Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

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domingo, 17 de fevereiro de 2013

A Praia da Areia Preta



Dona Pandá chegou de sua viagem  a Guarapari. Foi passar uma semana com sua irmã que tem lá um apartamento pra lá de bem localizado. Fica na beira da praia – ela não se chama Teresa – da Areia Preta. Da copa-sala, da varanda e de um dos quartos se vê o mar. O prédio fica numa esquina. A entrada principal está no final de uma rua sem saída – onde há uma escadaria para a praia - e a outra entrada, num calçadão da praia.

Pela manhã, quem se levantasse primeiro corria até ali, na padaria, para buscar o pão quentinho, além de ser integral ainda chega à mesa cheiroso,  abrindo o apetite para aquele café bem acompanhado. Hora de contar os sonhos. A Mana, que é a sábia, entende do recado... dos sonhos. Dona Pandá, embalada por esse entendimento e pelo barulho do mar que ela vê, enquanto degusta seu mamãzinho, percebeu,  admirada, que se lembrava do que sonhara. Grande novidade! Presente de Guarapari! Segundo ela, não conseguia, praticamente durante a vida toda, saber o que sonhava.

Dona Pandá quer continuar contando o típico dia das duas e deixar o assunto dos sonhos para especialistas porque o máximo que poderia fazer seria contar os sonhos, mas sonho só para os íntimos, sem ofender os leitores. (Ela está me corrigindo: não quer contar para não entediar os amigos leitores.)

Após a sessão do protetor solar, vestidas com seus maiôs cobertos por belas cangas e munidas dos apetrechos necessários ao conforto da curtição praiana, lá vão as duas coroas enxutas – uma acha que a barriga está saliente em demasia e a outra, que precisa de mais alguns quilinhos - . Sentam-se admirando o verde das águas e recomeçam o papo. Até onde me é permitido, assunto não falta para essas duas, embora reconheça ser bem injusta, pois tenho certeza de que Dona Pandá dá pouco espaço para a fala de sua interlocutora.

Aproxima-se,  bem pertinho de nossas amigas, um garoto de seus 10 anos e murmura alguma coisa que a Mana – frequentadora de longa data do local – traduz como:
- Quer alguma coisa? – A tradução literal é pouco para a chacareira paulista que embarca na fantasia:
- Quero ver meu filhote sorridente tocando sua bateria. O menino pergunta:
- Teria o que? – Flagrada, ela devolve a pergunta:
- O que vc tem? – Escuta, então, uma lista de produtos, como picolé, salgadinhos, coco etc. A Mana explica o costume, o avô vende, ficando num lugar fixo e o menino percorre a praia oferecendo.  Pedem duas águas de coco. O garoto sai em dispara e logo volta acompanhado de outro mais velho que o ajuda a carregar o pedido e estende a mão para receber o pagamento. Este gesto lhe rende a antipatia de Dona Pandá que não só faz uma careta, como ainda comenta a esperteza do moleque. A Mana ri pelo previsível da reação.

Nos dias seguintes, bastavam chegar para o menino, todo sorridente, vir oferecer seus produtos. Impossível resistir àquela carinha simpática de malandréu pidão. Seu nome e sua vidinha são bem comuns. Chama-se Paulinho, é o oitavo filho de uma lavadeira e seu pai morreu na construção atrapalhando o tráfego. Moram todos com os avós. Enquanto a mãe vai trabalhar, os dois menores ajudam o avô que, no verão, abandona o serviço de pedreiro para fazer a boca na praia. A simpatia de Paulinho lhe rende boa gorjeta, mas ontem - conta o avô - ele perdeu R$ 4,50 com essa mania de guardar a grana debaixo do boné.

A praia da Areia Preta não é extensa e mesmo assim há uma grande diferença nas ondas. Em alguns pequenos trechos, são traiçoeiras e, ajudadas pelas depressões na areia, tornam-se perigosas. Alguns metros mais adiante, são amigas. Calmas acariciam sua pele e massageiam seu corpo, permitem flutuar num relaxamento gostoso. Mana dá a dica, é só observar os frequentadores. Eles já sabem. Onde não há ninguém, que ninguém se atreva. O nome da praia é óbvio, suas areias são pretas, famosas pelas propriedades medicinais. É comum ver as pessoas enterrarem  seu corpo ou parte dele, aguardando os efeitos benéficos para as dores, sobretudo as provocadas por artrose e suas primas.

Mana sabe as manhas das boas refeições, um prato feito delicioso; um café com seus acompanhamentos, inclusive um bolo de milho verde que os capixabas chamam atrevidamente de pamonha, mas que, de fato, é dos mais gostosos; um sorvete irresistível e ainda há as barracas já eleitas pela qualidade dos quitutes, como é o caso da de cocada. Depois do almoço, a opção ficava entre uma soneca e um passeio pelas vitrines, que terminava no café disputando com o sorvete. Afinal, resistir pra quê?

À noite, a varanda chama. O barulho das ondas, batendo na areia e na escadaria, convida ao devaneio que interrompe a boa leitura. Mana se encantava com a vida de Tim Maia e  Dona Pandá se divertia com Veríssimo. Algumas crônicas, vindas pelas gentis mãos da chacareira mineira, trazendo reflexões mais sérias, contrabalançavam o humor verissiano. 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Encontro de Cordel reúne escritores e xilógrafos em Brasília




Escritores e xilógrafos encerraram em Brasília, nesta sexta-feira (15) o 2º Encontro Nordestino de Cordel. Os principais objetivos do evento foram o reconhecimento da literatura popular, criar um sindicato para os poetas populares e discutir a realização da primeira bienal sobre o tema.

Para o cordelista e criador do projeto cordel em sala de aula, Arievaldo Viana Lima, a ideia é dar andamento a vários projetos discutidos no primeiro encontro, como a criação do sindicato. “O que nós queremos é reconhecimento do cordel como uma vertente literária e não como uma peça folclórica”.

Lima destacou ainda a contribuição cultural do cordel na Região Nordeste. “Oitenta por cento da população nordestina é considerada analfabeta, entretanto, se produziam 100 mil exemplares de folhetos [de cordel] e eles se esgotavam em seis meses. Como uma população tida como analfabeta consumia 100 mil exemplares de uma obra? A população buscava uma forma de se informar, de se autoalfabetizar”.

Antônio Francisco Teixeira de Melo, de 64 anos, escreve e recita versos há 19 anos. Aprendeu a ler com o cordel que o pai sempre comprava. Escreveu seu primeiro cordel por brincadeira e desde então não parou, já publicou seis contos. “Eu escrevo para fazer um mundo menos ruim”. Para ele, o cordel “é escrever e meditar". "O cordel é ver as coisas que a gente não consegue vê com os olhos, ele é como uma luneta. É também a identidade do nordestino”.

O xilógrafo e presidente da Associação dos Gravadores do Cariri no Ceará, José Lourenço Gonzaga, trabalha com a xilogravura de cordel há 30 anos. Ele conta que a técnica chegou ao estado por meio de um dos maiores incentivadores do cordel no Ceará, José Bernardo. “O processo dessa técnica requer a arte de esboço do desenho, de retalhamento e de impressão da gravura".

Gonzaga conta que não existem cursos específicos que ensinam a técnica em oficinas. “Tivemos uma oficina na Bienal do Livro aqui em Brasília no ano passado e já fomos convidados para ministrar oficinas de xilogravura na próxima Bienal do Livro, que ocorrerá aqui em 2014".

Formado em Artes Plásticas pela Universidade de Brasília (UnB), Valdério Costa trabalha há 20 anos com a xilogravura, técnica que aprendeu na infância. Em sala de aula, Costa ensina a técnica com foco no resgate da cultura popular brasileira. “Talvez a cultura popular não seja tão veiculada na mídia, mas é uma coisa que representa a tradição do nosso Nordeste. E quando se tem uma formação acadêmica, é imprescindível mantê-la".

