Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Cardápio modernista: Sopa de mecenas e sapos de sobremesa


Público atraído por Villa-Lobos é traído pelos sapos. Este pode ser um modo sucinto de descrever a nonagenária Semana de Arte Moderna, inaugurada dia 13 de fevereiro no Teatro Municipal de São Paulo. O auditório estava lotado de amantes da música clássica quando Ronald de Carvalho invadiu a festa e declamou “Os sapos”, de Manuel Bandeira, crítica implacável ao parnasianismo, escola poética igualmente implacável nas regras de concepção.


Por Christiane Marcondes


Mulata, de Alfredo Volpi, 1927
Mulata, de Alfredo Volpi, 1927
As vaias demolidoras não impediram “Os sapos” de darem um salto definitivo ao futuro, não só da produção artística, mas da sociedade e da política dos anos 1920: “O modernismo, comunismo e industrialização são movimentos que se consolidaram na mesma época, frutos do mesmo momento histórico. Os imigrantes trouxeram novas ideias sociais, os artistas que iam à Europa voltavam com novos paradigmas, tudo foi se articulando ao mesmo tempo e mudando o pensamento de uma época”, diz Mazé Leite, artista plástica, cronista e crítica de arte, em entrevista exclusiva ao Vermelho. 

Mazé explica que a Semana, um ataque frontal à elite “conservadora e brega paulistana”, é pioneira, mas não um fato isolado. Antes e depois, o modernismo já estava se construindo ao sabor de ventos ao norte do Equador: “Desde a Revolução Russa de 1917, o Brasil vivia um período pródigo de ´ismos`, com novidades a cada semana na arte e na política. A cultura refletia essa agitação, já que ela espelha a sociedade ”.

A Escola Nacional de Artes, no Rio de Janeiro, conduzia com rédeas curtas a produção artística na capital da República, seus alunos tinham compromissos com a estética formal endossada pelos cânones clássicos, por isso São Paulo foi palco do novo: “A cidade era uma província”, conta Mazé. 
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Antropofagia: jantando o mecenas
Bem verdade que já existia nas paragens de Piratininga um reduto fundamental de produção e discussão artística -- a Villa Kyrial -- inaugurado em 1904 pelo senador e mecenas José de Freitas Valle. Por vocação, Valle era admirador e guardião dos ideais da "Belle Époque", mas entrou para a história como o grande cúmplice da irreverência modernista, afinal, bancou os estudos de Anita Malfatti na Alemanha e ela voltou “expresionista”, montando em 1917 a exposição que horrorizou Monteiro Lobato. Foi o primeiro suspiro da Semana que viria.

Sinal de que o modernismo tinha premissas estrangeiras? Mazé responde: “Ainda antes da Anita, temos o Almeida Junior, que eu considero um pré-modernista com seu conjunto de obras, da qual destaco “Caipira”. Formado na Escola Nacional de Belas Artes, ele precisou ir a Paris para redescobrir o Brasil e sofreu as mesmas influências de Anita: romantismo, realismo, expressionismo e impressionismo”.

Ou seja, depois de devorar um caldeirão de tendências internacionais, o modernismo enfim incorporou o espírito nacionalista, não exatamente em 1922. Carlos Drummond de Andrade publicou o poema “Uma pedra no meio do caminho”, ícone do movimento, em 1927. Em 1928, Mário de Andrade publicou “Macunaíma” e Oswald de Andrade, “O manifesto antropofágico”. Nas artes plásticas, imigrantes italianos da mesma época estavam lançando em São Paulo uma arte figurativa que reproduzia a labuta e agruras dos operários. Mazé Leite os descreve: “Um bom exemplo desse grupo de imigrantes italianos é o Alfredo Volpi, que era operário e da mesma geração dos modernistas, mas produziu longe da movimentação da casa do Freitas Valle, por isso só vai aparecer por volta de 1927”.

Carlos Callioli, Pedro Corona e Aldo Bonadei eram do mesmo grupo de Volpi, cita Mazé, que, olhando em retrospectiva, afirma ainda que a Semana de Arte Moderna foi mais importante pelo barulho que fez do que pela arte que apresentou: “Essa produção foi só um recorte, era um movimento da burguesia”.
Artistas e a simpatia pela esquerda
A crise de 1929, que levou a grande depressão aos Estados Unidos e ao mundo, acabou de vez com o ranço elitista do modernismo em São Paulo. O socialismo e a obra com crítica social, ligada ao povo, assumiram a frente das artes. Assim, pode-se dizer que a crise econômica teve um saldo civilizatório positivo no Brasil e o modernismo se espalhou como pólvora, junto com a industrialização. 

Vieram Graciliano Ramos, Di Cavalcanti, Portinari e Jorge Amado, além dos pensados, como Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Hollanda. Desses, a maioria esmagadora era simpática ao socialismo, mesmo os que se filiaram e depois se desfiliaram do Partido Comunista, como o Drummond. “Nos anos 1930, os intelectuais em todo o mundo simpatizavam com os movimentos da esquerda, porque tinham em comum o sonho de uma sociedade justa. Por isso a maior preocupação da CIA, até os anos 1950, era rastrear artistas envolvidos com esse tipo de idéia. Foram três décadas de forte engajamento... artistas, intelectuais e o povo estavam todos do mesmo lado”, exalta Mazé.
Alimento cultural e o sonho de justiça 
Ao ressaltar o fato, a artista plástica lamenta que, com o passar do tempo, o comunismo tenha se afastado da arte: “Sempre me preocupa a pouca atenção que o partido dá à cultura, porque não é possível mudar uma sociedade sem mudar sua cultura”.
Mazé deixa como mensagem final: “90 anos depois da Semana, é tempo de a arte e o movimento político se darem, novamente, as mãos. Nós temos que reconhecer a importância que esse segmento tem porque o artista está envolvido até a medula no social e pode mobilizar multidões. A Virada Cultural de 2011, em São Paulo, reuniu quatro milhões de pessoas. O público gosta de consumir produtos culturais, ir a exposições, shows, cinema, teatro é parte do ser humano e esses eventos representam um alimento tão importante quanto a comida. Despertam a consciência social e crítica", conclui Mazé.

Fonte: Vermelho

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

'Sociedade quer ver presa mulher que aborta?'


Para o acadêmico Maurílio Castro de Matos, autor do livro 'A criminalização do aborto em questão', debate no Brasil está equivocado. Lei atual torna passível de punição quem passa por cirurgia, mas será que a população deseja mesmo que a mulher vá parar na cadeia? 'Todo mundo conhece ou sabe de alguma mulher que fez aborto', afirma.

     Brasília – A escolha e posse da nova ministra de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci de Oliveira, trouxeram de volta uma das maiores polêmicas da campanha vencida por Dilma Rousseff em 2010, a descriminalização do aborto. Debate interditado na eleição – discutia-se se Dilma tinha sido contra ou favor em algum momento da vida, não a legalização -, o tema foi abordado no mérito pela nova ministra, conhecida crítica da criminalização.
      Mesmo tendo deixado claro que falava em nome próprio, não pelo governo, que entende ser esta uma questão da alçada do Congresso, Eleonora ajudou a colocar o assunto na agenda pública - ainda que a discussão morra daqui um tempo. Enquanto isso não acontece, porém, partidários da visão da nova ministra aproveitam a oportunidade para entrar em campo. 
     É o caso do professor de Serviço Social Maurílio Castro de Matos, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), autor do livro A criminalização do aborto em questão. 
     Em entrevista à Carta Maior, Castro de Matos defende que dar o direito às mulheres de decidir levar adiante ou não uma gravidez, é respeitar os direitos humanos delas. Ressalta que criminalizar não evita cirurgias, que muitas vezes terminam com resultados mal sucedidos, especialmente para a mulher pobre que não tem dinheiro para pagar clínicas seguras. 
     E propõe uma nova forma de debater: “A população pode até, de forma pouco refletida, ser contra a descriminalização do aborto, mas não quer ver a mulher presa por isso. Então, que lei é essa que se quer manter, mas que não se quer que seja cumprida?”
     Abaixo, o leitor confere os principais trechos da entrevista, concedida por e-mail.

Carta Maior: Por que a legalização do aborto é importante?
Maurílio Castro de Matos: Hoje, a maioria dos serviços de aborto legal, para casos com risco de morte ou advindos de estupro, está disponível apenas na capital dos estados e, em alguns, não existe na prática. Enquanto o Supremo Tribunal Federal não se posicionar sobre o aborto de fetos com anencefalia, aqueles que comprovadamente não terão vida após o parto, as mulheres neste país são obrigadas a levar adiante uma gravidez mesmo sabendo que não haverá um filho depois. Defender a legalização do aborto é garantir os direitos humanos de muitas mulheres que atualmente são desrespeitados. Aquelas que não precisarem ou não quiserem recorrer a um aborto, continuarão assim. Mas aquelas que, por decisões que só elas sabem da complexidade, fizerem, poderão fazer sem risco de morte, sequelas e de prisão.

