Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O outro lado que a mídia esconde


No Brasil, deputada grega fala da crise e defende auditoria da dívida

Em seminários em Brasília, Sofia Sakorafa diz que crise grega é 'catastrófica' e filha do neoliberalismo. Crítica e único voto contra acordo com FMI, socialista acha 'imoral' e 'desonesto' impor ao povo custo de socorro a bancos e prega auditoria. 'Que paguem os responsáveis', afirma. Comissão de auditagem paralela ao governo já começou.

BRASÍLIA – O acordo do governo grego com o Fundo Monetário Internacional (FMI) recebeu só um voto contra no parlamento, da deputada Sofia Sakorafa. Integrante do Partido Socialista como o primeiro-ministro George Papandreou, Sofia passou por Brasília nos últimos dois dias. 

Em eventos públicos, deu um testemunho sobre o drama do país. Culpou o neoliberalismo e o sistema financeiro pela crise que atinge a Grécia e parte da Europa. E defendeu que todos os países com problema de dívidas parem de pagá-las e façam antes uma auditoria nelas.

“Meu país está em uma situação muito difícil”, afirmou Sofia, traduzida por um brasileiro. Paga até hoje empréstimos de 80 anos atrás que, em juros, já consumiram o dobro da quantia original. A situação piorou e tornou-se “castatrófica” depois da crise global de 2008, que exigiu injeção de dinheiro público grego em bancos. 

A conta que chegou ao governo, na forma de aumento da dívida pública, levou Papandreau ao FMI e a um acordo que traz consigo corte de gastos sociais, desemprego, recessão, desesperança. “A situação mudou de uma hora para outra, e os cidadãos não têm culpa”, disse. “É imoral e desonesto querer que os cidadãos paguem os oportunistas.”

Por “oportunistas”, leiam-se “banqueiros” que, para a deputada, produziram a crise, com ganância sem regulamentação, e agora tentam lucrar com o socorro recebido do governo. Como as consequências se abaterão sobre a população, seria imperioso auditar a dívida pública, para depurá-la de “corrupção” e “ilegalidade” que a teriam inchado.

Embora tenha sido rejeitada formalmente pelo governo grego, a auditagem está sendo feita por uma comissão que envolve sindicatos e outras organizações sociais. “É direito democrático e sagrado dos cidadãos saber por que e como foi causado isso que eles têm de pagar hoje”, disse Sofia, que acredita que a dívida deve ser paga "pelos responsáveis".

Para a deputada, “os políticos terão de voltar ao método antigo e bater de porta em porta” para mostrar que é possível auditar a dívida e trilhar um caminho alternativo ao aconselhado pelo FMI. A mídia, segundo ela, "joga o jogo do grande capital” e esconde dos gregos que Malásia (1997) e Equador (2007) promoveram auditorias e estão melhores do que antes.

A atual crise da dívida grega seria um capítulo recente de uma história mais velha, que Sofia data do “surgimento do neoliberalismo do estilo Thatcher e Reagan”. A ex-primeira ministra britânica Margareth e o ex-presidente dos Estados Unidos Ronald teriam tentado “alterar o equilíbrio do poder econômico e social entre a classe capitalista e trabalhista em favor da primeira”. 

Com essa postura, a dupla neoliberal teria subvertido a essência da democracia tal qual ela foi definida por um de seus padrinhos, justamente um estadista grego, Péricles: “O nosso regime se chama democracia pelo fato de que o governo do país encontra-se não nas mãos dos poucos, mas sim nas mãos de muitos.”

Sofia participou na quarta-feira (5) de um seminário sobre a crise realizado na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) por iniciativa de uma série de entidades e que contou com representantes latino-americanos. E, nesta quinta (6), de um seminário promovido em conjunto por três comissões da Câmara.


Três mulheres ganham o Prêmio Nobel da Paz


Três mulheres foram anunciadas pelo Comitê Nobel da Notuega nesta sexta-feira (7) como ganhadoras do Prêmio Nobel da Paz: a presidente da Libéria, Ellen Sjohnson-Sirleaf, a militante pela paz também liberiana Leymah Gbowee e a ativista iemenita Tawakkul Karman.


As três foram recompensadas "por sua luta pacífica pela segurança das mulheres e de seus direitos de participar nos processos de paz", declarou, em Oslo, o presidente do Comitê Nobel norueguês, Thorbjoern Jagland.

Johnson-Sirleaf era a mais provável ganhadora do prêmio por ser a primeira mulher africana eleita presidente democraticamente, por ter colocado um fim ao conflito armado na Libéria e contribuído à queda do presidente anterior, Charles Taylor, julgado por crimes contra a humanidade por um tribunal internacional.

Nascida na Monróvia em 1938, Johnson-Sirleaf chegou ao poder nas eleições de novembro de 2005, ao vencer seu principal oponente, o ex-jogador de futebol George Weah.

Nossa Fonte: Vermelho

DO FUNDO DO POÇO


Frei Betto  



 Vira e mexe, volta à baila o  tema da descriminalização das drogas. Uns opinam que com o sinal verde e a  legalização da venda e do consumo o narcotráfico perderia espaço e a saúde  pública cuidaria melhor dos dependentes, a exemplo do que se faz em relação ao  alcoolismo.

 Outros alegam que a maconha deveria ser liberada, mas  não as drogas sintéticas ou estupefacientes como crack, cocaína e ópio.

 Não tenho posição formada. Pergunto-me se legalizar o plantio e  o comércio da maconha não seria um passo para, mais tarde, se deparar com  manifestações pela legalização do tráfico e consumo de cocaína e  ecstasy...

 Presenciei, em Zurique, no início dos anos 90, a  liberação do consumo de drogas no espaço restrito da antiga estação  ferroviária de Letten. Ali, sob auspícios da prefeitura, e com todo  atendimento de saúde, viciados injetavam cocaína, ópio, heroína, a ponto de o  local ficar conhecido como Parque das Agulhas. Em 1995, encerrou-se a  experiência. Apesar do confinamento, houve aumento do índice de viciados e da  criminalidade.

 Nem sempre o debate se pergunta pelas causas da  dependência de drogas. É óbvio que não basta tratar apenas dos efeitos. Aliás,  em matéria de efeitos, a minha experiência com dependentes, retratada no  romance “O Vencedor” (Ática), convenceu-me de que recursos médicos e  terapêuticos são importantes, mas nada é tão imprescindível quanto o afeto  familiar.

 Família que não suporta o comportamento esdrúxulo e  antissocial do dependente, comete grave erro ao acreditar que a solução reside  em interná-lo. Sem dúvida, por vezes isso se faz necessário. Por outras é o  comodismo que induz a família a se distanciar, por um período, do parente  insuportável. Dificilmente a internação resulta, além de desintoxicação, em  abstenção definitiva da droga. Uma vez fora das grades da proteção clínica, o  dependente retorna ao vício. Por quê?

 Sou de uma geração que, na  década de 1960, tinha 20 anos. Geração que injetava utopia na veia e,  portanto, não se ligava em drogas. Penso que quanto mais utopia, menos droga.  O que não é possível é viver sem sonho. Quem não sonha em mudar a realidade,  anseia por modificar ao menos seu próprio estado de consciência diante da  realidade que lhe parece pesada e absurda.

 Muitos entram na droga  pela via do buraco no peito. Falta de afeto, de autoestima, de sentido na  vida. Vão, pois, em busca de algo que, virtualmente, “preencha” o  coração.

