Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade
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domingo, 21 de junho de 2020

Em tempo de pandemia... eles se encontraram.




Morava em uma pequena cidade do interior paulista. Era o terceiro filho de um casal de comerciantes. Os seus 10 anos foram comemorados junto com o nascimento da irmã caçula que, a partir de então, lhe roubou todas as festas e muito mais. Havia momentos em que pensava como faria para sufocá-la. Perdia-se em fantasias tenebrosas.  Trocava o travesseiro – viu um filme em que o ladrão matou a dona da casa com uma almofada – pelo cobertor, depois voltava porque já havia a experiência bem-sucedida do ladrão e ninguém viu, nem ouviu. No dia em que Betinha completou dois anos, ela estava dormindo depois do almoço. Todos da casa preparavam, na cozinha, a festa para mais tarde, com os enfeites e a toalha da mesa cor de rosa. Maurício sentindo muita raiva, decidiu que sua irmã precisava desaparecer imediatamente. Iria perder a comemoração do seu aniversário, mas já não tinha mesmo festa. Era tudo para ela, a gracinha da família.  Foi até a cozinha verificar se estavam mesmo todos lá. Conferida a situação, passou pela sala, pegou uma almofada e subiu para o quarto onde dormia a queridinha da mamãe.

Quando se debruçou no berço, Betinha acordou, olhou para ele e sorriu, levando as duas mãozinhas no rosto do irmão à guisa de carinho. Ela puxou o cabelo dele e ria, gargalhava vendo-o todo despenteado. Ele a pegou no colo, esqueceu de seu propósito – que propósito? - e começou a rodopiar com ela.

Maurício estava no seu quarto, na pensão onde morava, há quatro anos. Escolhera o bairro Butantã por estar perto da USP, estuda lá, terminara o curso de filosofia. Ficou querendo entender o motivo de aquela cena vir à sua cabeça, após tantos anos. A terapia já dera conta de mostrar que ele não era um assassino. Até riu lembrando-se da cena que montara no psicodrama e da farra que Belinha fez quando soube.

Formara-se em dezembro, seu pai foi o único que pôde vir. Os dois foram juntos para casa e depois de um mês de férias, Maurício voltou para continuar as aulas que dava num cursinho e começar o mestrado.

Agora, estava preso naquela casa sem poder dar, nem ter aulas. A quarentena o pegou de calças curtas. Não estava preparado para ficar no isolamento. A pensão lhe fornecia o café da manhã, mas as outras refeições ele as fazia na Universidade. A dona da pensão lhe avisou que iria para a casa da filha e falou que a moça da limpeza ficaria na casa e continuaria a lhe dar o café, mas somente na primeira semana. Então, ele já não tinha nem mais o café, mas a cozinha estava à sua disposição. Grande ironia! Não sabia sequer fritar um ovo. 

Nos três primeiros dias, foi até a padaria e comprou pão e queijo que passaram a ser suas refeições. No quarto dia, seu estômago avisou que não aceitaria mais os dois ingredientes. Ainda titubeou, pois não sabia cozinhar, mas resolveu ir ao supermercado para comprar comida congelada. Ao ver os preços, teve um choque, seu dinheiro não daria para comer durante uma semana. Pensou em frutas e salada. Novo choque, as frutas competiam com os congelados. Comprou arroz, feijão, ovos e alguns legumes. Entre triste e irritado foi para casa. 

No caminho, ao passar por uma pracinha, tropeçou, caiu e suas sacolas com todas as compras se espalharam. Soltou um palavrão e ouviu uma vozinha gritar: - Ih! Não pode dizer nome feio. – Ainda sentado devido ao tombo, viu um garoto vindo em sua direção e logo começar a devolver tudo às sacolas. Quando estava com todas as compras dentro novamente, agradeceu a ajuda e, só então, olhou direito para o menino e viu que estivera chorando. Estava com roupas bem usadas, mas limpinhas.

- Que idade você tem?
- Já tenho 12 anos – Maurício repetiu: - 12 anos, a idade da Betinha, minha irmã caçula. – Pensou que agora sabia porque acordara se lembrando da maledeta cena. 
- Qual o seu nome?
- Marcos.
- O meu é Maurício. Muito prazer, Marcos.
- Muito prazer, Maurício.
- Por que estava chorando?
- Minha mãe foi levada para o hospital. – Maurício ficou assustado e fez um esforço para se lembrar de onde o menino havia colocado a mão e também se afastou um pouco, embora estivesse com máscara e luvas.
- Você mora com quem mais? Seu pai?
- Não. Só moro com minha mãe. Vim para a praça porque fiquei com medo de ficar sozinho. Minha mãe não me deixa sair de casa, nem para ir à escola. Ela diz que é perigoso pegar uma doença feia, mais feia que o Bozo.

Maurício achou graça e perguntou se ele se referia ao palhaço e o menino muito sério respondeu: 
- Não. O tal que roubou tudo dos empregados. Mãe disse que ficou sem emprego por causa dele. Não gosta de gente que nem nós. Também não gosta de mulher, nem de boiola, nem de preto, nem de índio. Você é boiola?
- Não. - Num impulso, Maurício chamou: - vem comigo. Você sabe cozinhar?
- Sei fazer arroz.
- É mesmo?! Então vamos logo porque estou morrendo de fome e você vai me ensinar a fazer arroz.  

Foram andando e Marcos quis ajudar a levar as sacolas, mas Maurício agradeceu. Ele já estava achando que se deixara levar pela fome e não sabia o que fazer com o menino, cuja mãe podia estar com o Corona vírus. Na medida em que andava, ia pensando em como sair daquela situação. Percebeu que não conseguiria retirar o convite e deixar o menino ao deus dará. Ele próprio estava com muita fome, sabia que Marcos deveria também estar. Ao chegar na pensão, retirou o sapato e pediu para seu companheiro fazer o mesmo. Deixou as sacolas na entrada e foram ambos para o banheiro no apartamento onde Maurício morava. Lá tirou a roupa que separou e fez o garoto também ficar nu e entrar para debaixo do chuveiro. Pegou uma camiseta sua e deu para ele se vestir.

Foram para a cozinha. Parece que o menino sabia mesmo fazer arroz e, como não alcançava o fogão, foi dando a receita e Maurício fazendo. Enquanto o arroz cozinhava, trocaram ideias de como poderiam comer os ovos. Chegaram ao consenso de que o mais fácil era cozinhá-los. Maurício colocou a água no fogo com meia dúzia de ovos.  A fome era grande demais, comeram uma banana cada um e um copo de leite.

Com a fome um pouco aplacada, Maurício foi lavar as roupas do menino. Contente por saber como fazer já que suas roupas, quando o bolso está vazio, o que significa a maior parte dos dias, ele lava suas roupas e a dona da pensão não disponibiliza a máquina.

- Maurício, Maurício – Era um chamado urgente. – O arroz está queimando! 
- Com o fogo desligado, Marcos falou que precisava provar para ver se devia pôr mais água. Maurício, cuja fome voltara maior ainda, quis ignorar o aviso, mas a voz da mãe falou mais alto e Marcos: - Mãe fala que precisa provar. – Deu a colher para o rapaz e insistiu: - prova.
Com um grande suspiro, a prova foi feita e ignorada, porque o arroz ainda estava meio duro, mas os ovos já estavam no ponto. Resolveram comer.

