Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

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sábado, 21 de julho de 2018

LINHAS DO HORIZONTE - BORDANDO POLÍTICA



O Linhas do Horizonte é um grupo de esquerda
que borda política. Com agulhas, linhas e o gesto
ancestral do bordado, luta pela restauração da 
democracia em nosso país e resiste ao estado de exceção 
implantado pelo golpe do impeachment da Presidenta Dilma.

A ideia de demonstrar solidariedade à Dona Marisa Letícia, 
vítima de massivos, covardes e infundados ataques fascistas, 
despertou a ideia de a homenagear, demonstrando 
solidadariedade, carinho e apoio. Pensamos em oferecer à
D. Marisa um café mineiro, em BH, numa mesa forrada 
com uma toalha bordada por nós. Nascia ali, em janeiro 
de 2017, a ideia do mosaico de quadradinhos bordados e o 
Coletivo Linhas do Horizonte. Desde então, os membros 
do grupo ganharam o apelido de “marisas”.

Com o recrudescimento dos ataques golpistas e com a 
doença de Dona Marisa, continuamos a bordar os quadradinhos,
 mas passamos a ocupar e a bordar em locais públicos, sempre 
mantendo o propósito basilar do Grupo Linhas do Horizonte:
Bordar Política e manifestar nosso apoio às pessoas, grupos ou
causas que se encontrem sob ataque dos fascistas. Apareceram,
 assim, as faixas planfetárias, nossa marca registrada, resultado 
da interação entre nós e passantes.

O inusitado e a força de nossos bordados políticos chamaram
atenção, nos tornamos conhecidos e por sermos coerentes com
 nossos propósitos, adquirimos respeito e credibilidade, muito 
antes de sermos elogiados por importantes personalidades.

Crescemos rapidamente e por não possuirmos um canal para 
divulgação de nossos trabalhos, muitos nos confundiram com 
outros grupos e coletivos.
O Linhas do Horizonte é um grupo autônomo de esquerda, 
suprapartidário, cujas iniciativas e ações independem de partidos,
de outros coletivos, de agremiações, de sindicatos, etc.

O Linhas do Horizonte foi criado com o propósito de bordar 
polítíca, nos seus mais diversos horizontes: bordamos por justiça,
 por liberdade, contra o preconceito, contra a misoginia, contra 
a homofobia, contra a censura, etc.
Homenageamos quem ou o que se encontre sob ataque em 
seus direitos legítimos.
Este é o nosso grupo Linhas do Horizonte.

Este texto foi retirado da página do Facebook que o Linhas do Horizonte
mantém e onde se pode conhecer melhor  essas guerreiras e seu trabalho.

Milton Nascimento e Chico Buarque (TV Globo, 1987)

quarta-feira, 18 de julho de 2018

João Pedro Stedile no Voz Ativa - Questão agrária e desenvolvimento

Por que defendemos o direito de Lula ser candidato?


Estamos vivendo um Estado de exceção, fruto de um golpe. Ele teve início na derrocada da presidenta legítima Dilma Rousseff e segue atropelando os direitos conquistados ao longo dos anos pelos trabalhadores e trabalhadoras brasileiras. Nada ficou intocado. Direitos trabalhistas, previdenciários, educação, sociais, reforma agrária, titulação de terras indígenas, SUS, entre outros.
O papel dos meios de comunicação neste enredo parlamentar-jurídico e midiático, foi determinante, quando não, de liderança. A chamada "grande mídia" - em especial da Rede Globo -, envolta em falsos ares de isenção e democracia, fez a amarração do golpe em aliança com parte do Judiciário, do Ministério Público e do Congresso Nacional. Para isso, usou todo o seu aparato para convocar manifestações golpistas trasvestidas de protestos contra a corrupção; fez articulações nos bastidores do poder e moveu seu poder econômico em favor da ruptura com a democracia. Nesse processo, manipulou a opinião pública, contou mentiras e omitiu fatos.
Desde o golpe, o sistema Brasil de Fato (site, impressos regionais e rádio) vem denunciando os patrocinadores desse verdadeiro atentado contra o povo, que impacta prioritariamente a população pobre. Além disso, nossa linha editorial se expressa na divulgação das conquistas sociais dos últimos anos, fruto especialmente de gestões de partidos de esquerda nos níveis federal, estadual e municipal.
Se durante tais gestões o Brasil de Fato se posicionou no apoio a medidas voltadas aos anseios da classe trabalhadora - sem que, para isso, houvesse qualquer omissão das cobranças políticas necessárias -, consideramos que o Brasil chegou a um momento decisivo que exige a publicização da nossa linha editorial em relação ao tema que é central: Luiz Inácio Lula da Silva. Entendemos que o ex-presidente foi o alvo principal do golpe, que visa tirá-lo da corrida eleitoral, pois a possibilidade de ter Lula nas urnas poderia representar a volta da democracia com a classe trabalhadora como protagonista.
Lula é hoje preso político e está sequestrado por desmando de parte do Judiciário, haja vista sua condenação sem provas e com arbitrariedades em todo o processo. Defender o direito de o ex-presidente ser candidato é garantir a vigência das regras democráticas. É respeitar a Constituição e devolver ao povo as rédeas do futuro do país. Privar o ex-presidente desse direito é mais uma etapa do golpe.
FONTE: Brasil de Fato 
Edição: Nina Fideles

Com 260 mil pessoas, feira do MST teve samba e rumo politico

Comunicado nº 31/2018
 São Paulo, 07 de maio de 2018


Com 260 mil pessoas, feira do MST teve samba e rumo politico



Num país em esforço permanente para encontrar um destino civilizado, a III Feira Nacional da Reforma Agrária produziu um marco histórico e um exemplo. 

Encerrada na noite de domingo, ao longo de quatro dias a Feira levou 260 000 pessoas ao Parque Água Branca, uma das mais antigas áreas públicas de São Paulo. Neste período, a praça de alimentação ofereceu 75 iguarias diferentes. As barracas de agricultores e feirantes comercializaram 420 toneladas de 1530 produtos. Na feira de livros, eram vendidas obras primas da ficção mundial e brasileira, além de raridades da literatura revolucionária do início do século XX, as vendas são estimadas, também, em várias toneladas.  

Inaugurado em 1929, o ano do crack da bolsa de Nova York e do anoitecer da República Velha, que no ano seguinte seria derrubada por Getúlio, o Parque nasceu como um local de ares elitistas, conservados até hoje numa arquitetura de estilo normando, própria para países de clima bem mais frio do que o nosso.

Seus idealizadores eram homens da Sociedade Rural Brasileira, nascida para defender os interesses da velha elite do café e que, mesmo dedicando-se a um leque mais variado de produtos, nunca abandonou a missão orginal, inclusive nos na Constituinte de 1988.
Exatamente 100 anos depois da abolição da escravatura, a SRB foi uma das forças mais articuladas de Brasília para um combate sem tréguas à reforma agrária. Como esta é, justamente,  a razão de ser do MST, havia uma obvia ironia no evento desses quatro dias, quase um aviso de que algumas mudanças históricas podem ser adiadas e retardadas, mas dificilmente serão impedidas.  

