Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

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quarta-feira, 23 de abril de 2014

Dia Internacional da Terra mostra a importância de se preservar a natureza

Por Redação do CdB - do Rio de Janeiro



O dia 22 de abril de 2009, foi firmado pela ONU a fim de marcar uma 
responsabilidade coletiva com o intuito de promover a harmonia com a 
natureza e a Terra

“O Dia Internacional da Mãe Terra é uma oportunidade para reafirmar nossa 
responsabilidade coletiva para promover a harmonia com a natureza em um tempo 
em que nosso planeta está sob ameaça de mudanças climáticas, exploração 
insustentável dos recursos naturais e outros problemas causados pelo homem.
Quando ameaçamos nosso planeta, minamos nossa própria casa, e nossa 
sobrevivência no futuro”. Essa é a mensagem do secretário-geral da Organização

das Nações Unidas (ONU) Ban Ki-moon para a data desta terça-feira, criada para 
conscientizar os seres humanos sobre a importância da preservação.

O dia 22 de abril de 2009, foi firmado pela ONU a fim de marcar uma responsabilidade 
coletiva com o intuito de promover a harmonia com a natureza e a Terra e alcançar um 
balanço entre economia, sociedade e ambiente. Mas essa história não começou aí, veio 
do primeiro Dia Nacional da Terra, em meio ao movimento hippie americano, em 1970. 
Segundo informações do portal Cidadania da Rede Globo. A ideia de uma data para 
marcar a luta pelo ambiente veio do senador Gaylord Nelson, após ver a destruição 
causada por um grande vazamento de óleo na Califórnia, em 1969. Aproximadamente, 
20 milhões de pessoas nos Estados Unidos saíram às ruas para protestar em favor de um 
planeta mais saudável e sustentável. Milhares de escolas e universidades organizaram 
manifestações contra a deterioração do ambiente.

Segundo o engenheiro florestal Gustavo Nogueira Lemos, coordenador interino do Programa 
Educação para Sociedades Sustentáveis do WWF-Brasil e líder do eixo Cidades Sustentáveis 
do Programa, é fundamental e relevante valorizar a data. “A Terra nos dá todo nosso 
alimento e a oportunidade de viver. Muitas vezes não refletimos sobre os impactos negativos e
 positivos sobre ela. Este é um momento de reflexão e interação com o nosso planeta. Se não 
virmos isso, menos veremos o quão é importante o nosso papel. Temos que saber como 
podemos nos posicionar em relação á natureza”, aponta Gustavo.

Gustavo ressalta que a convivência entre os seres tem sido de forma desarmônica e o consumo exagerado tem levado a Terra à beira de um colapso. “O consumo que nós temos é
extremamente maior do que a nossa necessidade. Faz com que o nosso impacto seja elevado
no ambiente. 
Temos uma população que cresce de forma expoente e a forma como se produz tornou-se
maior do que o planeta pode gerar. Temos que ter em mente a sustentabilidade, ela deve
ser a diretriz das nossas direções. Enquanto estimularmos o consumo além do limite, ficaremos
reféns da nossa sobrecarga”, destaca o engenheiro.

- O planeta não vai acabar, ele continua. Vai ter sempre um tipo de vida coabitando, o que 
pode se acabar é a civilização humana. Somos parte de um todo, responsáveis de forma direta 
por manter equilíbrio sobre um todo. Temos degradação no ambiente rural, no bioma,
ecossistema, mudanças climáticas, e isso tudo é fruto do nosso consumo. Enquanto tivermos
culturas e países consumindo elevadamente em detrimento de culturas menores, não
conseguiremos equilíbrio. A demanda de carne é muito alta, as plantações de monocultura
utilizam cada vez mais agrotóxicos, assoreando o solo para produzir alimentos além do
necessário – afirma.

A corresponsabilidade é algo importante para reverter o quadro atual. Segmentos industriais, 
agriculturas e sociedade civil devem criar políticas para iniciar este processo de recuperação. 
A Mãe Terra é uma comunidade indivisível vital dos seres interdependentes e inter-
relacionados com um destino comum, portanto, é de suma urgência realizar ações coletivas
decisivas para transformar as estruturas e sistemas que causam as mudanças climáticas e
outras ameaças. Bem como diz o texto da Carta da Terra, devemos nos juntar para
gerar uma sociedade sustentável global, fundada no respeito pela natureza, nos direitos
humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar ao propósito,
é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para
com os outros, com a grande comunidade de vida e com as futuras gerações.

- No Dia da Terra, temos que utilizar a reflexão pelo fato de abarcar todos os ecossistemas. É 
uma boa oportunidade para refletir o quanto integrado são os organismos vivos que habitam o 
planeta, parar observarmos o quanto somos pequenos diante da Terra, que nos dá sustentação. 
Temos que respeitar a plenitude dos nossos recursos, pois nada é infinito no planeta, e termos 
noção do quanto é importante utilizar tudo de forma generosa a e responsável. Não podemos ir 
além do que devemos, isso passa por regularização, fiscalização e planejamento global. A 
estratégia tem que ser global porque o organismo é um só, todos coabitamos o mesmo. A
questão do aquecimento global traz um alerta muito forte, gerado pelo impacto do nosso
consumo e estilo  de vida, indicadores importantes de que estamos indo na direção errada e
temos que frear isso – diz Gustavo Lemos.

Nossa fonte: Correio do Brasil

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Nassif coloca JB sob suspeita de espionagem




Jornalista Luis Nassif questiona a conduta do presidente do STF, Joaquim Barbosa, no pedido de quebra de sigilo dos telefones na região do Palácio do Planalto: "No episódio da tentativa de espionagem sobre o Palácio do Planalto, Barbosa agiu com mão de gato ou foi fundamentalmente displicente? O simples fato de existir essa dúvida mostra a desmoralização a que o STF está submetido com os atos de seu presidente"; para Nassif, "há muitos elementos para suspeitar que, ao remeter o pedido para o PGR sem nenhuma observação, ou ao não recusar o pedido liminarmente, Barbosa participou da trama para espionar o Planalto – juntamente com a promotora Márcia Milhomens Sirotheau Corrêa, o ex-juiz da Vara de Execuções de Brasília Bruno Ribeiro"

247 - O jornalista Luis Nassif questiona, em artigo publicado neste domingo (20), a conduta do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, no polêmico pedido de quebra de sigilo dos telefones na região do Palácio do Planalto - que se soube depois envolvia o acesso aos telefonemas do Congresso e do próprio STF. Para Nassif, é irônico pensar que Barbosa tenha sido displicente com o pedido.

"No episódio da tentativa de espionagem sobre o Palácio do Planalto, Barbosa agiu com mão de gato ou foi fundamentalmente displicente? O simples fato de existir essa dúvida mostra a desmoralização a que o STF está submetido com os atos de seu presidente, ao não se pronunciar sobre a tentativa do Ministério Público do Distrito Federal de espionar o Palácio do Planalto", afirma.

Neste contexto, Nassif analisa como Barbosa tentou criar as condições para que a quebra de sigilo se materializasse. "Quem analisar todos os passos da trama, terá muitos elementos para suspeitar que, ao remeter o pedido para o PGR sem nenhuma observação, ou ao não recusar o pedido liminarmente, o próprio Barbosa participou da trama para espionar o Planalto – juntamente com a promotora Márcia Milhomens Sirotheau Corrêa, o ex-juiz da Vara de Execuções de Brasília Bruno Ribeiro", afirma.

Os pressupostos do jornalista para tal conclusão estão nos itens abaixo:


1.A promotora Márcia Milhomens Sirotheau Corrêa, da Vara de Execuções de Brasília, pede a quebra do sigilo telefônico de uma área que engloba o Palácio do Planalto.

2.No seu último ato no cargo, o juiz Bruno Ribeiro, que assumiu a função na Vara de Execuções após a carga de Barbosa contra seu antecessor, recebe o pedido e envia para Barbosa sem nenhuma consideração a mais. É de conhecimento geral as afinidades criadas entre Barbosa e Ribeiro. Além da pressão contra seu antecessor, Barbosa acionou o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) em defesa de Ribeiro.

3.Era de conhecimento de Barbosa que, no mesmo dia em que enviou o processo, Ribeiro declarou-se impedido de continuar atuando na Vara de Execuções.

4.O presidente do STF recebeu o pedido, não conferiu as coordenadas e enviou para a PGR. Se o PGR também não conferisse as coordenadas, Barbosa teria o álibi para quebrar o sigilo do Planalto.

E diz mais: "as suposições acima são perfeitamente críveis, para um cargo em que não se admite sequer a dúvida sobre a conduta do titular. Ainda mais com todo o histórico de protelações de Barbosa sobre o episódio Dirceu. É evidente que Barbosa sabia que o pedido de escuta referia-se a áreas sensíveis, ao Palácio do Planalto ou a outro poder, caso contrário o próprio juiz da Vara de Execuções poderia ter autorizado a quebra de sigilo".
Quem corrobora com a avaliação de Nassif é o também jornalista Jânio de Freitas, que em duas edições da sua coluna no jornal Folha de S. Paulo levantou suspeitas sobre a forma como o presidente do STF deu encaminhamentos ao tema. Na edição deste domingo, ele rebate resposta da assessoria de Barbosa.

"O ministro tem a autoridade e o dever de examinar cada ofício recebido e lhe dar o encaminhamento adequado, sendo um deles a rejeição por impropriedade. O oposto disso é reduzir ministro do Supremo a tarefas de estafeta, entregador de papéis de um lado para outro, como sugere a nota", afirma (leia o texto dele aqui).

O jornalista Fernando Brito, do Tijolaço, também trata do assunto. "O Dr. Joaquim mandou dizer, por sua assessoria que se sente indignado por estar sendo acusado de “participação em um ato criminoso, qual seja a quebra ilegal de sigilo telefônico”. Embora Janio de Freitas não o acuse – apenas estranhe a sua inação – é bom saber que o Dr. Joaquim avalie que a promotora tentou cometer um crime. Resta saber, portanto, porque a insólita atitude do Ministério Público, que não atuou diante desta preparação de ação delituosa por parte de uma de suas próprias integrantes", diz.