Depois que comeram, Maurício lavou os teréns e Marcos falou que a mãe punha roupa para secar atrás da geladeira. Foi pegar sua roupa no varal, mas não alcançou e os dois riram da figura do menino com a camiseta que quase chegava a seus pés. O rapaz ajudou e o menino copiou o que vira a mãe fazer.

Maurício falou que precisava conversar sério com o garoto que foi logo falando:
- quando minha roupa secar, é pra mim se mandar? – Maurício ficou penalizado, mas aproveitou os erros para aliviar a tensão: - Olha aqui, minha professora me ensinou que mim só come capim. – O menino olhou assustado e perguntou: -sua professora te ensinou o quê?! Maurício riu e falou: - você está achando que ela me ensinou a comer capim?!  - Foi?!

- Não. Você disse pra mim se mandar. O mim não faz nada quem faz é o eu. Então o certo é dizer para eu me mandar. – Notando que os olhos do garoto se enchiam de lágrimas, Maurício continuou: -  ah! Não precisa ficar chateado, eu entendi o que você falou e vamos conversar para nos conhecer melhor.

Os dois se acomodaram ao redor da mesa da cozinha, que, agora, era só deles já que não havia mais ninguém na casa. Maurício ficou emocionado com o que ouviu. Marcos mora com a mãe que vende sacos de aniagem para uma fabriqueta de ninhos de passarinhos. Ela busca os sacos em lojas de atacado que recebem os sacos embalando algumas mercadorias e os cortam ao meio para facilitar a retirada do que está dentro e os descartam. Luzia – é seu nome – ela os costura e vende bem mais barato do que os sacos inteiros, não usados.

Marcos explicou que a mãe, muitas vezes, fica doente e a bombinha que usa não adianta, ela vai ficando com falta de ar. Desta vez, Marcos correu e pediu para a vizinha ir ajudar porque a mãe estava ficando roxa e ele, muito assustado.  Outro vizinho que tem um caminhãozinho levou Luzia.

Maurício, depois de muitas perguntas, acabou sabendo que alguém que mora perto da Luzia tem um celular. Ligou e quase entra em colapso, soube que Luzia havia morrido na porta do hospital “Também – disse a dona do tal celular – não iriam deixar ela entrar. Ainda bem que o filho não apareceu por aqui, porque um fulano que diz que é tio dele quer levá-lo para pedir esmola.”  Marcos estava no banheiro e Maurício, em pânico, completamente desarvorado. Pelo que o menino falou, ele e a mãe eram muito pobres, mas ela o cuidava com muito carinho. Não tinham mais ninguém. Não conhecia seu pai. A mãe contou que fugiu de casa para se casar e o pai morreu quando ele tinha só três meses. Não sabe nada dos avós. Nestes últimos dias, a mãe não deixou ele ir à escola e ela não podia ir buscar os sacos por que as lojas estravam fechadas, mas ela não deixava ele passar fome. 

Quando Marcos voltou, Maurício só sabia de uma coisa, os dois passariam a tal pandemia juntos.





quarta-feira, 3 de junho de 2020

"A ordem mundial acabou."


(Publicado originalmente em Internacional Progressista)

Luiz Inácio Lula da Silva e Celso Amorim

 É imperativo estabelecer uma nova ordem multilateral na qual a cooperação internacional possam realmente florescer, argumentam o ex-presidente Luiz Inácio Lula e o ex-ministro Celso Amorim.

Desde o início deste ano, e com maior intensidade desde o mês de março — quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a propagação da COVID-19 como pandemia — governos e sociedades civis vêm lutando contra uma crise de proporções nunca vistas antes.

Vidas estão sendo perdidas aos milhares em um único dia, em todos os cantos do mundo. As economias, que mal haviam se recuperado da crise financeira da última década, estão passando pela mais grave crise desde a Grande Depressão dos anos 30.

Os sistemas políticos estão sob estresse, enquanto líderes populistas autoritários tentam usar o sentimento de insegurança trazido pela pandemia para aumentar seu próprio poder pessoal, enfraquecendo assim democracias já frágeis. Alguns deles, de Donald Trump a Jair Bolsonaro, adotaram uma atitude de negação, ignorando recomendações de cientistas e especialistas em saúde.

Com esse horroroso quadro ao fundo, a cooperação internacional vem sofrendo duros golpes. O comportamento egoísta de alguns líderes está impedindo que os mais necessitados tenham acesso a produtos essenciais para lidar com a pandemia. Atos de pura pirataria estão sendo praticados pelos mais poderosos. Ao mesmo tempo, organizações multilaterais, como a OMS, estão sendo privadas de recursos sob falsas acusações de parcialidade política. O Conselho de Segurança da ONU, o mais poderoso órgão internacional, não consegue chegar a nenhuma decisão, ou mesmo a uma recomendação minimamente significativa, em relação a esta tragédia. Órgãos informais, como o G20, não conseguem superar as diferenças entre seus membros e não são capazes de aprovar um plano de ação para enfrentar a crise.

Tudo isso ocorre enquanto apelos do Secretário-Geral da ONU e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos — ecoados, entre outros, pelo Papa Francisco — para que se suspendam as sanções unilaterais, de modo que nações-alvo, como Irã, Cuba e Venezuela possam ter acesso a recursos para adquirir material médico essencial e receber assistência humanitária, são claramente ignorados. O multilateralismo está sendo vergonhosamente abandonado.

Parece haver um consenso quase universal de que o sistema mundial terá que ser reconstruído de forma muito fundamental. A questão é: Como?
Olhando para o futuro — e supondo que o pesadelo atual acabará se dissipando, embora apenas após imensas perdas humanas, em termos de vidas e bem-estar — a frase que muitas vezes se ouve a respeito das conseqüências da pandemia é: "o mundo nunca mais será o mesmo". E, de fato, é de se esperar que a humanidade aprenda as lições dessa investida inesperada de uma entidade microscópica que continua a trazer morte e miséria, especialmente para aqueles que estão no fundo de nossas sociedades desiguais.

A pandemia abalou os pilares do nosso modo de vida e, juntamente com eles, da ordem internacional. Parece haver um consenso quase universal de que o sistema mundial terá que ser reconstruído de forma muito fundamental. A questão é: Como?
Para muitos analistas, estamos entrando numa espécie de "nova guerra fria" - ou algo ainda pior - como resultado da chamada "Armadilha de Tucídides", uma expressão criada pelo diplomata-que-se-tornou-acadêmico, Graham Allison, para indicar o potencial de conflito decorrente do surgimento de uma nova superpotência, desafiando a até então dominante.

Segundo essa visão, a "ultrapassagem" dos Estados Unidos pela China, processo que parecia inevitável mesmo antes da pandemia, será acelerada, gerando grande instabilidade. Ao mesmo tempo, muitos governos e os povos que representam, desconfiados de uma globalização desenfreada, baseada na busca grosseira pelo lucro — principalmente pelo capital financeiro — serão tentados a mergulhar em algum tipo de isolacionismo, céticos quanto ao valor da cooperação internacional.

