Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Funarte realiza mostra de teatro e dança para retomar Mambembão


 Fundação Nacional de Artes (Funarte) promove, a partir do próximo dia 28, uma mostra que pretende ser o piloto de um resgate do Projeto Mambembão, que marcou época nas décadas de 1970 e 1980. 



A iniciativa trará ao Rio, até 1º de abril, grupos de teatro de outros estados, que normalmente não conseguem apresentar seus trabalhos no Sudeste, embora tenham feito montagens que alcançaram sucesso de público e crítica.

Realizado, pelo então Serviço Nacional de Teatro (SNT), do Ministério da Educação, o Mambembão fomentava a circulação de espetáculos de teatro e dança das cinco regiões do país. A Funarte pretende relançar o projeto por meio de um edital que irá contemplar produções independentes ou de grupos e companhias de dança ou de teatro.

"A Funarte, ao reeditar o projeto, abre espaço ao talento e à criatividade de artistas do país inteiro. É também uma forma de dar visibilidade a grupos que muitas vezes têm um trabalho de destaque em suas cidades, mas nem sempre conseguem se apresentar em outras regiões”, explica o presidente da Fundação, Antonio Grassi.

Com curadoria na área de dança da produtora Regina Levy e na área de teatro do crítico Macksen Luiz, a mostra piloto terá 15 espetáculos em três teatros administrados pela Funarte no Rio de Janeiro: Dulcina, Cacilda Becker e Glauce Rocha.

No Teatro Dulcina, no centro do Rio, serão apresentados os espetáculos de dança Perfume para Argamassa, de Goiás, e O Fio das Miçangas, de Pernambuco, e as peças teatrais Heróis, O Caminho do Vento, de Brasília, Arvores Abatidas ou para Luis Mello, do Paraná, Anjo Negro, de Mato Grosso, e o grupo In.co.mo.de.te, do Rio Grande do Sul.

Ainda no centro, o Teatro Glauce Rocha abrigará três peças: Isso te interessa? (PR); Essa Febre Que Não Passa (PE) e Cabaré das Donzelas Inocentes (DF). No Teatro Cacilda Becker, no Catete, serão apresentados cinco espetáculos de dança - Novo Algo de Sempre (MG); 1(Uma) (SC); Vago (MG); Rastros Híbridos (AM) e Sol (BA) – e três de teatro: Pólvora e Poesia (BA); É Só uma Formalidade e Outro Lado, ambos de Minas Gerais.

Todos os espetáculos da mostra serão apresentados às 19h, com ingressos a R$ 5 e a R$ 2,50, a meia-entrada para estudantes e idosos.

Fonte: Agência Brasil


Gripe pode impulsionar o risco a Alzheimer


Por Dalane Santos em O Berro

     Quando saímos de uma gripe, com dor de garganta e no corpo, costumamos pensar que o pior já passou. Mas algumas infecções virais podem ter efeitos duradouros e invisíveis sobre o cérebro, sugere uma pesquisa recente.
     O estudo insinua que os vírus como o da gripe e herpes podem deixar as células cerebrais vulneráveis à degeneração quando nos encontramos em idade avança, e aumentar o risco de desenvolver doenças como Alzheimer e Parkinson. Isso porque estes vírus podem entrar no cérebro e desencadear uma resposta imune, uma inflamação, que pode danificar as células cerebrais.
      De acordo com o Dr. Ole Isacson, professor de neurologia da Escola de Medicina de Harvard, os vírus e outras fontes de inflamação podem ser os fatores iniciais de algumas das doenças neurológicas mais comuns.
      É improvável que um surto da gripe cause danos significativos. Mas, ao longo da vida, as lesões das células se acumulam, segundo Isacson, e junto com pressões locais, isso pode matar as células e desenvolver doenças no cérebro. A quantidade de infecções obtidas pode ser a diferença entre uma pessoa desenvolver mal de Parkinson com a idade de 65 ou aos 95 anos, afirma Isacson.
      É possível que o enfraquecimento da inflamação, que ocorre logo após a infecção viral, possa reduzir os danos causados as células e o risco de desenvolver doença cerebral posteriormente. O neurologista apontou para um estudo de 2011, no qual 135 mil homens e mulheres descobriram que aqueles que tomaram ibuprofeno (um medicamento que pode reduzir a inflamação) possuíam 30% menos probabilidade de desenvolver Parkinson ao longo de um período de seis anos em comparação com aqueles que não tomaram a medicação.
 Infecção cerebral
      Um dos primeiros elementos que evidenciam a ligação de vírus com doenças cerebrais vem da pandemia de influenza de 1918. Depois do surto, houve um aumento dramático nos casos de uma doença conhecida como parkinsonismo pós encefalite, que tem muitos dos mesmos sintomas que o mal de Parkinson.
      Em um teste mais rigoroso dessa ligação, um estudo de 2009 mostrou que os camundongos injetados com o vírus da gripe H5N1 desenvolveram infecções celulares em uma região do cérebro conhecida por ser significativamente afetada pelo mal de Parkinson.
      A investigação também mostrou que a infecção com alguns vírus da herpes pode aumentar o risco de mal de Alzheimer. E muito raramente, encefalite ou inflamação cerebral provocada por vírus pode levar diretamente a uma forma aguda, mas transitória, do mal de Parkinson.
      Mas cada vez mais as infecções virais em nosso cérebro são silenciosas, diz Isacson. Segundo ele, nós não vemos o impacto destas infecções até a degeneração cerebral ser substancial.
  Como prevenir
      Várias semanas após a infecção, as moléculas inflamatórias conhecidas como citocinas atingem um pico de concentração, comenta Isacson. É esta "tempestade de citocinas" que Isacson e seus colegas suspeitam ser responsável pelos danos das células cerebrais associadas a infecções virais.
       Se os pesquisadores pudessem encontrar uma forma de bloquear o acontecimento deste pico, eles poderiam reduzir o risco de certas doenças neurológicas.
      Além disso, os pesquisadores também poderiam tentar identificar os vírus que causam as chamadas tempestades de citocina particularmente mais graves, para melhor 

Vila Isabel homenageia Angola e faz tributo a Martinho da Vila


A Vila Isabel escolheu fazer carnaval com a história de Angola e sua contribuição para o Brasil. Com o enredo "Você semba la... que eu sambo cá. O canto Livre de Angola!", a escola fechou a apresentação na primeira noite de desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro e mostrou que nossa ligação com o país vai muito além da língua portuguesa.