 Assim como a porta de entrada na droga é o desamor, a de  saída é obrigatoriamente o amor, o cuidado familiar, o difícil empenho de  tratar como normal alguém que obviamente apresenta reações e condutas  anômalas.

 Do fundo do poço, todo drogado clama por transcender a  realidade e a normalidade nas quais se encontra. Todo drogado é um místico em  potencial. Todo drogado busca o que a sabedoria das mais antigas filosofias e  religiões tanto apregoa (sem que possa ser escutada nessa sociedade de  hedonismo consumista): a felicidade é um estado de espírito, e reside no  sentido que se imprime à própria vida.

 O viciado é tão consciente  de que a felicidade se enraíza na mudança do estado de consciência que, não a  alcançando pela via do absoluto, se envereda pela do absurdo. Ele sabe que sua  felicidade, ainda que momentânea, depende de algo que altere a química do  cérebro. Por isso, troca tudo por esse momento de “nirvana”, ainda que  infrinja a lei e corra risco de vida.

 Devemos, pois, nos  perguntar se o debate a respeito da liberação das drogas não carece de ênfase  nas causas da dependência química e de como tratá-las. Todos os místicos, de  Pitágoras a Buda, de Plotino a João da Cruz, de Teresa de Ávila a Thomas  Merton, buscaram ansiosamente isto que uma pessoa apaixonada bem conhece:  experimentar o coração ser ocupado por um Outro que o incendeie e arrebate.  Esta é a mais promissora das “viagens”. E tem nome:  amor.

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com  Marcelo Gleiser e Waldemar Falcão, de “Conversa sobre a fé e a ciência”  (Agir), entre outros livros. 
http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.



Copyright 2011 – FREI BETTO – 
Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br) 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O Bolsa Verde: Programa de Apoio à Conservação Ambiental



O Programa Bolsa Verde – Programa de Apoio à Conservação Ambiental -, criado pela Medida Provisória nº 535/2011, passa a ser regulamento pelo Decreto 7.572/2011 publicado no DOU (Diário Oficial da União) em 29 de setembro.
O Programa Bolsa Verde tem como objetivos, incentivar a conservação dos ecossistemas. Além disso, deve também promover a cidadania, a melhoria das condições de vida e a elevação da renda da população em situação de extrema pobreza que exerça atividades de conservação dos recursos naturais nas áreas indicadas pelo regulamento.  

A coordenação, execução e operacionalização do Programa Bolsa Verde fica a cargo do MMA (Ministério do Meio Ambiente), que deve observar as indicações do Comitê Gestor do programa.

São beneficiadas pelo programa as famílias em situação de extrema pobreza que desenvolvam atividades de conservação ambiental em Florestas Nacionais, Reservas Extrativistas Federais e Reservas de Desenvolvimento Sustentável Federais. Estão ainda incluídas as famílias existentes em projetos de Assentamento Florestal, projetos de Desenvolvimento Sustentável ou projetos de Assentamento Agroextrativista instituídos pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária-INCRA.

O programa também vai englobar outras áreas rurais indicadas pelo Comitê Gestor e definidas pelo MMA.

 Vejam a íntegra do Decreto nº 7.572, de 28.09. 2011 em: 

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Proteção para a Cantareira


Artistas fazem "macumba antropófaga" contra obra em SP


      Artistas, intelectuais e ambientalistas realizaram, na noite desta segunda-feira (3), uma “macumba antropófaga” contra a construção do trecho norte do Rodoanel. O ato ocorreu no Teatro Oficina, que fica na Bela Vista, região central da capital paulista, e foi comandado pelo diretor José Celso Martinez Corrêa.


Alex Almeida/UOL
macumba antropófaga
Ato ocorreu no Teatro Oficina e foi comandado pelo diretor José Celso Martinez

    
No evento, o geógrafo Aziz Ab Saber, responsável pelo mapeamento dos ecossistemas brasileiros, criticou a obra: “Essa construção vai ser uma catástrofe para a Cantareira”.
     Após a “macumba”, os participantes lançaram um manifesto contra o novo trecho do Rodoanel. A ideia é conquistar apoio de formadores de opinião e pressionar o governo do Estado a alterar o traçado da obra, para evitar que ela afete a região da Serra da Cantareira.

     Críticas à obra

     As mais de 50 entidades ambientalistas que criticam a obra dizem que o trecho norte vai alterar a paisagem da região e provocar impacto sobre o ecossistema. Treze parques situados às margens da Serra da Cantareira também serão diretamente atingidos pela obra.
     Avaliado em R$ 6,5 bilhões, o Rodoanel Norte será financiado com recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento, R$ 1,7 bilhão), do governo do Estado (R$ 2,8 bilhões) e do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento, R$ 2 bilhões).
      A licença ambiental para o trecho norte do Rodoanel foi aprovada pelo Consema (Conselho Estadual do Meio Ambiente) em junho deste ano. Atualmente, a obra está na fase de pré-qualificação das empreiteiras que devem disputar a licitação. O prazo para a conclusão do trecho, o último do Rodoanel, é novembro de 2014.
     A Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S.A) --órgão estadual responsável pela obra-- aguarda a procuradoria do Estado emitir os decretos de utilidade pública para iniciar as desapropriações e começar a obra.
     Em julho, a previsão era que as desapropriações teriam início em setembro, mas agora a Dersa prevê que somente em janeiro os moradores comecem a ser retirados. Mais de 4.000 casas serão desapropriadas, incluindo 2.000 famílias que moram em áreas ocupadas nas últimas décadas na periferia da zona norte da capital, como o Jardim Corisco, Jardim Peri, Jardim Paraná e Parada de Taipas. Por não possuírem as escrituras dos terrenos, as famílias só receberão indenizações pelas benfeitorias construídas.
      O trecho norte terá 44 km de extensão e ligará as rodovias Ayrton Senna, Dutra, Fernão Dias e Bandeirantes. A via passará pelos municípios de São Paulo, Guarulhos e Arujá e margeará o Parque Estadual da Serra da Cantareira.
     A Serra da Cantareira é considerada a maior floresta em área urbana do mundo e foi tombada pelo Condephaat, Conpresp e Iphan, respectivamente os órgãos de preservação estadual, municipal e nacional. Área de proteção, a Cantareira reúne diversas espécies da mata atlântica e possui dezenas de nascentes, além de abrigar o principal sistema de abastecimento de água da capital.
Nossa fonte: Vermelho

Mídia alternativa, um bom caminho


O Brasil tem uma infinidade de projetos exitosos em todo o seu vasto território (1).

São projetos do poder público, do setor privado e do Terceiro Setor.
Entretanto, a grande mídia faz a opção deliberada pela indústria do caos, medo e da desesperança. Deliberada porque, no varejo vende mais a cada dia, no atacado e no longo prazo trata-se de um projeto político de dominação, não sejamos ingênuos para não perceber que os grandes veículos de comunicação, existem sobretudo como projeto de poder político. Ao bater na tecla da desesperança e dominação, estão querendo dizer à população, não há nada a fazer mesmo, está tudo perdido...(Sic). Será que o leitor conhece ou já ouviu falar dos restaurantes populares do Ministério do Desenvolvimento Social e Combata à Fome - MDS. Conhece as pesquisas da Fundação Osvaldo Cruz – Fiocruz, no Rio de Janeiro, do Instituto Butantã, em São Paulo, as pesquisas e acervo do Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém-PA, à serviço da Amazônia há 145 anos. Será que o leitor conhece o Programa Bolsa Floresta do Governo às populações tradicionais, que vivem na floresta do Estado do Amazonas. Conhece o acervo e pesquisa do INPA na Amazônia? Conhece as inúmeras iniciativas das organizações do terceiro Setor nas diversas áreas da sociedade como Educação, Saúde, Segurança Alimentar e Nutricional, nos campos da Cultura & Arte. A população em geral, reconhece ou identifica os serviços ambientais prestados pelos catadores de matérias recicláveis, palas ruas das cidades, à sociedade e às prefeituras sem serem remunerados por isso pelo poder público?