Formado há 34 anos, hoje uma das principais organizações engajadas na defesa dos direitos do presidente Lula, a bandeira do MST estava em toda parte do Parque.Inclusive numa área reservada, onde personalidades convidadas e artistas -- foram mais de 350 nos quatros dias -eram recebidos antes e depois das respectivas apresentações.  Na noite de domingo, o coordenador do MST e seu líder histórico, João Pedro Stedile, se dedicava a um afazer menos conhecido. A frente de três grandes panelões, Stedile comandava o preparo de um arroz carreteiro que, posso testemunhar, tinha um sabor grandioso  como poucas vezes se viu. "É uma velha receita de família", disse ele ao 247, no momento em que a iguaria -- o nome é adequado, sim senhor -- era servida aos integrantes da Unidos do Tuiuti, campeã moral, artística, política, o que mais você quiser, do carnaval 2018.

"Estamos abrindo um espaço de diálogo com a população de São Paulo", afirma João Paulo Rodrigues, coordenador nacional do MST.

Quem frequentou o parque Água Branca no final da década de 1950, início de 1960, guardou a lembrança de um ambiente público, aberto a quem quisesse entrar, mas nem tanto. Ali era o local de encontro não para os homens e mulheres simples da cidade, muito menos para o lazer trabalhadores rurais, mas um ambiente sob medida para grandes fazendeiros, seus descendentes e protegidos, a começar por sua área central --  um campo de areia, já usado para aulas de equitação e que no passado também serviu para concurso de animais de raça.

Mais tarde, animado pelas ondas universais do ambientalismo, no Parque se formou um ponto de encontro para a venda de produtos orgânicos e uma militância aguerrida, que incluiu a organização de protestos contra uma reforma ensaiada pela primeira dama de um dos inúmeros governadores de São Paulo que o PSDB já possuiu.

Nos quatro dias da Feira da Reforma Agrária, a área de equitação virou o coração da festa. Foi ali que, na noite de domingo, Martinho da Vila se apresentou. Militante político desde os tempos da ditadura militar, onze dias antes Martinho inscreveu seu nome na lista de personalidades impedidas de visitar o presidente Lula, encarcerado em Curitiba. Em São Paulo, ele empolgou a platéia quando cantou o clássico "Pequeno burguês", uma denúncia do ensino privado atualizada apelos cortes de Temer-Meirelles no crédito educativo, e provocou uma vibração especial quando puxou o coro "Lula Livre".  

Havia música e dança em outros lugares, também. À beira de um lago de águas escuras que serve de criadouro de carpas imensas, era possível participar de uma roda aberta de baião, onde todos dançavam até cansar. A poucos metros,  um trio de saxofone, pandeiro e violão, entoava chorinhos, com delicadeza e um visível esforço para não sair do tom. Quando ocorreu um pequeno deslize, um dos músicos lamentou, bem-humorado, com a certeza de que todos estavam entre amigos:  "eu disse que precisávamos ter ensaiado antes".

Tenho certeza de que, um dia, cenas que vi ontem no Parque Agua Branca estarão num filme brasileiro sobre esses dias difíceis e perigosos que o país atravessa, quando tudo parece perdido mas onde muitas pessoas não desistiram de tentar ser felizes. Quero ter a chance de ouvir de novo a conversa de duas irmãs que, no 1 de maio, tomaram o ônibus noturno para uma viagem de seis horas até Curitiba, aonde explodiram os pulmões de tanto gritar "Lula Livre!" em frente a sede da Polícia Federal. Depois, passaram uma noite na casa de uma moradora  local que ofereceu hospedagem e  voltaram a São Paulo com a certeza de que tinham acompanhado um momento da história de suas vidas que nunca mais vai se repetir. "Todo mundo deveria fazer isso," dizia uma delas, sentada numa mesinha perto da roda de baião. "Todo mundo". Por que?, pergunto. "Quem não entendeu o que é o Lula não entendeu nada. Nada. É isso que estou explicando para meu filho. Ele tem 17 anos".

Momentos especiais como esses costumam estimular um ambiente de sonho mas a realidade do momento político não costuma perder a chance de produzir provocações e atos de intimidação. Logo depois de desembarcar numa casa das redondezas, onde ficariam hospedados durante a feira, um grupo de sem-terra foi chamados a prestar depoimento numa delegacia. É que, ao ver aquelas pessoas de camisa vermelha, bonés e bandeiras, um vizinho não achou possível que fossem inquilinos. Convencido de que se tratava de uma invasão, fez uma denúncia à policia. "Foi só começo de uma longa jornada," conta uma advogada que acompanhou o caso. "Quando explicamos que o imóvel fora alugado, quiseram ver o contrato. Quanto mostramos uma cópia do contrato, quiseram o original. E quando viram o original, pediram uma cópia autenticada. Dá para entender, né?"

Às 10 da noite de sábado para domingo, um grupo de 40 feirantes do Ceará e de Pernambuco voltava para Cotia, nas vizinhanças de São Paulo, aonde estava hospedado. No meio do caminho, o ônibus no qual viajavam foi interceptado por um carro, que surgiu de repente na entrada, forçando uma parada brusca. Já de fora do carro, um deles disse ao motorista: "aqui sem-terra não entra". É claro que o ônibus dos feirantes acabou abrindo passagem, após a chamada da polícia e de negociações que se prolongaram -- estranhamente, dado o absurdo da cena -- por mais de uma hora.   Mas a imagem vergonhosa do fascismo permanece.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

A Rede Globo e a cultura do ódio e da mentira

por Jessé Souza — publicado 27/03/2018 14h58 em CARTA CAPITAL



O conluio Globo e Lava Jato, antes dominante, perde credibilidade a cada dia e a escalada de violência explícita tem a marca do desespero

