Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade
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quinta-feira, 2 de abril de 2020

O Ouriço-cacheiro do Norte




Dona Pandá abriu seu celular e a primeira notícia que viu a fez dizer um palavrão.  Achando pouco expressivo, sentou-se e ficou pensativa, entrei na sala e a vi com uma cara tão estranha que me assustou.

- O que foi, Dona Pandá?

- Estou procurando um palavrão que me ajude a botar pra fora e a dar a dimensão da minha perplexidade diante da notícia que acabo de ler. Não consigo. Nada é de acordo. Nada é suficiente.

- O que é? Que notícia a deixou tão perturbada?

- Não sou assinante do Estadão, mas um amigo, indignado, me passou o link  da matéria, cujo  título é “Trump despacha força naval para a Venezuela”. O filho de uma égua (Ai, dona égua, me desculpe, é que não sei que epíteto colocar no cara, daí escapou, mas sei que tanto a senhora, como seu filho são muito superiores a ele) pensa que o mundo é seu quintal. Veja a notícia!

Dona Pandá estava mesmo transtornada! Achei melhor desconversar: - O sr. Melquior lhe mandou a muda da pimenta ... – Dona Pandá me interrompeu

- Pimenta! Alguém deveria reunir uma turma e passar pimenta malagueta nos olhos do cara, não só nos olhos, mas também lá embaixo, pra não deixar o maldito sentar. Imagina o bicho... Ah! Descobri o nome perfeito para ele: ouriço-cacheiro. Basta chegar perto para ser arrasado com seus espinhos que entram e para sair é fogo. É isto mesmo. Acertei. Veja como o Houaiss define o ouriço-cacheiro:

 “design. comum a diversos pequenos mamíferos da fam. dos erinaceídeos, da ordem dos insetívoros, encontrados na Europa, África e Ásia, com o dorso coberto por espinhos curtos e lisos e as partes inferiores por pelos; ouriço-cacheiro [Podem-se enrolar formando uma bola, o que lhes garante proteção contra predadores.]” Temos que corrigir:  também é encontrado no Continente Americano.
E a definição de cacheiro complementa:
“que ou o que dissimula ou engana, ou é ardiloso, astuto”

Então, estamos combinados – continuou exaltada Dona Pandá - o fulano do Norte é o ouriço-cacheiro mor. Apesar de este bicho ser também superior àquele a quem estou assim denominando, ao bicho não vou pedir desculpas – como fiz com a dona égua - porque tenho minhas múltiplas quizilas com os torturadores dos meus cachorros.

Preocupada com a saúde de minha amiga, pedi que ela se acalmasse, mas Dona Pandá estava de fato muito encolerizada e continuou bradando aos ventos já que não havia uma multidão para ela demonstrar sua putice.

- O ouriço-cacheiro do Norte quer dominar o mundo. Tem as suas preferências e prioridades: aqueles países, onde as riquezas - petróleo é a prioridade máxima – estão lá para serem levadas por ele, é claro. Os países ativos e altivos são seu prato principal. Não tem pudor nenhum em deixar claro seus interesses. Para se apoderar das riquezas alheias usa os instrumentos que estiverem ao alcance. Se não estiverem, ele paga para ficarem. Neste caminho, usa e abusa de sua crueldade e poder.

- Nossa! Dona Pandá, não está exagerando um pouco?

- Exagerando?! Cuba permanece sendo boicotada economicamente até deixar a Ilha em dificuldades. Ele é tão perverso que utiliza seu poderio para impedir até que os médicos cubanos ajudem os países que estão precisando urgentemente desses profissionais, reconhecidamente os melhores. Com o Brasil, seu país foi mais sofisticado. Treinou juiz e procuradores para impedir que partidos progressistas voltassem ao poder. Estes partidos têm a independência nacional como valor a ser defendido, então não servem.

- A senhora está se referindo ao Moro e à equipe da Lava Jato?

- É claro! Todo o pessoal foi bem dirigido. Aí entraram a parte didática e a remuneração implícita. Tudo que levou àquela famosa frase do Jucá:”com Supremo, com tudo”. O impedimento da honesta presidenta, a prisão do Lula, num processo vergonhosamente equivocado na forma e no conteúdo.

- Dona Pandá, se o Haddad tivesse ganho as eleições ... – Nem consegui completar a frase, Dona Pandá quase cai da cadeira com o pulo que deu. Pensei que fosse me agredir.  Era o gato que passava entre seus pés e ela quis pegá-lo.  Ai, ainda bem.

- Pois aí está outra do Norte. Seu dinheiro comprou nova modalidade de fraude nas eleições, a digital, o uso descarado de robôs, algoritmos e outras falcatruas. Fizeram ser eleito o cara que lambe as botas do ouriço-cacheiro e desavergonhosamente o obedece. Entrega nossas riquezas e promove o sofrimento dos brasileiros.  Esse cretino tem seguidores, os brasileiros que o elegeram e que têm os mesmos valores, pois viram o Bozonero dizer que é a favor da tortura.

- Dona Pandá quer um chá de camomila com melissa?

- Quero.


sexta-feira, 27 de março de 2020

O envelhecer e a resistência





Envelhecer não é um bicho de sete cabeças. Certo. Deve ser de 14. É a mesma estória de dizer que a menopausa é apenas uma fase na vida da mulher. Sei. Tenho quase 77 anos, portanto, conheço os dois bichinhos.