A humanidade pode entrar em uma nova era de "guerra de todos contra todos", com enormes riscos para a segurança e prosperidade da humanidade. Um mundo já extremamente desigual se tornará ainda mais, levando adiante todos os tipos de conflitos e convulsões sociais. Nesse contexto, o recurso unilateral à força armada pode tornar-se ainda mais freqüente, prejudicando ainda mais o diálogo e a cooperação pacífica. 

Não tem que ser necessariamente assim. Tanto nações quanto indivíduos podem tornar-se menos dominados pela arrogância e compreender a necessidade de solidariedade e humildade para enfrentar os desafios colocados pela natureza e pelas ações (ou inações) dos próprios seres humanos. Não é impossível — é aliás, imperativo — que um certo número de Estados ou entidades supranacionais, como uma União Europeia renascida, e instituições de integração dos países em desenvolvimento da América Latina, África e Ásia (que terão de ser reforçadas ou recriadas), busquem alianças e parcerias, de forma a contribuir para a criação de um mundo multipolar, livre da hegemonia unilateral e da esterilidade de confrontos bipolares.

Tais alianças, construídas com “geometria variável”, permitiriam uma re-fundação da ordem multilateral, sobre princípios do verdadeiro multilateralismo, segundo os quais a cooperação internacional possa florescer de fato. Nesse cenário, China, EUA e Rússia podem ser convencidos de que o diálogo e a cooperação são mais benéficos que a guerra (fria ou não).

"Soar utópico não é impedimento à ação coletiva."
Isso somente acontecerá, no entanto, conforme países individuais, especialmente aqueles que estejam em condições de exercer uma liderança natural não-hegemônica, encontrem formas de democratizar seus próprios sistemas políticos, tornando-se mais capazes de responder às necessidades de seus povos, especialmente de seus setores mais vulneráveis. Justiça social e governo democrático deverão caminhar de mãos dadas.

Pode soar utópico pensar nesses termos em um momento tão árido da história, no qual a própria civilização parece estar em risco. No entanto, para aqueles de nós que creem na capacidade humana de encontrar respostas criativas a todos os tipos de desafios inesperados, soar utópico não é impedimento à ação coletiva. Nem deveria nos fazer desistir e desesperar.

Uma versão deste artigo foi originalmente publicada em inglês pelo India-China Institute.
Fonte: Internacional Progressista

domingo, 10 de maio de 2020

Lugares para a felicidade



                                                               Ao André, meu filho único em tantos sentidos.

A quarentena em si, o ficar em casa, não tem me afetado muito. O que vem com ela, sim, suas causas e consequências são tétricas. A ideia do tolhimento do ir e vir, da nossa liberdade, como povo e como indivíduo, é suficiente para incomodar. Preciso me concentrar no motivo para me acalmar e respeitar o isolamento. Assim, acredito que as pessoas que não o respeitam o fazem por não ter a consciência do seu significado. São ignorantes da história recente do Planeta. Não sabem o que e como o vírus Covid-19 fez com os humanos da China, da Itália, por exemplo, pois estou falando do mundo. Se pudessem – se seu conhecimento permitisse -  comparar os efeitos do vírus e o comportamento dos governantes, consequentemente, da população de países como EUA com Vietnã, não sairiam de casa.

Abro parêntesis: (No Brasil, a grande exceção mundial, o presidente é cruel “a quem apraz derramar sangue, causar dor; cruento que gosta de fazer o mal, atormentar, maltratar; impiedoso, duro, implacável, intransigente; insensível”. (Definição segundo Dicionário Eletrônico Houaiss) Os 30% de brasileiros que o seguem são seus semelhantes, embora não disponham das informações que um chefe de país tem. Esta crueldade é compatível com interesses espúrios, havendo, inclusive, o aproveitamento da situação - horrenda para o povo -, visando alcançar alguns objetivos.) Fecho parêntesis.

Concentrando-me, então, nos dados relativos aos EUA e comparando-os aos do Vietnã, procuro amenizar minha perda temporária de liberdade. Como ela é, já disse Fernando Sabino, o espaço da felicidade e disto, tenho, em todo meu ser, certeza, a dificuldade aumenta exponencialmente. Não deixa de ser um desafio. A primeira ideia que me vem é chamar Dona Pandá.

Ela chega com Bethânia: -Quem me chamou? Eu estou aqui, o que que há?  Então você está à caça da felicidade?
- Nem tanto – respondo – quero amenizar a prisão domiciliar.
- Assim não vai dar. Chamando este lugar lindo, com verde pra todo canto, desse nome feio, não ajuda amenizar nadinha. Quer saber? A felicidade, precisa de outras coisas além da liberdade.
- Ah! Então a senhora concorda...
- Eu não sou tão doida a ponto de discordar do mineiro. Você é meio ignorante em literatura, mas mesmo assim sabe que Sabino era mineiro, não é?
- Não precisa ofender!
- É, fui grosseira. Vamos retornar ao assunto.  
- De que outras coisas a felicidade precisa?
- Não é propriamente precisar. Há coisas que são caminhos para...Acabo de me lembrar de um atalho garantido, o amor. Se alguém se apaixona por outrem, a felicidade não escapa. Há até a expressão muita usada, aqui, pelas Alterosas: Feliz que nem bobo quase sempre se refere a alguém apaixonado. Qualquer amor traz felicidade, pode trazer outras coisas, mas o amor correspondido é tiro certo.

- Esse atalho, no isolamento, ou já existe ou fica para procurar depois desta quarentena. Pode rir, mas sem ser atalho, pode dar outros caminhos? Aposto que não conhece.

- Deixa de falar bobagem, menina. Vamos lá. Vou listar algumas coisas que sei em relação a você, não são muitas, já que você, como todos jovens, muda de gosto. Não precisa fazer esta cara. Este mudar de gosto é saudável, significa crescimento. Você tem um gosto musical, hoje, mais requintado do que há alguns anos.

- Dona Pandá, me desculpe a ousadia, mas a senhora está, de novo, saindo do assunto.

- Agora você me lembrou uma criança adorável que falava “de ovo”. Está bem vamos retornar de novo. Continuando no musical, que, neste seu caso, é um exemplo perfeito: escutar a boa música é um bom caminho. Compor, para você, ouso dizer que é outro atalho garantido. Criar é uma atividade exigente, solitária e egoísta. Exige toda sua alma, não aceita pedaços. Se você está menos que inteiramente, a criação sai medíocre, não satisfaz. Aí é bobagem, não é caminho.

- Estamos falando de composição, de música?

- E de você. Se estivéssemos falando do meu amigo Roberto, o caminho seria literatura. Certo? Então, o atalho seguro, aqui, é a criação de música, da boa música.

- Se não “sair” a boa música?

- Você fará a boa música se se entregar a ela. A exigência dela é total, ela quer sua alma. Em dando o que ela exige, só sai a boa música. O parâmetro do que é bom é a satisfação do criador.  É claro que estamos falando de você que tem a arte na alma. É por isto que precisa doá-la sem regatear.