A lista dos projetos exitosos pelo Brasil são tantos, que não caberiam neste boletim. Uma crítica e uma sugestão: a grande mídia, com raras exceções, não explora e divulga projetos exemplares para a população, preferindo optar pela cultura do caos. Procurar conhecer a mídia alternativa pode ser um bom caminho.

(1) Texto retirado do boletim Economia Viva (nº5 out/11). Para uma leitura completa do boletim, que aborda assuntos bem interessantes e é “um bom caminho”, acesse: www.economiaviva.com.br . Ontem, publicamos, aqui, matéria sobre o trabalho do CEHMOB, em MG,seu site: www.cehmob.org.br . Ver postagem"O arco-íris do fundo do Mar da África".

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O arco-íris do fundo do mar da África (1)

         Era uma vez, no fundo do mar que banha a África, uns peixinhos coloridos brincavam de arco-íris. Os peixinhos vermelhos formavam uma fila, que logo era acompanhada pela fila dos peixinhos cor de laranja, seguida pela dos amarelinhos, depois pela dos branquinhos, tendo os roxinhos se posicionado do outro lado dos vermelhinhos, seguidos de outros de outras cores até formarem um verdadeiro arco-íris. Ficavam horas nessa linda brincadeira. Como era no fundo do Oceano, ninguém os via, mas um cavalo marinho, muito curioso, se escondia atrás de uma alga gigante para se deliciar com aquela lindeza.
     Numa praia não muito distante dali, um menino construía uma casa na areia. Era uma criança de cerca de 10 anos, magra, pequena para sua idade, rosto triste, cujos olhos desmentiam a tristeza e brilhavam denunciando grandes sonhos. Ouviu um barulho, levantou a cabeça e viu seu pai puxando uma grande canoa para o mar. Largou a casa de areia, correu para ajudar o homem e, quando a canoa já deslizava na água, os dois pularam dentro e a boca do Betinho já quase sorria, acompanhando a do pai que se arreganhava de prazer olhando a agilidade do filho.
Zé da Fiica era pescador, um homem de seus 40 anos que conservava o apelido dos seus sete, quando, na escola, para distinguir dos outros cinco Zés, a professora, ao apresentá-lo para os demais colegas, disse:
-  Este é o Zé, filho da D. Fiica. – Num uníssono o fundo da sala gritou:
- Senta aqui, Zé da Fiica. – O apelido pegou e ficou. D. Fiica morreu, o Zé cresceu, virou pescador dos grandes, casou-se, teve cinco filhos e continua Zé da Fiica.
- Obrigado pela ajuda – o pai foi logo falando -. Agora, volta para sua mãe não morrer de preocupação e depois me receber com olhos de brasa e nada de beijo. – Betinho deu de ombros e ficou como que ignorando a ordem. Zé fechou a cara e disse:
- Vou jogar um menino teimoso no mar. Anda logo se não vai ter que nadar muito, já estamos distanciando da praia. – O menino fingindo esforço para não rir, respondeu:
- Mãe sabe. Quando cheguei da aula, falei pra ela que a professora não passou lição e ela deixou eu ir pescar com o senhor. – Aí sim riu com gosto da cara do pai. Os dois entraram no silêncio da confiança. Betinho era quarto filho, o mais parecido no gênio com o pai. Fisicamente era a cara da mãe, mas a alma era filha do pai. Um gostava de estar na companhia do outro e não precisavam de muitas palavras.
Chegaram em um determinado lugar, já distante da praia. Zé desligou o motor, pegou o remo e ajudou a canoa a deslizar mais alguns metros, então jogou a âncora. Olhou para o filho e disse:
- Se quer mergulhar, vai já pra não ficar debaixo d’água depois de escurecer. – Betinho tirou a roupa, ficando só com a cueca, pulou na água e sumiu. – Zé ficou meio tenso e pensou alto:
- Que mãe Iemanjá proteja meu filho e não deixe ele ter a dor lá embaixo. – Sempre que Betinho o acompanhava, vivia aquela dolorosa contradição. O filho gostava de nadar, mergulhar, sentir-se livre, integrado à imensidade do mar. Zé sabia o valor da liberdade – a história de seus antepassados, vendidos como escravos, era sua conhecida e servia de  fundo para seus pesadelos – por outro lado, o filho tinha umas dores que o transtornavam e elas vinham a qualquer momento. Havia, na escola, outras crianças com essas dores e ninguém sabia curá-las.
     Betinho conhecia bem o caminho para achar o cavalo marinho, seu amigo e companheiro de apreciar a lindeza daquele arco-íris do fundo do mar. Seu coração batia totalmente descompassado. Sua cabecinha temia não encontrar o amigo e não parava de se perguntar:
– Será que o cavalinho está me esperando? Será que está pensando que não venho mais? Faz três dias que não apareço... – Pensava com angústia. Ele não se preocupava com a respiração. (Ás vezes, Betinho achava que, se quisesse, podia respirava água e já esteve muito tentado a experimentar, mas sua mãe ficava muito brava quando acontecia alguma coisa com ele e “o pai não ganhava beijo”). Betinho gostava de, às escondidas, ver seu pai jogar olhar de bobo pra sua mãe. Era só isto acontecer e sua mãe corria pra se sentar no colo do pai e, aí, Betinho, encabulado com vergonha de estar olhando, virada a carinha e saia rindo, quietinho para ninguém desconfiar.
     Betinho chegou atrás da alga gigante e encostou o dedo indicador na barriga do cavalo marinho que se enroscou dando as boas-vindas ao amigo. O arco-íris estava mesmo uma beleza e os peixinhos – sabiam que estavam sendo observados? – começaram uma dança lenta, ritmada, cuidadosa para não desmanchar a composição das cores, afinal eles eram o arco-íris! Betinho ficou de queixo caído e quase fez a experiência sem querer, pois abriu a boca que, é claro, ficou cheia de água salgada. Tentava cuspir, porém só pôde evitar engolir. Teve mesmo que subir à tona para respirar, pensando que os peixinhos podiam achar ruim com ele e irem embora. Respirou, armazenando o máximo de ar que seus pequenos pulmões suportavam e mergulhou de novo, sem nem ver a canoa do pai.
     Chegando lá embaixo, percebeu que o arco-íris estava se desmanchando e os peixinhos tomavam várias direções. Ficou intrigado e chamou, com um gesto enfático, seu amigo, o cavalinho, para um papo na superfície. 
     O cavalo marinho contou que os peixinhos não eram daquelas águas. Moravam em lugares distantes e diferentes. Um dia, um deles percebeu que havia no oceano peixinhos de várias cores e vários lugares. Ele começou a nadar por onde não era seu costume e foi encontrando os peixinhos azuis, vermelhos, amarelos. Depois de algum tempo, ele já conhecia muitos deles, então, marcou com eles um ponto de encontro e deu início à troca de experiências e de sonhos. A dança do arco-íris foi um desafio que um peixinho branquinho, que se julgava muito sem graça, fez para todos. Ensaiaram durante muito tempo. Chegaram a quase desistir, pois erravam muito, não sabiam a própria cor e entravam em filas erradas. Alguns moravam muito longe e chegavam cansados, outros não conseguiam acertar o ponto de encontro e se perdiam. Foram resolvendo os problemas um a um. O peixinho desafiante chegou a consultar uma velha baleia que demorou para ouvir a voz fraquinha do pequenino e até entender os problemas foi outro tempo. Como todos estavam interessados em executar o arco-íris, a  velha  baleia se sentiu também desafiada a mostrar seus conhecimentos, tiveram muita paciência e perseverança. A conselheira indicou outras criaturas do mar que, com suas diferentes especialidades, podiam colaborar nos mais diversos obstáculos. Assim, com a ajuda de muitos, os peixinhos conseguiram, enfim, definirem a coreografia e os ensaios passaram a ser diários. Daí, outro problema surgiu,  houve um acidente e vários peixinhos morreram. Nesse momento, até o branquinho fraquejou, achando que deveria retirar o desafio, não valia a pena tanto esforço. A velha baleia, na sua sabedoria vivida, perguntou:
- Não vale a pena o quê? Vocês vão parar de se esforçar para  ver seu sonho virar verdade e vão fazer o quê? Vão voltar a ter sua vidinha sem graça? Se é isto que preferem, então, fiquem em suas tocas. Vou dar minha sabedoria para quem merece, para quem queira nadar pra frente e ver coisas novas e belas. - Todos foram embora, bem murchinhos. No dia seguinte, sem qualquer combinação e uma hora antes do horário de costume dos ensaios, os peixinhos foram chegando e se posicionando sem que alguém desse um pio. Foi o primeiro ensaio geral. Depois foi só beleza. Todos os dias o fundo do mar apresenta o espetáculo que maravilha seus habitantes e os deixa felizes.
     Chegou o instante de a  velha baleia  partir para seu lugar de repouso e o grupo dos peixinhos mais  todos aqueles que ajudaram na solução dos vários problemas se juntaram para a despedida da grande conselheira. O cavalo marinho terminou dizendo:
- Isto aconteceu há alguns bons anos. Meu avô foi quem me contou e me passou o lugar de onde eu assisto a todos os arco-íris do fundo do mar. -
     Betinho, comovido, agradeceu ao amigo a bela estória e foi nadando para a canoa que continuava no mesmo lugar. Lá chegando, encontrou o pai sentado, suado e a seus pés um peixe bastante grande para acabar com a pesca daquela noite. O pai contou do trabalho que teve  e concluiu que era hora de encerrar a pescaria. Voltaram em silêncio até que Zé da Fiica quis saber o que havia perturbado tanto o filho.
- Conta o que aconteceu. Você parece que viu uma sereia. – O menino contou e perguntou:
- Pai, será que se agente procurar uma velha baleia ela não ensinaria como tirar minhas dores? – A que Zé respondeu:
- Se vamos achar uma velha baleia não sei, mas acabo de saber que devemos procurar. Vamos achar quem tenha a sabedoria da velha baleia e queira nos ajudar. Com certeza , vamos precisar de muitas pessoas com seus diferentes saberes. Vamos achar. – Comovido, puxou Betinho para seu colo e lhe deu um beijo na cabeça.