Fonte: Agência Brasil (Nossa fonte: Vermelho)



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Sobre a Vila Isabel e o patrocínio da Basf


(Por implacavel
Do blog Pelenegra)

A vitória da "Vila", a derrota de Martinho

Por Sergio J Dias e Luis CArlos Maximo

Nenhuma escola de samba cantou tanto as lutas do povo brasileiro, quanto a Unidos de Vila Isabel. São da Vila, os enredos campeões - Kizomba, Festa de um Povo e Soy Loco por ti América, Latinidad - de fortes conteúdos de esquerda e vanguardistas. Na condução desta trajetória encontramos o principal intelectual do samba brasileiro e um dos maiores da nossa história recente, Martinho da Vila. Com uma caminhada singular, Martinho incorporou os desejos do nosso povo por uma vida melhor e uma sociedade mais justa, social e racialmente. E, estas aspirações foram impressas na "Vila", em cada enredo, em cada alegoria, em cada fantasia, em cada verso de samba. São de Luis Carlos da Vila, Jonas e Rodolfo estes versos belíssimos, que a "Vila" soube tão bem representar:

"Valeu Zumbi!
O grito forte dos Palmares
Que correu terras, céus e mares
Influenciando a abolição
Zumbi valeu!
Hoje a Vila é Kizomba
É batuque, canto e dança
Jongo e maracatu
Vem menininha pra dançar o caxambu (bis)
Ôô, ôô, Nega Mina
Anastácia não se deixou escravizar (bis)
Ôô, ôô Clementina
O pagode é o partido popular
O sacerdote ergue a taça
Convocando toda a massa
Neste evento que congraça
Gente de todas as raças
Numa mesma emoção
Esta Kizomba é nossa Constituição (bis)
Que magia
Reza, ajeum e orixás
Tem a força da cultura
Tem a arte e a bravura
E um bom jogo de cintura
Faz valer seus ideais a beleza pura dos seus rituais
Vem a Lua de Luanda
Para iluminar a rua (bis)
Nossa sede é nossa sede
De que o "apartheid" se destrua
Valeu!"
Uma ode à luta do movimento negro e dos movimentos sociais contra o racismo e a exploração.
Basf e Rosa Magalhães
Todavia, quis o destino que esta história se imantasse com as energias da escuridão e do conservadorismo. Veio o patrocínio da Basf, Ínsumos Agrícolas - empresa multinacional, processada por trabalhadores, como observamos no link: TST discute indenização a trabalhadores da Basf e Shell contaminados, e produtora de agrotóxicos, defensivos agrícolas.
Na goela da "Vila" foi empurrado o enredo: "A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo - Água no feijão que chegou mais um". Nada de MST, comunidades remanescentes de quilombo, ou a luta dos povos indígenas por suas reservas, cantou-se as realizações do agronegócio, sua pujança e poder. A comissão de frente apresentou felizes fazendeiros a partilhar o anarriê das quadrilhas francesas, tão forte em solo nacional. Esqueceu-se o jongo, o caxambu, a congada, o reizado, a folia de reis e tantas outras manifestações campesinas. Desprezou-se Francisco Julião e João Pedro Stédile, lembramos Roberto Rodrigues.
Para artífice desta construção contratou-se a mais conservadora das carnavalescas: Rosa Magalhães. Com seu estilo pomposo e barroco deu o contorno esperado pelas hostes reacionárias ao enredo. Ah! Que belos girassóis!

A amargura de Martinho
Entretanto, nada foi mais triste, do que perceber o desconforto e a amargura estampada no rosto de Martinho, um corpo ausente da apuração. Seus olhos estavam mortos, doloroso presente para seus 75 anos de vida. Talvez pensasse, poderia ter gritado mais, poderia não ter parceria no samba, poderia não ter desfilado, mas pouco adiantaria, o mal já estava feito.

O capital agrário internacional
O capital agrário internacional precisava dar mais uma demonstração de força. Sua dança, sua música, seus rítmos e sua cultura emolduram as cidades. O Brasil se desindustrializa a olhos vistos. A China avança sem delongas. Voltamos ao século XIX, de novo raciocinamos como "celeiro do mundo" e assim nos querem. A "Vila" de Martinho é apenas mais um instrumento. Há vitórias que soam muito mais como derrotas e esta foi uma dessas




Debate sobre inflação: o eterno retorno


 O mais importante, neste momento pós-carnavalesco, é que o governo Dilma não se deixe cair na armadilha da ortodoxia comandada pelos interesses da banca, e aumente o juro para combater a inflação. Caso realmente alguma medida precise ser tomada, que se eleve o depósito compulsório dos bancos junto ao Banco Central. O efeito de redução da demanda será o mesmo. A análise é de Paulo Kliass 


Passado o período da anestesia geral, a que o Brasil anualmente se submete durante o carnaval, tudo indica que a partir de agora o ano vai começar mesmo prá valer. O momento letárgico contribuiu para amortecer o sentimento generalizado de indignação com a eleição dos dirigentes do Congresso Nacional. E também para deixar um pouco recluso ao tema do Bloco do Pacotão, em Brasília, o medíocre crescimento da economia alcançado em 2012 – “o Pibinho da Dilma e do Mantega”.

Agora as páginas de economia dos grandes meios de comunicação já começam a definir os itens da pauta prioritária das demandas do financismo para os meses que se aproximam. Uma leitura atenta do foco apresentado pelos chamados “especialistas” de plantão do setor financeiro, sempre chamados a dar sua opinião sobre o desempenho da economia, começa a criar uma espécie de unanimidade em torn o do tema da vez. O escolhido parece ter sido a inflação. Assim, há uma grande probabilidade de que esse seja o principal gancho, nessa eterna tentativa de recolocar a ortodoxia no centro do palco.

O receio justificado da inflação
O tema assusta parcelas expressivas de nossa sociedade, que guardam ainda em sua memória os duros períodos de inflação crônica e elevada - combinados com momentos mesmo de hiperinflação - que o Brasil atravessou a partir do final da década de 1970. E, diga-se de passagem, com razão. Houve várias tentativas de planos de ajuste econômico, com congelamento de preços e incluindo a criação de novas unidades monetárias. Plano Cruzado I, Plano Cruzado II, Plano Bresser, Plano Verão, Plano Collor I e Plano Collor II. As moedas também foram muitas: cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, cruzado novo, novo cruzeiro, cruzeiro real e real. Ufa! E em várias das mudanças do padrão monetário as novas denominações perdiam 3 zeros. Tempos difíceis, em que os preços eram reajustados diariamente e a população de baixa renda não tinha meios de se defender da corrosão do poder de compra dos salários. Apenas os setores de renda mais elevada conseguiam proteger-se das perdas, por meio das aplicações cotidianas no mercado financeiro.

No entanto, o controle efetivo do crescimento dos preços só veio a ocorrer a partir de 1994, com a edição do Plano Real. A inflação caiu de forma expressiva desde então, mas os efeitos da verdadeira estabilidade só se fizeram sentir a partir de 2005, período em que a inflação anual nunca mais superou a meta oficial estabelecida pelo próprio governo. Não cabe aqui nesse reduzido espaço uma avaliação a respeito das causas dos fracassos dos planos anteriores e do sucesso obtido a partir do Plano Real. Mas o fato é que a inovação proporcionada pelo “tripé da política econômic a” foi também responsável para evitar que novas espirais hiperinflacionárias viessem a ocorrer. Isso significava que a condução da economia passaria a ser orientada pelos seguintes elementos: i) meta de inflação; ii) geração de superávit primário; iii) liberdade cambial.

