícula primeva que explode no big-bang. Espero ser entendido ao acentuar que a encenação é digna de um colossal hollywoodiano, e talvez fosse oportuno entregar a direção a Cecil B. DeMille. Cinéfilos vetustos como o acima assinado sabem o que estou a dizer. Vamos, porém, ao ponto, sem exagerar em esperanças quanto a essa compreensão.

A par da credulidade de muitos leitores, ouvintes e telespectadores e da benfazeja indiferença da senzala, preocupada com temas práticos e cotidianos, sobra, com extraordinário vigor, a covardia de quem haveria de resistir. A começar pelo Supremo Tribunal Federal. Lembrei-me do meu professor de Direito Penal na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em uma das cúspides do chamado Triângulo de uma São Paulo adoravelmente provinciana. Noé Azevedo, cavalheiro de cabelos brancos, supunha-o parecido com Caronte, o barqueiro do Styx na versão dantesca, “branco por antigo pelo”. Ensinava a supremacia do Direito Natural: os fatos merecedores de julgamento, hão de sê-lo no mesmo local em que se dão.

Aí está o pecado original, imperdoável, da Lava Jato. Escudado pela polícia curitibana,Sergio Moro manda às favas o Direito Natural. Os ministros do STF não foram alunos do professor Noé, está claro, e talvez nem saibam dele. Poderiam, contudo, ter consciência das suas responsabilidades. No entanto, diante do desmando e de muito outros cometidos na república jurídico-policial de Curitiba, se acovardam.

Divididos nos sentimentos e nos humores, os senhores ministros de uma justiça desvendada, curvam-se aos pés da arrogância midiática. Apavoram-se com a reação, impressa, radiofônica e televisada, a qualquer tentativa de recolocar a situação nos trilhos da lei, sem deixar de apreciar referências gaudiosas às suas pessoas, uma foto aqui, uma nota favorável , ou mesmo uma entrevista, acolá. A citação empolga e compensa o medo.

O mesmo gênero de temor atinge o próprio governo, acuado e até hoje incapaz de inaugurar o segundo mandato de Dilma Rousseff, tão bem representado na sua inércia aturdida por um ministro da Justiça inexoravelmente inepto. Aceita-se a afirmação da prioridade do combate à corrupção, enquanto demole-se o Estado de Direito.

E as bancadas petistas do Congresso e os parlamentares da dita base aliada? Acovardados, alguns à sombra da espada de Dâmocles, outros por que simplesmente tementes à mídia em lugar de Deus, possivelmente alheado como de hábito das misérias humanas. Se algum dia o Brasil foi um Estado de Direito a despeito da presença inesgotável da casa-grande e da senzala, deixa de sê-lo agora debaixo dos golpes das manchetes.

Observa um velho amigo ao me visitar no meio da tarde melancólica: tínhamos um salvador da pátria, chamava-se Joaquim Barbosa, de um tempo para cá tomou-lhe o lugar Sergio Moro. Nada mais simbólico do que a homenagem que lhe fez a Aner, contada nesta edição por Nirlando Beirão na página 30. O herói de camisa preta, adequada a mostrar antes a vaidade do que a identificação ideológica, conforme o editor de CartaCapital.Permito-me observar que o preto também é próprio do coveiro.


Brasília, pesadelo sem saída?

POR 
JOSÉ GERALDO COUTO 

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Em tempos turbulentos, filme de Murilo Salles imagina casal comum tragado pela pequenez da velha política — e é ainda mais provocador por recorrer à “estética do desconforto” que diretor maneja com maestria
Por José Geraldo Couto, no blog do IMS
Numa semana trepidante na política e repleta de estreias nos cinemas, destaco aqui um filme tão oportuno quanto incômodo: O fim e os meios, de Murilo Salles. Aliás, num gesto inédito, o diretor está lançando simultaneamente dois outros trabalhos: os documentários Aprendi a jogar com você e Passarinho lá de Nova Iorque, ambos sobre artistas populares (um DJ, uma cantora, um cineasta independente) tentando “se virar” no Brasil atual.
Mas, se a terra treme em Brasília, o filme da hora é O fim e os meios, que acompanha os percalços de dois peixes miúdos – uma jornalista e um publicitário – no mar de tubarões do poder político e econômico. Não é um filme-denúncia, não toma partido desta ou daquela facção, não moraliza: simplesmente apresenta dois personagens “comuns” tragados pelo olho do furacão.
Nas bordas da engrenagem
São eles o jovem publicitário carioca Paulo Henrique (Pedro Brício) e a jornalista Cris (Cíntia Rosa), que só passam a formar um casal depois que nasce a filha deles, fruto de uma relação casual. Eles vão morar em Brasília quando Paulo é convidado a trabalhar de “gestor de imagem” para um velho senador (Emiliano Queiroz) e Cris se transfere para a sucursal brasiliense do seu jornal. Ambos falam em topar um “desafio”, uma das palavras mais faladas no filme, quase um eufemismo para “vender a alma, mas só um pouquinho”.
Cena de “O fim e os meios”, de Murilo Salles