CM: O senhor tem números sobre a prática, mortalidade...?
Castro de Matos: Segundo o Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA), no Brasil são realizados, por ano, um milhão de abortos clandestinos. Eles causam 602 internações diárias por infecção, 25% dos casos de esterilidade, 9% dos óbitos maternos. É a terceira causa de morte materna no país. A criminalização atinge mais as mulheres pobres, uma vez que as de outros extratos sociais podem recorrer ao aborto em clínicas com total garantia de qualidade no atendimento. Além da desigualdade de classe, uma pesquisa da Ações Afirmativas em Direitos e Saúde (IPAS Brasil) e do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), divulgada em 2007, mostra que as mulheres negras e pardas, moradoras das regiões Norte e Nordeste, estão mais sujeitas à mortalidade em decorrência do abortamento inseguro, sendo que no nordeste a curetagem é o segundo procedimento obstétrico mais realizado.

CM: Por que a sociedade brasileira tem tanta dificuldade em tratar a questão de forma mais científica e menos como um tabu?
Castro de Matos: Porque a forma como o debate sobre o aborto vem sendo tratado está errada. Temos que sair da falsa polarização entre ser contra ou favor. Penso que, para uma discussão séria sobre a mudança da lei, temos que juntar alguns argumentos: o grave problema de saúde pública, a autonomia da mulher, o respeito, num Estado laico, da diferença, e a diferenciação das fases de gestação (diferenciar embrião e feto de vida humana). Também é preciso chamar a atenção da população para a questão de se as pessoas querem realmente que as mulheres que realizam o aborto sejam presas. Todo mundo conhece ou sabe de alguma mulher que fez aborto. Sobre esse último ponto parece que não. A população pode até, de forma pouco refletida, ser contra a descriminalização do aborto, mas não quer ver a mulher presa por isso. Então, que lei é essa que se quer manter, mas que não se quer que seja cumprida?

CM: Mas acredita que a sociedade brasileira aceitaria a descriminalização?
Castro de Matos: Uma pesquisa do Ibope feita a pedido da ONG Católicas pelo Direito de Decidir informa que quase 70% da população é favorável ao direito ao aborto, quando a mulher corre risco de vida ou quando o feto não sobreviverá após o parto. Que 52% são favoráveis ao direito de escolha quando a gravidez é advinda de estupro. Que 96% entendem que não é papel do governo prender as mulheres que realizaram aborto. E que 61% das pessoas afirmam que a decisão sobre uma interrupção de gravidez cabe a própria mulher. 

CM: O que a experiência de outros países nos ensina?
Castro de Matos: Explicarei a experiência de Portugal, pois acompanhei a implementação da lei que lá legalizou o aborto. Foi realizado um plebiscito em 1998, e a população optou pela manutenção da lei punitiva. Logo após esse plebiscito, a lei começou a ser aplicada, e isso assustou a população. Houve julgamentos e condenações em massa. Isso criou um ambiente para o plebiscito de 2007 que descriminalizou o aborto até a décima semana de gestação, a pedido da mulher. Além dessa experiência traumática, os portugueses mudaram a lei porque integram a União Européia e, exceto Malta, Polônia e Irlanda, todos os outros países europeus, de alguma maneira, descriminalizaram o aborto. A convocação de um novo plebiscito integrou a agenda política do governo. Com o argumento de que vários países vizinhos já haviam descriminalizado o aborto, Portugal pôde sair da falsa polarização entre ser contra ou favor e sim discutir os direitos e a laicidade do Estado no contexto da razão e da modernidade. 

Leia Mais:
Nossa fonte: Carta Maior

História de Meir Schneider

Contribuição de Ana Chieffi 

Meir Schneider nasceu em Lvov, Ucrânia, em 1954, com catarata, astigmatismo e nistagmo.  Emigrou para Israel com os pais aos quatro anos de idade e, aos sete, foi declarado legalmente cego. Ele nunca aceitou a condição de cego. Tinha ataques de fúria, durante os quais lançava os óculos ao chão e pisoteava-os. Não conseguia quebrá-los de tão grossas que as lentes eram e gritava. Os pais, ambos surdos, não eram atingidos pela gritaria. Mas a avó, Savta, docemente o acalmava dizendo que as coisas podiam mudar. Sempre.

Amigos, como uma dona de biblioteca volante semi-paralítica – que lhe ensinou técnicas de relaxamento -e outro jovem, Isaac – com problemas visuais igualmente graves – deram-lhe incentivo para a grande virada de sua vida. Isaac apresentou-lhe o método do oftalmologista William Bates (1860-1931) de estimulação da visão. A despeito da descrença radical da família e amigos, dedicou-se com fervor aos exercícios para os olhos, aliando as técnicas de ioga, auto-massagem e movimento. Dezoito meses mais tarde, ele tinha desenvolvido a visão funcional, que lhe permitiu alguns anos mais tarde (1981) tirar carteira de motorista, sem qualquer restrição, expedida pelo Governo do Estado da Califórnia.

Cursou:
Bar Ilan University, Tel Aviv, 1973 – 1975
BA, Philosophy from University of San Francisco, 1978
PhD, the Healing Arts from Golden State University, 1982. Doctoral Dissertation: “The effects of Therapeutic movement combined with subtle massage and manipulation compared with conventional medical treatment in cases of muscular distrophy”

Os princípios que descobriu quando trabalhava seus olhos formaram a base do método Self-Healing, desenvolvido para trabalhar com portadores dos mais variados problemas de saúde. Em 1975 Meir montou o primeiro Institute For Self-Healing em TelAviv, Israel ( 1973 – 1976 ),  onde cresceu,  juntamente com dois dos seus primeiros pupilos – Vered e Danny. Por muito tempo Meir teve dúvidas de que seu método pudesse ser ensinado, já que boa parte das massagens e exercícios que produziam espetaculares resultados com pessoas portadoras de distúrbios graves – e tidas como incuráveis pela medicina – como esclerose múltipla, distrofia muscular, poliomielite, artrite reumatóide, degeneração da mácula, entre tantos outros, foram desenvolvidos junto com o cliente, na própria sessão, e com forte caráter intuitivo. Milhares de horas de prática clínica foram delineando a estrutura do Método Meir Schneider -Self-Healing – os princípios, as técnicas, os exercícios e a fundamentação científica.

Em 1976, Meir mudou-se para San Francisco, USA. Aí montou consultório junto com o optometrista Ray Gottlieb, com o qual manteve intensa colaboração durante vários anos. Fundou o Center for Conscious Vision (1977–1978), o Center for Conscious Health (1978–1980) e em 1980, o Center For Self-Healing. Quatro anos depois obteve permissão do Departamento de Educação do Estado da Califórnia para formar alunos no método e funcionar como School For Self-Healing. Desde 1980 até o momento presente,existe o Self – HealingResearch Foundation, que buscafundos para uma pesquisa  evidenciando a eficácia do método na distrofia  muscular e na degeneração macular. E se mantém aberto para qualquer outra pesquisa que tenha como objetivo a comprovação do método cientificamente.  

Sua jornada pessoal, os primeiros anos de desenvolvimento do método, suas raízes, influências, primeiros casos e parcerias foram narrados em seu primeiro livro “Uma Lição de Vida”, publicado no Brasil pela editora Cultrix e em mais quatro idiomas: inglês, francês, húngaro, e hebraico. Seu segundo livro, o Manual de Autocura, publicado nos USA em 1994, foi também publicado em russo além dos outros cinco idiomas do primeiro livro.

Schneider foi submetido desde tenra idade a inúmeras cirurgias, todas sem muito sucesso. Relata em seu livro ´Movimento para autocura´ (Editora Cultrix), como chegou ao Self-healing. Com muita reverência pela medicina moderna, compreendeu na juventude, ao conhecer outro jovem que se curara, Isaac, que os músculos de seus olhos eram muito fracos e havia muito tecido cicatricial, decorrente das inúmeras cirurgias de catarata as quais fora submetido. A alternativa seria melhorar seus olhos com exercícios continuados.

Os médicos não acreditam ser possível melhorar certas condições patológicas com exercícios porque as pessoas são muito imediatistas e, por isso mesmo, indisponíveis para práticas regulares e continuadas. Logo se cansam e desistem.

“O Método Meir Schneider se caracteriza, principalmente, por estimular no indivíduo a consciência cinestésica (do movimento), os recursos que o seu corpo tem de se regenerar.