Na menopausa, tive que ouvir o médico alopata dizer que todos os desconfortos, dos quais me queixei, eram normais e não apresentavam um cronograma confiável de finalização. Corri para minha bruxinha querida, a médica homeopata. Ela, que me conheceu antes da minha gravidez, desmentiu oralmente e na prática tudo o que seu colega afirmou. Passou-me três tinturas – sálvia, agoniada e romã - que deveria tomar alternando. Quase imediatamente senti seus efeitos e meus desconfortos diminuíram 95%.  Entretanto, o período mexe com a cabeça da mulher e se não tiver um apoio sábio, poderá se machucar. Seu corpo sofre as transformações e começa algumas dificuldades.

Uma das maiores de dificuldades é o preconceito das pessoas em relação à idosa (acho que com o homem, como sempre, a coisa é mais leve). A cabeça branca é o começo. Quando parei de trabalhar no tal mercado formal, deixei de pintar os cabelos e levei alguns sustos com as reações das pessoas. De um dia para o outro, começaram a me tratar como uma senhora. Nesse período, minhas pernas ainda bem torneadas e bronzeadas faziam contraste com a cabeça branca (no homem as têmporas grisalhas é o maior charme). O guarda me parou na estrada – eu estava a 60 km/h – dizendo que eu estava em alta velocidade para “a minha idade”, mas quando ele chegou perto o suficiente para olhar dentro da caminhonete e ver minhas pernas, seus olhos não conseguiam se decidir se afinal era uma velhinha ou uma mulher de pernas bonitas.  Neste aspecto, houve uma conquista da mulherada que exponencialmente está descobrindo a liberdade de não estragar suas madeixas com químicas.

Outro dia, uma jovem senhora me perguntou se eu ainda dirigia. Aí está outro preconceito. As pessoas determinam (pré concebem medidas) o que você ainda pode ou não fazer. Não sei porque razão há aí uma coincidência. As coisas que nos dão prazer são bem mais colocadas fora do ainda e as que são consideradas nossa obrigação estão colocadinhas dentro do ainda. Morar sozinha, dirigir, namorar, ir a lugares como bar e teatro, viajar estão fora, enquanto trabalhar, cuidar estão bem dentro. Há ocasiões em que, de fato, percebemos que já não damos conta ou não temos mais prazer naquela atividade, como, por exemplo, corridas ou alguns exercícios físicos. Neste caso, optamos, é óbvio, por não seguir em frente. É decisão de foro íntimo. Há uma enorme diferença entre o físico aparente – cabelos brancos, rugas e outras cositas mais feias – e a força, a disposição interior. Lembro-me de algumas vezes que diante do espelho me desconhecia. Fica, para mim, cada vez mais claro que a velhice só pode ser compreendida por quem está nela. 

Difícil, doloroso é ser mulher em tempos modernos arcaicos. Estamos em 2020 e grande parte do eleitorado elegeu um fulano que não conseguiu seguir as informações da atualidade, mas parou em algum século que ficou lá atrás. Esse cara, além de ignorante, não assimilou os valores da civilização moderna e continua com os da idade média. Está havendo mudanças complicadas de costumes. A mulher, o homossexual, o negro, o índio – o brasileiro puro -, o pobre, o trabalhador e todo diferente levam as bordoadas do ignorante, do retrogrado, do malvado. Ainda mais, o maléfico expõe sua visão, sua canalhice e é seguido por pessoas que lhe são semelhantes, pessoas que votaram em quem defende a tortura! Então, estamos num mundo que não reconhecemos como nosso.  Estamos em nossa casa, nosso país e nos sentimos cruelmente invadidos.

Para piorar a situação, nossas instituições, num primeiro momento, quiseram aderir àquele que se tornou a autoridade máxima e depois foram se assustando tanto que congelaram. Enquanto estavam paralisadas, o maligno e seus comparsas ganharam terreno e retiraram os direitos dos trabalhadores e, pela mudança dos costumes, aviltaram a mulher, o homossexual, o negro ... Seus seguidores lhe dão cobertura na disseminação de suas crueldades, cretinices e, sobretudo, mentiras
Ser mulher em tempo de bossonero é esquecer que cada geração tem sua tarefa, é buscar força para colocar a luta dentro do seu ainda. É tomar para si as batalhas que deveriam ser de outra geração. É dar sua experiente contribuição e chamar todas as gerações para a resistência.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Dona Pandá vai ao Recanto dos Pássaros



                                        São Gonçalo ”tem tudo, é outra civilização,”                                                                                                    tem até o professor Marcos Guião.   
                      

Dona Pandá recebeu, de sua irmã Mila, o convite para um curso sobre ervas medicinais.  Aceitou na hora e, logo, foi procurar onde fica Bom Despacho. Não é longe de Belo Horizonte. Decidiram ir na sexta feira e retornar na segunda para mais tranquilidade. O curso seria sábado e domingo.
Dona Pandá saiu pela manhã, em direção à Lagoa Santa, onde deixou o Valente – seu Celta – e pegou o Renê – o Renegade da Mila -. Dona Pandá gosta muito de pegar estrada, mas fica implicando com o belo Renê que tem, segundo a implicante, o grave defeito de lhe tirar a emoção de dirigir, pois faz tudo sem sequer pedir seu consentimento, rouba-lhe o direito de prolongar a marcha, até de ligar o rádio! Mila é muito eficiente em seu papel de co-piloto, comanda direitinho o Waze. Dona Pandá foi obedecendo aos comandos de em 200m entra a primeira à esquerda (ou à direita), mas logo já estava reclamando:
- Essa dona Waze fica repetindo o mesmo comando. Atrapalha a gente, já falou duas vezes para, em 300 m, entra à direita.