Hoje em dia não resta nenhuma dúvida ao leitor atento que o Brasil está sendo vítima, desde 2013, de um ataque dirigido pelo capitalismo financeiro internacional na sua ânsia de saquear as riquezas nacionais e se apropriar do trabalho coletivo. Mas este ataque não tem as mesmas consequências em todos os lugares. Daí ser fundamental inquirir pela forma especificamente nacional que este ataque assume.
No Brasil a instituição que incorpora à perfeição o espírito do capital financeiro é a Rede Globo. A mentira tem que ser dita não só como se verdade fosse, mas tem de dar a impressão de ser luta moral e emancipadora. Essa é a sofisticação demoníaca do capital financeiro que a Globo materializa e interpreta tão bem. O ponto essencial é a criminalização da política e das demandas populares com o propósito de legitimar a rapina da população.
A criminalização da política como forma de possibilitar o governo diretamente pelo “mercado” e sua rapina, teve entre nós eficácia inaudita. Nossa elite já havia produzido, com base na construção de uma imprensa venal e na cooptação da inteligência nacional, como denuncio no meu livro A Elite do Atraso, toda uma interpretação preconceituosa do pais como uma raça de vira latas inconfiáveis e corruptos.
O lugar institucional da roubalheira do vira-lata brasileiro seria, no entanto, apenas o Estado patrimonial tornado o mercado, raiz e fonte real de todo roubo, o lugar paradisíaco do trabalho honesto e do empreendedorismo. Todo o ataque da rede globo e da lava jato para criminalizar a política foi grandemente facilitado por este trabalho prévio de distorção da realidade, que literalmente invisibiliza os interesses dos donos do mercado aqui e lá fora.
O outro ponto fundamental nesta estratégia é a suposta superação das demandas por igualdade pelas demandas por diversidade que o capital financeiro internacional defende desde os anos 90. Desse modo se cria não apenas uma divisão artificial nas demandas populares como confere um verniz emancipador ao capitalismo financeiro que, na realidade, passa a poder explorar indistintamente mulheres e homens, negros e brancos, gays e heterossexuais como se defendesse seus interesses. A apropriação da rede globo do assassinato de Marielle Franco mostra as consequências praticas desse engodo.
Mas a Globo não parou por aí. Criminalizou a própria demanda por igualdade que é a maior causa da cultura do ódio que grassa impune no país. A narrativa da Rede Globo, logo depois assumida pela própria Lava Jato, de tratar o PT como “organização criminosa” e de apenas “fulanizar” a corrupção dos outros partidos, significou rebaixar a demanda por igualdade, que o PT representava, de seu caráter de fim para mero meio de assalto ao Estado.
Sem a possibilidade de conferir racionalidade política à raiva justa que se sente pela injustiça social, parte do povo cai nas mãos da raiva e da violência em estado puro representada por Bolsonaro e pela onda de assassinatos políticos que grassa no país. Não ver a relação íntima entre a guerra cultural comandada pela rede globo e o clima de ódio e assassinato de lideranças que se alastra no país é cegueira.
O conluio com a Lava Jato, levando ao Estado de exceção e da suspensão das garantias legais, reforça a sensação de impunidade para a violência e ódio generalizado. O resultado é uma histeria punitivista com moralidade de fachada que promete impunidade para o ódio aberto e assassino. Os ataques com conivência policial à caravana de Lula, o assassinato de líderes do MST no hospital ou a chacina de jovens da periferia são todos consequência da lógica cultural de um capitalismo do saque e da rapina do qual a globo é a expressão máxima entre nós.  A série de José Padilha na Netflix, com padrão global de qualidade, é mais um capítulo dessa distorção monumental da realidade.
O diretor, um boçal com virtuosidade técnica, imagina que compreende o mundo ao chamar de “mecanismo” aquilo que não conhece e nem consegue explicar. Como descaradamente refaz a história com intuito de falseá-la seu oportunismo é leviano e irresponsável. 
Como o conluio Globo e Lava Jato, antes tão dominante, perde credibilidade a cada dia e é percebido crescentemente como braço do neo-colonialismo americano, a escalada de violência explícita tem a marca do desespero e é ai que reside o perigo para toda a sociedade. A batalha no STF adquire importância a partir disso.
A Globo, como o ministro Gilmar Mendes denunciou, tem também, não só a Lava Jato nas mãos, mas a sua própria bancada no STF, punitivista e moralista de fachada como ela. Ainda que os interesses em jogo nesse embate não sejam de todo transparentes, vale a fórmula fundamental de Brizola: na dúvida sobre qualquer tema, escolha o lado contrário da rede globo. 

domingo, 8 de abril de 2018

Lula é a Democracia Brasileira

LULA       LIVRE
                                  LULA        LIVRE
                                                                   LULA 
                                                          LIVRE
LULA       LIVRE
                             BRASIL     LIVRE

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Serenamente dizemos ao lado do povo: 'vai ter luta'

Para: Ao povo brasileiro

Há anos as elites conservadoras acalentam isso que agora estão prestes a impor à nação brasileira: um golpe de Estado para implantar a plena vigência projeto conservador excludente que as urnas rejeitam desde 2002 e a Constituinte de 1988 rechaçou, então, a contrapelo da ascensão neoliberal no mundo.

O que se planeja, à revelia do escrutínio popular, encerra danos duradouros e representa o almejado repto dos mercados à Constituição Cidadã, nunca digerida pelas elites econômicas locais e internacionais.

Inclui-se no repertório dos usurpadores do cargo de uma Presidenta mandatada por 54 milhões de votos, a determinação de restringir ou eliminar direitos sociais, previdenciários e trabalhistas assegurados na Carta magna; desvincular despesas obrigatórias com saúde e educação; dissolver pilares da CLT em nome de um simulacro de livre negociação, sob taxas de desemprego ascendentes; alienar o que restou de patrimônio público, com destaque para o pré-sal e os bancos estatais; revogar políticas indutoras da industrialização, a exemplo do conteúdo nacional, que faz do pré-sal, talvez, o derradeiro e mais consistente impulso industrializante desde Vargas, em termos de potencial tecnológico e de inovação e, o corolário desse assalto ao futuro: escancarar o mais valioso ativo do país, seu mercado interno, em benefício de uma assimétrica agenda de livre comércio, que reserva ao Brasil o papel de sorvedouro da capacidade excedente nos parques manufatureiros globais.

O suposto que isso injetará equilíbrio fiscal e devolverá a inflação ao sacrossanto’ centro da meta’ dissimula o verdadeiro polo gravitacional do golpe: devolver as famílias trabalhadoras e os assalariados em geral, ao posto subalterno que sempre ocuparam na equação econômica excludente do conservadorismo para o país.

Para isso é preciso elidir as urnas e golpear as salvaguardas constitucionais.

Porque são elas, historicamente, que civilizam o mercado, impedem a ganância de impor sua supremacia ao destino dos povos e preservam a sorte das nações da instabilidade intrínseca ao automatismo das manadas capitalistas.

Essa é a essência profunda do movimento golpista que não por acaso unificou os interesses plutocráticos locais e internacionais em abusada investida contra a lei, a ordem democrática e agora se prepara para garrotear os direitos da população.

Quantas instalações fabris, quantas vagas de emprego qualificado, quantas famílias assalariadas sobreviverão ao plano dos guardiões do interesse rentista, que não reservam uma linha sequer ao mais estéril dos gastos públicos: os juros da dívida interna, que este ano consumirão cerca de 8% do PIB, mais de 90% do déficit ou R$ 50 bilhões ao mês?

A sorte da população, desta e das futuras gerações, está em jogo.

A renúncia ao papel do Estado na agenda do desenvolvimento dobra a aposta na racionalidade dos livres mercados. Aquela que desde 2008 submete povos e nações à mais grave e prolongada crise do capitalismo, desde 1929.

A cortina de fumaça do combate à corrupção manejada é apenas isso: um pé de cabra manejado pelo cinismo midiático, encarregado de fraudar e interditar o debate dos verdadeiros –e graves-- desafios da luta pelo desenvolvimento em nosso tempo.

Toda sabotagem ao segundo governo Dilma, desde a virulenta campanha contra a sua reeleição, que prosseguiria após a vitória, praticamente impedindo-a de exercer o mandato –mesmo quando erroneamente cedeu aos mercados em busca de indulgência—visava o desfecho que agora se esboça.

O golpe visa colocar o país de joelhos, incapaz de outro desígnio que não render-se integralmente à lógica segundo a qual, ‘a população brasileira não cabe no orçamento federal feito de arrocho, não de justiça tributária; de recessão, não de crescimento; de penalização dos mais pobres, não de redução da pança rentista.