Abaixo a análise de Luis Nassif:

As suspeitas sobre Barbosa no episódio de espionagem


Como se sentiria um operador do direito se alguém afirmasse que há suspeitas de que a mais alta autoridade do Judiciário, o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) usa mão de gato, pratica chicana, estupra os procedimentos à luz do dia e com as cortinas do palco escancaradas? E que, na condição de presidente do STF, sua imagem pessoal torna-se a imagem do Judiciário.

No episódio da tentativa de espionagem sobre o Palácio do Planalto, Barbosa agiu com mão de gato ou foi fundamentalmente displicente? O simples fato de existir essa dúvida mostra a desmoralização a que o STF está submetido com os atos de seu presidente, ao não se pronunciar sobre a tentativa do Ministério Público do Distrito Federal de espionar o Palácio do Planalto.

O assessor de Barbosa, Wellington Geraldo Silva, telefonou para Jânio para "uma exaltada cobrança telefônica", sobre as suspeitas de que, por falta de qualquer reação, Barbosa endossara a tentativa de espionar o Planalto. Foi-lhe recomendado escrever para o Painel do Leitor.

Na carta enviada, o assessor alega que Barbosa tomou as providências regimentais quando recebeu o pedido de quebra de sigilo do seu parceiro, o juiz da Vara de Execuções Penais: sem ler, encaminhou o pedido para apreciação do Procurador Geral da República. Só depois do parecer da PGR, o presidente do STF manifestar-se-ia.

No entanto, quem analisar todos os passos da trama, terá muitos elementos para suspeitar que, ao remeter o pedido para o PGR sem nenhuma observação, ou ao não recusar o pedido liminarmente, o próprio Barbosa participou da trama para espionar o Planalto – juntamente com a promotora Márcia Milhomens Sirotheau Corrêa, o ex-juiz da Vara de Execuções de Brasília Bruno Ribeiro.

Relembrando:

1.A promotora Márcia Milhomens Sirotheau Corrêa, da Vara de Execuções de Brasília, pede a quebra do sigilo telefônico de uma área que engloba o Palácio do Planalto.

2.No seu último ato no cargo, o juiz Bruno Ribeiro, que assumiu a função na Vara de Execuções após a carga de Barbosa contra seu antecessor, recebe o pedido e envia para Barbosa sem nenhuma consideração a mais. É de conhecimento geral as afinidades criadas entre Barbosa e Ribeiro. Além da pressão contra seu antecessor, Barbosa acionou o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) em defesa de Ribeiro.

3.Era de conhecimento de Barbosa que, no mesmo dia em que enviou o processo, Ribeiro declarou-se impedido de continuar atuando na Vara de Execuções.

4.O presidente do STF recebeu o pedido, não conferiu as coordenadas e enviou para a PGR. Se o PGR também não conferisse as coordenadas, Barbosa teria o álibi para quebrar o sigilo do Planalto.

As suposições acima são perfeitamente críveis, para um cargo em que não se admite sequer a dúvida sobre a conduta do titular. Ainda mais com todo o histórico de protelações de Barbosa sobre o episódio Dirceu.

É evidente que Barbosa sabia que o pedido de escuta referia-se a áreas sensíveis, ao Palácio do Planalto ou a outro poder, caso contrário o próprio juiz da Vara de Execuções poderia ter autorizado a quebra de sigilo.

Mas seguir procedimentos habituais em um caso absolutamente unusual – a quebra do sigilo da própria Presidência da República – é um contrassenso que só se explica pela vontade de postergar ao máximo a decisão sobre Dirceu, ou então, de criar um fato político mesmo.

A alegação do assessor, de que Barbosa só poderia se manifestar após parecer do PGR, em um tema que nada tem de usual, mereceu a resposta adequada de Jânio: aceitar isso seria acreditar que o presidente do STF comporta-se como um estafeta, recebendo processos e encaminhando sem ler para o PGR.

Passados vários dias, até agora a única manifestação de Barbosa foi essa nota do assessor, segundo a qual ele cumpriu o regimento, remetendo o pedido (sem ler) para o PGR.

É possível que o excesso de processos levasse Barbosa a ser descuidado com o pedido. Mas é possível – dada a visibilidade do episódio – que o descuido de Barbosa tivesse sido intencional. É possível que não atinasse para a extensão do pedido. Mas também é possível que agisse em sintonia com o juiz para criar uma crise política.

Agora, coloque-se no lugar de Joaquim Barbosa. Há uma investigação para conferir um telefonema de José Dirceu, que teria sido dada em um dia definido. Barbosa recebe um pedido de autorização de escuta por vários dias, em áreas variadas. Supondo que seja displicente nos seus pedidos, que seja burocrático no encaminhamento dos processos, alguém poderá supor que, ao receber o pedido de quebra de sigilo, não tivesse sequer a curiosidade de conferir as coordenadas definidas pela promotora?

É mais fácil um camelo passando no buraco de uma agulha.

Pergunto: é possível um presidente de STF conviver com tantas dúvidas e suspeitas acerca de sua conduta, em um episódio da mais alta gravidade?

Cartas de Rosa Luxemburgo inspiram peça

 

Lediane Filus do UOL, em Curitiba

"Rózà" resgata a história da revolucionária Rosa Luxemburgo, dando vida às suas paixões e desejos que vão além da militância. 

Construído a partir das cartas da revolucionária Rosa Luxemburgo, o espetáculo "Rózà" será uma das estreias nacionais do Festival de Curitiba, com sessões nos dias 1º e 2 de abril. A protagonista, nascida na Polônia, judia e oradora famosa, escreveu as correspondências nas prisões alemãs no início do século 20, onde ficou durante três anos. 

Segundo uma das diretoras da montagem, Martha Kiss Perrone, mais do que mostrar o lado revolucionário e militante de Rosa, a intenção da peça é humanizar e resgatar sua história, suas paixões e vida pessoal.
"O que me levou a querer fazer o espetáculo foi ver na figura de Rosa a sua atualidade, uma mulher de hoje e de agora. Rosa Luxemburgo era uma grande revolucionária, um grande espírito e um grande coração", conta a diretora.

Martha, que também interpreta a personagem no espetáculo, conheceu as cartas em 2009, quando fez um estágio no Théâtre Du Soleil, em Paris, e levou consigo uma biografia e um cartaz de Rosa com a frase "A liberdade é, quase sempre, exclusivamente, a liberdade de quem pensa diferente de nós".
Peça multimídia
Toda a humanidade e emoção nas palavras deixadas por Rosa, mulher apaixonada e também muito próxima da natureza, despertou então na diretora o desejo de reavivar essa história. Para tanto, foi escolhido um modelo diferente de peça, com um conceito multimídia.
Assim, em vez da estrutura tradicional de palco, Martha explica que o espaço cênico será uma instalação cenográfica em forma de tenda que representa a prisão onde Rosa esteve. O público será convidado a entrar nesse espaço, onde serão projetados vídeos e cenas filmadas em Berlim, compartilhando as caminhadas e lutas da protagonista até sua prisão e brutal assassinato em 1919.
A trilha sonora também será diferenciada, com artistas tocando as músicas ao vivo.
Três Rosas 

Os trechos das cartas vão ganhar vida com a interpretação de três atrizes diferentes para o papel da revolucionária. Martha explica que é possível encontrar três Rosas em uma só, com diferentes personalidades que se completam. "São três Rosas porque ela era múltipla, não heroína, mas humana com erros e acertos, paixão pela vida e pela luta", explica ela.

A primeira Rosa é a revolucionária e oradora entusiasmada, enquanto a segunda é a mulher ligada à natureza, que falava com passarinhos e cultivava um herbário. Já a terceira é a amante apaixonada, que se divide entre a luta política e a vontade de deixar tudo para trás para ficar com o amado. 

A peça aborda de forma mais ampla a vida de Rosa, conectando as paixões e os sonhos de ontem e hoje, aqui, na Alemanha, ou em qualquer lugar onde haja uma mulher sem medo de mudar o mundo. "Precisamos hoje de seres apaixonados como ela, dessa força feminina sem medo e com muita coragem", complementa a atriz. Ainda segundo ela, a intenção da peça não é trazer respostas, mas mostrar que os dilemas vividos por Rosa em seu tempo continuam atualmente. 

A expectativa é de que a estreia possa inspirar o público, como aconteceu no ensaio aberto feito em São Paulo, que foi assistido por feministas (algumas inclusive de descendência judia e polonesa, como a protagonista) e militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra. 

Dentre os depoimentos de quem participou da experiência, um dos mais marcantes para a diretora foi a de um homem que ressaltou que a peça vai além do aspecto trágico e doloroso da história das lutas, trazendo também a alegria e a paixão de quem faz parte da revolução, assim como o prazer de estar nas ruas.
Nossa fonte: Página do MST

Por que Eça ainda deve ser lido

Continuo achando que Pasadena foi bom ne
 
“Éramos jovens, éramos jovens”

Poucos finais de romances são tão pertubadoramente belos e filosoficamente profundos como o de Os Maias, de Eça Queiroz. Carlos e Ega, dois amigos de uma vida toda, erram pelas ruas de Lisboa. As ilusões da juventude já haviam sido trituradas pelo tempo, e eles constatam que quase nada do que sonharam tinha se tornado realidade. O grande livro que Ega escreveria – até título já tinha: Memórias de um Átomo – jamais chegou a ser escrito e publicado. Carlos não se recuperou de uma paixão alucinada, carnal por uma mulher que ele desconhecia ser sua irmã, Maria Eduarda.
A vida que se realiza não é aquela com que sonhamos, refletem. E então a frase que ficou permanentemente gravada em minha mente: “Ah, éramos jovens, éramos jovens.”

Eça é um autor fundamental. Numa vida breve – morreu em 1900, aos 55 anos —  construiu uma soberba pirâmide literária. O estilo exuberante, descritivo como mandava a escola naturalista à qual ele se filiou, se mesclou com características deliciosas em sua prosa. Eça, como os intelectuais progressista de seus dias, era fanaticamente anticlerical. Os padres e a igreja representavam, para ele, o atraso. E era absurdamente cru  na forma como tratava o sexo em seus livros. Os personagens de Eça são governados pelo anseio sexual.

O Crime do Padre Amaro, um de seus clássicos, traz tudo isso: a repulsão à batina e o império dos sentidos. Amaro seduz e consequentemente devasta uma jovem crédula, Amélia. Amaro era como a representação de todos os padres e em Amélia estava a sociedade portuguesa. Eça estava como que dizendo que Portugal fora sodomizado e atrasado pelos padres católicos.

