Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade
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sábado, 10 de novembro de 2012

Dona Pandá voltou


Dona Pandá e Garrincha
 


Dona Pandá retornou à Chácara Xury depois de sua longa viagem para “terras distantes”. Não consegui ainda saber onde são essas terras, mas dá para perceber que fizeram bem à nossa amiga que parece um pouco cansada, mas bastante falante. Quer saber tudo e contar mais ainda.
Numa cidade das “terras distantes” Dona Pandá conheceu um menino dos seus 12 anos, magrinho, cabelos encaracolados, pretos e cheirosos, as pernas formavam um ângulo esquisito, pernas de Garrincha, olhos castanhos, vivos, brilhantes a cada pergunta. Eta menino curioso!
Eles se encontraram na praça. Dona Pandá estava descansando numa banco sob a sombra generosa de um flamboaiã quando alguma coisa bateu em seu braço esquerdo. Era uma bola de papel na frente de um moleque, cujo pé foi o responsável pelo chute.  Ela sentiu uma leve dor, viu a perna ainda no ar e ouviu um assobio estridente e interrogativo. O garoto chegou pedindo desculpas e, pegando a bola, quis correr.
- Veja lá, rapaz, está pensando que meu braço é trava de gol? Venha cá.
- Já pedi desculpas, moça.
- Moça?! Ora, você não enxerga mesmo? Então, lá sou moça?
- Você quer ser chamada de velha? Nunca vi uma mulher achar ruim por ser chamada de velha. Você é esquisita. Com esse chapéu aí maior que a árvore... Está rindo de mim? O que você tem nesse embrulho?
- O meu almoço. Você já almoçou? – Ao olhar para o menino, percebeu que dera um fora. Suas roupas, pés no chão e magreza diziam que almoçar podia não ser costume diário. – Vem cá, sente aqui e vamos comer juntos. Como você se chama?
- Anastácio, mas me chamam de Perninha. – Foi falando, chegando, assentando-se e os olhos cada vez maiores, grudados no sanduíche. Dona Pandá lhe entregou o objeto de seus fortes desejos e disse: - Deveriam chamar você de Garrincha. Sabe quem foi Garrincha? – Entre uma mordida e outra, o menino respondeu:
- O maior driblador do mundo. Vou ser que nem ele.
- Está bem, então come, depois a gente continua o papo. É feio falar com a boca cheia.
- Tô com uma fome danada!
Depois desse dia e enquanto ficou naquela cidade, Dona Pandá se encontrava com o garoto para lhe dar o sanduiche e especular sobre a vida do novo amigo. Soube que era filho de uma senhora que fazia faxina em algumas casas  perto da praça. Estudava pela manhã e à tarde ficava batendo bola perto, esperando a mãe que, às vezes, lhe trazia alguma coisa para comer.
Um dia,  Dona Pandá chegou com uma sacola e gritou para o menino que chutava sua bola de jornal: - Ô Garrincha, venha cá.
- Boa tarde, dona.
- Ah, agora, não sou mais moça, sou dona?! – Ele lhe deu um largo sorriso, mostrando seus dentes bonitos e foi logo falando: - Você é moça bonita!
- Que malandrinho! Vai ganhar um presente. – Falou, entregando-lhe a sacola, onde havia o sanduiche, uma lata de suco e a bola. O garoto pegou a bola e começou a pular e a gritar, largando a sacola com o lanche no chão. Sua alegria chegou a deixar Dona Pandá preocupada. Rodopiava, assobiava, jogava a bola para cima, chutava a bola e o ar, corria atrás da bola e de nada. Depois de algum tempo, correu para a amiga e perguntou:
- É mesmo para mim? Ou é só por um pouquinho? – Ao receber a resposta, pegou a mão de Dona Panda e beijou. Foi uma cena tão bonita, que a levou ao devaneio de como seria gostoso poder dar uma bola para cada moleque que visse. Voltando à realidade, pegou a sacola esquecida, tirou o lanche e gritou para o menino que já se distanciava cabeceando a bola:
- Vem comer, vem. - Ele veio brincando com a bola, pegou a sanduiche e ela o segurou:
- Coma primeiro que saco vazio não para em pé. Você já almoçou?
- Hoje, não. Mãe não veio me trazer nada porque ela está trabalhando na casa da Dona Euclécia.
- E a Dona Euclécia não tem almoço? Ou ela não gosta que sua mãe saia do trabalho?
- Ela vigia a mãe. Vou comer e depois vou fazer um show para você.
Ele deu mesmo um show com a bola e ainda estava rindo e se exibindo para a amiga quando chegaram os moleques. Garrincha abraçou-se com a bola e correu para o banco onde estava a mulher e lhe disse baixinho: - Fala que a bola é sua.
O garota mais velho veio na frente dos outros  e foi falando: - Ô Perninha, joga pra mim.
Dona Pandá pegou a bola e muito séria se dirigiu ao moleque: - Eu não conheço vocês, com é que vou lhes emprestar minha bola? – Os meninos não esperavam por esta e entre curiosos e querendo se divertir:
- Eu sou o Pelé, vovó.
- Eu sou o Neymar, vovó,
- E eu sou o Ronaldinho, vovó.
Pois eu sou o Mano e não gosto de netos. - Levantou-se, pôs a bola na sacola, deu um jeito de piscar para o Garrincha e falou: - Você vai me mostrar onde é a farmácia?
Os dois saírem andando, enquanto os “netos” ficaram a ver navios. Então, Dona Pandá falou:
- É melhor você ficar comigo até sua mãe sair e amanhã vamos ter que mudar de lugar.
 No dia seguinte ...



quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O bem-vindo Vale Cultura

Parlamentares e ministra preparam votação do Vale Cultura

O café da manhã reunindo deputados e senadores da Frente Parlamentar Mista de Cultura com a ministra da Cultura Marta Suplicy, nesta quarta-feira (7), é o pontapé inicial para implementação do Vale Cultura no país. A coordenadora da Frente Parlamentar, deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), disse que esta semana deve ser reapresentado um novo Projeto de Lei suprapartidário dos integrantes da Frente com a proposta do Vale Cultura.


A ministra Marta Suplicy parabenizou o empenho de Jandira na articulação do projeto de lei do Vale-Cultura.O Projeto de Lei garantiria o valor de R$50,00 para os trabalhadores consumirem serviços de cultura. O projeto faz parte do calendário de referência da Câmara das votações que devem ocorrer até o dia 23 de dezembro. A expectativa da ministra é que o novo projeto chegue ao Senado em fevereiro de 2013 e seja logo regulamentado pela presidenta Dilma Rousseff.

Jandira valorizou a presença dos parlamentares e da ministra: “É muito bom ver a participação de muitos deputados do grupo, que lutam muito para criar instrumentos democráticos no acesso à cultura. Estamos muito confiantes na gestão de Marta, pelo discurso plural que está sendo feito. Vivemos uma mudança radical na Cultura e isso é bom”, pontua Jandira.

Ainda segundo Jandira, o orçamento da área precisa aumentar no próximo ano: “É nosso dever lutar para que os recursos da pasta aumentem, ampliando os limites para a criação de nossas políticas. Nesse sentido, é uma dificuldade dos próprios setoristas da Cultura avançarem na formulação de suas leis. Por conta disso precisam cortar novas formulações em projetos sob análise”, lembra a deputada.

Em sua fala, a ministra Marta Suplicy parabenizou o empenho de Jandira frente à articulação do projeto de lei do Vale Cultura: “Agradeço a deputada Jandira pela movimentação política. Tenho certeza que esse programa irá mudar a vida de muita gente neste país. Imagine só dar a possibilidade ao trabalhador de consumir serviços de cultura de sua região, oferecendo um recurso extra em seu orçamento. É como o bolsa-família funcionou desde o início, na eficácia pela inclusão”, afirma Suplicy.

Mais recursos
O evento também discutiu o orçamento da pasta de Marta para 2013 e as emendas parlamentares. A ministra aproveitou para lembrar sobre outras prioridades da gestão, como o os programas Pró-Cultura e Direito Autoral.

“Tenho felicidade em reconhecer que os deputados envolvidos ouviram a sociedade civil no processo de formulação do Pró-Cultura. Sobre o Direito Autoral, até o fim deste ano vamos ouvir muitas pessoas no setor, mas é preciso deixar claro que a proteção ao direito ao autor não é negociado”, disse.

O senador Cristóvam Buarque (PT/DF) também chamou a atenção para o reforço dos investimentos nos ministérios: “Se nos concentrarmos nos ministérios não haverá desconfiança de como esse dinheiro foi gasto”, conclui.

Nossa fonte: Vermelho

domingo, 4 de novembro de 2012

Assassinado há 43 anos, Marighella é lembrado em SP

Militantes se reuniram neste domingo (4) em manifestação na cidade de São Paulo para lembrar o assassinato do dirigente comunista e revolucionário Carlos Marighella há 43 anos. Foram depositadas flores na Alameda Casa Branca, na região dos Jardins, zona oeste da cidade, onde o guerrilheiro foi emboscado e cobardemente assassinado por esbirros da ditadura militar.

“O Marighella tinha saído para encontrar os companheiros para poder tirar do Brasil as pessoas perseguidas e, nessa travessia, foi assassinado”, lembrou a companheira do guerrilheiro, Clara Charf. Para ela, prestar esta homenagem a Marighella todos os anos é uma forma de desfazer as mentiras contadas pela ditadura, além de usar a imagem do guerrilheiro para combater as injustiças atuais.

“Nós sempre lutamos pela liberdade, pela igualdade, pela democracia, pela possibilidade de as pessoas seguirem sua vocação, todos terem direito ao trabalho e ao lazer. E nos defrontamos com essa violência bárbara, que está acontecendo não só em São Paulo, como em outros estados do Brasil.”

Em Salvador, Bahia, foi inaugurada neste domingo, em plena Praça Castro Alves, a praça do povo, uma exposição do artista plástico Helder Becerra. São 13 telas em homenagem a Carlos Marighella.

