"Filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo ! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo". |
Este blog se destina a discutir ideias e caminhos ligados à literatura, à vida de bem com a natureza, à construção de um país mais justo. Buscar ser feliz é nossa obrigação. Vamos falar de livros,artesanatos, bichos,plantas orgânicas, saúde,movimentos sociais. LULA PRESIDENTE!
domingo, 23 de outubro de 2011
Definição de Filho
A PRAÇA É DO POVO...
Copyright 2011 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)Frei Betto*
Há algo de novo, e não de podre, no reino da Dinamarca! Verdade que provocado pelo cheiro de podridão. Como suportar o odor fétido de uma Câmara dos Deputados que absolve uma deputada flagrada e filmada recebendo bolada de dinheiro escuso?
A 12 de outubro, manifestantes foram às ruas do Brasil, e de 1.242 cidades dos EUA, emitir protestos cívicos. Aqui, 30 mil pessoas, a maioria em Brasília, exigiram o fim do voto secreto no Congresso Nacional; o direito de o Conselho Nacional de Justiça investigar e punir juízes corruptos; a vigência da Ficha Limpa nas eleições de 2012; e o fim da corrupção na administração pública.
A novidade é que, tanto aqui como nos EUA, as mobilizações foram convocadas por redes sociais. Uma ação espontânea, sem partidos e líderes carismáticos, e que, no mínimo, mereceria o apoio da UNE, da CUT e dos partidos ditos progressistas.
Nos EUA, cresce o movimento Ocupem Wall Street. Ali se situa o centro financeiro estadunidense, protegido pela exuberante estátua do touro que bem simboliza a ganância e a prepotência do capital financeiro.
Semana passada, mais de 1.000 manifestantes foram presos nos EUA, desmascarando a propalada liberdade de expressão da democracia capitalista. Liberdade, sim, de especulação feita por aqueles que Roosevelt qualificou de “monarquia econômica”.
A elite usamericana entrou em pânico, embora as manifestações sejam bem mais pacíficas e ordeiras que as do Tea Party (extrema direita) em 2009. O deputado republicano Eric Cantor chamou os manifestantes de “gangues”. Mitt Rommey, pré-candidato republicano em 2012, acusou-os de provocar uma “luta de classes”...
O fato é que o poder público, aqui, e o poder econômico, lá, estão prensados contra a parede. E agora o movimento se expande pelos países da Europa diretamente afetados pela crise financeira e mais interessados em salvar bancos que empregos.
A avareza dos magnatas ianques é tamanha que acusam Obama de “socialista” pelo simples fato dele apoiar a regra Volcker, que proíbe bancos, beneficiados com ajuda governamental, de praticarem especulação.
Bush aprovou (e Obama ainda não revogou) a redução de US$ 5 bilhões no montante de impostos pagos pela minoria que ganha mais de US$ 250 mil por ano (cerca de R$ 420 mil). “Taxem os ricos!”, diziam os protestos do Ocupem Wall Street.
Desde janeiro de 2008, o setor financeiro de Nova York fechou 22 mil postos de trabalho. E mais 10 mil estão previstos. O banco Goldman Sachs despediu 1.000 funcionários e o Bank of America, 30 mil.
São consideradas “muito ricas” nos EUA apenas 31 milhões de pessoas, o que equivale a 1% da população. E todo o sistema de governo mais protege essa minoria do que os outros 99%. No Brasil, os muito ricos são 3 milhões.
O Brasil está sob ameaça da crise financeira. Nossas exportações, em especial soja e minério de ferro, dependem muito da China. Por sua vez, 41,5% das exportações chinesas são consumidas pelos EUA e a União Europeia. Se estes dois blocos reduzirem suas importações, o sinal vermelho acende na China. Ela cresceu 10,3% ano passado e, este ano, não deve ir além de 8,7%, caindo para 8,2% em 2012. O que pode afetar as exportações brasileiras e trazer de volta, junto com o dragão da inflação, o desemprego.
Todas essas manifestações de rua são positivas, porém insuficientes. Não basta protestar. É preciso propor – uma nova ordem econômica, um novo projeto político, um outro mundo possível...
Outro risco implícito às atuais manifestações é confundir apartidarismo com repúdio a partidos. Estes são imprescindíveis para manter ou transformar o atual estado de coisas. E, ano que vem, teremos eleições municipais. Com o Ficha Limpa vigente, saberemos em quem não votar. Mas é preciso ter clareza em quem votar, livre das promessas vãs e da demagogia televisiva.
É hora de iniciar o debate de valores e critérios para a escolha de vereadores e prefeitos. Caso contrário, tudo ficará como dantes no quartel de Abrantes.
*Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.http://www.freibetto.org/> twitter:@freibetto.
sábado, 22 de outubro de 2011
Gabriel García Márquez: toda guerra é burra
Livro recém-lançado do Nobel de Literatura traz discursos anti-bélicos que o escritor colombiano fez desde os 17 aos 80 anos, embasados por sua luta em defesa da unidade e soberania da parte latina e submetida do continente americano.
Marcos Aurélio Ruy *(Vermelho)
Gabriel García Márquez
García Márquez nasceu em 06 de março de 1927 e enfrentou diversas dificuldades, inclusive financeiras, até consagrar-se como escritor. Justamente por sua opção política na defesa dos interesses nacionais e do povo de seu país e contra toda forma de opressão, transformou-se em um dos maiores representantes latino-americanos do chamado “realismo mágico”, uma escola literária que usa do absurdo para mostrar a realidade, numa maneira de driblar a censura existente na maioria dos países na parte sul do continente. Para alguns, uma resposta latino-americana à literatura fantástica europeia, só que diferentemente, aqui, não apresenta teor niilista em seu conteúdo. Pelo contrário, vislumbra um futuro melhor. Márquez sempre acreditou na necessidade de unidade dos países latino-americanos e de uma luta conjunta, permanente, contra a sombra do imperialismo e do fascismo no continente.
Grandes nomes escolheram o caminho do fantástico para escrever seus livros, entre eles os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges, o venezuelano Arturo Uslar Pietri, considerado o pai do realismo mágico no continente, o cubano Alejo Carpentier e, mais recentemente, a chilena Isabel Allende, filha de Salvador Allende e a mexicana Laura Esquivel, entre outros. Alguns autores brasileiros também enveredaram por esse caminho, como Murilo Rubião e José J. Veiga, ou o dramaturgo Dias Gomes nas novelas que escreveu para a televisão.
Já aos 17 anos, ao pronunciar discurso de despedida na escola em que estudou, o colombiano mostrava ao que veio. “Toda esta série de acontecimentos cotidianos que nos uniram através de laços inquebrantáveis com este grupo de rapazes que hoje abrirá caminho na vida”. E seu caminho foi se abrindo a duras penas, porque ele escolheu um rumo de luta e de soberania contra a classe dominante ditatorial, elitista e antinacional. Num outro discurso sobre literatura ele explica como e por que começou a escrever. “Comecei a ser escritor da mesma forma que subi neste palco: à força”, afirma, e complementa, ao contar o motivo que o levou a escrever seu primeiro conto e enviá-lo para o jornal publicá-lo: “Eduardo Zalamea Borda, diretor do suplemento literário do ‘El Spectador’ de Bogotá, publicou um artigo no qual dizia que as novas gerações de escritores não ofereciam nada, que não se via em lugar algum um novo contista ou um novo romancista”. Provocado, Márquez escreveu um conto e o editor reconheceu o engano e pediu desculpas.
Em seus discursos. o escritor sempre colocava sua posição política em favor da liberdade, da igualdade, da soberania dos povos e da justiça social. Mesmo em 1982, quando recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, ele denunciou o preconceito com o qual éramos vistos pelos europeus, assim como a situação de penúria e opressão vivenciada na América Latina de então, diferente de hoje, quando vislumbramos luzes no fim do túnel em todos os aspectos da vida.