O anticlericalismo está presente de forma bem mais divertida em outra obra de Eça, A Relíquia. Raposo é um espertalhão que pretende entrar na herança da tia rica e carola. Ele vai para Jerusalém para agradar a velha. Pega, no final da viagem espiritual, uma relíquia para ela, e tudo ia terminar bem se ele não tivesse colocado numa caixa exatamente igual a calcinha de uma mulher libertina que ele conquistara na viagem. Quando a tia abre o presente, não é a relíquia que ela encontra – mas a peça íntima de uma mulher lasciva. Antes de ser desmascarado, Raposo fizera coisas como pegar água da torneira e vendê-la em garrarinhas como se fosse água santa do Jordão.

Como outros grandes autores do século XIX, Eça criou uma adúltera notável. É Luiza, de O Primo Basílio. Basílio, um canalha total, se aproveita da fragilidade de sua prima, bem como da ausência prolongada do marido desta. O caso entre eles é descoberto pela empregada de Luiza, que a chantageia e tortura até virtualmente liquidá-la.

Machado de Assis, o grande contemporâneo brasileiro de Eça, escreveu uma crítica antológica sobre O Primo Basílio. Foi duríssimo. Disse que a única lição que se extraía do livro é que a “boa vontade dos fâmulos é essencial para a paz no adultério”. Foi a primeira vez que li a palavra “fâmulo” – empregado, servo. Machado evidentemente exagerou. Mas sua crítica, de toda forma, acabou por ampliar a repercussão do romance de Eça, em vez de diminuí-la. Outro contato extraordinário entre os dois se deu numa dedicatória que Machado fez a Eça num romance que lhe deu. É provavelmente a dedicatória mais seca que um escritor já fez: “De Machado de Assis para Eça de Queiroz”.

As comparações entre os dois gênios são inevitáveis. Machado era contido e sutil. Insinuava, em vez de afirmar. Eça jorrava. Não falava: berrava. A adúltera de Machado, Capitu, você nem tem certeza de que traiu o marido. A Luiza de Eça entregou a carne toda ao primo cafajeste. Cada qual de seu jeito, eram gigantes, e é simplesmente impossível dizer qual dos dois é melhor.

Li, em minha juventude, Eça com uma caneta ao lado para sublinhar e anotar as frases que mais me marcavam. Uma delas lembro ainda hoje com vividez: “Braços que se desenlaçam em despedidas supremas”. Visitei Póvoa do Varzim, a terra de Eça. Era janeiro, e o vento quase arrastava as pessoas. Fui a um cassino local jogar roleta e quase arrumo ao encrenca ao pegar, sem querer, fichas que não eram as minhas. Poucos meses atrás. numa ida a Paris em missão jornalística, acabei dando numa estátua de Eça num subúrbio. Eça viveu em Paris como diplomata. Sentei num banco e contemplei por alguns minutos Eça antes de partir.

Os Maias é meu Eça favorito.  Admiro o patriarca Afonso Maia, em cuja força interior inquebrável vejo algo de meu pai.  Tanto me marcou que quis muito dar a minha filha caçula o nome de Maria Eduarda. Fui batido pelo conselho familiar, representado por minha ex-mulher e meus dois filhos, então pequenos mas já cheios de opiniões próprias. (Acabou prevalendo Camila, e hoje digo que minha ruiva maravilhosa não poderia ter mesmo outro nome.)

Tantos anos depois de ter lido Os Maias, e ocasionalmente relê-lo, a cena final ainda me toca. Quantas vezes, ao olhar para trás, digo para mim mesmo: “Ah, éramos jovens, éramos jovens.”
Paulo Nogueira
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.
Nossa fonte: Diário do Centro do Mundo

sexta-feira, 18 de abril de 2014

García Márquez foi um dos últimos escritores carismáticos


Por: Roberto Amado



Ele talvez tenha sido o último escritor com o carisma dos grandes literatos. Morreu aos 87 anos, vítima de um câncer, depois de escrever mais de 30 livros. Vendeu mais de 40 milhões de exemplares em 30 idiomas.

Gabriel García Márquez viveu plenamente a literatura, dentro e fora dos livros. Quando tinha 17 anos e ainda lutava com as palavras, leu “A Metamorfose”, de Kafka, a história de um homem que um dia acorda transformado em um inseto. “Pode-se escrever desse jeito? Então eu quero ser escritor”.

Mas só muito mais tarde, com 39 anos, é que seguiu a lição de Kafka, a partir de algo que ouviu de seu avôsobre a guerra dos Mil Dias na Colômbia. “Muitos anos depois, em frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendia haveria de se recordar daquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo”.

Essa é a primeira frase do livro “Cem Anos de Solidão”, que leva a Macondo, reprodução literária de Aracataca, uma aldeia perdida no caribe colombiano, onde nasceu e viveu a infância. Representa o auge do realismo fantástico, uma das responsáveis pelo boom internacional da literatura latino-americana.

“A maioria dos críticos não percebe que ‘Cem Anos de Solidão’ é uma espécie de piada, cheia de referências para amigos próximos”, disse ele. Em 1982, premiado com o Nobel, aos 55 anos, era um dos mais jovens escritores a ganhar o prêmio — no qual apareceu vestido com um “liquiliqui”, típica roupa dos homens colombianos, quebrando o protocolo da sisuda academia. Na cerimônia de entrega do prêmio, perguntaram se esse era o dia mais importante da sua vida. “Não”, respondeu ele secamente. “Esse dia foi quando eu nasci”.

Gabo, como foi chamado a vida toda, era um escritor de rituais, capaz de passar 12 horas debruçado sobre uma velha máquina de escrever — desde que tivesse uma rosa amarela sobre a mesa “para espantar os demônios da literatura”. Falava que “a realidade é muito difícil de interpretar e é sempre melhor do que a ficção”, mas qualquer um que conheça sua obra sabe que ele rompeu essa fronteira sem deixar vestígios. Chegava a fumar até seis maços de cigarro por dia enquanto escrevia, tresloucado, suas histórias.

Saiu de Aracataca para estudar direito em Bogotá, mas, durante o curso, começou a praticar jornalismo — profissão que exerceu até o estrondoso sucesso de “Cem Anos de Solidão”. Ao mesmo tempo, iniciou uma das atividades que conduziu por quase toda a vida: a política. Seu ativismo de esquerda e a amizade que tinha com Fidel Castro fizeram com que se exilasse no México e colecionasse inimigos por todas as partes.

Talvez isso explique a célebre briga que teve com o até então dileto amigo e colega de letras Mario Vargas Llosa. Em 1976, diante de um cinema no México, os dois se encontraram e, ao contrário do abraço que García Márquez esperava, recebeu um direto de direita e caiu no chão. Até hoje não há uma versão oficial para a célebre briga — há quem diga que foi por mulher, outros por política.

Em 1999, ele foi diagnostico com um câncer linfático, mas já sofria de demência senil, anunciada pelo seu irmão em 2012. Foram anos de luta. Gabo queria escrever, mas sofria com as palavras e, principalmente, com a falta de memória. Nos últimos anos, não conseguia dar continuidade às suas histórias porque esquecia-se delas.

Passou a última década recolhido em sua casa na Cidade do México, pouco aparecendo para dar entrevistas ou falar de literatura. Estava fraco, seu olhar não tinha a mesma vivacidade. No ano passado, no dia em que completou 86 anos, 6 de março, fez sua última aparição pública, por alguns minutos. Mas não falou nada, a não ser para rechaçar os jornalistas: “vão caçar notícia em outro lugar”, resmungou.

Apesar de tudo, ele não esteve completamente inativo na última década. Seu último livro, “Memórias de minhas Putas Tristes”, fala de um homem que vive uma velhice safada — como a que ele talvez estivesse vivendo. Mas ainda há uma obra a ser publicada, segundo conta seu editor Cristóbal Pera. “Ele ficou corrigindo obsessivamente o livro e escreveu seis finais”, disse. Tudo indica, no entanto, que terminou o livro, chamado “Em agosto Nos Vemos”, mas com a recomendação de que só fosse publicado depois da sua morte.

“A vida não é o que vivemos, mas o que o lembramos e como contamos o que lembramos”, disse ele em uma de suas últimas entrevistas.


Sobre o Autor: Jornalista, escritor, cineasta e advogado
Nossa fonte: Diário do Centro do Mundo

Globo tenta intimidar blogueiros que entrevistaram Lula

Em matéria publicada nesta quinta-feira (17) no jornal impresso “O Globo”, nota-se uma grande manipulação dos fatos para tentar deslegitimar e intimidar os jornalistas e blogueiros que participaram da entrevista com o ex-presidente Lula na semana passada. Rodrigo Vianna, do Blog do Escrevinhador, que estava na coletiva de Lula, concedeu uma entrevista exclusiva ao Portal Vermelho sobre essa repercussão na grande mídia.

Ramon de Castro, para Rádio Vermelho




“O que fica claro é o interesse da Globo em intimidar os blogueiros que apesar desuas limitações oferecem uma narrativa que é uma alternativa ao poder da globo de manipular”, disse Rodrigo. Mas para o blogueiro, como diz o ditado, o feitiço virou contra o feiticeiro. “É uma retaliação clara, uma tentativa de intimidar, mas ao invés disso estão ajudando a tornar os blogs ainda mais conhecidos”, completou.

Vianna foi procurado pelas jornalistas da Globo para dar a entrevista e recusou, pois o único pedido do blogueiro para dar a entrevista foi negado. “Pedi para a jornalista mandar as perguntas por escrito e que só daria a entrevista se a Globo esclarecesse o caso da suposta sonegação fiscal de R$1 bilhão.”, revelou. “Como a jornalista não quis nem ao menos mandar as perguntas, não respondi”, indagou.

Para Rodrigo, nenhum dos participantes da coletiva com Lula deveriam falar com a Globo. “Eles pensam em nos deslegitimar e por que vamos lhes dar legitimidade? A Globo não tem estatura moral para ser fiscal de blogueiro”, falou.

Vianna lembrou que as entrevistas do Lula aos blogueiros sempre foram transmitidas ao vivo e com acesso universal. “As duas entrevistas do ex-presidente foram transmitidas de forma pública, uma no Palácio do Planalto e outra no Instituto Lula”, recordou. “Eu queria saber por que o Merval Pereira, da Globo, se esconde para falar com o cônsul e embaixador dos Estados Unidos, ele é informante do governo dos Estados Unidos e tem vergonha disso?”, questionou.