Rodrigo Gorosito/G1
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.Martinho da Vila canta com a plateia no desfile da Vila Isabel.
A Vila encontrou nas tradições trazidas pelos negros angolanos origens do samba e fez, ao fim do desfile, um tributo a Martinho da Vila. A apresentação da escola foi assinado pela carnavalesca Rosa Magalhães.

O percurso por esta região da África começou com a comissão de frente representando a savana africana. Os integrantes passaram pela Sapucaí dentro de uma alegoria que retratava um pedaço do bioma. Negros lutavam com animais e desenvolviam coreografias sobre o carro.

A fauna selvagem angolana foi o tema do carro abre-alas. Na frente do carro, Gabriela Alves vestiu a fantasia das riquezas naturais da angola. O primeiro setor da escola trouxe foliões em alas que representavam zebras, girafas e pássaros africanos.

O segundo carro representava o "Imbondeiro, a árvore da vida". Em Angola, ele é considerada sagrado. Da árvore são tirados medicamentos e água, além e ela também costuma ser usada como esconderijo em tempos de guerra.

"Na corte da rainha Njinga" foi o nome do terceiro carro. Nascida em 1580, ela foi uma das maiores heroínas da parte central da África. Ela impressionou os portugueses por ser uma líder habilidosa e até chegou a ser batizada com o nome de Ana de Souza, mas nunca deixou de lutar contra a dominação estrangeira.

Navio negreiro

A quarta alegoria, "O navio negreiro aporta no cais do Valongo", representou a travessia dos africanos no Porto de Luanda, em Angola, até o cais do Valongo, no Rio. A chegada de Dona Tereza Cristina ao cais brasileiro foi o tema da quinta alegoria. A vinda da imperatriz fez com que o local passasse por uma grande reforma na década de 1840.

A adaptação dos negros às novas condições de vida foram contadas no sexto carro: "Festas de largo". De forma clandestina, eles recriaram seus cultos somados com novas experiências religiosas recebidas dos portugueses. Congadas, Festas do Divino e as coroações do Rei de Congo e da Rainha de Ginga aparecem no setor.

"O negro rei Martinho e sua corte" apareceram em festa no carro que fechou o desfile. Martinho da Vila é considerado embaixador cultural do Brasil em Angola. Além de um artista reconhecido ele também engajado. O sambista é filiado ao PCdoB.

Da redação, com informações do G1

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Nossa fonte: Vermelho
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Anvisa lança guia para evitar doenças transmitidas por alimentos


Conhecidas como DTA, as doenças transmitidas por alimentos podem provocar complicações na saúde, como infecções, ou até mesmo a morte de idosos, crianças, gestantes, convalescentes e outros grupos de indivíduos vulneráveis. Por isso a Anvisa lançou um guia ilustrado explicando como evitar a contaminação de alimentos na hora da manutenção e preparo.


Por Christiane Marcondes


Cartilha Anvisa

Segundo o órgão regulador, “há mais micróbios em uma mão suja do que pessoas em todo o planeta”. Pior: quando uma pessoa vai ao banheiro e não lava as mãos, ela dobra o número de micróbios entre os dedos.
Daí a importância do guia Anvisa, que pode conscientizar populações mais carentes ou mesmo pessoas que manipulam grande quantidade alimentos para servir refeições a grupos quanto aos riscos envolvidos na tarefa. Que começa com a escolha, depois armazenamento, preparo, limpeza e coleta de lixo ao final.
Bactérias na comidas micróbios podem ser divididos em vírus, bactérias e fungos. A maioria das DTA são provocadas pelas bactérias. Portanto, é preciso estar alerta já que as bactérias são responsáveis por quadros graves de saúde, como a temida infecção hospitalar, por exemplo.
     Os micróbios se multiplicam nos alimentos quando encontram condições ideais de nutrientes, umidade e temperatura. Portanto, é preciso cuidado também no armazenamento, além do preparo das refeições.
     Quando as condições do alimento são ideais para o micróbio, uma única bactéria pode se multiplicar em 130 mil durante apenas 6 horas. Daí a importância dos refrigeradores e balcões de self-service, mas esses equipamentos só evitam o perigo se estiverem na temperatura adequada: geladeira, abaixo de 5°C; balcão de self-service, acima de 60°C.
     Também é preciso estar saudável quando a pessoa for preparar o alimento. Cortes e resfriados podem contaminar a comida. É importante ainda evitar tossir, espirrar ou mesmo "falar" demais quando se está manipulando o preparo da refeição.
     A limpeza do local de trabalho é outro item fundamental à prevenção de DTA e inclui não permitir a proliferação de insetos como baratas ou ratos. Como manipular o lixo ou a correta higiene após ida ao banheiro são outros aspectos que o guia aborda com riqueza de detalhes.
Como encontrar o guia 
     As informações, organizadas em linguagem simples e ilustrada, são amplas, contemplam todos os aspectos do problema que pode desencadear verdadeiras epidemias em ambientes como um hospital, por exemplo, ou uma cantina de escola.