É contra isso que se luta hoje nas ruas, nas estradas, nas praças, nos locais de trabalho, nas universidades de todo o Brasil

Nós, intelectuais e artistas do Fórum 21 –braço de reflexão e de formulação da frente popular em formação na sociedade— temos a responsabilidade pública de declarar nosso engajamento na resistência em marcha.

Vivemos horas decisivas com o ar empesteado de avisos sombrios ecoados das sombras do golpismo através de seus mensageiros na usina de propaganda midiática.

A grande ponte de acesso dos brasileiros aos direitos da civilização e da democracia social, está prestes a ser interditada. Mas a alma da nação, seus trabalhadores, sua juventude, a classe média democrática, sua inteligência e sua arte resistirão.

Não podemos subestimar o que vem pela frente.

Esgotou-se um capítulo do crescimento brasileiro.

Outro precisa ser construído.

O Fórum 21 conclama seus integrantes, o mundo acadêmico e todos os intelectuais a cerrarem fileira ao lado da democracia nessa empreitada.

Não apenas para resistir à usurpação de um agrupamento ilegítimo e sem voto que se autoproclamou detentor de um poder que a sociedade não lhe concedeu.

Mas para fazer dessa resistência uma ponte de repactuação entre a riqueza e o potencial de nosso país e o potencial e riqueza do nosso povo.

Significa, entre outras coisas, levar a círculos cada vez amplos da população a verdadeira natureza do embate que apenas começa e vai se acirrar.

O embate entre uma sociedade para 30% de sua elite, ou a árdua construção de uma verdadeira democracia social no Brasil.

Serenamente dizemos aos senhores do agrupamento ilegítimo que ora pisoteia a soberania da urna para instalar a lógica da ganância na vida da nação: vai ter luta, porque não trava-la seria renunciar à esperança em nós mesmos, na nossa capacidade de construir um Brasil soberano, próspero e mais justo para os nossos filhos, os filhos e netos que um dia eles terão.

Não temos medo de exercer a cidadania contra a usurpação.

Os integrantes do Fórum 21 já decidiram em qual margem se postarão nesse embate histórico: na dos interesses do povo brasileiro. Engaje-se também nessa luta, apoiando esse manifesto com sua assinatura.



São Paulo, outono de 2016


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A poluição fabrica desequilíbrios


Vivi durante muito tempo no rural. Nasci numa fazenda e lá estive até precisar de me matricular numa escola. Passei, então, a ficar no urbano durante a semana e, às sextas feiras, à tarde, pegava carona em um caminhão e me mandava para a roça. Lá havia ar puro oferecido pelas irmãs árvores, leite no curral, cavalo para galopar, frutas no pomar, verduras e legumes na horta. As vaquinhas eram tratadas com capim no pasto e sal no coxo. As galinhas viviam soltas no grande quintal onde ciscavam suas proteínas e também lhes eram oferecido milho. A comida era feita com gordura suína e os porcos eram alimentados com restos da cozinha e soro do leite desnatado para fazer a manteiga.

Tomei gosto pela ar puro e pela comida orgânica. Tive que me mudar para a cidade grande para sobreviver ao tal mercado de trabalho, mas a mãe-terra me chamava e eu a atendia, morando em chácaras nas cercanias da capital paulista ou da mineira. Tenho 74 anos e saúde.

Percebo, no entanto, cada vez mais perto “o que se faz para a Terra vai para os filhos da Terra”. Estes, sem juízo, estão sofrendo de poluição, a fabricadora de doenças, os desequilíbrios energéticos. As doenças correm a ocupar o espaço da saúde. A poluição do ar – é carro demais, é fábrica demais – impede a respiração necessária aos pulmões. A poluição das águas – as águas, que deveriam ser santas, estão ficando empesteadas – contaminam nossas comidas que ainda recebem os malditos agrotóxicos. A falta de cuidado com as águas deixa abertas as portas para os insetos e começam a intensificar os males que já haviam desaparecidos. A poluição sonora entra pelos ouvidos, machucando os tímpanos, causando surdez e confusão nas cabeças. Os jovens aumentam cada vez mais o volume de seus sons, como se não pudessem suportar o silêncio, pedido pela música.


Toda essa poluição vai fazendo seu caminho nos corpos e nas almas. A paz, tranquilidade, necessárias à criatividade, à arte, estão escassas e o homem se perde sem o belo da arte. O belo da natureza, muitas vezes, já se foi, desrespeitado pela poluição. Aparecem os sentimentos contrários à paz e há uma alimentação do ódio, da ganância, da intolerância, fábrica das doenças O homem se perde  no meio poluído. 

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O arco-íris do fundo do mar da África (1)



     Era uma vez, no fundo do mar que banha a África, uns peixinhos coloridos brincavam de
 arco-íris. Os peixinhos vermelhos formavam uma fila, que logo era acompanhada pela fila
 dos peixinhos cor de laranja, seguida pela dos amarelinhos, depois pela dos branquinhos,
 tendo os roxinhos se posicionado do outro lado dos vermelhinhos, seguidos de outros de 
outras cores até formarem um verdadeiro arco-íris. Ficavam horas nessa linda brincadeira. 
Como era no fundo do Oceano, ninguém os via, mas um cavalo marinho, muito curioso,
 se escondia atrás de uma alga gigante para se deliciar com aquela lindeza.

Numa praia não muito distante dali, um menino construía uma casa na areia. Era uma 
criança de cerca de 10 anos, magra, alta para sua idade, rosto triste, cujos olhos 
desmentiam a tristeza e brilhavam denunciando grandes sonhos. Ouviu um barulho, 
a cabeça e viu seu pai puxando uma grande canoa para o mar. Largou a casa de areia,
 correu para ajudar o homem e, quando a canoa já deslizava na água, os dois pularam 
dentro e a boca do Betinho já quase sorria, acompanhando a do pai que se arreganhava de 
prazer olhando a agilidade do filho.

Zé da Fiica era pescador, um homem de seus 40 anos que conservava o apelido dos seus sete,
 quando, na escola, para distinguir dos outros cinco Zés, a professora, ao apresentá-lo para
 os demais colegas, disse:

-  Este é o Zé, filho da D. Fiica. – Num uníssono o fundo da sala gritou:

- Senta aqui, Zé da Fiica. – O apelido pegou e ficou. D. Fiica morreu, o Zé cresceu, virou
 pescador dos grandes, casou-se, teve cinco filhos e continua Zé da Fiica.

- Obrigado pela ajuda – o pai foi logo falando -. Agora, volta para sua mãe não morrer de
 preocupação e depois me receber com olhos de brasa e nada de beijo. – Betinho deu de
 ombros e ficou como que ignorando a ordem. Zé fechou a cara e disse:

- Vou jogar um menino teimoso no mar. Anda logo se não vai ter que nadar muito, 
já estamos distanciando da praia. – O menino fingindo esforço para não rir, respondeu:

- Mãe sabe. Quando cheguei da aula, falei pra ela que a professora não passou lição e 
ela deixou eu ir pescar com o senhor. – Aí sim riu com gosto da cara do pai. Os dois entraram
 no silêncio da confiança. Betinho era quarto filho, o mais parecido no gênio com o pai. 
Fisicamente era a cara da mãe, mas a alma era filha do pai. Um gostava de estar na 
companhia do outro e não precisavam de muitas palavras.