A criação é solitária. É claro que há criações coletivas, mas estamos no isolamento. Sua inspiração se relaciona com sua vida passada, presente ou desejada, com seus sentimentos, com tudo onde consegue chegar, mas ninguém anda por você. A captação é de sua capacidade. Não vivemos isolados, ao contrário vivemos cercados de um mundo interno e externo que percebemos e que levamos para nossa criação. Ainda assim, no ato de criar, estamos sós, com tudo que é nossa captação, com toda nossa vida.

A criação é egoísta.  Não aceita preguiça ou distração. Nada que a divida, que a restrinja.
Esta falação toda é para lhe mostrar que estando no ato de criar, você não sente a falta da liberdade. A arte é libertária.

- Dona Pandá, e os caminhos? A senhora falou de dois atalhos seguros.

- Você pode, nos intervalos do amor e da música, buscar outros prazeres, como por exemplo, mexer com a terra, plantar. Dispor da terra já é um caminho dado. É uma boa hora de planejar uma horta, um pomar. Cuidar dos bichinhos. Na realidade, são atividades de que você gosta e que já realiza.  Acho que o fundamental é manter a cabeça longe da restrição de não poder ir e vir.  O segredo da vida é buscar ser feliz, inventar lugares para a felicidade e estar lá.




terça-feira, 21 de abril de 2020

Nos 150 anos de Lenin, toleremos Bolsonaro como os russos toleraram os czares



POR GUSTAVO CONDE (Publicado no Blog Nocaute) 21 DE ABRIL DE 2020

Esse é um texto sub-reptício. Ele nasce deliberadamente para enganá-lo, caro leitor. O tom edificante de uma efeméride histórica é uma isca, uma armadilha, um subterfúgio.

Gustavo Conde



Eu poderia até começar dizendo algo do tipo: “Os 150 anos de Lenin nos obrigam a uma reflexão que ao menos roce a dicção revolucionária.”
Mas, não direi. A clandestinidade e o espírito revolucionário me acometeram de tal forma no curso dessa destruição de país, que pouparei o leitor das desculpas esfarrapadas.
A lembrança de Lenin é um espasmo do inconsciente. Eu quero falar de Brasil e de Bolsonaro – e da nossa esquerda perdida. Talvez, seja a melhor maneira de homenagear o político-teórico comunista, que faria 150 anos hoje se a ciência lhe concedesse essa graça.
Homenagear um comunista também me parece tarefa ingrata. Comunistas não se homenageiam: replicam-se os seus gestos revolucionários para libertar o povo da estupidez e da boçalidade.
Feita advertência, vamos ao que interessa.
Quero dizer que não vou assistir o meu país morrer fazendo coro com o ‘narcisismo progressista’ que demonstra uma paciência infinita com Bolsonaro por medo de ‘arriscar’.
De uma certa maneira toda a política partidária brasileira já está morta. Vamos deixar de ser hipócritas.
Era essa a mensagem sintomática das jornadas de 2013, com toda a bestialidade que a caracterizou (até as manifestações bestiais deixam algum tipo de lição).
Como rezam as cartilhas marxistas, a resposta não pode mais partir de quem habita a burocracia partidária, por quem já foi governo (e sabe como funciona tudo) ou pelos acadêmicos, que tentam formular soluções inúteis desde 2015, num português empolado e com pressupostos desmanchando de podres.
A resposta tem de vir do povo. Dessa massa que está sendo esmagada por todos nós que ficamos aqui teorizando a sociedade e cadenciando ações.
Em vez de ficarmos fetichizando Lula, é preciso repetir concretamente seu gesto: construir de baixo para cima uma alternativa de país. De uma certa forma, nós devemos isso a ele.
O caso é que essa resposta não encontra condições para seu surgimento de dentro das hostes partidárias viciadas, gravemente institucionalizadas e domesticadas.
É uma agonia ver um dirigente partidário – de qualquer partido – ou um analista político tentando responder à catástrofe Bolsonaro. Eles acham que ainda existe o debate público dos anos 90, em que havia duas correntes ideológicas minimamente postas.
É o colapso da linguagem e o colapso do discurso (e consequentemente, o colapso da política). Podem tentar os próximos 30 anos e morrerão de velhos.
Quando ocorrem essas injunções históricas de ‘transbordamento’ do sentido, ou é povo ou é morte.
Não há mais condições de temer a palavra “revolução” – a menos que insistamos no destino certo do esmagamento.
O uso da palavra ‘revolução’, de fato, implica em romper com tudo o que está posto. Ela enseja riscos? Óbvio. Mas quando o risco de ‘se manter as coisas como estão’ é maior que o risco da ousadia insurgente, a própria razão rudimentar responde com violência cognitiva: faça.
A resposta deve vir do improvável. A liderança deve ser nova. A lógica de ação deve ser inédita. O discurso deve romper com toda essa massa modorrenta, apodrecida e sabotada (apodrecida porque sabotada) das elites intelectuais narcísicas, que se projetam na linha de frente da paralisia política de turno.
De repente, viramos milhões de FHCs.
É humilhante, mas faz parte.
Oxalá o MST materialize o eterno simulacro que lhe foi imputado pelos balbuciantes conservadores brasileiros e concretize as táticas de guerrilha comunistas que faz os militares brasileiros, vendilhões da pátria, mijarem nas calças.
Alguém aqui tem medo de sangue? Se tiver, parem de ler esse texto. Vai piorar.
Há uma ideia estúpida de que o brasileiro é cordial, boa praça e diligente. A elite quer que se acredite nisso e impõe essa leitura como forma de controle.
Mas o brasileiro é tal qual todos os povos do mundo – talvez até pior, porque todos os povos do mundo aqui habitam: podemos cerrar os punhos e atropelar os genocidas encrustados no poder e a plateia desinteressante do Twitter progressista.
Povo neles. Povo em todos.
O cansaço com a falta de perspectivas bateu e isso é uma ótima notícia – porque nos obrigará a finalmente realizar o primeiro movimento.
Tanta gente despolitizada à solta pode também não ser o fim do mundo (como a ‘gente politizada’ de turno faz parecer ser): motoristas de Uber, entregadores de iFood, ’empreendedores’ de si, estudantes secundaristas, moradores de rua, pescadores, pequenos agricultores… É dessa gente que virá a resposta para que assassinemos o imobilismo (e não dos profissionais de ‘home office’, como este chato, abusado e inconveniente, que não frequenta o clube que o aceita como sócio e que vos escreve).
Nós estamos em um momento muito pequeno-burguês, debochando dos trabalhadores desorganizados que vêm sustentando a atividade econômica do país nos últimos anos, sem uma réstia de ajuda do Estado ou mesmo dos setores ainda sindicalizados.
É bom não subestimar.
Está claro que eles precisam de um líder, alguém que acenda a fagulha – o que não é trivial, mas também não é o fim do mundo.
Basta de Bolsonaro e basta desse discurso caquético dos setores pretensamente progressistas (na verdade, são ‘regressistas’) que ficam ‘ensaboando’ a passagem ao ato como escultores domesticados em suas linhas de produção digital, na dança das frases de efeito e das reflexões autoconfirmatórias.
A experiência da escrita revolucionária não pode ser essa miséria de textinhos bacaninhas cheios de clichês. A escrita precisa incomodar, precisa deixar o leitor em situação desconfortável. Esse é o gatilho, esse é o gesto, essa é a transmutação do texto em ação.
A política morreu. É preciso reinstalá-la em novas bases. O processo para isso é longo. É preciso ousadia, é preciso romper com nossa covardia estrutural, é preciso expropriar o lugar de fala dos agentes políticos entranhados nessa mixórdia brasileira e realinhá-los a uma nova realidade, a realidade revolucionária.
Até pouco tempo atrás, eu acreditava que o Brasil poderia ser reconstituído através do diálogo. Agora, eu não apenas não acredito: eu desejo com todas as forças o tombamento dessa engrenagem política apodrecida, com militares, com Bolsonaro, com Mourão, com esquerda cirandeira, com tudo.
O legado dos revolucionários que romperam com suas estruturas de poder não poderia ser mais atual: a pandemia faz renascer o papel do Estado e faz renascer o papel das revoluções.
Os 150 anos de Lenin devem ser aproveitados não como efeméride apenas, mas como centelha para fazer acordar um povo massacrado como o brasileiro.
Não há mais razões para não sonhar com um Brasil mais justo e mais igualitário, na acepção máxima das palavras.
Eles provocaram e agora é a hora de dar a resposta correta a essa provocação.
Como na Rússia czarista, a solução para o Brasil não é diálogo nem conciliação (nem cordialidade). Bolsonaro nos fez e nos faz despertar a ira.
Como romper com essa cultura de golpes, de desigualdade, de execuções, de jornalismo venal, de vísceras partidárias apodrecidas, de mentiras?
Sinceramente, eu quero que o Brasil seja uma imensa Cuba e que esses empresários bastardos que nos esmagam e debocham da nossa cara sejam expropriados e enviados para Miami.
Aí sim, poderei dormir com tranquilidade.