     A Cartilha sobre boas práticas para serviços de alimentação pode ser encontrada no site da Anvisa. Você pode baixar o documento no link: 
http://www.anvisa.gov.br/divulga/public/alimentos/cartilha_gicra_final.pdf

Nossa fonte: Vermelho 

A nova estratégia de defesa dos EUA: tentando manter o domínio

Alberto Cruz (1)

O declínio do poderio dos EUA não se detém. Esta constatação, já pouco questionável, é confirmada quando se analisam as decisões do governo Obama, como a anunciada em prática em janeiro de 2012: uma nova concepção de defesa desenvolvida a partir da Estratégia de Segurança Nacional de 2010, que se tornou obsoleta em alguns pontos devido à rapidez da mudança geopolítica dos últimos dois anos (como se reconhece agora ao dizer que uma das razões que levaram os EUA a adotar a atual mudança foi a constatação de que "não podemos prever com certeza absoluta como vai evoluir o ambiente estratégico" nos próximos anos). Os EUA falharam em suas previsões há dois anos e agora tentam curar-se através de uma surpreendente, e incomum, quase autocrítica.

Ao falar sobre política externa dos EUA, cuja base é o ESN, devemos partir de uma premissa: o desejo de seguir a estratégia delineada no início de 1950 por Hans Morgentahu, o teórico do realismo "político" nas relações internacionais, para quem "a política dos EUA na luta constante e perpétua de potência mundial, tem de ser desenvolvida em três formas: a política do status quo, a política de prestígio e política imperial" (1). Assumida como tal pelos EUA após a 2ª Guerra Mundial manteve-se inalterada por seis décadas, desenvolvendo-se com maior ou menor grau uma ou outra destas formas, tanto durante o período de confronto com a URSS na Guerra Fria como nas duas décadas em os EUA vem exercendo o papel de única superpotência mundial, após o colapso da União Soviética.
 

Sem entrar em considerações acadêmicas, é digno de nota que esses três pilares da política externa dos EUA têm sido aplicados, isoladamente e/ou em conjunto, sempre que os EUA considerem isso necessário para seus objetivos, independentemente de quem seja o ocupante da Casa Branca, e com o objetivo explícito de afirmar seus "interesses nacionais vitais" em todo o planeta.

Agora a situação mundial tornou impraticável esta histórica aplicação da política externa dos EUA. A emergência do eixo BRICs, especialmente a China; a rejeição aos EUA que se tornou visível nas rebeliões árabes, por diferente que seja de país a país; assim como o despertar regional latino-americano, com iniciativas que precisam se firmar, como a CELAC ou a Unasul, mas que demonstram o desejo de se afastar de seu vizinho ao norte, deixa como único eixo sobre o qual gira a dominação mundial dos EUA a política imperialista baseada na superioridade militar. Mas esta precisa confrontar-se com o declínio

Veja na íntegra o lúcido artigo de Albertoi Cruz em: 

Tradução: José Carlos Ruy

(1) Alberto Cruz é jornalista cientista, político e escritor. Seu último livro é
 A violência política na Índia. Para além do mito de Gandhi, publicado com a colaboração do CEPRID. Pedidos podem ser feitos ceprid@nodo50.org libros@lacaida.info
Nossa Fonte:Vermeho

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Vida e carreira de Leci serão cantadas pela Acadêmicos do Tatuapé


Leci Brandão é a homenageada do Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Tatuapé no Carnaval 2012 de São Paulo. A escola desfila no sambódromo da capital paulista na segunda-feira (20), às 3h, com o enredo “Da arte do samba, nasci para a comunidade, defesa e essência, sou guerreira, sou Leci Brandão!”.


Leci Brandão durante ensaio técnico no sambódromo / foto: divulgação

     A ideia de homenagear Leci foi do diretor de Carnaval da escola, Erivelto Coelho, que ao assistir um programa da TV Assembleia Legislativa, que a deputada estadual pelo PCdoB participava, falando sobre a importância do Carnaval.
      Os dois mil componentes da escola, pertencente ao grupo de acesso, contarão durante o desfile a vida e a carreira da artista, que se tornou parlamentar. Sambas de sucesso devem ser lembrados como Isso é Fundo de Quintal, Café com Pão e Zé do Caroço, onde fala do líder comunitário de Vila Isabel. Eles terão entre 50 e 60 minutos para percorrer a passarela do samba.
      “Recebi essa homenagem sobretudo com muita emoção. Afinal, nunca havia sido homenageada por uma escola de samba, apesar de ter sido comentarista por vários anos dos desfiles do Rio de Janeiro e de São Paulo. Também me sinto honrada por ser tema do enredo da escola no ano em que ela completa 60 anos de fundação”, declarou ao Vermelho a cantora e compositora, que começou sua carreira musical no início da década de 1970, tornando-se a primeira mulher a participar da ala de compositores da Escola de Samba Mangueira, do Rio de Janeiro.
      Leci vem no último carro alegórico da Acadêmicos do Tatuapé. Sua mãe, Dona Lecy, também estará em um dos carros. A cantora, que fez shows na quadra da escola, participou de todos os ensaios técnicos da escola no Anhembi.
A escola 