Antes de sair para a estrada, foram pegar, em Belô, a amável caronista que tem um jeito seu de passar o endereço, é pródiga em pontos de referência, mas não gosta de números.  Conhecemos, então, a colega do grupo Vânia, ótima companhia, bem humorada, atenta e sábia no tamanho das conversas, além, é claro, de ser também amante das plantas.

Chegando a Bom Despacho, as três mosqueteiras encontraram, na praça, o Gentil Homem Robson que as conduziu ao seu sítio, local onde aconteceria o curso. Sobre a porteira de entrada, a placa é um aviso: Recanto dos Pássaros. O objetivo dessa rápida visita ao sítio era apenas para que, no dia seguinte, soubessem chegar, sem desculpas, no horário certo da primeira aula.

Voltando à cidade, Vânia se hospedou na casa de uma residente de Bom Despacho, enquanto Mila e Dona Pandá foram para o hotel,  reservado pelo Gentil Homem. Dona Pandá teve alguns instantes de indecisão, pois durante o tempo que deveria ser de seu banho, não sabia se preferia a água pelando ou a fria que, ao cair sobre suas costas, apresentava uma temperatura próxima do gelo. 

Comeram uma pizza, no restaurante, em frente ao hotel. Dá para desculpar a falta de criatividade. Afinal estavam cansadinhas! Ou são mesmo preguiçosas? Bem, até o final desta estorinha, ficaremos sabendo.

No sábado, lá estavam as duas, às 9 horas, prontas para receber os conhecimentos que vieram buscar. Encontraram o pessoal ao redor da mesa de um apetitoso café da manhã: café adoçado e sem açúcar, chá, leite, frutas, pães e quitandas mineiras.

Depois de satisfazerem todas as gulas ali despertadas e já perdoadas, o grupo foi convidado ao trabalho. Robson - o organizador do curso, do café e muito mais, além de ser o feliz proprietário do Recanto dos Pássaros – apresentou o professor Marcos Guião. Este, já com seu equipamento a postos, avisou que iriam focar nas plantas ligadas ao sistema respiratório. Na tela, apresentou o desenho de um quadro que seria construído coletivamente. Pediu ajuda para a digitação em seu notebook de modo que o coletivo, com a orientação do professor, iria “ditando” e a visualização se daria pela tela. Mila assumiu o notebook. Iniciou-se a construção do quadro que foi fechado ao término dos trabalhos.

Falar do local é fácil. Lembrando do aviso da placa na entrada do sítio, percebe-se, a Mãe Natureza no comando, consequentemente, a boa energia se abre num abraço a seus visitantes. Logo, na entrada, algumas árvores protegem os carros e uma se destaca, chamando possíveis crianças para brincadeiras na areia cercada de pneus que amortecem a queda dos pequenos mais ousados nos balanços. 

A primeira construção é um galpão redondo, aberto, onde as cadeiras serão ocupadas pelos alunos voltados para a tela, o professor e, numa mesa, o notebook pilotado por Mila. Saindo do galpão-sala de aula, entra-se numa varanda que rodeia a casa. Neste espaço, sobressai gostosamente a mesa do café. Há uma porta que mostra a sala, cujo chão é uma belíssima composição de lajotas. Dona Pandá logo mostrou seu entusiasmo por aquela beleza, cujos créditos foram imediatamente dados à dona da casa:
- Minha mulher é arquiteta e gosta de criar – explicou Robson. – Não só gosta, mas tem talento para o belo. – Alguém completou.

Voltando à varanda e contornando a casa, passa-se por um fogão a lenha e, de lá, já se ouvem os bééés vindos do pequeno pasto, onde é o reino das ovelhas e carneiros. Robson bate palmas e os bééés se intensificam à espera do alimento que, normalmente, vem em seguida às palmas do dono.  Dava até para ouvir Elis Regina cantando... (“Quero carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim” ...)

Voltando à varanda, passa-se por um pomar generoso que convida a mais uma degustação e leva a um tanque com peixes de várias espécies. O tanque é forrado por uma manta plástica e Dona Pandá quis saber como é o modus operandi para copiar na sua Chácara Xury. O Gentil Homem ensinou e a estimulou, dizendo que é uma técnica bem fácil. Mais um conhecimento ganho para nossa amiga.

Depois dos peixes, os amigos das plantas foram chamados, novamente, ao trabalho. Na primeira etapa da aula, todos se apresentaram. Grande parte já conhecia o professor e também a outros membros que formam um grupo de discussão no whatzap. Trata-se de pessoas especiais, solidárias, convidadas pelo Gentil Homem para formar essa turma de gente do bem. Como disse Dona Pandá:
- Ora, gente que ama as plantas não precisa  de adjetivos, são filhos do Belo e da Bondade.