O baiano Carlos Marighella iniciou a militância aos 18 anos, quando se filiou ao Partido Comunista do Brasil (PCB). Preso em 1936, durante a ditadura de Getúlio Vargas, foi eleito deputado federal constituinte em 1946 e, no ano seguinte, teve o mandato cassado. Quase 20 anos depois, foi preso pela Delegacia de Ordem Política e Social (Dops). Em 1968, fundou a Ação Libertadora Nacional (ALN), grupo armado de resistência à ditadura.
Nossa fonte: Vermelho

“Os brasileiros não se sentem latino-americanos”

Em entrevista à Carta Maior, o escritor, dramaturgo e roteirista de cinema cubano Reinaldo Montero fala da influência da cultura brasileira sobre a literatura, música e cinema cubano e do desconhecimento que a maioria da população brasileira tem da cultura latinoamericana. Vencedor do Casa de las Américas e de vários outros prêmios em Cuba, Espanha e França, Montero também fala sobre a relação entre inspiração e transpiração no ato de escrever, sobre o impacto da internet e das redes sociais na literatura e na relação dos autores com críticos e público, e sobre o atual momento da vida cultural cubana. 
Marco Aurélio Weissheimer
Porto Alegre - O desconhecimento que a maioria da população brasileira tem em relação à cultura latino-americana não chega a ser uma novidade. Mas ele fica mais gritante e absurdo quando referido por artistas e intelectuais de língua espanhola que tem grande conhecimento da cultura brasileira. Em 1986, o jovem escritor cubano Reinaldo Montero, vencedor do prêmio Casa de las Américas naquele ano com a novela Donjuanes, foi convidado para a Bienal do Livro em São Paulo. Quando chegou ao hotel, em São Paulo, viu em um mapa que estava muito perto da esquina da Ipiranga com a São João. “Eu saí do hotel e fui até à esquina da Ipiranga com São João, o que, naquele tempo, era muito perigoso. Esse é o exemplo vivo do conhecimento que há em Cuba sobre o Brasil. Não sei quantos brasileiros podem ir a Havana e fazer algo assim...,” comenta.

Convidado para participar da Feira do Livro de Porto Alegre, Montero concedeu entrevista à Carta Maior e falou sobre a influência da cultura brasileira na literatura, cinema e música cubana. Escritor, dramaturgo e roteirista de cinema, Reinaldo Montero foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras (As afinidades, 1999). Na entrevista, realizada no Memorial do Rio Grande do Sul, ele também fala sobre a relação entre inspiração e transpiração no ato de escrever, sobre o impacto da internet e das redes sociais na literatura e na relação dos autores com críticos e público, e sobre o atual momento da vida cultural cubana. Ao final, aponta uma relação de escritores e dramaturgos, cujo trabalho ajuda a refletir sobre o atual estágio da civilização. Montero não é muito otimista: “Vivemos um momento adolescente como espécie. E tenho dúvida se vamos amadurecer algum dia”.

Além do Casa de las Américas, em 1986, Montero ganhou prêmios em Cuba, Espanha e França, já teve três roteiros filmados, várias peças encenadas e é autor de novelas, poesias e ensaios. 

sábado, 3 de novembro de 2012

Cuba realiza eleições em 168 municípios neste domingo

A passagem da Tempestade Sandy, que chegou a ser considerada furacão, castigando a maior parte de Cuba, não afetará as eleições em 168 municípios do país. Neste domingo (4), 413 mil eleitores irão às urnas, no segundo turno das eleições municipais, para escolher 14.537 conselheiros, que equivalem aos vereadores no Brasil.



Nas regiões de Santiago de Cuba e Holguín, no oriente de Cuba, no entanto, as eleições foram adiadas devido aos efeitos causados pela passagem de Sandy. Em Holguín, as eleições ocorrerão no dia 11. Em Santiago de Cuba ainda não foi marcada a nova data.

As duas áreas foram as mais afetadas do país. Cuba, que sofre com o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, teve as dificuldades aumentadas porque a tempestade destruiu plantações, impedindo as colheitas.

Em Cuba, Sandy provocou ventos de 175 quilômetros por hora. Ao passar pelo Caribe, Sandy deixou um rastro de, pelo menos, 71 mortos.

As eleições municipais em Cuba ocorrem a cada dois anos e meio. Em 2013, haverá eleições para representantes nas assembleias provinciais e no Parlamento. O voto é livre, secreto e voluntário. Não há obrigatoriedade de voto no país.

Em Cuba, além das plantações, casas e prédios públicos que ficaram destruídos, também houve queda de energia e da rede de comunicação em parte do país.Vários governos latino-americanos, como o Brasil, a Venezuela e Bolívia anunciaram ajuda para os cubanos.

Apesar da gravidade dos prejuízos, a Comissão Nacional Eleitoral (CNE) de Cuba confirmou que as eleições de amanhã estão mantidas na maior parte do país. O primeiro turno das eleições municipais ocorreu no último dia 21. As zonas eleitorais, localizadas em escolas, serão abertas às 7h e fechadas às 18h.

A vice-presidenta da CNE, Rosa Charroó, disse que foram tomadas providências para facilitar a votação daqueles que estão em dificuldades devido aos prejuízos causados pela tempestade. Rosa disse ainda que vai garantir o “fluxo das informações” sobre as eleições, embora o país ainda esteja em dificuldades.

Fonte: Agência Brasil

O Triunfo do Detalhe reúne mestres da pintura no Masp


Houve um período da arte ocidental em que a capacidade de retratar detalhes determinava o valor das obras e dos pintores, explica o curador do Museu de Arte de São Paulo (Masp), Teixeira Coelho. Sobre esse tempo, que vai do século 16 ao começo do século 19, foi organizada a exposição O Triunfo do Detalhe aberta neste sábado (2) no museu paulistano.



São 15 obras do próprio acervo do Masp que incluem nomes como Rembrandt, Tiziano, Velázquez e Goya. Todas têm em comum a valorização dos detalhes. “ O detalhe é na verdade uma espécie de partida, a escolha, a perspectiva, a estrutura central que organiza o trabalho”, explica Teixeira Coelho.

Entre os destaques da exposição está o autorretrato de Rembrandt Harmensz van Rijn, pintado em 1635. Na obra o pintor retrata-se encarando o espectador. A intensidade dos olhos serve para evidenciar que o principal tema do artista é o próprio mundo interior.

A exposição espalha as poucas obras da mostra por uma ampla galeria do museu. A disposição defende uma forma diferente de apreciar a arte. “ A ideia é chamar a atenção das pessoas para que a quantidade não é documento em arte e que as pessoas deveriam ir aos museus para ver poucas obras por vez, mas verem em profundidade”, diz o curador.

Fonte: Agência Brasil

A transversalidade de gênero


    Um Plano de Igualdade de Oportunidades, com uma inserção transversal do gênero em todas as áreas de atuação e cidadania, com recorte em todas as secretarias e políticas públicas é um desafio que se coloca para o prefeito eleito Fernando Haddad para criar uma inclusão efetiva das mulheres na vida social e política.
Rachel Moreno*

As mulheres, que representam 52% da população brasileira, estão presentes em todos os aspectos da vida, definindo uma necessidade de transversalidade e, ao mesmo tempo, de especificidade das demandas em termos das políticas públicas.

Isso porque, atuantes e presentes em todas as áreas de atividade humana, a sua participação social guarda diferenças, que por sua vez geram demandas diferenciadas.

No último debate na Globo, Fernando Haddad questionou a limitação de seu adversário com relação à compreensão demonstrada com relação às mulheres, que ele reduzia à dimensão do programa “Mãe Paulistana”.

Vibrei ao ouvi-lo elencar então as diversas facetas ausentes neste enfoque, que ele iniciou com a parte referente à saúde.

Sim, as mulheres, antes de serem mães, são crianças, depois jovens, adolescentes, adultas, idosas. Em 2050, os idosos representarão 49% da população brasileira. Descubra as implicações que o fato terá na economia do país e na prestação de serviços públicos. Cada uma das fases, incluindo a sua fase chamada produtiva – enquanto trabalhadora - necessita de cuidados específicos. O pré-natal e a trouxinha de roupas para o bebê não interessam às mulheres em outra fase da vida.

Na verdade, todas essas fases e demandas estão incluídas no PAISM – Programa de Atendimento Integral à Saúde da Mulher, resultado da mobilização e das demandas do movimento de mulheres.

Mas, para além da saúde, as mulheres têm um corpo diferenciado, uma jornada de trabalho dupla, se inserem de determinada forma no mercado de trabalho.

As especificidades decorrentes disso começaram a ser discutidas, ainda que tardiamente, na gestão da Luiza Erundina, quando prefeita de S. Paulo, pelo PT. Alguns países da América Latina deram início a um PIO (Plano de Igualdade de Oportunidades). Na França, de François Hollande, esta discussão também se inicia.

Dentro da dupla jornada de trabalho feminina, as compras domésticas, o cuidado dos filhos, e da casa, via de regra determinam necessidades diferenciadas.

Uma das diferenças pode ser notada no que se refere ao transporte.

Os ônibus, metrô, trens têm que ter a altura dos degraus de modo a permitir o seu fácil acesso por quem está grávida, ou na “melhor idade” ou eventualmente veste uma saia justa e/ou sapato de salto.

Os designers dos equipamentos urbanos ainda não se deram conta de que a altura das barras em que têm que se segurar, tem que ser tal que lhes permita o alcance, a partir de sua altura, via de regra menor, para garantir a sua segurança. Aliás, a segurança nos transportes urbanos também representa uma necessidade, ainda mais acentuada no caso das mulheres.

O trajeto do transporte coletivo que, para os homens, idealmente teria que ser o mais curto possível entre a moradia e o local de trabalho, para as mulheres passaria idealmente pela escola, pelo posto de saúde, pela feira ou mercado, e chegaria ao local de trabalho.

O reconhecimento de seu papel e importância social tem que ser enfatizado, para valorizar estas cidadãs ainda discriminadas e desvalorizadas, para sensibilizar, prevenir e reduzir a violência de gênero, para enfatizar a sua importância na construção do mundo e da história do País. A escola e literatura complementar têm que ser espaços privilegiados para esta discussão.

A nossa imagem nos meios de comunicação de massa tem que estar presente de forma respeitosa, valorizadora e refletir não só esta sensibilização, como a nossa diversidade e pluralidade de opiniões – o que exige uma atenção específica aos meios de comunicação, que têm que fazer a sua parte em termos da desconstrução dos estereótipos e preconceitos.

A leitura correta dessa compreensão terá, também, que ser treinada na escola, para que as crianças aprendam desde cedo a igualdade e inclusão social, e para que não sejam presas ingênuas e fáceis dos apelos de consumo desenfreados e valores inadequados, promovidos pela mídia.

Tem aumentado o número de mulheres chefes de família. E isto significa um espaço importante de suas necessidades a serem contempladas nas políticas de desenvolvimento social – solidariedade, assistência social, combate à miséria e segurança alimentar.