(1) Esta estorinha foi contada pela coordenadora do projeto ANINHA, a médica pesquisadora Milza Cintra Januário, durante a comemoração dos 20 anos da Associação de Pessoas com Doença Falciforme e Talassemia de Belo Horizonte e Região Metropolitana, MG.  O ANINHA - um exemplo de trabalho envolvendo pesquisa, assistência e muita humanização, trata de gestantes com DF e  é um filhote do Centro de Educação e Apoio para Hemoglobinopatias. O CEHMOB já é referência internacional.  Sua origem é uma parceria entre o NUPAD  e a HEMOMINAS, cujos responsáveis são, respectivamente,  o médico Prof. José Nélio Januário e a hematologista Mitiko Murao  O primeiro é o programa de triagem neonatal de Minas Gerais. Faz o teste do pezinho, que  diagnostica os bebês nascidos com doença falciforme (DF). O grande diferencial é o acompanhamento permanente que o NUPAD faz das crianças.Trata-se de doença genética, portanto, incurável. Cursa com várias alterações que promovem durante a vida da pessoa, situações muito difíceis. Em geral, é detectada em negros (a doença veio da África), mas pela miscigenação há pacientes de várias etnias. A dor (crise álgica) é terrível para quase todos os pacientes.Muitos chegam a desejar a morte. Como a doença ainda não é conhecida em sua totalidade pela equipe de saúde (tão pouco pela sociedade), nem sempre esta dor é valorizada, somente quem está muito perto consegue mensurá-la. Para conhecer esse trabalho, visite: www.cehmob.org.br .

Adeus Europa

Frei Betto (1)

     Lembram-se da Europa resplandecente dos últimos 20 anos, do luxo das avenidas do Champs-Élysées, em Paris, ou da Knightsbridge, em Londres? Lembram-se do consumismo exagerado, dos eventos da moda em Milão, das feiras de Barcelona e da sofisticação dos carros alemães?
      Tudo isso continua lá, mas já não é a mesma coisa. As cidades europeias são, hoje, caldeirões de etnias. A miséria empurrou milhões de africanos para o velho continente em busca de sobrevivência; o Muro de Berlim, ao cair, abriu caminho para os jovens do Leste europeu buscarem, no Oeste, melhores oportunidades de trabalho; as crises no Oriente Médio favorecem hordas de novos imigrantes.
      A crise do capitalismo, iniciada em 2008, atinge fundo a Europa Ocidental. Irlanda, Portugal e Grécia, países desenvolvidos em plena fase de subdesenvolvimento, estendem seus pires aos bancos estrangeiros e se abrigam sob o implacável guarda-chuva do FMI.
      O trem descarrilou. A locomotiva - os EUA - emperrou, não consegue retomar sua produtividade e atola-se no crescimento do desemprego. Os vagões europeus, como a Itália, tombam sob o peso de dívidas astronômicas. A festa acabou.
      Previa-se que a economia global cresceria, nos próximos dois anos, de 4,3% a 4,5%. Agora o FMI adverte: preparem-se, apertem os cintos, pois não passará de 4%. Saudades de 2010, quando cresceu 5,1%.
     O mundo virou de cabeça pra baixo. Europa e EUA, juntos, não haverão de crescer, em 2012, mais de 1,9%. Já os países emergentes deverão avançar de 6,1% a 6,4%. Mas não será um crescimento homogêneo. A China, para inveja do resto do mundo, deverá avançar 9,5%. O Brasil, 3,8%.
      Embora o FMI evite falar em recessão, já não teme admitir estagnação. O que significa proliferação do desemprego e de todos os efeitos nefastos que ele gera. Há hoje, nos 27 países da União Europeia, 22,7 milhões de desempregados. Os EUA deverão crescer apenas 1% e, em 2012, 0,9%. Muitos brasileiros, que foram para lá em busca de vida melhor, estão de volta.
      Frente à crise de um sistema econômico que aprendeu a acumular dinheiro mas não a produzir justiça, o FMI, que padece de crônica falta de imaginação, tira da cartola a receita de sempre: ajuste fiscal, o que significa cortar gastos do governo, aumentar impostos, reduzir o crédito etc. Nada de subsídios, de aumentos de salários, de investimentos que não sejam estritamente necessários.
      Resultado: o capital volátil, a montanha de dinheiro que circula pelo planeta em busca de multiplicação especulativa, deverá vir de armas e bagagens para os países emergentes. Portanto, estes que se cuidem para evitar o superaquecimento de suas economias. E, por favor, clama o FMI, não reduzam muito os juros, para não prejudicar o sistema financeiro e os rendimentos do cassino da especulação.
      O fato é que a zona do euro entrou em pânico. A ponto de os governos, sem risco de serem acusados de comunismo, se prepararem para taxar as grandes fortunas. Muitos países se perguntam se não cometeram uma monumental burrada ao abrir mão de suas moedas nacionais para aderir ao euro. Olham com inveja para o Reino Unido e a Suíça, que preservam suas moedas.
      A Grécia, endividada até o pescoço, o que fará? Tudo indica que a sua melhor saída será decretar moratória (afetando diretamente bancos alemães e franceses) e pular fora do euro.
      Quem cair fora do euro terá de abandonar a União Europeia. E, portanto, ficar à margem do atual mercado unificado. Ora, quando os primeiros sintomas dessa deserção aparecerem, vai ser um deus nos acuda: corrida aos saques bancários, quebra de empresas, desemprego crônico, turbas de emigrantes em busca de, sabe Deus onde, um lugar ao sol.
      Nos anos 80, a Europa decretou a morte do Estado de bem-estar social. Cada um por si e Deus por ninguém. O consumismo desenfreado criou a ilusão de prosperidade perene. Agora a bancarrota obriga governos e bancos a pôr as barbas de molho e repensar o atual modelo econômico mundial, baseado na ingênua e perversa crença da acumulação infinita.