O Plano Real e o período da ortodoxia
Na prática, esse novo comportamento das autoridades econômicas introduziu na própria institucionalidade do aparelho de Estado muitas das demandas do sistema financeiro, que continuou a reinar absoluto e a navegar em um mar de tranqüilidade, comparado aos momentos anteriores de tantas turbulências e incertezas. É preciso recordar que a década de 1990 foi o período de apogeu do pensamento neoliberal e de seus dogmas de supremacia absoluta das regras de mercado sobre qualquer tipo de regulamentação pública. Como a meta da inflação era intocável e sacrossanta, não se mencio nava nunca que havia até mesmo um intervalo de tolerância para cima e para baixo. Ou seja, tudo se fazia para atingir o chamado “centro da meta” (atualmente, por exemplo, a meta é de 4,5% ao ano - com isso, o intervalo para uma inflação aceitável fica entre 2,5% e 6,5ª% ao ano). E o instrumento, por excelência, para tanto era a chamada “política monetária”: juros oficiais lá em cima, com o objetivo de retirar moeda da circulação (“enxugar a liquidez”, no jargão do economês) e reduzir a pressão de demanda sobre a oferta de bens e serviços. Com isso, haveria menos pressão inflacionária e os preços ficariam sob controle.

Para tanto, o importante era que o Banco Central fosse “independente”. Esse modelito foi repetido à exaustão, por anos e anos em seguida. Pegando carona no sentimento de indignação da população com a má-utilização que se fazia das instituições públicas e governamentais, os escribas do financismo vinha m com a idéia enganosa da suposta independência. No entanto, esse discurso apenas escondia o fato de que, na prática, não existe neutralidade técnica na determinação de política econômica. Essa estória de “autoridade monetária independente” é apenas uma forma elegante de justificar a entrega da gestão do Banco Central e da política monetária aos representantes da própria banca e ponto final. Sem intermediários. Assim foi ao longo dos mandatos de FHC (Pedro Malan, Pérsio Arida, Gustavo Loyola, Gustavo Franco e Armínio Fraga) e de Lula (com o onipotente Henrique Meirelles). Ora,”independência” de quem, cara-pálida?

A idéia de geração de superávit primário era também uma forma elegante de assegurar a transferência de recursos do orçamento para pagar os juros e os serviços da dívida pública. Com o verniz retórico acerca da “responsabilidade fiscal”, emprestava-se a importante noção de gestão fiscal equilibrada das cont as públicas para não questionar quando os gastos fossem os de natureza financeira e parasita. Por último, a proposta de liberdade cambial vinha na corrente do “fora Estado!” e da exaltação irresponsável das pretensas vantagens inequívocas da globalização. “A taxa de câmbio deve ser formada como resultado da livre ação das forças de oferta e demanda no mercado de divisas”. A frase é até meio pomposa e pode parecer bem articulada para quem não conhece os meandros do poder financeiro. Ocorre que o mercado de moedas não é nenhum mercado da batatinha. Os mega-agentes que ali operam respondem apenas aos movimentos especulativos dos grandes conglomerados financeiros. Na prática, ao abrir mão de operar e intervir no mercado de câmbio, o governo aceitou passivamente sua condição de refém desses interesses. Como a taxa de juros oficiais estava na estratosfera, o capital especulativo espalhado pelos 5 continentes para cá se dirigia em busca da rentabili dade segura e elevadíssima. A benção sonhada por todo e qualquer operador do mercado financeiro: alto retorno para as aplicações e quase nenhum risco pelas operações. Sopa no mel!

O período recente e a redução dos juros
Por 8 anos consecutivos nossa inflação tem se mostrado comportada, dentro dos intervalos definidos pelo próprio governo. Assim, entre 2005 e 2012, a média da inflação anual foi de 5,2%, sempre dentro dos limites estabelecidos nos planos governamentais. O período mais recente foi marcado pela disposição da Presidenta Dilma em promover a redução da taxa oficial de juros. Com a trajetória descendente da SELIC definida pelo COPOM e a ação um pouco mais incisiva dos bancos públicos federais, as taxas de juros na ponta do balcão foram diminuídas e o sistema financeiro deixou de ter os ganhos certos e seguros como antes. Com os interesses afetados, começaram a sair a campo, reclamando do fechamento da torneirinha generosa e esboçando uma estratégia de reação. A intenção é desgastar a equipe econômica, mas sem confrontar diretamente a chefe do Executivo, que surfa bem numa onda de popularidade. O instrumento para tanto é a crítica ao suposto descontrole das contas públicas, que estaria na base do ressurgimento de “índices preocupantes” de crescimento de preços.

Bem que tentaram essa estratégia em 2011 e agora no último trimestre de 2012, mas a inflação não ultrapassou o limite superior. Alguns se saíram com o discurso de que o foco deveria ser o centro da meta, sem o intervalo de 2% que permite chegar a 6,5%. Mas essa interpretação exagerada da ortodoxia dogmática acabou não colando – nem mesmo no interior do financismo. Agora, com a divulgação dos dados oficiais relativos a janeiro, tem início uma nova onda de catastrofismo, com simulações para os próximos 11 meses. A levarmos a sério ta l linha de avaliação, o caos estaria próximo. Como sempre sugerem, aliás! Mas o fato é atualmente o acumulado dos últimos 12 meses ainda registra 6,15%. Em 2011 houve momentos em que o índice havia ultrapassado a meta e depois no ano oficial (janeiro a dezembro) a inflação se manteve no intervalo.

O financismo pressiona pela elevação da Selic
No entanto, a questão é bem mais complexa do que aparenta. De fato, há elementos que preocupam para os próximos meses. Um dos mais importantes é o aumento dos combustíveis que deve vir em breve e que provoca um impacto amplo e generalizado nos preços da economia. Assim como a tarifa de energia elétrica, são preços de bens públicos que estão presentes nos custos de quase todos os produtos e serviços existentes em nossa sociedade. Por outro lado, é importante que o governo também atue para evitar e valorização de nossa taxa de câmbio. Co m isso, ao desvalorizar a nossa moeda frente ao dólar e demais moedas estrangeiras, pode-se sentir um impacto inicial de elevação dos preços dos produtos e insumos importados.

Os demais aumentos expressivos vêm da área de alimentos. Além de obedecer a uma certa sazonalidade (os preços podem subir e depois baixar), esse tipo de produto encontra mais facilmente mecanismos de substituição, ao contrário do que ocorre com combustíveis ou energia elétrica. Dessa forma, o importante é que o governo mantenha um acompanhamento, com um sinal de alerta para a evolução dos preços em geral, mas sem se deixar cair na avaliação catastrofista. A ninguém interessa retornar aos cenários do passado, com elevadas taxas de crescimento generalizado de preços. Mas estamos muito longe disso.

A alternativa do depósito compulsório
O mais importante, neste momento, é não se deixar cair na a rmadilha da ortodoxia comandada pelos interesses da banca. Com toda a certeza voltará o tom monocórdico de que a inflação só pode ser combatida, de forma efetiva, com a dureza da política monetária austera e rigorosa. Muito blá-blá-blá, mas se leia o recado: elevação da taxa oficial de juros. O raciocínio implícito é de que assim o governo conseguirá reduzir enxugar a massa monetária em circulação e conter a pressão de demanda. Isso porque as empresas e os indivíduos, em tese, deixarão de consumir bens e serviços para aplicar seus recursos em poupança, em razão da remuneração mais atrativa dos títulos financeiros com juros mais elevados. Uma hipótese difícil de se comprovar, dada a estrutura de renda de nosso país (baixa propensão a poupar, no economês) e a inacessibilidade aos produtos do mercado financeiro para a maioria da população.

Se o governo quiser mesmo enveredar por esse caminho de interpretação conservadora do fenà ´meno inflacionário, então que lance mão de outros instrumentos que não o aumento da Selic. Ele pode, por exemplo, promover o aumento do depósito compulsório dos bancos junto ao Banco Central. Obterá o mesmo efeito de redução da demanda, sem nenhum encargo extra para as finanças públicas nem para o custo social de empresas produtivas e famílias.

Mas o mais importante é iniciar com muita rapidez o já muito atrasado programa de investimentos públicos em infra-estrutura. Esse, sim, é um setor-problema para a retomada do crescimento da economia a níveis maiores do que o Pibinho de 2012. Estrangulamento em telecomunicações, energia e transportes podem realmente provocar pressões que compliquem o equilíbrio, instável por sua própria natureza, de uma determinada conjuntura econômica. E o Brasil precisa e merece crescer a pelo menos 3% ou 4% ao ano. Para tanto, é necessário - ao contrário do que sugerem os arautos do financismo - ampliar a ofe rta de crédito e não promover sua redução com o aumento dos juros.