Aliás, sendo ela a principal provedora da compra e preparo da alimentação dos seus, seria importante dar-lhe acesso a informações sobre produtos saudáveis e livres de agrotóxicos, bem como hábitos que se contraponham ao estímulo pelo consumo de produtos altamente calóricos e pouco nutritivos que têm sido promovidos pela publicidade, e que tem provocado (paralelamente à bulimia e anorexia das meninas, assim que percebem os apelos pela silueta considerada ideal) o aumento do índice de obesidade, que nos faz prever a antecipação das morbidades a ela associadas.

Como via de regra, cabe a elas 90% das tarefas domésticas, entre as quais a limpeza da casa, os hábitos e cuidados de higiene infantis, o descarte do lixo. E isto faz dela uma parceria especial, bem como uma multiplicadora segura para formação, informação e sensibilização referente aos cuidados e hábitos conscientes com relação à preservação do meio ambiente, à destinação dos resíduos sólidos, a hábitos mais conscientes e de qualidade de consumo consciente da família como um todo, bem como da vizinhança.

O acesso à cultura, esporte e lazer não só têm que abrir um espaço para as suas necessidades e conveniências, como prever ocupação simultânea para as crianças. As praças, parques, CEUs, além de prover diversão, equipamentos de esporte e espaços e atividades de lazer, devem oferecer neles banheiros públicos com boa manutenção, bem como fraldários.

Em termos de educação, as mulheres têm feito a sua parte, acumulando, em média, 4 anos a mais de estudo que os homens, em qualquer nível que se considere. Mas é necessário ainda um esforço em termos da universalização de sua inclusão digital, capacitando-a e melhorando a sua preparação para o mercado de trabalho.

Ainda dentro da questão da educação, o déficit de creches em São Paulo caracteriza um problema sério, que tem que ser rapidamente resolvido, para liberá-la para a sua inserção e tranqüilidade no mercado de trabalho. Para acelerar este processo, talvez convenha retomar a fiscalização da exigência de fornecimento de creches, ou contribuição por parte das empresas com mais de 30 funcionários, além da implementação do plano de governo, para sanar este déficit que se acumulou nos últimos anos.

A carga horária da educação infantil também deve se adequar às suas necessidades enquanto trabalhadora. Não faz sentido um horário de creche que não se compatibilize com a jornada profissional. E há que se oferecer às crianças maior ocupação durante do dia todo – complementando o período escolar, com atividades de reforço, de lazer, esporte e cultura – combinados num projeto de Cidades Educadoras, que é do interesse de todos.

Com cada vez maiores responsabilidades pela melhoria do nível econômico em nosso país, em função de sua inserção crescente no mercado de trabalho, elas continuam porém recebendo cerca de 30% a menos da massa salarial dos homens, e ainda sendo impedidas de ascender aos cargos de maior responsabilidade e remuneração pelo famoso e implacável “teto de vidro”, que as impede silenciosamente de lá chegar. Os espaços da administração púbica poderiam ser bons laboratórios de visibilidade para transformar essa compreensão.

E, se a lei garante igualdade de oportunidades e de tratamento e salário no trabalho, o que pode ser feito, em termos de políticas públicas, para fiscalizar ou estimular esta igualdade no município?

As idosas, as mulheres vítimas de violência, as mais vulneráveis merecem e precisam de uma atenção especial, que lhes garanta cotas específicas de inclusão, via trabalho social, cotas específicas de moradia (minha casa, minha vida), que contribua para a sua dignidade, cidadania e direitos humanos, a serem estendidos a toda a população.

As questões relacionadas à segurança são particularmente caras às mulheres. Iluminação, medidas de prevenção, uma rede de segurança e acolhimento em casos de necessidade se fazem fundamentais, na medida em que elas são vítimas fáceis de violência, tanto urbana quanto doméstica.

Não podemos esquecer, ainda, que as mulheres não são todas iguais, e que têm necessidades adicionais nos segmentos específicos em que se enquadrem, que contemplem a raça/cor, a idade, a orientação sexual, todas merecedoras de políticas acolhedoras.

Finalmente, a participação mais ativa que se viu acontecer nos espaços de orçamento participativo e outras formas de democratização das decisões sobre a cidade, devem prever uma sensibilização específica das mulheres, além de estrutura para o eventual acolhimento e ocupação das crianças em períodos de mobilização, para que elas possam também participar, contribuindo com a sua visão diferenciada, sem maiores problemas ou conflitos.

Enfim, um Plano de Igualdade de Oportunidades, com uma inserção transversal do gênero em todas as áreas de atuação e cidadania, com recorte em todas as secretarias e políticas públicas, se faz necessário para a atuação decisiva de um governo local aberto à compreensão de que São Paulo é referência transformadora no sentido de inclusão efetiva das mulheres na vida social e política, estendendo-lhes também o tratamento de cidadãs de primeira classe.

É o desafio que se coloca para o nosso prefeito eleito Fernando Haddad, e para o qual estamos todas – mulheres sensíveis, conscientes, militantes – dispostas a colaborar e a contribuir, a partir de nossos diversos campos de atuação, para transformar São Paulo em cidade efetivamente igualitária e inspiradora nas questões de gênero.

(*) Psicóloga, pesquisadora e militante do movimento feminista.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

"A LA CONQUISTA DE UNA NUEVA HEGEMONÍA"

http://www.rebelion.org/docs/158421.pdf

Jacob David Blinder

MARTA HARNECKER no trabalho "A la Conquista de una nueva hegemonia" defende a possibilidade de se construir nos tempos atuais um socialismo diferente, muito distante daquele existente na extinta União Soviética e de todos que existiram no século XX. Foi o Presidente Chávez com sua audácia que o chamou Socialismo do Século XXI, reivindicando à palavra "Socialismo" os valores preconizados por Marx e Engels como "amor", "solidariedade", "igualdade" nas relações humanas e agregou o adjetivo do "Século XXI" para diferenciar o novo socialismo em construção dos erros cometidos na antiga União Soviética e nos países do Leste Europeu. 
Para que esse socialismo efetivamente exista será necessário construir uma democracia participativa e protagônica no interior dos países capitalistas e com isso obter maior capacidade de influencia dos setores populares nos assuntos de estado. 
A autora alega que o neoliberalismo está sendo o parteiro para o surgimento desse socialismo na América Latina - pois quanto mais ele marginaliza, constrange e violenta os setores populares, mais esses reagirão e partirão para a construção do socialismo. A própria dinâmica operativa dessa democracia participativa e protagônica é que criará as condições para o fortalecimento dos setores populares e esses por sua vez fortalecerão esse tipo de democracia, que incluirá a doutrinação das massas populares no novo pensamento, a escolarização crescente de toda a população e a transformação das forças armadas tradicionais geralmente repressoras em forças armadas a serviço dos setores populares.
A autora alega que o socialismo não se consolidará se existir apenas em um país isolado e propõe que haja a nível mundial uma união dos excluídos para que questionar o capitalismo realmente existente nos países, inclusive naqueles desenvolvidos e que os novos fóruns internacionais de integração que estão surgindo são importantes ferramentas para a viabilização de tal estratégia. O trabalho é muito interessante e encaminho especialmente para aqueles que tenham interesse por esse atual tema (endereço está transcrito logo a seguir) e está formatado em arquivo pdf, no idioma em espanhol e possuindo 25 páginas.

http://www.rebelion.org/docs/158421.pdf

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Conselho Indigenista Missionário esclarece “suicídio coletivo” de índios




O suicídio entre os Kaiowá e Guarani já ocorre há tempos e acomete sobretudo os jovens

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) emitiu nota para esclarecer o que está sendo disseminado nas redes sociais como “suicídio coletivo” dos índios Kaiowá e Guarani. Na verdade, a carta divulgada por eles fala em morte coletiva, já que decidiram ficar na terra e resistir à desapropriação autorizada pela Justiça Federal de Navirai, no Mato Grosso do Sul.

Nota sobre o suposto suicídio coletivo dos Kaiowá de Pyelito Kue

O Cimi entende que na carta dos indígenas Kaiowá e Guarani de Pyelito Kue, MS, não há menção alguma sobre suposto suicídio coletivo, tão difundido e comentado pela imprensa e nas redes sociais. Leiam com atenção o documento: os Kaiowá e Guarani falam em morte coletiva (o que é diferente de suicídio coletivo) no contexto da luta pela terra, ou seja, se a Justiça e os pistoleiros contratados pelos fazendeiros insistirem em tirá-los de suas terras tradicionais, estão dispostos a morrerem todos nela, sem jamais abandoná-las. Vivos não sairão do chão dos antepassados. Não se trata de suicídio coletivo! Leiam a carta, está tudo lá. É preciso desencorajar a reprodução de tais mentiras, como o que já se espalha por aí com fotos de índios enforcados e etc. Não precisamos expor de forma irresponsável um tema que muito impacta a vida dos Guarani Kaiowá.

O suicídio entre os Kaiowá e Guarani já ocorre há tempos e acomete sobretudo os jovens. Entre 2003 e 2010 foram 555 suicídios entre os Kaiowá e Guarani motivados por situações de confinamento, falta de perspectiva, violência aguda e variada, afastamento das terras tradicionais e vida em acampamentos às margens de estradas. Nenhum dos referidos suicídios ocorreu em massa, de maneira coletiva, organizada e anunciada.

Desde 1991, apenas oito terras indígenas foram homologadas para esses indígenas que compõem o segundo maior povo do país, com 43 mil indivíduos que vivem em terras diminutas. O Cimi acredita que tais números é que precisam de tamanha repercussão, não informações inverídicas que nada contribuem com a árdua e dolorosa luta desse povo resistente e abnegado pela Terra Sem Males.

Histórico

Os índios Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul (MS), Centro-Oeste brasileiro, cansados da morosidade da justiça, decidiram retomar parte do tekoha (território sagrado) Arroio Koral, localizado no município de Paranhos, em 10 de agosto deste ano. Poucas horas depois, nem bem os cerca de 400 indígenas haviam montado acampamento, pistoleiros invadiram o local levando medo e terror para homens, mulheres e crianças.

No momento do ataque, os indígenas correram e se espalharam pela mata, no entanto, passados os momentos de pânico, aos poucos os Guarani Kaiowá foram retornando para o acampamento e mesmo se sentindo inseguros e amedrontados pretendem não sair mais de lá.

O Guarani Kaiowá Dionísio Gonçalves assegura que os indígenas estão firmes na decisão de permanecer no tekoha Arroio Koral, mesmo cientes das adversidades que terão que enfrentar, já que o território sagrado reivindicado por eles fica no meio de uma fazenda.