Especificamente sobre o papel das jornalistas que assinaram a matéria publicada nesta quinta-feira (17) no jornal “O Globo”, Rodrigo acredita que as repórteres fazem esse papel talvez por medo e pensando na ascensão no mercado de trabalho. “Um dia elas vão descobrir que entre elas e a empresa há uma diferença, pois estão achando que são a empresa e vão perceber que há uma grande diferença entre o jornalista e o dono da empresa de jornalismo, e assim vão perceber o papel que estão se prestando”, disse.
Ouça a entrevista completa na Rádio Vermelho:

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As invenções de Garcia Marquez como jornalista




Este texto foi publicado na bbc. O autor, Néfer Muñoz, é um jornalista da Costa Rica com doutorado em literatura na Universidade de Harvard. O título de sua tese é “Romanceando o jornal e reportando o romance na América Latina”.

Em 1954, o jornal colombiano El Espectador envia um de seus jovens jornalistas, Gabriel García Márquez, para cobrir um grande protesto contra o governo na remota cidade de Quibdó, no estado de Chocó.

Após dois dias viajando na selva, García Márquez e seu fotógrafo chegam finalmente a seu destino e têm uma surpresa: a cidade de Quibdó está completamente calma. O correspondente local do El Espectador, Primo Guerrero, havia inventado fatos que narrou para a redação em Bogotá.
Ou seja, García Márquez percebeu que os protestos não ocorreram. Diante do panorama, o jovem jornalista diz a Guerrero que não quer voltar para a capital de mãos vazias. Os dois fazem um acordo e, “com tambores e sirenes”, convocam e organizam um protesto para escrever a reportagem e tirar as fotos.

A matéria é publicada no El Espectador com o título História íntima de uma manifestação de 400 horas e, nela, García Marquez afirma que o protesto durou 13 dias, “nove dos quais choveu de forma implacável”.

A reportagem dizia que, sob a chuva, os manifestantes choravam e se lavavam na via pública.
Anos mais tarde, ao se lembrar do episódio, em uma entrevista com o jornalista Daniel Samper, o escritor confessou: “inventávamos cada notícia…”

Uma das características dos romances de García Márquez era sua capacidade de inventar uma “realidade que transborda”, segundo escreveu o crítico Claudio Guillén. E isso está relacionado, em parte, com o uso da hipérbole, o exagero.

“O quanto é comum o exagero no jornalismo de García Márquez?” Para minha tese de doutorado, estudei a promíscua relação entre o jornalismo e a literatura na América Latina.

No caso de García Marquez, é possível detectar exageros e invenções em diferentes etapas de seu jornalismo. Em alguns momentos, esses exageros e invenções estão presentes de uma forma abundante e aberta e, em outras, de forma dosada e velada. Este é um fenômeno que se enquadra no que chamamos de realismo mágico de García Márquez.

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, em seu livro História de um Deicídio, documenta a invenção que García Márquez fez do protesto em Quibdó e disse que era parte de sua personalidade aventureira e sua satisfação pelos feitos e pelos personagens inusitados.

Segundo Vargas Llosa, “o que seduzia” García Márquez no jornalismo não eram as páginas editoriais, mas o trabalho da reportagem “que se mobiliza para encontrar a notícia e, se não a encontra, a inventa”.

O crítico Raymond Williams afirma que muitos dos textos jornalísticos de García Márquez são “anedotas ficcionais”.

Em 1948, o autor colombiano dedicou uma coluna de jornal ao poeta César Guerra Valdés na qual contava sobre quando ele visitou a redação do El Universal, de Cartagena, onde Márquez trabalhava.

Márquez elogiou o poeta e argumentou que ele era “autor de cinco livros fundamentais” e “um dos grandes revolucionários estéticos” da América Latina. A coluna ressaltava o calor das palavras do poeta e dizia que, apesar de passar desapercebido localmente, o escritor estaria provocando uma renovação na literatura latino-americana.
Entretanto, muitos críticos confirmaram que o poeta César Guerra Valdés nunca existiu.

Mais tarde, trabalhando no jornal El Heraldo de Barranquilla, García Márquez começa a publicar reportagens sobre a vida e os milagres de uma extravagante marquesa alemã, cujo marido havia ordenado o assassinato diversas vezes. Em uma de suas colunas, Márquez recria uma conversa fictícia com a alemã e, no diálogo, diz que todos os seus personagens são “imaginários”.

Entrevistei para minha tese Jaime Abello Banfi, diretor geral da Fundação Novo Jornalismo Iberoamericano (FNPI), a escola de jornalismo com sede em Cartagena das Índias fundada por García Márquez, em 1994.

Alberto Banfi afirma que há um discurso dúbio nos círculos jornalísticos e literários, já que, por um lado, a posição oficial dos manuais e convenções jornalísticas proíbe a inclusão de dados falsos nos textos de imprensa.

Entretanto, na prática nota-se como os grandes escritores usam licenças poéticas quando escrevem textos jornalísticos.

Em seu contato com García Márquez e com escritores como Tomás Eloy Matínez e Ryzard Kapuscinski, Alberto Banfi diz que eles admitiram ter inventado ocasionalmente em suas reportagens. Eles o fazem de uma maneira dosada, de uma forma que os leitores “não se dão conta”.

Isso sim é um reconhecimento de que o terreno entre a ficção e a não ficção é um campo movediço, cuja instabilidade aumentou ainda mais com as novas tecnologias, como a internet.

A relação porosa entre a ficção e a não ficção na América Latina não é um fenômeno novo. Márquez é parte de uma tradição latino-americana de escritores que ziguezagueiam entre a produção de notícias e contos, romances e poemas.

As trocas nos dois sentidos são comuns.

O crítico Aníbal González explica como na América Latina, em diferentes épocas, a literatura e o jornalismo têm adotado estratégias de dissimulação e imitação mútuas para evitar a censura perante a vigilância da lei, da religião e do Estado.

Um exemplo de jornalista e escritor, uma figura literária que Roland Barthes chama de ‘escrita-escritor’, é o primeiro romancista latino-americano José Joaquín Fernández de Lizardi.

Ele publicou em 1816, no México, El Periquillo Sarniento, considerado o primeiro romance latino-americano ao mesmo tempo em que editava o jornal O Pensador mexicano.

Desde então a lista de jornalistas escritores tem nomes como José Martí, Rubén Darío, Lima Barreto, José Marín Cañas, Roberto Arlt, Jorge Amado e Tomás Eloy Martínez, apenas para dar uns poucos exemplos.

E aqui me refiro a escritores que trabalharam em tempo integral nas redações.
Porque, se fizer uma lista de escritores latino-americanos que publicaram em jornais, teria que incluir praticamente todos.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Cerveró deu uma aula de Pasadena


Por : Fabiano Amorim



Tirou as dúvidas que Dilma criou

Ontem houve uma sessão da Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara dos Deputados em que o ex-diretor da área internacional da Petrobrás Nestor Cerveró foi prestar esclarecimentos sobre a compra de uma refinaria de petróleo em Pasadena no Texas em 2006.

O caso se tornou um dos principais temas discutidos pela imprensa nos últimos 30 dias, após divulgarem de maneira massiva que a Petrobrás teria gasto mais de U$1 bilhão para comprar uma refinaria que supostamente valeria apenas 42 milhões. Essa mensagem foi repetida à exaustão pela imprensa, por políticos da oposição e por muitos em postagens nas redes sociais.

Os números mencionados nessas matérias da imprensa estão repletos de informações incompletas, pois a intenção da imprensa não é de informar bem aos leitores e sim provocar um escândalo que prejudique a atual presidente e favoreça outro candidato à presidência de sua preferência.

No dia 19 de março, a presidenta Dilma Roussef, que em 2006 comandava o conselho de administração da Petrobrás, emitiu uma declaração dizendo que na época em que o conselho tomou a decisão, não constavam no resumo executivo (que teria embasado a decisão do conselho) informações sobre duas cláusulas, chamadas Marlim e Put Option. De acordo com Dilma seriam informações essenciais sobre o negócio. Ela disse que se tivesse conhecido essas cláusulas na época, não teria votado pela compra da refinaria.

Segundo Dilma, quem deveria ter inserido essas informações no resumo executivo era Nestor Cerveró, o diretor da área internacional da Petrobrás na época.

A partir daí, uma enorme “batata quente” foi jogada nas mãos de Cerveró, pois ficou no ar uma enorme suspeita de fraude ou negligência, em que ele seria o grande responsável.

Essas suspeitas cresceram bastante ao longo das últimas semanas por duas razões: a primeira foi a Petrobras resolver, bem no meio da chuva de denúncias da imprensa, demitir Nestor Cerveró do cargo de diretor financeiro da BR Distribuidora, cargo que ele ocupava até o mês passado. A segunda foi o fato de Cerveró ter ficado quase 30 dias sem dar qualquer declaração sobre o assunto.

O depoimento de Nestor Cerveró na Câmara

No início da reunião ocorrida ontem na Câmara dos Deputados, Nestor Cerveró falou por um longo período. Explicou todos os detalhes do negócio e defendeu a compra da refinaria. Disse que não enganou Dilma, que as cláusulas Marlim e Put Option não eram essenciais para tomar uma decisão sobre o negócio, que a compra teria sido planejada durante um ano e não 20 dias como a imprensa falava e que a refinaria de Pasadena não teria sido comprada pela antiga dona, a Astra, por apenas U$ 42 milhões e sim U$ 360 milhões.

Após as declarações de Cerveró, os deputados se revezaram em fazer declarações e perguntas para que fossem respondidas por ele.

Vários deputados da oposição elogiaram o trabalho dele, disseram que ele parecia ser um ótimo funcionário da Petrobras, que estava sendo acusado injustamente de algo por que ele não seria o responsável e que a cúpula do PT o estaria colocando como “bode expiatório” nessa história. Ele iria ter sua carreira totalmente destruída para salvar o governo do PT, que logo o abandonaria.

O discurso dos deputados tinha claramente a estratégia de fazê-lo dar qualquer declaração que culpasse alguém da cúpula do governo, principalmente Dilma. Qualquer declaração contra o governo seria prontamente usada nos dias seguintes para ataques da imprensa.