(*) Doutor em economia pela Universidade de Paris 10 (Nanterre) e integrante da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental, do governo federal.

Nossa fonte: Carta Maior

domingo, 10 de fevereiro de 2013

O último poema


 Marco Albertim *

O poeta findou-se ao meio-dia de uma segunda-feira, em 6 de junho; no mesmo dia e mesma data em que nascera, tão mediano quanto sua vida de cinquenta anos. Suspeitara de que não passaria dos cinquenta, quando, ainda com vinte e cinco anos, olhou para cima e deu-se conta de que a lua não abrira mão do quarto crescente por uma semana.
Então com cinco lustros, distinguiu mais cinco de uma rotina sem pausas e com passos calculados. Debruçado na janela vizinha à esquina do sobrado onde morara, mirando com os olhos parados, o rodopio de mariposas em volta da luz de mercúrio no poste da mesma esquina.
Escrevera os primeiros versos, animado pelos passos nunca tortos de três irmãs cujos olhos nunca se deram ao trabalho de perceber o que a vida lhes urdira em cada lado de seus rostos. Como se podia viver com tamanha estranheza para uma banda de música tão ruidosa como a Curica, nos ensaios de frevo-abafo, seguindo a batuta sinistra nas mãos não menos sestrosas do maestro Cupim?

As três, ora... Morando vizinhas à sede da banda! Certo é que a parede separando-as dos músicos, era tão vedada quanto os ouvidos das três irmãs. Mas em cima, sob a viga mestra de madeira, uma fresta ou outra deixava soprar meia dúzia de açoites jazzísticos que o maestro Cupim copiara de memória quando vira a orquestra de Glenn Miller no cinema.

Um dia o maestro Cupim, junto com dez de seus melhores jazzistas, parou na bodega de Joca Barbosa para entornar uns goles da bebida preparada pelo vendeiro – infusão de cachaça com cascas de jurema. Riram a valer, incitados pelo verbo profuso vindo da pança cevada em cerimônias de comilança em ritos de macumba, do vendeiro.

- Ao jazz! – gritou Cupim e os músicos o seguiram.

Era domingo. As três irmãs, com a mãe junto da mais velha, estavam sentadas em cadeiras com encosto de vime, na calçada em frente a casa. A velha riu com o andar jazzístico de Cupim, mesmo sem a vara da batuta numa das mãos. Num instante a sede foi aberta e teve começo o ruidoso festim do jazz. Os casais atraídos puseram-se a dançar no estreito dancing, à frente do palco a meio metro de altura.

Caio Toledo Dajuda, o poeta de trajeto curto, animou-se e chamou Jupira para dançar, a mais velha das irmãs. A mãe consentiu com um sorriso escasso, do modo como os dois deviam se comportar.

Daquele domingo em diante, os dois, sentados nas cadeiras com encosto de vime, vergaram as costas por vinte anos, num noivado tão puro quanto infindo. A união mudou o nome da rua para rua do Lindamor, sobretudo depois da morte de Dajuda.

A mãe de Jupira, impaciente com a demora do casamento, encheu-se de confiança nos modos do candidato a genro, tamanha era a polidez com que Dajuda tratava a moça. Numa noite, os dois, depois de se sublimarem ouvindo a trilha sonora de Casablanca, foram a um restaurante próximo, beberam vinho e trocaram beijos módicos. Na semana seguinte, um domingo, o maestro Cupim voltou a reger a mesma música. De volta para casa, Dajuda e Jupira subiram para o sobrado. No terraço dos fundos, amaram-se sem concessão aos pruridos da virgindade.

No quarto, sozinho, sentindo a proximidade do derradeiro suspiro, Dajuda escreveu seu último poema.


Poema do começo


(Na primeira noite)

Inda que o apalpo das mãos tenha sido sinistro

A promessa dos olhos, veloz

O beijo sem cálculo, escasso

Inda que à espreita da estrela oculta

Piscando para não confirmar a agonia da hesitação

E mesmo que do vinho só se distinguisse o antegozo

E o garçom, cúmplice, tenha prescrito o manjericão para o fim da náusea

A conta, escrita no capricho do lucro, paga feito uma dívida no celofane

E no táxi, o chofer tão só na adivinhação de locuções

Um meteoro riscou no céu de Olinda

Uma linha divisória

(Na segunda noite)

A estrela, com arreganho nos olhos

Distinguiu os dois corpos promiscuindo-se na sua luz

O apalpo das mãos rendeu-se, mole, ao repuxo dos beiços

O bico dos seios, olhando para cima, sem trocar palavras

Rijos de arrogância.

Na parede nua de relógios

A mandala inchou-a de agouros

A posse do corpo, lenta, deu-se com a mão na corola do ventre

O talho sanguíneo, mudo, movendo-se feito uma alga

Seco nas entranhas

Com umidade nos lábios.

Os dedos deixaram-se engolir

Para, plenos de mobilidade, prepararem o terrapleno


A mãe de Dajuda entregou o manuscrito a Jupira. No velório, a velha quis fechar os olhos do falecido, e cerrar a boca que mantivera um esboço de sorriso. Jupira segurou-a no pulso e disse:

- Deixe que ele seja enterrado feliz.


* Menção honrosa dos Prêmios Literários da Cidade do Recife, com o livro Um presente para o papa e outros contos. Integra as antologias de contos Recife conta o Natal e Panorâmica do conto em PE.
Fonte: Vermelho

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Salve Senador Suplicy!


Suplicy pede para Renan desistir de candidatura

Senador petista enviou nota ao candidato favorito à presidência do Senado. Ele quer que o peemedebista deixe a corrida em favor de Pedro Simon (PMDB-RS), um dos independentes da Casa


Em 2009, Suplicy subiu à tribuna e deu um cartão vermelho a Sarney. Hoje, mandou nota
O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) pediu nesta segunda-feira (28) para Renan Calheiros (PMDB-AL) desistir da candidatura à presidência do Senado. Em nota enviada ao peemedebista e aos colegas de Casa, Suplicy sugeriu que o candidato do partido fosse Pedro Simon (PMDB-RS), o único “capaz de obter o consenso entusiástico e praticamente unânime de todos os demais 80 senadores”. Leia tudo sobre a eleição na mesa
De acordo com a nota emitida por Suplicy, é preciso haver um tempo até todas as denúncias contra Renan serem esclarecidas. No sábado, o Congresso em Foco mostrou que o procurador Geral da República, Roberto Gurgel, denunciou o peemedebista no caso das notas dos “bois de Alagoas”, derivado das suspeitas de ter despesas particulares pagas por um lobista de empreiteira após o parlamentar ter um filho com a jornalista Mônica Veloso.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Graves acusações à sen. Kátia Abreu

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Cepal: Temos muito o que aprender com Cuba na Celac

A secretária executiva da Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (Cepal) assegurou, nesta quarta-feira (23), que Cuba tem muito o que ensinar aos países da região para combater as desigualdades e romper os círculos viciosos da pobreza.



Em entrevista exclusiva para a Prensa Latina, a secretária das Nações Unidas qualificou como muito positivo o fato de que a ilha assuma, no dia 28 de janeiro, a presidência da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), até o momento presidida pelo Chile, na primeira reunião do fórum regional, fundado em dezembro de 2011 em Caracas.

Anunciou que em fevereiro visitará o país caribenho, a fim de pôr à disposição do governo cubano em sua presidência da Celac toda a capacidade da Cepal.

"Queremos que Cuba, como presidência rotativa em 2013 e possivelmente início de 2014, saiba que conta com a Cepal para tudo o que precise, de estudos, de trabalho, de respaldo em todo sentido, para dar toda nossa experiência a este processo de integração", afirmou.

Na opinião de Bárcena, com a Celac se está conseguindo uma aspiração longamente demandada pela própria Cepal, e considera que hoje em dia, esse é um sonho que está se tornando realidade, daí que lhe interessa acompanhar a liderança da ilha.