Leci e integrantes da Acadêmicos do Tatuapé / foto: divulgação
       Nas cores azul e branco, a Acadêmicos do Tatuapé completa 60 anos em 2012. Seu primeiro nome foi Unidos de Vila Santa Isabel fazendo rodas de samba na Praça da Sé, centro de São Paulo. Esteve presente no Carnaval paulistano até meados da década de 1980, com retorno em 1991 no grupo de seleção com bons resultados. Foi campeã do Grupo 1 da União das Escolas de Samba Paulistanas (Uesp) em 2010 subindo ao Grupo de Acesso. Mais recentemente, esteve no grupo Especial, entre 2004 e 2006. Nodesfile, o samba enredo será cantado pelo intérprete Vaguinho. 
     Letra do samba
O samba hoje pede passagem
Tão linda homenagem do meu pavilhão
Com a pureza de uma flor
Em Madureira a estrela nasceu 
A filha da Dona Lecy nos palcos brilhou
Guerreira, subiu o morro ao som do surdo de primeira
Mangueira, sua paixão verdadeira
Sublime o dom de compor
Eu "quero sim", seu "ombro amigo"
Com o axé dos Orixás
Não se deixou calar
"Bate tambor" que o povo quer cantar
Vem na palma da mão, vem pagodear
Quem avisa é o "Zé do Caroço"
"Olodum força divina" vi brilhar
Bailam acordes musicais
Pra embalar os seus ideais
O mundo conheceu...
Em sua voz lindas melodias
E na TV foi Severina, é divinal
Defesa da igualdade racial
"Valeu", por sua luta que emana
Cidadã Paulistana, com garra venceu!
- O que é isso meu amor, venha me dizer...
Isso é Leci Brandão, uma guerreira pra valer!
Um exemplo de amor e fé
Azul e branco, Tatuapé
Essência do samba, raiz, tradição
60 anos de emoção.


Ouça o samba:



Serviço:
Sambódromo de São Paulo: Avenida Olavo Fontoura, 1209 - Santana, SP
Telefone: 11 2226-0400
de São Paulo: Deborah Moreira

Nossa fonte:Vermelho

Michel Chossudovsky: EUA são piores do que a inquisição espanhola

Presidente e diretor do Centro de Pesquisa em Globalização (Centre for Research on Globalization), Michel Chossudovsky conversou com o ODiário.Info sobre a discussão de uma possível terceira guerra mundial, de que fala no seu livro “Towards a World War III Scenario: The Dangers of Nuclear War”. 