No discurso de agradecimento pelo Nobel, diz que “a independência do domínio espanhol não nos pôs a salvo da demência”, porque “os desaparecidos pela repressão somam quase 120 mil” e ainda porque “20 milhões de crianças latino-americanas morreram antes de fazer dois anos” e complementa com as denúncias ao afirmar que “é compreensível que insistam em nos medir com a mesma vara com que se medem, sem recordar que os estragos da vida não são iguais para todos, e que a busca da identidade própria é tão árdua e sangrenta para nós como foi para eles”, ao falar sobre a atitude dos europeus e norte-americanos em relação a nós. No discurso “A América Latina existe”, Márquez afirma que “tudo o que não parece com eles parece um erro, e fazem tudo para a sua maneira, corrigir isso, como, aliás, fazem os Estados Unidos”.
Pela paz e pela cultura Diversas vezes o autor colombiano pronunciou-se em favor da paz ao defender a autodeterminação dos povos, contra as guerras imperialistas. Num discurso para militares disse aos soldados que “a vida de todos nós seria melhor se cada um dos senhores levasse sempre um livro na mochila”. Da mesma forma afirmou também que “as crianças que hoje estão na escola primária preparando-se para reger nossos destinos continuam condenadas a contar com os dedos da mão, como os contadores da mais remota antiguidade, enquanto já existem computadores capazes de fazer cem mil operações aritméticas por segundo”, ao denunciar o descaso coma educação nos países da América Latina. Noutro discurso contra o armamento e contra a guerra afirma Márquez que “diante deste descomunal desperdício econômico, é ainda mais inquietante e doloroso o desperdício humano: a indústria da guerra mantém em cativeiro o maior contingente de sábios jamais reunidos para tarefa alguma na história da humanidade” e continua dizendo que a libertação deles é fundamental “para que nos ajudem a criar, no âmbito da educação e da justiça, a única coisa que pode nos salvar da barbárie: a cultura da paz”.
Foi uma crítica direta à indústria bélica e a opressão que impedia os países do Terceiro Mundo de se libertar e progredir. Em um evento, Márquez afirmou que “estamos aqui para tentar que um encontro de intelectuais tenha aquilo que a imensa maioria deles não teve: utilidade prática e continuidade” defenderam ainda que “a cultura é a força totalizadora da criação: o aproveitamento social da inteligência humana” e “como disse Jack Lang sem maiores rodeios: ‘a cultura é tudo’”.
Para Gabriel García Márquez “a corrida das armas vai ao sentido contrário da inteligência”, ele diz ainda “a educação privada, boa ou ruim, é a forma mais efetiva da discriminação social”. Ao debater a necessidade de se investir na educação pública, no incentivo à leitura e na defesa da cultura nacional dos países, respeitando-se as formas populares de expressão.
O escritor e jornalista também falou de jornalismo. “Alguém teria que ensinar aos jornalistas que o gravador não é um substituto da memória e, sim, uma evolução da humilde caderneta de anotações”, ao criticar o uso excessivo da tecnologia em detrimento da inteligência e da argúcia no jornalismo. Diz também com razão que para o exercício do bom jornalismo “ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a morrer por isso poderia persistir num ofício tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fosse para sempre, e não concede um instante de paz enquanto não torne a começar com mais ardor que nunca no minuto seguinte”, numa visão do que seja a função de jornalista, terrivelmente abandonada nestes tempos de tentativas de arrombamento de apartamentos, de paparazzi, de invasão de privacidade, de diz-que-diz, de submissão à empresa, de falta de escrúpulos e de falta de ética no jornalismo.
Uma voz da América Latina
O escritor diz com segurança que “maltratada e dispersa, e ainda sem acabar, e sempre à procura de uma ética da vida, a América Latina existe. A prova disso? Nestes dois dias tivemos essa prova: pensamos logo existimos”, sobre encontro de intelectuais sobre a cultura na América Latina. Mas também critica com veemência ao afirmar que “minha impressão é que o tráfico de drogas se tornou u problema que escapou das mãos da humanidade. Isso não quer dizer que devemos ser pessimistas e declarar-nos derrotados, mas que é preciso continuar combatendo o problema” para tirar a juventude das garras do tráfico ele acredita ser necessário mover-se esforços de educação e de ocupar-se os jovens, mas também com a solução das questões sociais que extinguem a miséria e sobre o seu país ele acredita que “é impossível imaginar o fim da violência na Colômbia sem a eliminação do narcotráfico”.
Parece que inclusive o Brasil hoje vive situação semelhante onde perdemos inúmeras vidas de jovens da periferia dos grandes centros para os traficantes e para a violência policial.
Ainda sobre a necessidade de unidade da América Latina Márquez afirma, em 1990, que vivemos num continente “no qual a morte há de ser derrotada pela felicidade e haverá mais paz para sempre, mais tempo e melhor saúde, mais comida quente, mais rumbas saborosas, mais de tudo de bom para todos. Em duas palavras: mais amor”. Um tempo, diz o escritor colombiano, “que cada um possa fazer apenas aquilo que goste do berço à tumba”.
Como um dos grandes escritores em língua espanhola de todos os tempos, Gabriel García Márquez revela em sua obra a obstinação por um mundo melhor através de sua literatura e de livros fundamentais para a leitura de todos, como “Cem anos de solidão”, “O amor nos tempos do cólera” e muitos outros livros que o colocam como um dos grandes escritores mundiais e uma voz constante em defesa da América Latina. García Márquez teve inúmeras obras adaptadas para o cinema e aposentou-se em 2009 deste ofício do qual diz ser falta de escolha na vida. Que bom se todos tivessem tamanha falta de escolha!
*Marcos Aurélio Ruy é colaborador do Vermelho
Algumas obras de Gabriel García Márquez:Cem anos de solidão (1967)
Como contar um conto (1947-1972)
O amor nos tempos do cólera (1985)
Doze contos peregrinos (1992)
Do amor e outros demônios (1994)
Memórias de minhas putas tristes (2004)
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
NOVO CICLO DA CIVILIZAÇÃO
De dentro para fora, da intimidade do ser para a objetividade das circunstâncias, há um movimento claro de transformação daquilo que chamamos de civilização. Nossa humanidade anda revoltada com o sistema, definitivamente percebeu que não vale mais a pena trabalhar uma enorme parte de sua vida individual para sustentar uma máquina burocrática que é corrupta e ineficiente; ninguém sabe qual das duas condições veio primeiro e foi causa da outra. Em todos os países se dissemina essa revolta porque não foi imposta, pode até ser eventualmente manipulada, mas isso é irrelevante, o que importa é aceitar que há um movimento transformador e revolucionário que não pode ser detido. Este é o verdadeiro fim do mundo, uma revolução sem precedentes que inicia um novo ciclo de civilização.
NÓS BRASILEIROS TEMOS QUE NOS MOBILIZAR URGENTEMENTE
Ontem, os deputados federais mostraram a cara e não votaram o projeto de lei FICHA LIMPA. Para quem não sabe, ontem, foi rejeitada a votação, na Ordem do Dia da Câmara Federal, o Projeto de Lei FICHA LIMPA, que impede a candidatura a qualquer cargo eletivo, de pessoas condenadas em primeira ou Unica instância ou por meio de denuncia recebida em tribunal e no caso de politicos com foro privilegiado em virtude de crimes graves, como: racismo, homicídio, estupro,homofobia, trafico de drogas e desvio de verbas publicas..
A IMPRENSA NÃO DIVULGA PORQUE NÃO É INTERESSE DELA! PORTANTO, VAMOS USAR A INTERNET,PARA DAR CONHECIMENTO AOS OUTROS 198.000.000 DE BRASILEIROS QUE OS DEPUTADOS FEDERAIS TRAÍRAM O POVO!
Espalhe esta noticia; segundo dados, uma mensagem da internet enviada a 12 pessoas, no fim do dia chega a 30.000 usuarios. Vamos espalhar!
Mensagem enviada por Oscar Quiroga
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Mensagem enviada por Oscar Quiroga
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
FAO: situação da fome no mundo é alarmante e dramática
Representantes da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) e do Programa Alimentar Mundial (PAM) advertiram nesta terça-feira (18) a comunidade internacional sobre a situação da fome no mundo, considerada por eles alarmante e dramática.
Para os especialistas, a situação se agrava com o crescimento da população mundial e a elevação constante dos preços dos alimentos. A região que mais sofre no mundo é a conhecida como Chifre da África, onde está a Somália.
“Uma em cada sete pessoas no mundo vai para a cama com fome, na maioria mulheres e crianças”, disse a diretora da representação do PAM em Genebra (Suíça), Lauren Landis, no seminário intitulado “Lutar Juntos Contra a Fome”. “A fome mata anualmente mais pessoas do que o vírus que transmite a aids, a malária e a tuberculose”, acrescentou.
No período de 2005 a 2008, os preços dos alimentos atingiram o nível mais elevado dos últimos 30 anos. Os alimentos mais afetados são o milho e o arroz. “A situação assumiu proporções dramáticas a partir de 2008, quando os preços alcançaram um pico histórico e quase duplicaram num período de três a quatro anos”, disse o diretor da FAO em Genebra, Abdessalam Ould Ahmed.
Ahmed acrescentou ainda que a situação atual é “mais dramática” porque o aumento dos preços dos alimentos ocorre no mesmo momento do agravamento da crise econômica internacional.
Para ele, a elevação dos preços é uma consequência, entre outros fatores, do aumento substancial da população mundial. “Cada ano existem no mundo mais 80 milhões de bocas para alimentar”, disse Ahmed.
Fonte: Sul 21
Nossa fonte: Vermelho
Neoliberais usam Grécia como cobaia da crise financeira, diz deputado grego
Em entrevista à Carta Maior, o deputado grego pelo partido da Coalizão da Esquerda Radical Michalis Kritsotakis reconhece a importância dos movimentos que surgiram nos últimos meses no país, mas duvida que eles substituam o potencial de uma esquerda unida. “Esses movimentos podem ajudar na união do povo grego, mas não podem oferecer uma proposta política integrada”, diz. Para o membro do Fórum Social Grego, reguladores do sistema neoliberal usam Grécia como cobaia para avaliar comportamento e resistências das sociedades numa crise sistêmica como a atual.
Kostis Damianakis – Especial para a Carta Maior
Atenas - Deputado nacional desde as eleições de 2009 o professor universitário e mestre em administração de empresas, Michalis Kritsotakis é protagonista do “Fórum de Dialogo e Ação Unida da Esquerda” e da Coalizão da Esquerda Radical, que desde 2004 reúne 10 partidos e ocupa nove cadeiras no parlamento. Ele acredita que é o dever histórico da esquerda agir em conjunto nos pontos de concordância neste momento de crise e deixar para o futuro uma eventual conversa sobre a união sob um único partido.
Em entrevista exclusiva à Carta Maior, Kritsotakis responsabiliza o sistema político bipartidário que governa a Grécia desde a ditadura por seguir um modelo de desenvolvimento errado, corrupto e adaptado aos interesses da minoria que detém o poder financeiro. Na sua analise, a Esquerda tem parte da responsabilidade pela falência do país, ao se recusar de unir e priorizar a pureza ideológica. “Isso decepciona o povo e, portanto, a nossa responsabilidade é ainda maior. A nossa proposta não é mais de unir a esquerda, pois o partido comunista se recusa a discutir. A proposta hoje” é “chegar a um consenso e atuar juntos nos pontos que concordamos”.
Alerta que a queda livre do país e sua perda de soberania já têm impactos fatais. O povo grego está enfrentando uma piora sem precedência nos índices sociais, fato que prejudica sua saúde psicológica, pois “a perda do salário ou da aposentadoria que leva as pessoas abaixo da linha da pobreza, à perda da esperança, da perspectiva, da auto-estima”. Para ele, os reguladores do sistema neoliberal “querem avaliar qual é o comportamento e as resistências das sociedades” numa crise sistêmica como essa. Abaixo a integra da entrevista com Michalis Kritsotakis.
Carta Maior – O governo alega que tenta salvar o país e que a culpa da crise é do governo anterior e das características da sociedade grega. Quem afinal é o réu da falência?
Michalis Kritsotakis – A responsabilidade absoluta é do sistema político bipartidário que nos governa há trinta anos, porque sempre cuidou dos interesses da minoria, que são os detentores do poder financeiro, às custas da grande maioria do povo. O sistema nunca desenvolveu a base produtiva do país, e basicamente seguiu um modelo de desenvolvimento errado, corrupto e adaptado aos interesses dessa minoria financeira. A responsabilidade do sistema bipartidário, nesse momento, é que aceita, independente das suas pequenas diferenças, a dominação da lógica neoliberal da Troika em cima do país. O memorando que eles assinaram não tem nenhuma chance de ajudar o país a sair na superfície. Pelo contrário, nos empuxa para o fundo ainda mais.
Veja a íntegra da entrevista em www.cartamaior.com.br
Em entrevista exclusiva à Carta Maior, Kritsotakis responsabiliza o sistema político bipartidário que governa a Grécia desde a ditadura por seguir um modelo de desenvolvimento errado, corrupto e adaptado aos interesses da minoria que detém o poder financeiro. Na sua analise, a Esquerda tem parte da responsabilidade pela falência do país, ao se recusar de unir e priorizar a pureza ideológica. “Isso decepciona o povo e, portanto, a nossa responsabilidade é ainda maior. A nossa proposta não é mais de unir a esquerda, pois o partido comunista se recusa a discutir. A proposta hoje” é “chegar a um consenso e atuar juntos nos pontos que concordamos”.
Alerta que a queda livre do país e sua perda de soberania já têm impactos fatais. O povo grego está enfrentando uma piora sem precedência nos índices sociais, fato que prejudica sua saúde psicológica, pois “a perda do salário ou da aposentadoria que leva as pessoas abaixo da linha da pobreza, à perda da esperança, da perspectiva, da auto-estima”. Para ele, os reguladores do sistema neoliberal “querem avaliar qual é o comportamento e as resistências das sociedades” numa crise sistêmica como essa. Abaixo a integra da entrevista com Michalis Kritsotakis.
Carta Maior – O governo alega que tenta salvar o país e que a culpa da crise é do governo anterior e das características da sociedade grega. Quem afinal é o réu da falência?
Michalis Kritsotakis – A responsabilidade absoluta é do sistema político bipartidário que nos governa há trinta anos, porque sempre cuidou dos interesses da minoria, que são os detentores do poder financeiro, às custas da grande maioria do povo. O sistema nunca desenvolveu a base produtiva do país, e basicamente seguiu um modelo de desenvolvimento errado, corrupto e adaptado aos interesses dessa minoria financeira. A responsabilidade do sistema bipartidário, nesse momento, é que aceita, independente das suas pequenas diferenças, a dominação da lógica neoliberal da Troika em cima do país. O memorando que eles assinaram não tem nenhuma chance de ajudar o país a sair na superfície. Pelo contrário, nos empuxa para o fundo ainda mais.
Veja a íntegra da entrevista em www.cartamaior.com.br
Pifes, zabumbas e um som de duzentos anos
Fundada em 1835, a Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto viaja pelo país com show de música, dança e rituais seculares que mantêm viva a tradicional cultura nordestina. Originária dos terreiros, pés de serra e da periferia de Crato (CE), a banda dos Irmãos Aniceto é formada por músicos agricultores com mais de 80 anos e por amigos, filhos e netos, que se destacam também como atores.
Com shows gratuitos neste mês de outubro em Santos (21), São Paulo (23), Rio de Janeiro (28), e Niteroi (29), a Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto traz a rara oportunidade de aplaudir uma história de resistência de mais de 200 anos. Programa ideal para os apreciadores das genuínas manifestações tradicionais populares, a trupe vem do Crato, cidade do Cariri cearense, para animar o público com seus pifes, zabumbas, pratos e caixas de guerra. As apresentações, gratuitas, buscam também perpetuar a tradição musical e cultural e têm patrocínio da Petrobras, através da Lei Rouanet.
Banda cabaçal
Uma banda cabaçal é um conjunto de música instrumental constituído de instrumentos de percussão e sopro: dois pifes (pífanos, flautas rústicas de madeira), um zabumba e uma “caixa”. Sua origem vem do fato de que, no século 19, os tambores (zabumbas, caixas ou taróis) eram confeccionados com pele de bode ou carneiro estiradas sobre cabaças secas. Já em 1838, o botânico inglês George Gardner registra a presença de bandas cabaçais nesta região do interior do Ceará.
O lendário grupo também existe desde o século 19, quando foi fundado em 10 de maio de 1835 por José Lourenço da Silva, o José Aniceto. A família descende dos índios Cariris – que teimavam em ficar por ali, ao pé da Chapada do Araripe, antes da colonização, no sul de um território ao qual viriam a dar o nome de Ceará, mais especificamente, Crato.
Nossa fonte: Vermelho
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Fundação Palmares promove exposição de arte africana
A mostra Expressões Africanas, organizada pela Fundação Cultural Palmares, expõe ao púbico 70 peças, entre artefatos, quadros, móveis e esculturas do acervo de 15 embaixadas do Continente Africano no Brasil. A exposição, em comemoração ao Ano Internacional dos Povos Afrodescendentes, segue até o dia 20 no Salão Branco do Congresso Nacional, em Brasília.
domingo, 16 de outubro de 2011
Mafalda: viva e única
Estátua de Mafalda, em Buenos Aires, Argentina, é uma das atrações turísticas da cidade. A menina continua tão atual quanto na época que foi criada, em 1964, uma vez que persistem os mesmos hábitos e acontecimentos sociais, que inspiravam comentários da personagem. Quino, seu criador, afirmou, ao perguntarem a ele se não pensava em ressuscitá-la. "E ressuscitá-la significaria que está morta, quando ninguém dúvida que está bem viva, felizmente".
Quase meio século após sua estreia, a personagem dos quadrinhos argentinos Mafalda constata hoje que o passar dos anos está muito longe de significar o fim das preocupações e, menos ainda, a solução para problemas urgentes.
Risonha e impertubável, a pequena protagonista de quadrinhos criada pelo argentino Joaquín Salvador Lavado (Quino), observa agora o mundo de seu banco de praça, de ferro e madeira, na esquina das ruas Defesa e Chile, a escassos metros da antiga casa de seu criador.
Ali permanece sentada com seu vestidinho verde limão (nos quadrinhos nem sempre nessa cor), há mais de dois anos, quando o Programa Portas do Bicentenário do Governo da Cidade de Buenos Aires decidiu homenagear seu pai intelectual com uma estátua de sua mais conhecida criação.
A uns passos dali, no edifício localizado na rua Chile 371, onde Quino deu vida também a outros personagens do grupo (seus pais, Guille, Manolito, Liberdade, Felipe, e Susanita,) uma placa lembra os que passam: "Aqui viveu Mafalda".
Hoje, a escultura de 80 centímetros de altura, feita pelo artista Pablo Irrgang em resina e fibra de vidro reforçada, constitui um dos lugares mais fotografados não só do velho bairro San Telmo, mas de toda a cidade, cujo bairro Colegiales tem também uma praça com esse nome.
Esta última foi inaugurada em 28 de novembro de 1994 depois que quatro artistas plásticos pintaram em bancos e brinquedos desse espaço público fragmentos dos quadrinhos que refletem toda a sabedoria da Mafalda, para muitos o ícone do pensamento inconformado da América Latina.
A surpreendente presença de Mafalda
Em uma entrevista concedida a revista Viva, Quino admitiu "nem eu mesmo sei" por que a vigência de Mafalda até os dias atuais. Talvez, explicou, porque muitas das coisas que ela questionava continuam sem resolver; disso não resta dúvidas.
Além disso, porque persistem muitos dos acontecimentos e comentários que faz desde sua primeira aparição pública, em 29 de setembro de 1964, até a segunda metade do ano 1973 - quando deixou de se publicar - puseram na boca da menina as inquietudes sociais e políticas de sua época.
Uma vez, relatou o criador, perguntaram-me se não pensava em ressuscitá-la. "E ressuscitá-la significaria que está morta, quando ninguém dúvida que está bem viva, felizmente".
Segundo Quino, Mafalda é para ele tão única como tentar viver de novo a alegria daquela época que costuma trazer à memória as canções dos Beatles, cujas gravações escuta "mais por nostalgia que por inspiração".
Em 1988, a inteligente menina esteve a ponto de converter-se no primeiro - e seguramente único - personagem de quadrinhos a ser declarada Cidadã Ilustre da capital argentina, mas um impedimento legal fez com que a proposta não fosse adiante. Entre outras coisas, argumentava-se que: Mafalda segue sendo na memória coletiva dos argentinos a menina que pergunta, a questionadora, irreverente, e inesperada, que propôs tantas interrogações incômodas e nos fez refletir sobre nossos hábitos, crenças, preconceitos e lugares comuns, ajudando deste modo a construir uma sociedade melhor.
Fonte: Prensa Latina
Nossa fonte: Vermelho
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Dia 16: Dia Mundial da Alimentação
Ibase defende mecanismos contra aumento de preços dos alimentos
A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) comemora domingo (16) o Dia Mundial da Alimentação, com o tema Preço dos Alimentos: da Crise à Estabilidade. A entidade considera que o preço é uma ameaça para a segurança alimentar dos países em desenvolvimento e quer discutir como esse impacto pode ser reduzido entre as populações mais carentes.
O diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), Francisco Menezes, disse à Agência Brasil que o aumento dos preços dos alimentos, que tem ocorrido com certa frequência, mostra que esse não é um problema ocasional. “Há uma característica mais estrutural”.
Para Menezes, a questão resulta de uma “mercantilização” dos alimentos. Embora reconheça que alimentos são também mercadorias compradas e vendidas, “isso não pode estar acima de todas as coisas. Nós sabemos que por trás dessa volatilidade dos preços está a especulação”. O diretor do Ibase lembrou que especialmente nas bolsas de futuros, os alimentos são tratados como meras mercadorias.
Por isso, defendeu a criação de instrumentos de proteção. Ele explicou que como o alimento é um bem essencial, garantido pela Constituição brasileira, seus preços não podem ficar ao sabor do jogo dos mercados. No mercado interno, o problema exige, segundo Francisco Menezes, políticas públicas de regulação e impedimento dos excessos especulativos.
“Mas existe também, no plano internacional, a necessidade de criação de mecanismos que impeçam essas flutuações. Porque o mercado hoje é muito globalizado”. O diretor disse ainda que se o preço de uma commodity agrícola, como o milho, sobe em um país, a repercussão vai ser sentida aqui, sem sombra de dúvida. “Nesse sentido, deve haver um esforço, um mutirão de regulação do mercado de alimentos”.
Menezes avaliou que, nos últimos anos, o Brasil apresentou avanços importantes na área de alimentação, a partir de ações efetivas de combate à fome e de elaboração de políticas públicas de segurança alimentar e nutricional, que atenderam aos mais necessitados. “Foi uma combinação dessas iniciativas, como o Bolsa Família e o Programa de Aquisição de Alimentos, que possibilitou grandes avanços. Os últimos dados disponíveis mostram isso”, acrescentou.
O diretor admitiu, entretanto, que ainda há muito a ser feito em relação ao acesso aos alimentos. “O que se conseguiu não significa que tenhamos chegado ao fim desse trajeto. Há muito a ser trabalhado”, observou. Entre os problemas que precisam ser olhados com mais rigor, ele indicou a qualidade dos produtos. Há a preocupação de contaminação por agrotóxicos, associada ao modelo de produção, que ainda precisa ser transformado, além da mudança dos hábitos alimentares da própria população.
O Ibase tem um posicionamento firme em relação à publicidade dos alimentos. O instituto não concorda, por exemplo, com o argumento de que interferir na publicidade de alimentos constitui agressão à liberdade de expressão. “A gente acha que isso, ao contrário, é uma utilização da possibilidade, sobre públicos muito vulneráveis, como as crianças, de uma manipulação, por todas as consequências desastrosas que pode gerar uma má alimentação”.
Ele acredita que a realização da 4ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, em Salvador (BA), em novembro próximo, será um momento importante para que se estabeleçam diretrizes que orientem os próximos passos a serem dados no Brasil nessa área.
Agência Brasil
Nossa fonte: Vermelho
Morte e Velhice: veja a opinião do Frei Beto
MORRER É TRANSVIVENCIAR
Frei Betto
Frei Betto
A morte de toda celebridade provoca impacto midiático. Por isso, os arquivos da mídia guardam obituários da rainha Elizabeth II e do papa Bento XVI, de Pelé e Neymar, de Demi Moore e Sebastien Vettel.
A morte nem sempre manda aviso prévio. Se uma celebridade deixa a vida por acidente, como Ayrton Senna e Lady Di, ou por causa inesperada, como Michael Jackson e Amy Winehouse, as redações precisam ter pronto o perfil biográfico do falecido.
Agora, Steve Jobs morreu aos 56 anos. O impacto é tanto maior quanto mais prematura e irreparável a perda: não há como clonar cérebros e talentos geniais. Há pessoas, sim, insubstituíveis. Como já não estão entre nós, ficamos sem parâmetro de comparação, sem saber o que fariam no lugar de quem lhes sucedeu.
Sim, sabemos todos que ninguém é imortal. Em determinado dia, mês e ano do calendário cada um de nós deixará este mundo. O que choca é ver alguém morrer antes do tempo... Sobretudo quando se respira uma cultura de preconceito à velhice.
Chamar, hoje, alguém de velho é uma ofensa. No máximo, admite-se “idoso”. E haja eufemismos para qualificar quem passou dos 60: terceira idade, melhor idade etc. Vi escrito numa van: “Aqui viaja a turma da dign/idade”.
Como velho que sou, rejeito tais artimanhas da linguagem. A melhor idade é dos 20 aos 35 anos (embora a ditadura, ao encarcerar-me, tenha me roubado 4). Se é para inventar eufemismo, melhor ser realista e considerar, nós velhos, a turma da eterna idade, já que estamos naturalmente mais próximos dela...
Nossa cultura pós-moderna lida muito mal com a morte. Busca ansiosamente o elixir da eterna juventude: academias de ginástica, anabolizantes, macrobiótica, cirurgias plásticas etc. Na minha infância, criança era quem tinha de zero a 11 anos. Adolescente, de 11 a 18. Jovem, de 18 a 30. Adulto, de 30 a 50. Velho, mais de 50.
Hoje, tem-se a impressão de que criança é de zero a 18, quando se vive na dependência dos pais. Adolescente, de 18 a 30, sem segurança quanto a compromissos afetivos e profissionais. E, jovem, dos 30 em diante, ainda que se tenha 80 ou 90...
O mundo desencantou-se, disse Max Weber. Religiões e ideologias estão em crise. Pouco se pergunta pelo sentido desta vida e, portanto, muito menos o que nos espera na outra. A relativização de valores e a desculpabilização ética exorcizam o medo de padecer eternamente no inferno.
A morte, como fato social, é tratada como inconveniente: não há rituais fúnebres. Morre-se no hospital, faz-se breve velório, crema-se o corpo, espalham-se as cinzas ao pé de alguma árvore. E vira-se a página. Não há luto nem memória do falecido. E em famílias ricas não raramente a briga por herança começa antes de o defunto esfriar.
As escolas deveriam educar seus alunos quanto aos ritos de passagem inevitáveis ao longo da vida. Eles aprenderiam que a morte não merece credibilidade porque, em si, não existe. Existem a passagem para quem se foi e a perda para quem ficou.
Há famílias que cometem o erro de evitar que as crianças compareçam ao velório de entes queridos. Elas ficam com uma incômoda interrogação na cabeça frente ao “sumiço” do parente querido.
Não gosto do verbo morrer. Prefiro transvivenciar. Por uma questão de fé e sentimento. Quando nascemos, todos riem e nós choramos. Quando transvivenciamos, ocorre o contrário.
A vida é um milagre excepcionalmente belo para enclausurar-se nos poucos anos que nos são dados viver. Acredito que, ao sair do casulo, todos haveremos de virar borboletas – o que é ainda mais belo e promissor.
Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do Ouro” (Rocco), entre outros livros. http://www.freibetto.org/> twitter:@freibetto.
Copyright 2011 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Marcha anticorrupção repete diversidade mas mira STF e Congresso
No feriado, 20 mil pessoas, segundo a PM, marcham na Esplanada dos Ministérios e cobram fim do voto secreto, validação da Lei da Ficha Limpa e poder investigatório do Conselho Nacional de Justiça. Convocado pelo Facebook, ato volta a exibir reivindicações específicas, como mais verba para a educação e políticas públicas para os gays, e resistência à participação partidária.
Najla Passos (Carta Maior)
BRASÍLIA – Supremo Tribunal Federal (STF) e Congresso foram os dois alvos principais de mais uma marcha popular e apartidária, convocada pela internet, para protestar durante um feriado na capital brasileira. Sem a festa pelo Dia da Independência a estimular a ida à Esplanada dos Ministérios, cerca de 20 mil pessoas, nas contas da Polícia Militar (PM), saíram de casa e, ao contrário do ato de 7 de setembro, defenderam pautas concretas.
Dos parlamentares, exigiram o fim do voto secreto na Câmara e no Senado. Do STF, cobraram que declare a constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa e que não casse poderes investigatórios do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Pouco se viu ou se escutou sobre o governo, que ao ter ministros acusados de corrupção, havia sido um dos combustíveis da passeata anterior.
Com a maioria vestida de preto e rosto pintado de verde e amarelo, muitos a carregar artificiais pizzas gigantes, vassouras e faixas, os manifestantes atravessaram a Esplanada recolhendo assinaturas para um abaixo-assinado cobrando a instalação, no Congresso, de uma CPI da Corrupção.
“Não queremos apenas fazer barulho. Queremos realmente mudar o país”, afirma a corretora de imóveis Daniella Kalil, uma das fundadoras do movimento que, embora ainda não esteja institucionalizado, já foi batizado de Movimento Contra a Corrupção (MCC).
Os personagens
Patrícia Kohlreusch e o marido Bernardo Falcão receberam o convite para ir ao evento por meio do Facebook, pelo qual 18 mil pessoas haviam confirmado presença até a véspera. Decidiram não só comparecer, mas também levar os filhos Bernardo, 6 anos, e Izabele, 9 anos. “Estamos lutando justamente para que eles possam viver em um país melhor. Por isso, é importante que eles também participem”, explicou a mãe.
A estudante Juliana Silva, 18 anos, estava um pouco decepcionada com a queda no número de participantes em relação à marcha de cinco semanas atrás. “Eu sei que muita gente está viajando, mas esperava que a mobilização aumentasse ou, pelo menos, se mantivesse”, observou. Para ela, a geração atual é muito acomodada. “Precisamos resgatar os cara-pintada e mudar esse estado de coisas”.
No ato anterior, que coincidira com o Dia da Independência, tinha sido mais difícil dimensionar quem fora à Esplanada só para protestar. Muita gente que havia assistido à parada militar na mesma avenida, mas no sentido oposto, pulara de um evento ao outro.
Naquela ocasião, a marcha tivera 26 mil confirmações pelo Facebook e iniciara com duas mil. O público oficial informado pela polícia sobre a passeata foi entre 30 mil e 40 mil pessoas, mesma platéia estimada para o desfile militar, que fora recorde.
A marcha desta quarta-feira começou com 10 mil pessoas, também de acordo com a polícia. Entre elas, o militar Vinicius Vieira, de 20 anos, que participou de patins. “Vim acompanhar uma amiga e decidi aproveitar para me exercitar”, disse.
Não foi o único. Muitos ciclistas, skatistas e patinadores cruzavam a Esplanada em apoio ao protesto. Os próprios organizadores se utilizavam de patins, skates e bicicletas para controlar o andamento da marcha, parecido com uma desfile de escola de samba. Segundo a PM, não foi registrado nenhum incidente durante os cerca de 3,5 Km de percurso.
Apartidarismo e diversidade
A exemplo do que ocorrera da outra vez, os organizadores não permitiram a participação de partidos. Não autorizaram sequer a presença de bandeiras. O movimento só aceita apoios individuais de políticos com algum histórico na luta pela democracia e contra a corrupção. “Decidimos, democraticamente, por voto direto, construir um movimento apartidário, e vamos cumprir com esse compromisso”, esclareceu Daniella.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que mobilizou representantes de todos os estados para prestigiar a marcha, concorda com a decisão do movimento de se manter distante dos partidos.
“Os advogados estão aqui abraçando essa causa porque não têm rabo preso com partidos políticos. Desafio as entidades representativas dos magistrados e do Ministério Público a virem aqui, defender abertamente o combate à corrupção”, provocou o presidente da OAB, Ophir Cavalcanti.
Além da OAB, outras entidades mais tradicionais têm se aproximado do movimento. É o caso da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e do Movimento Contra a Corrupção Eleitoral (MCCE), que tiveram membros no ato.
“Nós iniciamos a luta pela aprovação da Lei da ficha Limpa, que depois mobilizou toda a sociedade. Agora, contamos com vocês para garantir que ela seja julgada constitucional pelo STF”, disse a coordenadora nacional do MCCE, Jovita José Rosa.
O Sindicato dos Servidores da Câmara, Senado e Tribunal de Contas da União (TCU) também mandou representantes à marcha para deixar claro que os trabalhadores também não aprovam a conduta antiética dos chefes.
Militantes da Associação Nacional dos Estudantes Livre (Anel) também participaram do protesto para cobrar a aplicação de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) na educação, assunto que está em discussão no Congresso – a proposta do governo eleva de 5% para 7% o investimento em educação até 2020.
Filiada à central sindical Conlutas, a Anel é uma dissidência da União Nacional dos Estudantes (UNE), criticada pelos organizadores por não comparecer à marcha.
Militantes do movimento gay também empunharam suas bandeiras durante a passeata. “A corrupção e o desvio dos recursos públicos também impede a implantação de políticas públicas LGBT que possam valorizar essa parcela da população”, justificou Cristiano Lucas Ferreira, do Movimento Revolucionário Triângulo Rosa.
Leia Mais em www.cartamaior.com.br:
Novas marchas testam força de movimentos anticorrupção
Marcha contra corrupção acerta Globo, CBF, Sarney, Roriz, Justiça...
Dos parlamentares, exigiram o fim do voto secreto na Câmara e no Senado. Do STF, cobraram que declare a constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa e que não casse poderes investigatórios do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Pouco se viu ou se escutou sobre o governo, que ao ter ministros acusados de corrupção, havia sido um dos combustíveis da passeata anterior.
Com a maioria vestida de preto e rosto pintado de verde e amarelo, muitos a carregar artificiais pizzas gigantes, vassouras e faixas, os manifestantes atravessaram a Esplanada recolhendo assinaturas para um abaixo-assinado cobrando a instalação, no Congresso, de uma CPI da Corrupção.
“Não queremos apenas fazer barulho. Queremos realmente mudar o país”, afirma a corretora de imóveis Daniella Kalil, uma das fundadoras do movimento que, embora ainda não esteja institucionalizado, já foi batizado de Movimento Contra a Corrupção (MCC).
Os personagens
Patrícia Kohlreusch e o marido Bernardo Falcão receberam o convite para ir ao evento por meio do Facebook, pelo qual 18 mil pessoas haviam confirmado presença até a véspera. Decidiram não só comparecer, mas também levar os filhos Bernardo, 6 anos, e Izabele, 9 anos. “Estamos lutando justamente para que eles possam viver em um país melhor. Por isso, é importante que eles também participem”, explicou a mãe.
A estudante Juliana Silva, 18 anos, estava um pouco decepcionada com a queda no número de participantes em relação à marcha de cinco semanas atrás. “Eu sei que muita gente está viajando, mas esperava que a mobilização aumentasse ou, pelo menos, se mantivesse”, observou. Para ela, a geração atual é muito acomodada. “Precisamos resgatar os cara-pintada e mudar esse estado de coisas”.
No ato anterior, que coincidira com o Dia da Independência, tinha sido mais difícil dimensionar quem fora à Esplanada só para protestar. Muita gente que havia assistido à parada militar na mesma avenida, mas no sentido oposto, pulara de um evento ao outro.
Naquela ocasião, a marcha tivera 26 mil confirmações pelo Facebook e iniciara com duas mil. O público oficial informado pela polícia sobre a passeata foi entre 30 mil e 40 mil pessoas, mesma platéia estimada para o desfile militar, que fora recorde.
A marcha desta quarta-feira começou com 10 mil pessoas, também de acordo com a polícia. Entre elas, o militar Vinicius Vieira, de 20 anos, que participou de patins. “Vim acompanhar uma amiga e decidi aproveitar para me exercitar”, disse.
Não foi o único. Muitos ciclistas, skatistas e patinadores cruzavam a Esplanada em apoio ao protesto. Os próprios organizadores se utilizavam de patins, skates e bicicletas para controlar o andamento da marcha, parecido com uma desfile de escola de samba. Segundo a PM, não foi registrado nenhum incidente durante os cerca de 3,5 Km de percurso.
Apartidarismo e diversidade
A exemplo do que ocorrera da outra vez, os organizadores não permitiram a participação de partidos. Não autorizaram sequer a presença de bandeiras. O movimento só aceita apoios individuais de políticos com algum histórico na luta pela democracia e contra a corrupção. “Decidimos, democraticamente, por voto direto, construir um movimento apartidário, e vamos cumprir com esse compromisso”, esclareceu Daniella.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que mobilizou representantes de todos os estados para prestigiar a marcha, concorda com a decisão do movimento de se manter distante dos partidos.
“Os advogados estão aqui abraçando essa causa porque não têm rabo preso com partidos políticos. Desafio as entidades representativas dos magistrados e do Ministério Público a virem aqui, defender abertamente o combate à corrupção”, provocou o presidente da OAB, Ophir Cavalcanti.
Além da OAB, outras entidades mais tradicionais têm se aproximado do movimento. É o caso da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e do Movimento Contra a Corrupção Eleitoral (MCCE), que tiveram membros no ato.
“Nós iniciamos a luta pela aprovação da Lei da ficha Limpa, que depois mobilizou toda a sociedade. Agora, contamos com vocês para garantir que ela seja julgada constitucional pelo STF”, disse a coordenadora nacional do MCCE, Jovita José Rosa.
O Sindicato dos Servidores da Câmara, Senado e Tribunal de Contas da União (TCU) também mandou representantes à marcha para deixar claro que os trabalhadores também não aprovam a conduta antiética dos chefes.
Militantes da Associação Nacional dos Estudantes Livre (Anel) também participaram do protesto para cobrar a aplicação de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) na educação, assunto que está em discussão no Congresso – a proposta do governo eleva de 5% para 7% o investimento em educação até 2020.
Filiada à central sindical Conlutas, a Anel é uma dissidência da União Nacional dos Estudantes (UNE), criticada pelos organizadores por não comparecer à marcha.
Militantes do movimento gay também empunharam suas bandeiras durante a passeata. “A corrupção e o desvio dos recursos públicos também impede a implantação de políticas públicas LGBT que possam valorizar essa parcela da população”, justificou Cristiano Lucas Ferreira, do Movimento Revolucionário Triângulo Rosa.
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Fotos: Valter Campanato/ABr Envie para um amigo
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Zizek: o casamento entre democracia e capitalismo acabou
O filósofo e escritor esloveno Slavoj Zizek visitou a acampamento do movimento Ocupar Wall Street, no parque Zuccotti, em Nova York e falou aos manifestantes. “Estamos testemunhando como o sistema está se autodestruindo. "Quando criticarem o capitalismo, não se deixem chantagear pelos que vos acusam de ser contra a democracia. O casamento entre a democracia e o capitalismo acabou". Leia a íntegra do pronunciamento de Zizek.
Slavoj Zizek
Durante o crash financeiro de 2008, foi destruída mais propriedade privada, ganha com dificuldades, do que se todos nós aqui estivéssemos a destruí-la dia e noite durante semanas. Dizem que somos sonhadores, mas os verdadeiros sonhadores são aqueles que pensam que as coisas podem continuar indefinidamente da mesma forma.
Não somos sonhadores. Somos o despertar de um sonho que está se transformando num pesadelo. Não estamos destruindo coisa alguma. Estamos apenas testemunhando como o sistema está se autodestruindo.
Todos conhecemos a cena clássica do desenho animado: o coiote chega à beira do precipício, e continua a andar, ignorando o fato de que não há nada por baixo dele. Somente quando olha para baixo e toma consciência de que não há nada, cai. É isto que estamos fazendo aqui.
Estamos a dizer aos rapazes de Wall Street: “hey, olhem para baixo!”
Em abril de 2011, o governo chinês proibiu, na TV, nos filmes e em romances, todas as histórias que falassem em realidade alternativa ou viagens no tempo. É um bom sinal para a China. Significa que as pessoas ainda sonham com alternativas, e por isso é preciso proibir este sonho. Aqui, não pensamos em proibições. Porque o sistema dominante tem oprimido até a nossa capacidade de sonhar.
Vejam os filmes a que assistimos o tempo todo. É fácil imaginar o fim do mundo, um asteróide destruir toda a vida e assim por diante. Mas não se pode imaginar o fim do capitalismo. O que estamos, então, a fazer aqui?
Deixem-me contar uma piada maravilhosa dos velhos tempos comunistas. Um fulano da Alemanha Oriental foi mandado para trabalhar na Sibéria. Ele sabia que o seu correio seria lido pelos censores, por isso disse aos amigos: “Vamos estabelecer um código. Se receberem uma carta minha escrita em tinta azul, será verdade o que estiver escrito; se estiver escrita em tinta vermelha, será falso”. Passado um mês, os amigos recebem uma primeira carta toda escrita em tinta azul. Dizia: “Tudo é maravilhoso aqui, as lojas estão cheias de boa comida, os cinemas exibem bons filmes do ocidente, os apartamentos são grandes e luxuosos, a única coisa que não se consegue comprar é tinta vermelha.”
É assim que vivemos – temos todas as liberdades que queremos, mas falta-nos a tinta vermelha, a linguagem para articular a nossa ausência de liberdade. A forma como nos ensinam a falar sobre a guerra, a liberdade, o terrorismo e assim por diante, falsifica a liberdade. E é isso que estamos a fazer aqui: dando tinta vermelha a todos nós.
Existe um perigo. Não nos apaixonemos por nós mesmos. É bom estar aqui, mas lembrem-se, os carnavais são baratos. O que importa é o dia seguinte, quando voltamos à vida normal. Haverá então novas oportunidades? Não quero que se lembrem destes dias assim: “Meu deus, como éramos jovens e foi lindo”.
Lembrem-se que a nossa mensagem principal é: temos de pensar em alternativas. A regra quebrou-se. Não vivemos no melhor mundo possível, mas há um longo caminho pela frente – estamos confrontados com questões realmente difíceis. Sabemos o que não queremos. Mas o que queremos? Que organização social pode substituir o capitalismo? Que tipo de novos líderes queremos?
Lembrem-se, o problema não é a corrupção ou a ganância, o problema é o sistema. Tenham cuidado, não só com os inimigos, mas também com os falsos amigos que já estão trabalhando para diluir este processo, do mesmo modo que quando se toma café sem cafeína, cerveja sem álcool, sorvete sem gordura.
Vão tentar transformar isso num protesto moral sem coração, um processo descafeinado. Mas o motivo de estarmos aqui é que já estamos fartos de um mundo onde se reciclam latas de coca-cola ou se toma um cappuccino italiano no Starbucks, para depois dar 1% às crianças que passam fome e fazer-nos sentir bem com isso. Depois de fazer outsourcing ao trabalho e à tortura, depois de as agências matrimoniais fazerem outsourcing da nossa vida amorosa, permitimos que até o nosso envolvimento político seja alvo de outsourcing. Queremos ele de volta.
Não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que entrou em colapso em 1990. Lembrem-se que hoje os comunistas são os capitalistas mais eficientes e implacáveis. Na China de hoje, temos um capitalismo que é ainda mais dinâmico do que o vosso capitalismo americano. Mas ele não precisa de democracia. O que significa que, quando criticarem o capitalismo, não se deixem chantagear pelos que vos acusam de ser contra a democracia. O casamento entre a democracia e o capitalismo acabou.
A mudança é possível. O que é que consideramos possível hoje? Basta seguir os meios de comunicação. Por um lado, na tecnologia e na sexualidade tudo parece ser possível. É possível viajar para a lua, tornar-se imortal através da biogenética. Pode-se ter sexo com animais ou qualquer outra coisa. Mas olhem para os terrenos da sociedade e da economia. Nestes, quase tudo é considerado impossível. Querem aumentar um pouco os impostos aos ricos? Eles dizem que é impossível. Perdemos competitividade. Querem mais dinheiro para a saúde? Eles dizem que é impossível, isso significaria um Estado totalitário. Algo tem de estar errado num mundo onde vos prometem ser imortais, mas em que não se pode gastar um pouco mais com cuidados de saúde.