São as idéias e crenças sobre a impossibilidade de se alcançar o bem-estar que impedem alguém de lutar por sua melhora, sua qualidade de vida e, até mesmo, para a cura definitiva do seu caso. Os maiores êxitos ocorrem no tratamento de doenças neuromusculares, de coluna e articulações. São nestas áreas que costuma ver resultados interessantes e eficazes.

Seu sistema holístico desenvolve a inteligência inata do corpo e diz que os movimentos facilitam a criação de novos circuitos neurais.

Meir Schneider – Parque Vila Lobos, 04.02.12


Contribuição de Ana Chieffi
  
O corpo tem um potencial que não imaginamos. Temos 600 músculos e só usamos 50. Imagine quanta tensão colocamos neles! Assim destruímos o sistema nervoso. Nós os mantemos em contínuo espasmo e assim o tecido conjuntivo, que conecta os músculos com a pele, se enrijece.

Nos EUA ¼ da população tem artrose, devido à rigidez (muscular e mental). Esportes não ajudam; atletas morrem jovens, porque tencionam ainda mais os músculos que já são rígidos.

Os médicos não acreditam ser possível melhorar certas condições patológicas com exercícios porque as pessoas são muito imediatistas e, por isso mesmo, indisponíveis para práticas regulares e continuadas. Logo se cansam e desistem. Quem vive além dos 90 são maestros, porque se movimentam com ritmo.

É preciso uma nova consciência cinestésica para aprender como agir com o corpo para evitar rigidez e as lesões da vida moderna. Ficamos muito sentados. Os paravertebrais são bons para essa posição por 20 minutos. Depois disso eles se cansam e passamos a tensionar outros músculos, que não tem nada a ver com a posição sentado. Eles se contraem e provocam espasmos em todo o corpo.

Dois hábitos ruins (e inevitáveis); sapatos e cimento. Sempre que possível anda na grama (terra, areia) e usar sapatos de sola fina.

O trapézio, por ex., é um músculo muito rígido e emprega muitos massagistas.

Eu trabalho com o cérebro, reorganizando o corpo. Começo meus cursos correndo para trás e para os lados (não para a frente).

Eu vou contra (quase) todos os médicos do mundo quando digo que todos podem melhorar sua visão.

Forçamos a visão quando olhamos muito de perto. Lemos demais, a partir dos últimos 100 anos. Os músculos em volta do cristalino tornam-no redondo, quando vemos de perto. Relaxado, ele é plano. Antigamente, víamos de perto 2h/dia; hoje: até 16h/dia!

É preciso ajuste para diferentes frequências de luz. Precisamos enxergar no escuro. Apagar as luzes em casa! Sou contra óculos de sol – eles evitam a produção de melanina. Os oftalmologistas convenceram duas tribos de aborígenes da Austrália a usar óculos de sol e eles, pela 1ª vez, se queimaram. Na história da Inglaterra, quando fecharam as janelas, aumentaram as doenças contagiosas. Há uma pessoa com câncer de pele devido ao sol para 6 mil com osteoporose por falta dele. Sem sol morre-se mais cedo.

1.    A cada 20 minutos: levantar, flexionar um joelho para trás e segurá-lo, puxando e olhando para cima; repetir com o outro lado.

2.    A cada 2h30: ficar 10 minutos em pé.

3.    Praticar osexercícios 3X/dia, 10 minutos a cada vez, principalmente com imagens à distância (seis distâncias diferentes).

4.       Olhar para o próprio dedo indicador (alternando as mãos) e movendo-se, da direita para a esquerda e retornando para a posição anterior.

5.            Alongar as mãos, estendendo os dedos e os mantendo alongados por 10 respirações profundas, várias vezes ao dia (enquanto descansa ou realiza outra atividade diária) - alivia problemas de artrite.
  
6.            Palming: 4X/dia, seis minutos a cada vez:método para relaxar os músculos e nervos dos olhos que se constitui em sentar-se em uma cadeira virado para o encosto, apoiar nele os braços e colocar as mãos espalmadas nos olhos, de modo a relaxar pescoço, face e os olhos.

Acusada de ser tendenciosa, Globo é expulsa por manifestantes


Repórteres e cinegrafistas da Rede Globo foram expulsos de uma passeata promovida, neste domingo (12) por policiais militares e bombeiros em Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ). Eles saíram do local sob vaias e gritos de "Fora Globo". A emissora é acusada pelos profissionais que querem melhores salários de fazer uma cobertura tendenciosa, a favor do governo.


Fonte:Vermelho

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Monteiro Lobato, um moderno anti-modernista?


Autor com reconhecidas características de vanguarda, foi como anti-modernista que Monteiro Lobato terminou rotulado. Apesar do regionalismo e da denúncia da realidade brasileira de sua obra, ele não se filiou à proposta estética da Semana de Arte Moderna de 22 - que faz agora 90 anos. Lobato via com desconfiança a influência das vanguardas europeias. Era um nacionalista convicto, mas nunca foi um adversário do movimento. A construção da imagem de “passadista” é uma história cheia de equívocos. 



De acordo com o historiador Vladimir Sacchetta - co-autor da biografia do escritor Furacão na Botocúndia -, o embate entre Lobato e os modernistas faz parte de uma “cultura da polêmica”, que reinava então. E teve como estopim uma crítica do autor à exposição de Anita Malfatti, recém-inaugurada em dezembro de 1917. 

O texto foi publicado no jornal O Estado de S.Paulo e, apesar de elogiar o “talento vigoroso, fora do comum” da artista, afirma que ela foi “seduzida pelas teorias do que ela chama arte moderna”, colocando o seu dom “a serviço duma nova espécie de caricatura”. 

Lobato escreveu que existem duas espécies de artistas: "os que veem normalmente as coisas e, em consequência disso, fazem arte pura" e os que "veem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes". 
Pronto. As palavras desencadearam o incidente que deu origem à crença que circula até hoje de que Lobato teria sido um opositor da Semana de Arte Moderna e do movimento como um todo.

Para Sacchetta, contudo, o enfoque dado à crítica prejudicou o autor. Na verdade, ele questionava não a inovação contida em Anita, mas o estrangeirismo. “Foi feito um recorte para desqualificá-lo, colocá-lo como um sujeito conservador, retrógrado e careta. Mas, ao fazer a leitura integral do texto, você vai ver que Lobato, na verdade, chama atenção para a reprodução acrítica dos valores estéticos das vanguardas européias”, afirma.

Segundo Lobato, o intelectual brasileiro daquele tempo ficava no litoral, a olhar para a Europa, tendo como bússola Paris. “Ele achava que este grupo (que viria a promover a semana de Arte Moderna de 22) deveria ter uma atitude crítica. Dentro do próprio movimento, (o escritor) Oswald de Andrade vai neste caminho, quando fala na deglutição desses valores estéticos”, completa o historiador, referindo-se ao Manifesto Antropofágico, para mostrar que não havia contradição entre os artistas.

Com esta mentalidade, ele teria sido convidado para participar dos eventos de 1922, mas afirmara que não integraria uma Semana de Arte Moderna naqueles termos. “Participaria sim de uma semana de arte brasileira. Era um intelectual, um cidadão-escritor, com uma alma nacionalista muito forte”, descreve Sacchetta. 

O fato é que, na Semana de Arte Moderna de 1922, a questão nacional, que caracteriza o modernismo brasileiro, ainda não era uma bandeira, diz o historiador. Ali, pregava-se principalmente uma ruptura com a arte acadêmica e conservadora, uma inserção do Brasil na ordem moderna, com a absorção de recursos expressivos modernos. 

“Existia esse país pensando em francês. E quando Monteiro Lobato passeia pelo Jardim da Luz e vê esculturas de anõezinhos germânicos com chapéus de lã e botas de couro, ele questiona onde estão os mitos brasileiros para enfrentar os mitos importados”, explica o pesquisador. 

Para Lobato, esta europeização impediria a criação de um ideal estético nacional.
Sacchetta, afirma que quem melhor pode desfazer os mal-entendidos em relação à postura do criador do Sírio do Pica-Pau Amarelo diante da Semana de 22 é ele mesmo. Em 1926, Lobato escreveu um texto chamado Nosso Dualismo, no qual deixa clara a importância do movimento modernista. 

“Esta brincadeira de crianças inteligentes, que outra coisa não é tal movimento, vai desempenhar uma função séria em nossas letras. Vai forçar-nos a uma atenta revisão de valores e apressar o abandono de duas coisas a que andamos aferrados: o espírito da literatura francesa e a língua portuguesa de Portugal. Valerá por um 89 duplo — ou por um 7 de setembro”, diz Lobato.

O autor sempre esteve próximo a Oswald de Andrade, uma das mentes do modernismo brasileiro. Neste mesmo texto, ele afirma que “o futurismo apareceu em São Paulo como fruto da displicência de um rapaz rico e arejado de cérebro: Oswald de Andade”, que, como “turista integral, sentiu melhor que ninguém a nossa cristalização mental e empreendeu combatê-la”. 