Por
Sara Sanz Pinto* 



Crítico da fortificação militar que os Estados Unidos estão construindo em torno da China, o professor canadiano da Universidade de Otava defende que a opinião pública é fundamental para evitar uma guerra nuclear.
ODiário.Info: Diz no seu livro que a guerra com o Irã já começou e que os Estados Unidos estão apenas à espera de um rosto humano para lhe dar. Acredita que os objetivos políticos e geoestratégicos de Washington podem levar-nos a uma guerra nuclear com consequências para toda a humanidade?
Michel Chossudovsky: Não quero fazer previsões e ir além do que aconteceu. Tudo o que posso dizer, e tenho vindo a dizê-lo de forma repetida, é que a preparação para a guerra está a um nível muito elevado. Se será levada a cabo ou não é outro patamar, e ainda não o podemos afirmar. Esperemos que não. Mas temos de considerar seriamente o fato de que este destacamento de tropas é o maior da história mundial. Estamos assistindo o envio de forças navais, homens, sistemas de armamento de ponta, controlados através do comando estratégico norte-americano em Omaha, Nebrasca, e que envolve uma coordenação entre EUA, Otan e forças israelitas, além de outros aliados no golfo Pérsico (Arábia Saudita e estados do Golfo).
Estas forças estão a postos. Isto não significa necessariamente que vamos entrar num cenário de terceira guerra mundial, mas os planos militares no Pentágono, nas bases da Otan, em Bruxelas e em Israel, estão a ser feitos. E temos de levá-los muito a sério. Tudo pode acontecer, estamos numa encruzilhada muito perigosa e infelizmente a opinião pública está mal informada. Dão espaço a Hollywood, aos crimes e a todo o tipo de acontecimentos banais, mas, no que toca a este destacamento militar que poderá levar-nos a uma terceira guerra mundial, ninguém diz nada. Isso é um dos problemas, porque a opinião pública é muito importante para evitar esta guerra. 
E isso não está a acontecer, as pessoas não estão se organizando para se oporem à guerra. Isto não é uma questão política, é um problema muito maior, e tenho de dizer que os meios de comunicação ocidentais estão envolvidos em atos de camuflagem absolutamente criminosos. Só o fato de alinharem com a agenda militar, como estão a fazer na Síria, onde sabemos que os rebeldes são apoiados pela Otan, na Arábia Saudita e em Israel, e como fizeram na Líbia, é chocante do meu ponto de vista, porque as mentiras que se criam servem para justificar uma intervenção humanitária. Em vez de uma guerra nuclear, não podemos assistir a um cenário semelhante à Guerra Fria, com os EUA, a União Europeia e Israel de um lado e a China, a Rússia e o Irã do outro?
Esse cenário já é visível. A Otan e os EUA militarizaram a sua fronteira com a Rússia e a Europa de Leste, com os chamados escudos de defesa antimíssil – todos esses mísseis estão apontados a cidades russas. Obama sublinhou em declarações recentes que a China é uma ameaça no Pacífico – uma ameaça a quê? A China é um país que nunca saiu das suas fronteiras em 2 mil anos. E eu sei, porque investigo este tema há muito tempo, que está sendo construída toda uma fortaleza militar em volta da China, no mar, na península da Coreia, e o país está cercado, pelo menos na sua fronteira a sul. Por isso a China não é a ameaça. Os EUA são a ameaça à segurança da China. E estamos numa situação de Guerra Fria. Devo mencionar, porque é importante para a UE, que, no limite, os EUA, no que toca à sua postura financeira, bancária, militar e petrolífera, também estão a ameaçar a UE. Estão por trás da destabilização do sistema bancário europeu.
ODiário.Info: E a colocação de mais tropas em torno da China vai trazer mais tensão à região.
MC: Quanto a isso não tenho dúvidas, porque os EUA estão aumentando a sua presença militar no Pacífico, no oceano Índico e estão tentando ter o apoio das Filipinas e de outros países no Sudeste Asiático, como o Japão, a Coreia, Singapura, a Malásia (que durante muitos anos esteve reticente a juntar-se a esta aliança). Portanto, Washington está formando uma extensão da Otan na região da Ásia-Pacífico, direcionada contra a China. Não há dúvidas quanto a isto. E não se vence uma guerra contra a China. É um país com uma população de 1,4 bilhões de pessoas, com um número significativo de forças, tanto convencionais como estratégicas. Por isso, com este confronto entre a Otan e os EUA, de um lado, e a China, do outro, estamos num cenário de terceira guerra mundial. E toda a gente vai perder esta guerra. Qualquer pessoa com um entendimento mínimo de planejamento militar sabe que este tipo de confronto entre superpotências – incluindo o Irã, que é uma potência regional no Médio Oriente, com uma população de 80 milhões de pessoas – poderá levar-nos a uma guerra nuclear. E digo isto porque os EUA e os seus aliados implementaram as chamadas armas nucleares tácticas – mudaram o nome das bombas e dizem que são inofensivas para os civis, o que é uma grande mentira.
ODiário.Info: Mentira porquê?
MC: Está escrito em todos os documentos que a B61-11 [arma nuclear convencional] não faz mal às pessoas e planeiam usá-la. Tenho examinado estes planos de guerra nos últimos oito anos, e posso garantir que estão prontos a ser usados e podem ser acionados sem uma ordem do presidente dos EUA. Olhe para o que eles designam “Nuclear Posture Review” de 2001, um relatório fulcral que integra as armas nucleares no arsenal convencional, sublinhando a distinção entre os diferentes tipos de armas e apresentando a noção daquilo que chamam “caixa de ferramentas”. E a caixa de ferramentas é uma coleção de armas variadas, que o comandante na região ou no terreno pode escolher, onde estão estas B61-11, que são consideradas armas convencionais. Se quiser posso fazer uma analogia, é a mesma coisa que dizer que fumar é bom para a saúde. As armas nucleares não são boas para a saúde, mudaram o rótulo e chamaram–lhes bombas humanitárias, mas têm uma capacidade destruidora seis vezes superior à de Hiroxima.
ODiário.Info: Mas a maior parte das pessoas não parece consciente da gravidade do cenário…
MC: A ironia é que a terceira guerra mundial pode começar e ninguém estará sequer a par, porque não vai estar nas primeiras páginas. Na verdade, a guerra já começou no Irã. Têm forças especiais no terreno, instigaram todo este tipo de mecanismos para desestabilizar a economia iraniana através do congelamento de bens. Há uma guerra da moeda em curso – isto faz parte da agenda militar. Desestabilizando-se a moeda de um país desestabiliza-se a sua economia, bloqueiam-se as exportações de petróleo, e isto antecede a implementação de uma agenda militar. Se eles puderem evitar uma aventura militar contra o Irã e ocupar o país através de outros meios, fá-lo-ão. É isso que estão a tentar neste momento. Querem a mudança de regime, o colapso das petrolíferas, apropriar-se dos recursos do país, e têm capacidade para fazer isto tudo sem uma intervenção militar, embora alguma possa vir a ser necessária. Mas o Irã é considerado uma das maiores potências militares da região e basta olharmos para as análises da sua força aérea, a sua capacidade em mísseis, as suas forças convencionais que ultrapassam um milhão de homens (entre ativo e reserva), o que permite que de um dia para o outro consiga mobilizar cerca de metade, ou até mais. Tendo em conta estes números, os EUA e os seus aliados não conseguem vencer uma guerra convencional contra o Irã, daí a razão pela qual estão a tentar fazer a guerra com outros meios, e um desses meios é o pretexto das armas nucleares.
ODiário.Info: Acha que o Ocidente pode lançar um ataque preventivo contra o Irão mesmo sem provas?
MC: Claro que sim! Olhe para a história dos pretextos para lançar guerras. Olhe para trás, para todas as guerras que os EUA começaram, a partir do século XIX. O que fazem sistematicamente é criar aquilo que chamamos incidente provocado para começar a guerra. Um incidente que lhes permite justificar o início de um conflito por motivos humanitários. Isto é muito óbvio. Em Pearl Harbor, por exemplo, sabe-se que foi uma provocação, porque os EUA sabiam que iam ser atacados e deixaram que tal acontecesse. O mesmo se passou com o incidente no golfo de Tonkin, que levou à guerra do Vietnã. E agora são vários os pretextos que emergem contra o Irã: as alegadas armas nucleares são um, outro é o alegado papel nos atentados 11 de Setembro, pois desde o primeiro dia que acusam o país de apoiar os ataques, a afirmação mais absurda que podem fazer, pois não existem quaisquer provas. Mas os media agarram nestas coisas e dizem “sim, claro”.
ODiário.Info: Pode explicar às pessoas de uma forma simples a relação entre guerra contra o terrorismo e batalha pelo petróleo?
MC: A guerra contra o terrorismo é uma farsa, é uma forma de demonizar os muçulmanos e é também a criação, através de operações em segredo dos serviços secretos, de brigadas islâmicas, controladas pelos EUA. Sabemos disso! Estas forças, ligadas à Al-Qaeda, são uma criação da CIA de 1979. Por isso a guerra contra o terrorismo é apenas um pretexto e uma justificação para lançar uma guerra de conquista. É uma tentativa de convencer as pessoas de que os muçulmanos são uma ameaça e de que estão a protegê-las e para isso têm de invadir países perigosos, como o Irã, o Iraque, a Síria e a Coreia do Norte, que perdeu 25% da sua população durante a Guerra da Coreia, mas, no entanto, continua a ser tida como uma ameaça para Washington. É absurdo! Os americanos são um pouco como a inquisição espanhola. Aliás, piores! O que mais me choca é que os EUA conseguem virar a realidade ao contrário, sabendo que são mentiras e mesmo assim acreditando nelas. A guerra contra o terrorismo é uma mentira enorme, mas todas as pessoas acreditam e o mesmo se passava com a inquisição espanhola – ninguém a questionava. As pessoas conformam-se com consensos e quem assume a posição de que isto não passa de um conjunto de mentiras é considerado alguém em quem não se pode confiar e provavelmente perderá o emprego. Por isso esta guerra é contra a verdade, muito mais séria que a agenda militar. Contra a consciência das pessoas – parece que ninguém está autorizado a pensar. E depois vêm dizer-nos “Ah, mas as armas nucleares são seguras para os civis”. E as pessoas acreditam.
ODiário.Info: Será Israel capaz de atacar Irã sem o apoio dos EUA?
MC: Não. Eles podem enviar as suas forças, por exemplo para o Líbano, mas o seu sistema está integrado no dos EUA e, como o Irã tem mísseis, têm de estar coordenados com Washington. É uma impossibilidade em termos militares. Em 2008, o sistema de defesa aérea de Israel foi integrado no dos EUA. Estamos a falar de estruturas de comando integradas. Quer dizer, Israel pode lançar uma pequena guerra contra o Hezbollah ou até contra a Síria, mas contra o Irã terá de ser com a intervenção do Pentágono. Embora tendo uma fatia significativa de militares, Israel tem uma população de 7 milhões de pessoas e não tem capacidade para lançar uma grande ofensiva contra o Irã.