Não cabe aqui entrar em detalhes do enredo. O que importa é que o jovem casal vai transitar pelas bordas da perversa engrenagem do poder – e sofrer os efeitos psicológicos, afetivos e morais disso. Dinheiro, intrigas, confusão entre o público e o privado, promiscuidade entre imprensa e poder, em suma tudo isso que conhecemos dos livros ou de ouvir falar, só que aqui mostrado “por dentro”, vivido por “gente como a gente”.
A maneira como Murilo Salles encena e filma esse drama não deixa espaço para o maniqueísmo, a identificação com um dos lados, a catarse. Sob um céu permanentemente carregado, uma paleta de cores reduzida quase ao preto e branco (até mesmo quando se filma uma praia paradisíaca do Nordeste), há uma predominância dos planos gerais, em que os personagens aparecem pequenos, como que oprimidos pelo espaço que os engloba. Poucos closes, recusa sistemática do campo/contracampo, raros momentos de câmera subjetiva, quase nenhuma música. Ou seja, nada dos recursos habituais que, na decupagem clássica, induzem à identificação emocional do espectador com este ou aquele personagem.
Desconforto
Tudo é desconforto, como costuma acontecer no cinema de Murilo Salles, em que ninguém é totalmente virtuoso ou totalmente canalha. Inútil tentar buscar aqui referências a personagens individuais da nossa política. Não é um roman à clef. O senador que contrata Paulo Henrique tem um pouco de Sarney, um pouco de ACM, mas vai além desses modelos: é, sim, um coronel nordestino arquetípico, um “faraó embalsamado” da nossa sociedade oligárquica, mas ao mesmo tempo um personagem de carne e osso, que não abre a boca durante todo o filme, mas transmite pelo olhar uma gama enorme de ideias e sentimentos. É quase uma esfinge que nos desafia à decifração. (Diga-se entre parênteses: que ator extraordinário, esse Emiliano Queiroz!)
Oriundo da direção de fotografia, Murilo Salles é um cineasta essencialmente visual, isto é, alguém que sabe que o cinema, mais do que com ideias e palavras, se faz com imagens e sons (o que inclui as palavras, mas não se resume a elas). Parece óbvio, mas quando examinamos nossa filmografia política vemos que há, em geral, muito discurso e pouco cinema. E O fim e os meios, filme em que a primeira fala só surge depois de dez minutos (e ainda assim dirigida a um cachorro!), está repleto de imagens fortes e originais: um homem escondido numa laje na cobertura de um prédio em Copacabana, tomando banho na caixa d’água, mijando numa garrafa de plástico ou procurando um canto onde o sinal da internet seja melhor; fogo consumindo malas de dinheiro numa estrada de terra em meio a um canavial; dois casais conversando em volta da mesa numa mansão em Brasília, com o espaço fragmentado e duplicado por espelhos.
Ao controle absoluto da profundidade de foco soma-se uma “profundidade de som” que nada tem de naturalista ou aleatória. Há, por exemplo, uma cena em que Cris conversa com uma possível “fonte” para uma matéria. Os dois estão bem distantes no fundo do quadro, mas ouvimos perfeitamente a conversa, quase como se eles estivessem “grampeados” por aparelhos de escuta. O procedimento nos estimula a imaginar o teor das conversas ao pé do ouvido que vemos à distância nas reportagens televisivas nos espaços do poder em Brasília.
Herança patriarcal
A personagem Cris – jovem, bela, inteligente, altiva, negra – condensa, de certa forma, as principais tensões em curso. Tudo passa por ela, ou antes, a atravessa: o racismo, o machismo, a exploração profissional, toda a herança patriarcal da nossa sociedade. O que provavelmente incomodará muita gente é o fato de que ela não é uma vítima e tampouco uma heroína: é uma mulher plena de fraquezas e contradições. Sua atitude ambivalente diante do homem que a agride sexualmente talvez gere revolta entre feministas mais afoitas. A questão é que ela não está lá para representar a luta das mulheres, mas o drama de uma única mulher, ela própria.
Mais vale, a meu ver, atentar para a sutileza com que é filmada (ou melhor, omitida) a cena da violência sexual propriamente dita. Numa elipse visual, a câmera percorre, em contre-plongée, escadas, forros e tetos da casa, enquanto ouvimos os sons abafados e distantes do casal no ato. Os olhares silenciosos das empregadas mostram que elas também ouviram, e isso é o que importa.
Mais do que na frase grosseira do violentador (Marco Ricca) – “Seu marido te chama de ‘neguinha gostosa’?” –, nosso racismo velado, naturalizado, se revela quando um entregador toca a campainha e diz à protagonista, assumindo que ela seja a empregada: “Entrega para a dona Cris”. “Eu sou a dona Cris”, ela responde, ofendida.
Haveria muito mais a dizer sobre O fim e os meios, bem como sobre os dois novos documentários de Murilo Salles, mas este texto já está longo e é preciso falar de outra estreia importante da semana.
A Califórnia não é aqui
Filmes protagonizados por adolescentes e ambientados em décadas passadas, brasileiros ou não, correm o risco de cair na frivolidade, na idealização nostálgica ou, pior, num bom-mocismo doutrinário. Exceções recentes são o ótimo Depois da chuva, de Cláudio Marques e Marilia Hughes, e o delicado Califórnia, de Marina Person.
Estreia da diretora no longa de ficção (seu filme anterior é um documentário sobre seu pai, o cineasta Luis Sérgio Person), Califórnia traz evidentes traços autobiográficos ao retratar uma garota paulistana de classe média nos confusos anos 1980. A descoberta do amor, o aprendizado do sexo, a dolorosa construção de uma identidade num mundo em transformação, sob a ameaça ainda obscura da Aids e as canções dilacerantes de The Cure, David Bowie, New Order, Titãs etc.
O eixo da narrativa é a relação, em boa parte epistolar, entre a tal garota, Estela (Clara Gallo), e seu tio jovem e libertário (Caio Blat) que mora na Califórnia. Os relatos do tio alimentam a fantasia de Estela, configurando uma Califórnia idealizada como espaço de descoberta, invenção e liberdade. A vinda dele para São Paulo ocasionará um confronto entre o imaginário e o real. O “lado B” dajoyous free and flaming life revela-se bruscamente – e não é nisso que consiste, no fundo, a passagem da infância à idade adulta? E mais não se pode dizer, sob pena de entregar demais a história
Fonte: OUTRAS PALAVRAS

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Dia da infâmia: entre a chantagem de Cunha e a hipocrisia da oposição

Fernando Morais

Minha geração testemunhou o que eu acreditava ter sido o episódio mais infame da história do Congresso. Na madrugada de 2 de abril de 1964, o senador Auro de Moura Andrade declarou vaga a Presidência da República, sob o falso pretexto de que João Goulart teria deixado o país, consumando o golpe que nos levou a 21 anos de ditadura.