- Nós estamos decididos a não sair mais, nós resolvemos permanecer e vamos permanecer. Podem vir com tratores, nós não vamos sair. A terra é nossa, até o Supremo Tribunal Federal já reconheceu. Se não permitirem que a gente fique é melhor mandarem caixão e cruz, pois nós vamos ficar aqui – assegurou.

A batalha pela retomada de terras indígenas não é de hoje no Mato Grosso do Sul. Neste Estado, onde se localizam os mais altos índices de assassinatos de indígenas, esta população luta há vários anos pela devolução de terras tradicionais e sagradas. Dentro deste contexto de luta já aconteceram diversos ataques como os de sexta-feira, muitos ordenados por fazendeiros insatisfeitos com a devolução das terras aos seus verdadeiros donos.

O conflito fundiário e judicial que envolve o território sagrado Arroio Koral parecia estar resolvido quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, em dezembro de 2009, um decreto homologando a demarcação da terra.

No entanto, em janeiro de 2010, o Supremo Tribunal Federal (STF), do qual está à frente o ministro Gilmar Mendes, suspendeu a eficácia do decreto presidencial em relação às fazendas Polegar, São Judas Tadeu, Porto Domingos e Potreiro-Corá.

O processo continua em andamento, mas tem caminhado a passos muito lentos, já que ainda não foi votado por todos os ministros. Assim, fartos da morosidade da justiça brasileira, os Guarani Kaiowá decidiram fazer a retomada da terra.

Os indígenas escreveram uma carta para os ministros do Supremo Tribunal Federal e para o Governo Federal em que reivindicam o despejo dos fazendeiros que ainda estão ocupando e destruindo territórios tradicionais já demarcados e reconhecidos pelo Estado brasileiro e pela Justiça Federal e exigem a devolução imediata de todos os antigos territórios indígenas.

- Sabemos que os pistoleiros das fazendas vão matar-nos, mas mesmo assim, a nossa manifestação pacífica começa 10 de agosto de 2012. Por fim, solicitamos, com urgência, a presenças de todas as autoridades federais para registrar as nossas manifestações pacíficas, étnicas e públicas pela devolução total de nossos territórios antigos – anuncia o último trecho da carta assinada por lideranças, rezadores, mulheres pertencentes ao Povo Kaiowá e Guarani dos acampamentos e das margens de rodovias, ameaçados pelos pistoleiros das fazendas, dos territórios reocupados e das Reservas, Aldeias Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul.

Carta da comunidade Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay-Iguatemi-MS para o Governo e Justiça do Brasil

Nós (50 homens, 50 mulheres e 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, viemos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de da ordem de despacho expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, do dia 29 de setembro de 2012. Recebemos a informação de que nossa comunidade logo será atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal, de Navirai-MS.

Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver à margem do rio Hovy e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay. Entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio e extermínio histórico ao povo indígena, nativo e autóctone do Mato Grosso do Sul, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy onde já ocorreram quatro mortes, sendo duas por meio de suicídio e duas em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas.

Moramos na margem do rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma assistência, isolados, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Passamos tudo isso para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs, avós, bisavôs e bisavós, ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados.

Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui.

Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação e extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal. Decretem a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e enterrem-nos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem mortos.

Sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de
Navirai-MS.

Fonte: CdB

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

José Genoino Neto: Carta Aberta ao Brasil

"Eles passarão, eu passarinho." Mário Quintana

Dizem, no Brasil, que as decisões do Supremo Tribunal Federal não se
discutem, apenas são cumpridas. Devem ser assumidas, portanto, como
verdades irrefutáveis. Discordo. Reservo-me o direito de discutir, aberta e
democraticamente com todos os cidadãos do meu país, a sentença que me foi
imposta e que serei obrigado a cumprir.

Estou indignado. Uma injustiça monumental foi cometida. Não é a primeira
vez. A Corte que me condenou também deportou Olga Benário para ser
assassinada num campo de concentração nazista. A Corte que me condenou não se opôs a ditadura militar e, depois, manteve a anistia para meus
torturadores. A Corte e a justiça brasileira, que foram tão duras comigo,
já foram lenientes, em relação a muitos grandes escândalos de corrupção,
que sequer foram convenientemente investigados. A Corte que agora me
condena sem provas, já absolveu outros políticos com provas em abundância e
retarda o julgamento de outros casos anteriores ao do PT.

A Corte errou. A Corte foi, sobretudo, injusta. Condenou um inocente. Me
condenou sem provas. Com efeito, baseada na teoria do domínio funcional do
fato, que, nessas paragens de teorias mal-digeridas, se transformou na
tirania da hipótese pré-estabelecida, construiu-se uma acusação escabrosa
que pôde prescindir de evidências, testemunhas e provas.

Sem provas para me condenar basearam-se na circunstancia de eu ter sido
presidente do PT. Isso é o suficiente? É o suficiente para fazerem tabula
rasa de todo uma vida dedicada, com grande sacrifício pessoal, à causa da
democracia e a um projeto político que vem libertando o Brasil da
desigualdade e da injustiça.

Pouco importa se não houve compra de votos. A tirania da hipótese
pré-estabelecida se encarrega de “provar” o que não houve. Pouco importa se
não cuidava das questões financeiras do partido. A tirania da hipótese
pré-estabelecida se encarrega de afirmar o contrário. Pouco importa se após
mais de 40 anos de política o meu patrimônio pessoal é o de um modesto
cidadão de classe média. Esta tirania afirma contra todas as evidencias que
não posso ser probo.

Nesse julgamento, transformaram ficção em realidade. Quanto maior a posição
do sujeito na estrutura do poder, maior sua culpa. Se o indivíduo tinha uma
posição de destaque, ele tinha de ter conhecimento do suposto crime e
condições de encobrir evidências e provas. Portanto, quanto menos provas e
evidências contra ele, maior é a determinação de condená-lo. Trata-se de
uma brutal inversão dos valores básicos da justiça e de uma criminalização
da política.

Esse julgamento ocorre em meio a uma diuturna e sistemática campanha de
ódio contra o meu partido e contra um projeto político exitoso que incomoda
setores reacionários incrustados em parcelas dos meios de comunicação, do
sistema de justiça e das forças políticas que nunca aceitaram a nossa
vitória. Nessas condições, como ter um julgamento justo e isento? Como
esperar um julgamento sereno, no momento em que juízes são pautados por
comentaristas políticos?

Além de fazer coincidir matematicamente o julgamento com as eleições,
verificamos na mais alta corte de justiça do país posições de parcialidade
política e ideológica.

Mas não se enganem. Na realidade, a minha condenação é a tentativa de
condenar todo um partido, todo um projeto político que vem mudando, para
melhor, o Brasil. Sobretudo para os que mais precisam

Mas eles fracassarão. O julgamento da população sempre nos favorecerá, pois
ela sabe reconhecer quem trabalha por seus justos interesses. Ela também
sabe reconhecer a hipocrisia dos moralistas de ocasião.

Retiro-me do governo com a consciência dos inocentes. Não me envergonho de
nada. Continuarei a lutar com todas as minhas forças por um Brasil melhor,
mais justo e soberano, como sempre fiz.

Essa é a história dos apaixonados pelo Brasil que decidiram, em plena
ditadura, fundar um partido que se propôs a mudar o país vencendo o medo. E conseguiram. E, para desgosto de alguns, conseguirão. Sempre.



São Paulo, 10 de outubro de 2012

José Genoino Neto

"A coragem é o que dá sentido à liberdade"


Você teria coragem de assumir como profissão a manipulação de informações e a especulação? Se sentiria feliz, praticamente em êxtase, em poder noticiar a tragédia de um político honrado? Acharia uma excelente ideia congregar 200 pessoas na porta de uma casa familiar em nome de causar um pânico na televisão? Teria coragem de mandar um fotógrafo às portas de um hospital no dia de um político realizar um procedimento cardíaco? Pois os meios de comunicação desse nosso país sim tiveram coragem de fazer isso tudo e muito mais. O texto é de Miruna Genoino.


Miruna Genoino
(*) Carta escrita pela filha de José Genoino.
Com essa frase, meu pai, José Genoino Neto, cearense, brasileiro, casado,
pai de três filhos, avô de dois netos, explicou-me como estava se sentindo em relação à condenação que hoje, dia 9 de outubro, foi confirmada. Uma frase saída do livro que está lendo atualmente e que me levou por um caminho enorme de recordações e de perguntas que realmente não têm resposta.

Lembro-me que quando comecei a ser consciente daquilo que meus pais tinham feito e especialmente sofrido, ao enfrentar a ditadura militar, vinha-me uma pergunta à minha mente: será que se eu vivesse algo assim teria essa mesma coragem de colocar a luta política acima do conforto e do bem estar individual? Teria coragem de enfrentar dor e injustiça em nome da democracia?

Eu não tenho essa resposta, mas relembrar essas perguntas me fez pensar em muitas outras que talvez, em meio a toda essa balbúrdia, merecem ser consideradas...

Você seria perseverante o suficiente para andar todos os dias 14 km pelo sertão do Ceará para poder frequentar uma escola? Teria a coragem suficiente de escrever aos seus pais uma carta de despedida e partir para a selva amazônica buscando construir uma forma de resistência a um regime militar? Conseguiria aguentar torturas frequentes e constantes, como pau de arara, queimaduras, choques e afogamentos sem perder a cabeça e partir para a delação? Encontraria forças para presenciar sua futura companheira de vida e de amor ser torturada na sua frente? E seria perseverante o suficiente ao esperar 5 anos dentro de uma prisão até que o regime político de seu país lhe desse a liberdade?

E sigo...
Você seria corajoso o suficiente para enfrentar eleições nacionais sem nenhuma condição financeira? E não se envergonharia de sacrificar as escassas economias familiares para poder adquirir um terno e assim ser possível exercer seu mandato de deputado federal? E teria coragem de ao longo de 20 anos na câmara dos deputados defender os homossexuais, o aborto e os menos favorecidos? E quando todos estivessem desejando estar ao seu lado, e sua posição fosse de destaque, teria a decência e a honra de nunca aceitar nada que não fosse o respeito e o diálogo aberto?

Meu pai teve coragem de fazer tudo isso e muito mais. São mais de 40 anos dedicados à luta política. Nunca, jamais para benefício pessoal. Hoje e sempre, empenhado em defender aquilo que acredita e que eu ouvi de sua boca pela primeira vez aos 8 anos de idade quando reclamava de sua ausência: a única coisa que quero, Mimi, é melhorar a vida das pessoas...