Nota do blog: Publicado, aqui, copiado do NOCAUTE por absoluta concordância com cada palavra.  Meus agradecimentos ao Nocaute e, é claro,ao Conde por expressar meus sentimentos, com tanta maestria.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Seu sobrenome é liberdade e está isenta da quarentena




Dona Pandá está morando em uma pequena chácara. Sua casa fica atrás da casa da proprietária, sua irmã Marcolina. Ambas, pela idade, fazem parte de um grupo de risco frente à pandemia. Estamos falando de duas velhinhas? Bem, vejamos o que vocês acham
.
Há muitos passarinhos na chácara, pois o pomar os chama com as bananas, as jabuticabas, as seriguelas, as romãs, as mangas e muitas outras. Há ainda casinhas espalhadas em vários cantos, abastecidas, diariamente com alpiste e quirera, pelas duas habitantes humanas. Nas castanheiras, a disputa é entre os macaquinhos e os esquilos. Enquanto eles brincam e brigam nos galhos lá em cima, cá embaixo, Lau e Bela latem e querem subir nas árvores para pegar os ladrões. A algazarra atinge uma escala de decibel incômoda para os moradores das chácaras vizinhas.

Marcolina, paisagista que é, oferece suas centenas de flores aos beija-flores que não se fazem de rogados e passeiam pra lá e pra cá em bailados encantadores. São flores em vasos, em pequenos e grandes arbustos e, ainda, em grandes árvores, como os flamboaiãs.

Devido ao confinamento obrigatório, a mana caçula – Bernardina - veio ficar na chácara. Como é médica aposentada, mantém um rigoroso controle sanitário. As atividades das chacareiras se fazem sentir o dia todo fora da casa e, ainda, têm tempo para as gostosuras do fogão mineiro. A rotina inclui o cuidado com as plantas - abarcando aí jardim, pomar e horta -, com o minhocário e com as cadelinhas. No cuidado com as plantas estão também seu preparo para a secagem e as tinturas. Com a atual situação da pandemia, a preferência tem sido plantas que fortalecem o sistema imunológico, como pariri, moringa, inhame, batata doce roxa, abacaxi, limão, cúrcuma e alho que se transformam em comidas levadas à mesa em preparos bem criativos. Os chás também se fazem presentes, apesar dos protestos de Marcolina que prefere o café.

Pela manhã, Bernardina faz sua caminhada. Marcolina, de vez em quando, acompanha e Dona Pandá dá conta de sua ginástica.

À noite, depois que a lida se encerra, as opções caem em um bom filme ou cada uma se isola no silêncio de suas leituras. Às vezes, Bernadina faz, pelo Skype, alguns atendimentos, Dona Pandá escreve um pouco e Marcolina vê notícias na TV.  Bernardina introduziu, há poucos dias, o chá das cinco, com os amigos. Ligam o Skype – convidam os amigos pelo WhatsApp com antecedência – sentam no sofá em frente ao notebook –, tomam o chá e papeiam. Normalmente, o assunto acaba caindo nas plantas. Quando do outro lado da tela, alguém reclama do confinamento, Bernardina entra firme na defesa do fique em casa e Dona Pandá, na crítica à irresponsabilidade do atual governo frente ao Coronavírus. É bastante difícil para ela ficar calada diante das atitudes absurdas do presidente, seus ministros e filhos, não só no que se refere à pandemia, mas também quanto aos direitos e conquistas dos trabalhadores, à política externa e ao despreparo de todo o governo. Ela não se conforma com tanta ignorância.

Dona Pandá tinha o hábito de colocar, na varanda do seu quarto, ração para gatos. Eles se alimentavam e iam embora. Eram ariscos, às vezes, ficavam quietos olhando para ela, escutavam o que dizia e logo fugiam.

Numa noite, Dona Pandá foi acordada com miados cada vez mais fortes e insistentes. Ela se levantou e, percebendo que o barulho vinha do lado da varanda, abriu a porta, acendeu a luz e viu o gato preto que olhava para ela e depois para um volume que estava no chão. Era um filhotinho todo machucado. O gato preto era fêmea e suas tetas apareciam cheias.  Pegou o filhote na boca e levantou a cabeça. Seu gesto era claro. Queria entregar o gatinho para Dona Pandá. Seus olhos súplices transmitiam o pedido de socorro de uma forma inequívoca e veemente. Dona Pandá, comovida, pegou o filhote, entrou na casa à procura de um pano para enrolar o bichinho que tremia, tremia. A mãe – só podia ser a mãe – foi atrás, acompanhava muito atenta e em silêncio Dona Pandá. Esta limpou as feridas com soro fisiológico, percebendo que o animal era quase recém-nascido, mas os ferimentos não tão graves quanto pensava. Colocou pomada de calêndula e o enrolou num cobertor dobrado. Sentou-se com ele no colo. A gata - que passou a ser chamada de Maria – pulou para cima do sofá e começou a lamber aquela cabecinha e, depois de algum tempo, lambeu a mão de sua protetora, olhando para ela. Dona Pandá, muito devagar levou a mão e fez um carinho, chamando-a pelo nome que acabara de lhe dar. 
A gata deitou-se e a mulher depositou o gatinho ao lado da mãe, enquanto providenciava uma cama num canto. Colocou uma almofada grande, antiga cama de um dos cachorros que já se fora, cobriu-a com cobertor, pegou o gatinho e o colocou lá. Ele ainda tremia, mas bem pouquinho. Maria foi depressa deitar-se ao lado, parecia querer lhe dar o peito para alimentá-lo. Não conseguiu e ficou quieta, encostada no embrulho que era seu filhote. Depois de algum tempo, o pequeno estava imóvel, assustando Dona Pandá que chegou a pensar que ele tivesse morrido. Com todo cuidado, verificou que ele respirava e sua quietude era porque havia deixado de tremer e dormia. A gata também se acalmou e a mulher voltou para cama.