 O professor mora em São Gonçalo das Pedras de onde fala tanto e tão bem que desperta a vontade de por lá dar uma passada. Pensou em Melissa - ela é mel no nome, possui cobre que faz as ligações -, São Gonçalo tem; pensou em Malva – envolve, acolhe é o acolhimento -, São Gonçalo tem; pensou em Erva Baleeira – nome que vem da embarcação miúda, autoendireitável, salva-vidas -, São Gonçalo tem, mas tem também Mulungu – espinhenta, mal humorada. Ao longo da aula, Marcos Guião deixa as falas mostrarem sua sensibilidade no conhecimento das plantas. A flor é a sexualidade. A pessoa segue a planta quando se enfeita com cores – baton, ruge...- e perfume. A raiz é a parte da planta que pensa e as folhas fazem as trocas químicas. A planta é o homem na posição invertida. A raiz - a parte pensante da planta - fica embaixo, enquanto a cabeça do homem – tem a função, nem sempre exercida, de pensar – fica em cima.

  As plantas não saem do caminho, seguem a lei da Natureza. O homem que nem sempre trilha por onde deveria, sendo amigo das plantas, é levado de volta por elas ao bom caminho, o da Natureza, da cura. “Trabalhar com plantas é trabalhar com a esperança alheia”. A que Dona Pandá retruca: - Iniciante, trabalho com minha própria esperança, pois a ignorância não permite sugerir a alguém qualquer caminho -. Neste grupo, porém há muitos que têm conhecimento para tratar os desequilíbrios de outrem.

Encerrados os trabalhos, Mila e Dona Pandá retornaram ao hotel e ficam sabendo que o “rapaz não achou defeito no chuveiro”. Pediram, então, para trocar de apartamento. O calor de Bom Despacho continuava presente, mesmo com o abandono do Sol, exigindo, pois mudança de qualidade no chuveiro. Dona Pandá partiu para a guerrilha e depois de muito mexer, conseguiu dominar o equipamento, deu seu grito de vitória: o banho foi satisfatório.  Saíram para jantar e tomar ciência da cidade. Terminaram onde Dona Pandá gosta, numa sorveteria.

No dia seguinte, uma surpresa ao café da manhã, o Professor lá estava. A velha senhora aproveitou para lhe dizer que havia ficado feliz por conhecê-lo, uma pessoa bonita.

Durante a aula de domingo, último dia do curso - dia de Yemanjá – não tendo mar, Guião liderou uma visita às plantas maiores, no Serrado, além do Recanto dos Pássaros. Muitas plantas menores, no tamanho físico, também foram identificadas pelo professor e por alguns alunos sabidos.

Dona Pandá ganhou do colega de curso, Márcio, duas mudas de Erva Botão – já plantadas e esbanjando vida – e tinturas do Gentil Homem – estão sendo ingeridas e com bons efeitos.  A sortuda pede para lhes passar um recado: gratidão. Pede para estender o agradecimento a todos os filhos do Belo e da Bondade. 

Dona Pandá voltou de Bom Despacho, falando do que passou a ser sua fantasia predileta. Ir a São Gonçalo das Pedras para um curso do Guião e chegar até Diamantina. Na realidade, esta de ir a Diamantina é quase tão velha, quanto a dona do  sonho.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Crônica de sábado


(Roberto vai à Feira)

Roberto Regensteiner



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FEIRAS LIVRES são fonte inesgotável de riqueza humana. 
Veja as amostras colhidas hoje, na manhã deste sábado, 
dezoito de janeiro.

A caminho da Alameda Rio Claro encontro um ex-ministro da 
previdência de Lula! um velho conhecido de escola, colega de 
trabalho e agora vizinho de bairro. Me alegro. Nos saudamos. 
Pergunto se viu a recente entrevista de Lula na TVT, em que 
o ex-presidente menciona a questão da Previdência. Fico triste:
não tomou conhecimento. Nos despedimos depois de um 
ping-pong ritual que termina com ele dizendo: “Fica tranquilo 
que eu te ligo”.

Na primeira parada na feira busco a Musa Paradisiaca. Este o 
nome científico das bananas, não é lindo?  Entre as frutas, a 
minha diária predileta. O Márcio é fornecedor preferencial há 
muitos anos. Começou moleque vendendo nas feiras livres das 
Alagoas. Chegado a São Paulo virou comerciante. Junto com 
a Jessica e agregados formam família que luta diariamente nos
mercados. Tá sempre de bom-humor e mente alerta. Tem 
resposta para tudo. Se não tiver inventa uma engraçada. 
Adoça a boca dos clientes com bananas gostosas e os ouvidos
com tiradas engraçadas e respeitosas. Tira dos clientes o 
dinheiro de modo particular e inovador. No meu caso as 
bananas formam um degradê de maturação. Podem ser 
apreciadas aos poucos e a contento no decorrer da semana. 
Faz comigo o que faz com os outros. Para um só bananeiro 
ajunta na sua banca muita gente. Ainda mais se sabendo que 
tem outra banca de frutas ali na frente.
 Além de encontrar por ali ex-ministros, conheci pessoas 
interessantes, inclusive um simpático senhor, elegante, sempre 
com chapéu de palha, que compra frutas para os passarinhos de 
uma área pública do bairro que fica ali próxima, pertinho da nascente do Rio 
Saracura, uma sobrevivente desta urbanização maluca.