Sara Sanz Pinto é jornalista.
Fonte: ODiário.info

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Após Ficha Limpa, movimentos querem eleições sem verba privada

Supremo Tribunal Federal valida lei que veta candidatura de pessoas com condenação judicial ou política. Nova regra já valerá para eleições municipais de outubro. Para movimentos sociais, próximo passo para melhorar política é proibir doação de empresas para campanhas eleitorais. Entidades vão colher assinaturas para projeto popular que cria financiamento público.

Brasília - O Supremo Tribunal Federal (STF) ainda nem tinha concluído o julgamento que garantiu a validade da Lei da Ficha Limpa para as eleições municipais deste ano, por 7 votos a 4, nesta quinta-feira (16), e os movimentos de combate à corrupção e pela ética na política já anunciavam a próxima luta prioritária: reforma política com financiamento público de campanha.
“Já estamos colhendo assinaturas para um novo projeto de lei de iniciativa popular que assegure o financiamento público de campanha, para que os candidatos vocacionados tenham igualdade de oportunidade com os que têm acesso aos recursos financeiros”, afirmou a diretora do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), Jovita José Rosa. 

Segundo ela, é preciso aproveitar esse movimento de grande mobilização e festa em torno da vitória da Ficha Limpa para avançar ainda mais na moralização da política brasileira. “A declaração da constitucionalidade da lei mostra que, quando a sociedade se une, ela consegue mudar a realidade”, disse Jovita, explicando que a mobilização para colher as assinaturas necessárias para a nova lei será intensificada.

Na verdade, os movimentos também tinham a esperança de que o projeto de lei de reforma política que tramita na Câmara, sob relatoria do deputado Henrique Fontana (PT-RS), pudesse vingar. Entretanto, apesar da pressão dos movimentos sociais e dos esforços pessoais do relator, não houve acordo para que o projeto, que acaba com doações privadas, sequer fosse votado.

O advogado Marcelo Lavenere, da Comissão Brasileira Justiça e Paz da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reforça a importância do financiamento público de campanha e propõe também a extensão do critérios da Ficha Limpa para todos os ocupantes de função pública. 

“Nossa luta não termina aqui. Vamos propor outras medidas, como a extensão das exigências da Lei da Ficha Limpa para todos os ocupantes de funções públicas e o financiamento público das campanhas, que deixarão de ser feitas com dinheiro de empresas que, depois da eleição, vão cobrar, em favores, os candidatos que ajudaram a eleger”, disse. 

Lavenere revela que a extensão da Ficha Limpa a todo e qualquer ocupante de cargo público começou a crescer durante o julgamento da Lei. “Vamos lançar uma campanha para que todos os candidatos a prefeito, que já serão fichas limpa, se comprometam a contratarem um staff formado apenas por cidadãos não condenados pela Justiça. E com o tempo vamos estendendo a prática para governos estaduais, federal, legislativo e judiciário. Isso será uma outra revolução na política brasileira”.

Ficha Limpa em vigor
Dois anos após a Ficha Limpa ser sancionada, o STF determinou sua constitucionalidade, em um julgamento iniciado em novembro.

A lei impõe várias barreiras a quem quer se candidatar. O interessado não pode ter sido condenado por crimes comuns em tribunal que tomou decisão coletiva (de um juiz sozinho não vale), ainda que recorra a uma corte superior. Não pode ter sido cassado – seja presidente, governador, prefeito, parlamentar -, nem condenado na Justiça Eleitoral por comprar voto ou abusar do poder econômico. Em todos os casos, a candidatura fica proibida enquanto durar a pena.

A última etapa do julgamento começou com os voto dos ministros Ricardo Lewandowski e Carlos Ayres Britto que votaram integralmente a favor da constitucionalidade da lei. 

Lewandowski lembrou que a Ficha Limpa surgiu da iniciativa popular, foi proposta por mais de 1,5 milhões de eleitores, recebeu apoios de igual número de pessoas, formalizados pela internet, foi aprovada por unanimidade por 513 deputados e 81 senadores e sancionada sem nenhum veto pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Todas as opções legislativas foram feitas de forma consciente, bem dosada”, justificou.

“Uma pessoa que desfila por toda a passarela do Código Penal pode ser apresentar como candidato? Candidato vem de cândido, de puro”, lembrou Britto. Ele avaliou que a Ficha Limpa vai ao encontro de outras duas matérias julgadas pelo tribunal este ano, que representam não só o endurecimento da legislação, mas uma verdadeira mudança de cultural no país. 