Na manhã seguinte, Dona Pandá acordou com o chamado de Maria que, quando viu a porta aberta, saiu correndo e foi até onde havia terra para fazer suas necessidades. Na volta, comeu, bebeu muita água e foi para perto do filhote, chegando muito perto para amamentá-lo. Ele parecia não querer outra coisa a não ser dormir, mas a mãe, com as patas mexeu com ele até que a fome deve ter aparecido e conseguiu mamar. 

Dona Pandá ligou para o veterinário que cuidava de Lau e Bela, mas foi informada por uma gravação que a clínica, por motivo de segurança devido à pandemia, estava fechada, com a ressalva de que, em caso de emergência, poderia dispor do atendimento ambulatorial e fornecia um telefone. Dona Pandá foi novamente verificar como estava o filhote, achando-o quietinho, parecia dormir novamente, sem tremedeira. Já tranquila, foi contar para as manas que vieram ver os visitantes felinos. Quando Bernardina chegou perto, Maria não gostou, arreganhou os dentes, rosnou, deixando claro que no seu filhote ninguém pegava. Elas saíram e Maria se acalmou, mas parecia ainda desconfiada.

Dona Pandá ligou para sua amiga Cláudia, que é a melhor veterinária do Planeta – nem pensem em discordar – e pediu orientação. Cláudia ensinou o passo a passo dos cuidados necessários com o filhote e com a mãe. Maria pariu sem assistência e deveria receber uma alimentação reforçada. Com a restrição imposta pelo Coronavírus, lá se foi Dona Pandá para a cozinha preparar o reforço para a nova mamãe.

Após uma semana, o Bilu – foi Marcolina quem deu o nome – andava ainda cambaleante, mas já curioso. Mais um mês e os dois passaram da condição de visitantes à de moradores.   Como liberdade é o sobrenome de todos os gatos, foi aberto um buraco na parede da casa para que Maria e Bilu saiam e entrem quando quiserem, sem restrição de quarentena, mas tendo de passar por um pano encharcado de solução desinfetante.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

O Ouriço-cacheiro do Norte




Dona Pandá abriu seu celular e a primeira notícia que viu a fez dizer um palavrão.  Achando pouco expressivo, sentou-se e ficou pensativa, entrei na sala e a vi com uma cara tão estranha que me assustou.

- O que foi, Dona Pandá?

- Estou procurando um palavrão que me ajude a botar pra fora e a dar a dimensão da minha perplexidade diante da notícia que acabo de ler. Não consigo. Nada é de acordo. Nada é suficiente.

- O que é? Que notícia a deixou tão perturbada?

- Não sou assinante do Estadão, mas um amigo, indignado, me passou o link  da matéria, cujo  título é “Trump despacha força naval para a Venezuela”. O filho de uma égua (Ai, dona égua, me desculpe, é que não sei que epíteto colocar no cara, daí escapou, mas sei que tanto a senhora, como seu filho são muito superiores a ele) pensa que o mundo é seu quintal. Veja a notícia!

Dona Pandá estava mesmo transtornada! Achei melhor desconversar: - O sr. Melquior lhe mandou a muda da pimenta ... – Dona Pandá me interrompeu

- Pimenta! Alguém deveria reunir uma turma e passar pimenta malagueta nos olhos do cara, não só nos olhos, mas também lá embaixo, pra não deixar o maldito sentar. Imagina o bicho... Ah! Descobri o nome perfeito para ele: ouriço-cacheiro. Basta chegar perto para ser arrasado com seus espinhos que entram e para sair é fogo. É isto mesmo. Acertei. Veja como o Houaiss define o ouriço-cacheiro:

 “design. comum a diversos pequenos mamíferos da fam. dos erinaceídeos, da ordem dos insetívoros, encontrados na Europa, África e Ásia, com o dorso coberto por espinhos curtos e lisos e as partes inferiores por pelos; ouriço-cacheiro [Podem-se enrolar formando uma bola, o que lhes garante proteção contra predadores.]” Temos que corrigir:  também é encontrado no Continente Americano.
E a definição de cacheiro complementa:
“que ou o que dissimula ou engana, ou é ardiloso, astuto”

Então, estamos combinados – continuou exaltada Dona Pandá - o fulano do Norte é o ouriço-cacheiro mor. Apesar de este bicho ser também superior àquele a quem estou assim denominando, ao bicho não vou pedir desculpas – como fiz com a dona égua - porque tenho minhas múltiplas quizilas com os torturadores dos meus cachorros.

Preocupada com a saúde de minha amiga, pedi que ela se acalmasse, mas Dona Pandá estava de fato muito encolerizada e continuou bradando aos ventos já que não havia uma multidão para ela demonstrar sua putice.

- O ouriço-cacheiro do Norte quer dominar o mundo. Tem as suas preferências e prioridades: aqueles países, onde as riquezas - petróleo é a prioridade máxima – estão lá para serem levadas por ele, é claro. Os países ativos e altivos são seu prato principal. Não tem pudor nenhum em deixar claro seus interesses. Para se apoderar das riquezas alheias usa os instrumentos que estiverem ao alcance. Se não estiverem, ele paga para ficarem. Neste caminho, usa e abusa de sua crueldade e poder.

- Nossa! Dona Pandá, não está exagerando um pouco?

- Exagerando?! Cuba permanece sendo boicotada economicamente até deixar a Ilha em dificuldades. Ele é tão perverso que utiliza seu poderio para impedir até que os médicos cubanos ajudem os países que estão precisando urgentemente desses profissionais, reconhecidamente os melhores. Com o Brasil, seu país foi mais sofisticado. Treinou juiz e procuradores para impedir que partidos progressistas voltassem ao poder. Estes partidos têm a independência nacional como valor a ser defendido, então não servem.

- A senhora está se referindo ao Moro e à equipe da Lava Jato?

- É claro! Todo o pessoal foi bem dirigido. Aí entraram a parte didática e a remuneração implícita. Tudo que levou àquela famosa frase do Jucá:”com Supremo, com tudo”. O impedimento da honesta presidenta, a prisão do Lula, num processo vergonhosamente equivocado na forma e no conteúdo.

- Dona Pandá, se o Haddad tivesse ganho as eleições ... – Nem consegui completar a frase, Dona Pandá quase cai da cadeira com o pulo que deu. Pensei que fosse me agredir.  Era o gato que passava entre seus pés e ela quis pegá-lo.  Ai, ainda bem.