“Fica claro que não houve rompimento radical entre Lobato e os modernistas. Essa história é bobagem. O que ocorria é que, ao contrário dos modernistas - que discutiam questões formais -, Lobato queria modernizar o país no plano da economia e da saúde, por exemplo. Queria modernizar um país arcaico”, afirma Vladimir Sacchetta. 

Ele lembra que o próprio Oswald de Andrade eliminou qualquer embaraço que ainda existisse entre Lobato e os modernistas, no aniversário de 25 anos de “Urupês”, de Lobato. “Você foi culpado de não ter a sua merecida parte de leão nas transformações tumultuosas, mas definitivas, que vieram se desdobrando desde a Semana de Arte de 22. Você foi o 'Gandhi do Modernismo', jejuou e produziu, quem sabe, nesse e noutros setores, a mais eficaz resistência passiva de que se pode orgulhar uma vocação patriótica (...) Sua luta significava a repulsa ao estrangeirismo afobado de Graça Aranha, às decadências lustrais da Europa pobre, ao esnobismo social que abria os seus salões à Semana", disse Oswald.

Também Mário de Andrade, ao rever anos mais tarde o movimento que integrou, cita Lobato como um dos seus, reconhecendo a importância do escritor em toda aquela novidade. “O modernismo no Brasil foi uma ruptura, foi um abandono consciente de princípios e de técnicas, foi uma revolta contra a intelligensia nacional. (...) Quanto a dizer que éramos antinacionalistas, é apenas bobagem ridícula. É esquecer todo o movimento regionalista aberto anteriormente pela Revista do Brasil, todo o movimento editorial de Monteiro Lobato”, diz.

“De fato, Lobato era um grande editor naquela época e está, no ano da Semana de Arte Moderna, editando vários modernistas. Então não se tratava de um opositor do movimento, mas de um interlocutor, alguém que discutia a forma com que o modernismo estava se estabelecendo no país”, diz Sacchetta.

O historiador avalia que toda essa confusão com os modernistas terminou fazendo de Lobato um injustiçado da literatura brasileira. “É um intelectual brasileiro cercado de preconceitos”
Para ele, há no país uma ideia comum de que a Semana de Arte Moderna seria o marco zero da cultura brasileira do século 20. “Questiono esta visão, que coloca tudo que veio antes como pré-modernismo e é, na verdade, uma auto-referência desse grupo. É colocar na lata de lixo da literatura brasileira tudo que veio antes”, critica, destacando que coube a Lobato – como a muitos outros – essa pecha de “pré”.

Da Redação, (VERMELHO)
Joana Rozowykwiat


Pipa, Sopa...o que está em jogo na internet?


Para manter o domínio sobre a circulação na internet de bens culturais ainda sob o controle dos intermediários, os projetos propostos e as leis já existentes afetam diretamente a regulação de direitos fundamentais, como o acesso à educação e à cultura e, em particular, a liberdade de expressão na web.


Por Venício Lima*, na revista Teoria e Debate


Os recentes debates em torno de dois projetos de lei que tramitam no Congresso dos Estados Unidos sobre a regulação da internet têm tudo a ver com as esperanças democratizadoras centradas nas novas tecnologias de comunicação.
As siglas Pipa (Project IP Action, ou Preventing Real Online Threats to Economic Creativity and Theft of Intellectual Property Act) e Sopa (Stop Online Piracy Act) identificam iniciativas legislativas que, apesar de se apresentarem apenas como propostas contra “ciber-crimes” e contra a pirataria, na verdade têm implicações importantíssimas no controle de tudo o que possa circular no espaço virtual.
Já existem leis desse tipo na França (Lei Hadopi) e na Espanha (Lei Sinde), e no Brasil, na mesma linha, tramita no Congresso Nacional o chamado Projeto Azeredo (hoje Projeto de Lei nº 84/1999).
O que está em jogo?
Um exemplo simples: antes da internet, na cadeia produtiva de bens culturais como filmes, músicas (CDs), textos (livros), havia a necessidade de um intermediário entre o criador e o consumidor final: surgiram então a indústria do cinema, a indústria fonográfica, as editoras. E, além do processo de produção material, fabril, havia a distribuição física dos produtos. Com a internet, tudo isso se torna, potencialmente, desnecessário. O próprio autor do bem cultural, seja qual for – uma música, uma poesia, um filme, um livro –, pode agora disponibilizar diretamente sua criação para o consumidor final na rede. Em princípio, portanto, o autor passa a controlar, ele mesmo, sua criação, sem precisar de intermediários.
Em outras palavras, a internet acaba com a necessidade da valiosíssima indústria do copyright, isto é, dos direitos autorais. E a indústria, por óbvio, não está gostando do que vê.
Mais abrangente do que o Pipa e o Sopa é o Acta (Anti-Counterfeiting Trade Agreement – Acordo Comercial Anticontrafação), que vem sendo negociado entre os EUA, a União Europeia e outra dezena de países, entre eles Japão e Canadá. Trata-se de criar uma entidade independente das Nações Unidas, da Organização Mundial do Comércio e da Organização Mundial da Propriedade Intelectual para a proteção de marcas, patentes e copyrights.
Enquanto vivemos a transição do antes para o depois da internet, os problemas surgem, entre outras razões, porque criadores que têm contratos com os atuais “intermediários” buscam formas de se libertar do controle que até agora era exercido sobre suas obras e sua carreira. Aí o problema vira conflito de interesses.
Ademais, para manter o domínio sobre a circulação na internet de bens culturais ainda sob o controle dos intermediários, os projetos propostos e as leis já existentes – tanto lá como cá – afetam diretamente a regulação de direitos fundamentais, como o acesso à educação e à cultura e, em particular, a liberdade de expressão na web.

E o Brasil?
No Brasil, o Projeto de Lei nº 2.126/2011, conhecido como Marco Civil da Internet – e não penal –, tenta caminhar no sentido oposto. Resultado de um longo processo de consulta pública iniciado pelo Ministério da Justiça ainda ao tempo do ministro Tarso Genro no governo Lula, constitui uma tentativa de garantir a liberdade de circulação na rede, afirmar direitos, e não transformá-la em “caso de polícia”.
De qualquer maneira, o assunto é muito mais complexo do que a descrição resumida apresentada aqui e não é fácil saber a real natureza desses projetos apenas fazendo um corte vertical e identificando quem os apoia ou não. Tem de tudo.
O importante é que prevaleçam o interesse público e os direitos fundamentais. E isso não é simples nem fácil.
A ver.
*Venício Lima é Professor Titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Regulação das Comunicações – História, poder e direitos, Editora Paulus, 2011.
Fonte: Carta Maior

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Truffaut: Os 80 anos do autor e seu cinema


Nascido em 6 de fevereiro de 1932, o diretor francês deixou um legado de 26 filmes em 25 anos de carreira.Tendo captado o olhar perdido de um menino confuso que caminha pela praia após ter visto o mar pela primeira vez, François Truffaut conseguiu expressar não só sua própria angústia quando adolescente, mas também um sentimento universal de dúvida solitária sobre o destino que todos devem enfrentar em algum momento. 