Chegaram em um determinado lugar, já distante da praia. Zé desligou o motor, pegou 
o remo e ajudou a canoa a deslizar mais alguns metros, então jogou a âncora. Olhou para
 o filho e disse:

- Se quer mergulhar, vai já pra não ficar debaixo d’água depois de escurecer. – Betinho tirou
 a roupa, ficando só com a cueca, pulou na água e sumiu. – Zé ficou meio tenso e pensou alto:

- Que mãe Iemanjá proteja meu filho e não deixe ele ter a dor lá embaixo. 

– Sempre que  Betinho o acompanhava, vivia aquela dolorosa contradição.

 O filho gostava de nadar, mergulhar, sentir-se livre, integrado à imensidade
do mar. Zé sabia o valor da  liberdade – a história de seus antepassados, vendidos
 como escravos, era sua conhecida e  servia de  fundo para seus pesadelos – por outro
lado, o filho tinha umas dores que o transtornavam e elas vinham a qualquer
 momento. Havia, na escola, outras crianças com essas dores e ninguém
sabia curá-las.

Betinho conhecia bem o caminho para achar o cavalo marinho, seu amigo e companheiro
 de apreciar a lindeza daquele arco-íris do fundo do mar. Seu coração batia totalmente
 descompassado. Sua cabecinha temia não encontrar o amigo e não parava de se perguntar:

– Será que o cavalinho está me esperando? Será que está pensando que não venho mais? 
Faz três dias que não apareço... – Pensava com angústia. Ele não se preocupava com a
 respiração. (Ás vezes, Betinho achava que, se quisesse, podia respirava água e já esteve muito
 tentado a experimentar, mas sua mãe ficava muito brava quando acontecia alguma coisa
 com ele e “o pai não ganhava beijo”). Betinho gostava de, às escondidas, ver seu pai jogar
 olhar de bobo pra sua mãe. Era só isto acontecer e sua mãe corria pra se sentar no colo do
 pai e, aí, Betinho, encabulado com vergonha de estar olhando, virada a carinha e saia rindo,
 quietinho para ninguém desconfiar.

Betinho chegou atrás da alga gigante e encostou o dedo indicador na barriga do cavalo
 marinho que se enroscou dando as boas-vindas ao amigo. O arco-íris estava mesmo uma beleza
 e os peixinhos – sabiam que estavam sendo observados? – começaram uma dança lenta,
 ritmada, cuidadosa para não desmanchar a composição das cores, afinal eles eram o 
arco-íris! Betinho ficou de queixo caído e quase fez a experiência sem querer, pois abriu a boca 
que, é claro, ficou cheia de água salgada. Tentava cuspir, porém só pôde evitar engolir. Teve
 mesmo que subir à tona para respirar, pensando que os peixinhos podiam achar ruim com ele
 e irem embora. Respirou, armazenando o máximo de ar que seus pequenos pulmões 
suportavam e mergulhou de novo, sem nem ver a canoa do pai.

Chegando lá embaixo, percebeu que o arco-íris estava se desmanchando e os peixinhos
 tomavam várias direções. Ficou intrigado e chamou, com um gesto enfático, seu amigo, o
 cavalinho, para um papo na superfície. 

O cavalo marinho contou que os peixinhos não eram daquelas águas. Moravam em lugares
 distantes e diferentes. Um dia, um deles percebeu que havia no oceano peixinhos de várias
 cores e vários lugares. Ele começou a nadar por onde não era seu costume e foi encontrando
 os peixinhos azuis, vermelhos, amarelos. Depois de algum tempo, ele já conhecia muitos deles, 
então, marcou com eles um ponto de encontro e deu início à troca de experiências e de sonhos.
 A dança do arco-íris foi um desafio que um peixinho branquinho, que se julgava muito sem
 graça, fez para todos. Ensaiaram durante muito tempo. Chegaram a quase desistir, pois erravam muito, não sabiam a própria cor e entravam em filas erradas. Alguns moravam muito longe e chegavam cansados, outros não conseguiam acertar o ponto de encontro e se perdiam. Foram resolvendo os problemas um a um. 

O peixinho desafiante chegou a consultar uma velha baleia que demorou para ouvir a voz

 fraquinha do pequenino e até entender os problemas foi outro tempo. Como todos estavam interessados em executar o arco-íris, a  velha  baleia se sentiu também desafiada a mostrar seus conhecimentos, tiveram muita paciência e perseverança.
 A conselheira indicou outras criaturas  do mar que, com suas diferentes especialidades,
podiam colaborar nos mais diversos obstáculos.

 Assim, com a ajuda de muitos, os peixinhos conseguiram, enfim, definirem a coreografia e os
 ensaios passaram a ser diários. Daí, outro problema surgiu,  houve um acidente e vários
peixinhos morreram. Nesse momento, até o branquinho fraquejou, achando que deveria retirar o desafio, não valia a pena tanto esforço.

 A velha baleia, na sua sabedoria vivida, perguntou:
- Não vale a pena o quê? Vocês vão parar de se esforçar para  ver seu sonho virar verdade e
 vão fazer o quê? Vão voltar a ter sua vidinha sem graça? Se é isto que preferem, então, fiquem
 em suas tocas. Vou dar minha sabedoria para quem merece, para quem queira nadar pra 
frente e ver coisas novas e belas.

- Todos foram embora, bem murchinhos. 


No dia seguinte, sem qualquer combinação e uma hora antes do horário de costume dos ensaios,

os peixinhos foram chegando e se posicionando  sem que alguém desse um pio. Foi o primeiro
 ensaio geral.
Depois foi só beleza. Todos os dias  o fundo do mar apresenta o espetáculo que maravilha seus habitantes e os deixa felizes.

Chegou o instante de a  velha baleia  partir para seu lugar de repouso e o grupo dos peixinhos
 mais  todos aqueles que ajudaram na solução dos vários problemas se juntaram para a despedida
 da grande conselheira. 

O cavalo marinho terminou dizendo:
- Isto aconteceu há alguns bons anos. Meu avô foi quem me contou e me passou o lugar de onde
 eu assisto a todos os arco-íris do fundo do mar.

- Betinho, comovido, agradeceu ao amigo a bela estória e foi nadando para a canoa que
 continuava no mesmo lugar. Lá chegando, encontrou o pai sentado, suado e a seus pés um peixe bastante grande para acabar com a pesca daquela noite.

O pai contou o trabalho que teve  e concluiu que era hora de encerrar a pescaria. Voltaram em
 silêncio até que Zé da Fiica quis saber o que havia perturbado tanto o filho.

- Conta o que aconteceu. Você parece que viu uma sereia.

 – O menino contou e perguntou:
- Pai, será que se agente procurar uma velha baleia ela não ensinaria como tirar minhas dores?

 – A que Zé respondeu:
- Se vamos achar uma velha baleia não sei, mas acabo de saber que devemos procurar. Vamos achar quem tenha a sabedoria da velha baleia e queira nos ajudar. Com certeza , vamos precisar de
 muitas pessoas com seus diferentes saberes. Vamos achar.

– Comovido, puxou Betinho para seu colo e lhe deu um beijo na cabeça.