Indignado, o polido deputado Tancredo Neves surpreendeu o plenário aos gritos de “Canalha! Canalha!”.

No crepúsculo deste 2 de dezembro, um patético descendente dos golpistas de 64 deu início ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

A natureza do golpe é a mesma, embora os interesses, no caso os do deputado Eduardo Cunha, sejam ainda mais torpes. E no mesmo plenário onde antes o avô enfrentara o usurpador, o senador Aécio Neves celebrou com os golpistas este segundo Dia da Infâmia.

Jamais imaginei que pudéssemos chegar à lama em que o gangsterismo de uns e o oportunismo de outros mergulharam o país. O Brasil passou um ano emparedado entre a chantagem de Eduardo Cunha – que abusa do cargo para escapar ao julgamento de seus delitos – e a hipocrisia da oposição, que vem namorando o golpe desde que perdeu as eleições presidenciais para o PT, pela quarta vez consecutiva.

Pediram uma ridícula recontagem de votos; entraram com ações para anular a eleição; ocuparam os meios de comunicação para divulgar delações inexistentes; compraram pareceres no balcão de juristas de ocasião e, escondidos atrás de siglas desconhecidas, botaram seus exércitos nas ruas, sempre magnificados nas contas da imprensa.

Nada conseguiram, a não ser tumultuar a vida política e agravar irresponsavelmente a situação da economia, sabotando o país com suas pautas-bomba.

Nada conseguiram por duas singelas razões: Dilma é uma mulher honesta e o povo sabe que, mesmo com todos os problemas, a oposição foi incapaz de apresentar um projeto de país alternativo aos avanços dos governos Lula e Dilma.

Aos inconformados com as urnas restou o comparsa que eles plantaram na presidência da Câmara – como se sabe, o PSDB, o DEM e o PPS votaram em Eduardo Cunha contra o candidato do PT, Arlindo Chinaglia. Dono de “capivara” policial mais extensa que a biografia, Cunha disparou a arma colocada em suas mãos por Hélio Bicudo.

O triste de tudo isso é saber que o ódio de Bicudo ao PT não vem de divergências políticas e ideológicas, mas por ter-lhe escapado das mãos uma sinecura – ou, como ele declarou aos jornais, “um alto cargo, provavelmente fora do país”.

Dilma não será processada por ter roubado, desviado, mentido, acobertado ou ameaçado. Será processada porque tomou decisões para manter em dia pagamentos de compromissos sociais, como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida.

O TCU viu crimes nessas decisões, embora não os visse em atos semelhantes de outros governos. Mas é o relator das contas do governo, o ministro Augusto Nardes, e não Dilma, que é investigado na Operação Zelotes, junto com o sobrinho. E é o presidente do TCU, Aroldo Cedraz, e não Dilma, que é citado na Lava Jato, junto com o filho. Todos suspeitos de tráfico de influência. Provoca náusea, mas não surpreende.

“Claras las cosas, oscuro el chocolate”, dizem os portenhos. Agora a linha divisória está clara. Vamos ver quem está do lado da lei, do Estado democrático de Direito, da democracia e do respeito ao voto do povo.

E veremos quem se alia ao oportunismo, ao gangsterismo, ao vale-tudo pelo poder. Não tenho dúvidas: a presidente Dilma sairá maior dessa guerra, mais uma entre tantas que enfrentou, sem jamais ter se ajoelhado diante de seus algozes.

Fonte: Fundação Perseu Abramo
(Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Estelita vence: direito de propriedade não é absoluto




Justiça reconhece argumento dos que defendem cidades para todos: valor histórico, paisagístico, ambiental, social e político não pode ficar subordinado ao poder econômico. Mas batalha está só começando
Por Raquel Rolnik

No último sábado (28), a população do Recife acordou com a notícia da decisão judicial que anulou o leilão da venda da área do Cais José Estelita, realizado em 2008, em resposta à ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal. Essa área, de cerca de 100 mil metros quadrados, pertencia à Rede Ferroviária Federal, que, uma vez extinta, teve seu patrimônio transferido para a União, ou seja, o governo federal. Em leilão, a área foi arrematada pelo consórcio Novo Recife, formado pelas construtoras Moura Dubeux, GL Empreendimentos, Ara Empreendimentos e a empreiteira Queiroz Galvão. Ali, o grupo pretendia implementar um megaempreendimento imobiliário, com 13 torres de edifícios de luxo de cerca de 40 andares.

Desde 2012, porém, articulou-se um forte movimento de contestação a esse projeto, o Movimento Ocupe Estelita, que vem promovendo inúmeras ações para abrir canais de diálogo sobre o futuro daquela que é uma área privilegiada da cidade, tanto por sua localização, quanto por sua paisagem e história. Sem dúvida, a forte mobilização do grupo – que ganhou repercussões internacionais – é a grande responsável por levar o debate sobre o futuro do Cais José Estelita aos mais diversos setores da sociedade. Sem isso, muito provavelmente, as torres já estariam de pé.