A todo momento diziam que as declarações da Dilma e as dele não combinavam (o que é verdade) e faziam perguntas como: “Quem é que está falando a verdade, você ou a Dilma?” “Quem está mentindo?” “Quem cometeu o erro, você ou ela? Você enganou a presidente?” “Você disse aqui que a compra da refinaria foi um bom negócio, mas o governo diz que foi um mau negócio. A Dilma e a Graça Foster estão equivocadas?”

Mas Nestor Cerveró, que estava acompanhado de seu advogado, certamente se preparou bastante antes de se submeter a essa sessão e percebeu claramente essa intenção dos deputados da oposição. Por isso se esquivou de qualquer resposta do tipo “Dilma mentiu”, “Dilma não leu tal documento” ou “Dilma está enganada”.

Sobre as divergências nas declarações


Creio que a raiz de todo esse barulho criado pela imprensa está na declaração de Dilma feita em 19 de março, quando disse que se soubesse das cláusulas Marlim e Put Option não teria comprado a refinaria de Pasadena. Hoje, após tudo que li sobre o caso, vejo que foi uma das maiores loucuras que alguém poderia ter dito.

Primeiramente porque a cláusula Marlim, que garantia que a Astra, a sócia do negócio com a Petrobrás, teria direito a 6,9% de lucros independentemente das condições de mercado, jamais foi aplicada ao negócio, pois não ocorreu o investimento bilionário que a Petrobras faria para fazerva refinaria processar óleo pesado.

Segundo, porque, pelo que já foi informado pelo ex-presidente da Petrobras Sérgio Gabrielli e por Nestor Cerveró, a cláusula Put Option é extremamente comum em quaisquer compras de empresas. É uma cláusula em que os sócios estabelecem em contrato como será feita a saída de algum deles do negócio. Como já foi dito, o mesmo Conselho de Administração da época aprovou a compra de uma refinaria em Okinawa, no Japão, que também continha a cláusula Put Option.

Quando Dilma emitiu uma nota dizendo que não teria comprado a refinaria de modo algum se soubesse dessas duas cláusulas, ela deu um grande tiro no pé. Apenas essas cláusulas não seriam justificativas para deixar de comprar a refinaria. Quando começou a demitir alguns diretores da Petrobras por causa do barulho da imprensa, o governo passou mais declarações de culpa. A oposição vibrou. O governo fez uma besteira atrás da outra.

Dilma deveria ter dito o mesmo que Cerveró e Gabrielli, que me parecem muito mais realistas. Deveria ter dito que a decisão da compra na época em 2006 se justificava, que era um negócio muito lucrativo, que a refinaria estava dentro do preço médio de refinarias daquele porte (algo que já comprovei), que era falsa a informação de que Pasadena tinha sido comprada por apenas U$ 42 milhões.

Deveria ter explicado que o negócio se tornou ruim por causa da mudança nos rumos dos investimentos da Petrobras, que passou a se dedicar ao Pré-sal, deixando de fazer o investimento planejado em Pasadena, e que a crise econômica internacional prejudicou muito o negócio.

Dilma deveria ter assumido desde o início que a refinaria deu prejuízo mesmo, mas que era apenas mais um dentre os centenas de negócios nos quais a Petrobras estava envolvida. Deveria ter dito que os 530 milhões de prejuízo que Pasadena teve não eram nada em comparação com os mais de 200 bilhões de lucro líquido da Petrobras obtidos de 2006 até hoje.

Enfim, a Dilma deveria ter partido para o ataque. Ficou somente na defensiva e foi bombardeada sem dó nem piedade pela imprensa. E acho bem feito, para aprender a ser mais esperta.

Às vezes tenho a impressão de que tem alguém ao lado da Dilma aconselhando-a a tomar as piores decisões possíveis e imagináveis, para prejudicá-la. Isso me lembra alguns episódios do seriado americano House of Cards, em que o vice-presidente americano bajula o presidente com frequência e a todo momento dá maus conselhos, com a intenção de prejudicá-lo, para garantir seus interesses. Parece ficção, mas diante de tantas trapalhadas do governo, faz sentido pensar nessa possibilidade.
Fabiano Amorim
Sobre o Autor
Fabiano Amorim é nascido em Palmeiras dos Índios, e atualmente mora em Maceió, Alagoas. Ele escreve no blog http://fabiano-amorim.blogspot.com.br. É autor do aclamado documentário “Derrubaram o Pinheirinho”, sobre a reintegração de posse do acampamento Pinheirinho em São Jose dos Campos.
Nossa fonte: Diário do Centro do Mundo

Tendler: agroecologia é fundamental na produção econômica e social



O novo filme de Silvio Tendler, "O Veneno Está na Mesa 2", denuncia a barbárie do agronegócio e mostra que há saídas para produção de alimentos saudáveis
Por Renato Cosentino e Alan Tygel (Do Rio de Janeiro)

O veneno está na mesa dos brasileiros, no país que mais consome agrotóxicos no mundo. Mas há alternativas viáveis de produção de alimentos saudáveis que respeitam a natureza, os trabalhadores rurais e os consumidores. É essa mensagem que o novo documentário do diretor Silvio Tendler, O Veneno Está na Mesa 2, quer passar.

O primeiro filme, que não foi lançado nos cinemas e seguiu um caminho alternativo de exibição através da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, teve uma recepção surpreendente e foi visto por mais de um milhão de pessoas.

Nesta entrevista, Tendler fala do novo filme, da sua relação com os movimentos sociais e da importância da alternativa agroecológica para a sociedade brasileira.

O filme será lançado nesta quarta­-feira (16), às 20h, no Teatro Casa Grande, no Leblon. A entrada é gratuita.


Porque lançar a continuação de "O Veneno Está na Mesa", o que ele traz de novo?
'O Veneno Está na Mesa' surgiu quando estive no Uruguai e o Galeno me disse que o Brasil era o principal consumidor de agrotóxico do mundo.

Voltei ao país com a missão de fazer um filme sobre isso, mas nunca imaginei que seria dessa envergadura. Conversei com o (João Pedro) Stédile (dirigente nacional do MST), e ele gostou da ideia, e nesse momento já estava sendo pensada a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Conseguimos com R$ 50 mil reais fazer o Veneno 1.

A campanha foi muito bem sucedida, e o lançamento superou as expectativas de muito filme dito de mercado. É incalculável o número de pessoas que assistiram esse filme, só no Youtube foram mais de 300 mil, fora as cópias que foram doadas, vendidas, emprestadas, copiadas, pirateadas; ele teve muito público.

Isso gerou uma discussão de que o filme deveria ser aprofundado, e de que deveríamos sobretudo buscar soluções, mostrar que existe alternativas ao veneno, que nós não somos um bando de irresponsáveis que queremos matar a humanidade de fome em nome de uma causa.

Na verdade, nós somos pessoas com sensibilidade, com uma visão de futuro. Pensamos no Veneno 2 em duas partes. Um terço do filme, que mostra os problemas, que só se agudizaram do primeiro Veneno para cá. Hoje você tem entidades científicas da maior responsabilidade que não hesitam em afirmar que existem elementos cancerígenos fortes nos agrotóxicos.

Antes nós tivemos essa dificuldade, poucas pessoas tiveram a coragem de dizer. Ao mesmo tempo dois terços do filme mostra pessoas, comunidades, sob as mais diversas formas, que lutam para preservar a natureza, garantir o alimento, o sustento de todo mundo, com qualidade de vida.

A distribuição alternativa do filme foi então um dos fatores desse alcance surpreendente?
O cinema de shopping está em absoluta crise. O cinema nacional hoje, pelas estatísticas oficiais, atinge 15 milhões de espectadores. Nós já tivemos 5 mil e tantas salas de cinema, hoje temos duas mil e novecentas, 90% delas ficam em shopping, em 9% do território nacional.

O número de espectadores que a Ancine se gaba são 15 milhões de espectadores ao ano. Se você considerar que quem vai ao cinema vai duas vezes ao ano, na verdade você reduz a metade, são 7,5 milhõs de espectadores. Num universo de 200 milhões de cidadãos, esses números não representam nada.

Ou seja, eles desconsideram o povo brasileiro como espectador, eles não contabilizam escolas, universidades, lages, comunidades, centros comunitários, assentamentos, não consideram nada disso. Eu considero espectador até mesmo aquele que assiste numa cópia pirateada.

Quem assiste o filme é espectador, não me interessa como ele assistiu, interessa que ele assistiu. E essa grande massa assiste, ela compra na Rua Uruguaiana a cinco reais, ela se vira e assiste.

Então, o Brasil tem muito mais que 15 milhões de espectadores, mas pra Ancine só conta código de barras. Eles não contabilizam cinema, espectador, contabilizam ingresso vendido, que é outra coisa. E nós partimos da premissa que nós não vendemos ingresso, a gente faz filme pra ser visto.

Vocês viajaram bastante pelo Brasil para fazer esse filme, o que você poderia destacar de aprendizado dessas viagens?

Fomos ao Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Rio Grande do Norte, Brasília, viajamos bastante. A ideia de ambos "Os Venenos" é não localizar numa região, mas mostrar que o problema da agricultura brasileira é nacional. A abertura do filme é propositadamente com o Boaventura de Sousa Santos, que é um dos maiores intelectuais do mundo, muito respeitado na comunidade acadêmica e na militância social. Ele defende algo que vem se tornando uma evidência: o respeito aos saberes ancestrais.

A gente durante muito tempo viveu emparedado pelo cientificismo, que só as ciências poderiam trazer mudanças. E ai vem intelectuais, não só ele, mas da gama dele, e dizem que não.

Você tem gente, tem culturas milenares, que praticam uma agricultura sábia, ecológica, com equilíbrio, com defesa do ambiente e do homem, e que é capaz de nutrir a humanidade. Eu acho que essa é a grande lição de moral. Se o filme tem uma alguma moral, é essa.

O filme foi feito em parceria com o movimento social. Como se deu essa colaboração?
Eu sou um parceiro dos movimentos dispostos a mudar a vida. O meu cinema é um cinema político. Eu fui acusado disso durante muito tempo, até passar essa onda das pessoas gritando que o cinema não podia ser político, que cinema político não atingia ninguém, que ninguém via, ninguém gostava.