Este seu desejo, que tanto me fez e me faz sentir um enorme orgulho de ser filha de quem sou, não foi o suficiente para que meu pai pudesse ter sua trajetória defendida. Não foi o suficiente para que ganhasse o respeito dos meios de comunicação de nosso Brasil, meios esses que deveriam ser olhados através de outras tantas perguntas...

Você teria coragem de assumir como profissão a manipulação de informações e a especulação? Se sentiria feliz, praticamente em êxtase, em poder noticiar a tragédia de um político honrado? Acharia uma excelente
ideia congregar 200 pessoas na porta de uma casa familiar em nome de causar um pânico na televisão? Teria coragem de mandar um fotógrafo às portas de um hospital no dia de um político realizar um procedimento
cardíaco? Dedicaria suas energias a colocar-se em dia de eleição a falar, com a boca colada na orelha de uma pessoa, sobre o medo a uma prisão que essa mesma pessoa já vivenciou nos piores anos do Brasil?
Pois os meios de comunicação desse nosso país sim tiveram coragem de fazer isso tudo e muito mais.

Hoje, nesse dia tão triste, pode parecer que ganharam, que seus objetivos foram alcançados. Mas ao encontrar-me com meu pai e sua disposição para lutar e se defender, vejo que apenas deram forças para que esse genuíno homem possa continuar sua história de garra, HONESTIDADE e defesa daquilo que sempre acreditou.

Nossa família entra agora em um período de incertezas. Não sabemos o que virá e para que seja possível aguentar o que vem pela frente pedimos encarecidamente o seu apoio. Seja divulgando esse e/ou outros textos que existem em apoio ao meu pai, seja ajudando no cuidado a duas crianças de 4 e 5 anos que idolatram o avô e que talvez tenham que ficar sem sua presença, seja simplesmente mandando uma palavra de carinho. Nesse momento qualquer atitude, qualquer pequeno gesto nos ajuda, nos fortalece e nos alimenta para ajudar meu pai.

Ele lutará até o fim pela defesa de sua inocência. Não ficará de braços cruzados aceitando aquilo que a mídia e alguns setores da política brasileira querem que todos acreditem e, marca de sua trajetória, está muito bem e muito firme neste propósito, o de defesa de sua INOCÊNCIA e de sua HONESTIDADE. Vocês que aqui nos leem sabem de nossa vida, de nossos princípios e de nossos valores. E sabem que, agora, em um dos momentos mais difíceis de nossa vida, reconhecemos aqui humildemente a ajuda que precisamos de todos, para que possamos seguir em frente.

Com toda minha gratidão, amor e carinho,
Miruna Genoino
09.10.2012

domingo, 7 de outubro de 2012

Um tribunal que condena por achar que existe crime onde faltam provas


Ouvi estarrecido de uma ministra do Supremo que não achava razoável supor que o ex-ministro não soubesse do esquema de pagamentos, presumindo-se, desde logo, que os pagamentos teriam sido feitos para comprar votos e não para pagar dívidas de campanha. Ela não disse que os autos demonstram inequivocamente que Dirceu soubesse do esquema. Ela disse o que teria dito um magistrado da ditadura: que Dirceu teve a intenção de montar o esquema O artigo é de J. Carlos de Assis.
J. Carlos de Assis*

Fui um dos últimos, talvez o último jornalista a ser processado por crime de opinião nos termos da infame Lei de Segurança Nacional da ditadura, em 1983. Havia feito uma série de reportagens na “Folha de S. Paulo” vinculando uma trama financeira fraudulenta na cúpula da Capemi a personagens proeminentes do antigo SNI, Serviço Nacional de Informações. A acusação contra mim não era que houvesse mentido mas sim que, ao divulgar informações que podiam até mesmo ser verdadeiras, tinha, em hipótese, a intenção de desestabilizar o regime.

Assim era a Justiça da ditadura: julgava pela intenção imputada subjetivamente, não pelo fato. Contudo, meu processo caiu em mãos de um destemido juiz militar, Helmo Sussekind, que me deu o direito da “exceção da verdade”. A exceção da verdade é a figura jurídica que possibilita ao processado fazer a prova de que o que escreveu ou disse era a verdade, independentemente de intenção. Esse, aliás, é o fundamento que torna a liberdade de imprensa efetivamente justa. Do contrário, seria uma cobertura para a calúnia, a injúria e a difamação.

Recordo-me dessa experiência pessoal porque vejo o Supremo Tribunal Federal caminhar para um tipo de jurisprudência, no caso do chamado mensalão, em que se substitui a criteriosa apuração do fato por uma odiosa e subjetiva suposição sobre as intenções. Supõe-se, sem prova convincente, que recursos financeiros mobilizados pelo PT foram usados para comprar votos. Supõe-se, sem prova convincente, que esse esquema de compra de votos foi comandado pelo ex-chefe da Casa de Civil José Dirceu.

Até as pedras sabem que o sistema de coligações partidárias no Brasil, dada a existência de mais de 30 partidos, implica transações financeiras através de caixas um ou de caixas dois, sobretudo no que diz respeito a compra de tempo de televisão nas campanhas eleitorais. Não há nenhuma ideologia nesse processo, e os que gostariam que houvesse não conhecem a democracia real nem aqui nem em nenhuma parte do mundo. Portanto, no rescaldo das eleições, sempre há acertos financeiros a fazer por conta dos acordos anteriores independentemente do comportamento corrente das bancadas no Congresso.

O contorcionismo feito pelos procuradores e pelo relator do mensalão para demonstrar uma vinculação entre pagamentos pelo esquema de Valério e votações no Congresso é simplesmente ridículo. Não tiveram o cuidado sequer de convocar um estatístico para examinar as correlações. Se chamassem, veriam que não existem correlações significativas do ponto de vista científico. Num processo que tem mais de 60 mil páginas, era de se esperar um pouco mais de escrúpulo para quem cuida de julgar destinos humanos e de suas liberdades.

No caso de Dirceu é ainda mais fantástico. Ouvi estarrecido de uma ministra do Supremo que não achava razoável supor que o ex-ministro não soubesse do esquema de pagamentos, presumindo-se, desde logo, que os pagamentos teriam sido feitos para comprar votos (crime de corrupção ativa e passiva) e não para pagar dívidas de campanha (irregularidade eleitoral). Ela não disse que os autos demonstram inequivocamente que Dirceu soubesse do esquema. Ela disse o que teria dito um magistrado da ditadura: que Dirceu teve a intenção de montar o esquema!

Ainda há seis votos antes da decisão final. São seis votos que separam o Supremo da vergonha de ter sacrificado inocentes sob pressão da uma campanha de mídia infamante, cujo argumento mais sólido, em toda essa tragicomédia, é de que é preciso pegar os peixes grandes para saciar a sede de vingança da opinião pública em relação aos políticos. Sim, os dirigentes do PT denunciados pelo chamado mensalão são aparentemente peixes grandes. Contudo, chegaram aonde chegaram pelo voto popular no exercício da democracia. O número de votos que os pôs lá é grande demais para ter sido comprado.

Naturalmente que a manipulação da opinião pública pela mídia influi em ministros de caráter fraco. Daí o risco para a Justiça e para a democracia. Mas sempre existe uma saída. O ministro Levendowsky provou a todos nós, que acreditam na independência do Judiciário, que nem tudo está perdido. A própria transparência dos debates no STF ajudam aos mais atentos a formar essa opinião: se por um lado ela favorece o estrelismo do relator, por outro deixa clara a insuficiência da denúncia. Por exemplo, ficou mais do que demonstrado que um mensalão, tal como inicialmente “denunciado” na forma de pagamentos mensais regulares, jamais existiu, tendo-se apenas conservado o nome por vício mídiatico.

(*) Economista e professor de Economia Internacional na UEPB, autor, entre outros livros de Economia Política, do recém-lançado “A Razão de Deus”, pela editora Civilização Brasileira. Esta coluna sai também nos sites Rumos do Brasil e Brasilianas, e, ás terças, no jornal carioca Monitor Mercantil.
Nossa fonte: Carta Maior

Consenso de Brasília, modelo para armar na América Latina

Depois do neoliberalismo extremo do Consenso de Washington, que gerou mais de uma década social perdida, a América Latina experimenta exitosamente uma receita própria: o Consenso de Brasília, que conjuga economia de mercado e inclusão social. "O modelo brasileiro teve um impacto muito positivo como exemplo de que as coisas podem ser feitas de outra maneira: promovendo o crescimento sem renunciar à equidade social", diz José Rivera, secretário permanente do Sistema Econômico Latinoamericano (SELA).

Estrella Gutiérrez - IPS

Caracas (IPS) - Depois do neoliberalismo extremo do Consenso de Washington, que gerou mais de uma década social perdida, a América Latina experimenta exitosamente uma receita própria: o Consenso de Brasília, que conjuga economia de mercado e inclusão social.

Batizado por Michael Shifter, presidente do independente Diálogo Interamericano, como Consenso de Brasília, por contrapor-se ao Consenso de Washington, é conhecido também como "lulismo", em alusão ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ou modelo brasileiro, e acrescenta seguidores latino-americanos entre governos de esquerda e de direita.

O secretário permanente do Sistema Econômico Latinoamericano(SELA), o mexicano José Rivera, disse a IPS: "O modelo brasileiro teve um impacto muito positivo como exemplo de que as coisas podem ser feitas de outra maneira: promovendo o crescimento sem renunciar à equidade social".

A América Latina e o Caribe, disse, "devem ter como aspiração regional estar integradas, vinculadas e unidas no objetivo comum de que se reduzam as assimetrias e se possa avançar nas grandes dívidas sociais pendentes".

Rivera considerou que para percorrer esse caminho "são positivos os exemplos, ainda mais se são próprios, de governos eficientes em abordar uma dívida social que não se consegue corrigir na região, onde um de cada três latino-americanos vivem na pobreza e cerca de 90 milhões sobrevivem com menos de um dólar por dia".

Consultado por IPS, Shifter afirmou que os traços do Consenso de Brasília "continuam intactos e vigentes", mesmo que Lula tenha deixado a Presidência do Brasil em janeiro de 2011 e o contexto internacional tenha piorado e, em consequência, o regional.

“Não mudou o modelo representado pela ênfase em três eixos: crescimento econômico, equidade social e governabilidade democrática", explica.

“Sua vigência”, acrescentou, “confirma sua propagação como guia de governança para numerosos países da região, seja qual for o ideário político de seu presidente ou presidenta. Isto contrasta com o ocaso ou "encausamento" de outras propostas mais radicais, que foi comandada pelo mandatário venezuelano Hugo Chávez na primeira década do século.