São elas a lei Maria da Penha, que, segundo o ministro, “se propõe a excomungar o patriarcalismo”, e o reconhecimento do poder do CNJ de investigar juízes, que, nas palavras dele, “ataca a cultura do biombo”. Para Britto, a Ficha Limpa “implantará no país a qualidade da vida política”.

O ministro Gilmar Mendes votou contra a lei. Segundo ele, um candidato que não foi condenado em última instância não pode ficar inelegível. O ministro também criticou a prerrogativa concedida pela Ficha Limpa de tornar inelegíveis profissionais expulsos por conselhos de classe por infração ético-profissional. 

O ministro Marco Aurélio de Mello surpreendeu ao aprovar a validade da Ficha Limpa. Sua única ressalva foi no sentido de garantir que a lei não retroceda para alcançar delitos ocorridos antes da sua validade. Para ele, os preceitos da Ficha Limpa “visam à correção de rumos nessa sofrida pátria, considerado um passado que é de conhecimento de todos”.

O ministro Celso de Mello também manteve a posição original de votar contra. Ele fez diversas intervenções durante o julgamento, alguma delas bastante apelativas, com o objetivo de convencer os colegas a mudarem o voto. O presidente da corte, Cezar Peluso, acompanhou o entendimento dele e do ministro Gilmar Mendes. Ambos acabaram vencidos.

O ministro José Antônio Dias Toffoli, que reabriu o julgamento, na quarta, votou pela inconstitucionalidade parcial da Lei, alegando que tornar o candidato inelegível antes da sentença transitar em julgado fere o princípio da presunção de inocência. Nos demais aspectos, acompanhou o voto favorável do relator.

Já haviam votado favoráveis à lei, na sessão de quarta, as ministras Rosa Weber e Carmem Lúcia. Em dezembro, antes do julgamento ser suspenso devido ao pedido de vistas do ministro Antônio dias Toffoli, também votou favorável o ministro Joaquim Barbosa. 

O relator, ministro Luiz Fux, primeiro a apresentar o voto, fez apenas uma ressalva: fixar o prazo previsto para inelegibilidade, de oito anos, a partir da primeira condenação em órgão colegiado. A lei prevê que este prazo comece a contar após condenação em última instância. Neste aspecto, também foi vencido pelos colegas.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Dilemas humanos perante a crise econômica: perspectivas

Guilherme C. Delgado

            Pensar que a vida humana em sociedade depende de maneira crescente do funcionamento do sistema econômico é uma idéia que chega a provocar medo, especialmente em momentos de crise funcional ou estrutural da própria economia. Como essas situações críticas ocorrem cada vez mais freqüentemente e de maneira profunda, provavelmente temos problemas de fundamentos não devidamente enfrentados.
           Veja-se no receituário aviado esta semana pela União Européia para os novos "ajustes" impostos a Grécia: corte de valores do salário mínimo, das aposentadorias e pensões e demissão expressiva de funcionários públicos, para uma economia que já carrega o mais alto nível de desemprego da Europa, depois de quatro anos de decréscimo da atividade econômica. Tudo isso é imposto, sob pena de exclusão da zona do euro, pela União Européia e, indiretamente, pela própria economia mundial na sua conformação atual.
          Implícita a essa punição aos gregos, há uma curiosa captura teológica da tese do sacrifício purgatório, mas de maneira completamente invertida do seu significado cristão. A cruz na qual o povo grego está sendo pregado é a mesma que os romanos utilizaram para desmoralizar publicamente os rebeldes do império ? exemplo de crueldade exemplar para punir com morte dolorosa os "criminosos", segundo a visão de Roma. Esse sacrifício impõe escravização e morte e nada tem a ver com a experiência de liberdade, Ressurreição e plenitude da vida que é a resposta de Jesus Cristo à cruz romana.
           O exemplo da Grécia é apenas um caso particular de uma situação mais geral, que em pleno século XXI assume uma densidade nunca dantes verificada na história do capitalismo dos últimos 250 anos. Uma proporção grande demais dos 7 bilhões de seres humanos em todo o mundo depende do funcionamento da economia mercantil para produzir e reproduzir condições essenciais à vida humana em sociedade. Moradias, alimentos, vestuário, água potável, terras, saúde e educação, convertidos em bens mercantis. Dependem de empregos, que em última instância provêem dinheiro,  meio de troca para suprir necessidades. Observe-se que no Século XXI a dependência da reprodução da vida humana em relação ao funcionamento da economia capitalista é infinitamente maior do que fora nos anos 30 do século passado.
           Necessidades humanas básicas quando convertidas em mercadorias de consumo de massa impõem à economia política exigências éticas que são completamente estranhas ao utilitarismo social, fundamento ético da economia capitalista desde Adam Smith até os nossos dias. E não basta, como propunha Keynes na sua obra clássica, uma agenda de justiça social para além da sua Teoria Gera. Hoje há que se pensar a "idéia da justiça" e da liberdade no cerne do desenvolvimento humano, a exemplo do economista indiano Amartya Sen, sob pena de reproduzirmos uma contradição insanável no processo de crescimento material da economia relativamente às condições de cidadania da maioria da população.
           Por outro lado, a dinâmica real de crescimento do capital financeiro em escala global e sua absoluta hegemonia nos planos econômico e político nos Estados centrais do sistema mundial obstam a concretização de limites políticos à completa liberalidade de acumulação e circulação desse capital. Em tais condições, crises sucessivas de caráter estritamente financeiro, como foi o caso das hipotecas imobiliárias nos EUA em 2008 e atualmente a crise de endividamento dos países menos desenvolvidos da zona do euro, convertem-se rapidamente em problemas de desemprego em massa, com alto potencial de contaminação para a economia mundial. Em face desse risco iminente, a solução das crises financeiras tem sido pela via da da socialização das perdas, sem afetar e responsabilizar seriamente os promotores do super-endividamento das famílias.
           Os remédios contra o desemprego, a instabilidade e a desigualdade econômica que emergiram nos anos 30 e 40 do século passado, de inspiração keynesiana,  planejamento governamental do investimento, Estado do bem Estar, estrito controle das operações monetário-financeiras pelos Bancos Centrais - continuam válidos para economias nacionais, mas impotentes no plano global. Mesmo nas economias nacionais, estão sob intenso ataque dos arautos do capital e do dinheiro plenamente liberados.
           Do exposto parece-nos evidenciada a necessidade de reconstrução das próprias bases da economia política contemporânea, no contexto da qual a política social adquiriria centralidade, no sentido da garantia das condições de reprodução da vida humana em sociedade. Isto certamente só é possível sob a égide de um sistema econômico protegido da instabilidade intrínseca da acumulação financeira. Tais assertivas soam evidentemente utópicas quando confrontadas com os poderes globais ora constituídos. O problema maior é que tais poderes em crises sucessivas de dominação não sinalizam bons presságios para a humanidade.