Então essa parceria minha com o movimento social ela antecede os próprios "Venenos". Eu já fiz filme de propaganda para partido político de graça. Porque eu não tava vendendo sabonete, eu tava fazendo política, eu tava apoiando as mudanças que o Brasil pedia. Eu já fiz filmes que sei que circulam no movimento social de forma pirata, mas eu prefiro que seja pirateado do que não ser visto, do que ficar na gaveta.

Meu filme sobre o Milton Santos é um ícone, Utopia e Barbárie, Marighella, ou seja, meu cinema é ligado aos movimentos sociais. Com trabalho conjunto com o movimento social oficialmente eu tenho o Veneno Está na Mesa 1 e agora o Veneno 2. Mas já fiz muitas coisas pro MST, e tenho muito orgulho.

Eu acho que se tem um movimento importante no Brasil é o movimento pela reforma agrária, é o movimento pela reforma urbana. As coisas mais bonitas que já aconteceram na minha vida, eu já tive alguns momentos de muita emoção. Um quando eu apresentei o Milton Santos na Escola Florestan Fernandes do MST e a outra foi no Rio de Janeiro.

Tinha um cinema na Cinelândia, que era um clássico do Rio de Janeiro dos anos 50, todo de mármore, bonito, que estava abandonado. Naquela semana as pessoas tomaram aquele prédio, os sem ­teto tomaram o prédio.

Na noite, acho que era véspera de 7 de setembro, algo assim, eles ocuparam o cinema, um sem­ teto se paramentou de lanterninha, puseram uma carrocinha de pipoca dentro do cinema, e as pessoas assistiram sentadas no chão de mármore durante quase duas horas o Milton Santos.

Foi uma das coisas mais lindas que aconteceu na minha vida. Ai eu falei: esse cinema que eu faço tem sentido, é junto com o movimento social, e é isso que me interessa na vida.

Estamos descomemorando os 50 anos do golpe, e temos falado muito da história da reforma agrária, o discurso do Jango.

Agora lancei duas séries, "Os advogados contra a ditadura", e "os militares que disseram não". Falei daqueles que se opuseram ao golpe, que são setores fundamentais mas não muito conhecidos.

Você conhece o nome dos generais golpistas, dos torturadores, mas você não conhece numa escala popular, não tem o reconhecimento, os militares que foram legalistas, foram constitucionalistas, que ficaram até o final ao lado do Jango, que mesmo depois do golfe ficaram militando e resistindo.

Você não conhece os advogados que eram advogados de perseguidos políticos, num país que não tinha nem habeas corpus. E eu fiz 5 programas de tv de 50 min cada um, cada série, e dois longas metragens. Tenho muito orgulho das coisas que faço, posso falar de peito erguido das coisas que faço.

Tem algum outro filme que você está fazendo agora?
Tem, eu não paro. Se você parar vocẽ morre, atrofia. Vai ficando velho vai enferrujando. Terminei junto esses três filmes. E agora to fazendo A Alma Imoral, do Nilton Bonder, e o assunto é sobre o exílio do poeta. Você não houve falar sobre o exílio de um poeta, e eu quero falar sobre isso.

Estamos lançando o filme num momento que a bancada ruralista tem feito ataques mais fortes a legislação dos agrotóxicos e ao mesmo tempo vivendo um clima pré­-eleitoral.

Esse filme consegue ter um impacto da opinião pública e trabalhar num sentido mais amplo da luta contra os agrotóxicos?
Eu acho que sim. A política não se faz a luz do dia, a política é uma coisa que você negocia, não é muito clara. Você tem hoje vertentes da sociedade que estão negociando para que se monte uma grande frente popular que faça frente a esse grupo do agronegócio.

Hoje você tem uma bancada ligada as negociatas, a esse Brasil feio, de mais de duzentos parlamentares. A gente tem que construir os outros duzentos. A gente tem que ter um preparo pro enfrentamento político também.

É onde eu tenho divergência com alguns companheiros militantes que eles querem abandonar as frentes de ação política. Eu acho que a frente de ação política é tão importante quanto a gente na rua, fazendo filme, debatendo.

Mas eu acho que a gente tem que construir, aumentar muito a bancada das pessoas que antagonizam com a bancada ruralista. A gente tem que quebrar esse monólito. A gente tem que fazer alianças, porque política é isso.

Se a gente conseguir roubar 12 deputados... não significa com isso que você vai abandonar as outras lutas, você vai continuar na rua lutando, falando o que você pensa, o que você quer.

Mas é preferível ter parlamentares que não são puro sangue mas estão aliados a gente, do que buscar a perfeição e não ter nada. É uma maneira reformista de pensar, mas que eu acho que tem sua razão de ser


Por que você acha que existe este desânimo com a política institucional?
Eu acho que as pessoas que estão desanimadas tem sua razão de ser. A gente engoliu muito sapo estes tempos. A gente vem engolindo muitos sapos, e vai cansando. Se a gente tem que dar nome aos bois, as últimas coisas que vem acontecendo há um tempo já com o PT, elas provocam um certo desencantamento.

Eu que nunca fui petista estou desencantado, eu não era petista mas eles tinham um discurso da pureza, e eles também sujaram as mãos. Se bem que o Sartre sempre disse que em algum momento é importante sujar as mãos. Mas eles eram puristas, eles não votaram no Tancredo Neves, não assinaram a Constituição.

Eles sempre fizeram uma política purista e hoje você tá vendo o que tá virando essa pureza toda. Pureza virou pó. Isso provoca um desencantamento mesmo naqueles não tendo sido do PT, petistas, eles acreditavam que o PT apresentava um projeto diferente, e que se desse certo poderia ser um projeto de futuro pro país.

Agora o PT negocia também, é mais um partido a negociar, uma bancada infindável de partidos.

Mas eu acho que não é porque o PT virou isso que a gente vai abandonar a política. Vamos buscar outros vieses, outras alternativas, vamos buscar outras formas de fazer política e outras formas de agir dentro da política.

Você acha que podemos nos espelhar nos exemplos latino­americanos?
Ninguém tem respostas. Hoje ninguém tem respostas. A gente não deve se espelhar em modelo nenhum, acho que devemos construir o próprio modelo. Você hoje não tem mais modelo, tem ações. Não dá pra dizer que o Maduro é igual ao Chavéz. O Raul não é igual ao Fidel, o país hoje é outro.

O carisma de um e o de outro não é o mesmo. O Evo Morales não é igual a eles. O mais interessante deles todos é o Pepe Mujica. Agora também não é o modelo, Uruguai é um país pequenininho, é um país onde você resolve os problemas de outra forma.

A maior massa da população uruguaia sempre foi urbana, o campo sempre foi vazio. Quando se chegou lá nos anos 60 querendo fazer um foco guerrilheiro, perguntaram: com bois e vacas? Você não tem camponeses na quantidade que tinha em Cuba.

Você não imita o modelo, acho que a gente tem que procurar construir o nosso próprio modelo. Um modelo que tem que ser não só avançado como original. Você volta no velho Jango e vai ver que propõe reforma agrária, reforma urbana, controle da remessa de lucros. Foi um governo nacionalista. A reforma agrária do Jango não era estatizante, ela criava o pequeno proprietário rural, e é um bom modelo a seguir. É só o país retomar a rota.

Esse novo modelo necessariamente passa pela agroecologia?
Não tem sentido você construir uma economia baseada na destruição da natureza. Isso não é economia, isso é catástrofe. Você criar um modelo econômico perverso, isso não é o país que a gente está construindo, isso é a barbárie.

Então eu acho que a agroecologia é fundamental como forma de produção econômica, social e de desenvolvimento. Eu tenho plena convicção que estamos fazendo o filme certo no caminho certo. Estamos no momento que a gente vai de alguma maneira poder colaborar com este debate, e estou muito feliz por isso.

Na abertura que no filme passado eram 20 entidades que assinavam e hoje você tem 80, é mostrar que há gente no Brasil preocupada com esse projeto, que nós não estamos sós, e um filme como esse é um filme agregador.

Nós estamos em um momento de descomemoração dos 50 anos do golpe, mas também estamos num momento de projeção dos próximos 50, 100 anos. E é isso que motiva esse movimento. O que nos interessa é discutir o passado pra não repeti­-lo. A gente fala do passado, mas está ancorado no futuro.

Nossa fonte: Página do MST

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Melgarejo: CTNBio ignora impactos da aprovação de transgênicos


Por José Coutinho Júnior (Da Página do MST)

Desde 26 de março, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) tem um novo presidente. O professor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) Edivaldo Domingues Velini, que entrou na comissão em outubro de 2013, foi indicado pelos outros membros para assumir a direção do órgão.

A escolha gerou preocupação para organizações e movimentos sociais do campo, pois o presidente declarou em 2011, em entrevista no site da Monsanto, que “ainda não há um herbicida que possa ser comparado ao glifosato em termos de segurança de uso e benefícios para o agricultor”.

E acrescentou que “não há o que contestar sobre uma tecnologia que alcança este nível de aceitação em escala mundial [que é produzido em] quantidade é suficiente para tratar 1 bilhão de hectares de lavouras”.

Para Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo que participou por seis anos da CTNBio, a escolha do novo presidente não levou em conta a dinâmica da comissão. “É surpreendente que o atual presidente tenha entrado na CTNBio e já assumido a presidência. É como se ele tivesse entrado para ser presidente, como se deixasse de ser relevante para a CTNBio o presidente ter vivência dentro da comissão para mediar as relações que lá ocorrem”.

Em entrevista à Página do MST, Melgarejo discute o impacto que as decisões tomadas pela CTNBio tem na sociedade, analisa como a proximidade de muitos de seus membros com setores do agronegócio é perigosa para a soberania do país e critica a forma com que a comissão libera transgênicos.

“Os membros da CTNBio estão tomando decisões que tem consequências políticas, sociais e ambientais brutais, mas se comportam como se fossem produtos neutros, que pudessem ser analisados olhando exclusivamente a composição genética, uma parte da planta que é jogada no mercado”.

Confira a entrevista:

Quais as funções do presidente da CTNBio?


O presidente coordena as relações lá dentro, media as discussões e representa o conjunto para a sociedade. Ele também é o responsável por consultar o grupo sobre temas importantes, colocar em plenária as discussões, o que nem sempre é feito em tempo.