A sentença do juiz Roberto Wanderley Nogueira não apenas determina a restituição daquele patrimônio à União – por considerar que o leilão foi realizado indevidamente –, como anula a aprovação do projeto nos órgãos municipais, por entender que diversas exigências e condicionalidades não foram cumpridas. De acordo com o juiz, “não pode o coração da primeira República das Américas, filha do Recife e de Olinda, quedar subjugado à sanha patrimonialista da especulação imobiliária dos tempos contemporâneos. Há muito mais de valor histórico, paisagístico, ambiental, social e político a proteger que as economias, sempre sequiosas, dos afortunados de momento, não raro consorciados a setores do Poder Público.”

Este trecho da sentença chama a atenção para uma questão extremamente atual para o nosso país, que diz respeito à forma como são tomadas as decisões sobre o uso do patrimônio público e o destino das nossas cidades. O Estelita não é o único caso em que importantes terras públicas foram passadas para o mercado por meio de leilões ou licitações “pra inglês ver”, já que, na maioria das vezes, os resultados são definidos previamente. São procedimentos que a sociedade hoje questiona, cobrando transparência, diálogo e efetiva participação nas decisões sobre os rumos de pedaços importantes do nosso território.

A sentença é de primeira instância, portanto, o mais provável é que se inicie agora uma guerra judicial, já que o consórcio deve recorrer da sentença. Uma das preocupações é garantir que, no vaivém de recursos, nenhuma obra possa ser iniciada antes que a questão esteja definitivamente resolvida pela Justiça. Se isso não acontecer, o Recife verá se repetir a novela das chamadas Torres Gêmeas – duas megatorres residenciais de alto padrão (da mesma construtora, Moura Dubeux), também no centro histórico da cidade, cujo leilão chegou a ser anulado pela Justiça, mas sem nenhum resultado, pois o empreendimento já havia sido concluído e comercializado.

Por fim, é necessário reafirmar a importância de que se abra uma ampla discussão pública, participativa e transparente sobre o futuro daquela área, que permita traçar diretrizes e formular um projeto democrático, includente, que atenda às necessidades da população, respeitando a paisagem, sua história e sua cultura. A vitória não será definitiva enquanto a área permanecer em ruínas. Este é agora o maior desafio: Recife e o Movimento Ocupe Estelita podem entrar para a história com um projeto de reconquista da cidade, construído e implementado com participação pra valer.
Fonte: Outras Palavras

Ocupando a futuridade



[Fotograma do Do filme “OCUPAÇÃO” (2015), dirigido por Giovanni Alves.]

Por Giovanni Alves.

O movimento de ocupação das escolas públicas do Estado de São Paulo pelos estudantes secundaristas que lutam contra o projeto de reorganização e fechamento de escolas do governo Geraldo Alckmin pode ser considerado o movimento social de maior expressão político-simbólica no Brasil de hoje. Foi um sopro de esperança no Brasil – e principalmente no Estado d São Paulo – assolado pela estupidez da classe média liberal e mediocridade politica e sindical incapaz de canalizar as energias dos movimentos sociais das camadas médias assalariadas indignada e da classe operária insatisfeita numa perspectiva de mudanças social efetiva para além do politicismo vigente. O movimento social da juventude insurgente contém um significado radical: a re-apropriação democrático-radical do espaço escolar. Indo além de sua imediaticidade política, o movimento de ocupação das escolas públicas pelos estudantes secundaristas é efetivamente uma crítica radical dos protocolos estranhados da gestão escolar em suas múltiplas dimensões. A moçada insurgente quer uma nova escola pública que deixer de ser um sistema burocrático e ideológico insensível às demandas dos sujeitos-produtores do processo de ensino-aprendizagem – não apenas professores, mas servidores administrativos e estudantes secundaristas.

O pólo protagonico de luta contra a política de educação pública dos governos do PSDB tem sido historicamente os professores que lutam há décadas por dignidade salarial. Inclusive em 2015 a APEOESP conduziu uma greve de 100 dias reivindicando principalmnte melhores salários e mudança na precarização contratual do professores do Estado de São Pauo. O governo Alckmin se manteve impassível rejeitando a negociação coletiva com a entidade sindical que representa os docentes do ensino público. Não é novidade que a precarização do trabalho docente nas escolas públicas do Estado de São Paulo assumiu hoje dimensões catastróficas. A profissão de professor tornou-se um sina danada pela falta de perspectivas salariais e reconhecimento social e profissional. É claro que não se trata apenas da realidade do Estado mais rico do País – o que é um contrasenso, mas trata-se de uma política nacional de desprezo pela valorização salarial e profissional dos professores no Brasil. Não iremos tratar neste artigo da miséria do trabalho docente das escolas públicas no Brasil. Degrada-se o trabalho de educação de crianças e adolescentes, esteios da futuridade do Paìs. A crise da educação em sua dimensão pública é uma forma crucial da alienação do capital em seu patamar histórico de crise estrutural, expressando em s e ara si, a desvalorização da atividade social, humana e profissional, do professor de educação pública, o produtor da educação entre crianças e filhos adolescentes das famílias das camadas médias baixas e camadas populares da sociedade brasileira, o verdadeiro esteio da barbárie social que avança nas condições do capitalismo catastrófico no Brasil. É um tema candente cuja solução política eencontra-se distante principalmente no cenário de crise orçamentária dos Estados brasieiros.

Entretanto, em 2015, diante do projeto de reorganização escolar do governo Alckmin, surgiu de modo imprevisivel, um novo sujeito protagonico de luta social contra a degradação da educação pública. Provavelmente nem o governo Alckmin, nem a própria APEOESP, a entidade sindical dos professores, acrediatavam que os estudantes secundaristas rebeldes assumiriam com a estratégia de ocupação das escola pública do Estado de São Paulo, o protagnismo contra o projeto de reorganização escolar do governo do PSDB – intitulado eufemisticamente de “reforma dos ciclos”. Por trás da “reforma dos ciclos” temos o fechamento de escolas públicas, o amento de alunos em salas de aula – degradando, deste modo, mais ainda o processo de ensino-aprendizagem – e a constituição de um modo de organização escolar como ante-ala da terceirização da gestão escolar (como ocorreu nos Estados de Goias e ará, administradões politicas do PSDB). Enfim, a uurpação da coisa pública pela lógica privatista.