(1) Esta estorinha foi contada pela coordenadora do projeto ANINHA, a médica pesquisadora 
Milza Cintra Januário, durante a comemoração dos 25 anos da Associação de Pessoas com 
Doença Falciforme, em Belo Horizonte, MG.  O ANINHA - um exemplo de trabalho, 
envolvendo pesquisa, assistência e muita humanização, trata de gestantes com DF
e  é um filhote do Centro de Educação e Apoio para Hemoglobinopatias, cujo responsável
é o médico Dr Jose Nelio Januário. O Cehmod já é referência internacional, embora pouco conhecido no nosso País. Sua origem é uma parceria entre o Nupad e a Hemominas.
 O primeiro é o programa de triagem neonatal de Minas Gerais. Faz o teste do pezinho, 
que  diagnostica os bebês nascidos com doença falciforme (DF). Trata-se de doença 
genética, portanto, incurável. Cursa com várias alterações que promovem durante a 
vida da pessoa, situações muito difíceis. Em geral, é detectada em negros (a doença veio 
da África), mas pela miscigenação há pacientes de várias etnias. A dor (crise álgica) é
 terrível para quase todos os pacientes.Muitos chegam a desejar a morte. Como a 
doença ainda não é conhecida em sua totalidade pela equipe de saúde (tão pouco pela sociedade), nem sempre esta dor é valorizada, somente quem está muito perto consegue mensurá-la. Para conhecer esse trabalho, visite: www.cehmob.org.br .







sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Por uma esquerda capaz de disputar a subjetividade

170208-Munch
Neoliberais acenam com empreendedorismo e competição. Direita propõe restaurar projetos autoritários e xenófobos. Que nos cabe: exaltar, nostálgicos, a imagem do trabalhador?

Tatiana Roque,

Meritocracia e empreendedorismo são as palavras da moda, com todo o léxico que as acompanha: capacitação, coaching, diferenciação, profiling e por aí vai. Ideias e valores derivados dos princípios da concorrência que estruturam o projeto neoliberal. Sabemos que o neoliberalismo não se reduz a um sistema econômico. Em escala pouco visível, atuam mecanismos para instalar a concorrência em todas as relações sociais e, por isso, as subjetividades viraram alvos do governo neoliberal. Governar não significa apenas deter o poder político, significa organizar, facilitar e estimular a concorrência nos mais diversos âmbitos da vida social, como resume Foucault¹ .

Todo esse projeto, que parecia viver seu auge nos anos 1990, está em crise. Ainda assim, o tipo subjetivo que o sustenta – o empreendedor de si – permanece surpreendentemente sedutor. Além de bastante difundido, trata-se de um tipo subjetivo que facilita a adesão às formas de sociabilidade contemporâneas, fundadas na concorrência e no sucesso individual. No momento de crise em que estamos vivendo, a solução neoliberal para manter a hegemonia é tentar um passo adiante, explorando as fragilidades do estado de bem-estar social e buscando submeter todas as suas instituições à lógica da concorrência. Pierre Dardot e Christian Laval² sugerem que essa ofensiva visa os instrumentos que tornavam possível – até aqui – alguma sobrevida livre de concorrência, como os serviços públicos e a aposentadoria. O sucesso da empreitada depende da capacidade das formas de governo neoliberais para continuar convencendo a população que o empreendedor de si é atraente, bem como são suportáveis as relações sociais que o sustentam. Nessa dimensão se dará a disputa de corações e mentes. Por não estar sendo capaz de enfrentar essa disputa no terreno das subjetividades, a esquerda não tem conseguido adesão às suas propostas. Logo, a tarefa mais urgente para um novo projeto de esquerda será propor modos de vida alternativos à subjetividade empreendedora fundada na concorrência. Precisamos calibrar as lentes, focar nas subjetividades e buscar figuras capazes de substituir o self empreendedor, elemento-chave da racionalidade neoliberal.

Empreendedorismo é um modo de gestão social que mobiliza desde os empresários propriamente ditos até o setor de serviços e a economia informal, ou seja, enseja modos de vida que tocam a maior parte dos trabalhadores atualmente. Quando Jessé de Souza traça os perfis do novo “batalhador brasileiro”, inclui o batalhador do microcrédito, a empreendedora que vende doces e quitutes, as redes informais, o feirante, a família ampliada e a igreja neopentecostal³.  Uma grande parcela dos antigos assalariados, moradores de periferias, dedica-se hoje a um pequeno negócio, como lanchonete, corte e costura, salão de cabeleireiro ou oficina mecânica. A maior parte dessa população empreendedora atribui qualquer melhoria de vida ao esforço pessoal e quem ainda não tem seu próprio negócio, gostaria de ter4.  Das grandes corporações às igrejas neopentecostais, é a subjetivação empreendedora que mobiliza o engajamento. A ética da empresa – a partir da qual as pessoas se autogovernam no neoliberalismo – não envolve somente a competição, mas também exalta a autoestima, o pensamento positivo, a luta pelo sucesso, as habilidades pessoais, o vigor e a polivalência. Por isso, engloba todas as esferas da vida, desde o casamento, os filhos e os amigos até a família ampliada das igrejas – todos participam do networking necessário ao sucesso dos negócios. Mas nem tudo são flores. A conta não tarda a chegar, pois o self empreendedor sobrecarrega o indivíduo, que deve ser o único responsável por todos os riscos, tendo que assumir sozinho a culpa quando não consegue garantir o básico para si e seus próximos. O endividamento crescente só aumenta a culpabilização, gerando uma insatisfação cada vez maior com os dispositivos de subjetivação neoliberal. Os ideais de emancipação, mobilidade e liberdade, prometidos nos anos 1990, foram desmascarados pela multiplicação de sujeitos endividados; e a subjetivação neoliberal deu lugar à Fábrica do Homem Endividado 5.

Diante da falência de perspectivas, qual a alternativa proposta pela esquerda? A direita estilo-Trump acena com a restauração dos projetos nacionais autoritários, cujos modos de subjetivação – centrados no macho-adulto-branco – são velhos conhecidos. Enquanto isso, na esquerda, aprofunda-se a dicotomia entre as lutas identitárias e classistas. A única figura subjetiva invocada sem hesitação nos projetos de esquerda é a do trabalhador. Mas essa figura está em crise, devido às transformações profundas do mundo do trabalho. O crescimento do setor de serviços faz com que a figura do trabalhador se aproxime do empreendedor. Além disso, o pacto do bem-estar social, que sustentava o mundo do trabalho, está se dissolvendo em escala mundial. Seus termos fundadores dependiam da separação entre as esferas da produção e da reprodução da força de trabalho: era preciso garantir condições mínimas de existência ao trabalhador para que fosse possível extrair valor de sua produção na fábrica. Como manter um pacto desse tipo diante das configurações atuais do mundo do trabalho? Trabalho que vem sendo expandido para diferentes âmbitos da existência, com um papel cada vez mais preponderante de todas as esferas da vida nas relações de trabalho, como mostram o setor de serviços e a economia do conhecimento. Em todos esses casos, para continuarem produtivas, as pessoas precisam realizar um investimento contínuo sobre si mesmas, precisam empreender-se. Só que esse esforço já não traz o retorno necessário, levando à descrença e à depressão. Num ambiente social degradado, são os valores reacionários que têm conseguido suplantar a fragilização institucional generalizada. São justamente as mudanças no mundo do trabalho que explicam o crescimento das religiões neopentecostais; a cegueira das esquerdas para compreender o avanço dessas religiões só confirma sua dificuldade em recolocar o problema do trabalho no mundo atual.