     (1) Frei Betto é escritor, autor do romance "Minas do ouro" (Rocco), entre outros livros. http://www.freibetto.org/> twitter:@freibetto.
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Agroecologia: CARTA DE SALVADOR



     Somos 300 cidadãos e cidadãs brasileiras integrados à Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), à Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia), à Associação Brasileira de Pós Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco), ao Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES), ao Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN), à Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA), à Rede Alerta contra o Deserto Verde (RADV), à Marcha Mundial de Mulheres e à Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), em reunião na cidade de Salvador-BA, entre os dias 26 a 29 de setembro de 2011, durante o Encontro Nacional de Diálogos e Convergências entre Agroecologia, Saúde e Justiça Ambiental, Soberania Alimentar, Economia Solidária e Feminismo.

     Nosso encontro resulta de um longo e fecundo processo de preparação motivado pela identificação e sistematização de casos emblemáticos que expressam as variadas formas de resistência das camadas populares em suas diferentes expressões socioculturais e sua capacidade de gerar propostas alternativas ao modelo de desenvolvimento hegemônico em nosso país. Vindos de todas as regiões do país, esses casos iluminaram nossos debates durante esses três dias e fundamentam a manifestação política que apresentamos nesta carta.
      Ao alimentar esse padrão de desenvolvimento, o governo Dilma inviabiliza a justa prioridade que atribuiu ao combate à miséria em nosso país. Tendo como eixo estruturante o crescimento econômico pela via da exportação de commodities, esse padrão gera efeitos perversos que se alastram em cadeia sobre a nossa sociedade. No mundo rural, a expressão mais visível da implantação dessa lógica econômica é a expropriação das populações de seus meios e modos de vida, acentuando os níveis de degradação ambiental, da pobreza e da dependência desse importante segmento da sociedade a políticas sociais compensatórias. Esse modelo que se faz presente desde o início de nossa formação histórica ganhou forte impulso nas últimas décadas com o alinhamento dos seguidos governos aos projetos expansivos do capital internacional. Materialmente, ele se ancora na expansão do agronegócio e em grandes projetos de infraestrutura implantados para favorecer a extração e o escoamento de riquezas naturais para os mercados globais.
      Os casos emblemáticos que subsidiaram nossos diálogos demonstram a essência violenta desse modelo que viola o “direito de ficar”, desterritorializando as populações, o que significa subtrair delas a terra de trabalho, o livre acesso aos recursos naturais, suas formas de organização econômica e suas identidades socioculturais. Os movimentos massivos de migração compulsória daí decorrentes estão na raiz de um padrão de distribuição demográfica insustentável e que cada vez mais converte as cidades em polos de concentração da pobreza, ao passo que o mundo rural vai se desenhando como um cenário de ocupação do capital e de seu projeto de uma agricultura sem agricultoras e agricultores.
      A progressiva deterioração da saúde coletiva é o indicador mais significativo das contradições de um modelo que alça o Brasil a uma das principais economias mundiais ao mesmo tempo em que depende da manutenção e seguida expansão de políticas de combate à fome e à desnutrição. Constatamos também que esse modelo se estrutura e acentua as desigualdades de gênero, de geração, de raça e etnia.
      Nossas análises convergiram para a constatação de que os maiores beneficiários e principais indutores desse modelo são corporações transnacionais do grande capital agroindustrial e financeiro. Apesar de seus crescentes investimentos em marqueting social e verde, essas corporações já não conseguem ocultar suas responsabilidades na produção de uma crise de sustentabilidade planetária que atinge inclusive os países mais desenvolvidos e que se manifesta em desequilíbrios sistêmicos expressos no crescimento do desemprego estrutural, na acentuação da pobreza e da fome, nas mudanças climáticas, na crise energética e na degradação acelerada dos recursos do ambiente.
      As experiências mobilizadas pelas redes aqui em diálogo denunciam as raízes perversas desse modelo ao mesmo tempo em que contestam radicalmente as falsas soluções à crise planetária que vêm sendo apregoadas pelos seus agentes promotores e principais beneficiários. Ao se constituírem como expressões locais de resistência, essas experiências apontam também caminhos para a construção de uma sociedade justa, democrática e sustentável.
      A multiplicação dessas iniciativas de defesa de territórios, promoção da justiça ambiental e de denúncia dos conflitos socioambientais estão na raiz do recrudescimento da violência no campo que assistimos nos últimos anos. O assassinato de nossos companheiros e companheiras nessas frentes de luta é o mais cruel e doloroso tributo que o agronegócio e outras expressões do capital impõem aos militantes do povo e ao conjunto da sociedade com suas práticas criminosas.
      Nossos diálogos procuraram construir convergências em torno de temas que mobilizam as práticas de resistência e de afirmação de alternativas para a sociedade.



Vejam o documento completo em:
 www.dialogoseconvergencias.org/noticias/carta-politica-do-encontro-nacional-de-dialogos-e-convergencias

domingo, 2 de outubro de 2011

Quando o tempo for propício *


Mazé Leite *

    Há um costume entre as pessoas mais velhas de qualquer período histórico: um olhar para seu passado com certa melancolia, contaminada pelo sentimento de que “naquele tempo, sim, as coisas andavam melhores no mundo”...