           Guilherme Costa Delgado é doutor em Economia pela UNICAMP e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

Nossa fonte: O Berro

Habitação: especulação e moradia


O crescimento acelerado da economia e os investimentos feitos na área imobiliária, inclusive os feitos pelo governo federal para as classes de menor renda, tiveram também seu efeito colateral, segundo análise do secretário de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente, Nabil Georges Bonduki, professor-doutor em assuntos de Habitação Urbana pela FAU-USP.


De acordo com o secretário, as consequencias são uma alta valorização da terra urbana, que acabam provocando uma forte especulação imobiliária e anulando os efeitos de políticas habitacionais para a população de baixa renda.

“O país voltou a crescer, voltou a investir em áreas importantes, transporte e outras coisas, inclusive habitação. Urbanização das favelas é um bom exemplo. O que acabou acontecendo, no entanto, foi uma valorização exagerada da terra e as políticas habitacionais, embora com recursos, acabaram por não responder às necessidades”, afirma Bonduki.

Grandes obras de planejamento urbano destituídas de uma política fundiária para conter a especulação imobiliária resultam na expulsão dos mais pobres. “Projetos urbanos, projetos viários e crescimento que, em tese, seriam positivos, têm como conseqüência a expulsão dos mais pobres, não somente por via direta (como remoções de ocupação), mas também indireta, (preços e custo de vida)”, diz Nabil Bonduki. “A procura de terras por pessoas de renda mais alta, criou uma dificuldade de atender a demanda popular”, conclui.

Acontecimentos como os incêndios de favelas em São Paulo são colocados pelo professor como resultado de uma disputa por terras no mercado imobiliário. “O problema de habitação na cidade de São Paulo se agrava por conta do tamanho da cidade e indisponibilidade de terra, sem contar superaquecimento do mercado imobiliário”, afirma. Programas federais acabam não respondendo ao déficit habitacional específico da maior capital do país, pois a cidade convive com particularidades que devem ser levadas em consideração na procura de saídas. 

“Por exemplo, o programa Minha Casa, Minha Vida, em outras cidades, acaba localizando os conjuntos na periferia; em São Paulo, isso fica mais difícil. Aqui tem o problema dos mananciais, das grandes distâncias e de uma disputa da terra para habitação da periferia com condomínios fechados”.

Governos tucanos

Frente às especificidades da cidade, o governo tucano não tomou medidas de política urbana. Seria fundamental, na opinião de Bonduki, a participação municipal para a regulamentação do uso do solo paulistano. “No fundo, quando falamos política fundiária, claro que o governo federal tem um papel, mas o principal é o município, é ele quem regulamenta o uso do solo da cidade”

Na cidade de São Paulo, a partir de 2005, a gestão tucana retrocedeu em relação a certos avanços na área da Habitação obtidos em administrações anteriores, como, por exemplo, no Programa de Reabilitação da Área Central, coerente com o então Plano Diretor Estratégico. O Conselho Municipal de Habitação, instituído por lei de 2002, da administração Marta Suplicy, perdeu sua eficácia quando o governo do PSDB conseguiu maioria de seus integrantes.

“De uma maneira geral, eu diria que ele [Conselho] está esvaziado como fórum de decisão, nada efetivamente importante passa por ele. Isto faz com que o Conselho deixe de ser um espaço de controle social e participação” critica Bonduki. Já em relação ao Plano Diretor Estratégico, o professor faz fortes críticas ao atual governo municipal, “muitos instrumentos que o PDE previa não foram implementados.”

As secretarias de Habitação e Planejamento são fundamentais para efetivação de um projeto inteligente de habitação que, segundo o professor, “poderiam, de maneira mais forte, ter implementado os instrumentos urbanísticos. O IPTU progressivo para os terrenos vazios demorou, foi alcançado pela Câmara e não pelo Executivo, e ainda restrito só a Área Central”. Ele ainda alerta que houve mudanças substanciais na conjuntura que devem fazer rever o projeto: “Este quadro novo, de mais investimentos gerais na cidade, em habitação, financiamento, é um quadro muito diferente do de 2002, quando foi feito o PDE. O programa deve ser aprofundado naquilo que propôs: em regras pra conter a valorização das terras da cidade e pensar as leis em função do processo de investimentos que serão feitos agora na cidade”. 

O professor pensa em uma contabilização conjunta nos orçamentos de obras que se levantam na cidade paulistana. “É necessário um plano de orçamento em Habitação da própria obra”. Com o crescente investimento em grandes obras na cidade, o professor sugere um cálculo previsto para atender às demandas de habitação, crucial para que o avanço e melhoria do espaço urbano, não seja um fator para expulsão dos mais pobres.

O problema da especulação acontece à revelia da vontade pública, mas é na vontade pública e no seu plano de governo que reside mecanismos de regulação e controle do valor abusivo do solo paulistano, concluiu o urbanista.

Fonte: Carta Maior