Se trata de uma visão contraposta ao pacote de medidas que os organismos financeiros internacionais e centros de poder com sede em Washington impuseram à América Latina após o estouro de suas crises de dívida soberana em 1984 e, sobretudo, durante a década de 90.

O programa de 10 pontos, síntese da ideologia neoliberal, forçou inclementes ajustes, com eliminação do déficit fiscal, reordenamento do gasto, liberalização financeira e monetária, aumentos de impostos, abertura de mercados e investimentos e massivas privatizações. Tudo para pagar a dívida e estabelecer novas bases para o crescimento econômico.

Na prática, as reformas estiveram longe de gerar crescimento, promoveram a desindustrialização regional e fizeram cair o produto interno bruto por quase uma década, balizada por várias crises financeiras nacionais, algumas de alcance global.

Mas o mais grave foi seu impacto na população. Durante a "década perdida", o gasto social se minimizou em todos seus ramos, em especial na educação, na saúde, na moradia e na assistência aos setores mais vulneráveis, enquanto também pioraram as condições trabalhistas.

A consequência foi o incremento da pobreza e da indigência, uma maior favelização das cidades e o predomínio da economia e do trabalho informal, entre outros impactos negativos.

Lula consolidou, durante seus oito anos no poder (janeiro de 2003 à janeiro de 2011), outro modelo que mantém o pilar da estabilidade macroeconômica e fiscal, a autonomia da autoridade monetária e o cambio livre, mas que acrescenta agressivas políticas industriais e de produção interna.

Além disso, adiciona-se como prioridade a inclusão social, com aumento de salários, geração de empregos formais e um alto gasto em políticas para erradicar a fome, reduzir a pobreza, melhorar a educação e a saúde e, em geral, uma maior transferência de renda à sociedade.

Como marco central, a democracia, com a ampliação de direitos e o incentivo à participação cidadã e sua organização pela base.

Shifter, cujo instituto tem sede em Washington, assegurou que a sucessora de Lula, Dilma Rousseff, "decidiu ter um menor protagonismo global que Lula, mas isso não afeta o modelo do Consenso de Brasília". Ela "tem outro estilo, outras prioridades e outro tipo de liderança", sintetizou.

Rousseff aplicou diferentes políticas para estimular a economia e amortizar o impacto da recessão econômica no Norte industrial, em especial na Europa. Preocupou-se, além disso, em reforçar os programas sociais nesse novo cenário desfavorável.

Uma recente frase sua ressalta a sua postura. "Eu, o que quero e pelo que luto é para que o Brasil se transforme na sexta potência social", afirmou sobre o fato de que seu país tenha passado a ser a sexta economia mundial e avance para a quinta posição.

Entre os países latino-americanos cujos governos têm como guia geral, com suas variáveis, o Consenso de Brasília, Shifter citou o Chile, a Colômbia, El Salvador e Uruguai. Outras administrações tomam vários elementos, enquanto "híbridos" entre o lulismo e o chavismo como é o caso da Argentina e do Paraguai, até a derrubada de seu presidente Fernando Lugo, em junho.

O estudioso deu especial relevância ao caso do presidente do Peru, Ollanta Humala, que escolheu o lulismo e não o modelo "bolivariano de Chávez", abrindo seu ocaso regional.

Também considerou notável que, na Venezuela, o candidato opositor para as eleições deste domingo, dia sete, Henrique Capriles, "sublinha que seu modelo é Lula, e seu programa o confirma".

Barro nos pés
Mas, embora o Consenso de Brasília não tenha os pés de barro, tem, sim, barro nos pés, por sua forma de desenvolvimento histórico e também, no passado imediato, pelas sequelas do Consenso de Washington.

Rivera, máximo dirigente do SELA, com sede em Caracas, destacou que as brechas sociais continuam presentes na região e "se necessita um grande e continuado esforço para consolidar a inclusão e a equidade social".

Com esse objetivo, a região tem diante de si três desafios, esboçou o chefe do organismo que congrega 28 países latino-americanos e caribenhos.

O primeiro é "crescer a taxas maiores às atuais e de maneira sustentável, porque não é saudável um comportamento irregular" e para que "os Estados possam enfrentar seus compromissos com a população", acrescentou.

O crescimento deve ser "sustentador além de sustentável ", em segundo lugar. Tem que "ir em direção a um crescimento de economia verde, porque até agora se destruiu o ambiente, se danificaram os recursos naturais e se produziu de forma ineficiente", disse.

O terceiro "é o desafio da inclusão e o de abrir espaços nos mercados internos para que a gente saia da pobreza e se incorpore à classe media", frisou.

E esta combinação de metas, refletiu, requer "em definitivo, um novo direcionamento do Estado", que elimine as ainda muito visíveis cicatrizes do Consenso de Washington.(FIM/2012)
Nossa fonte: Carta Maior

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A lição de método de Marx e o legado de Hobsbawm

Paul Valéry, no início de sua “Introdução ao Método de Leonardo da Vinci”, disse que “o que fica de um homem é o que nos leva a pensar seu nome e as obras que fazem desse nome um signo de admiração, de ódio ou de indiferença”. A obra de Eric Hobsbawm é um signo de admiração e de lições para o século XXI. Em um de seus últimos trabalhos, reafirmou sua confiança política e metodológica na obra de Marx: “o liberalismo econômico e o liberalismo político, sozinhos ou combinados, não conseguem oferecer uma solução para os problemas do século XX. Mais uma vez chegou a hora de levar Marx a sério”.

Marco Aurélio Weissheimer

Em um de seus últimos trabalhos publicados no Brasil (Como Mudar o Mundo – Marx e o Marxismo. Companhia das Letras, 2011), Eric Hobsbawm conta a seguinte história para falar da força e da atualidade do pensamento de Marx:

“No Cemitério Highgate estão sepultados dois pensadores do século XIX – Karl Marx e Herbert Spencer – e, curiosamente, da tumba de um se avista o outro. Quando ambos eram vivos, Herbert era considerado o Aristóteles da época, enquanto Karl era um sujeito que morava nas ladeiras mais baixas de Hampstead à custa do dinheiro do amigo [Engels]. Hoje ninguém sabe que Spencer está sepultado ali, enquanto peregrinos idosos, vindos do Japão e da Índia, visitam o túmulo de Karl Marx, e comunistas exilados iranianos e iraquianos fazem questão de ser enterrados à sua sombra” (Como Mudar o Mundo – Marx e o Marxismo, p. 14).

Marx foi um autor que acompanhou a vida e a obra do historiador inglês, que morreu na manhã desta segunda-feira (1º), aos 95 anos. O livro citado acima é uma coletânea de textos que Hobsbawm escreveu sobre o assunto entre 1956 e 2009, “um estudo sobre a evolução e o impacto póstumo do pensamento de Karl Marx (e de seu amigo inseparável Friedrich Engels)”, como ele próprio define. Nesta obra, o historiador defende uma tese central: “Marx é hoje, mais uma vez, e com toda justiça, um pensador para o século XXI”. Como uma das melhores formas de homenagear alguém que partiu é manter acesa a memória das obras de uma vida, cabe falar um pouco sobre essa tese que sintetiza uma parte importante das preocupações e compromissos desse historiador extraordinário.

Paradoxalmente, observou Hobsbawm, quem “redescobriu” Marx foram os capitalistas e não os socialistas. O ano de 1998 foi emblemático neste processo. Neste ano, comemorou-se o sesquicentenário do Manifesto Comunista. A data coincidiu, ironicamente, com o início de uma forte turbulência na economia internacional. Hobsbawm relata que ficou espantado quando, num almoço mais ou menos na virada do século, George Soros perguntou o que ele achava de Marx: “Por saber o quanto nossas ideias eram divergentes, preferi evitar uma discussão e dei uma resposta ambígua. Esse homem, disse Soros, descobriu uma coisa com relação ao capitalismo, há 150 anos, em que devemos prestar atenção”.

Alguns depois, em 2008, o jornal londrino Financial Times estampou em sua manchete: “Capitalismo em convulsão”. “Não podia mais haver dúvida de que Marx estava de volta aos refletores. Enquanto o capitalismo mundial estiver passando por sua mais grave crise desde o começo da década de 1930, será improvável que Marx saia de cena. Por outro lado, o Marx do século XXI será, com certeza, bem diferente do Marx do século XX”, advertiu Hobsbwam. Quais seriam essas diferenças?

O Marx do século XXI
A resposta a essa pergunta está intimamente ligada ao diagnóstico sobre quais aspectos da análise de Marx continuam válidos e relevantes. O historiador inglês destaca dois deles: (i) a análise da dinâmica global do desenvolvimento econômico capitalista e de sua capacidade de destruir tudo o que se antepuser a ele; (ii) a análise do mecanismo de crescimento capitalista, por meio da geração de contradições internas, levando a crises sucessivas e a uma crescente concentração econômica numa economia cada vez mais globalizada.

E a força dessas análises reside, em larga medida, no método empregado por Marx, um método que rejeita a ideia de modelo e procura pensar o mundo como um todo. Não se trata de um pensamento interdisciplinar no sentido convencional, assinala Hobsbwam, mas de um pensamento que integra todas as disciplinas, abordando os fenômenos sociais a partir de distintos pontos de vista: econômicos, políticos, científicos e filosóficos. “Não podemos prever as soluções dos problemas com que se defronta o mundo no século XXI, mas, quem quiser solucioná-los, deverá fazer as perguntas de Marx, mesmo que não queira aceitar as respostas dadas por seus vários discípulos”, defende o historiador.

Marx tem, pois, uma lição metodológica que é, de diferentes modos, destacada por Hobsbawm. No método de Marx, não há lugar para determinismos, dogmas ou modelos pré-concebidos que possam ser aplicados mecanicamente a qualquer momento histórico. E esses pressupostos foram assumidos também por Hobsbawm em seu trabalho como historiador. No final do artigo “Marx e o trabalhismo: o longo século” (op.cit. pp. 358-375), ele reflete sobre os fracassos do século XX, os problemas do século XXI, reafirmando sua confiança no método de análise de Marx:

“Paradoxalmente, ambos os lados têm interesse em voltar a um importante pensador cuja essência é a crítica do capitalismo e dos economistas que não perceberam aonde levaria a globalização capitalista, como ele previra em 1848. Mais uma vez é óbvio que as operações do sistema econômico devem ser analisadas tanto historicamente, como uma fase da história, e não como seu fim, quanto de forma realista, isto é, em termos não de um equilíbrio de mercado ideal, e sim de um mecanismo integrado que gera crises periódicas capazes de transformar o sistema.” (op.cit. p.375)

Para Hobsbawm, a crise atual mostra que o “mercado” não tem nenhuma resposta para o “principal problema com que se defronta o século XXI”: “o fato de que o crescimento econômico ilimitado e cada vez mais tecnológico, em busca de lucros insustentáveis, produz riqueza global, mas às custas de um fator de produção cada vez mais dispensável, o trabalho humano, e, talvez convenha acrescentar, dos recursos naturais do planeta”. O historiador conclui: “O liberalismo econômico e o liberalismo político, sozinhos ou combinados, não conseguem oferecer uma solução para os problemas do século XX. Mais uma vez chegou a hora de levar Marx a sério”.