Por João Gabriel Villar Cruz, em Brasil de Fato

 truffaut
Cena final de "Les quatre cents coups" (Os Incompreendidos)/Fotos: Divulgação
Foi essa imagem triste e bela a escolhida para fechar a primeira obra prima de um cinéfilo que viajou para o outro lado das telas. Além disso, tal imagem habitou a mente de quem saía do cinema em 1959, ano em que o jovem crítico e cineasta ganhou o premio do festival de Cannes, pelo seu autorretrato “Les quatre cents coups” (Traduzindo ao pé da letra ‘’Os quatrocentos golpes”, uma expressão francesa equivalente a “Pintando o sete”), transformado no Brasil em “Os incompreendidos”, outro título que, apesar de ter perdido muito da essência, traduz a atmosfera do filme e seu autor. 
Truffaut iniciou efetivamente sua carreira como crítico apadrinhado por seu amigo e mentor André Bazin, aclamado crítico que serviria como um pai para o ex-delinquente. Foi Bazin que o ingressou na lendária revista cinematográfica “Cahiers du Cinéma”, onde trabalharia ao lado de seu então grande amigo Jean-Luc Godard. Truffaut causou polêmica já em sua primeira reportagem, onde criticou o intocável padrão de qualidade do cinema francês, propondo mudanças tanto nos temas quanto em suas abordagens. 
     Porém, não tinha apenas desafetos como crítico. Amante do cinema desde criança, assumiu seu amor por mestres como Alfred Hitchcock (a quem entrevistou em Paris para a Cahiers),       Jean Renoir e Roberto Rosselini. E foram a paixão e oposições ao modelo da época que o levaram, junto com Godard, a fundar um novo modo de fazer cinema, a “Nouvelle Vague” (“Nova onda”, em português). O novo movimento foi um sopro de renovação para o cinema francês e mundial. Influenciando, por exemplo, o movimento do Cinema Novo no Brasil. 
     Após a inauguração do movimento -- que, segundo o diretor, em “Os incompreendidos" as delinqüências juvenis representavam a rebeldia e o rejuvenescimento necessário para o cinema --, Godard e Truffaut tiveram desavenças quanto aos rumos que deveriam tomar a Nouvelle Vague e romperam laços para nunca mais reatar. Mesmo após tentativas de aproximação por parte de Godard nos anos 80. 
     Um ano depois à explosão de "Os Incompreendidos", Truffaut presenteou as plateias com uma emocionante e divertida sátira ao gênero de “Film Noir” norte-americano em “Tirez sur Le pianiste” (“Atire no pianista”). Em seguida, 1962, apresentou um marco na revolução sexual dos anos 60 com o belo e polêmico triângulo amoroso em “Jules et Jim”, que no Brasil recebeu o nome apelativo de "Uma Mulher para Dois". 
     Em “La nuit americaine” (A noite americana), de 1973, o diretor fez uma apaixonada homenagem ao processo cinematográfico. Com a película, Truffaut concorreu ao Oscar de diretor e trouxe à França a estatueta de melhor filme estrangeiro.
     Conseguiu, em apenas 25 anos de carreira, dirigir 26 filmes, antes da sua morte prematura com um tumor no cérebro em 1984, tendo sido seu último grande filme “Le dernier métro” (“O último metrô), contando com os astros Catherine Deneuve e Gerard de Depardieu. O filme tratava do processo de criação de um espetáculo, servindo como a segunda parte de uma trilogia que se iniciou com “A noite americana” e nunca foi terminada. 
Cinema de Autores
     Sua mais importante teoria como crítico foi a “Politique des auteurs” (A política autoral), que colocava o diretor de um filme como o principal responsável por sua obra, tal como um pintor, poeta, escritor, sendo assim os atores e equipe seu pincel e tela. Essa foi a principal inovação trazida pela “Nouvelle Vague”, e a sua marca. 
     Na visão dos críticos, seus filmes não possuíam grandes sequências, brilhantes diálogos, ou histórias de tirar o fôlego, mas cativavam pela singeleza. Como em "Jules et Jim" onde os três vértices de um triângulo amoroso andam de bicicleta pelo campo, ao som de uma melodia orquestrada (cena que inspirou a icônica sequência de “Butch Cassidy and the Sundance Kid”, na qual Paul Newman e Katherine Ross andam de bicicleta ao som de “Raindrops keep falling on my head”). 
     Foi neste filme que Truffaut se apaixonou por Jeanne Moreau, então casada com o estilista Pierre Cardin, e conseguiu fazer com que todo o seu público também se apaixonasse (e como não se apaixonar?). O diretor eternizou Morreau na tela fazendo-a correr travestida de homem por uma ponte. Nas cenas de "Jules et Jim", o público sente as personagens por seus olhares, seus sorrisos, seus tons. Com cada movimento, mergulhamos mais na vida desses estranhos, em obras íntimas e sentimentais. 
     O "sentimentalismo" foi um dos principais motivos da briga com Godard que não concordava com o caráter intimista da obra de Truffaut. Tal tradução da poesia para as telas, por mais que cada vez mais rara, pôde ser posteriormente atingida com maestria por outros mestres como Fellini (“8 ½”, “A doce vida”), David Lynch (“Veludo azul”, “O homem elefante”) e Michelangelo Antonioni (“Blow up”, “O deserto vermelho”). 
     Não é à toa que Truffaut serviu como uma das principais inspirações para o renascimento de Hollywood, no qual um jovem grupo de diretores tentou recriar a arte do cinema europeu na América. Cineastas aclamados como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Brian de Palma e Steven Spielberg fizeram parte deste grupo. Spielberg grande fã e amigo, dirigiu o diretor francês que teve papel de protagonista em seu “Close encounters of the third kind” (“Contatos imediatos de terceiro grau”). 
     Sua influência também chega ao cinema Pop moderno, exemplificado por Quentin Tarantino, que admitiu ter se baseado em “La mariée était en noir” (“A noiva estava de preto”) para criar “Kill Bill”, e ter tirado um pouco da atmosfera nonsense e narrativa não linear de “Atire no pianista” para conceber “Reservoir dogs” (“Cães de aluguel”). Pode-se até perceber traços de seu estilo ousado, simplório e poético no hoje clássico “The graduate” (“A primeira noite de um homem”), em muitos aspectos semelhante a “Jules e Jim”, e Dianne Keaton nos filmes de Woody Allen assemelha-se à doce e inconstante imagem passada por Jeanne Moreau nesse mesmo filme. 
     É por tudo isso que Truffaut, antes de ser influência e arte, é essencial para quem ama o cinema, com filmes capazes de entreter, divertir, encantar, tirar a paz, devolvê-la e, mais do que tudo, deixar em nossas bocas um gosto amargo de “Já passou?!”. 
     Truffaut foi Antoine que era Jean-Pierre 
     Mais do que um autorretrato de sua adolescência, "Os incompreendidos" previu nas telas a rebeldia de uma década que marcou a sociedade francesa e ocidental. Seu primeiro longa-metragem ainda teria quatro continuações. O moleque Antoine Doinel, de "Os Incompreendidos" cresceu e passou pelos desencantos e felicidade da juventude até chegar à maturidade de um homem solitário que separou e casou, servindo como uma espécie de alter-ego de Truffaut. 
     Truffaut foi Antoine. E Antoine sempre foi Jean-Pierre Léaud. Na década de 60 Léaud tornou-se o queridinho dos diretores franceses, mas ficou marcado como o alter-ego de Truffaut. Engajado e contestador, ator esteve presente nas revoltas de maio em 1968 em Paris e chegou a vir ao Brasil para discursar para estudantes no mesmo ano. 
     Contando sempre com Léaud no papel principal, expressou sentimentos íntimos filmando o ator em “Antoine et Colette” (1962),”Beijos proibidos” (1968), “Domicílio conjugal” (1970) e “Amor em fuga" (1979)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

"O comunismo é a ideia da emancipação de toda humanidade"


O filósofo francês Alain Badiou é um homem que não teme riscos: nunca renunciou a defender um conceito que muitos acreditam ter sido queimado pela história: o comunismo. Em entrevista à Carta Maior, Badiou fala da “ideia comunista” ou da “hipótese comunista”. Segundo ele, tudo o que estava na ideia comunista, sua visão igualitária do ser humano e da sociedade, merece ser resgatado em um mundo onde tudo passou a ter um valor mercantil. Pensador crítico da modernidade, Badiou define o processo político atual como uma “guerra das democracias contra os pobres”.

Paris - Alain Badiou não tem fronteiras. Este filósofo original é o pensador francês mais conhecido fora de seu país e autor de uma obra extensa e sem concessões. Filosofia, matemática, política, literatura e até o amor circulam em seu catálogo de produções e reflexões. Sua obra, de caráter multidisciplinar, traz uma crítica férrea ao que Alain Badiou chama de “materialismo democrático”, ou seja, um sistema humano onde tudo tem um valor mercantil.

Este filósofo insubmisso é também um homem de riscos: nunca renunciou a defender um conceito que muitos acreditam ter sido queimado pela história: o comunismo. Em sua pena, Badiou fala mais da “ideia comunista” ou da “hipótese comunista” do que do sistema comunista em si. Segundo o filósofo francês, tudo o que estava na ideia comunista, sua visão igualitária do ser humano e da sociedade, merece ser resgatado.

Defensor incondicional de Marx e da ideia de uma internacionalização positiva da revolta, o horizonte de sua filosofia é polifônico: seus componente não são a exposição de um sistema fechado, mas sim um sistema metafísico exigente que inclui as teorias matemáticas modernas – Gödel – e quatro dimensões da existência: o amor, a arte, a política e a ciência. Pensador crítico da modernidade numérica, Badiou definiu os processos políticos atuais como uma “guerra das democracias contra os pobres”.

O filósofo francês é um teórico dos processos de ruptura e não um mero panfletário. Ele convoca com método a repensar o mundo, a redefinir o papel do Estado, traça os limites da “perfeição democrática”, reinterpreta a ideia de República, reatualiza as formas possíveis e não aceitas de oposição e coloca no centro da evolução social a relegitimação das lutas sociais.