Por ser uma balança entre as posições do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Saúde, Meio Ambiente e do outro lado o Ministério da Agricultura, o presidente deve ser isento. Portanto o presidente da CTNbio deve ser alguém com vivência lá.

É surpreendente que o atual presidente tenha entrado na CTNBio e já assumido a presidência. É como se ele tivesse entrado na CTNBio para ser presidente.

Nos poucos momentos em que esteve lá, ele talvez tenha tido alguma dificuldade de interpretar as várias correntes de pensamento que circulam lá dentro e o acúmulo de acordos estabelecidos ao longo dos anos de como interpretar as normas da CTNBio. Tem várias nuances que exigem vivência, que é mais importante para o presidente do que para os membros comuns.

É como se deixasse de ser relevante para a CTNBio o presidente ter vivência para mediar as relações que lá ocorrem. Não é que ele não tenha competência para isso, talvez até tenha, mas é importante conhecer o que ocorre dentro da CTNBio para presidir a comissão.

Como a proximidade de muitos membros da comissão com as empresas do agronegócio afeta as decisões tomadas na CTNBio?

Dentro da CTNBio, tem pessoas radicalmente confiantes nos transgênicos, tem pessoas radicalmente refratárias a essa tecnologia, e um grupo de pessoas com dúvidas em relação a esta tecnologia e seus impactos.

Em tese, a CTNBio deveria ser composta em sua maioria dessas pessoas que querem entender melhor, e tendo dúvidas, examinam com cautela todos os processos, levando a segurança em conta. Mas não é isso que acontece.

Mas o grupo majoritário na CTNBio acredita que os estudos feitos pelas próprias empresas defendendo os transgênicos são suficientes. O que não é verdade: os membros da comissão estão tomando decisões que tem consequências políticas, sociais e ambientais brutais, mas se comportam como se fossem produtos neutros, que pudessem ser analisados olhando exclusivamente a composição genética, uma parte da planta que é jogada no mercado.

É um reducionismo absurdo, pois despreza todas as relações que esse produto tem com outros organismos. A comissão centra sua análise na genética e diz que “este gene gera esta proteína, e olhando essa proteína não causa problemas”.

Essa análise não leva em conta que essa proteína permite que a planta tome um banho de veneno, que ela não tomaria caso a proteína não estivesse lá. E nos testes não se aplica o veneno; o transgênico é consumido de uma forma não produzida no mundo real.

Além disso, os testes são de curto prazo, não levam em conta as transformações realizadas ao longo da vida do animal.

São falhas grandes no processo de análise: as plantas são testadas em condições ótimas nos laboratórios, e nenhum ambiente real é ótimo. Vão existir condições de estresse nesses ambientes, e os membros da CTNBio deveriam exigir testes em todos os biomas, nas condições reais.

Os membros da CTNBio também desconsideram alertas de pesquisas que surgem em outros países, mostrando que podem haver problemas novos. Afirmava-se quando entrei na comissão que as proteínas BT, que matam lagartas, seriam destruídas no intestino, não sobrevivendo à digestão.

Mas a proteína foi encontrada no sangue de bebês, passando pelo fio da placenta. Que problema isso pode causar no bebê? Nós não sabemos, pois não temos estudos com animais prenhos comendo milho transgênico.

Então quando se faz um estudo daqueles no qual os ratos, alimentados com milho transgênico, apresentam câncer depois de 90 dias, nós percebemos que damos alimentos com esse milho na papinha das crianças, que isso entra no organismo pelas placentas, isso nos preocupa e constrange por perceber que dentro da CTNBio, onde boa parte dos membros deveria se pautar pela dúvida, o grupo majoritário se pauta pela confiança, e a confiança não ajuda no progresso da ciência, o que ajuda é a dúvida.

O governo brasileiro favorece o modelo do agronegócio. As posições da CTNBio não estão de acordo com essa visão do governo?

A influência do agronegócio resulta numa posição mais imediatista em relação a estes temas. Passa a ser mais importante uma safra do que as decisões que afetam o longo prazo.

Um exemplo bom é o da lagarta Helicoverpa Armigera, que apareceu no Brasil quando o milho BT ocupou a maior parte das lavouras e fez desaparecer outras espécies de lagartas. O sumiço destas fez desaparecer seus predadores, a Helicoverpa surgiu e ficou fora de controle.

Para controlar a nova praga, o governo autorizou importar um veneno que é comprovadamente danoso para o sistema nervoso dos humanos. Foi tomada uma decisão no interesse de salvar uma safra comprometida, usando um veneno danoso, contrariando recomendações da Anvisa.
O que não quer dizer que não existam questionamentos ou posições contrárias por parte do governo. Os Ministérios da Saúde, Meio Ambiente, o Conselho Estadual de Segurança Alimentar (Consea) tem posições contrárias, e as representantes do Ministério da Agricultura na CTNBio, apesar de votarem a favor da liberação de transgênicos, fazem pareceres coerentes e apresentam questionamentos e argumentos para serem debatidos.

Há um bloco alinhado pedindo estudos quando estes são insuficientes, e pelo que vi até hoje, os estudos sempre são insuficientes. Parece até uma atitude de birra pedir mais estudos, mas de fato são necessários mais estudos em todos os casos. Eu não acredito que, se reavaliássemos qualquer transgênico liberado no Brasil de forma independente, a avaliação com base nos dados que temos permitiria aprovação.

E tomara que eles estejam certos e nós errados, que a nossa preocupação seja ingênua e boba. Infelizmente o acúmulo de informações vem demonstrando cada vez de maneira mais consistente que eles estão errados, e não sei porque não admitem o erro.

Por que não há maior participação da sociedade nas reuniões da comissão?
As sessões da CTNBio são em tese abertas para a sociedade. Mas como os agricultores e organizações não tem o patrocínio que as empresas tem, apenas os representantes das empresas acompanham presencialmente as decisões, movimentações e discussões que ocorrem lá dentro e exercem uma pressão nas pessoas que votam.

Mesmo que essa pressão não consiga ser medida, é claro que há interesses em jogo e os ficais destes interesses estão lá olhando como votam as pessoas que decidem seus interesses.

Uma maneira de resolver isso é se a sociedade pudesse acompanhar as plenárias da CTNBio, onde são tomadas as decisões. As reuniões abertas deveriam ser transmitidas pela internet, porque aí uma liderança de movimento social poderia acompanhar de qualquer lugar do país.

Essa transparência é necessária. Se o que é discutido lá é para a segurança da sociedade, por que não mostrar? Por que discutir com portas fechadas e apenas com o agronegócio assistindo?
Existem divergências entre os interesses das empresas?
Sim. Quando eu me posiciono contra o 2,4D, que é um veneno mais perigoso para a sociedade do que o glifosato, a Monsanto gosta, porque o milho e soja tolerantes ao 2,4 D vão substituir os tolerantes ao glifosato. Então na defesa da sociedade, de se protejer do veneno, o que acontece na prática é que apoiamos outro veneno que já foi aprovado e não vai ser reavaliado.

Sempre que surge um veneno novo, mesmo a CTNBio preocupada com a defesa da sociedade termina atuando como elemento de proteção das empresas que já aprovaram seus produtos. Isso deveria ser rediscutido.

A bancada ruralista apresentou uma proposta para criar uma comissão similar a CTNBio para a aprovação de agrotóxicos. Como você vê essa proposta?
Seria um desserviço muito grande à segurança alimentar e ambiental. Comprometeríamos ainda mais os acordos que o Brasil faz. Recentemente a China devolveu grãos com resíduos de agrotóxicos; a Rússia não quer mais importar transgênicos. Se abrirmos esse espaço para que as empresas tenham uma incidência maior do que é produzido, aumenta nossa vulnerabilidade e diminui nossa capacidade de competição autônoma no mercado internacional. Vejo isso como uma ameaça a ser evitada.

A CTNBio não é um exemplo a ser seguido para se criar uma comissão que tome decisões a respeito de segurança. Essa comissão pretende apenas viabilizar uma aprovação mais rápida de produtos que deveriam ser analisados de forma mais lenta e cuidadosa. A agilidade serve aos interesses do negócio, não da segurança do país.

Como a CTNBio deveria ser para atender aos interesses da sociedade?
Ela deveria ser apoiada por um órgão público que financiasse estudos independentes e checasse os estudos feitos pelas empresas. Deveria obrigar as empresas a não apresentar somente os dados médios da produtividade de um produto novo, e sim mostrar os dados brutos e como se chegou a este número.

Deveria possibilitar reavaliações periódicas quando novos estudos surgissem. Ter uma composição mais equilibrada, preocupada com o ambiente, com a saúde e não só com a tecnologia em si. A sociedade precisa ter uma participação maior, com reuniões abertas, transmitidas, e deveria haver audiências públicas para todos os casos polêmicos.

A comunidade acadêmica, as organizações ambientais, de defesa do consumidor, deveriam ter representação, e a CTNBio deveria funcionar como uma instância consultiva. Que o consenso de todas as participações gerasse uma recomendação que fosse avaliada por uma instância superior que decidisse e levasse em conta todos os aspectos políticos envolvidos.

Na lei de biosegurança está previsto essa instância superior, que é o Conselho Nacional de Biosegurança (CNBS), que deveria avaliar a importância e a recomendação de liberar ou não da CTNBio.

Esse conselho não se reuniu uma só vez durante o tempo que estive na CTNBio. Se reuniu ao longo da história três ou quatro vezes, e simplesmente referendou as decisões da CTNBio, que como é hoje, atua como uma instância deliberativa, e a decisão tomada lá não é contestada.

A alimentação como um direito

O diretor do Ibase Cândido Grzybowski defende que a democracia deve ter um olhar cuidadoso e porque não radical para a questão da segurança alimentar
Publicado no Ibase http://www.ibase.br/ em 15/04/14

Por Cândido Grzybowski, Sociólogo, diretor do Ibase

O anúncio sobre a alta da inflação em março veio com a informação de que os preços dos alimentos novamente pesaram mais. Quem vai ao mercado atrás de alimentos sabe disto muito bem. Na verdade, se a gente considerasse a inflação específica dos preços dos alimentos ela seria muito maior que o tal índice médio. Sem dúvida a inflação de alimentos é um pesadelo muito grande para todo mundo, mas especialmente para quem tem o salário mínimo como referência de sua renda doméstica. Um real a mais aqui, um e setenta centavos acolá, dois e trinta ali, e assim vai. Tudo isto vira uma conta que dá como resultado real a redução da quantidade e da qualidade de alimentos na sacola de compras.