Insistir na figura do trabalhador não fornecerá o elã subjetivo necessário para que novas pessoas possam aderir aos projetos da esquerda. Por isso, mesmo com todos os riscos que implica, a figura do empreendedor segue tendo mais apelo, mesmo nas classes populares. Que modos de vida, que suplantem a promessa desgastada de um trabalho assalariado na fábrica, conseguirão mobilizar corações e mentes? Que perspectivas de emancipação serão capazes de nos tirar do impasse atual? Sem enfrentar essa disputa no terreno das subjetividades, a esquerda continuará perdendo, mesmo reiterando a denúncia da dissolução dos ideais de universalidade, igualdade e justiça. Calibrar as lentes e enxergar o problema na escala das subjetividades é um passo incontornável para qualquer projeto

Tatiana Roque é professora de filosofia na UFRJ

Fonte: Outras Palavras, Publicado inicialmente em Le Monde Diplomatique | Imagem: Edvard Munch, Trabalhadores na Neve (1913)

1 Nascimento da Biopolítica. Martins Fontes, 2008. Aulas de 14, 21 e 28 de março de 1979.
2 A Nova Razão do Mundo. Boitempo, 2016.
3 Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora? Editora UFMG, 2010.
4 Indicam pesquisas, como a citada em:
https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2016/11/01/Como-a-substitui%C3%A7%C3%A3o-do-%E2%80%98trabalhador%E2%80%99-pelo-%E2%80%98empreendedor%E2%80%99-afeta-a-esquerda
5 Título de um livro de Maurizio Lazzarato disponível em francês: La fabrique de l’homme endetté: Essai sur la condition néolibérale. Éditions Amsterdam, 2011.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Aonde vamos parar?

Mino Carta
Diego Padgurschi/Folhapress


O destino do Brasil depende da Lava Jato, ao menos de imediato. É dependência pior que incômoda. Ao contrário do que trombeteou a propaganda da mídia nativa, a República de Curitiba não veio para erradicar a corrupção, e sim para demolir um partido e um setor industrial vital para o País.

Projeto bem-sucedido, e a gravidade maior da situação criada está na paralisação de empresas até ontem fundamentais. Em momento algum se cogitou de salvá-las, sem deixar, está claro, de punir os culpados.

No Brasil, a corrupção é endêmica. Os governos tornaram-se reféns do poderio das empreiteiras, ao sabor da antiga regra pela qual “é dando que se recebe”, desde o mandato de Juscelino Kubitschek. A ditadura não deixou por menos, bem como os governos da chamada redemocratização, proclamada em um país que nunca foi democrático, sempre e sempre domínio da casa-grande, ressalvada a ousada tentativa de Lula para romper o círculo mágico de uma hegemonia de 500 anos.

As empreiteiras foram avalistas do poder, o que é evidência acessível até ao mundo mineral, e da mesma forma é a corrupção na Petrobras, também decisiva para o desenvolvimento do País, onde começa no tempo do ditador Ernesto Geisel.

Foi ele quem entregou a empresa petrolífera estatal a um predador chamado Shigeaki Ueki, o qual cobrava 1 dólar sobre cada barril produzido ou comprado, em proveito dos seus próprios bolsos. Isso é também do conhecimento do mundo mineral, conquanto caiba admitir que quartzo e feldspato dispõem de memória mais apurada, sem contar a total ausência de hipocrisia, da maioria dos integrantes da sociedade nativa. E, ao dizer sociedade, excluo o povo que vive no limbo.

Aos tucanos foi reservado um tratamento especial. Há uma lógica na operação: o PSDB é perfeito representante e intérprete dos interesses da casa-grande, haja vista, por exemplo, o comportamento do chanceler José Serra.

O governo de Fernando Henrique Cardoso foi o mais corrupto de todos os tempos, tudo indica, entretanto, que até aí a República de Curitiba não chega, ou o faz com extrema cautela, na ponta dos pés. Uma foto recente, a colher Sergio Moro e o delatado Aécio Neves a se rirem em amistosa sintonia às costas de Michel Temer, deslumbrou os crédulos e os espertos, embora justificasse espanto.

O juiz Moro, de todo modo, cumpriu sua missão com empenho total e a assessoria de especialistas eméritos, como CIA, FBI e DEA, por cujos escritórios o nosso herói circula mensalmente. E não esqueçamos o desempenho, também missionário, de um grupo de promotores milenaristas, discípulos de Pedro, o Eremita, a pregar cruzadas de inspiração divina. A atuação da turba acusadora é exemplar da penúria intelectual destes nossos tristes trópicos, como diria Lévi-Strauss.

Uma estranha contradição, a seu modo cômica, emerge da Lava Jato, por tempo largo a contribuir para o cerco a Dilma Rousseff e ao PT e agora a colocar em campos opostos os golpistas de 2016. Trata-se de um conflito anunciado, de desfecho imprevisível e certamente de efeitos deletérios, quaisquer forem. Quem é contra e quem é a favor da Lava Jato? Fácil identificar muitos dos envolvidos, de um lado e de outro, sem exclusão de Gilmar Mendes e Rodrigo Janot, cujas posições transcendem o óbvio.

Ambígua a mídia, em cima do muro, pronta apenas a engrandecer tudo quanto prejudica Lula e seu partido. Em meio ao combate, que haveria de ser surdo e não é, pois seus ruídos transbordam, Temer vai em frente com os programas nefastos desejados pela casa-grande, mas não dissipa a incógnita: aonde vamos acabar? A risco todos os envolvidos, e a primeira vítima é o Brasil.

Sabemos que o propósito final da Lava Jato é eliminar Lula da corrida presidencial de 2018, e este objetivo reúne todos aqueles que se digladiam pelo poder. Condenar o ex-presidente por ser dono de um apartamento que não lhe pertence, como está fartamente provado, talvez fosse estopim de agitação social. Decerto, seria a prova definitiva de que no Brasil a Justiça não existe.

Fonte: Carta Capital

domingo, 29 de janeiro de 2017

Paulo Kliass: Trump, Temer e o Itamaraty


Wilson Dias/Agência Brasil
   
Um dos principais instrumentos programáticos utilizados para legitimar a operação do golpeachment foi o documento “Ponte para o Futuro”, elaborado pela Fundação Ulysses Guimarães, vinculada ao PMDB. O material foi divulgado em outubro de 2015, em operação coordenada pelo presidente da entidade e amigo pessoal de Temer, Wellington Moreira Franco.

Consumada a deposição inconstitucional e ilegítima de Dilma, o responsável pelo texto foi convidado para ocupar uma Secretaria toda especial no interior da Presidência da República. Ficou encarregado pelo programa de parcerias para investimentos com o setor privado, com o objetivo de levar adiante os processos de privatização e concessão de toda a parte da infraestrutura do País. Nunca é demais lembrar que pesa contra ele um conjunto de denúncias e processos de corrupção contra o político carioca, inclusive no âmbito da Operação Lava Jato.