Alain Badiou propõe um princípio de ação sem o qual, sugere, nenhuma vida tem sentido: a ideia. Sem ela toda existência é vazia. Com mais de 70 anos, Badiou introduziu em sua reflexão o tema do amor em um livro brilhante e comovedor, no qual o autor de “O ser e o acontecimento” define o amor como uma categoria da verdade e o sentimento amoroso como o pacto mais elevado que os indivíduos podem firmar para viver. Sua lucidez analítica o conduz inclusive a dizer que o amor, porque grátis e total, está ameaçado pelo mundo contemporâneo.

Revoluções árabes, movimento dos indignados, mobilização crescente dos grupos que estão contra a globalização, a luta ou a oposição contra as modalidades do sistema atual se multiplicaram e sofisticaram. Analisando o que ocorreu, o que você diria hoje a todos esses rebeldes do mundo para que sua ação conduza a uma autêntica construção?

Eu diria a eles que, para mim, mais importante que a consigna da anti-globalização, a qual parece sugerir que, por meio de várias medidas, pode-se re-humanizar a situação, incluindo a re-humanização do capitalismo, é a globalização da vontade popular. Globalização quer dizer vigor internacional. Mas essa globalização internacional necessita de uma ideia positiva para uni-la e não só a ideia crítica ou a combinação de desacordos e protestos. Trata-se de um ponto muito importante. Passar da revolta à ideia é passar da negação á afirmação. Somente no plano afirmativo poderemos nos unir de forma duradoura.

Um dos princípios de sua filosofia consiste em dizer que uma vida que não está regida pelo signo da ideia não é uma vida verdadeira. Agora, como defender hoje essa ideia sob a ameaça do hiper-consumo, das falsidades e injustiças da democracia parlamentar e em um mundo onde nossa relação com o outro passa pela relação com o objeto e não com as ideias ou com os indivíduos? No mundo contemporâneo, a ideia é o produto e não a relação humana.

A verdadeira vida é uma vida que aceita estar sob o signo da ideia. Dito de outro modo, uma vida que aceita ser outra coisa do que uma vida animal. Alguns dirão que há valores transcendentes, religiosos, e que é preciso submeter o animal; outros dirão, ao contrário, que devemos nos libertar desses valores transcendentes, que Deus está morto, que viva os apetites selvagens. Mas, entre ambas, há uma solução intermediária, dialética, que consiste em dizer que, na vida, através de encontros e metamorfoses, pode haver um trajeto que nos liga à universalidade. Isso é o que eu chamo “uma vida verdadeira”, ou seja, uma vida que encontrou ao menos algumas verdades.

Chamo "ideia" esse intermediário entre as verdades universais, digamos eternas para provocar um pouco os contemporâneos, e o indivíduo. Que é então uma vida sob o signo da ideia em um mundo como este? Faz falta uma distância com a circulação geral. Mas essa distância não pode ser criada só com a vontade, faz falta algo que nos ocorra, um acontecimento que nos leve a tomar posição frente ao que se passou. Pode ser um amor, um levante político, uma decepção, enfim, muitas coisas. Aí se põe em jogo a vontade para criar um mundo novo que não estará baseado na ordem do mundo tal como é, com sua lei de circulação mercantil, mas sim em um elemento novo de minha experiência.

O mundo moderno se caracteriza pela soberania das opiniões. E a opinião é algo contrário à ideia. A opinião não pretende ser universal, é minha opinião e vale tanto quanto a opinião de qualquer outra pessoa. A opinião se relaciona com a distribuição de objetos e a satisfação pessoal. Há um mercado das opiniões assim como há um mercado das ações financeiras. Há momentos em que uma opinião vale mais do que outra; mais tarde essa opinião quebra como um país. Estamos no regime geral do comércio da comunicação no qual a ideia não existe. Inclusive se suspeita da ideia e se dirá que ela é opressiva, totalitária, que se trata de uma alienação. E por que isso ocorre? Simplesmente porque a ideia é grátis. Ao contrário da opinião, a ideia não entra em nenhum mercado. Se defendemos nossa convicção, o fazemos com a ideia de que é universal. Essa ideia é, então, uma proposta compartilhada, não se pode colocá-la à venda no mercado. Mas como tudo o que é grátis, a ideia está sob suspeita.

Pergunta-se: qual é o valor do que é grátis? Justamente, o valor do grátis é que não tem valor no sentido das trocas. Seu valor é intrínseco. E como não se pode distinguir a ideia do preço do objeto a única existência da ideia está em um tipo de fidelidade existencial e vital para a ideia. A melhor metáfora para isso é encontrada no amor. Se queremos profundamente a alguém, esse amor não tem preço. É preciso aceitar os sofrimentos, as dificuldades, o fato de que sempre há uma tensão entre o que desejamos imediatamente e a resposta do outro. É preciso atravessar tudo isso.

Quando estamos enamorados, trata-se de uma ideia e isso é o que garante a continuidade desse amor. Para se opor ao mundo contemporâneo pode-se atuar na política, mas estar cativado completamente por uma obra de arte ou estar profundamente enamorado é como uma rebelião secreta e pessoal contra o mundo contemporâneo. Esse é o principal problema da vida contemporânea. Estabeleceu-se um regime de existência no qual tudo deve ser transformado em produto, em mercadoria, inclusive os textos, as ideias, os pensamentos. Marx havia antecipado isso muito bem: tudo pode ser medido segundo seu valor monetário.

Você é um dos poucos filósofos que defende o que você mesmo chama “a ideia comunista”. Como é possível defender a ideia comunista quando seu conteúdo histórico foi desastroso.

Penso que o conteúdo histórico das ideias sempre pode ser declarado desastroso. Os democratas nos falam da democracia, mas se olhamos de perto a história das democracias, ela está cheia de desastres. Para tomar o exemplo mais elementar, se tomamos a Primeira Guerra Mundial, ela foi lançada por democratas, democratas alemães, ingleses e franceses. Foi um massacre inimaginável, o qual já se demonstrou esteve ligado a apetites financeiros nas colônias africanas, apetites que não diziam respeito aqueles que seriam massacrados mais tarde. Houve milhões de mortos e de sacrificados em condições espantosas e, aceite-se ou não, isso é parte da história das democracias. Se interrogamos o conjunto das experiências históricas veremos que todo o mundo tem sangue até as orelhas.

No que se refere à palavra “comunista” em si, da mesma maneira que ocorre com a palavra “democracia”, sempre se pode argumentar que ambas tem sangue até as orelhas. Mas, por acaso, é preciso sempre inventar outra palavra? Tomemos, por exemplo, o cristianismo. O cristianismo é São Francisco de Assis, a santidade verdadeira, o advento da ideia de uma verdadeira generosidade para com os pobres, a caridade, etc.,etc. Mas, do outro lado, também é a inquisição, o terror, a tortura e o suplício. Por acaso vamos dizer que é um crime alguém se chamar de cristão? Ninguém diz isso. Eu defendo uma espécie de absolvição dos vocábulos. Eles têm o sentido dado pela sequência histórica da qual falamos.

De fato, o comunismo conheceu duas sequências histórias. A sequência histórica do século XIX, quando a palavra foi inventada e propagada para designar uma esperança histórica humana fundamental, a esperança da igualdade, da emancipação das classes oprimidas, de uma organização social igualitária e coletiva. Depois há outra sequência muito diferente onde se experimentou o comunismo, ou seja, se construiu uma forma de poder particular que buscou coletivizar a indústria e essas coisas, mas que, no final, se tornou uma forma de Estado despótico.

Eu proponho que não se sacrifique a palavra “comunismo” por causa desta segunda sequência, mas sim que ela seja resgatada com base na primeira sequência, possibilitando assim a abertura de uma terceira sequência.

Nesta terceira sequência, a palavra “comunismo” significaria o que sempre significou: a ideia de uma organização social totalmente distinta da que conhecemos e que já sabemos que está dominada por uma oligarquia financeira e econômica absolutamente feroz e indiferente aos interesses gerais da humanidade. Eu proponho então voltar ao comunismo sob a forma da ideia comunista: a ideia comunista é a ideia da emancipação de toda a humanidade, é a ideia do internacionalismo, de uma organização econômica mobilizando diretamente os produtores e não as potências exteriores; é a ideia da igualdade entre os distintos componentes da humanidade, do fim do racismo e da segregação e também é a ideia do fim das fronteiras.

Não esqueçamos que as fronteiras são uma grande característica do mundo contemporâneo. O comunismo é tudo isso. Se alguém inventar uma palavra formidável para designar tudo isso, que não seja a palavra comunismo, eu aceito. Mas a história da política não é a história das palavras, mas sim a história dos novos significados que podem ter as palavras. Em geral se opõe a palavra “democracia” à palavra “comunismo”. Eu digo que uma palavra não é mais inocente do que a outra. Não lutemos pela inocência das palavras. Discutamos sobre o que significam e o que significa aquilo que eu digo.

Agora chegamos a Marx, ou melhor dizendo, aos dois Marx: o Marx marxista e o Marx de antes do marxismo. Qual dos dois você reivindica?