Poderiamos dizer que os estudantes secundaristas que ocuparam o território das escolas públicas, conseguiram elaborar, em si, uma crítica radical da escola pública tal como existe hoje, indo além das demandas econômico-corporativas do movimento sindical de professores. O sindicalismo dos professores nunca conseguiu efetivamente elaborar na prática sindical, uma crítica da gestão escolar autocrática na escola e na sala de aula. A crítica dos conteúdos curriculares sem sentido que contribuem para que o desinteresse pelo processo de ensino-aprendizagem nunca assumiu um carater sistematico capaz de mobilizar o conjunto de professores, muitos deles imbuidos da cultura de autoritarismo que caracterzou as relações sociais nas instituições disciplinares como a escola pública. Talvez muitos professores e funcionários das escolas não tenham a perspectiva da dimensão política e histórica radical do ato de rebeldia dos meninos e meninas que decidiram ocupar aquilo que estava efetvamente alienado deles – não apenas o espaço escolar em si, mas o próprio sentido da educação e do espaço coletivo da escola pública degradado pela lógica neoliberal (a violência endêmica nas salas de aula de alunos contra porfessores, çor exemplo, representa uma escola pública cerceada pela lógica alienado do capital).

De certo modo, a ocupação organizada e auto-gerida das escolas públicas pelos coletivos de estudantes secundaristas conseguiu, nesse pouco tempo de movimento social, crescer, cativar a sociedade paulista e ir além, no plano do imaginário da juventude rebelde mais avançada politicamente, das demandas político-corporativas da mera luta contra a reorganização escolar do governo Alckminn. É isto que as midias hegemonicas querem – reduzir o movimento de ocupação estudantil a luta contra a reestruturação escolar do governo do PSDB. Após o recuo do governador Alckmin, revogando o decreto-lei da reorganização escolar, os poderes constituidos do Estado burguês, querem que as escolas públicas sejam desocupadas e que tudo volte a ser como antes. Entretanto, por um curto lapso de tempo histórico, reconfigurou-se o espaço escolar nas escolas públicas ocupadas. Percebeu-se que uma nova escola pública é possivel. A escola ocupada tornou-se não mais um aparelho burocrático de ensino-aprendizagem ou aparelho ideológico do Estado propriamente dito (como diria Louis Althusser). De repente, os estudantes secundaristas tornaram-se produtores associados da educação como formação humana, elabrando pautas de atividades culturais e parecrias com a comunidade local e a sociedade capazes de dar sentido pleno à atividade educacional.

Na verdade, o ato da ocupação no sentido territorial – um espaço como relação de poder – significou a afirmação da democracia direta dos estudantes secundaristas que participam da ocupação num primeiro momento, contra a lógica tecnocrática de reorganização das escolas públicas sem promover a discussão pública ampla e irrestrita com a sociedade civil organzadas do Estado de São Paulo, principalmete APEOESP e entdades de representação estudantil. Por trás da lógica tecnocrática existem interesses ocultos e escusos que movem a intencionalidade política do governador Geraldo Alckminn. Como não poderia deixar de ser assim, governos de direita odeiam a discussão democrática e a consulta popular, adotando práticas autocráticas de administração da coisa pública à margem dos produtores sociais, como ocorria, por exemplo, na ditadura civil-militar. Na verdade, o Estado brasileiro de cariz neoliberal apesar do fim da ditadura civil-militar preserva a cultura autocratica da gestão da coisa pública persistem que convive ao lado de seus aparelhos de repressão, como a Policia Militar. Enfim, ocupar o território da coisa pública tornou-se o ato supremo de afirmação da democratização da res pública. No fundo, reside um carecimento radical que se manifesta com vigor na juventude proletária: o anseio de re-apropriar-se dos espaços de vida alienada pela pseudo-concreticidade da vida cotidiana.

Como movimento social lastreado numa espontaneidade indignada e rebelde, característico da juventude na flor da idade, o ato de ocupação organizado possui múltiplas significações. Como salientamos acima, a intencionalidade direta é barrar o projeto de reorganização escolar do governo Alckminn. Mas para além do ato politico-corporativo, o processo de ocupação estudantil possui um significado imanente de crítica da estrutura escolar pública com sua gestão autocrática por parte de dirigentes de escolas e inclusive, professores e funcionários públicos insensiveis à cultura libertária. Como podemos apreender no video-documentário “Ocupação”, de Giovanni Alves (Projeto CineTrabalho/Práxis vídeo, 2015), o espaço de autonomia constituido pelos estudantes secundaristas que ocuparam de forma organizada e auto-gerida as escolas públicas, fez aflorar carecimentos radicais para além da mera demanda político-corporativa de impedir a reestruturação escolar do governo do PSDB. Na verdade, a ocupação tornou-se um espaço de aprendizagem político-radical da cidadnia ativa, resgate inestimável dos valores fundantes e fundamentais para a formação da consciência de classe: autonomia, solidariedade e união. Aboliu-se num lapso de tempo histírico, a alienaçao escolar que os educava para a subalternidade proletária. A experiencia coletiva da ocupação educa-os – ou cria a possibilidade de educação – para os valores da luta e resistência do precariado em formação. A ocupação está sendo para os estudantes secundaristas rebeldes, muitos deles originariamente não envolvidos com o movimento estudantil, a aula de política mais importante do resto da vida deles. Esta juventude secundarista, de origem proletária, representa o que podriamos denominar de precariado seminal, o precariado em formação, que incorpora e expressa na sua espontaneidade juvenil, aquilo que Karl Marx considerou fundamental na classe social do proletariado: a Selbsttätigkeit, movimento espontâneo e autônomo do proletariado, isto é, a auto-atividade histórica do proletariado.