Mas vamos e venhamos, vivemos num momento histórico privilegiado, por tantos desafios lançados às mentes humanas nestes tempos nebulosos. Há que se estar atento a cada movimento, quando nos encontramos em meio ao nevoeiro: um pode nos salvar; outro pode ser o fim. E as sereias cantam docemente, enganando até mesmo velhos marinheiros.
Tempo rico, tempo são. Tempo louco.
O mundo anda mal. Crise econômica generalizada atingindo principalmente os países ricos, como os EUA, onde hoje mais de 46 milhões de pessoas vivem na margem da pobreza. Em Nova Iorque de cada cinco, uma pessoa está nessa situação! Fora os cerca de um bilhão de seres humanos no planeta que ainda passam fome em pleno século XXI!
O mundo anda mal também nos aspectos, digamos, mais subjetivos. De uma subjetividade estranha, porque, de tão pesada, atinge a todos nós em pleno fígado. Todos nós??? De quem se trata esse “nós”? “Ele inclui bispos e gerentes de banco?” pergunta Terry Eagleton em seu livro As ilusões do pós-modernismo. Não, porque neste mundo de seres iguais uns são “mais iguais” do que os outros. Esses “mais iguais” são os promotores desse festival de estupidezes a que assistimos, que nós podemos intitular de “o mais novo pensamento dos novos capitalistas neoliberais e pós-modernos”:
- foi decretado que o sonho humano que animava milhões de pessoas pelo mundo não é mais possível: o Socialismo acabou;
- foi instaurado o reino do individualismo e agora é o salve-se quem puder, cada um por si, deus contra todos;
- foi instalado o reino do Instantâneo, do Superficial, do Efêmero – contemporâneo do macarrão que se cozinha em 3 minutos e se come em um;
- foi decretada que a Quantidade (de dinheiro, de prazer, de consumo, etc) se sobrepõe à qualidade;
- está deliberado que a Aparência é um valor em si mesmo e que a Visualidade reina sobre qualquer conteúdo. Com isso procure-se qualquer clínica de estética e se re-estetize a você mesmo;
- foi decidido que a Globalização tem predominância sobre as regionalidades e as nacionalidades;
- foi deliberado que o indivíduo narcísico tem mais valor do que qualquer grupo ou coletividade; que do alto do seu posto, o Eu individual NADA PODE fazer para mudar o mundo e reinventar outra ordem social, porque “a história acabou”;
- foi decretado que a mídia é o grande porta voz dos discursos desconstrutores e reconstrutores do mundo, em afinidade com as ideias pós-modernas;
- está deliberado que a Arte Contemporânea continuará sendo a repetição de fórmulas que já duram cem anos, mas que são congruentes com esse espírito que de tão moderno chega a ser pós-moderno, em seus discursos sem sentido.
Porque está decretado que nenhum discurso mais precisa ter sentido, a linguagem está livre para-o-que-der-e-vier e qualquer um pode dizer o que quiser, na língua que desejar, porque TUDO o que importa é a expressão de qualquer discurso.
E também decretou-se que a Arte morreu. Depois re-decretou-se que tudo é arte, incluindo as secreções do corpo humano... Depois decreta-se que arte é discurso e que basta uma boa ideia e um bom curador para que qualquer coisa alcance o status de arte. Mas tem um detalhe importante: quem decide o que é Arte hoje é uma entidade denominada Mercado, porque tudo o que o homem produz nos dias de hoje só tem existência se se transformar na simbologia capitalista que produza mais-valia.
Os mais velhos podem ter alguma razão. Até há poucas décadas atrás (duas, no máximo) o mundo era mais simples: havia o sonho socialista, de um lado, e os que reagiam contra a ideia de que o capitalismo não era o melhor dos mundos: os reacionários.
Mas o capitalismo não é o melhor dos mundos: basta olhar para as ruas ocupadas por multidões sem rumo, engarrafadas, se movimentando em seus automóveis em direção... ao que mesmo? Depende. Pode ser até o shopping center ali da esquina!
Mas para “re-significar” (eles adoram essas expressões) o pobre coitado que está ali na luta pela sobrevivência, basta algumas horas de reconstrução da sua figura, enfumaçada pelo status quo: 


- disponibilize-se salas de musculação; cirurgia plástica; lipoaspiração; rejuvenescimento; massagem; maquiagem definitiva; alisamento permanente; botox; alongamento de pênis; depilação masculina e feminina; vitaminas a, b, c do alfabeto inteiro disponíveis; cirurgias de redução do estômago crescido de quem comeu todas as calorias estimuladas pelas indústrias fornecedoras dos supermercados; drogas para dormir, ter tesão, turbinar o cérebro; revistas que dariam inveja ao famoso Jack, estripador: pernas, braços, barrigas-tanquinho, rostos esticados; bundas, coxas de gostosas e gostosos, cabelos loiros e pretos alisados, mais loiros do que pretos; toda a farmacologia disponível e pesquisada pela imensa indústria farmacêutica que promete o aumento da expectativa de vida... ufa! Para viver dez anos a mais nesse inferno?
Distante da ideia do coletivo, o indivíduo lançado ao seu mundinho umbilical pensa que, finalmente, no reino do “eu” ele vive no melhor dos mundos: pois “O Diabo o levou a um lugar alto e mostrou-lhe num relance todos os reinos do mundo. E lhe disse: Eu te darei tudo isto e tudo será teu, se prostrado me adorares!” Diz o espírito do mundo capitalista a quem quiser ouvir...
Mas há uma saída. E ela é coletiva.
Há que se voltar mais uma vez para o Real, para o mundo, para a história, para o homem. “A Modernidade acreditava na história”, diz o poeta Affonso Romano, mas a pós-modernidade é essa ausência de qualquer celebração utópica. O mundo se transformou num grande mercado, ele acrescenta. Os movimentos transformadores do mundo são hoje desmoralizados e desmerecidos. Hoje não se incentiva o agrupamento, a coletividade. A noção de História se encontra confusa, assim como a noção de realidade objetiva tornou-se “suspeita”. O nevoeiro se espalhou por toda parte.


E alcançou até a arte. De tão nebulosa, ela nem precisa ser vista, basta crer, basta ter fé na intenção do artista e pronto. A Arte existe, se é discurso.
Mas, no entanto a Terra se move, como disse Galileu Galilei lá pelos idos de 1615...
E a nós, nos resta engendrar a subversão que porá tudo de pernas pro ar, “quando o tempo for propício”... 
(Trecho de oração ao Tempo, Caetano Velloso)


* Artista plástica (Atelier de Arte Realista de Maurício Takiguthi), designer gráfica. Graduação em Letras-USP. Membro da coordenação do Forum Mudar SP de Cultura e Educação.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Fórum Social-SP na Faculdade Zumbi dos Palmares




Fórum Social de São Paulo acontece em outubro na Faculdade Zumbi dos Palmares   


     Os dias 29 e 30 de outubro estão reservados para um fim de semana de debates entre organizações da sociedade civil, cidadãos e cidadãs da Grande São Paulo. O Fórum Social de São Paulo espera por mais de 10 mil participantes, nos dois dias do evento, circulando entre as 36 salas, corredores e auditório, na Faculdade Zumbi dos Palmares e nos espaços verdes do Esporte Clube Tietê, onde está situada a Faculdade.
     Durante o FSSP, membros de organizações não-governamentais, movimentos sociais e sindicatos, lideranças sociais, professores, estudantes, ativistas e a população interessada em resolver os problemas de São Paulo apresentarão o que já fazem e procurarão responder a uma questão principal: O que fazer em nossa cidade para que o interesse público e os direitos do cidadão e cidadã prevaleçam sobre o interesse do dinheiro e do lucro? Através de atividades autogestionadas eles discutirão propostas de atuação visando solucionar os problemas da Grande São Paulo.