As propostas ali contidas compõem um verdadeiro programa de governo, com sugestões que apontavam exatamente na direção contrário do que havia sido defendido pela candidata que venceu as eleições naquele mesmo mês. Em todas as áreas que abordava, os parágrafos da “Ponte” refletiam o pensamento da direita conservadora tupiniquim, com diagnósticos e proposições a respeito da política econômica, dos programas sociais, das reformas (previdenciária e trabalhista, entre outras) e também da política externa.

A ponte vira pinguela


As pinceladas que Moreira Franco oferecia como alternativas estratégicas para o Itamaraty significariam uma ruptura significativa com o que vinha sendo implementado em termos de relações externas desde 2003. Isso implicava a reorientação das articulações Sul-Sul, o abandono do fortalecimento do Mercosul e das iniciativas no âmbito da América Latina, o bombardeio das articulações em torno dos BRICS. Enfim, tratava-se de uma mudança drástica na performance de um projeto de Itamaraty dinâmico, em busca de um maior protagonismo e autonomia do Brasil no cenário internacional. De acordo com tal leitura tacanha, o caminho passava por colocar abaixo tudo o que havia sido realizada durante os governos de Lula e Dilma. Afinal, aquilo não teria passado de aventura populista e bolivariana.

E assim foi feito. A indicação do senador tucano José Serra para ocupar o posto de chanceler atendeu exatamente a esse propósito. Temer consolidou uma aliança estratégica com o PSDB e nomeou dirigentes e simpatizantes desse partido para cargos de relevância em seu governo. A concentração de poderes no Ministério das Relações Exteriores veio com a transferência da área de comercio externo para essa pasta, retirando tal atribuição e respectivas instituições da área do Ministério da Indústria e Comércio. Por outro lado, a ascendência de Serra sobre Temer lhe confere autonomia para promover o enorme desastre que vem caracterizando sua gestão até o momento.

A diretriz mais geral de sua orientação pode ser resumida no binômio liberalização-submissão. A obsessão desse setor do financismo com o desmonte do Estado e a implantação de um reino idealizado de um liberalismo impossível é a marca do Itamaraty sob nova direção. Além disso, a necessidade de fazer “tabula rasa” da administração anterior destrói as articulações protagonizadas pelo Brasil no cenário internacional e estabelece a diretriz da sujeição passiva à política externa norte-americana e demais atores do centro do capitalismo contemporâneo. Essa foi a recomendação para esvaziar a presença de nosso País como fator agregador do Mercosul e também como agente importante no âmbito dos BRICS.

Trump prega peça nos adeptos da submissão

Não bastasse a irresponsabilidade de levar a cabo tais medidas sem nenhuma discussão mais ampla na sociedade, faltou aos dirigentes recém chegados uma avaliação a respeito dos cenários futuros. Por exemplo, introduzir a variável relativa às realização das eleições presidenciais nos Estados Unidos e a eventual vitória de Donald Trump. O fato concreto é que os resultados daquele pleito e a recente posse no novo inquilino da Casa Branca deixam o Ministro do Itamaraty e a estratégia do governo de brocha na mão. Foi retirada a escada de uma aliança com os democratas ianques e as mudanças anunciadas pela nova direita radical por lá vêm recheadas de muito protecionismo e bastante nacionalismo.

O governo por aqui tenta passar a imagem de que as mudanças ocorridas em Washington não comprometem em nada a estratégia de Serra. Pelo contrário, alguns analistas mudam o foco e chamam a atenção para as oportunidades que se apresentariam para o Brasil, caso Trump consiga mesmo convencer o Congresso e a sociedade norte-americana a respeito das supostas vantagens desse verdadeiro passo atrás no protagonismo histórico de seu País na cena comercial internacional.

O milionário presidente radicalizou seu discurso de campanha e começa a anunciar medidas mais duras, a exemplo do muro a fronteira com o México, da redução das medidas no âmbito do NAFTA e polêmico Decreto retirando seu país do protagonismo do Acordo Comercial Transpacífico (TPP). É forçoso reconhecer que tais iniciativas podem realmente trazer benefícios indiretos para a própria economia brasileira, em função do vácuo gerado por essa postura mais defensiva dos Estados Unidos nas relações econômicas internacionais.

No entanto, a situação é totalmente outra quando se discute a questão da estratégia brasileira de inserção diplomática e sua política de alianças no plano global. A intenção de se colar na traseira dos Estados Unidos para servir como farol de orientação não tem mais como prosseguir. O cavalo de pau que vem sendo colocado em ação na política externa tradicional dos EUA desestrutura o desejo de uma orientação marcada pela submissão aos desejos daquele país. O sonho conservador de parcela de nossas elites entreguistas, em perfeita sintonia com a nata intelectual do tucanato, ruiu depois da posse do novo presidente em 20 de janeiro.

O Itamaraty deverá redefinir sua estratégia de forma urgente, pois o Brasil continuará a ser solicitado a contribuir com uma maior presença e intervenção na cena internacional. A postura passiva, retraída e de lambe botas dos desejos de Washington não mais bastará. Deverá ser retomada a iniciativa de articulação regional com nossos vizinhos e parceiros. Será necessária uma retomada de nosso protagonismo mais geral no espaço mundial, uma vez que ganham relevância os “novos” atores como a Rússia e a China.

Itamaraty necessita de rumos


Assim, soam cada vez mais vazias de sentido as palavras no interior do documento do PMDB, ao ponto que até mesmo o aliado de todas as horas não se conteve em desqualificar. Sim, pois até o ex-presidente Fernando Henrique reconheceu que o atual governo está mais uma pinguela do que para ponte. Vejamos aqui o que diz o parágrafo dedicado à política externa:

(...) “o Estado deve cooperar com o setor privado na abertura dos mercados externos, buscando com sinceridade o maior número possível de alianças ou parcerias regionais, que incluam, além da redução de tarifas, a convergência de normas, na forma das parcerias que estão sendo negociadas na Ásia e no Atlântico Norte” (...) [GN]

O discurso oficial de Temer é que as inciativas do Estado só atrapalham a suposta maior eficiência do capital privado. Tanto que a equipe econômica trabalha pelo desmonte de toda e qualquer presença pública na economia, em nome da supremacia do mercado. Por outro lado, o sonho liberal de promover uma amálgama com o principal agente do Atlântico Norte se revelou um verdadeiro devaneio de uma noite de verão. Ao contrário do que é apregoado por nossos liberais de botequim, a recuperação do setor exportador brasileiro passa, sim, por um maior protagonismo do governo federal no assunto. E a busca de uma intervenção no cenário de multilateralismo será uma exigência da realidade internacional, com a redução da presença norte-americana.

A novidade proporcionada pela entrada em cena de Trump choca o mundo inteiro. Desde seus vizinhos México e Canadá até os distantes países do Oriente. Desde os antigos parceiros da União Europeia até as indefinições relacionadas à Rússia e à China. O Brasil aguarda uma autocrítica de Temer e Serra, bem como a necessária redefinição da estratégia de inserção internacional do Brasil.

* Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal.

Fonte: O Vermelho