Deste modo, com a ocupação da escola pública eles vivem a experiencia da nova sociabilidade democraica radical. Um espaço de autonomia inédito que explicita os sonhos imanentes da emancipação social. Energias utópicas restritas à espontaneidade e temporalidade cnstrangedora do tempo histórco social manifestam-se de modo bruto. Por um lapso de tempo histórico rompe-se com a vida alienada do cotidiano burguês (familia, escola, lazer). Pelos depoimentos vistos no documentário “Ocupação”, critica-se na prática, as instâncias repressivas da vida burguesa – não apenas o governo Alckminn, parte compositivas do Estado neoliberal no Brasil, mas também a gestão escolar autocrática de dirigentes e professores das escolas públicas e inclusive, os conteúdos escolares sem sentido para a juventude do século XXI. Crítica-se também a família repressiva, com alguns pais, seduzidos pela mídia neoliberal hegemônica, proibindo filhos de participarem do movimento de ocupação escolar e desqualificando o próprio valor da ação política. Nesse caso, o conflito geracional que permeia as familias expõe a dialética da vida onde os jovens educam efetivamente os mais velhos.

Finalmente, os estudantes secundaristas que participam das ocupações estudantis se auto-criticam como pessoas humanas, contestando não apenas a dominação política do capital e as práticas de exploração do trabalho que contaminam os loci escolares, mas. Por exemplo, a sociabilidade de opressão de gênero. A alteridade do outro é reconhecida e abomina-se as práticas discriminatórias e preconceituosas. O outro-como-concorrente interverte-se em outro-como-próximo. Um detalhe: o protagonismo das mulheres no movimento de ocupação estudantil das escolas públicas é flagrante. Na verdade, no seio do movimento estudantil que ocupa as escolas públicas contesta-se radicalmente o machismo como forma de autocracia sociometabolico do capial. Na verdade, o coletivo das ocupações estudantis anseia – como utopia social – uma sociabilidade humana de novo tipo para além da miséria brasileira. Trata-se de uma tarefa árdua de crítica biopolítica da vida cotidiana. Infelizemnte, não é dentro dos limites do movimento de ocupação escolar que ocorre nas escolas públicas do stado de São Paulo que se efetivará a mudança social necessária se afirmar a utopia da nova socialibilidade libertária.

Enfim, o precariado seminal constituído pelos estudantes secundaristas que ocupam as escolas públicas expõem de modo dilacerante as contradições radicais do capitalismo global. Contestam a função ideológica da escola pública como instância de formação e reprodução das relações de exploração da força de trabalho. A escola capitalista é uma pequena fábrica onde se cultiva a disciplina e o assujeitamento de classe. Os estudantes são pequenos operários submetidos aos rudimentos de relações sociais de exploração. Eles são trabalhadores assalariados em formação, isto é, individualidades pessoais de classe que compõem o precariado do amanhã – o precariado seminal. Na medida em que aprendem a rebelar-se, re-apropriam-se da humanidade que está sendo alienado de si – ou melhor, ocupam a futuridade que está lhes sendo roubada. Na verdade, abre-se uma fratura na subjetividade burguesa hegemonica, sendo, deste modo, o movimento de ocupação dos espaços públicos pelos próprios cidadãos proletários, um elemento compositivo daquilo que John Holloway denomina de fissurar o capitalismo (provcar fissuras na estrutura de poder do capital). Talvez o velho Herbert Marcuse – e mesmo Ernst Bloch – tenham conseguido vislumbrar, na década de 1960, caracterizada pelas manifestações estudantis nos EUA e Europa Ocidental, a pulsão proletária – no sentido deSelbsttätigkeit, – da juventude rebelde. Os “trinta anos perversos” do capitalismo global (1980-2010) procurou enquadrar e manipular a juventude proletária, castrando seus sonhos concretos de contestação social, reduzindo-os aos sonhos, valores e expectativas de mercado. Entretanto, a crise do capitalismo neoliberal abriu fraturas na subjetividade reificado do precariado – a juventude altamente escolarizada inserida em condições de trabalho e vida precária. Aliás, o fenômeno do precariado indicou a irrupção de carecimentos radicais incapazes de serem efetivados pelo capitalismo catastrófico – capitalismo neoliberal na etapa de crise estrutural do capital.

Portanto, o elemento essencial da estratégia de ocupação de espaços públicos pelos cidadãos proletários – como ocorre hoje com a ocupação estudantil das escolas públicas no Estado de São Paulo – é o sentido de re-apropriação da coisa pública alienada. Na verdade, trata-se efetivamente de luta contra a alienação n sentido radical. O público torna-se o coletivo auto-gerido. Diríamos mais – hoje, mais do que nunca, a estratégia de ocupação organizada e auto-gerida dos territórios públicos, torna-se a principal estratégia de luta contra a degradação das instâncias de produção de valores civilizatórios que caracteriza o capitalismo global no século XXI.

Na medida em que a prática da ocupação de espaços públicos pelos próprios cidadãos e produtores sociais cria, amplia e envolve a comunidade local e a sociedade em particular, buscando apoio em outras instâncias associativas e sindicais e organizações da sociedade civil, ela cria um fato político hegemonico capaz de conter a degradação dos espaços de produção dos valores civilizatórios. Torna-se um elemento fundante de socialização da política radical e construção da hegemonia social e cultural. De repente, ocupa-se não apenas escolas públicas, mas também, por exemplo, hospitais públicos, terras públicas, etc. A re-apropriacao da coisa pública na era da sociedade neoliberal torna-se um ato de cidadania ativa e momento de formação da consciência de classe necessária, pois o que presenciamos com as ocupações é uma forma complexa de luta de classes que caracteriza hoje a sociedade brasileira, exigindo, sob pena de colapsar sob seus próprios limites estruturais, expandir-se para a processualidade política social e democrático-institucional capaz de transformar – no sentido de sua extinção – o próprio Estado político do capital.