Mas a fome em casa não é gerida pelo tal mercado. As necessidades e desejos de comer se inscrevem na própria qualidade de vida que a gente leva. O alimento é central, pois sem ele nem há vida. Mas não é só isto. Alimentar-se tem tanto uma incontornável determinação fisiológica natural – a necessidade de consumo diário de calorias, proteínas e tudo mais – como uma profunda dimensão cultural e civilizatória. Alimento é convivência em família, é celebração e festa, é identidade cultural. Pensemos na feijoada aqui no Rio, no vatapá na Bahia, no pato ao tucupi no Pará, na polenta com frango dos italianos no Sul, no churrasco gaúcho – meio hegemônico na questão de carnes entre nós. São alguns dos exemplos mais claros de comidas associadas a verdadeiras culturas e identidades que resultam na vibrante diversidade de nosso povo. O direito ao alimento envolve tudo isto e é parte dos direitos fundamentais de nossa Constituição Cidadã. Soberania e Segurança Alimentar são bandeiras cidadãs no Brasil e mundo afora que clamam por políticas públicas para assegurar o direito de todas e todos ao alimento adequado à vida e à própria cultura.

Só que o mercado não se organiza em torno dos direitos e nem se limita pelos direitos. O mercado e os preços são uma grande invenção humana para realizar as trocas de produtos e serviços. Afinal, na medida em que as sociedades se complexificam e aumenta-se a divisão do trabalho, não há como funcionar sem troca. A moeda, como expressão e medida do valor, e as trocas são indispensáveis. Nunca é demais lembrar que foi nas praças públicas que surgiram os mercados, e ali também surgiu a própria democracia. O problema é que os mercados se autonomizaram da democracia, se tornaram livres e… escravizaram as pessoas e a própria democracia. Até a fome está subjugada pelo mercado. Isso é aceitável?

Pelos preceitos dos oráculos da economia, para enfrentar a alta de preços de alimentos o jeito é ajustar a fome aos preços e ao mercado. Buscar alimentos mais baratos, substituir alimentos, se necessário for, reduzir o consumo. Enfim, segundo a economia, não dá para controlar o mercado. É mesmo? E como ficam os direitos fundamentais de cidadania? Eles também dependem do mercado? Não é mercado demais e democracia de menos?

O problema é que o direito cidadão à Soberania e à Segurança Alimentar não se limita aos preços. Os preços no mercado não mostram as outras qualidades fundamentais que o produto (o alimento, no caso) carrega e não são evidentes. Alguém sabe que quantidade de agrotóxico – veneno que pode fazer mal e matar – está num simples pé de alface? No feijão? No tomate e no pimentão? No arroz de cada dia? Naquele franguinho gostoso? Na margarina e no óleo de soja? O agronegócio, o modelo empresarial de produção de nossos alimentos, de quase todos eles, tem o uso intensivo de agrotóxicos com uma condição. Somos o país de maior consumo de agrotóxicos por hectare do mundo. Sem falar que alguns agrotóxicos usados aqui já são proibidos há muito tempo em lugares onde se leva a sério a questão de saúde associada ao alimento. Não procure nos rótulos das embalagens algum indício do veneno usado, pois não existe!
Além dos venenos, escondidos naquela beleza de folhas, grãos e carnes, temos ainda a questão dos alimentos transgênicos. Hoje os transgênicos já ocupam um lugar de destaque na composição de nosso prato, em casa e no restaurante. Você sabia? Comecemos por reconhecer que, no mínimo, existem controvérsias científicas já provadas de que os transgênicos não são um alimento seguro. Um cientista francês, contestado pelas grandes multinacionais dos grãos, provou por “A mais B” que ratos comendo milho transgênico durante mais tempo do que os tais quatro meses de teste estipulados por órgãos reguladores, morrem de câncer simplesmente todos, enquanto os alimentados de outra forma continuam vivos. E aí? Não somos ratos, evidentemente! Vamos ter que testar em humanos o risco e só então exigir mais precaução na liberação de produtos transgênicos? O princípio da precaução faz partes dos acordos da Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU de 1992, realizada no Rio, a Eco-92. Bem, acordos sim, mas negócios e livre mercado à parte.

No Brasil adotamos quase por completo a liberação dos transgênicos. O caso mais complicado é de milho e soja, de que somos grandes produtores e exportadores, e que são essenciais na teia alimentar de hoje em dia, no nosso prato. No Brasil se adota parcialmente o T, de transgênico, em alguns produtos. Escrito em letra bem pequenina no rótulo, mas está lá. Quem vê? Bem, está na maior parte das embalagens de óleo de soja e de milho. Os que tem T são mais baratos – olha aí o tal mercado. Mas margarina é feita de soja, exatamente pelas mesmas grandes corporações de agronegócio do óleo de soja. Alguém viu o T no rótulo das margarinas? Mas o problema não acaba aí. Frango come ração com soja e milho, muito provavelmente transgênicos. A vaca, do leite, manteiga e queijo, também come ração. O porco, hoje tão baratinho, é um transgênico completo pelo que come. Seus derivados deliciosos como a linguiça, o bacon, o salame e aqueles maravilhosos complementos da feijoada, todos têm alta dose de transgênicos. Onde está o tal T pequeninoo, difícil de ver? Pela via do mercado, não temos escolha: comemos transgênicos! Será que segurança alimentar é comer uma bomba assim?

Tem outro problema ligado a esse mercado de alimentos: a procedência. Pode ser, e muitas vezes é, que o preço de certas frutas importadas da Argentina ou do Chile sejam mais baratas que as nossas. Falo de uvas e maçãs, por exemplo. O Brasil é talvez o maior pomar do mundo, pela quantidade e pela diversidade tanto de frutas nativas como das chamadas exóticas. Pois bem, o Brasil é o maior produtor e exportador de laranja e cítricos em geral. Precisa importar laranja e tangerina do exterior? Tornamo-nos um dos grandes produtores de maçã – um fruta essencial, segundo médicos e nutricionistas. Por que importar maçãs da Argentina? Somos um dos maiores produtores de uva de mesa, infelizmente não adequada para vinhos. Será que precisamos de uvas de mesa do Chile?

Ainda não é uma prática recorrente a indicação de procedência dos alimentos oferecidos nos mercados. Aliás, é coisa rara. Aqui estamos diante de uma grande questão de sustentabilidade associada ao alimento. As culturas alimentares se desenvolveram graças à biodiversidade e aos próprios sistemas ecológicos do Planeta Terra. Como humanos, soubemos tirar partido do que a natureza nos propiciava. A migração de plantas, como dos próprios seres humanos, é um direito. Ao menos eu reconheço e pratico na minha pequena chácara, dada a minha origem e tradição de camponês. Hoje temos uma riqueza de plantas e animais, base de alimentos, muito diversificada e espalhada pelo mundo, graças inclusive ao próprio engenho humano, que ajudou a descobrir ambientes e adaptar vidas de plantas e animais a eles. Mas uma coisa é produzir no Brasil o abacate, originário do México, que se dá muito bem aqui, e outra é importar. Isto vale para muitos alimentos. Um princípio básico da sustentabilidade hoje são os circuitos curtos: produzir aqui para consumir aqui. Claro que isto não resolve todas as necessidades e desejos alimentares. Mas o essencial pode e deve ser resolvido por nós aqui, sim! Que sentido tem exportar maçãs e importar maçãs? Onde está a lógica de exportar uvas do vale do São Francisco e importar uvas do Chile? Por que importar alhos e cebolas se podemos produzir tais hortaliças por aqui, até melhores? Como cidadão consumidor e preocupado com a sustentabilidade da vida – que nada tem a ver com negócios “sustentáveis” que alimentam as trocas internacionais – reivindico o direito de ser informado sobre a origem do alimento que estou comprando.

Enfim, como dá para ver, tratar de alimento é lidar com algo que condensa contradições de um direito humano básico. As questões são muitas. O preço dos alimentos é, na verdade, muito mais do que preço. Nele está encoberta toda uma história de soberania e segurança alimentar, essencial para pensarmos a sustentabilidade da vida e do planeta. Democracia para valer deve tratar disto com o cuidado e a radicalidade que merece.

Movimento de agricultura urbana lança site com guia de orgânicos para facilitar a vida dos paulistanos

 
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Ficou mais fácil localizar restaurantes, feiras e hortifrutis que comercializam produtos orgânicos e agroecológicos em São Paulo: o Movimento Urbano de Agroecologia (MUDA) acaba de lançar um site com um amplo mapeamento das opções na capital paulista.

O  www.muda.org.br foi criado com o objetivo de se tornar uma referência em agricultura urbana, gastronomia saudável e sustentável, produção local e consumo de orgânicos, para todos os paulistanos utilizarem no seu dia-a-dia. Para isso, oferece uma ferramenta de geolocalização, com identificação fácil e clara dos restaurantes que trabalham com alimentos orgânicos, das feiras e locais que comercializam orgânicos e das instituições que trabalham com o tema. 

Para quem quer se envolver mais e se engajar há também indicações de como participar. São orientações desde como participar dos plantio coletivo nas hortas da cidade até lista de filmes para organizar cineclubes com amigos, família, comunidade para sabermos mais.  Na seção “Faça Você Mesmo”, o internauta encontra todo tipo de dica sobre como iniciar um horta,  plantar em seu quintal ou como fazer uma horta vertical em espaços menores.

Para manter o mapa constantemente atualizado, o site conta com uma ferramenta de cadastramento, para que mais estabelecimentos e produtores possam se inserir no guia.  O site oferece ainda um extenso conteúdo com notícias, vídeos, manuais e publicações, bem como uma agenda compilando todas ações e eventos da área.

SOBRE O MUDA: O Movimento Urbano De Agroecologia – MUDA é fruto da união de indivíduos que buscam uma nova maneira de viver a cidade e se relacionar com o campo. Na criação de uma cidade mais verde, e buscando a reconexão e respeito com a natureza e a valorização do agricultor familiar, o MUDA quer integrar todos que compartilham esse desejo a se juntar para promover intervenções e ações de uma maneira divertida e criativa para realizar nosso sonho.

Para mais informações:
Susana Prizendt – contraosagrotoxicossp@uol.com.br
Telefone: (11) 3685-3958