Hoje, conversando com o Márcio, sobre leitura, a propósito de 
textos difíceis, entrou na conversa o Hélio, lamentando a diminuição 
da quantidade de livros lidos em relação a tempos anteriores. 
Indaguei-lhe do tema de sua predileção. Sobre o Espiritismo 
me replicou. E contou coisas que me tocaram sobre os escritos 
de Alan Kardec que nos 1800s deu à luz a doutrina. “Espírito ou espíritos, 
no plural”, indaguei. No plural, respondeu. Cada ser tem seu 
espírito afirmou.” Muito bem”, disse eu “Isso é congruente com 
minha concepção de um continuum infinito de matéria pelo 
espaço-tempo” e, completou ele, com minha anuência: 
“em que há condensação da matéria”.
Prosseguiu dando-me dados históricos sobre a Doutrina 
nascida na França napoleônica. Soube que o Espiritismo 
reinterpretou os Evangelhos.  Mas, conforme diz o Hélio, 
apresentando sua convicção particular, trata-se de ciência e 
não de religião. Que bom que ele pensa assim. No terreno da 
ciência onde cabem todas as humanas dúvidas e os dogmas 
são questionáveis, poderemos nos entender. Noto que o 
Espiritismo nasceu no mesmo período histórico em que se 
desenvolve o materialismo histórico e dialético. Me faz lembrar 
de Friedrich Engels que, deixou escrita e inédita, a ideia de que 
“o pensamento é uma forma superior de matéria” (publicada 
post-mortem sob o título de Dialectica de la Naturaleza. E, ao 
fazê-lo deu substância à matéria espiritual.  O Espírito deixava 
de ser o vazio, o imaterial, o inatingível). 

Esta formulação, velha de mais de 100 anos, permanece atual.
É congruente com avanços no campo da fisiologia do cérebro, 
da neurociência, da física quântica e em outros, em que Matéria 
é constituída de variedade de partículas e elementos que se 
movem no espaço ao longo do tempo. A capacidade humana 
de perceber o mundo, antes limitada aos cinco sentidos 
imediatos, com aajuda de instrumentos, expandiu-se rumo ao 
macrocosmo e aos micro-organismos.

Me lembra a companheira que precisamos de ovos e me despeço 
do Hélio encerrando as divagações sobre quão distantes ou 
próximos estamos nós, os seres humanos, os espiritas, os 
materialistas dialéticos, os históricos, os confusos e os outros. 

Vou para a barraca do Augusto. Lá chegando, vejo como trata com
leveza um mal-entendido: um cliente pede desculpas por 
expressar-se de forma inadequada na presença da Dona Maria, 
mãe e parceira, que incessantemente trabalha na preparação dos 
galináceos e quitutes. Comento com ele o acontecido. Me dá um 
alegre sorriso, enquanto embala minha dúzia de quinze reais e faz
o troco: “Feira é lugar de gente alegre!... tem gente aborrecida, sim,
mas estes raramente voltam! “.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Celso Amorim sobre homenagem de Paris a Lula: a cidade-luz iluminou o reino das trevas

Celso Amorim sobre homenagem de Paris a Lula: a cidade-luz iluminou o reino das trevas: Ex-chanceler nos dois governos Lula, Celso Amorim comenta a notícia de que o ex-presidente foi agraciado com o título de Cidadão de Honra de Paris por seu compromisso de reduzir a desigualdade social e econômica no Brasil. Somente outras 17 pessoas receberam o mesmo reconhecimento na história

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Uma crise grave e sem saída à vista




João Pedro Stedile(1)

Com tantas contradições, solução será mais dolorida

O Brasil vive uma crise profunda. A estagnação da economia, decorrente da dependência do capitalismo mundial, impôs uma grave crise social. Mais desemprego, perda de direitos, precarização e achatamento salarial. Essa situação resultou na atual crise política, em que o governo não representa os interesses da maioria do povo e da nação.

O grande capital quer se proteger da crise e implementa diversas medidas para salvar as grandes empresas e o capital financeiro. Apropriação de bens da natureza (petróleo, minérios, energia, água e biodiversidade) para obter uma renda extraordinária. Corte dos direitos trabalhistas para aumentar sua taxa de lucro. Privatização de 133 empresas que dão muito lucro. Transformação do direito à educação e à saúde em mercadoria. Subordinação ainda maior do nosso destino ao capital dos Estados Unidos.

Para levar adiante esse plano, somente com um governo de extrema-direita. Para elegê-lo, tiveram que prender arbitrária e injustamente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), favorito na disputa.  
Agora, vem à tona os crimes da dupla de Curitiba que usou o apoio da mídia à Operação Lava Jato para se locupletar com benefícios pessoais. E só conseguiram eleger o capitão com mentiras nas redes sociais, com apoio de robôs do exterior.


A situação do país está piorando, em todos os sentidos. Sem investimentos produtivos, a estagnação seguirá por muitos anos, segundo economistas de todas as correntes.

A concentração ainda maior da renda e da riqueza impede o aumento da demanda e do consumo. Apenas os seis maiores capitalistas do Brasil ganham mais do que a soma da renda de 120 milhões de brasileiros. Os bancos, por sua vez, nunca lucraram tanto.

A crise ambiental se aprofundou com as políticas de desmonte dos órgãos ambientais, os crimes dos madeireiros, a expansão do agronegócio e das mineradoras, especialmente na Amazônia.

Não há futuro com este governo e seu plano para tirar o grande capital da crise. A verdadeira saída é construir um programa de desenvolvimento baseado na reindustrialização, no controle dos bancos, no investimento na produção, na agricultura de alimentos e no mercado interno. As empresas públicas, como Petrobras, Eletrobras e Correios, devem ser defendidas para elevar os investimentos e sustentar um novo ciclo de crescimento, emprego e distribuição de renda.