Enfim, a estratégia política de ocupar como modo de fissurar a reificação capitalista é a estratégia essencial de luta não apenas contra a degradação da coisa pública – e inclusive do fundo público, que direciona cada vez recursos do orçamento público para interesses do capital – mas de luta contra a degradação da pessoa humana-que-trabalha, buscando resgatar as individualidades pessoais do estranhamento social que as dilacera.

O capital hoje é uma máquina de dilacerar a subjetividade, a sociabilidade e a individualidade das pessoas humanas que trabalham. A prática social de reapropriacao coletiva e auto-gerida da coisa pública é uma prática de luta contra a “captura” da subjetividade; de resgate da alteridade do Outro-como-proximo contra o mundo social do individualismo possessivo, concorrência e machismo; e também reapropriacao dos valores culturais das objetivações civilizatórias alienados pela máquina de imbecilização cultural e miséria espiritual da indústria cultural burguesa. Enfim, a estratégia de ocupação dos espaços públicos – mesmo na sua dimensão contingente – é um aviso de alerta que precisamos resgatar (e ocupar) com urgência, a futuridade condenada pela barbárie social e o extermínio civilizatório do capital.

Finalmente, é importante salientar que a ocupação organizada e auto-gerida pelos estudantes secundaristas é um acontecimento transcotidiano, isto é, um lapso radical, luminoso e diruptivo, que fratura a pseudo-concreticudade da vida escolar cotidiana. Entretanto, posui limites estruturais candentes – principalmente numa conjuntura de reação histórica do capital. Caso não se altere a correlação política das forças sociais no Brasil e não se extinga efetivamente o Estado capitalista neoliberal – o que obviamente improvável nas condições históricas do Brasil hoje, tendo em vista a hegemonia burguesa no País –, o ato de ocupação como prática de luta e contestação social, não se tornará efetivamente sustentável no sentido de instaurar uma nova materialidade social. Ao invés do delírio esquerdista de lideranças da extrema-esquerda que incitam as ocupações, não vivemos numa conjuntura revolucionária como por exemplo, a Rússia de 1917 ou o Chile de 1972. A experiência das ocupações estudantis é um delicada flor da utopia social do precariado seminal, um aviso de alerta para as forças sociais demcráticas, ppulares e socialistas que almejam mudar a sociedade brasileira. Entretanto, o valor da ocupação estudantil das escolas públicas reside na sua própria dinâmica contingente de reconfigurar as subjetivudades do precariado seminal.

A experiência do precariado seminal, o precariado em formação, é a experiência social de resgatar a futuridade alienada. Os estudantes secundaristas serão o precariado do amanhã. Talvez seja importante refletirmos sobre a luta candente do precariado contra a futuridade alienada. Por isso, o que o precariado seminal expõe com a ocupação da coisa pública é a luta pela futuridade no sistema do capital que consome o futuro. Luta pela democracia radical, luta pelo fundo público e luta contra a degradação da pessoa humana. Estes são os indícios radicias do movimento social contingente da ocupação estudantil das escolas públicas do stado de São Paulo que assistimos em 2015. No fundo, é uma reação contingente à lógica neoliberal que impulsiona o capital como contradição viva. Na ótica liberal, não existe nada para além do capitalismo e sua lógica do mercado, a não ser o próprio capital em sua forma arcaica (as experiências pós-capitalistas do século XX). No princípio, era o homem burguês – eis o que diz o livro dos “Genesis” do capital. Esta é a perspectiva epistemológica e moral da economia política tão criticada por Marx. A presentificação histórica do capitalismo tal como operava a economia politica é a versão clássica (e elegante) da presentificação crônica que entorpece o precariato sob o capitalismo manipulatório. Como observou o filósofo Henri Bérgson no começo do século XX, “nós praticamente só percebemos o passado”, com o “presente puro sendo o avanço invisível do passado consumindo o futuro”. O que significa que o “presente puro” não existe; ele é apenas “o passado consumindo o futuro”. O que Bergson descreve, sem o saber, é a ontologia da temporalidade do capital, onde o passado, com sua inércia amortecedora, domina o presente, eliminando as chances de uma ordem futura qualitativamente diferente. Na verdade, para I. Mészáros a temporalidade do capital é uma “temporalidade decapitada”, isto é, temporalidade restauradora, “a paralisante temporalidade restauradora do capital”, tendente a construir um “futuro” como uma espécie de versão do status quo ante. Deste modo, a temporalidade do capital que hoje se afirma não é uma temporalidade aberta, mas sim uma temporalidade fechada que não liga o presente a um futuro de verdade que já se abre à frente.

No caso dos “precários”, eles tem a percepção clara da temporalidade fechada do capital, percepção estranhada de perda do futuro que os projeta, no plano da contingencia, na “presentificação crônica” do metabolismo social do capital. Ideologicamente, na sua consciência contingente, incorporam a presentificação histórica do capitalismo posta pela consciência liberal. Na verdade, a consciência liberal só traduz, no plano ideológico, o modo de ser da “paralisante temporalidade restauradora do capital”.