A especialista das Nações Unidas recordou que durante o ano em que o Chile presidiu a Celac foi dado ênfase no tema dos investimentos econômicos, financeiros, importantes para o desenvolvimento.

E com "Cuba, vai permitir-nos abordar os temas do investimento social, de ver a importância da educação como a grande ponte para combater desigualdades e romper os círculos viciosos de pobreza", enfatizou, convencida de que a educação será um tema que vai ser abordado com muita força.

E relacionado a isso, estimou que outra temática à qual a ilha dará especial atenção na próxima etapa serão as experiências da América Latina e do Caribe para tentar tirar da pobreza mais de 57 milhões de pessoas e zelar pelo futuro destas.

"Ao sair da pobreza, como as sustentamos fora da pobreza? Isso só vai ser conseguido se formos capazes de transformar a estrutura produtiva", reflexionou.

A mexicana Alicia Bárcena recordou que Cuba é um dos países que está fazendo uma mudança estrutural profunda e, portanto, tem muito o que dizer sobre o que significa propiciar uma mudança estrutural do tamanho e da magnitude da que está levando adiante.

"Acho que o resto da região sabe pouco dos avanços de Cuba e dos problemas e desafios que enfrenta para fazer a mudança estrutural da produtividade, (...) de conseguir que os trabalhadores do Estado vão a áreas rentáveis, mas sem perder de vista que o horizonte segue sendo a igualdade e que isso não é negocial", destacou.

Segundo a máxima diretora da Cepal, a América Latina tem feito da igualdade um de seus principais paradigmas, portanto há muito que aprender de Cuba.

"Inclusive devo citar uma frase que me impactou muito, do presidente Raúl Castro, quando disse que em Cuba não estava sendo propiciado o igualitarismo, mas sim a igualdade. E isso me encanta, porque se trata de promover o mérito, mas sempre com base em uma cidadania que tem direitos, os quais são irrenunciáveis, que há um princípio último, ético, e esse é o princípio da igualdade", comentou.

Nesse sentido assinalou que ter a igualdade como horizonte, a mudança estrutural como caminho e a política como instrumento é algo que prepara a região para entrar nesse desafio.

"Cada país tem modelos diferentes e, portanto, há uma grande diversidade de estratégias de desenvolvimento, mas eu acho que há um intercâmbio muito positivo que deve ser acontecer para atingir níveis de igualdade como existem em Cuba, em educação, em saúde", acrescentou.

E por outro lado, sugeriu que quiçá a ilha também requer de experiências da região para melhorar seus índices de produtividade no campo, na cidade, na indústria. "Acho que estamos diante de um prospecto importantíssimo de relacionamento entre nós", disse.

Ao respeito, fez questão de não esquecer que a América Latina e o Caribe é uma região rica em matéria-prima, em pessoas, em conhecimento e, portanto, está certa em olhar para fora, mas é bom olhar também para dentro e ver que muito pode ser conseguido, para um pouco construir a própria resiliência social, econômica, financeira, de maneira regional.

Mais de 50 anos de bloqueio estadunidense contra Cuba

A secretária executiva da Cepal recordou que o organismo que dirige é um dos que envia relatórios à Assembleia Geral das Nações Unidas para que se entenda qual tem sido o impacto econômico e social do bloqueio contra Cuba e seu povo.

"Acreditamos que há necessidade de pôr fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro. E já são 20 anos de votos consecutivos da Assembleia Geral e esperamos que isto seja escutado plenamente, porque isso vai permitir a Cuba uma inserção total na economia mundial", exclamou.

Bárcena afirmou que essa política hostil ignora as noções de igualdade soberana dos Estados e de não intervenção e não ingerência.

"De por si, Cuba tem feito grandes avanços neste período, talvez e até em certa medida, incentivada pelo próprio bloqueio, o qual é injusto, porque é o povo quem tem pago pelas consequências", considerou.

O dano econômico ocasionado ao povo cubano pela aplicação do bloqueio dos Estados Unidos contra Cuba até dezembro de 2011, considerando a depreciação do dólar frente ao valor do ouro no mercado internacional, ascende a 1,66 trilhão de dólares.

Objetivos da visita a Cuba

Além de pôr à disposição das autoridades cubanas a capacidade da Cepal na nova presidência pró témpore da Celac, em sua visita à ilha, Bárcena participará da celebração dos 50 anos de planejamento em Cuba, que coincidem com os 50 anos da criação do Instituto Latino-americano de Planejamento Econômico e Social (Ilpes).

"Em Cuba vamos lançar um processo importantíssimo agora em fevereiro, de consultas a todos os países e que vai culminar no Brasil em novembro de 2013", já que o gigante sul-americano ocupa a presidência do órgão regional do Conselho de Planejamento Regional (CPR).

Bárcena disse que em novembro de 2012 se reuniu com a ministra de Planejamento e Orçamento do Brasil, Miriam Belchior, e que foi acordado um processo que coincide com o que será lançado a partir de Cuba.

"Porque acreditamos que o planejamento está de volta, planificar é governar. Quem não planifica não governa. E, portanto, não é somente celebrar os 50 anos de Planejamento em Cuba, mas sim que recobremos o Planejamento na América Latina e no Caribe", expressou.

A campanha que se iniciará em Cuba continuará na Guatemala, Equador, México e outros países, até culminar no Brasil em novembro de 2013, com um relançamento do Ilpes, como um órgão de coesão, de acordo regional.

O projeto implica trocar experiências, lições e ver no futuro como se comporta o processo do planejamento, do ordenamento orçamental, do território.

"Hoje em dia, demonstrou-se que planificar tem muito a ver com ter uma visão estratégica de médio e longo prazo", manifestou Bárcena. A visita da secretária a Cuba também está dirigida a preparar a agenda bilateral com o organismo que dirige.

"A mim interessa acompanhar o processo de mudança de Cuba, nos parece que a Cepal é um organismo que tem a responsabilidade histórica de acompanhar Cuba neste processo tão importante de mudança, e precisamente estamos aí, a serviço de Cuba, para poder apoiar essa mudança estrutural tão complicada e tão importante que o país está vivendo", explicou.

É de seu interesse aproximar os vínculos com o Escritório Nacional de Estatísticas, com o qual a Cepal tem uma grande relação. "Para mim, repensar nossa relação bilateral Cepal-Cuba sempre é importantíssima e estamos aí para apoio a qualquer coisa que seja importante para Cuba neste ano", reiterou.

Além disso, expressou que seria importante fomentar a decisão da Cepal de propiciar a participação de especialistas cubanos nos seminários que habitualmente acontecem na sede deste organismo das Nações Unidas, em Santiago do Chile.

"Parece-nos sumamente importante que sempre tenhamos uma representação de Cuba em tudo o que a Cepal faz na região", concluiu.

Fonte: Prensa Latina (Nossa fonte: Vermelho)

domingo, 20 de janeiro de 2013

Castanha portuguesa: o difícil caminho do ouriço ao paladar


Dona Pandá anda revoltada com as agruras da produção agrícola. É claro que ela se refere ao pequeno produtor, geralmente familiar. Além de toda a dificuldade no seu trabalho – falta de seguro, crédito, assistência técnica, canais eficientes de comercialização, rentabilidade – ainda as condições climáticas nem sempre são favoráveis. Ontem, nossa amiga ficou muito brava ao ouvir alguém reclamar dos preços da feira. Foi logo perguntando se  a pessoa sabia o trabalho que havia para um pé de alface chegar à sua bela mesa. Depois, mais calma, acabou explicando  até com bom humor a formação do tal preço: impostos, transporte, intermediários, custos propriamente da produção.

Conseguiu deixar claro o quanto o produtor é sacrificado e mal remunerado. O feirante também ajudou a defender o produtor na medida em que precisava justificar sua tabela.

O resultado desse pequeno incidente é que Dona Pandá quer mostrar seu próprio sofrimento para conseguir colocar na boca a deliciosa castanha portuguesa.