Marx e marxismo têm significados muito distintos. Marx pode significar a tentativa de uma análise científica da história humana com base nos conceitos fundamentais de classe e de luta de classe, e também a ideia de que a base das diferentes formas que a organização da humanidade adquiriu no curso da história é a organização da economia. Nesta parte da obra de Marx há coisas muito interessantes como, por exemplo, a crítica da economia política. Mas também há outro Marx que é um Marx filósofo, que vem depois de Engels e que tenta mostrar que a lei das coisas deve ser buscada nas contradições principais que podem ser percebidas dentro das coisas. É o pensamento dialético, o materialismo dialético. No concreto, há uma base material de todo pensamento e este se desenvolve através de sistemas de contradição, de negação. Este é o segundo Marx. Mas também há um terceiro Marx que é o militante político. É um Marx que, em nome da ideia comunista, indica o que fazer: é o Marx fundador da Primeira Internacional, é o Marx que escreve textos admiráveis sobre a Comuna de Paris ou sobre a luta de classes na França.

Há pelo menos três Marx e o que mais me interessa, reconhecendo o mérito imenso de todos eles, é o Marx que tenta ligar a ideia comunista em sua pureza ideológica e filosófica às circunstâncias concretas. É o Marx que se pergunta pelo caminho para organizar as pessoas politicamente na direção da ideia comunista. Há ideias fundamentais que foram experimentadas e que ainda permanecem e, em cujo centro, encontramos a convicção segundo a qual nada ocorrerá enquanto uma fração significativa dos intelectuais não aceite estar organicamente ligada às grandes massas populares. Esse ponto está totalmente ausente hoje em várias regiões do mundo. Em maio de 68 e nos anos 70, este ponto foi abandonado. Hoje pagamos o preço desse abandono que significou a vitória completa e provisória do capitalismo mais brutal.

A vida concreta de Marx e Engels consistiu em participar nas manifestações na Alemanha e em tentar criar uma Internacional. E o que era a Internacional? A aliança dos intelectuais com os operários. É sempre por aí que se começa. Eu chamo então a que comecemos de novo: por um lado com a ideia comunista e, por outro, com um processo de organização sob esta ideia que, evidentemente, levará em conta o conjunto do balanço histórico, mas que, em certo sentido, terá que começar de novo.

Caído, derrotado no abismo ou simplesmente ferido? Na sua avaliação, em que fase se encontra o capitalismo: em seu ocaso, como acreditam alguns, ou somente vivendo um recesso devido a suas enormes contradições internas?

O capitalismo é um sistema de roubo planetário exacerbado. Pode-se dizer que o capitalismo é uma ordem democrática e pacífica, mas é um regime de depredadores, é um regime de banditismo universal. E digo banditismo de maneira objetiva: chamo bandido a qualquer um que considere que a única lei de sua atividade é seu próprio proveito. Mas um sistema como este que, por um lado, tem a capacidade de se estender e, por outro, de deslocar seu centro de gravidade é um sistema que está longe de estar moribundo.

Não é o caso de acreditar que, pelo fato de estarmos em uma crise sistêmica, nos encontramos à beira do colapso do capitalismo mundializado. Acreditar nisso seria ver as coisas através da pequena janela da Europa. Creio que há dois fenômenos que estão entrelaçados. O primeiro é a derrocada da segunda etapa da experiência comunista, a falência dos Estados socialistas. Essa falência abriu uma enorme brecha para o outro termo da contradição planetária que é o capitalismo mundializado. Mas também abriu novos espaços de tensões materiais. O desenvolvimento capitalista de países do porte da China e da Índica, assim como a recapitalização da ex-União Soviética tem o mesmo papel que o colonialismo no século XIX. Abriu espaços gigantes de manobra, de clientela de novos mercados.

Estamos vivendo agora esse fenômeno: a mundialização do capitalismo que se fez potente e se multiplicou pelo enfraquecimento de seu adversário histórico do período precedente. Esse fenômeno faz com que, pela primeira vez na história da humanidade, se possa falar realmente de um mercado mundial. Esse é um primeiro fenômeno. O segundo é o deslocamento do centro de gravidade. Estou convencido de que as antigas figuras imperiais, a velha Europa, por exemplo, a qual apesar de sua arrogância tem uma quantidade considerável de crimes que ainda aguardam perdão, e os Estados Unidos, apesar do fato de ainda ocupar um lugar muito importante, são na verdade entidades capitalistas progressivamente decadentes e até um pouco crepusculares. Na Ásia, na América Latina, com a dinâmica brasileira, e inclusive em algumas regiões do Oriente Médio, vemos aparecer novas potências. O sistema da expansão capitalista chegou a uma escala mundial, mas o sistema das contradições internas do capitalismo modifica sua geopolítica. As crises sistêmicas do capitalismo – hoje estamos em uma grave crise sistêmica – não têm o mesmo impacto segundo a região. Temos assim um sistema expansivo com dificuldades internas.

Mas esses novos polos se desenvolvem segundo o mesmo modelo.
Sim, e não creio que esses novos polos introduzam uma diferenciação qualitativa. É um deslocamento interno ao sistema que dá a ele margem de manobra.

Há duas versões de um de seus livros mais importantes: trata-se do Manifesto para a Filosofia. O primeiro Manifesto foi publicado há vinte anos, o segundo há dois. Se levamos em conta as revoluções árabes e as crises do sistema financeiro internacional, o que mudou fundamentalmente no mundo e no ser humano entre os dois manifestos?

O que mudou mais profundamente é a divisão subjetiva. As escolhas fundamentais às quais estiveram confrontados os indivíduos durante o primeiro período estavam ainda dominadas pela ideia da alternativa entre orientação revolucionária e democracia e economia de mercado. Dito de outro modo, estávamos na constituição do debate entre totalitarismo e democracia. Isso exige dizer quer todo o mundo estava sob o influxo do balanço da experiência histórica do século XX. O primeiro Manifesto foi publicado em 1989, quase ao final do século XX. Em escala mundial, esta discussão, que adquiriu formas distintas segundo os lugares, se focalizou em qual poderia ser o balanço deste século XX. Por acaso, temos que condenar definitivamente as experiências revolucionárias? É preciso abandoná-las porque foram despóticas, violentas? Neste sentido, a pergunta era: devemos ou não nos unir à corrente democrática e entrar na aceitação do capitalismo como um mal menor?

A eficácia do sistema não consistiu em dizer que o capitalismo era magnífico, mas sim que era o mal menor. Na verdade, tirando um punhado de pessoas ninguém pensa que o capitalismo é magnífico. Mas o que se disse nesse período foi que a alternativa era desastrosa. Há 20 anos estávamos neste contexto, ou seja, a reativação da filosofia inspirada pela moral de Kant. Ou seja, não é o caso de ter grandes ideias de transformação política voluntaristas porque isso conduz ao terror e ao crime, mas sim velar por uma democracia pacificada dentro da qual os direitos humanos estarão protegidos. Hoje esta discussão está terminada e está terminada porque todo mundo vê que o preço pago por essa democracia pacificada é muito elevado. Todo mundo toma consciência que se trata de um mundo violento, com outras violências, que a guerra segue rondando todo o tempo, que as catástrofes ecológicas e econômicas estão na ordem do dia e que, além disso, ninguém sabe para onde vamos.

Podemos imaginar que esta ferocidade da concorrência e esta constante submissão à economia de mercado durem ainda vários séculos? Todo mundo sente que não, que se trata de um sistema patrológico. Foi revelado que este sistema, que nos foi apresentado como um sistema moderado, sem dúvida em nada formidável, mas melhor que todos os demais, é um sistema patológico e extremamente perigoso. Essa é a novidade. Não podemos mais ter confiança no futuro desta visão das coisas. Estamos em uma fase de transição e incerteza. Introduziu-se a hipótese de uma espécie de humanismo renovado que poderíamos chamar de humanismo de mercado, o mercado, mas humano. Creio que essa figura, que segue vigente graças aos políticos e aos meios de comunicação, está morta. É como a União Soviética: estava morta antes de morrer. Creio que, em condições diferentes e em um universo de guerra, de catástrofes, de competição e de crise, esta ideia do capitalismo com rosto humano e da democracia moderada está morta. Agora será preciso não mais escolher entre duas visões constituídas, mas sim inventar uma.

Dessa ambivalência provém talvez a sensação de que as jovens gerações estão perdidas, sem confiança em nada?

Isso é o que sinto na juventude de hoje. Sinto que a juventude está completamente imersa no mundo tal como é, não tem ideia de outra alternativa, mas, ao mesmo tempo, está perdendo confiança neste mundo, está vendo que, na verdade, este mundo não tem futuro, carece de toda significação para o futuro. Creio que estamos em um período onde as propostas de ideias novas estão na ordem do dia, mesmo que uma boa parte da opinião não saiba disso. E não sabe porque ainda não chegamos ao final deste esgotamento interno da promessa democrática. É o que eu chamo de período intervalo: sabemos que as velhas escolhas estão acabadas, mas não sabemos ainda muito bem quais são as novas escolhas.