O que fica de um homem?
Paul Valéry, no início de sua formidável “Introdução ao Método de Leonardo da Vinci” (publicado no Brasil pela editora 34), disse que “o que fica de um homem é o que nos leva a pensar seu nome e as obras que fazem desse nome um signo de admiração, de ódio ou de indiferença. Pensamos que ele pensou, e podemos reencontrar entre suas obras esse pensamento que lhe é dado por nós: podemos refazer esse pensamento à imagem do nosso”.

A longa, profícua e aguda obra de Hobsbwam está aí para que nós melhoremos o nosso próprio pensamento sobre a nossa história e, sobretudo, sobre os desafios que o presente desfia a nossa frente. Não há fim da história, o mercado não é um deus e os homens e mulheres seguem lutando para sobreviver e levar a humanidade a um patamar melhor do que o que está aí. As palavras, as reflexões e a vida de Eric Hobsbwam seguirão a nossa disposição para deixar esse caminho um pouco menos sombrio.
Fonte: Carta Maior

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Os sentidos do lulismo, reforma gradual e pacto conservador


O novo livro de André Singer, "Os sentidos do lulismo - reforma gradual e pacto conservador", resgata abordagem da sociologia política e eleitoral, e reintroduz temas clássicos para abordar as diferenças de programa entre o "lulismo" e o PT. Além disso, procura fazer uma caracterização dos oito anos de governo Lula, identificando esse período como o de um fraco reformismo, adaptado as condições da política econômica, mas com importantes rupturas com o modelo neoliberal.

Ana Paula Salviatti

São Paulo - O lançamento do mais novo livro de André Singer, "Os sentidos do Lulismo - reforma gradual e pacto conservador", dia 18 de setembro, na Universidade de São Paulo, contou com a participação dos professores Brasílio Sallum Jr. e Francisco de Oliveira, do departamento de Sociologia, Bernardo Ricupero e mediação de Cicero Araujo, ambos do departamento de Ciência Política.

Ao analisar a conjuntura política do país, Singer propõe uma diferenciação essencial entre os governos FHC e Lula. Os anos de Fernando Henrique, defende, caracterizaram-se por um governo estritamente ligado à cartilha neoliberal, enquanto os anos de governo Lula ficaram registrados pelas rupturas e recombinações feitas na contramão dessa cartilha, por meio do fomento do mercado interno, aumento do emprego, do crédito e do consumo.

Singer apresenta sua tese sobre o lulismo caracterizando-o a partir do conceito de populismo, ilustrado pelo que chamou de "Espírito de Sion". Dentro desta chave, Singer aponta as diferenças entre o programa de governo de Lula e do PT, destacadas após a publicação da Carta aos Brasileiros, de julho de 2002, em que Lula teria incorporado e submetido o Partido dos Trabalhadores. O livro de André Singer evoca conceitos clássicos, como o de classe social, para construir um dos pilares de sua argumentação em torno das políticas instituídas durante o governo lula.

O debate
Segundo Ricupero, na construção de Singer, Lula aparece como um "líder mediador de classe". Durante seu governo houve o "estabelecimento de uma nova classe média, por meio de lentas conquistas sociais sem luta de classes".

Quanto ao lulismo, Ricupero assinala que a Carta aos Brasileiros, caracterizada por André Singer como o Espírito de Sion, ao afirmar o compromisso de realização dos contratos, trouxe consigo uma aproximação com partidos como PFL e PSDB. Ricupero apontou que Lula teve um "governo que agradou ao subproletariado do nordeste e ao capital financeiro", caracterizando-se assim como um governo de "reformismo fraco, mais adaptado às circunstâncias do que pautado por transformações".

Para Ricupero, "hoje o consumo dá sinais de desgaste e o nordeste já não é o lugar tão seguro ao lulismo quanto antes".
Brasilio Salllum Jr. elogiou o resgate feito por Singer da sociologia eleitoral, dando novo fôlego ao conceito de luta de classes. “O texto rompe com os trabalhos de sociologia cultural para fazer um trabalho de sociologia política”. Para ele, faltou a exposição de que "hoje estamos diante de um Estado moderadamente liberal, onde as instituições regulam a vida política econômica, e que, assim, o lulismo estaria dentro deste quadro institucional". Na perspectiva de Sallum, "o lulismo ainda apresenta muitas continuidades com o passado institucional democrático, com demandas advindas da democratização".

Chico de Oliveira apresentou três discordâncias fundamentais em relação ao conteúdo do livro de Singer. Quanto ao uso do conceito de classe, ao uso da ideia de subproletariado e, por fim, a existência de mais pontos em comum entre os governos de FHC e Lula do que diferenças.

O uso do conceito de classes feito por Singer, disse, “apesar de ter recuperado para a sociologia política termos em desuso, o que é de uma grande importância, o faz de forma muito elástica". Segundo Chico de Oliveira, da forma como Singer expôs “classe, no final das contas, fica identificada com os números que votam de determinada forma”. Tal aplicação do conceito facilitaria, mas também enfraqueceria o argumento político, prova disso “é que este argumento não cola com a conjuntura atual, em que em São Paulo Haddad não consegue alcançar Russomano”.

O segundo ponto que Oliveira apontou é que hoje o subproletariado está em São Paulo e que no nordeste estariam os herdeiros de uma antiga miséria. Por fim, destacou, o crescimento da economia capitalista durante os anos de FHC foi de 2% e o de Lula, 3,5%, números que os aproximam mais do que os diferenciam, na interpretação de Oliveira.

Para Singer, Lula, em julho de 2002, assumiu para si o partido, na Carta aos Brasileiros. “O lulismo não é o programa original do PT, inclui temas, mas é outro projeto que tomou conta do PT,” ação que André caracteriza como espírito de Sion. “Há setores que não aderiram ao espírito de Sion, mas a direção nacional está seguindo este rumo.”

Quanto à característica de reformismo do governo Lula, Singer argumentou: “O ritmo de queda da desigualdade, segundo dados do Ipea, é compatível com o New Deal. Porém o ponto de partida é muito diferente. Os EUA e a Europa partiram de um patamar de desigualdade muito distante no nosso. O Brasil tem um acúmulo de desigualdade tão grande que mesmo esta queda com enorme ritmo de avanço fica aquém”. Singer caracterizou esse “reformismo conservador” como um “reformismo lento, em comparação com o tamanho da desigualdade. O New Deal, em comparação ideológica, foi muito mais rápido do que o nosso, um reformismo fraco.”

Sobre as diferenças entre Lula e FHC, Singer identificou “mudanças que quebram o projeto neoliberal. Uma recombinação de elementos neoliberais e outros completamente não neoliberais, como, por exemplo, essa ativação do mercado interno, aumento do crédito, aumento do consumo, aumento do emprego, indo na contramão do neoliberalismo.”

A influência eleitoral e o conceito de classe
“Estou realmente usando o conceito de forma elástica. É um conceito muito difícil de operacionalizar, não é simples fazer análises atuais sobre a condição de classe nem no Brasil, nem no mundo. A evidência que apresento para afirmar que o lulismo é uma influência eleitoral é a presidência de Dilma, 12 milhões de votos a mais do que Serra no segundo turno, sendo que 11 milhões vieram do norte e nordeste.”

Para Singer, as novidades trazidas pelo governo Lula estão “em políticas direcionadas aos setores de menor renda, e não apenas a valorização de commodities, como no governo FHC, e na aplicação de políticas de alavancagem aos setores de menor renda. Penso que, apesar de a economia hoje não estar crescendo, o governo conseguiu blindar o trabalho do problema do desemprego, que anda na casa dos 5%, o que para os economistas ainda é pleno emprego. Isso é efeito das políticas de Lula que blindaram este setor da economia ao fomentar a classe mais baixa”.
Fonte: Carta Maior

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Seminário debate sobre redesenho do mundo multipolar


No debate sobre “O Mercosul e a Unasul: Desafios para o Aprofundamento da Integração Sul-Americana” , dentro da programação do Seminário Política Externa Brasileira: Desafios em um mundo em transição, o ministro Marco Aurélio Garcia, assessor para Assuntos Internacionais da Presidência da República, afirmou que “depois do colapso do sistema bipolar e o posicionamento unipolar dos Estados Unidos, começamos a assistir o desenho de um mundo que poderíamos chamar de multipolar”.
Segundo ele, nesse mundo multipolar, o Brasil tomou a decisão de não querer ser um polo econômico-político por si só, mas, ao contrário, quer formar um polo com os outros países da América do Sul. “Daí a o surgimento e a importância da Unasul e o Mercosul”, afirmou o ministro. Ainda segundo Garcia, é necessário entendimento maior sobre as duas instituições da América do Sul que, na verdade, “são duas formas convergentes de integração regional”.

O embaixador Antônio Simões, que também participou do debate que acontece nesta terça e quarta-feira (18 e 19) na Câmara dos Deputados, em Brasília, abordou as transformações sofridas pela região e que deram fôlego para se chegar ao processo de integração, representando pela Unasul e pelo Mercosul.

“O mundo de hoje é bem diferente de 20 anos atrás. Os EUA ainda estão na ponta, mas hoje em dia o poder de intervenção deles não é mais como foi. A Europa também: a crise está instalada, o modelo está em cheque. A locomotiva do mundo não está mais nos países ricos, está no mundo emergente, e a América do Sul é um dos palcos dessa nova locomotiva”, defendeu o embaixador.

Ainda segundo Simões, “em 2030, 50% da produção mundial estará exatamente nos países emergentes”. Para os palestrantes, as alavancas dessa integração são representadas pela transformação do grande contingente populacional pobre em massa populacional com poder econômico. Além disso, vários países da América do Sul tornaram-se credores e não mais devedores de instituições financeiras internacionais.

Eles avaliam ainda que o potencial energético da região, principalmente a capacidade petrolífera de Brasil e Venezuela, comprova a importância da região em um mundo ávido por recursos energéticos. “O Brasil, por exemplo, que nos anos 80 não tinha petróleo, vai se colocar entre os 10 primeiros produtores do mundo, depois da descoberta do Pré-Sal”.