Esta árvore frondosa, bonita e generosa demanda um bocado de anos para ter este porte e nos oferecer, uma vez por ano, seu fruto. Quando os esquilinhos começam a se mostrar, é sinal de que as castanhas estão próximas do ponto de colheita. Aí, com muito cuidado para não escorregar, já que é também tempo das águas que deixam o terreno mais propício ao tombo, Dona Pandá vai catar as castanhas. 

Ora, ora ela está me dizendo que pulei várias etapas. Antes de ir para debaixo da castanheira, Dona Pandá se preparou. Calçou uma bota com sola de borracha e luvas grossas. Buscou, na cozinha, um garfo de cabo longo e duas bacias, uma grande e outra menor. Passou pela caixa de ferramentas e pegou um alicate de ponta fina e uma chave de fenda. Com as ferramentas dentro da bacia, pode, com a outra mão, carregar um pequeno tamborete. Agora, sim, ela foi para debaixo da árvore.


A castanha fica dentro de um ouriço, cujos espinhos são maldosos, espertos e traiçoeiros. Qualquer descuido, eles se enfiam em suas mãos, braços, ou qualquer lugar que der moleza. Este é o motivo de toda a parafernália dentro da bacia. Como as castanhas  com seus ouriços tomam muito espaço, a opção é recolher do chão algumas castanhas, encher a bacia e se sentar no tamborete para retirar os ouriços. Estes ficam na bacia grande até Dona Pandá terminar aquela porção colhida. Em seguida, coloca os ouriços ao pé da castanheira e recomeça a catação.

Com as castanhas livres dos seus espinhos, é hora de lavar as mãos e braços, passar nesses pobres membros uma tintura de calêndula, aguentando o ardume onde os espinhos foram mais ágeis que a dona das mãos. Até com a luva grossa eles conseguem aporrinhar a catadora de castanha.

A próxima etapa é lavar as castanhas, tirar um pedacinho de cada uma e colocá-las na panela de pressão. Após uns 40 minutos, dependendo da quantidade, estão prontas para a degustação que pode ser acompanhada de um bom vinho branco..

Fica, aqui,  um pedido: se alguém conhece uma boa receita de marron glacê, Dona Pandá agradeceria  seu envio, marron glacê pasta, não em caldas

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Salve Bezerra da Silva, o Malandro Maior

 Malandro: há 8 anos morria Bezerra da Silva

Há oito anos morria o cantor Bezerra da Silva, vítima de uma parada cardíaca. Considerado uma espécie de embaixador de morros e favelas do Rio de Janeiro, seus sambas retratavam as angústias e dificuldades enfrentadas pela classe trabalhadora de todo o país.

José Bezerra da Silva nasceu em Recife (PE), a 23 de fevereiro de 1927. Veio para o Rio de Janeiro aos 15 anos fugindo da fome e apenas com a roupa do corpo.

Iniciado na música pelo coco de Jackson do Pandeiro, começou, em 1950, sua carreira como ritmista na Rádio Clube —tocava tamborim, surdo e instrumentos de percussão em geral. Suas primeiras composições, "O Preguiçoso" e "Meu Veneno", foram gravadas por Jackson. Seu primeiro disco —um compacto— foi gravado, em 1969, pela Copacabana.

Ícone do chamado “Sambandido”, e admirado por astros da música pop como Frejat, O Rappa e Marcelo D2, Bezerra Da Silva fez sucesso interpretando músicas como “Malandragem dá um tempo” e “Malandro é Malandro e Mané É Mané”. No final de 2001, tornou-se evangélico, e segundo a sua mulher, ele se preparava para gravar um CD com músicas religiosas ainda este ano.

Perguntado certa vez se achava que brancos não sabiam fazer samba respondeu: "isso é uma mentira, uma discriminação boba. Tudo depende da veia poética do sujeito. Você já imaginou se Deus deixasse eu fazer eu do jeito que quero, com a cuca que tenho? Eu seria verde, todo bonito. Ninguém ia ser igual a mim. Eu seria um sucesso, o cabelo de ouro, ia ser tudo comigo. Mas me fizeram um crioulo esquisito. Essa história de que branco não faz samba é mentira. E também tem crioulo que não faz samba. Artista nasce em qualquer lugar".

Bezerra da Silva morreu às vésperas de completar 78 anos. Antes de se tornar compositor e cantor, teve várias profissões e por cerca de sete anos chegou a morar nas ruas do Rio de Janeiro.

Nossa fonte: Vermelho Ouça especial produzido pela Rádio Vermelho:
Programa Partido Cultural

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O plantador de árvores


Ele plantava árvores e me dizia:
 - Para de plantar árvores senão a chácara vai ficar sem Sol.
Cada vez que eu ia vê-lo em Belo Horizonte, ele havia feito algumas mudas de frutíferas que embalava de forma sempre muito criativa para que não sofressem com a viagem dos 600 km. Na última vez, quando lhe telefonei falando da minha ida de avião, senti um quezinho de irritação em sua voz ao me perguntar:
 - Você não vem com a Preta (caminhonete)?

 Descobri, logo que lá cheguei, o porquê do tom: as mudinhas estavam esperando uma carona para o seu destino: a Chácara Xury. Quando de minha despedida, ele não se deu o trabalho de discutir, embalou apenas três e não as seis que preparara e como recusar o presente? Era mais fácil deixar a mala.

No começo dos tempos da Chácara Xury, ele, acompanhado de sua companheira, vinha ajudar a transformar o terreno cheio de mato em  pomar, horta e jardim. Falava da falta de Sol e, dominado pela sina de plantador, de cada fruta que comia nascia uma árvore. Colhia as sementes, preparava as mudas, carregava-as das Gerais, nos ônibus, até seu destino, cavava a terra, plantava as mudinhas e lhes passava a energia da vida. Plantou manga, jabuticaba, lichia, cabeludinha, abacate, laranja, uvaia e ainda muitas outras.

Ele se foi. Deixou, em cada pedaço da Chácara, sua energia. Ando por aí e ele comigo. Durante muito tempo, depois de um passeio pelo pomar, vinha para o telefone querendo sua orientação  para algum problema e sofria um soco no coração ao perceber que não podia mais lhe telefonar.

 Eu ficara órfã.

Agora, não mais me engano, não mais pego o telefone, não preciso. Minha conversa é direta. Andamos juntos pela chácara. Examinamos juntos cada planta. Sentimos a alegria do despertar de cada flor. Sofremos juntos ao ver a jabuticabeira adoecer e se definhar sem aceitar o socorro que tentamos lhe dar.

Hoje, a alegria veio grande. Ao passar pela lichia – ele a plantou, trazendo a semente do sítio Catita, há mais de 10 anos – vi as primeiras frutas, lá bem no alto. Poucas, mas lindas no seu colorido, deliciosas no seu sabor delicado. Colhi cada lichia sentindo a presença dele como se sua mão me entregasse a fruta. 


Vim para a casa, me sentei na varanda olhando para a matinha lá mais distante, para o jardim bem perto e comecei a chupar as lichias. Sua energia encosta em mim quando as saboreio. Faço de conta que ele também se delicia com as frutas que plantou para mim. Minhas lágrimas são de saudade e da certeza de ter sido uma filha muito amada por um pai que foi plantador de árvore e de vida.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Teste: verdades e mitos sobre sexo

Dona Pandá estava procurando, nos seus alfarrábios(1), receitas de repelentes naturais quando deu de cara com um teste curioso e resolveu fazer uma brincadeirinha com seus leitores. Ela me mandou transcrever o que a revista Saúde (Ano 7, nº 7 de 1990 da Editora Azul) publicou. Então, você é bem informado sobre esse assunto tão delicado e gostoso?

Segundo a nossa fonte, se você acertar de sete a 10 questões, sua nota será 10; de quatro a sete, terá alcançado a nota 70 e abaixo de quatro, você não sabe nada sobre sexo. Cuide-se. (Não vale olhar as respostas antes do térmico do teste). Seja honesto (a) e lembre-se: a curiosidade matou o gato (até parece que só o gato ...)