Os militares que se diziam nacionalistas e defensores do povo estranhamente silenciam. Devem estar envergonhados do capitão que apoiaram. O Poder Judiciário, omisso ou conivente, deveria cumprir a Constituição Federal, agir imparcialmente e soltar Lula da prisão.

O povo precisa ir às ruas lutar por emprego, educação, saúde e em defesa da soberania nacional. Assim, será construída a unidade política de forças populares e setores empresariais que ainda queiram defender o país ?e não apenas seus bolsos.

Ainda estamos longe de uma solução. A burguesia tem sido surda e burra. O governo é irresponsável e continua com maluquices. E o povo ainda não se mexeu.

No entanto, essas contradições vão se agravar. Quanto mais tempo demorar, mais dolorida será a solução.


(1)João Pedro Stedile
Economista, coordenador do MST e da Frente Brasil Popular
Comunicado N° 58 do MST

Veja link da matéria:

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

"Em Lula, o personagem político é maior do que sua condição humana"


Fernando Brito: em Lula, o personagem político é maior do que sua condição humana
"A grandeza de Lula o coloca em uma altura diante da qual a Força Tarefa da Lava Jato tem a estatura de um anão moral", diz ainda o editor do Tijolaço
Por Fernando Brito, editor do Tijolaço – Na entrevista que deu a Luiz Gonzaga Beluzzo e Eduardo Moreira, para o GGN, o ex-presidente Lula recusa, expressamente, uma progressão de regime de sua pena e a possibilidade de sair do cárcere com uma tornozeleira eletrônica.
Parece chocante, num regime judicial em que fazer negócio penal – “entrega o fulano que eu solto você” – que alguém esteja recusando sair de uma cela para sua casa.
Mas é o normal, ao qual nos desacostumamos.

Que a verdade e a dignidade pautem o comportamento humano.

E o comportamento dos políticos.

O melhor argumento em favor da honestidade de Lula é a honradez de seu comportamento.

Lula é o único político que pode ser ouvido nos ambientes populares e se contrapor ao populismo de extrema direita, com sucesso.

Tendo com argumentação essencial o que foi, que fez e o que é.

Este personagem é maior que o ser humano, embora dele seja derivado.
Mas em Lula o personagem político é mais forte que sua condição humana .

A grandeza de Lula o coloca em uma altura diante da qual a Força Tarefa da Lava Jato tem a estatura de um anão moral.


quarta-feira, 25 de setembro de 2019

A advertência de Raoni, atacado por Bolsonaro na ONU: "você sentirá medo"



Leia um impactante artigo de Raoni Metuktire, líder do povo indígena Kayapó, antes de ser atacado violentamente no discurso de Bolsonaro na ONU. O artigo de Raoni foi publicado pelo jornal The Guardian e tem uma advertência a Bolsonaro: "O que você está fazendo mudará o mundo inteiro e destruirá nossa casa – e destruirá sua casa também". E conclui: "Então você sentirá o medo que nós sentimos".

Por muitos anos, nós, os líderes indígenas e os povos da Amazônia, temos avisado vocês, nossos irmãos que causaram tantos danos às nossas florestas. O que você está fazendo mudará o mundo inteiro e destruirá nossa casa – e destruirá sua casa também.
Temos deixado de lado nossa história dividida para nos unirmos. Apenas uma geração atrás, muitos de nossos povos estavam lutando entre si, mas agora estamos juntos, lutando juntos contra nosso inimigo comum. E esse inimigo comum é você, os povos não-indígenas que invadiram nossas terras e agora estão queimando até mesmo aquelas pequenas partes das florestas onde vivemos que você deixou para nós. O presidente Bolsonaro do Brasil está incentivando os proprietários de fazendas perto de nossas terras a limpar a floresta – e ele não está fazendo nada para impedir que invadam nosso território.
Pedimos que você pare o que está fazendo, pare a destruição, pare o seu ataque aos espíritos da Terra. Quando você corta as árvores, agride os espíritos de nossos ancestrais. Quando você procura minerais, empala o coração da Terra. E quando você derrama venenos na terra e nos rios – produtos químicos da agricultura e mercúrio das minas de ouro – você enfraquece os espíritos, as plantas, os animais e a própria terra. Quando você enfraquece a terra assim, ela começa a morrer. Se a terra morrer, se nossa Terra morrer, nenhum de nós será capaz de viver, e todos nós também morreremos.
Por que você faz isso? Você diz que é para desenvolvimento – mas que tipo de desenvolvimento tira a riqueza da floresta e a substitui por apenas um tipo de planta ou um tipo de animal? Onde os espíritos nos deram tudo o que precisávamos para uma vida feliz – toda a nossa comida, nossas casas, nossos remédios – agora só há soja ou gado. Para quem é esse desenvolvimento? Apenas algumas pessoas vivem nas terras agrícolas; eles não podem apoiar muitas pessoas e são estéreis.
Você destrói nossas terras, envenena o planeta e semeia a morte, porque está perdido. E logo será tarde demais para mudar
Então, por que você faz isso? Podemos ver que é para que alguns de vocês possam obter uma grande quantia de dinheiro. Na língua Kayapó, chamamos seu dinheiro de piu caprim, “folhas tristes”, porque é uma coisa morta e inútil, e traz apenas danos e tristeza.
Quando seu dinheiro entra em nossas comunidades, muitas vezes causa grandes problemas, separando nosso pessoal. E podemos ver que faz o mesmo em suas cidades, onde o que você chama de gente rica vive isolado de todos os outros, com medo de que outras pessoas venham tirar seu piu caprim. Enquanto isso, outras pessoas passam fome ou vivem na miséria porque não têm dinheiro suficiente para conseguir comida para si e para seus filhos.
Mas essas pessoas ricas vão morrer, como todos nós vamos morrer. E quando seus espíritos forem separados de seus corpos, seus espíritos ficarão tristes e vão sofrer, porque enquanto vivos fizeram com que muitas outras pessoas sofressem em vez de ajudá-las, em vez de garantir que todos os outros tenham o suficiente para comer, antes de alimentar a si próprio, como é o nosso caminho, o caminho dos Kayapó, o caminho dos povos indígenas.
Você tem que mudar a sua maneira de viver porque está perdido, você se perdeu. Onde você está indo é apenas o caminho da destruição e da morte. Para viver, você deve respeitar o mundo, as árvores, as plantas, os animais, os rios e até a própria terra. Porque todas essas coisas têm espíritos, todas elas são espíritos, e sem os espíritos a Terra morrerá, a chuva irá parar e as plantas alimentares murcharão e morrerão também.
Todos nós respiramos esse ar, todos bebemos a mesma água. Vivemos neste planeta. Precisamos proteger a Terra. Se não o fizermos, os grandes ventos virão e destruirão a floresta.
Então você sentirá o medo que nós sentimos.