- Pois aí está outra do Norte. Seu dinheiro comprou nova modalidade de fraude nas eleições, a digital, o uso descarado de robôs, algoritmos e outras falcatruas. Fizeram ser eleito o cara que lambe as botas do ouriço-cacheiro e desavergonhosamente o obedece. Entrega nossas riquezas e promove o sofrimento dos brasileiros.  Esse cretino tem seguidores, os brasileiros que o elegeram e que têm os mesmos valores, pois viram o Bozonero dizer que é a favor da tortura.

- Dona Pandá quer um chá de camomila com melissa?

- Quero.


sexta-feira, 27 de março de 2020

O envelhecer e a resistência





Envelhecer não é um bicho de sete cabeças. Certo. Deve ser de 14. É a mesma estória de dizer que a menopausa é apenas uma fase na vida da mulher. Sei. Tenho quase 77 anos, portanto, conheço os dois bichinhos.

Na menopausa, tive que ouvir o médico alopata dizer que todos os desconfortos, dos quais me queixei, eram normais e não apresentavam um cronograma confiável de finalização. Corri para minha bruxinha querida, a médica homeopata. Ela, que me conheceu antes da minha gravidez, desmentiu oralmente e na prática tudo o que seu colega afirmou. Passou-me três tinturas – sálvia, agoniada e romã - que deveria tomar alternando. Quase imediatamente senti seus efeitos e meus desconfortos diminuíram 95%.  Entretanto, o período mexe com a cabeça da mulher e se não tiver um apoio sábio, poderá se machucar. Seu corpo sofre as transformações e começa algumas dificuldades.

Uma das maiores de dificuldades é o preconceito das pessoas em relação à idosa (acho que com o homem, como sempre, a coisa é mais leve). A cabeça branca é o começo. Quando parei de trabalhar no tal mercado formal, deixei de pintar os cabelos e levei alguns sustos com as reações das pessoas. De um dia para o outro, começaram a me tratar como uma senhora. Nesse período, minhas pernas ainda bem torneadas e bronzeadas faziam contraste com a cabeça branca (no homem as têmporas grisalhas é o maior charme). O guarda me parou na estrada – eu estava a 60 km/h – dizendo que eu estava em alta velocidade para “a minha idade”, mas quando ele chegou perto o suficiente para olhar dentro da caminhonete e ver minhas pernas, seus olhos não conseguiam se decidir se afinal era uma velhinha ou uma mulher de pernas bonitas.  Neste aspecto, houve uma conquista da mulherada que exponencialmente está descobrindo a liberdade de não estragar suas madeixas com químicas.

Outro dia, uma jovem senhora me perguntou se eu ainda dirigia. Aí está outro preconceito. As pessoas determinam (pré concebem medidas) o que você ainda pode ou não fazer. Não sei porque razão há aí uma coincidência. As coisas que nos dão prazer são bem mais colocadas fora do ainda e as que são consideradas nossa obrigação estão colocadinhas dentro do ainda. Morar sozinha, dirigir, namorar, ir a lugares como bar e teatro, viajar estão fora, enquanto trabalhar, cuidar estão bem dentro. Há ocasiões em que, de fato, percebemos que já não damos conta ou não temos mais prazer naquela atividade, como, por exemplo, corridas ou alguns exercícios físicos. Neste caso, optamos, é óbvio, por não seguir em frente. É decisão de foro íntimo. Há uma enorme diferença entre o físico aparente – cabelos brancos, rugas e outras cositas mais feias – e a força, a disposição interior. Lembro-me de algumas vezes que diante do espelho me desconhecia. Fica, para mim, cada vez mais claro que a velhice só pode ser compreendida por quem está nela. 

Difícil, doloroso é ser mulher em tempos modernos arcaicos. Estamos em 2020 e grande parte do eleitorado elegeu um fulano que não conseguiu seguir as informações da atualidade, mas parou em algum século que ficou lá atrás. Esse cara, além de ignorante, não assimilou os valores da civilização moderna e continua com os da idade média. Está havendo mudanças complicadas de costumes. A mulher, o homossexual, o negro, o índio – o brasileiro puro -, o pobre, o trabalhador e todo diferente levam as bordoadas do ignorante, do retrogrado, do malvado. Ainda mais, o maléfico expõe sua visão, sua canalhice e é seguido por pessoas que lhe são semelhantes, pessoas que votaram em quem defende a tortura! Então, estamos num mundo que não reconhecemos como nosso.  Estamos em nossa casa, nosso país e nos sentimos cruelmente invadidos.

Para piorar a situação, nossas instituições, num primeiro momento, quiseram aderir àquele que se tornou a autoridade máxima e depois foram se assustando tanto que congelaram. Enquanto estavam paralisadas, o maligno e seus comparsas ganharam terreno e retiraram os direitos dos trabalhadores e, pela mudança dos costumes, aviltaram a mulher, o homossexual, o negro ... Seus seguidores lhe dão cobertura na disseminação de suas crueldades, cretinices e, sobretudo, mentiras
Ser mulher em tempo de bossonero é esquecer que cada geração tem sua tarefa, é buscar força para colocar a luta dentro do seu ainda. É tomar para si as batalhas que deveriam ser de outra geração. É dar sua experiente contribuição e chamar todas as gerações para a resistência.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Dona Pandá vai ao Recanto dos Pássaros



                                        São Gonçalo ”tem tudo, é outra civilização,”                                                                                                    tem até o professor Marcos Guião.   
                      

Dona Pandá recebeu, de sua irmã Mila, o convite para um curso sobre ervas medicinais.  Aceitou na hora e, logo, foi procurar onde fica Bom Despacho. Não é longe de Belo Horizonte. Decidiram ir na sexta feira e retornar na segunda para mais tranquilidade. O curso seria sábado e domingo.
Dona Pandá saiu pela manhã, em direção à Lagoa Santa, onde deixou o Valente – seu Celta – e pegou o Renê – o Renegade da Mila -. Dona Pandá gosta muito de pegar estrada, mas fica implicando com o belo Renê que tem, segundo a implicante, o grave defeito de lhe tirar a emoção de dirigir, pois faz tudo sem sequer pedir seu consentimento, rouba-lhe o direito de prolongar a marcha, até de ligar o rádio! Mila é muito eficiente em seu papel de co-piloto, comanda direitinho o Waze. Dona Pandá foi obedecendo aos comandos de em 200m entra a primeira à esquerda (ou à direita), mas logo já estava reclamando:
- Essa dona Waze fica repetindo o mesmo comando. Atrapalha a gente, já falou duas vezes para, em 300 m, entra à direita.

Antes de sair para a estrada, foram pegar, em Belô, a amável caronista que tem um jeito seu de passar o endereço, é pródiga em pontos de referência, mas não gosta de números.  Conhecemos, então, a colega do grupo Vânia, ótima companhia, bem humorada, atenta e sábia no tamanho das conversas, além, é claro, de ser também amante das plantas.

Chegando a Bom Despacho, as três mosqueteiras encontraram, na praça, o Gentil Homem Robson que as conduziu ao seu sítio, local onde aconteceria o curso. Sobre a porteira de entrada, a placa é um aviso: Recanto dos Pássaros. O objetivo dessa rápida visita ao sítio era apenas para que, no dia seguinte, soubessem chegar, sem desculpas, no horário certo da primeira aula.