1. Café aumenta o risco de esterilidade: verdadeiro---falso---

2. No homem o odor tem grande poder erótico: v---f---

3. Os alimentos apimentados influenciam a ereção: v---f---

4. Os sonhos eróticos provocam reações sexuais: v---f---

5. O segredo do prazer feminino se resume em localizar o ponto G: v---f---

6. É ruim a mulher fingir orgasmo: v---f---

7. Alguns cremes dermatológicos são contra indicados a grávidas: v---f---

8. Nas mulheres, a cirurgia dos órgãos genitais, sobretudo o útero, não interfere na vida sexual: v---f---

9. Não são aconselháveis relações sexuais antes de provas esportivas ou grandes esforços físicos: v---f---

10. Cardíacos não devem ter relações sexuais: v---f---



Lá vão as respostas
1. Falso. Parece que essa crença originou da afirmação de alguns médicos norte-americanos que chegaram a afirmar que a cafeína diminuía a fertilidade nas mulheres, mas outros da mesma origem salvaram a pátria (deles) e comprovaram que não. Dona Pandá não conseguiu saber se a indústria cafeeira teve algum desembolso nas últimas pesquisas, mas como ela confia nos médicos ainda que com tal origem, ela acha que, de fato, a resposta é f.

2. Verdadeiro. “A explicação é fisiológica. Nosso aparelho olfativo tem relação estreita com o sistema límbico – parte do cérebro que age na memória -. Essa estrutura transmite informações através de neurotransmissores a outros centros nervosos, inclusive aqueles que influenciam o comportamento amoroso. Sensibilizadas, as glândulas apócrinas presentes na superfície da pele segregam esteroides, cuja estrutura é semelhante ao hormônio masculino ou feminino”. Dona Pandá não ousa discordar da fonte, mas que isto acontece com os animais ela tem inúmeras provas. Lembra-se, por exemplo, do aperto passado quando de um passeio a cavalo (o animal era um garanhão) e, sem saber, ela se aproximou cerca de meio quilômetro do pasto das éguas. Ah! Dona Pandá, vamos deixar esse caso para outra vez e vamos voltar ao resultado do teste.

3. Falso. Não só a pimenta, como diversas especiarias foram consideradas por muito tempo como afrodisíacas. A justificativa seria a relação entre o prazer oral, o sexo - os dois bastante sensuais – e o sabor exótico dos temperos. Pode usar como uma boa motivação, mas nada foi provado. Como no amor e no sexo, a imaginação criativa nunca fez mal...

4. Falso. Basta prestar atenção quando acordar depois de um sonho erótico.

5. Falso. Falsíssimo. Dona panda acha que esta questão é meio imbecil, mas nossa fonte diz: “Situado na parte superior da vagina (o ponto G), é uma zona erógena bastante irrigada, com terminais nervosos e rica em fibras elásticas. Mas não é essencial ao orgasmo feminino”.

6. Falso. ““Forçar” o prazer pode ajudar a mulher a “liberar-se”. Alguns psicólogos recomendam a cena para quem tende a se bloquear. Outros a criticam”. Dona Pandá grita logo: só se a “cena for combinada”, pois fingir não está com nada.

7. Verdadeiro. “Produtos que contêm cortisona, antisséptico iodado e algumas substâncias à base de crotaminol e retinol são desaconselháveis a gestantes. Segundo o dermatologista Abraão Totberg, de São Paulo, a absorção epidérmica pode trazer problemas fetais”.

8. Verdadeiro. Operações genitais (por exemplo, a retiradas de ovários) podem levar à suspensão da menstruação e mudança na vagina, todavia nada disto significa o final da vida sexual e do seu prazer.

9. Falso. Pode acontecer eventuais desentendimentos amorosos que levariam ao prejuízo da concentração. Motivo de os treinadores preferirem que os jogadores não tenham relações amorosas às vésperas de um grande jogo.

10. Falso. O ato sexual não é tão exigente em esforços físicos como os de competições esportivas. No entanto, emoções fortes, estresse, medo e sedentarismo são contraindicados. O ambiente amoroso é favorável ao cardíaco. Dona Pandá dá outro grito: a todos nós!

Quando o moralismo esconde a lei

Paulo Moreira Leite
http://colunas.revistaepoca.globo.com/paulomoreiraleite/2013/01/06/moralismo-ajuda-a-esconder-a-lei/

Os ataques a José Genoíno chegaram a um ponto escandaloso e inaceitável.

Vários observadores se colocam no direito de fazer uma distinção curiosa. Dizem que a decisão de Genoíno em assumir o mandato para o qual foi eleito por 92 000 votos pode ser legal mas é imoral.

Me desculpem. Mas é uma postura de ditadorzinho, que leva a situações perigosas e inspira atos violentos. Também permite decisões arbitrárias e seletivas. Pelo argumento moral, procura-se questionar direitos que a lei oferece a toda pessoa. Isso é imoral.

Não surpreende que essa visão tenha produzido grandes tragédias, na história e na vida cotidiana.

Isso porque os valores morais podem variar de uma pessoa para outra mas a lei precisa valer para todos.

Você pode achar que aquele livro sobre não sei quantos tons de cinza é uma obra imoral mas não pode querer que seja proibido por causa disso. Por que? Porque a Lei garante a liberdade de expressão como um valor absoluto.

Para ficar num exemplo que todos lembram. Os estudantes de uma faculdade paulista que agrediram e humilharam uma aluna que foi às aulas de mini saia muito mini também se achavam no direito de condenar o que era legal mas lhes parecia imoral. Vergonhoso. Isso sempre acontece quando se pretende dizer que o moral precisa ser o legal.

Para começar, quem acha muita imoralidade da parte de Genoíno deveria olhar para o lado em vez de exagerar na indignação.

Em seis Estados brasileiros o Superior Tribunal de Justiça, a segunda mais alta corte do país, tenta licença para processar governadores e não consegue avançar na investigação. Não consegue nem apurar as acusações que o STJ considera sérias.

Por que? Porque as Assembleias Legislativas não autorizam. Curiosidade: não há ”petistas aparelhados” envolvidos. Entre os 6 governadores, cinco são tucanos e um é do PMDB. Quantos são imorais nesse time? E os ilegais? Vai saber.

O que está em jogo, nos Estados? O princípio do artigo 55 da Constituição, aquele que reserva ao Congresso o direito de decidir pela cassação (ou não) de deputados e senadores. São os representantes eleitos que podem cassar os representantes do povo – e apenas eles.

Mas é curioso que ninguém fala em imoralidade neste caso.

Pergunto: cadê o abaixo assinado, uma denúncia contra “esse políticos” ? Cadê as marchadeiras de botox e cabelo tingido? Onde ficaram nossos moralistas de punho cerrado? Onde estão os cronistas do cronstragimento, os marqueteiros da “imagem” dos políticos?

Será que voltamos (ou nunca saímos?) à lógica dos dois mensalões, o do PT e o do PSDB-MG?

A Constituição reconhece os três poderes e não reconhece, de forma alguma, qualquer hierarquia entre eles.

E aí cabe a pergunta: se as Assembleias Legislativas podem impedir a abertura de uma investigação sobre governadores, por que o Congresso não tem o direito de decidir, como manda a Constituição, o destino de quatro deputados? Há uma diferença de princípio, uma visão de mundo?

Ou é a velha paróquia política do país ?

No caso dos governadores e deputados, a preferência é tão descarada que nem se abre uma investigação. Não vamos julgar e depois absolver. Não. Nem se começa o jogo. Não custa recordar de novo. A Lei diz que o mandato de um deputado só pode ser cassado por decisão do Congresso. Não é interpretação. Não é princípio genérico.

É texto da lei. É tão claro como dizer que o Brasil não pode fabricar bomba atômica. Ou que o racismo é crime e é inafiançável. Ou que a licença-maternidade deve durar quatro meses.

O jurista Pedro Serrano, especialista em Direito Constitucional, disse aqui mesmo neste blogue que essa prerrogativa é um dos elementos básicos da separação entre os poderes, definição que separa a República da Monarquia.