(A tradução é da Mídia Ninja)
Fonte: 247 -  Artigo de Raoni Metuktire,  líder indígena brasileiro da etnia caiapó, publicado no britânico The Guardian em 2 de setembro.  

sábado, 13 de julho de 2019

Chico de Oliveira

Tristeza: Lá se foi o querido professor Chico de Oliveira

O Libertas presta sua homenagem, provocando o leitor a ler no Blog da Boitempo o texto completo do aperitivo que Schawarz nos presenteia.

Roberto Schwarz sobre Chico de Oliveira


“O marxismo aguça o senso de realidade de alguns, e embota o de outros. Chico evidentemente pertence com muito brilho ao primeiro grupo. Nunca a terminologia do período histórico anterior, nem da luta de classes, do capital ou do socialismo lhe serve para reduzir a certezas velhas as observações novas. Pelo contrário, a tônica de seu esforço está em conceber as redefinições impostas pelo processo em curso, que é preciso adivinhar e descrever. Assim, os meninos vendendo alho e flanela nos semáforos não são a prova do atraso do país, mas de sua forma atroz de modernização. Algo análogo vale para as escleroses regionais, cuja explicação não está no imobilismo dos tradicionalistas, mas na incapacidade paulista para forjar uma hegemonia modernizadora aceitável em âmbito nacional. Chico é um mestre da dialética.”

Leia o texto completo no 
Blog da Boitempo.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Novo habitante da 21 de Maio


Dona Pandá recebeu um presente. Quem lhe deu foi Agnaldo, o pedreiro-eletricista-encanador que está fazendo uma reforma no sítio Catita. A casa – 21 de Maio – onde Dona Pandá está morando fica atrás da casa principal do sítio. Agnaldo chegou cedo com o mimo e Dona Pandá estava bastante ansiosa, acordou várias vezes e ficava pensando se havia feito bem em aceitar o presente e, como é seu costume, levantou várias hipóteses positivas e outras tantas negativas.
Ele chegou - uma graça, pequenininho, amarelo, pelos arrepiados, olhos verdes, expressivos – recebeu o nome de Chê.     


Em sua Chácara Xury, Dona Pandá teve o Ernesto, a Ilda e o Ramon. Agora, veio, então, o Chê.  No seu romance Ilda e Ramon - Sussuros de Liberdade, Dona Pandá fala de seus bichinhos. É claro, que ela acha que Guevara é o homem a ser admirado e seus gatos são sempre uma homenagem a ele.

Chê, o gato – não que o guerrilheiro não tenha também sido um gato – encontrou no sítio duas moradoras caninas, Lau e Bela, que iniciaram imediatamente um processo esquisito de boas-vindas. A experiência de Dona Pandá com o compartilhamento do espaço entre caninos e felinos lhe sugere prudência, muita prudência. Lau e Bela têm um relacionamento próximo ao de amor e ódio, onde a nota dominante é o recíproco ciúme. Chê, mesmo petitito sabe que apesar da vontade de brincar e da proximidade das residentes, deve se mostrar pouco dócil. O resultado, no primeiro encontro, foi fortalecer a prudência de Dona Pandá. Lau e Bela querem saber tudo do novo habitante da casa 21 de Maio, onde as portas são abertas com a proteção de grade. Felino de dentro, caninas de fora. Dona Pandá quer saber até quando terá que fazer o severo monitoramento dessas relações. Quando relaxa um pouco, já que os três parecem tão amigáveis, eis, de repente, um rosnado e tudo volta ao início: tensão e novo chamado da prudência.

Pode-se dizer que Dona Pandá seja quase nada prudente. O que aparece mais nesta senhora é uma certa tendência a aventuras. Pensando melhor há uma grande contradição para uma só pessoa. Quer planejar tudinho como se a vida fosse algo controlável. Quer ter o controle desde que nada a controle. O Chê vai lhe proporcionar momentos de grandes exercícios na maratona aventura prudente.