Nas condições do poder da ideologia e da constituição da “multidão” do precariado, coloca-se hoje, mais do que nunca, a necessidade radical da luta ideológica que, num mundo social do trabalho precário, torna-se mais candente tendo em vista a exacerbação da manipulação como modo de afirmação do capital como sociometabolismo estranhado. A ansiedade perante o futuro não se trata apenas de um problema social (vínculos laborais precários, baixos salários, falta de direitos laborais), mas sim, trata-se de um problema existencial que corrói a individualidade pessoal. Na verdade, a precariedade interdita a vida pessoal do sujeito de classe. É a alienação/estranhamento na sua dimensão radical.

Para a camada social do precariado, trabalhadores jovens-adultos altamente escolarizados que não conseguem se inserir na cidadania salarial construída pelo Estado de Bem-estar social, o principal problema da precariedade é “esse futuro que nos estão a tirar”. Esta percepção de futuro hipotecado é um traço recorrente no discurso de indignação de jovens adultos-adultos que construíram sua individualidade pessoal de classe baseada na perspectiva da carreira e perspectiva de consumo. Educação, emprego/carreira e consumo foi a implicação subjetiva da juventude construída pelo capitalismo europeu de bem-estar social e reproduzida nas últimas décadas pelo discurso social-democrata.

Na verdade, o capitalismo manipulatório que se constituiu nos “trinta anos perversos” se baseou na seguinte implicação paradoxal:

Por um lado, o discurso de compatilização entre capitalismo liberal, democracia representativa e Estado de bem-estar social. Construiu-se, a partir daí, a utopia educacional da juventude baseada na idéia do capital humano onde a alta escolaridade seria o lastro do emprego-padrão por tempo indeterminado, perspectiva de carreira profissional e o ethos do consumismo. É o ideal da boa vida no interior da ordem burguesa, onde se renuncia a utopia da emancipação social pela utopia dos pequenos sonhos individuais de carreira e consumo. A cultura neoliberal disseminou nos “trinta anos perversos” de capitalismo global os valores-fetiche do individualismo possessivo. Esta perspectiva ideológica do capitalismo mais desenvolvido, envolveu em sua larga maioria, a “classe média” assalariada, lastro político dos partidos socialistas e sociais-democratas.

Por outro lado, ao lado do discurso ideológico social-democrata, a partir da década de 1980, ocorreu, sob pressão da acumulação capitalista predominantemente financeirizada, a corrosão persistente do Estado-Providência. Desde a década de 1980, no núcleo orgânico do capitalismo global (EUA e União Europeia), governos conservadores e neoliberais (e inclusive, governos socialistas e sociais-democratas) passaram a adotar políticas de cariz neoliberal que contribuíram para a corrosão do Estado social.

De modo lento e persistente, amplia-se a mancha de precariedade laboral sob a vigencia da flexibilidade laboral. Instaurou-se a era da precarização estrutural do trabalho, com a disseminação de várias modalidades do trabalho precário ao lado do desemprego de massa que atinge principalmente a juventude trabalhadora europeia. Nos “trinta anos perversos” de crises financeiras persistentes do capitalismo global, aprofundou-se, principalmente entre a geração nascida na década de 1980 e que na década de 2000 busca realizar seu sonho de cidadania salarial, a frustração com as promessas sociais-democratas.

Entretanto, a implicação paradoxal do capitalismo social-democrata agudizou-se na mesma medida em que aumentou a capacidade de manipulação ideológica e ilusionismo político da ordem burguesa hipertardia. Na era de precarização estrutural do trabalho, as jovens gerações de proletários de “classe média” que constituem o precariado, vivem sob o fogo cruzado do capitalismo manipulatório.

No plano da consciência de classe contingente, expõe-se a carência de futuridade Torna-se cada vez mais claro na percepção da consciência de classe contingente que o capitalismo global hipotecou o futuro de jovens-adultos que cumpriram tudo aquilo que a ordem burguesa receitou para obterem o sucesso, mas não encontraram um “lugar ao sol”, com a incapacidade do próprio sistema inclui-los como força de trabalho produtiva. Na verdade, a carência de futuridade do precariado é a projeção no plano da consciência de classe contingente, da carência do comunismo posto hoje, mais do que nunca, como necessidade histórica civilizacional.

No livro Para além do capital, István Meszários, um dos críticos radicais da perspectiva ideologia social-democrata, observou o seguinte: “A inalterável temporalidade histórica do capital é a posteriori e retrospectiva. Não pode haver futuro num sentido significativo da expressão, pois o único ´futuro´ admissível já chegou, na forma dos parâmetros existentes da ordem estabelecida bem antes de ser levantada a questão sobre ‘o que deve ser feito'”. Portanto, é sob as condições da crise estrutural do capital que se explicita com vigor um dos traços candentes da ordem burguesa e uma particularidade radical da nossa época histórica que se distingue de outras épocas do capitalismo histórico: a interdição persistente da futuridade.

Quando o sistema do capital não consegue “incluir” em seus parâmetros sócio-reprodutivos, trabalhadores jovens-adultos altamente escolarizados de acordo com as prescrições e proscrições da ordem burguesa, há algo de podre no reino da Dinamarca. O espectro do precariado, como o espectro de Hamlet, é expressão do apodrecimento da ordem burguesa.

Finalmente, podemos nos interrogar: o que acontecerá com a escola pública no Estado de São Paulo após a dissolução das ocupações estudantis? Ela será a mesma escola pública que existia antes do movimento contra a reorganização escolar do Alckminn? Como serão recompostas (ou não) relações sociais autocráticas e repressivas no interior do espaço escolar público? Esta é uma interessante questão a ser investigada sociologicamente. Mais uma vez a sociedade brasileira nos surpreende em 2015 com a irrupção do precariado seminal no seio do baluarte neoliberal e pólo histórico de reação política do País: o Estado de São Paulo.

Fonte:Blog da BoiTempo