Vários filósofos apontam o fato de que os valores capitalistas destruíram a dimensão humana. Você acredita, ao contrário, que ainda persiste uma potência altruísta no ser humano.

Devemos olhar o que ocorreu nas manifestações dos países árabes. Nunca acreditei que essas manifestações iam inventar um novo mundo de um dia para o outro, nem pensei que essas revoltas apresentavam soluções novas para os problemas planetários. Mas o que me assombrou foi a reaparição da generosidade do movimento de passa, quer dizer, a possibilidade de agir, de sair, de protestar, de pronunciar-se independentemente do limite dos interesses imediatos e fazê-lo junto a pessoas que, sabemos, não compartilham nossos interesses. Aí encontramos a generosidade da ação, a generosidade do movimento de massa, temos a prova de que esse movimento ainda é capaz de reaparecer e reconstituir-se. Com todos os seus limites, também temos um exemplo semelhante com o movimento dos indignados.

O que fica evidente em tudo isso é que estão aí em nome de uma série de princípios, de ideias, de representações. Esse processo, obviamente, será longo. O movimento da primavera árabe me parece mais interessante que o dos indignados porque tem objetivos precisos, ou seja, a desaparição de um regime autocrático e o tema fundamental que é o horror diante da corrupção. A luta contra a corrupção é um problema capital do mundo contemporâneo. Nos indignados vimos a nostalgia do velho Estado providência. Mas volto a reiterar que o interessante em tudo isso é a capacidade de fazer algo em nome de uma ideia, mesmo que essa ideia tenha acentos nostálgicos. O que me interessa saber é se ainda temos a capacidade histórica de agir no regime da ideia e não simplesmente segundo o regime da concorrência ou da conservação. Isso para mim é fundamental. A reaparição de uma subjetividade dissidente, seja quais forem suas formas e suas referências, isso me parece muito importante.

Você publicou um livro sobre o amor, que é de uma sabedoria comovedora. Para um filósofo comprometido com a ação política e cujo pensamento integra as matemáticas, a aparição do tema do amor é pouco comum.

O amor é um tema essencial, uma experiência total. O amor está ameaçado pela sociedade contemporânea. O amor é um gesto muito forte porque significa que é preciso aceitar que a existência de outra pessoa se converta em nossa preocupação. No amor, o fundamental está em que nos aproximamos do outro com a condição de aceita-lo em minha existência de forma completa, inteira. Isso é o que diferencia o amor do interesse sexual. Este se fixa sobre o que os psicanalistas chamaram de “objetos parciais”, ou seja, eu extraio do outro alguns emblemas fetiches que me interessam e que suscitam minha excitação desejante. Não nego a sexualidade, pelo contrário. Ela é um componente do amor. Mas o amor não é isso. O amor é quando estou em estado de amar, de estar satisfeito e de sofrer e de esperar tudo o que vem do outro: a maneira como viaja, sua ausência, sua chegada, sua presença, o calor de seu corpo, minhas conversas com ele, os gostos compartilhados. Pouco a pouco, a totalidade do que o outro é torna-se um componente de minha própria existência. Isso é muito mais radical que a vaga ideia de preocupar-me com o outro. É o outro com a totalidade infinita que representa e com o qual me relaciono em um movimento subjetivo extraordinariamente profundo.

Em que sentido o amor está ameaçado pelos valores contemporâneos?

Está ameaçado porque o amor é gratuito e, desde o ponto de vista do materialismo democrático, injustificado. Por que deveria me expor ao sofrimento da aceitação da totalidade do outro? O melhor seria extrair dele o que melhor corresponde aos meus interesses imediatos e aos meus gostos e descartar o resto. O amor está ameaçado hoje porque é distribuído em fatias. Observemos como se organizam as relações nestes portais de internet onde as pessoas entram em contato: o outro já vem fatiado em fatias, um pouco como a vaca nos açougues. Seus gostos, seus interesses, a cor dos olhos, o corte dos cabelos, se é grande ou pequeno, loiro ou moreno. Vamos ter uns 40 critérios e, ao final, vamos nos dizer: vou comprar este. É exatamente o contrário do amor. O amor é justamente quando, em certo sentido, não tenho a menor ideia do que estou comprando.

E frente a essa modalidade competitiva das relações, você proclama que o amor deve ser reinventado para nos defendermos, que o amor deve reafirmar seu valor de ruptura e de loucura.

O amor deve reafirmar o fato de que está em ruptura com o conjunto das leis ordinárias do mundo contemporâneo. O amor deve ser reinventado como valor universal, como relação em direção da alteridade, daquilo que não sou eu e onde a generosidade é obrigatória. Se não aceito a generosidade, tampouco aceito o amor. Há uma generosidade amorosa que é inevitável. Sou obrigado a ir na direção do outro para que a aceitação do outro em sua totalidade possa funcionar. Essa é uma excelente escola para romper com o mundo tal como é. Minha ideia sobre a reinvenção do amor quer dizer o seguinte: uma vez que o amor se refere a essa parte da humanidade que não está entregue à competição, à selvageria; uma vez que, em sua intimidade mais poderosa, o amor exige uma espécie de confiança absoluta no outro; uma vez que vamos aceitar que este outro esteja totalmente presente em nossa própria vida, que nossa vida esteja ligada de maneira interna a esse outro, pois bem, já que tudo descrito acima é possível isso prova que não é verdade que a competitividade, o ódio, a violência, a rivalidade e a separação sejam a lei do mundo.

A política não está muito afastada de tudo isso. Para você, há uma dimensão do amor na ação política?

Sim, inclusive pode resultar perigoso. Se buscamos uma analogia política do amor eu diria que, assim como no amor onde a relação com uma pessoa tem que constituir sua totalidade existencial como um componente de minha própria existência, na política autêntica é preciso que haja uma representação inteira da humanidade. Na política verdadeira, que também é um componente da vida verdadeira, há necessariamente essa preocupação, essa convicção segundo a qual estou ali enquanto representante e agente de toda a humanidade. Do mesmo modo que ocorre no amor, onde minha preocupação, minha proposta e minha atividade estão ligadas à existência do outro em sua totalidade.

O que pode fazer um casal jovem e enamorado neste mundo violento, competitivo, onde o projeto do casal já está ameaçado pela própria dinâmica do consumo e da competição?

Creio que o projeto de um casal pode ser uma rama se não se dissolve, se não se metamorfoseia em um projeto que acabe se transformando, no fundo, na acumulação de interesses particulares. Na situação de crise e de desorientação atual o mais importante é segurar as mãos no timão da experiência pela qual estamos passando, seja no amor, na arte, na organização coletiva, no combate político. Hoje, o mais importante é a fidelidade: em um ponto, ainda que seja em apenas um, é preciso não ceder. E para não ceder devemos ser fieis ao que ocorreu, ao acontecimento. No amor, é preciso ser fiel ao encontro com o outro porque vamos criar um mundo a partir desse encontro. Claro, o mundo exerce uma pressão contrária e nos diz: “cuidado, defenda-se, não deixe que o outro abuse de ti”. Com isso está dizendo: “voltem ao comércio ordinário”.

Então, como essa pressão é muito forte, o fato de manter o timão no rumo certo, de manter vivo um elemento de exceção, já é extraordinário. É preciso lutar para conservar o excepcional que ocorre em nossas vidas. Depois veremos. Dessa forma salvaremos a ideia e saberemos o que é exatamente a felicidade. Não sou um asceta, não sou a favor do sacrifício. Estou convencido de que se conseguimos organizar uma reunião com trabalhadores e colocamos em marcha uma dinâmica, se conseguimos superar uma dificuldade no amor e nos reencontramos com a pessoa que amamos, se fazemos uma descoberta científica, então começamos a compreender o que é a felicidade. A felicidade é uma ideia fundamental. A construção amorosa é a aceitação conjunta de um sistema de riscos e de invenções.

Você também introduz uma ideia peculiar e maravilhosa: devemos fazer tudo para preservar o que nos ocorre de excepcional.

Aí está o sentido completo da vida verdadeira. Uma vida verdadeira se configura quando aceitamos os presentes perigosos que a vida nos oferece. A existência nos traz riscos, mas, na maioria das vezes, estamos mais espantados que felizes por esses presentes. Creio que aceitar isso que nos ocorre e que parece raro, estranho, imprevisível, excepcional, que seja o encontro com uma mulher ou o maio de 68, aceitar isso e suas consequências, isso é a vida, a verdadeira vida.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer