Ilda e Ramon - Sussurros de Liberdade

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domingo, 27 de abril de 2014

João Paulo II versus João XXIII: por que a canonização do papa polonês é um erro

Publicado originalmente no Observatório Eclesial.


João Paulo II e João XXIII

Francisco canonizou no Vaticano dois de seus antecessores, o Papa João XXIII e João Paulo II, em uma cerimônia histórica de ressonância mundial, não só pela relevância de ambas as figuras na história recente da Igreja Católica, mas também porque são dois personagens claramente opostos, representantes de dois modelos opostos de igreja. A “santidade” de um deles, o papa polonês, deve ser julgada tendo como pano de fundo a história contemporânea, uma vez que sob seu pontificado ocorreu o maior número de casos de pedofilia clerical na história do catolicismo.

É preciso avisar os milhões de pessoas prontas a elogiar João Paulo II sobre a injustiça tremenda que envolve esta canonização apressada.

O que pode significar no século XXI esta canonização? Como o teólogo José María Castillo afirma, ao longo dos séculos do Cristianismo “os interesses da Igreja mudaram radicalmente a imagem de santidade”, de modo à canonização revelar as reais intenções e projetos da instituição e de seus líderes.

Quer dizer, por trás do interesse espiritual de colocar uma pessoa como modelo, a canonização envolve também política e interesses econômicos.

Este modelo de santidade é em grande parte o resultado do longo pontificado de João Paulo II, que em 1983 estabeleceu as regras desse processo que, entre outras coisas, reduziu a cinco anos o tempo mínimo de post-mortem para iniciar um processo de beatificação ou canonização. Foi o período com mais santos canonizados na história dos papas (quase mais do que todos os papas anteriores combinados), acentuando o modelo pré-Vaticano II do santo tradicional.

Na mesma cerimônia foi também elevado aos altares o Papa João XXIII, cuja simplicidade de vida e abertura eclesial marcou um “antes e depois” para a Igreja Católica do século XX. Por que exatamente se vão canonizar dois personagens que com vida e pensamento tão diferentes? Por que na mesma cerimônia? Isso também parece ser coisa do papa polonês, que tornou moda a canonização em massa. Mas também se entende essa dupla canonização como uma estratégia de Francisco para mitigar o fervor exacerbado a João Paulo II quando vêm à luz as sombras de seu pontificado.

É necessário deter a canonização de Karol Wojtyla. Vozes credenciadas provam isso. Não só as das vítimas de seu pontificado, mas de cardeais jesuítas eminentes como Carlo Maria Martini, que declarou abertamente que não era necessária a canonização de João Paulo II, “era suficiente considerar apenas a evidência histórica de seu sério compromisso com a Igreja e a serviço das almas”.

As razões por que a canonização de João Paulo II é um ato político e não religioso:
Ele lutou contra a liberdade de pensamento e de ensino na Igreja, silenciando ou excomungando mais de 500 teólogos em todo o mundo durante o seu pontificado.
Atacou, sem conhecer, a teologia da libertação através de um processo sistemático de desarticulação da Igreja dos pobres com a condenação dos seus principais representantes, do cancelamento de centros de ensino teológico e da aliança com o poder político conservador na América Latina.
Seu silêncio perante as ditaduras militares da América Latina e do Caribe custou a vida de inúmeros cristãos em nosso continente, incluindo a do arcebispo Oscar Arnulfo Romero, que um ano antes de sua morte visitou Roma e não foi recebido pelo papa.
Ele negou a dignidade das mulheres na igreja, não reconhecendo a participação feminina na tomada de decisões relacionadas aos líderes homens, enfatizando apenas seu papel de mães, esposas e virgens. (Mulieris dignitatem)
Apoiou e protegeu até sua morte Marcial Maciel, sabendo da dor e do abuso infligido a inúmeras vítimas.
Está em causa o seu papel no encobrimento de inúmeros padres pedófilos​(incluindo bispos e cardeais) ao mandar que eles mudassem de residência para se proteger da justiça e, assim, multiplicando os danos às crianças, suas famílias e à própria igreja. Pois, mesmo aceitando que o abuso sexual não é um comportamento generalizado na igreja católica e sim casos individuais (digamos, no mínimo, um sacerdote pederasta em cada uma das cerca de 3.000 dioceses católicas do mundo), estaríamos falando de centenas de milhares de vítimas.

Embora o Vaticano tenha lavado as mãos de João Paulo II, negando o tempo todo que ele sabia de casos de abuso de crianças, é pouco crível que os acobertamentos tenham acontecido sem o consentimento do papa. Um pecado de omissão que e teve e continua a ter consequências terríveis.

Do outro lado da moeda está um papa desconhecido para a maioria das pessoas, dada a distância que nos separa da primavera do Vaticano II. João XXIII, um homem simples, um pastor, alguém que não queria ser reconhecido ou reverenciado. Seu catolicismo abriu as janelas para deixar entrar ar fresco. Um revolucionário, um homem religioso que queria conhecer os anseios, sonhos, preocupações, tristezas, de milhões que nele confiaram. Um homem que proclamou a Igreja para os pobres, tornada realidade por milhões de latino-americanos.

Como podemos avaliar essa contradição? Como reflexo de da profunda crise da igreja, que se debate com lutas internas pelo poder.

MARCHA DA MACONHA

CIDADANIA

Dez mil pessoas passaram pela manifestação, dizem organizadores

por Flávia Albuquerque - Repórter da Agência Brasil

São Paulo – De acordo com a Polícia Militar, cerca de 3 mil pessoas estiveram na marcha. Mais cedo, os organizadores estimaram mais de 10 mil pessoas no ato. A concentração ocorreu no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), de onde os manifestantes saíram em passeata pela Avenida Paulista em direção à Praça Roosevelt, onde o ato foi encerrado. A marcha ocorre desde 2007 no Brasil. Em São Paulo, teve início em 2008. Este ano, o lema é Cultivar a liberdade para não colher a guerra.

De acordo com o integrante do coletivo Desentorpecendo a Razão, Rodrigo Vinagre, um dos organizadores do ato, a forma atual de combate às drogas está falida, levando à morte e prisão os jovens pobres e negros. “Estamos aqui marchando pela paz e em busca de uma nova política para as drogas. A legalização da produção, distribuição e consumo da maconha é o primeiro passo para isso”.

Vinagre explicou que a lei de 2006 criou a figura do usuário, com intuito de descriminalizar o consumidor, porém não define qual a quantidade para que o indivíduo seja considerado traficante ou não. “Essa lei é totalmente subjetiva cabendo ao policial definir se a pessoa é usuária ou traficante. Assim o branco de classe média é enquadrado como usuário, e um negro pobre da periferia como traficante mesmo que estejam com a mesma quantidade”.

Durante a marcha, os participantes receberam orientações de segurança. E uma das ideias era fazer um cordão de isolamento com intuito de reforçar o caráter pacífico do ato. “Queremos mostrar que não precisamos da tutela da polícia nem do Estado para fazer uma manifestação. A ideia também é não usar maconha durante o ato”.

Em defesa do uso medicinal da substância, um grupo de pessoas, usuário da maconha para minimizar sintomas de diversas doenças, caminhou na frente da marcha. A artista plástica Maria Antônia Goulart, de 65 anos, teve câncer há sete anos e contou que usou a maconha com consentimento médico. “Isso me ajudou muito porque a maconha reduziu meus enjoos e dores, me deu sono, fome, me tirou do foco da doença”. Quando terminou o tratamento, ela parou de usá-la. Em seguida, descobriu outra doença e retomou o uso para diminuir os efeitos da fibromialgia, síndrome que provoca dores por todo o corpo por longos períodos.

Gabriela Moncau, do bloco feminista da Marcha da Maconha em São Paulo, avaliou que o debate da legalização da droga está ligado à questão de gênero. “Tem o debate também do direito ao prazer. Até mesmo quando usam as drogas lícitas as mulheres são malvistas. Uma mulher sozinha em um bar, que bebe em uma festa ou que use qualquer outra droga é vista como disponível. O debate do direito ao prazer vem casado ao direito ao próprio corpo”, disse.

A incrível ascensão do 1%: como a desigualdade se alastrou pelo mundo nos últimos 30 anos



Os 99% se insurgiram

O artigo abaixo, escrito pelo economista americano Paul Krugman, foi publicado na Carta Maior.
Thomas Piketty , professor da Escola de Economia de Paris, não é um nome familia, mas isso pode mudar com a publicação em língua inglesa de sua magnífica e arrebatadora reflexão sobre a desigualdade , “O Capital no Século XXI” . No entanto, sua influência é mais profunda. Tornou-se um lugar-comum dizer que estamos vivendo uma segunda Idade de Ouro, ou, como Piketty gosta de dizer, uma segunda Belle Époque definida pela incrível ascensão do “um por cento” da população. Mas isso só se tornou um lugar-comum graças ao trabalho de Piketty.

Em particular, ele e alguns colegas (especialmente Anthony Atkinson em Oxford e Emmanuel Saez , em Berkeley ) foram pioneiros de técnicas estatísticas que tornam possível rastrear a concentração de renda e riqueza em profundidade em direção ao passado, chegando ao início do século XX nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, e refazendo todo o caminho até o final do século XVIII, no caso da França.

O resultado tem sido uma revolução na nossa compreensão das tendências de longo prazo na formação da desigualdade. Antes dessa revolução, a maioria das discussões sobre a disparidade econômica mais ou menos ignorava os muito ricos.

Alguns economistas (para não mencionar os políticos ), tentaram calar qualquer menção ao papel da desigualdade. “Das tendências que são prejudiciais para a economia me parece que o mais sedutor, e na minha opinião o mais venenoso , é se concentrar em questões de distribuição (de renda)”, declarou Robert Lucas Jr. , da Universidade de Chicago, o macroeconomista mais influente de sua geração, em 2004. Mas, mesmo aqueles que estão dispostos a discutir a desigualdade, geralmente focam na lacuna entre os pobres ou a classe operária e os meramente bem de vida, não os verdadeiramente ricos (dedicam-se ao estudo comparativo dos ganhos de salário dos que tiveram acesso à universidade, em comparação aos trabalhadores menos instruídos, ou à riqueza de um quinto da população, em relação aos outros quatro quintos, mas não levam em consideração, o vertiginoso aumento dos rendimentos de executivos e banqueiros).

Foi como uma revelação quando Piketty e seus colegas mostraram que os rendimentos do agora famoso “um por cento “, e até mesmo de grupos mais restritos , são na verdade a grande história de aumento da desigualdade. E esta descoberta veio acompanhada de uma segunda revelação: o que poderia ser uma hipérbole, ao se falar de uma segunda Era Dourada, não o era absolutamente. Nos Estados Unidos, em particular, a parcela da renda nacional que vai para o topo do “um por cento” mais rico tem seguido um grande arco em forma de U. Antes da Primeira Guerra Mundial, o “um por cento” recebeu cerca de um quinto do total da renda na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Por volta de 1950, essa participação foi cortada pela metade. Mas, desde 1980, o um por cento tem visto sua parcela de renda aumentar de novo e, nos Estados Unidos, está de volta ao que era há um século.

Ainda assim, a elite econômica de hoje é muito diferente daquela do século XIX, não é? Naquela época, uma grande riqueza tendia a ser resultado de herança; as pessoas da elite econômica de hoje não conquistaram a sua posição? Bem, Piketty nos diz que isso não é tão verdadeiro como se pensa e que, em qualquer caso, este estado de coisas pode não ser mais duradouro do que a sociedade de classe média , que floresceu por uma geração após a Segunda Guerra Mundial. A grande ideia de “Capital no Século XXI” é que nós não apenas voltamos aos níveis de desigualdade de renda do século XIX, como também estamos em um caminho de volta para o “capitalismo patrimonial”, onde os altos comandos da economia são controlados não por indivíduos talentosos, mas por dinastias familiares.

É uma notável afirmação e precisamente por ser tão notável , precisa ser examinada com cuidado e de forma crítica. Antes de entrar nesse debate ,porém, quero dizer desde logo que Piketty escreveu um livro verdadeiramente soberbo . É um trabalho que mescla grande varredura histórica – quando foi a última vez que você ouviu um economista invocar Jane Austen e Balzac ? – com análise de dados meticulosa. E mesmo que Piketty zombe da profissão de economista por sua “paixão infantil para a matemática”, subjacente a sua discussão há um tour de force de modelagem econômica, uma abordagem que integra a análise do crescimento econômico com o da distribuição de renda e riqueza. Este é um livro que vai mudar muito a maneira como pensamos a sociedade e o modo como fazemos economia.

Salve MUJICA!

Presidente José Mujica mobiliza Uruguai para proteger sem-teto do frio

Por Redação do CdB, com correspondente - de Montevidéo




O presidente José Mujica dispensou o palácio presidencial para seguir morando em seu sítio, nos arredores de Montevidéo

Com a proximidade do inverno, o presidente uruguaio, José Mujica, começou a colocar em prática o planejamento estratégico do país para que nenhum cidadão fique sem um lugar seco e aquecido onde passar as próximas noites. Assessores do presidente comentaram com jornalistas, neste sábado, que Mujica tem mantido reuniões com o ministro do Desenvolvimento Social, Daniel Olesker, no sentido de agilizar as medidas necessárias a se atingir o objetivo. Em 2011, cinco pessoas morreram de hipotermia no país de atuais 3,3 milhões de habitantes, o que custou o cargo da ministra anterior.

Mujica, que vive com a mulher em seu sítio, nos arredores de Montevidéo, voltou a colocar a residência oficial à disposição dos sem-teto, caso haja uma procura extra aos albergues disponíveis nas cidades uruguaias, com estrutura para receber, abrigar, alimentar e oferecer os serviços da República nas possíveis situações de desequilíbrio social àqueles que correm o risco de morrer congelados. Em 2012, o Uruguai viveu uma intensa onda polar durante o deslocamento de uma massa de ar frio a partir da Antártica.

O presidente uruguaio, no atual levantamento, colocou entre os objetivos primários da ação em curso o levantamento de edifícios públicos capazes de abrigar os necessitados. Mujica é considerado um dos presidentes mais pobres do mundo, com um salário de US$ 12,5 mil mensais, e doa cerca de 90% do que ganha aos projetos de ajuda e obras de caridade em seu país.

Aos 76 anos, 13 dos quais passados na prisão por sua luta contra a ditadura militar instaurada naquele país, em meados do século passado, o presidente socialista chegou ao governo pela Frente Ampla, um movimento que reúne partidos de esquerda e de centro, que lhe assegura maioria absoluta no Parlamento. Mujica também doará a maior parte de seus vencimentos, na aposentadoria a que faz jus por exercer a Presidência da República, para o Fundo Raúl Sendic, administrado por seu partido e pelo Movimento de Participação Popular (MPP).

A doação oferecida por José Mujica servirá de exemplo para que todos os demais ex-dirigentes uruguaios passem a colaborar com projetos sociais naquele país.

sábado, 26 de abril de 2014

A morte da imaginação

Por Jacques Gruman - do Rio de Janeiro para o Correio do Brasil

Nunca entendi essa obsessão por sorrisos em fotografias. Deve ser um conluio com os dentistas. (Nora Tausz Rónai)


Especialistas em informática previram que, num futuro não muito distante, chips serão implantados no corpo. Estão atrasados. Corpos já pertencem a máquinas

Reza uma antiga lenda que dois reinos estavam em guerra. Os perdedores acabaram condenados ao confinamento do outro lado dos espelhos, um primitivo mundo virtual em que eram obrigados a reproduzir tudo o que os vencedores faziam. A luta dos derrotados passava a ser como escapar daquela prisão. O genial Lee Falk inspirou-se nesta narrativa para criar, na década de 1940, O mundo do espelho, para mim uma das mais aterrorizantes histórias do Mandrake. Espelhos foram, aliás, protagonistas de algumas sequências cinematográficas assustadoras. Bóris Karloff, um clássico do gênero, aproveitou muito bem o medo, que desde crianças carregamos, de que nossos reflexos nos espelhos ganhem autonomia. Ui! Já imaginaram se isso virasse realidade? Teríamos que conviver com nossos opostos, um estranhamento no mínimo desconfortável. Os quadrinhos exploraram o assunto também na série do Mundo bizarro, do Super-Homem. Era um nonsense pouco habitual no universo previsível dos super-heróis.

Estava pensando nos estranhamentos do mundo moderno quando me deparei com uma pequena nota de jornal. Encenava-se a ópera Carmen, de Bizet, no Theatro Municipal do Rio. Suponho que a plateia, que pagou caro, estava mergulhada na história e na interpretação da orquestra e dos solistas. Não é que um cidadão saca seu iPad e passa um tempão checando os e-mails, dedinhos nervosos para cima e para baixo, com a tela iluminando a penumbra indispensável para a fruição plena do espetáculo? Como esse tipo de desrespeito está entrando na “normalidade”, apenas uma pessoa esboçou reação. Uma espécie de angústia semelhante à incontinência urinária se espalha como praga nas relações pessoais e no uso dos espaços público e privado. Tudo passou a ser urgente. Todos os torpedos, e-mails e chamadas no celular viraram prioridade, casos de vida oumorte. Interrompem-se conversas para olhar telinhas e telonas, desrespeitando interlocutores. Como este tipo de patologia tende a se diversificar, já há gente que conversa (?) e olha o computador ao mesmo tempo, como aqueles lagartos esquisitos cujos olhos se movimentam sem aparente coordenação. Outros participam de reuniões sem desligar sua tralha eletrônica (na verdade, não estão nas reuniões). Especialistas em informática previram que, num futuro não muito distante, chips serão implantados no corpo. Estão atrasados. Corpos já pertencem a máquinas. A vida é controlada à distância e por outros.

Outro estranhamento vem da inundação de imagens, aflição que chamo de galeria dos sem imaginação. Enxurradas de fotos invadem o espaço virtual, a enorme maioria delas sem o menor significado e perfeitamente descartáveis. O Instagram recebe 60 milhões de fotos por dia, ou seja, quase 700 fotos por segundo! Fico pensando no sorriso irônico ou, quem sabe, no horror em estado bruto, que Cartier-Bresson esboçaria se esbarrasse nisso. Ele, que procurava a poesia nos pequenos gestos, no cotidiano que se desdobrava em surpresas, nos reflexos impensados, jamais empilharia a coleção de sorrisos forçados que caracteriza a obsessão pelos clics.

Essa história dos sorrisos foi muito bem notada pela Nora Rónai, que citei logo no início. Vivemos a era das aparências. Com a multiplicação das imagens, vem a obrigação de “estar bem”. Afinal de contas, quem vai querer se exibir no Facebook ou nas trocas de mensagens com uma ponta de melancolia ou, pelo menos, um suspiro de realidade? O mundinho virtual exige estado de êxtase permanente. Uma persona que não passa de ilusão. Criatividade não quer dizer tristeza, claro, mas certamente precisa incorporá-la como tijolo construtor da nossa personalidade. O resto é fofoca. Eric Nepomuceno, tradutor e escritor, fez o seguinte comentário sobre seu amigo Gabriel Garcia Márquez, que acabara de morrer: “Tudo o que ele escreveu é revelador da infinita capacidade de poesia contida na vida humana. O eixo, porém, foi sempre o mesmo, ao redor do qual giramos todos: a solidão e a esperança perene de encontrar antídotos contra essa condenação”. Nada que essas maquininhas onipresentes possam registrar, elas que jamais entenderiam a fina ironia de Fernando Pessoa no Poema em linha reta, que começa assim: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”. Mais adiante: “Arre, estou farto de semideuses. Onde é que há gente nesse mundo ?”.

A praga narcísica desembarcou nas camas. Leio que nova moda é fazer selfies depois do sexo. O casal transa, mas isso não basta. É urgente compartilhar! Tira-se uma foto da aparência de ambos, coloca-se no Instagram e … pronto. O mundo inteiro será testemunha de um momento íntimo, talvez o mais íntimo de todos. Meu estranhamento vai ao paroxismo. É a esse mundo que pertenço? Antigamente, era costume dizer que o que não aparecia na televisão não existia. Atualizando a frase: pelo visto, o que não está na rede não existe. É a universalização do movimento apenas muscular, sem sentido, leviano, rapidamente perecível.

Durante o exílio, o poeta argentino Juan Gelman passou um bom tempo sem conseguir escrever. A inspiração não vinha. Disse ele: “A poesia é uma senhora que nos visita ou não. Convocá-la é uma impertinência inútil. Durante uns bons quatro anos, o choque do exílio fez com que essa senhora não me visitasse”. Quando, finalmente, a senhora chega, tudo muda, como narra o poeta: “A visita é como uma obsessão. Uma espécie de ruído junto ao ouvido. Escrevo para entender o que está acontecendo”. Não consigo imaginar uma serenidade como essa no mundo virtual. Tudo nasce e morre antes de ser completamente absorvido. Cada novidade passa a ser vital, filas se formam nas madrugadas nas portas de lojas que começam a vender modelos mais avançados de produtos eletrônicos. Não dá pra esperar um dia, muito menos uma hora. O silêncio e a introspecção são guerrilheiros no habitat plugado. Estou me alistando neste exército de Brancaleone.

Jacques Gruman, é engenheiro químico, é militante internacionalista da esquerda judaica no Rio de Janeiro

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O PSTF — Partido do Supremo Tribunal Federal

Por Paulo Nogueira


Rosa Weber fez o que se esperava que fizesse

Um STF partidarizado é uma tragédia nacional.

Esta é a principal conclusão que você pode tirar da decisão da ministra Rosa Weber por uma CPI exclusiva da Petrobras.

Não vou nem discutir aqui se o melhor seria mesmo uma CPI exclusiva ou uma abrangente, na qual coubessem as propinas do metrô de São Paulo.

Meu ponto é o STF como partido. O PSTF, Partido do Supremo Tribunal Federal.

O drama é que, tomado de interesses políticos, o STF perde completamente o caráter técnico que deveria ter. E isso é um golpe avassalador na ideia da justiça como um conceito acima de interesses.

Machado de Assis escreveu que o maior pecado depois do pecado é a publicação do pecado. Já se imaginava, há algum tempo, que a justiça não fosse exatamente neutra. Agora, isto é amplamente conhecido.

As consequências da partidarização do STF são calamitosas.

Se uma decisão cabe a um juiz, você sabe antecipadamente como ele vai votar. Se houvesse uma casa de apostas jurídicas, não haveria jeito de você errar em seu palpite.

Caiu nas mãos da ministra Rosa Weber o veredito sobre a CPI. Dado o seu retrospecto – ela entrou para a história ao dizer que mesmo sem provas se achava no direito de condenar Dirceu – já se sabia desde sempre qual seria a escolha.

Deu a lógica.

Imagine que o caso parasse nas mãos de Lewandowski. Teríamos uma CPI abrangente.

Repito: não estou julgando aqui qual caminho é o melhor, se é que algum deles é bom. A discussão é sobre a negação da justiça representada pelo PSTF.

Pessoas pagam o preço disso. Dirceu, por exemplo. Joaquim Barbosa faz tudo que pode para atrapalhar a vida de Dirceu. O mesmo vale para Genoino, tratado como se fosse saudável como, para usar uma imagem cara a Nelson Rodrigues, uma vaca premiada, mesmo com o coração comprometido seriamente.

Dirceu e Genoino terão que esperar Joaquim Barbosa deixar a presidência do Supremo para se livrarem de uma perseguição inclemente.

Com o PSTF, o real perdedor é a sociedade.

A mim chamou a atenção, na votação dos embargos infringentes, como uma questão simples – uma segunda jurisdição está ou não na Constituição – foi tratada com caudalosos, eruditos, intermináveis pronunciamentos que simplesmente se anulavam.

Sim, estava. Ponto. Mas ministros como Gilmar Mendes e Luiz Fucs defenderam, em minúcias, a tese absurda de que a segunda jurisdição não estava na Constituição.

É, como se vê, um PSTF dividido.

Se há alguma coisa boa no julgamento do Mensalão, é que os brasileiros puderam ver quanto é precário o Supremo, a principal corte nacional.

Se ela é assim, imagine as cortes inferiores.

Não se trata apenas de reformar a justiça. Trata-se de reinventá-la no Brasil.

Quanto mais se conhece o STF, mais fica clara sua extraordinária falta de qualidade e de grandeza.

Agora mesmo, no calor da decisão de Rosa Weber, vazou a informação de que um filho dela trabalha na Globo, como jornalista.

É o segundo caso do gênero. Também um filho de Barbosa foi acolhido pela Globo.
Nada contra os filhos dos juízes do STF, mas como esperar imparcialidade dos pais se chegar a eles alguma decisão que diga respeito à Globo?

Alguém vai votar contra o empregador do filho? Quem acredita nisso, como disse Wellington, acredita em tudo. Há, portanto, conflito de interesses, dado o peso e considerada a folha corrida da Globo.

A tarefa urgente, essencial na reinvenção da justiça nacional é tirar o P do PSTF. Não pode ser um partido, ou a sociedade é alvo de intensa, cruel, insuportável injustiça.


Sobre o Autor: O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo (nossa fonte).

Grafite e arte engajada: Moema amanhece com instalação pedindo atenção aos direitos indígenas

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De autor desconhecido

Nem toda arte tem que ser engajada, e nem todo engajamento tem que ser artístico.

O patrulhamento que alguns artistas engajados fazem, como se só isso validasse uma obra, é das coisas mais chatas já criadas desde a berinjela. Mas a verdade é que quando motivação artística e social se juntam, você tem obras não melhores, mas com função dupla – de emocionar artisticamente e de propor questionamento.

E então Moema, bairro de São Paulo famoso por ter ruas com nomes de índios, amanheceu hoje com uma instalação. A Alameda dos Tupiniquins se tornou a Alameda dos “Tupiniquins Sob Ameaça”.

Perguntei à atriz Nina Dutra, minha amiga moradora do bairro que mandou a foto, se havia mais placas com a intervenção. “Que eu tenha visto, só essa”.

E aqui uma digressão: já imaginou se todas as ruas do bairro amanhecessem com uma faixa dessa? “Avenida Iracema Sob Ameaça”; “Rua Jurandir Sob Ameaça”. Qual o impacto que isso poderia causar?

Bem, voltando à questão inicial, a arte de rua tem essa característica mesmo. Nasceu, afinal, nos guetos de Nova Iorque com propósitos de liberdade de expressão. Foi trazido ao Brasil com o mesmo objetivo.

Daí a característica, que se pode observar ainda hoje em grande parte dos casos.

Agora, o mais interessante é se essa instalação não tiver nenhuma intenção artística. Toda essa discussão e o cara só queria se manifestar a favor dos índios. Tipo Homer Simpsons quando virou artista por acidente.

Isso não diminuiria o resultado artístico final da obra, afinal a mensagem, segundo a teoria de José Marques de Melo, está em quem recebe, e não em quem transmite.
Eduardo Kobra
Do brasileiro Eduardo Kobra
questionamento religioso do americano Keith Haring
Do americano Keith Haring
questionamento social de OsGemeos
Dos brasileiros OsGemeos
mensagem em favor dos parques do inglês Banksy
Do inglês Banksy
do brasileiro Stephan Doitschinoff
Do brasileiro Stephan Doitschinoff
Do brasileiro Onesto
Do brasileiro Onesto

Sobre o AutorEmir Ruivo é músico e produtor formado em Projeto Para Indústria Fonográfica na Point Blank London. Produziu algumas dezenas de álbuns e algumas centenas de singles. Com sua banda, Aurélios, possui dois álbuns lançados pela gravadora Atração. Seu último trabalho pode ser visto no seguinte endereço: http://www.youtube.com/watch?v=dFjmeJKiaWQ
Nossa fonte: Diário do Centro do Mundo

Dilma sanciona lei da internet livre durante encontro internacional


Por Redação do CdB - de São Paulo



Dilma sanciona a lei sobre a neutralidade da internet no Brasil, que servirá de modelo para a governança mundial

A presidenta Dilma Rousseff sancionou, nesta quarta-feira, durante o Encontro Multissetorial Global Sobre o Futuro da Governança da Internet (NetMundial), o Marco Civil da Internet. Segundo Dilma, o Brasil tem muito a contribuir no processo de construção de uma nova governança da Internet a partir do amplo processo interno que resultou na lei do Marco Civil da Internet.

– O Brasil tem muito a contribuir, a partir do amplo processo interno que resultou na lei do Marco Civil da Internet, aprovada pelo Congresso Nacional e que tenho a honra de sancionar, aqui, neste evento. A lei, que Sir Tim Berners-Lee considerou ‘um presente para a web em seu 25º aniversário’, demonstra a viabilidade e o sucesso de discussões abertas e multissetoriais, bem como da utilização inovadora da Internet como plataforma interativa de debates – disse.

Dilma lembrou que o Marco Civil consagra a neutralidade de rede, ao estabelecer que as empresas de telecomunicações devem tratar de forma isonômica quaisquer pacotes de dados, sem distinção por conteúdo, origem e destino, serviço, terminal ou aplicação. Disse ainda que as empresas também não podem bloquear, monitorar, filtrar ou analisar o conteúdo dos pacotes de dados.

– O Marco Civil protege a privacidade dos cidadãos, tanto na relação com o governo quanto nas relações com empresas que atuam na Internet. As comunicações são invioláveis, salvo por ordem judicial específica. A lei traz, ainda, regras claras para a retirada de conteúdo na rede. O Marco Civil, exemplo de que o desenvolvimento da Internet não pode prescindir dos Estados nacionais, é uma referência inovadora porque, em seu processo de elaboração, ecoaram as vozes das ruas, das redes e das instituições – afirmou.

Rede neutra

A conferência propõe uma espécie de “Declaração Universal dos Direitos Humanos da Internet”, incluindo princípios como os direitos à liberdade de expressão, privacidade, transparência e governança participativa. O documento quer ser o ponto de partida de um debate mais amplo sobre o futuro da Internet e de uma reforma que diminua o atual peso dominante dos EUA na administração da rede que já interliga um terço da humanidade.

– Nos próximos anos vai haver um redesenho da governança. Esta reunião é a semente para dar partida a essas mudanças – disse à agência inglesa de notícias Reuters o secretário do Ministério de Ciência e Tecnologia Virgilio Almeida, presidente do NetMundial.

O desafio será encontrar um terreno em comum entre governos como os do Brasil e Alemanha, que querem regras claras contra a espionagem, os da China e Cuba, que controlam o conteúdo da rede, e empresas como Google e Facebook, que veem a regulação como uma ameaça. O principal foco de tensão nas reuniões preparatórias foram questões políticas relacionadas a privacidade, liberdade de expressão e a inviolabilidade dos dados.

– Esperamos que daqui saia algo com um máximo denominador comum. Se alguém propõe uma Internet livre e aberta, quem vai levantar a mão e dizer que não? – arguiu o presidente no Brasil da administradora de domínios na Internet, Demi Getschko, outro dos organizadores do NetMundial.

Estão presente no NetMundial profissionais, empresários, acadêmicos e ativistas de 85 países, entre os quais um assessor de cibersegurança do presidente dos EUA, Barack Obama, e o ministro da Internet da China.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Mia Couto e seu colar de miçangas incomuns

Por RÔNEY RODRIGUES



Escritor moçambicano conta que tece novos mundos substituindo eurocentrismo e ciência-absoluta por aposta em seres múltiplos, pós-valor e olhar não-cartesiano
Entrevista exclusiva a Rôney Rodrigues

Nu e cru, eis o fato: Mia Couto cola miçangas. Com sua fala macia, vai compondo as palavras, devagar, com esmero, e sem que nem mesmo percebamos o fio articulador, está pronto um “colar vistoso”. “Assim é a voz do poeta”, explica em um texto. “Um fio de silêncio costurando o tempo”.

E o escritor moçambicano já costurou muitos fios em seus 58 anos. Escreveu 23 livros, traduzidos para seis idiomas e publicados em mais de vinte países. Em 2013, venceu o Prêmio Camões – o mais importante da língua portuguesa – e o Prêmio Literário Internacional Neustadt, considerado o Nobel norte-americano. Biólogo de formação, Mia Couto também dirige uma empresa que realiza estudos de impacto ambiental em Moçambique e é professor de ecologia da Universidade Eduardo Mondlane (UEM).

Antes que a entrevista comece, neste 14 de novembro de 2013, ele me conta um pouco de seu último livro, “Cada Homem É uma Raça”. “O título é tirado de um diálogo que eu imaginei; um diálogo entre a polícia e um vendedor de pássaros”, explica. “A polícia pergunta para esse vendedor qual é a sua raça. ‘A minha raça sou eu, João Passarinheiro.’. Explique-se melhor, disse a ele o policial. E ele disse: ‘minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor polícia’.

Enquanto toma um gole de café, queixa-se que seu relógio biológico está desregulado, afinal o fuso horário de cinco horas entre Moçambique e Brasil ainda o abate, embora as viagens sejam costumeiras. Cansado então? “Não, agora já estou acostumado”. Não acreditei. Mas não precisamos acreditar em tudo, não é verdade?

PARTE UM
Isso que se chama realidade
Uma vez você disse que os moçambicanos – assim como os brasileiros – concebem e aceitam a realidade de uma maneira pouco realista. Mais ou menos vivemos em uma história de realismo mágico?
De fato, temos tipos de culturas misturadas, miscigenadas, e essa mestiçagem se fez com nações, culturas, sentimentos e sensibilidades olhassem essa categoria chamada realidade de outra maneira e não fizesse a fricção entre o que é certo ou não certo. Tanto o Brasil como Moçambique são países que resultaram dessa emergência, dessas sensibilidades diferentes. Essas culturas – vou falar no caso de Moçambique – têm uma diferente maneira de olhar essa linha de fronteira entre o que é verdadeiro, o que é falso, o que é mágico e o que é real. Isso, obviamente, impregnou nossos países a olhar a realidade com uma interrogação. Os próprios europeus, que têm essa filosofia que valoriza tanto essa chamada realidade, criaram isso que se chama “realismo mágico”. De qualquer maneira, nunca seria um brasileiro, um latino-americano ou um africano a inventar a categoria de realismo mágico porque nós temos outro olhar. Trata-se de uma filosofia – de um modo de estar de estar no mundo – de um povo que não leva muito a sério o chamado sentido da realidade e não se deixa intimidar por uma certa racionalidade que é muito normativa em relação à necessidade de festejar o corpo e a alegria de viver.

Essas classificações são porosas, claro. Você acha que elas ajudam a gente entender os processos?


Nós temos uma tendência natural, digamos assim, para criar esses compartimentos e pensar nos estereótipos à base de clichês. A única maneira é essa: construir para nos desconstruir. Se nós não nos tomarmos muito a sério, de maneira que não nos arrumem a nós e que seja uma ferramenta que a gente possa usar e desfazer – tendo consciência dela –, tudo bem. Mas pensar em classificar também me parece uma preocupação que temos por influência de certa filosofia europeia.

Você costuma falar que contar história é uma maneira de rezar. Queria que você me falasse como essa reza ajuda a recuperar as histórias contadas dos outros.

Toda literatura faz isso. Quer dizer, há todo um convite para essa realidade, que foi nossa primeira pátria. Não aconteceu comigo, na minha casa, por essa circunstância particular de se contar muitas histórias, mas todos nós nascemos crianças e chegamos à palavra por via desse pensamento. Não é só um assunto técnico – de estar escrito –, mas é um modo de estar aberto, em sintonia com o que é visível e não-visível. Nos deixamos guiar pela palavra, somos absorvidos por ela, somos produtores dela. E isso a literatura resgata. É como dizer: “vamos permitir que uma certa infância se reinstale dentro de nós”. É isso que me faz feliz em ser escritor, é, sobretudo, eu ter feito contas com minha identidade, dizendo assim: “eu não sou uma única pessoa, sou várias, ao mesmo tempo sou tudo isso, tem uma parte negra, uma parte branca, uma parte mulher, uma parte homem, uma parte cientista, uma parte poeta”.

PARTE DOIS
Os comedores de nações

Era 12 de junho 2001 e Mia Couto subiu ao palco da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, para receber o prêmio Mário António Fernandes de Oliveira – atribuído de três em três anos – por “O último voo do flamingo”. Tinha na ponta da língua o que dizer:

“O último voo do flamingo fala de uma perversa fábrica de ausência – a falta de uma terra toda inteira, um imenso rapto de esperança praticado pela ganância dos poderosos”, pronunciou. “O avanço desses comedores de nações obriga-nos a nós, escritores, a um crescente empenho moral”.

E desse empenho moral, Mia Couto entende: participou da luta pela independência de Moçambique, quando se juntou à Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo). Nunca pegou em uma arma de fogo porque os insurgentes proibiam brancos de andarem armados. A arma, desde aquela época, era a mesma de hoje: caneta e papel.

O que é a fábrica de ausências?

Hoje, infelizmente, não há nenhum país que não esteja nessa condição. Desde o início, desde crianças, nós somos colocados numa circunstância de consumir: consumimos filmes, sons… Consumimos o tempo que já não tem tempo para nós. Precisa-se devolver essa condição de produtor, de maneira que, desde o início, desde que a criança começa a enxergar o mundo, se aceite que ela tem um discurso próprio – mesmo que esse discurso seja completamente errado aos olhos do adulto, mesmo que ele seja só no nível da poesia. Quando a criança pergunta – ou quer se encantar por qualquer coisa, seja a chuva, a nuvem, o vento –, que seja aceito esse discurso como uma coisa que está sendo criada e, portanto, é uma construção que não deve ser interrogada se é errada ou não. A criança se coloca como sujeito de si próprio e parte dos adultos tem a tentação de corrigir a criança, dizendo: “não, o vento não é isso o que estais a dizer?”, e explica o que é o vento. Isso promove uma maneira de verhegemônica, fundada na ciência. Precisamos reinventar o mundo.

E esse seria o “empenho moral” do escritor?

Sim, construir o espaço do sonho possível. Numa sociedade em que o valor está, simplesmente, no que pode ser comprado e vendido, alguma coisa tem que ir além disso: o prazer que temos em sermos outros, em sonharmos, em viajarmos através do outro. A preservação desse espaço está para além da razão do lucro e do mercado. Esse é o nosso empenho moral e nos interessa que o livro seja capaz de produzir esse território do conhecimento.

Você esteve ligado à Frelimo, que buscava a independência de Moçambique. Na medida do possível, essa independência chegou?

Não. Moçambique precisa conquistar um caminho próprio, um caminho que seja original. Essas são as grandes urgências da nossa sociedade. Moçambique não teve tempo. Na verdade, o que houve foi que não lhe é dado esse tempo, uma nação tem que se integrar no mundo e esse mundo é ditado por essa pratica de ser global e de se encaixar na economia. Eu sei que é uma coisa muito utópica, mas poderíamos ter esse tempo e espaço para criarmos uma via própria – que poderia não ter o nome concreto de socialismo ou capitalismo – uma via que dê mais respostas à nossa própria cultura, à nossa própria realidade.

Mas como desbloquear essa via, que parece estar sempre impedida, usando uma expressão sua, pelos “comedores de nações”?
Essa é uma resposta que eu não tenho. O que eu acho é que estamos todos perdidos em relação a isso, pois vivemos esses confrontos. Não é um caso só pra Moçambique: o Brasil também vive isso. Não há nação que não viva isso, mas podemos ter uma identidade própria e não uma que seja reproduzida e imposta por uma coisa que não tem rosto. Precisamos estar conscientes de que esse caminho não nos serve mais, mas ainda estamos todos apalpando no escuro.

Algumas pessoas se referem à sua literatura como altamente politizada, também por sua história de militância. Você a vê assim?

Queria que ela fosse, em primeiro lugar, literatura. E que fosse política só na medida em que ela fosse literatura. Toda literatura é política. Essa classificação é demasiadamente apolítica e me é preocupante, acaba por deixar escapar outra coisa que é mais importante. A biologia narra a história da vida. E a literatura também: é a arte de celebrar o fato de estarmos vivos.

PARTE TRÊS
Poeiras e cinzas do chão
Em o “Afinador de Silêncios”, Mia Couto, provavelmente recordando-se de sua infância tímida – “refinando silêncios, no plural” – adverte que “uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros”. E conclui: “eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio”. Queria saber quando é que o escritor decide romper esse silêncio.

Você se recorda de quando se sentiu absorvido pela palavra?

Sim, sobretudo quando eu escutava murmúrios – nunca foi pela voz proclamada, não uma coisa que se dissesse em voz alta – mas algo que sussurrava: os murmúrios das histórias que minha mãe me contava. Era como se a história fosse meu leito, onde eu me deitava naquele momento de transição entre a vigília e o dormir. A palavra me conduzia.

Você já disse uma vez o silêncio é uma música em estado de gravidez. Quando a papel está em branco ou a tela do editor de textos aberta à sua frente, como você apura esse silêncio para tentar transformar em encantamento?
A relação com o silêncio é importante para mim, porque eu tive que aprender e isso teve uma importância decisiva. Não apenas porque meu pai era um poeta, mas porque vivíamos em estado de poesia em nossa casa. O meu pai ensinou uma coisa: olhar para as pequenas coisas, ao jeito das lições de Manoel de Barros, procurando brilhos entre poeiras e cinzas do chão. Ele nos ensinou também a ouvir poetas em noites de poesia com ele e poetas amigos. A palavra era como se fosse música. A minha origem – parte de mim, que é meu pai – me ensinava que o silêncio era um vazio, e era preciso ocupá-lo. Havia um medo do silêncio e, esse mesmo medo fazia com que a gente conversasse para ocupar o silêncio. Mas acho que a África me deu muitos silêncios e algumas coisas eu não teria, se não fosse daquele lugar. Ali o silêncio não é uma ausência, é uma presença. Alguém sempre está falando conosco quando não dizemos nada. O trabalho foi de me fazer recuar diante do medo, deixar de temê-lo e perceber que no silêncio há qualquer coisa pedindo para ser escutada.
Nossa fonte: Outras Palavras

Gabo e um milagre chamado Vietnã

Por Flávio Aguiar - de Berlim



A leitura de Vietnam Wars me despertou para um outro Gabo, tão fascinante quanto o primeiro. Tratava-se do Gabo jornalista, repórter, no caso, do Vietnã

No dia 29 de maio de 1980 a revista Rolling Stone publicou um artigo do jornalista Gabriel Garcia Marquez, ‘The Vietnam Wars’. O artigo fascinou-me tanto quanto a leitura de Cem anos de solidão, mais de uma década antes, na impecável tradução de Eliane Zagury. A leitura deste livro levou-me ao encontro – abrindo o caminho – para um dos escritores mais ilustres, criativos, generosos e combativos que já pude ler.

Garcia Marquez era de uma estirpe particular de escritores, os ‘criadores de mundos’. É claro que todo o escritor cria o seu mundo; mas alguns o fazem criando um mundo particular, fictício e real, mas só deles, com os quais se identificam e por eles são identificados. Juan Rulfo e Comala; Joseph Conrad e Costaguana; Erico Verissimo e Santa Fé e mais Antares; Monteiro Lobato e o sítio do Picapau Amarelo, somente para dar alguns exemplos.

Foi e é dos escritores latino-americanos mais expressivos do que veio a se chamar, talvez um tanto imporprieamente, de ‘realismo mágico’, na esteira do que Alejo Carpentier batizou de modo mais preciso de ‘real maravilhoso’. Gabo (seu apelido, apócope de Gabriel) tornou-se um escriotor maravilhado, maravilhoso e maravilhante: maravilhado pela história de seu continente; maravilhoso pela qualidade e pelo fôlego; maravilhante porque quase sempre fascina o leitor pelos mundos que cria e pela riqueza humana de personagens como o Coronel Aureliano Buendía.

Porém a leitura de ‘Vietnam Wars” me despertou para um outro Gabo, tão fascinante quanto o primeiro. Tratava-se do Gabo jornalista, repórter, no caso, do Vietnã do pós-guerra, o país que restara dilacerado entre os escombros do antigo regime de sul, as feridas abertas deixadas pelo napalm, pelos bombardeios, pela implacável Operação Phoenix sob a batuta dos Estados Unidos, que dizimara os melhores quadros do sul do país.

O texto de Gabriel é claro, sucinto, preciso, amplo, captando todas as tragédias humanas e a dolorosa luta pela sobrevivência e pelo reerguimento do país devastado – mas não dobrado. O ponto alto e constante do artigo é a constatação do contraste entre os sul, onde se aglomera uma burguesia que perdeu o poder mas não a riqueza, atrás de uma rota de fuga irregular, os traficantes que abrem a rota, os piratas no mar do sul da China que assaltam os navios, e o norte, menos destruído, mas impotente para alavancar de modo rápido a recuperação daquele sul.

Gabo analisa com maestria o modo como a mídia do Ocidente criou a falsa imagem que o norte comunista e desalmado estava literalmente “jogando” as vítimas do sul pelo mar a fora, e chega a conclusão que os vencedores da guerra militar estavam sendo derrotados – também pela própria imprevidência – por uma outra guerra, a da informação.

Mas como tudo que Gabo tocava adquiria a consistência do maravilhoso, também não dava – nem dá agora, na releitura cheia de saudade – para desprezar o esforço titânico daquele povo, atacado por todos os lado, ainda se acreditando ameaçado por uma nova guerra (desta vez seria com a China, ameaça que felizmente não se concretizou), esforço majestoso para renascer das próprias cinzas, e assim derrotar, mais uma vez, a Operação Phoenix, fazendo de si mesmo uma Fênix de verdade.

Obrigado, Gabo.

Flávio Aguiar, é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.

Dia Internacional da Terra mostra a importância de se preservar a natureza

Por Redação do CdB - do Rio de Janeiro



O dia 22 de abril de 2009, foi firmado pela ONU a fim de marcar uma 
responsabilidade coletiva com o intuito de promover a harmonia com a 
natureza e a Terra

“O Dia Internacional da Mãe Terra é uma oportunidade para reafirmar nossa 
responsabilidade coletiva para promover a harmonia com a natureza em um tempo 
em que nosso planeta está sob ameaça de mudanças climáticas, exploração 
insustentável dos recursos naturais e outros problemas causados pelo homem.
Quando ameaçamos nosso planeta, minamos nossa própria casa, e nossa 
sobrevivência no futuro”. Essa é a mensagem do secretário-geral da Organização

das Nações Unidas (ONU) Ban Ki-moon para a data desta terça-feira, criada para 
conscientizar os seres humanos sobre a importância da preservação.

O dia 22 de abril de 2009, foi firmado pela ONU a fim de marcar uma responsabilidade 
coletiva com o intuito de promover a harmonia com a natureza e a Terra e alcançar um 
balanço entre economia, sociedade e ambiente. Mas essa história não começou aí, veio 
do primeiro Dia Nacional da Terra, em meio ao movimento hippie americano, em 1970. 
Segundo informações do portal Cidadania da Rede Globo. A ideia de uma data para 
marcar a luta pelo ambiente veio do senador Gaylord Nelson, após ver a destruição 
causada por um grande vazamento de óleo na Califórnia, em 1969. Aproximadamente, 
20 milhões de pessoas nos Estados Unidos saíram às ruas para protestar em favor de um 
planeta mais saudável e sustentável. Milhares de escolas e universidades organizaram 
manifestações contra a deterioração do ambiente.

Segundo o engenheiro florestal Gustavo Nogueira Lemos, coordenador interino do Programa 
Educação para Sociedades Sustentáveis do WWF-Brasil e líder do eixo Cidades Sustentáveis 
do Programa, é fundamental e relevante valorizar a data. “A Terra nos dá todo nosso 
alimento e a oportunidade de viver. Muitas vezes não refletimos sobre os impactos negativos e
 positivos sobre ela. Este é um momento de reflexão e interação com o nosso planeta. Se não 
virmos isso, menos veremos o quão é importante o nosso papel. Temos que saber como 
podemos nos posicionar em relação á natureza”, aponta Gustavo.

Gustavo ressalta que a convivência entre os seres tem sido de forma desarmônica e o consumo exagerado tem levado a Terra à beira de um colapso. “O consumo que nós temos é
extremamente maior do que a nossa necessidade. Faz com que o nosso impacto seja elevado
no ambiente. 
Temos uma população que cresce de forma expoente e a forma como se produz tornou-se
maior do que o planeta pode gerar. Temos que ter em mente a sustentabilidade, ela deve
ser a diretriz das nossas direções. Enquanto estimularmos o consumo além do limite, ficaremos
reféns da nossa sobrecarga”, destaca o engenheiro.

- O planeta não vai acabar, ele continua. Vai ter sempre um tipo de vida coabitando, o que 
pode se acabar é a civilização humana. Somos parte de um todo, responsáveis de forma direta 
por manter equilíbrio sobre um todo. Temos degradação no ambiente rural, no bioma,
ecossistema, mudanças climáticas, e isso tudo é fruto do nosso consumo. Enquanto tivermos
culturas e países consumindo elevadamente em detrimento de culturas menores, não
conseguiremos equilíbrio. A demanda de carne é muito alta, as plantações de monocultura
utilizam cada vez mais agrotóxicos, assoreando o solo para produzir alimentos além do
necessário – afirma.

A corresponsabilidade é algo importante para reverter o quadro atual. Segmentos industriais, 
agriculturas e sociedade civil devem criar políticas para iniciar este processo de recuperação. 
A Mãe Terra é uma comunidade indivisível vital dos seres interdependentes e inter-
relacionados com um destino comum, portanto, é de suma urgência realizar ações coletivas
decisivas para transformar as estruturas e sistemas que causam as mudanças climáticas e
outras ameaças. Bem como diz o texto da Carta da Terra, devemos nos juntar para
gerar uma sociedade sustentável global, fundada no respeito pela natureza, nos direitos
humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar ao propósito,
é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para
com os outros, com a grande comunidade de vida e com as futuras gerações.

- No Dia da Terra, temos que utilizar a reflexão pelo fato de abarcar todos os ecossistemas. É 
uma boa oportunidade para refletir o quanto integrado são os organismos vivos que habitam o 
planeta, parar observarmos o quanto somos pequenos diante da Terra, que nos dá sustentação. 
Temos que respeitar a plenitude dos nossos recursos, pois nada é infinito no planeta, e termos 
noção do quanto é importante utilizar tudo de forma generosa a e responsável. Não podemos ir 
além do que devemos, isso passa por regularização, fiscalização e planejamento global. A 
estratégia tem que ser global porque o organismo é um só, todos coabitamos o mesmo. A
questão do aquecimento global traz um alerta muito forte, gerado pelo impacto do nosso
consumo e estilo  de vida, indicadores importantes de que estamos indo na direção errada e
temos que frear isso – diz Gustavo Lemos.

Nossa fonte: Correio do Brasil

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Nassif coloca JB sob suspeita de espionagem




Jornalista Luis Nassif questiona a conduta do presidente do STF, Joaquim Barbosa, no pedido de quebra de sigilo dos telefones na região do Palácio do Planalto: "No episódio da tentativa de espionagem sobre o Palácio do Planalto, Barbosa agiu com mão de gato ou foi fundamentalmente displicente? O simples fato de existir essa dúvida mostra a desmoralização a que o STF está submetido com os atos de seu presidente"; para Nassif, "há muitos elementos para suspeitar que, ao remeter o pedido para o PGR sem nenhuma observação, ou ao não recusar o pedido liminarmente, Barbosa participou da trama para espionar o Planalto – juntamente com a promotora Márcia Milhomens Sirotheau Corrêa, o ex-juiz da Vara de Execuções de Brasília Bruno Ribeiro"

247 - O jornalista Luis Nassif questiona, em artigo publicado neste domingo (20), a conduta do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, no polêmico pedido de quebra de sigilo dos telefones na região do Palácio do Planalto - que se soube depois envolvia o acesso aos telefonemas do Congresso e do próprio STF. Para Nassif, é irônico pensar que Barbosa tenha sido displicente com o pedido.

"No episódio da tentativa de espionagem sobre o Palácio do Planalto, Barbosa agiu com mão de gato ou foi fundamentalmente displicente? O simples fato de existir essa dúvida mostra a desmoralização a que o STF está submetido com os atos de seu presidente, ao não se pronunciar sobre a tentativa do Ministério Público do Distrito Federal de espionar o Palácio do Planalto", afirma.

Neste contexto, Nassif analisa como Barbosa tentou criar as condições para que a quebra de sigilo se materializasse. "Quem analisar todos os passos da trama, terá muitos elementos para suspeitar que, ao remeter o pedido para o PGR sem nenhuma observação, ou ao não recusar o pedido liminarmente, o próprio Barbosa participou da trama para espionar o Planalto – juntamente com a promotora Márcia Milhomens Sirotheau Corrêa, o ex-juiz da Vara de Execuções de Brasília Bruno Ribeiro", afirma.

Os pressupostos do jornalista para tal conclusão estão nos itens abaixo:


1.A promotora Márcia Milhomens Sirotheau Corrêa, da Vara de Execuções de Brasília, pede a quebra do sigilo telefônico de uma área que engloba o Palácio do Planalto.

2.No seu último ato no cargo, o juiz Bruno Ribeiro, que assumiu a função na Vara de Execuções após a carga de Barbosa contra seu antecessor, recebe o pedido e envia para Barbosa sem nenhuma consideração a mais. É de conhecimento geral as afinidades criadas entre Barbosa e Ribeiro. Além da pressão contra seu antecessor, Barbosa acionou o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) em defesa de Ribeiro.

3.Era de conhecimento de Barbosa que, no mesmo dia em que enviou o processo, Ribeiro declarou-se impedido de continuar atuando na Vara de Execuções.

4.O presidente do STF recebeu o pedido, não conferiu as coordenadas e enviou para a PGR. Se o PGR também não conferisse as coordenadas, Barbosa teria o álibi para quebrar o sigilo do Planalto.

E diz mais: "as suposições acima são perfeitamente críveis, para um cargo em que não se admite sequer a dúvida sobre a conduta do titular. Ainda mais com todo o histórico de protelações de Barbosa sobre o episódio Dirceu. É evidente que Barbosa sabia que o pedido de escuta referia-se a áreas sensíveis, ao Palácio do Planalto ou a outro poder, caso contrário o próprio juiz da Vara de Execuções poderia ter autorizado a quebra de sigilo".
Quem corrobora com a avaliação de Nassif é o também jornalista Jânio de Freitas, que em duas edições da sua coluna no jornal Folha de S. Paulo levantou suspeitas sobre a forma como o presidente do STF deu encaminhamentos ao tema. Na edição deste domingo, ele rebate resposta da assessoria de Barbosa.

"O ministro tem a autoridade e o dever de examinar cada ofício recebido e lhe dar o encaminhamento adequado, sendo um deles a rejeição por impropriedade. O oposto disso é reduzir ministro do Supremo a tarefas de estafeta, entregador de papéis de um lado para outro, como sugere a nota", afirma (leia o texto dele aqui).

O jornalista Fernando Brito, do Tijolaço, também trata do assunto. "O Dr. Joaquim mandou dizer, por sua assessoria que se sente indignado por estar sendo acusado de “participação em um ato criminoso, qual seja a quebra ilegal de sigilo telefônico”. Embora Janio de Freitas não o acuse – apenas estranhe a sua inação – é bom saber que o Dr. Joaquim avalie que a promotora tentou cometer um crime. Resta saber, portanto, porque a insólita atitude do Ministério Público, que não atuou diante desta preparação de ação delituosa por parte de uma de suas próprias integrantes", diz.

Abaixo a análise de Luis Nassif:

As suspeitas sobre Barbosa no episódio de espionagem


Como se sentiria um operador do direito se alguém afirmasse que há suspeitas de que a mais alta autoridade do Judiciário, o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) usa mão de gato, pratica chicana, estupra os procedimentos à luz do dia e com as cortinas do palco escancaradas? E que, na condição de presidente do STF, sua imagem pessoal torna-se a imagem do Judiciário.

No episódio da tentativa de espionagem sobre o Palácio do Planalto, Barbosa agiu com mão de gato ou foi fundamentalmente displicente? O simples fato de existir essa dúvida mostra a desmoralização a que o STF está submetido com os atos de seu presidente, ao não se pronunciar sobre a tentativa do Ministério Público do Distrito Federal de espionar o Palácio do Planalto.

O assessor de Barbosa, Wellington Geraldo Silva, telefonou para Jânio para "uma exaltada cobrança telefônica", sobre as suspeitas de que, por falta de qualquer reação, Barbosa endossara a tentativa de espionar o Planalto. Foi-lhe recomendado escrever para o Painel do Leitor.

Na carta enviada, o assessor alega que Barbosa tomou as providências regimentais quando recebeu o pedido de quebra de sigilo do seu parceiro, o juiz da Vara de Execuções Penais: sem ler, encaminhou o pedido para apreciação do Procurador Geral da República. Só depois do parecer da PGR, o presidente do STF manifestar-se-ia.

No entanto, quem analisar todos os passos da trama, terá muitos elementos para suspeitar que, ao remeter o pedido para o PGR sem nenhuma observação, ou ao não recusar o pedido liminarmente, o próprio Barbosa participou da trama para espionar o Planalto – juntamente com a promotora Márcia Milhomens Sirotheau Corrêa, o ex-juiz da Vara de Execuções de Brasília Bruno Ribeiro.

Relembrando:

1.A promotora Márcia Milhomens Sirotheau Corrêa, da Vara de Execuções de Brasília, pede a quebra do sigilo telefônico de uma área que engloba o Palácio do Planalto.

2.No seu último ato no cargo, o juiz Bruno Ribeiro, que assumiu a função na Vara de Execuções após a carga de Barbosa contra seu antecessor, recebe o pedido e envia para Barbosa sem nenhuma consideração a mais. É de conhecimento geral as afinidades criadas entre Barbosa e Ribeiro. Além da pressão contra seu antecessor, Barbosa acionou o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) em defesa de Ribeiro.

3.Era de conhecimento de Barbosa que, no mesmo dia em que enviou o processo, Ribeiro declarou-se impedido de continuar atuando na Vara de Execuções.

4.O presidente do STF recebeu o pedido, não conferiu as coordenadas e enviou para a PGR. Se o PGR também não conferisse as coordenadas, Barbosa teria o álibi para quebrar o sigilo do Planalto.

As suposições acima são perfeitamente críveis, para um cargo em que não se admite sequer a dúvida sobre a conduta do titular. Ainda mais com todo o histórico de protelações de Barbosa sobre o episódio Dirceu.

É evidente que Barbosa sabia que o pedido de escuta referia-se a áreas sensíveis, ao Palácio do Planalto ou a outro poder, caso contrário o próprio juiz da Vara de Execuções poderia ter autorizado a quebra de sigilo.

Mas seguir procedimentos habituais em um caso absolutamente unusual – a quebra do sigilo da própria Presidência da República – é um contrassenso que só se explica pela vontade de postergar ao máximo a decisão sobre Dirceu, ou então, de criar um fato político mesmo.

A alegação do assessor, de que Barbosa só poderia se manifestar após parecer do PGR, em um tema que nada tem de usual, mereceu a resposta adequada de Jânio: aceitar isso seria acreditar que o presidente do STF comporta-se como um estafeta, recebendo processos e encaminhando sem ler para o PGR.

Passados vários dias, até agora a única manifestação de Barbosa foi essa nota do assessor, segundo a qual ele cumpriu o regimento, remetendo o pedido (sem ler) para o PGR.

É possível que o excesso de processos levasse Barbosa a ser descuidado com o pedido. Mas é possível – dada a visibilidade do episódio – que o descuido de Barbosa tivesse sido intencional. É possível que não atinasse para a extensão do pedido. Mas também é possível que agisse em sintonia com o juiz para criar uma crise política.

Agora, coloque-se no lugar de Joaquim Barbosa. Há uma investigação para conferir um telefonema de José Dirceu, que teria sido dada em um dia definido. Barbosa recebe um pedido de autorização de escuta por vários dias, em áreas variadas. Supondo que seja displicente nos seus pedidos, que seja burocrático no encaminhamento dos processos, alguém poderá supor que, ao receber o pedido de quebra de sigilo, não tivesse sequer a curiosidade de conferir as coordenadas definidas pela promotora?

É mais fácil um camelo passando no buraco de uma agulha.

Pergunto: é possível um presidente de STF conviver com tantas dúvidas e suspeitas acerca de sua conduta, em um episódio da mais alta gravidade?

Cartas de Rosa Luxemburgo inspiram peça

 

Lediane Filus do UOL, em Curitiba

"Rózà" resgata a história da revolucionária Rosa Luxemburgo, dando vida às suas paixões e desejos que vão além da militância. 

Construído a partir das cartas da revolucionária Rosa Luxemburgo, o espetáculo "Rózà" será uma das estreias nacionais do Festival de Curitiba, com sessões nos dias 1º e 2 de abril. A protagonista, nascida na Polônia, judia e oradora famosa, escreveu as correspondências nas prisões alemãs no início do século 20, onde ficou durante três anos. 

Segundo uma das diretoras da montagem, Martha Kiss Perrone, mais do que mostrar o lado revolucionário e militante de Rosa, a intenção da peça é humanizar e resgatar sua história, suas paixões e vida pessoal.
"O que me levou a querer fazer o espetáculo foi ver na figura de Rosa a sua atualidade, uma mulher de hoje e de agora. Rosa Luxemburgo era uma grande revolucionária, um grande espírito e um grande coração", conta a diretora.

Martha, que também interpreta a personagem no espetáculo, conheceu as cartas em 2009, quando fez um estágio no Théâtre Du Soleil, em Paris, e levou consigo uma biografia e um cartaz de Rosa com a frase "A liberdade é, quase sempre, exclusivamente, a liberdade de quem pensa diferente de nós".
Peça multimídia
Toda a humanidade e emoção nas palavras deixadas por Rosa, mulher apaixonada e também muito próxima da natureza, despertou então na diretora o desejo de reavivar essa história. Para tanto, foi escolhido um modelo diferente de peça, com um conceito multimídia.
Assim, em vez da estrutura tradicional de palco, Martha explica que o espaço cênico será uma instalação cenográfica em forma de tenda que representa a prisão onde Rosa esteve. O público será convidado a entrar nesse espaço, onde serão projetados vídeos e cenas filmadas em Berlim, compartilhando as caminhadas e lutas da protagonista até sua prisão e brutal assassinato em 1919.
A trilha sonora também será diferenciada, com artistas tocando as músicas ao vivo.
Três Rosas 

Os trechos das cartas vão ganhar vida com a interpretação de três atrizes diferentes para o papel da revolucionária. Martha explica que é possível encontrar três Rosas em uma só, com diferentes personalidades que se completam. "São três Rosas porque ela era múltipla, não heroína, mas humana com erros e acertos, paixão pela vida e pela luta", explica ela.

A primeira Rosa é a revolucionária e oradora entusiasmada, enquanto a segunda é a mulher ligada à natureza, que falava com passarinhos e cultivava um herbário. Já a terceira é a amante apaixonada, que se divide entre a luta política e a vontade de deixar tudo para trás para ficar com o amado. 

A peça aborda de forma mais ampla a vida de Rosa, conectando as paixões e os sonhos de ontem e hoje, aqui, na Alemanha, ou em qualquer lugar onde haja uma mulher sem medo de mudar o mundo. "Precisamos hoje de seres apaixonados como ela, dessa força feminina sem medo e com muita coragem", complementa a atriz. Ainda segundo ela, a intenção da peça não é trazer respostas, mas mostrar que os dilemas vividos por Rosa em seu tempo continuam atualmente. 

A expectativa é de que a estreia possa inspirar o público, como aconteceu no ensaio aberto feito em São Paulo, que foi assistido por feministas (algumas inclusive de descendência judia e polonesa, como a protagonista) e militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra. 

Dentre os depoimentos de quem participou da experiência, um dos mais marcantes para a diretora foi a de um homem que ressaltou que a peça vai além do aspecto trágico e doloroso da história das lutas, trazendo também a alegria e a paixão de quem faz parte da revolução, assim como o prazer de estar nas ruas.
Nossa fonte: Página do MST

Por que Eça ainda deve ser lido

Continuo achando que Pasadena foi bom ne
 
“Éramos jovens, éramos jovens”

Poucos finais de romances são tão pertubadoramente belos e filosoficamente profundos como o de Os Maias, de Eça Queiroz. Carlos e Ega, dois amigos de uma vida toda, erram pelas ruas de Lisboa. As ilusões da juventude já haviam sido trituradas pelo tempo, e eles constatam que quase nada do que sonharam tinha se tornado realidade. O grande livro que Ega escreveria – até título já tinha: Memórias de um Átomo – jamais chegou a ser escrito e publicado. Carlos não se recuperou de uma paixão alucinada, carnal por uma mulher que ele desconhecia ser sua irmã, Maria Eduarda.
A vida que se realiza não é aquela com que sonhamos, refletem. E então a frase que ficou permanentemente gravada em minha mente: “Ah, éramos jovens, éramos jovens.”

Eça é um autor fundamental. Numa vida breve – morreu em 1900, aos 55 anos —  construiu uma soberba pirâmide literária. O estilo exuberante, descritivo como mandava a escola naturalista à qual ele se filiou, se mesclou com características deliciosas em sua prosa. Eça, como os intelectuais progressista de seus dias, era fanaticamente anticlerical. Os padres e a igreja representavam, para ele, o atraso. E era absurdamente cru  na forma como tratava o sexo em seus livros. Os personagens de Eça são governados pelo anseio sexual.

O Crime do Padre Amaro, um de seus clássicos, traz tudo isso: a repulsão à batina e o império dos sentidos. Amaro seduz e consequentemente devasta uma jovem crédula, Amélia. Amaro era como a representação de todos os padres e em Amélia estava a sociedade portuguesa. Eça estava como que dizendo que Portugal fora sodomizado e atrasado pelos padres católicos.

O anticlericalismo está presente de forma bem mais divertida em outra obra de Eça, A Relíquia. Raposo é um espertalhão que pretende entrar na herança da tia rica e carola. Ele vai para Jerusalém para agradar a velha. Pega, no final da viagem espiritual, uma relíquia para ela, e tudo ia terminar bem se ele não tivesse colocado numa caixa exatamente igual a calcinha de uma mulher libertina que ele conquistara na viagem. Quando a tia abre o presente, não é a relíquia que ela encontra – mas a peça íntima de uma mulher lasciva. Antes de ser desmascarado, Raposo fizera coisas como pegar água da torneira e vendê-la em garrarinhas como se fosse água santa do Jordão.

Como outros grandes autores do século XIX, Eça criou uma adúltera notável. É Luiza, de O Primo Basílio. Basílio, um canalha total, se aproveita da fragilidade de sua prima, bem como da ausência prolongada do marido desta. O caso entre eles é descoberto pela empregada de Luiza, que a chantageia e tortura até virtualmente liquidá-la.

Machado de Assis, o grande contemporâneo brasileiro de Eça, escreveu uma crítica antológica sobre O Primo Basílio. Foi duríssimo. Disse que a única lição que se extraía do livro é que a “boa vontade dos fâmulos é essencial para a paz no adultério”. Foi a primeira vez que li a palavra “fâmulo” – empregado, servo. Machado evidentemente exagerou. Mas sua crítica, de toda forma, acabou por ampliar a repercussão do romance de Eça, em vez de diminuí-la. Outro contato extraordinário entre os dois se deu numa dedicatória que Machado fez a Eça num romance que lhe deu. É provavelmente a dedicatória mais seca que um escritor já fez: “De Machado de Assis para Eça de Queiroz”.

As comparações entre os dois gênios são inevitáveis. Machado era contido e sutil. Insinuava, em vez de afirmar. Eça jorrava. Não falava: berrava. A adúltera de Machado, Capitu, você nem tem certeza de que traiu o marido. A Luiza de Eça entregou a carne toda ao primo cafajeste. Cada qual de seu jeito, eram gigantes, e é simplesmente impossível dizer qual dos dois é melhor.

Li, em minha juventude, Eça com uma caneta ao lado para sublinhar e anotar as frases que mais me marcavam. Uma delas lembro ainda hoje com vividez: “Braços que se desenlaçam em despedidas supremas”. Visitei Póvoa do Varzim, a terra de Eça. Era janeiro, e o vento quase arrastava as pessoas. Fui a um cassino local jogar roleta e quase arrumo ao encrenca ao pegar, sem querer, fichas que não eram as minhas. Poucos meses atrás. numa ida a Paris em missão jornalística, acabei dando numa estátua de Eça num subúrbio. Eça viveu em Paris como diplomata. Sentei num banco e contemplei por alguns minutos Eça antes de partir.

Os Maias é meu Eça favorito.  Admiro o patriarca Afonso Maia, em cuja força interior inquebrável vejo algo de meu pai.  Tanto me marcou que quis muito dar a minha filha caçula o nome de Maria Eduarda. Fui batido pelo conselho familiar, representado por minha ex-mulher e meus dois filhos, então pequenos mas já cheios de opiniões próprias. (Acabou prevalendo Camila, e hoje digo que minha ruiva maravilhosa não poderia ter mesmo outro nome.)

Tantos anos depois de ter lido Os Maias, e ocasionalmente relê-lo, a cena final ainda me toca. Quantas vezes, ao olhar para trás, digo para mim mesmo: “Ah, éramos jovens, éramos jovens.”
Paulo Nogueira
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.
Nossa fonte: Diário do Centro do Mundo