     Inscrições de temas abertas
     As inscrições estão abertas a todos. Qualquer pessoa pode se inscrever  num tema já proposto e qualquer organização social pode criar um novo. Para efetuar o cadastro o interessado deve acessar o site do FSSP, ler a Carta de Princípios, as sugestões de temas e preencher a ficha que corresponda ao tipo de participação que deseja. Como contribuir para a realização do evento Para que o Fórum tenha o êxito esperado, os organizadores lembram a importância de a sociedade civil contribuir com a captação dos
recursos necessários a sua realização. “A responsabilidade pela realização do 1º Fórum Social de São Paulo é de todos nós, de todas as organizações, movimentos e cidadãos que desejam uma cidade melhor,
mais igualitária e fraterna”, argumenta Nilton Silva, o gestor de Cultura da Faculdade Zumbi dos Palmares.
Nesse sentido, os promotores colocaram o projeto do FSSP na internet para receber doações. De acordo com a proposta de arrecadação, as pessoas entram na página eletrônica e podem fazer doações para a
realização do Fórum, a partir de R$ 20,00, e em troca recebem uma ou mais recompensas, dependendo do valor doado.
     O projeto foi colocado no dia 13/9 na internet e até o momento recebeu R$ 1.320,00 em doações. Entretanto, para o FSSP receber os recursos ofertados, a soma dos valores doados precisa chegar, no mínimo, a R$ 15.000,00. Caso não atinja esse montante até o dia 18 de outubro, os valores serão devolvidos aos doadores. Daí a necessidade de as pessoas que acreditam na importância da participação da sociedade civil na construção de uma Grande São Paulo justa e sustentável acessarem a
página rapidamente e fazer suas doações.

Para fazer conhecer o projeto do Fórum e fazer sua doação acesse:
http://catarse.me/pt/projects/302-forum-social-de-sao-paulo


História do Fórum
O Fórum Social de São Paulo é o primeiro da Grande São Paulo, mas ele já nasce forte. Depois de diversos debates nas reuniões que acontecem há um ano e meio, foi decidido em Julho que a primeira edição do Fórum deve acontecer neste ano. Após a faculdade Zumbi dos Palmares ceder o espaço para a realização do Fórum Social de São Paulo, o coletivo reunido em agosto definiu a data.

Fórum  Social Mundial
A Carta de Princípios do Fórum Social Mundial, sua referência fundamental, está disponível no site oficial. O FSM nasceu em 2001e foi realizado no Brasil em cinco edições: quatro em Porto Alegre(RS) e
uma em Belém(PA). Em 2009, em Belém, cerca de 150 mil pessoas de mais de 100 países participaram do evento.

 
Fórum Social de São Paulo 
Dias 29 e 30 de outubro 
Local: Av. Santos Dumont, 843 – metrô Armênia – São Paulo
facebook: forumsocial de sãopaulo 
Mariana Reinach 
(11) 2368. 1227 
e-mail: marianarein...@paulofreire.org 
site www.forumsocialsp.org.br
Jornalista Leandro Sena Lara MTb: 62.721 SP 
Jornalista Bia Barbosa MTb: 31.762 

Aliança Internacional de Jornalistas J-Aliança BRASIL
Av. Nove de Julho 5966 5º Andar
São Paulo-SP 01406-200
+ 55 (0XX11) 3898-0123
www.alianca-jornalistas.net

A importância dos bancos públicos


Se o governo considera estratégico ter um algum controle sobre o comportamento das “livres forças de mercado” no ramo bancário, já passou da hora de reverter as formas de ação do BB e da CEF: taxas de
juros menores, atendimento com a premissa da função pública e não da receita a qualquer custo, redução dos níveis de “spread” praticados, entre outras medidas.


Paulo Kliass (Carta Maior)

Apesar de muita gente ter ficado mais otimista com a decisão do COPOM em baixar a taxa de juros em sua última reunião, os efeitos sobre a economia real ainda não foram expressivos. Em 31 de agosto, a SELIC foi reduzida de 12,5% para 12,0%, revertendo uma tendência de altas da taxa que vinha se produzindo desde meados de 2009.
No entanto, a diminuição desse indicador que deveria servir como referencial para as taxas praticadas pelas instituições financeiras foi muito pouco relevante para os fins a que se propõe. O Brasil continua a oferecer os maiores índices de rentabilidade financeira do mundo, graças a esse patamar estratosférico da taxa oficial do governo. E com isso o custo do dinheiro aqui dentro é excessivamente elevado. Parcela significativa dos analistas não comprometidos com os interesses do sistema financeiro concorda em que a taxa deva ser
reduzida para níveis próximos a 6% ao ano, o que ainda assim a colocaria bem acima dos valores praticados nos Estados Unidos, Europa e Japão, por exemplo. Esse, inclusive, é um dos principais argumentos há tempos levantado por setores da sociedade civil para que o Banco Central passe a levar em conta também a opinião de outros economistas em sua pesquisa mensal, como professores, pesquisadores, assessores de entidades sindicais, etc.
Até hoje, a tristemente famosa pesquisa “Focus” recolhe unicamente as opiniões das instituições financeiras, justamente as maiores interessadas na manutenção dos juros nas estrelas. O resultado desse
jogo de cartas marcadas, a gente tem sentido na pele ao longo dos anos. Ou seja, a supremacia absoluta das finanças sobre o Brasil real.  
Mas é importante lembrar aqui que não basta apenas reduzir a SELIC. Esse é, sem sombra de dúvida, o primeiro passo para um cenário de mudança, que privilegie a produção, a renda, o emprego. É o que se
convencionou chamar de “condição necessária, mas não suficiente”. A redução de sua taxa oficial é um sinal para o conjunto do sistema financeiro e para a sociedade de que o governo pretende fazer com que
a economia opere com taxas de juros mais baixas. Existe ainda um efeito secundário importante, pois isso reduz as despesas orçamentárias federais com o pagamento de juros e encargos da dívida pública. Porém, o mais importante é seu efeito esperado sobre a recuperação do investimento e de estímulo à atividade produtiva. E para isso é fundamental que os chamados agentes econômicos (empresas, famílias e indivíduos) sintam na ponta do sistema que as taxas de juros para os empréstimos também tenham sido reduzidas. E isso não tem ocorrido.
Infelizmente, nesse quesito também somos campeões mundiais. A sociedade brasileira encontra-se, digamos assim, em um estado quase de “dependência sócio-químico-cultural” de taxas elevadas de juros. A
convivência durante décadas com esse nível de rentabilidade da atividade financeira faz com que a mesma seja vista como um fenômeno “normal”. E para romper com essa lógica perversa da financeirização, é
essencial que o Estado intervenha de forma enérgica e ativa. Recursos e instituições o País possui em condições de cumprir a tarefa. O que parece faltar é a vontade política de reverter a tendência histórica
de favorecer o parasitismo financeiro em detrimento da atividade produtiva, geradora de bens e serviços.
E aí os números continuam assustadores. A dimensão do setor bancário e financeiro é impressionante. As estatísticas que se seguem são oficiais, todas constantes da página do Banco Central [1] na internet.
Na listagem dos maiores bancos operando no Brasil, há 3 bancos públicos entre os 5 maiores. Os ativos totais dos bancos atingiram, de acordo com os balanços do primeiro semestre desse ano, o valor de R$
4,8 trilhões. Isso representa uma cifra superior ao nosso PIB, que fechou 2010 com R$ 3,8 tri. Banco do Brasil (BB), Caixa Econômica Federal (CEF) e BNDES apresentam ativos cujo valor equivale a 57% dos
ativos dos 5 primeiros e a 38% do total do sistema. Assim, fica evidente que possuem um poder de fogo e de pressão nada desprezível sobre o modo de funcionamento dos demais – a chamada “concorrência”.
Caso os dados acima de patrimônio não sejam considerados tão relevantes, vejamos o que ocorre com a lucratividade do sistema financeiro. A cada semestre nossos bancos anunciam recordes em cima de
recordes. Ao longo de 2010, o sistema registrou um lucro líquido consolidado de R$ 67 bilhões. Dado o nível de concentração dos conglomerados, apenas os 5 maiores lucraram o equivalente a R$ 53 bi.
E a trinca dos públicos alcançou R$ 26 bi. Ou seja, apenas eles obtiveram 38% do lucro líquido de todo o sistema durante o ano passado. Vale a pena observar que o conceito de “lucro líquido” representa os ganhos depois de todas as possibilidades do chamado “planejamento tributário” diminuir contabilmente os ganhos realmente ocorridos. Se considerarmos o lucro bruto total, antes do pagamento de tributos e distribuição de dividendos, o conjunto do sistema bancário apresentou um resultado de R$ 89 bi em 2010.
Ao que tudo indica, a tendência para o ano atual é de manutenção da mesma performance dos exercícios anteriores. Os balanços de junho passado demonstram que os 3 bancos públicos atingiram um lucro líquido
de R$ 14 bi, valor que continua representando os mesmo 38% do lucro líquido do conjunto do sistema. Não faz sentido algum os bancos do governo federal pautarem sua ação no mercado financeiro por essa
ganância toda. Para que tanto lucro? O mais lamentável é que esses recursos acabam indo para formar o superávit primário da União. Ou seja, retornam ao mercado financeiro sob a forma de pagamento de juros
da dívida pública da União.
Ora, a pergunta que não quer calar é óbvia: por que ao longo dos últimos 9 anos, desde a posse de Lula em 2003, os governos que teriam vindo para “mudar” não ousaram ter um mínimo de ação para alterar tal
quadro? Afinal, felizmente, não se trata de um setor cujas empresas estatais federais tenham sido privatizadas anteriormente, como ocorreu em tantos outros. Elas sobreviveram preservando sua natureza pública e  exercem peso importante no setor. Aqui o Estado e o governo federal têm instrumentos efetivos para atuar com peso e reverter tendências que sejam prejudiciais ao conjunto da sociedade.
Porém, ao contrário do que se poderia imaginar, a orientação conferida aos administradores do BB e da CEF [2] não caminhou no sentido de eliminar os aspectos negativos da financeirização radicalizada. As
sucessivas direções das duas instituições, subordinadas ao Ministério da Fazenda, enfatizaram ainda mais a tendência anterior ao chamado processo de “bradesquização” – ou seja, de atuar no mercado bancário e
financeiro seguindo as regras ditadas pelos bancos privados, cujo paradigma empresarial sempre foi representado pelo Bradesco e seus pares.
Com isso, pouco a pouco, essas instituições históricas acabam por perder o diferencial de “banco público” em sua ação no segmento bancário e passam a apostar no crescimento de seus resultados baseados
na lógica de acumulação de capital a qualquer preço, típica dos agentes financeiros privados. As taxas de juros são semelhantemente elevadas, as onipresentes taxas por serviços prestados também e o
mesmo ocorre com o escandoloso fenômeno do “spread” bancário. Na ponta, o cliente termina por não sentir muito a diferença entre ser correntista de um banco público ou de um privado. A sensação de
exploração e impotência é a mesma. Agora, se o governo considera estratégico ter um algum tipo de controle sobre a selvageria do comportamento das “livres forças de mercado” no ramo bancário e financeiro, já passou da hora de reverter as formas de ação do BB e da CEF. Caso sejam chamados a oferecer uma nova forma de relacionamento com a sociedade e a economia, todos sairão satisfeitos. Taxas de juros mais reduzidas, atendimento com as premissas da função pública e não da obtenção de receita a qualquer custo, redução dos níveis absurdos de “spread” praticados, entre outros. Além disso, dentre os vários aspectos positivos dessa mudança, obrigaria os bancos privados a também mudarem sua postura. Caso contrário, correrão o risco de perder espaço de negócios e clientela.
Afinal, não é essa mesmo a tal “regra do mercado” que seus porta-vozes tanto apregoam?