O filhote está com dois meses e já recebeu uma crueldade neste mundo dos humanos: mataram sua mãe. Ele tem uma vantagem enorme, não sabe das delícias filiais proporcionadas pelos cuidados maternos, não as conheceu, não sente sua falta. Busca, porém calor de colo, aconchego, instintivamente vai atrás dos cuidados de que precisa e Dona Pandá tenta oferecer o que ele procura.

Chê, no mesmo dia em que chegou, já usou o banheiro com a areia higiênica, achou a água e o alimento. À noite a estória é outra, tem o domínio total da situação. Quantas opções de cama lhe foram oferecidas, quantas serviram de trampolim para a cama de Dona Pandá. Este é o atual desafio: fazer o Chê entender que é norma da casa dormir sozinho.


sábado, 15 de junho de 2019

Estou de cabeça inchada




Carta Capital pergunta, em sua manchete de capa, se “O Brasil engole mais esta?”  Pergunto-me se os brasileiros terão indigestão. Quem são os brasileiros?

 Minha geração achava que poderia curtir sua aposentadoria em paz. Vimos muitos dos nossos serem abatidos emocional, mental e fisicamente durante nossa luta contra a ditadura de 1964. Pensávamos que conhecíamos este Pais pelo qual corremos risco de morte. Nem naquele terrível período vislumbramos quem são estes brasileiros que não gostam do Brasil. Querem acabar com o que de melhor temos. Àquela época, o comando estava nas mãos de militares bem diferentes dos que hoje aí estão. Eram brasileiros que entendiam sua função, a defesa da Pátria, eram defensores dos brasileiros e de suas riquezas, eram militares nacionalistas. Praticaram torturas e mortes, mas defenderam a Pátria.

Caraca! Como está difícil escrever o que ando sentindo! O Brasil, o meu País, a minha Pátria está doente! Os brasileiros estão se mostrando Judas, aquele das 30 moedas!
Começou quando? Vamos colocar como ponto inicial – por uma questão de viabilidade didática – o mensalão. Foi o início da TV no plenário da Suprema Corte, quando da passagem de suas excelências a artistas e/ou políticos. A atuação do senhor togado presidente do STF, trazendo à corte figuras inovadoras nos julgamentos, quase o transformou em candidato à vida política explícita. Chegou-se a falar em sua candidatura a um alto cargo eletivo. Lembro-me de minha perplexidade em alguns momentos, como quando uma ministra, em seu voto, disse ao Senhor José Dirceu que, embora não tivesse as provas, ela iria condená-lo assim mesmo porque a literatura o permitia.

O povo doutrinado pela mídia, tendo à frente o grupo Globo, passou a comungar os valores das alta e média burguesias. A ideia de que a classe política era a responsável por todas as mazelas do País e a corrupção precisava ser estraçalhada por uma força tarefa especial foi sendo passada às pessoas. Formou-se, pois, a Lava Jato que, em sendo especial, não seguia propriamente as mesmas leis impostas no País. O juiz se metamorfoseou publicamente em herói e, internamente, em chefe supremo da força tarefa, onde os procuradores-promotores (aqueles que investigam e acusam) seguiam sua orientação. Esse juiz só não era hierarquicamente superior ao togado do Supremo Tribunal Federal com quem toda a Lava Jato podia contar. Não que precisassem de orientação, pois eram bem treinados pelo Norte e lá tinham (têm) muito boa relação, camaradagem excepcional de troca de informações. O Norte orienta de acordo com sua própria necessidade e o Sul lhe passa os dados de que precisa para obter seus objetivos.

Montado o cenário com seus devidos personagens, chega o momento de mudar os mandatários do Brasil. Vem a campanha eleitoral. A população já está devidamente preparada pela Globo e cia. Entretanto, surge um problema grave. As pesquisas mostram que Lula ganha disparado de todos os candidatos e ganha no primeiro turno. O Norte, aliado ao capital interno - bancos e grandes empresas -, entrega ao juiz da metamorfose a tarefa de impedir a candidatura do Lula. Sabem do tamanho do homem que saiu do seu segundo mandato com a aprovação única de mais de 80%. Se ele abre a boca para ungir um candidato este seria eleito. O jeito de garantir é acabar com a reputação do Lula e também de seu partido e qualquer candidato que possa vir do Partido dos Trabalhadores que, como o nome indica, não é do grande capital, portanto, inimigo de quem paga as metamorfoses.

Moro começou atacando Lula e sua família, com grampos e vazamentos ilegais – chegou ao absurdo de grampear a Presidenta da República e saiu ileso, sem que algum togado mais elevado fizesse alguma coisa -, condução coercitiva, invasão de domicílio com apreensão de aparelhos, como por exemplo, celular do neto do Lula.

Fica uma pergunta dolorosa. Dona Marisa Letícia morreu. O que causou sua morte?

O togado da metamorfose condenou e prendeu Lula, proibindo-o de dar entrevistas para não facilitar a eleição do seu candidato.
Como não podia deixar de acontecer frente aos acontecimentos promovidos pela Lava-Jato, o eleito foi o pior dos candidatos – o cara que distribui o ódio e a mentira -  que está vendendo para o Norte o que lhe interessa.

Quem são os brasileiros que puseram o vendedor do Brasil no Alvorada?