Talvez devêssemos definir as nossas prioridades nesta questão. Não queremos um padrão de vida mais alto – queremos um melhor padrão de vida. O único sentido em que somos comunistas é que nos preocupamos com os bens comuns. Os bens comuns da natureza, os bens comuns do que é privatizado pela propriedade intelectual, os bens comuns da biogenética. Por isto e só por isto devemos lutar.
O comunismo falhou totalmente, mas o problema dos bens comuns permanece. Eles dizem-nos que não somos americanos, mas temos de lembrar uma coisa aos fundamentalistas conservadores, que afirmam que eles é que são realmente americanos. O que é o cristianismo? É o Espírito Santo. O que é o Espírito Santo? É uma comunidade igualitária de crentes que estão ligados pelo amor um pelo outro, e que só têm a sua própria liberdade e responsabilidade para este amor. Neste sentido, o Espírito Santo está aqui, agora, e lá em Wall Street estão os pagãos que adoram ídolos blasfemos.
Por isso, do que precisamos é de paciência. A única coisa que eu temo é que algum dia vamos todos voltar para casa, e vamos voltar a encontrar-nos uma vez por ano, para beber cerveja e recordar nostalgicamente como foi bom o tempo que passámos aqui. Prometam que não vai ser assim. Sabem que muitas vezes as pessoas desejam uma coisa, mas realmente não a querem. Não tenham medo de realmente querer o que desejam. Muito obrigado
Não somos sonhadores. Somos o despertar de um sonho que está se transformando num pesadelo. Não estamos destruindo coisa alguma. Estamos apenas testemunhando como o sistema está se autodestruindo.
Todos conhecemos a cena clássica do desenho animado: o coiote chega à beira do precipício, e continua a andar, ignorando o fato de que não há nada por baixo dele. Somente quando olha para baixo e toma consciência de que não há nada, cai. É isto que estamos fazendo aqui.
Estamos a dizer aos rapazes de Wall Street: “hey, olhem para baixo!”
Em abril de 2011, o governo chinês proibiu, na TV, nos filmes e em romances, todas as histórias que falassem em realidade alternativa ou viagens no tempo. É um bom sinal para a China. Significa que as pessoas ainda sonham com alternativas, e por isso é preciso proibir este sonho. Aqui, não pensamos em proibições. Porque o sistema dominante tem oprimido até a nossa capacidade de sonhar.
Vejam os filmes a que assistimos o tempo todo. É fácil imaginar o fim do mundo, um asteróide destruir toda a vida e assim por diante. Mas não se pode imaginar o fim do capitalismo. O que estamos, então, a fazer aqui?
Deixem-me contar uma piada maravilhosa dos velhos tempos comunistas. Um fulano da Alemanha Oriental foi mandado para trabalhar na Sibéria. Ele sabia que o seu correio seria lido pelos censores, por isso disse aos amigos: “Vamos estabelecer um código. Se receberem uma carta minha escrita em tinta azul, será verdade o que estiver escrito; se estiver escrita em tinta vermelha, será falso”. Passado um mês, os amigos recebem uma primeira carta toda escrita em tinta azul. Dizia: “Tudo é maravilhoso aqui, as lojas estão cheias de boa comida, os cinemas exibem bons filmes do ocidente, os apartamentos são grandes e luxuosos, a única coisa que não se consegue comprar é tinta vermelha.”
É assim que vivemos – temos todas as liberdades que queremos, mas falta-nos a tinta vermelha, a linguagem para articular a nossa ausência de liberdade. A forma como nos ensinam a falar sobre a guerra, a liberdade, o terrorismo e assim por diante, falsifica a liberdade. E é isso que estamos a fazer aqui: dando tinta vermelha a todos nós.
Existe um perigo. Não nos apaixonemos por nós mesmos. É bom estar aqui, mas lembrem-se, os carnavais são baratos. O que importa é o dia seguinte, quando voltamos à vida normal. Haverá então novas oportunidades? Não quero que se lembrem destes dias assim: “Meu deus, como éramos jovens e foi lindo”.
Lembrem-se que a nossa mensagem principal é: temos de pensar em alternativas. A regra quebrou-se. Não vivemos no melhor mundo possível, mas há um longo caminho pela frente – estamos confrontados com questões realmente difíceis. Sabemos o que não queremos. Mas o que queremos? Que organização social pode substituir o capitalismo? Que tipo de novos líderes queremos?
Lembrem-se, o problema não é a corrupção ou a ganância, o problema é o sistema. Tenham cuidado, não só com os inimigos, mas também com os falsos amigos que já estão trabalhando para diluir este processo, do mesmo modo que quando se toma café sem cafeína, cerveja sem álcool, sorvete sem gordura.
Vão tentar transformar isso num protesto moral sem coração, um processo descafeinado. Mas o motivo de estarmos aqui é que já estamos fartos de um mundo onde se reciclam latas de coca-cola ou se toma um cappuccino italiano no Starbucks, para depois dar 1% às crianças que passam fome e fazer-nos sentir bem com isso. Depois de fazer outsourcing ao trabalho e à tortura, depois de as agências matrimoniais fazerem outsourcing da nossa vida amorosa, permitimos que até o nosso envolvimento político seja alvo de outsourcing. Queremos ele de volta.
Não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que entrou em colapso em 1990. Lembrem-se que hoje os comunistas são os capitalistas mais eficientes e implacáveis. Na China de hoje, temos um capitalismo que é ainda mais dinâmico do que o vosso capitalismo americano. Mas ele não precisa de democracia. O que significa que, quando criticarem o capitalismo, não se deixem chantagear pelos que vos acusam de ser contra a democracia. O casamento entre a democracia e o capitalismo acabou.
A mudança é possível. O que é que consideramos possível hoje? Basta seguir os meios de comunicação. Por um lado, na tecnologia e na sexualidade tudo parece ser possível. É possível viajar para a lua, tornar-se imortal através da biogenética. Pode-se ter sexo com animais ou qualquer outra coisa. Mas olhem para os terrenos da sociedade e da economia. Nestes, quase tudo é considerado impossível. Querem aumentar um pouco os impostos aos ricos? Eles dizem que é impossível. Perdemos competitividade. Querem mais dinheiro para a saúde? Eles dizem que é impossível, isso significaria um Estado totalitário. Algo tem de estar errado num mundo onde vos prometem ser imortais, mas em que não se pode gastar um pouco mais com cuidados de saúde.
Talvez devêssemos definir as nossas prioridades nesta questão. Não queremos um padrão de vida mais alto – queremos um melhor padrão de vida. O único sentido em que somos comunistas é que nos preocupamos com os bens comuns. Os bens comuns da natureza, os bens comuns do que é privatizado pela propriedade intelectual, os bens comuns da biogenética. Por isto e só por isto devemos lutar.
O comunismo falhou totalmente, mas o problema dos bens comuns permanece. Eles dizem-nos que não somos americanos, mas temos de lembrar uma coisa aos fundamentalistas conservadores, que afirmam que eles é que são realmente americanos. O que é o cristianismo? É o Espírito Santo. O que é o Espírito Santo? É uma comunidade igualitária de crentes que estão ligados pelo amor um pelo outro, e que só têm a sua própria liberdade e responsabilidade para este amor. Neste sentido, o Espírito Santo está aqui, agora, e lá em Wall Street estão os pagãos que adoram ídolos blasfemos.
Por isso, do que precisamos é de paciência. A única coisa que eu temo é que algum dia vamos todos voltar para casa, e vamos voltar a encontrar-nos uma vez por ano, para beber cerveja e recordar nostalgicamente como foi bom o tempo que passámos aqui. Prometam que não vai ser assim. Sabem que muitas vezes as pessoas desejam uma coisa, mas realmente não a querem. Não tenham medo de realmente querer o que desejam. Muito obrigado
Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net
Nossa fonte: Carta Maior
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