Embora diversos ministros do Supremo tenham feito elogios demorados à Constituição do Império – entre outros traços típicos, ela tratava os escravos como coisas – desde 1899 o país vive sob um regime republicano. O retorno à monarquia foi derrotado em plebiscito, junto com o parlamentarismo, lembra?

Teve gente que levou os descendentes de Pedro II e da Princesa Isabel para percorrer o país, na esperança de que algum fantasma do passado contribuísse para melhorar o marketing eleitoral da monarquia.

Mas o Supremo considerou por 5 votos a 4 que tem o direito de cassar os mandatos dos deputados condenados pelo mensalão. Muitos juristas – os mesmos que os donos da moral de hoje costumam ouvir quando lhes interessa — consideram que foi uma decisão que atravessou essa divisão entre poderes.

Num plenário que em situações normais inclui onze votos, cinco ministros acharam-se no direito de questionar um artigo explícito da Lei Maior. Quatro ficaram contra essa decisão.

Em qualquer caso, não custa lembrar que, como está estabelecido, a Constituição só pode ser modificada por uma emenda constitucional, com o voto de dois terços – e não maioria simples – dos parlamentares, que são os representantes eleitos do povo. Não é debate moral. É determinação legal.

Por que ela diz isso? Porque esse artigo 55 é coerente com o artigo 1, aquele que diz que “todo poder emana do povo, que o exerce através de seus representantes eleitos.”

Uma decisão do Supremo deve ser cumprida e tem força de lei, diz o Ministro da Justiça.

Mas o que se faz quando, por 5 votos a 4, se estabelece uma diferença clamorosa, uma contradição com a própria Constituição?

Não é possível ser simplório nem empregar argumentos de autoridade. A menos, claro, que se pretenda criar um novo tipo de autoritarismo.Durante o Estado Novo, o Supremo autorizou que a militante comunista Olga Benário fosse enviada para a morte num campo de concentração nazista.

Seria imoral e ilegal tentar impedir a entrega de Olga Benário por todos os meios e recursos que poderiam preservar sua vida, sua dignidade e mesmo a filha que levava em seu ventre, vamos combinar.

Em 1964, o Supremo aceitou a tese de que a presidência da República ficara vaga depois que Jango deixou o país e deu posse à ditadura militar. Legal? Moral? Ou ilegal e imoral?

Em 2010, o Supremo decidiu por 7 votos a 2, que só o Congresso poderia modificar a Lei de Anistia. Com isso, as investigações sobre torturas e execuções perderam uma base legal importante.

Pergunto: vamos proibir os jovens que denunciam torturadores nas operações esculacho, e não se rendem a uma decisão que – sem entrar no debate se correta ou não – envolve uma opção pela impunidade?

Vamos chamar a PM para dar porrada? (Quando ela não estiver perseguindo estudantes que portam maconha, o que lei diz que é legal em certa quantidade mas que muita gente considera imoral e por isso aprova todo tipo de repressão, até sem base legal).

Mais ainda. Vamos silenciar procuradores que, teimosamente, ainda procuram brechas para colocar os responsáveis por crimes contra a humanidade na cadeia, lembrando que a Constituição diz que a tortura não é passível de anistia ou graça?

Os 7 a 2 do Supremo deveriam garantir que esses garotos exemplares fossem silenciados para sempre?

Queremos a Submissão à autoridade, título de um livro antológico sobre técnicas de tortura?

Colocar a questão moral à frente da legal só ajuda a despolitizar um debate, a encobrir questões sérias e a impedir uma avaliação consciente do que está em jogo. No saldo, quem perde é a democracia.

Quando Genoíno se diz com a “consciência limpa dos inocentes” deveríamos dedicar alguns minutos de reflexão ao assunto.

Você pode, com base naquilo que viu e ouviu nas 53 sessões do julgamento, achar que ele é mesmo culpado e deveria renunciar ao mandato que recebeu.

Mas você poderia pensar o contrário.

A grande acusação é que ele assinou “empréstimos fraudulentos” que alimentaram o esquema, certo? Podemos ouvir isso todo dia, nos comentários de sabichões que frequentam o rádio e a TV.

Mas: veja só. A própria Polícia Federal, que investigou o caso e as contas do mensalão, concluiu que os empréstimos não eram uma fraude. Em seu relatório, a PF diz que os empréstimos foram verdadeiros, implicaram na remessa de dinheiro do Banco Real para o PT. A Justiça, mais tarde, supervisionou um acordo para o pagamento do empréstimo. Era ilegal? Era imoral? Ou o que?

Em todo caso, se era ilegal, pergunta-se: o que aconteceu com a turma do Banco Central que deveria fiscalizar essas coisas?

O que houve com quem referendou o acordo? Alguém foi punido por ser ilegal? Ou não se julgou moralmente conveniente?

Muitos ministros condenaram Genoíno porque “não era plausível” que ele “não soubesse” do que eles dizem sobre o que seria o “maior escândalo da história.” Uniram o papel político óbvio de Genoíno no governo Lula com um esquema financeiro, sem conseguir provar seu envolvimento direto na “compra de votos” no Congresso. Não conseguiram apontar, sequer, qual projeto foi aprovado em troca de dinheiro.

Enquanto não se provar que Genoíno cometeu uma ilegalidade, estamos, mais uma vez, numa visão moral de uma pessoa, num julgamento que envolve a atribuição de atitudes e valores, mas não consegue reunir provas robustas – indispensáveis no direito penal — para sustentar o que diz.

O que é imoral, neste caso?
Embora o Supremo tenha condenado Genoíno, a lei dá ao deputado o direito de aguardar pelo exame de todos os recursos antes de considerar que o caso está encerrado. Junto com a liberdade, é a história de uma vida que está em jogo.

Ao contrário do que se poderia julgar do ponto de vista moral, ele tem o dever de resistir. A lei não lhe dá essa possibilidade por acaso. O necessário, para o esclarecimento de qualquer dúvida, de qualquer ponto de vista, é que que ele entre com seus recursos, que eles sejam ouvidos, examinados e conhecidos por todos. E a melhor forma de fazer isso é preservando seu mandato.
Vou adorar ouvir seus argumentos, na tribuna da Câmara. E vou adorar ouvir os argumentos contrários.

Será uma grande novidade. Em sete anos de investigações, o mensalão transformou-se no discurso de um lado só, uma única voz, uma única verdade. Cada advogado de defesa teve direito a um discurso de duas horas num julgamento que durou cinco meses. Isso impediu que dúvidas importantes, sobre Genoíno e sobre o mensalão, fossem discutidas e resolvidas. Nenhuma auditoria provou que os recursos usados pelo esquema do PT foram extraídos do Banco do Brasil. Não há sinal de desvio na Visanet, empresa que fazia os pagamentos para as agências de Marcos Valério. Ou seja: verdades que pareciam evidentes em 2005 teriam de ser examinadas, revistas e explicadas em 2012. Ou corrigidas, ou retiradas.

É por isso que o Congresso tem razão em debater suas prerrogativas e nossos moralistas de plantão erram quando tratam Marco Maia e seu provavel sucessor, Henrique Alves,como criadores de caso, encrenqueiros que jogam para a platéia. Se o artigo 55 não foi abolido – o que só os parlamentares tem o direito de fazer – é mais do que razoável que sua aplicação seja discutida. Um pouquinho de história, para quem tem a memória selecionada. A cronologia diz tudo neste caso. Ao longo de 7 anos de mensalão Congresso não moveu um dedo mínimo para atrapalhar a investigação. Tampouco cometeu qualquer gesto em direção ao STF que pudesse ser interpretado como ação indevida. Ficou silencioso em seu canto, respeitoso das atribuições de cada um. E é natural que queira ser respeitado, agora.

O ministro que decidiu a votação por 5 a 4 teve um voto oposto, em situação muito parecida.
Juízes não são obrigados a votar de modo idêntico a vida inteira.
Mas a democracia é um regime coerente.
Por isso a Constituição diz que o povo exerce o poder através de seus representantes eleitos. Esta frase não é enfeite, certo? O voto da maioria da população é o começo e o fim de tudo

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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Acusações a Lula podem ter sido manipuladas