[1] Ver: http://www4.bcb.gov.br/top50/port/top50.asp
[2] O BNDES é um caso especial, pois não se trata de um banco comercial normal para correntistas. Assim, ele tende a operar apenas com empresas e com linhas de crédito do governo federal a juros subsidiados.

Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Filme registra passagem clandestina de Betinho por Mauá


          Durante o fim da década de 1960, o sociólogo Herbert José de Souza, o Betinho, viveu clandestinamente em Mauá para escapar do regime militar e continuar atuando como membro da AP (Ação Popular). De acordo com a cineasta e cientista social Ana Paula Quintino, a passagem do ativista icônico pelo município “era quase uma lenda”, confirmada ao entrevistar quatro moradores que conviveram e colaboraram com os ideais políticos e humanos do mineiro que ficou conhecido como Chico no ABCD paulista.




      O batismo falso tinha como intuito despistar a perseguição da ditadura, portanto, usava um “Nome Frio”, título do documentário de Ana Paula que será lançado na quarta-feira (29), às 19h, na Livraria Cultura do Market Place (avenida Dr. Chucri Zaidan, 902, Capital) e que narra o ano em que Betinho se escondeu e lutou em Mauá.
      De acordo com a diretora do filme, o movimento do qual Betinho fazia parte tinha o seguinte lema: misturar intelectuais aos operários para propagar ideais e angariar aliados. “Mauá convergia duas situações que interessavam ao AP: era uma área industrial, porém interiorana, e o sociólogo pôde estruturar e influenciar os militantes locais com a bagagem que tinha”, declarou Ana Paula, moradora da cidade.
      Betinho foi um dos fundadores da AP, cuja orientação era maoísta, e se estabeleceu no Jardim Zaíra com a mulher e o filho. “Boa parte do tempo que passou na cidade foi no bairro mais pobre, auxiliando a população a conseguir posto de saúde, saneamento básico e transporte”, disse a cineasta.
      A pesquisa para o filme começou a ser feita em junho do ano passado e contou com entrevistas de Gilda Fioravantte, Getúlio de Souza, Josefina Gonçalves e Olivier Negri Filho, moradores que abrigaram e ajudaram a esconder o companheiro de luta, além da segunda esposa do ativista e da biógrafa, Carla Rodrigues. “Por intermédio do grande sociólogo pude contar a história de outras pessoas importantes que moram na cidade em que vivo.”

      Operário      Apesar da saúde debilitada em decorrência da hemofilia, Betinho chegou a trabalhar como operário em uma das indústrias de Mauá. Foi funcionário da Porcelana Real para se aproximar do povo. No fim da estadia no município, após delatarem a base, viu-se obrigado a mudar para Santo André e depois exilou-se no Chile, uma vez que o cerco estava apertando e corria risco de vida.
       Os amigos e parceiros que o receberam foram presos e torturados para que contassem o paradeiro do militante subversivo. “Eu e meu marido sofremos muito para que revelássemos a localização de Betinho, mas não abrimos o bico”, contou Gilda Fioravantte, que recebeu o sociólogo na casa em que morava na Vila Vitória. “A maior contribuição que ele nos trouxe foi a formação política para os jovens e adultos que queriam democracia”, enfatizou.
      O financiamento do projeto é do Observatório Social do Instituto Henfil (Henfil era o cartunista irmão de Betinho), e a duração do filme é de 25 minutos.
      Ana Paula Quintino já fez outro documentário que também tem Mauá como pano de fundo, “Sambaleço – A memória está no corpo”, e está em fase de produção do fim da trilogia mauaense com “Catira Ás de Ouro”, sobre um grupo cultural tombado da cidade. Tem ainda planos de um documentário sobre a vida de Celso Daniel.

Veja abaixo vídeo em que a diretora Ana Paula Quintino fala sobre o filme:




Fonte: ABCD Maior (Nossa fonte: Vermelho)