Brics e a Primavera Árabe

Na discussão do tema “O Contexto Geopolítico Internacional e os desafios à Política Externa Brasileira”, os BRICS e os desdobramentos políticos, diplomáticos e econômicos da Primavera Árabe e do Oriente Médio tomaram conta das discussões do painel.

“Hoje o que chama a atenção da comunidade internacional é esse mecanismo político diplomático que foi constituído entre Brasil, Russia, China, Índia e, mais recentemente, a África do Sul” afirmou a professora da Unifesp, Cristina Pecequilo.

O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães discursou sobre a crise financeira do sistema neoliberal que levou à crise econômica mundial. “Muitos países eram citados como modelos permanentes aos países em desenvolvimento, por isso, nós, subdesenvolvidos, deveríamos adotar as mesmas políticas. Foi justamente por não ter privatizado tudo, que não seguimos no mesmo caminho dessas nações em crise. Se assim não fosse, hoje o Estado não teria mecanismos para lutar”, defendeu o embaixador.

O professor Reginaldo Mattar Nasser, da PUC de São Paulo, ofereceu explicações sobre o momento delicado em que vive o Oriente Médio, falou do grande interesse dos países ricos do G7 na região e criticou a demora da diplomacia brasileira em se posicionar. “No processo de reconhecimento da primavera árabe houve uma inaceitável demora do posicionamento da diplomacia brasileira no reconhecimento do processo. Um debate como esses nos ajuda a refletir nossas posições”, defendeu.

Da Redação de Vemelho, em Brasília
Com informações da Com. Rel. Exteriores

 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Sobre Mística e Racionalismo


“Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá...”
Gilberto Gil
Para Iori
9/9/2012

Roberto Jorge Regensteiner   

Há, sim, compatibilidade entre Mística e Racionalismo.
Mística no sentido de Fé. A mesma Fé que nos permite dar um passo após o outro com a certeza de que não vamos cair. Fé como confiança de que sabemos caminhar. Fé adquirida e conquistada aos tombos, aos trancos e barrancos, a maior parte dos quais jaz esquecido no fundo da memória. Tombos esquecidos são como andaimes que ajudam na construção dos edifícios e depois são retirados quando as estruturas permitem que se sustentem de pé, por si sós.

Ao aprender a andar,
os Humanos definem (como que),
um ponto inicial,
de uma reta, de um segmento, de um percurso, de uma trajetória,
de uma história,
na qual usando o Racionalismo
e outras ferramentas
(mentais, cerebrais, sensoriais)
que a espécie humana inventou
(ou descobriu existirem na natureza,
como a lógica ou a geometria)...
E a partir da Fé
buscam no futuro
qual náufragos olhando as estrelas,
em busca de esperança,
da luz de um farol,
de um sinal
indicando a presença de Terra e Vida...
Entre o início e o fim de cada vida,
se desenrola um fio,
que se entrelaça
a outros fios.
Forma panos coloridos,
panos pendurados num varal,
como roupa lavada por mãe,
compondo caleidoscópicas formas,
re-arranjadas pelo balanço de ventos fortes.
Haverá espírito capaz de iluminar a escuridão
que existe para além do farol?
que existe para além das estrelas?
Haverá pessoa que com segura certeza
enxergue para além do que vê
a atenta sentinela que
do alto do mastro perscruta
o céu e os horizontes?
Haverá pessoa que
com científico fundamento
analise telas de telescópios,
interprete ondas e lasers, neutrinos e bósons, quarks e irks?
e descreva:
que pedaço do infinito universo é este,
que elipticamente em torno do sol vagueia pela eterna noite.
Sabemos pela História
que Grandes Navegantes
quando para a Europa retornaram
não foram bem compreendidos
(ainda que supuséssemos
que a tudo houvessem entendido
o quê – como sabemos – não é verdade).
Problemas surgem quando
Racionalismos exigem uma Fé,
que é uma Fé que não nasce da experiência,
ou do convencimento racional.
Quando o convencimento não nasce da Razão,
quando a Fé se confunde
com silêncio, com submissão,
com magia ou ilusão.
Como o crente que se aproxima ao rebanho
para saciar sua sede de água,
sua fome de comida,
a carência afetiva,
a pertença social,
afirmação identitária.
E se engana ao chamar a tudo isto de Deus.
Ou engana ao fazer de conta que nisto acredita.
Ou, se confunde e já nada mais de si sabe
e entrega ao pastor,
ao superior,
a decisão do certo ou errado,
da bronca ou do perdão,
da verdade e da mentira,
da realidade ou da ilusão.

Bienal de Arte num dia de sol quente


 Mazé Leite *

Vidro soprado. Cópia de cabeça. Fios elétricos. Aros de rodas de bicicletas. Fotografias... Pedaços de pano velho. Pedaços de pau velho. Um penico de banheiro masculino. Fotografias... Rolos de barbante pendurados. Vídeos. Salas performáticas. Cordas penduradas. Fotografias... Pedaços de madeira usada. Restos de construção. Terra. Sacos de plástico. Fotografias... Papeis canson mil-teintes enrolados na parede. Serpentinas. Portas velhas. Fotografias...
Tijolos enrolados em papel celofane. Roupas velhas. Vasos velhos. Fotografias... Sete telas em branco “pintadas” com água do mar. Arcos com velas. Trouchas de pano. Fotografias... Dois lados de uma cadeira. Rádio velho. Vídeos em salas escuras. Sucata. Caixas de madeira vagabunda. Fotografias... Trecos velhos. Usados. Roupas antigas, usadas. Vasos antigos. Desenhos de criança. Fotografias... Duas salas com pinturas abstratas. Alguns desenhos experimentais. Vídeos. Fotografias...

Por que tanta fotografia e tanto vídeo?
E o imenso acervo cultural e histórico da humanidade?
Nada. Lixo literal. Alegria dos catadores, da reciclagem.

Uma sala inteira para Artur Bispo, o bispo da Arte Contemporânea... Ai de quem se atreve a falar mal de seus cacarecos, seus agrupamentos de botões de camisa, seus copos de alumínio pregados num saco de estopa, suas imagens de alucinação! E ele nem tem culpa disso! Era um inocente, cuja percepção de mundo estava alterada. Vamos dizer em linguagem bem clara: sua visão de mundo estava embotada por uma esquizofrenia paranóica... Mas ai que medo de ser crucificada! Como assim, falar mal do Bispo???, diriam as mocinhas e moçoilos de certas faculdades de artes paulistanas... Aguardemos os comentários dos ofendidos...

Em 2010 fui a Berlim. Visitei a Bienal de Berlim. Dividida em cinco prédios diferentes em lugares diversos da cidade. O que vi aqui é o que vi lá: repetições de chavões duchampianos que devem fazer Duchamp se revolver em sua bem concreta tumba! Aliás, para ser coerente, Marcel Duchamp podia ter escolhido virar cinza, mas seu corpo deteriorou como qualquer corpo no cemitério de Rouen, na França. Bem concreta e realisticamente.
Mas voltando a Berlim: a Bienal de lá estava às moscas! Eu salvei a Bienal de Berlim 2010! Eu estava lá! Eu, uma brasileira, dei público e razão de ser à Bienal 2010 de Berlim! Não havia quase MAIS NINGUÉM!

Em compensação, FILAS na região dos museus de Berlim: na Gëmaldgalerie, no Pergamon Museum, no Staatliche Museen, e até no DDR Museen, da ex- Alemã Oriental. Na Bienal de Berlim? Estava eu em quase todos os prédios onde o evento acontecia. E um ou outro gato pingado...

Hoje – 9 de setembro – havia uma fila enorme em frente ao MASP para ver “Caravaggio eseus seguidores”. Havia uma outra fila de quatro horas (!) de espera em frente ao CCBB para ver a exposição “Impressionistas do Museu d’Orsay”....
Amigos... não tinha fila alguma para entrar na Bienal, de graça!

Numa sala onde estavam penduradas sete telas em branco me deparei com uma senhora revoltada perguntando para outra: - você entendeu? A outra, coitada, gaguejava um pouco pra provar que entendeu o que não é para ser entendido. Me meti na conversa: vão ao Masp ver Caravaggio! A senhora que estava brava balançou a cabeça concordando imediatamente comigo.

Continuei meu périplo dentro do lindo prédio de Oscar Niemeyer.
Vidro soprado. Cópia de cabeça. Fios elétricos. Aros de rodas de bicicletas. Pedaços de pano velho. Pedaços de pau velho. Um penico de banheiro masculino. Rolos de barbante pendurados. Vídeos. Salas performáticas. Cordas penduradas. Pedaços de madeira usada. Restos de construção. Terra. Sacos de plástico. Portas velhas. Sucata. Caixas de madeira vagabunda. Fotografias...

Como diria o poeta Carlos Drummond, "Devo seguir até o enjôo?"
Sem mais palavras, cada um que tire a sua conclusão... É só ver as imagens.
E ler o texto da apresentação. Sugerimos uma leitura em diálogo com dois supostos visitantes. Alguém com o texto de apresentação do folheto da Bienal nas mãos lê para outro:

- Tema: A IMINÊNCIA DAS POÉTICAS
- ah, tá, intendi...
- Não, você não entendeu, deixa eu explicar. Preciso ler para poder te explicar, peraí. Mas presta muita atenção porque isso aí que é arte contemporânea: Assim (tipo aluno de certas faculdades lendo):
- "a Iminência é entendida como aquilo que está a ponto de acontecer..."
- ah sei sei (sinal de que não tá sabendo...)
- calma, deixa eu continuar: "... como o que está suspenso..."
- suspenso, intendi... Suspenso que nem corda, que nem fio de rede elétrica...
- Por aí, mas deixa eu terminar! Você não deixa!
- ...
- "... em vias de efetivação; a poética é entendida como discurso, aquilo que se expressa, que se cala..."
- oh!
- profundo, né?
- profundo! O quê mesmo?
- (volta a ler o texto) "... que se transforma e que ganha potência comunicativa por meio da linguagem das artes." (pronto, terminei)
- E o que isso quer dizer?
- Ah, meu, sei lá! Qualquer coisa, intende?
- Intendo, intendo. Mas num intendi....
- É por aí mermo! Melhor assim: num intendê nada faiz parte...
- Beleza então....

* Artista plástica, bacharel em Letras-USP, pesquisadora de história da arte, autora do livro "As Artes Plásticas na Formação do Professor" e membro do Atelier de Arte Realista de Maurício Takiguthi.
Nossa fonte: Vermelho