Voltando à cidade, Vânia se hospedou na casa de uma residente de Bom Despacho, enquanto Mila e Dona Pandá foram para o hotel,  reservado pelo Gentil Homem. Dona Pandá teve alguns instantes de indecisão, pois durante o tempo que deveria ser de seu banho, não sabia se preferia a água pelando ou a fria que, ao cair sobre suas costas, apresentava uma temperatura próxima do gelo. 

Comeram uma pizza, no restaurante, em frente ao hotel. Dá para desculpar a falta de criatividade. Afinal estavam cansadinhas! Ou são mesmo preguiçosas? Bem, até o final desta estorinha, ficaremos sabendo.

No sábado, lá estavam as duas, às 9 horas, prontas para receber os conhecimentos que vieram buscar. Encontraram o pessoal ao redor da mesa de um apetitoso café da manhã: café adoçado e sem açúcar, chá, leite, frutas, pães e quitandas mineiras.

Depois de satisfazerem todas as gulas ali despertadas e já perdoadas, o grupo foi convidado ao trabalho. Robson - o organizador do curso, do café e muito mais, além de ser o feliz proprietário do Recanto dos Pássaros – apresentou o professor Marcos Guião. Este, já com seu equipamento a postos, avisou que iriam focar nas plantas ligadas ao sistema respiratório. Na tela, apresentou o desenho de um quadro que seria construído coletivamente. Pediu ajuda para a digitação em seu notebook de modo que o coletivo, com a orientação do professor, iria “ditando” e a visualização se daria pela tela. Mila assumiu o notebook. Iniciou-se a construção do quadro que foi fechado ao término dos trabalhos.

Falar do local é fácil. Lembrando do aviso da placa na entrada do sítio, percebe-se, a Mãe Natureza no comando, consequentemente, a boa energia se abre num abraço a seus visitantes. Logo, na entrada, algumas árvores protegem os carros e uma se destaca, chamando possíveis crianças para brincadeiras na areia cercada de pneus que amortecem a queda dos pequenos mais ousados nos balanços. 

A primeira construção é um galpão redondo, aberto, onde as cadeiras serão ocupadas pelos alunos voltados para a tela, o professor e, numa mesa, o notebook pilotado por Mila. Saindo do galpão-sala de aula, entra-se numa varanda que rodeia a casa. Neste espaço, sobressai gostosamente a mesa do café. Há uma porta que mostra a sala, cujo chão é uma belíssima composição de lajotas. Dona Pandá logo mostrou seu entusiasmo por aquela beleza, cujos créditos foram imediatamente dados à dona da casa:
- Minha mulher é arquiteta e gosta de criar – explicou Robson. – Não só gosta, mas tem talento para o belo. – Alguém completou.

Voltando à varanda e contornando a casa, passa-se por um fogão a lenha e, de lá, já se ouvem os bééés vindos do pequeno pasto, onde é o reino das ovelhas e carneiros. Robson bate palmas e os bééés se intensificam à espera do alimento que, normalmente, vem em seguida às palmas do dono.  Dava até para ouvir Elis Regina cantando... (“Quero carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim” ...)

Voltando à varanda, passa-se por um pomar generoso que convida a mais uma degustação e leva a um tanque com peixes de várias espécies. O tanque é forrado por uma manta plástica e Dona Pandá quis saber como é o modus operandi para copiar na sua Chácara Xury. O Gentil Homem ensinou e a estimulou, dizendo que é uma técnica bem fácil. Mais um conhecimento ganho para nossa amiga.

Depois dos peixes, os amigos das plantas foram chamados, novamente, ao trabalho. Na primeira etapa da aula, todos se apresentaram. Grande parte já conhecia o professor e também a outros membros que formam um grupo de discussão no whatzap. Trata-se de pessoas especiais, solidárias, convidadas pelo Gentil Homem para formar essa turma de gente do bem. Como disse Dona Pandá:
- Ora, gente que ama as plantas não precisa  de adjetivos, são filhos do Belo e da Bondade.

 O professor mora em São Gonçalo das Pedras de onde fala tanto e tão bem que desperta a vontade de por lá dar uma passada. Pensou em Melissa - ela é mel no nome, possui cobre que faz as ligações -, São Gonçalo tem; pensou em Malva – envolve, acolhe é o acolhimento -, São Gonçalo tem; pensou em Erva Baleeira – nome que vem da embarcação miúda, autoendireitável, salva-vidas -, São Gonçalo tem, mas tem também Mulungu – espinhenta, mal humorada. Ao longo da aula, Marcos Guião deixa as falas mostrarem sua sensibilidade no conhecimento das plantas. A flor é a sexualidade. A pessoa segue a planta quando se enfeita com cores – baton, ruge...- e perfume. A raiz é a parte da planta que pensa e as folhas fazem as trocas químicas. A planta é o homem na posição invertida. A raiz - a parte pensante da planta - fica embaixo, enquanto a cabeça do homem – tem a função, nem sempre exercida, de pensar – fica em cima.

  As plantas não saem do caminho, seguem a lei da Natureza. O homem que nem sempre trilha por onde deveria, sendo amigo das plantas, é levado de volta por elas ao bom caminho, o da Natureza, da cura. “Trabalhar com plantas é trabalhar com a esperança alheia”. A que Dona Pandá retruca: - Iniciante, trabalho com minha própria esperança, pois a ignorância não permite sugerir a alguém qualquer caminho -. Neste grupo, porém há muitos que têm conhecimento para tratar os desequilíbrios de outrem.

Encerrados os trabalhos, Mila e Dona Pandá retornaram ao hotel e ficam sabendo que o “rapaz não achou defeito no chuveiro”. Pediram, então, para trocar de apartamento. O calor de Bom Despacho continuava presente, mesmo com o abandono do Sol, exigindo, pois mudança de qualidade no chuveiro. Dona Pandá partiu para a guerrilha e depois de muito mexer, conseguiu dominar o equipamento, deu seu grito de vitória: o banho foi satisfatório.  Saíram para jantar e tomar ciência da cidade. Terminaram onde Dona Pandá gosta, numa sorveteria.

No dia seguinte, uma surpresa ao café da manhã, o Professor lá estava. A velha senhora aproveitou para lhe dizer que havia ficado feliz por conhecê-lo, uma pessoa bonita.

Durante a aula de domingo, último dia do curso - dia de Yemanjá – não tendo mar, Guião liderou uma visita às plantas maiores, no Serrado, além do Recanto dos Pássaros. Muitas plantas menores, no tamanho físico, também foram identificadas pelo professor e por alguns alunos sabidos.

Dona Pandá ganhou do colega de curso, Márcio, duas mudas de Erva Botão – já plantadas e esbanjando vida – e tinturas do Gentil Homem – estão sendo ingeridas e com bons efeitos.  A sortuda pede para lhes passar um recado: gratidão. Pede para estender o agradecimento a todos os filhos do Belo e da Bondade. 

Dona Pandá voltou de Bom Despacho, falando do que passou a ser sua fantasia predileta. Ir a São Gonçalo das Pedras para um curso do Guião e chegar até Diamantina. Na realidade, esta de ir a Diamantina é quase tão velha, quanto a dona do  sonho.